quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Improvável Viagem de Harold Fry

Autor: Rachel Joyce
Edição: 2014/ maio
Páginas: 312
ISBN: 9789720045799
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Para Harold Fry os dias são todos iguais. Nada acontece na pequena aldeia onde vive com a mulher Maureen, que se irrita com quase tudo o que ele faz. Até que uma carta vem mudar tudo: Queenie Hennessy, uma amiga de longa data que não vê há vinte anos, e que está agora doente numa casa de saúde, decide dar notícias. Harold responde-lhe rapidamente e sai para colocar a carta no marco do correio. No entanto, está longe de imaginar que este curto percurso terminará mil quilómetros e 87 dias depois.

E assim começa esta improvável viagem de Harold Fry. Uma viagem que vai alterar a sua vida, que o fará descobrir os seus verdadeiros anseios há tanto adormecidos e sobretudo vai ajudá-lo a exorcizar os seus fantasmas.
Com este seu romance sobre o amor, a amizade e o arrependimento, A improvável viagem de Harold Fry, que recebeu o National Book Ward para primeira obra, Rachel Joyce revela-se uma irresistível contadora de histórias.

A minha opinião:
Não sou de grandes rasgos de inspiração para emitir opiniões sobre o quanto gostei dum romance. Frequentemente, faltam-me as palavras certas para expressar o quão avassalador ou surpreendente foi ler este ou aquele romance. Supostamente, seria mais um romance mediano com uma capa atractiva. No entanto, as personagens Harold e Maureen, são tão grandiosas e genuínas e a história tão simples e eloquente, que fiquei rendida a uma narrativa assim, por palavras belas, sentidas e significativas. 

Não é normal eu colocar uma série de post-its a marcar vários excertos de um livro. Quanto muito, um ou outro. Este, na minha mão, parecia um livro de estudo. O motivo para tanto entusiasmo é a "nudez das palavras"que nos apanha de surpresa como se não tivéssemos roupa vestida. Por exemplo:

"Harold imaginou aquele homem no cais de uma estação, tão elegante naquele fato, com uma aparência tão diferente de todas as outras pessoas. O mesmo aconteceria por certo em toda a Inglaterra. As pessoas iam comprar leite, ou encher os depósitos dos carros ou mesmo põr cartas nos correios. E o que mais ninguém sabia era o aterrador peso daquilo que traziam dentro de si. O esforço inumano que por vezes era necessário fazer para se parecer normal e para executar uma parte das coisas que pareciam simultâneamente fáceis e quotidianas. A solidão que isso implicava. Sentiu-se comovido e como que reduzido à sua humana insignificância."    (pag.92)

"Na cidade, os pensamentos de Harold tinham parado. Agora que estava de volta à imensidão dos campos, de novo entre lugares as imagens corriam livres na sua mente. Ao caminhar, libertava o passado que durante vinte anos procurara evitar, e, agora, esse passado tagarelava e brincava na sua cabeça com uma energia selvagem absolutamente única. Já não via as distancias em temos de quilómetros. Media-as com as suas recordações."                                             (pag. 98) 

"Harold acreditava que, na realidade,  a sua jornada só agora começara. Pensara que tinha começado no instante em que decidira partir para Berwick (...). Os começos podiam acontecer mais do que uma vez ou de diferentes maneiras. Podíamos pensar que estávamos a principiar uma coisa, quando na realidade, estávamos apenas a continuá-la. Enfrentara as suas insuficiências e vencera-as, e, por isso, a verdadeira caminhada só agora começava."             (pag.154)

"Aprendera a verdadeira dimensão das pessoas - afinal, todos éramos pequenas criaturas neste mundo, e era precisamente isso que o deixava maravilhado e a transbordar de ternura. Ah, e também a solidão que ser-se assim, pequeno, acarretava. O mundo era constituído por pessoas que punham um pé em frente do outro; e uma vida podia parecer vulgar apenas porque a pessoa que a vivia, a vivia assim há muito, muito tempo. Harold já não conseguia passar por um desconhecido sem reconhecer a verdade de que todas as pessoas eram iguais, e também únicas; e esse era o dilema do ser humano."                                                                                                      (pag. 156)
   
 E é quanto baste. Um prazer de ler!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

As pessoas Felizes Lêem e Bebem Café

Autor: Agnes Martin-Lugand
Edição: 2014/ maio
Páginas: 208
ISBN: 9789897021077
Editora: Guerra e Paz

Sinopse: 
Depois da morte do marido e da filha num brutal acidente de automóvel, Diane fecha-se em casa durante um ano, imersa em recordações, incapaz de reagir. Mas, quando já nada parece poder mudar, é precisamente uma dessas recordações que a faz escolher Mulranny, uma pequeníssima aldeia na Irlanda, como destino.
Instalada numa casa em frente ao mar, Diane é gentilmente recebida por todos os habitantes - todos menos um. Será Edward, o bruto e antipático vizinho, a resgatar Diane da apatia em que parece estar novamente a mergulhar. Primeiro, pela ira e pelo ódio. Mas depois, contra todas as expectativas, pela atracção. Como enfrentar este turbilhão de sentimentos? O que fazer com eles?

A minha opinião:
Romance que quando se pega não se despega.

Uma daquelas compras por impulso que, como todos sabemos são as melhores. A capa chamou-me a atenção, e desde já devo acrescentar que a Diane que imaginei tem aquele aspecto. A Diane é parisiense. 
O título, extenso, intriga. E surpreende, quando sabemos de que se trata. 

Enquanto decorria a leitura, que durou apenas algumas horas, pensei que se as pessoas felizes lêem e bebem café, (categoria onde me integro), as pessoas infelizes fumam e por vezes, bebem demasiado... para afugentar fantasmas ou sufocar a dor. Não é uma descrição justa, mas adequa-se. Diane e a Edward, vizinhos por um curto período,  no meio do nada, ou melhor uma pequena e acolhedora localidade próxima do mar, na Irlanda, procuravam o isolamento e a privacidade para fazer o Luto. Edward era alto e irascível, tornando-se intimidante, mas isso era algo que Diane não conseguia tolerar e retaliava energicamente. 

Contrariamente ao que que se possa pensar, não é um romance leve, banal ou lamechas. A mágoa, o ressentimento e a perda, sem a contenção que nos exigem os outros, ou a vida mundana, é devastador e extremo e nesse ponto, o ridículo e o caricato também tem lugar. 

Romance equilibrado sobre sentimentos. 
A importância de um bom amigo, como o Félix para um colo quando necessário e uma pequena comunidade, onde alguma pessoas, que sem nada saber ou exigir em troca, ajudam e confortam. O papel dos outros na recuperação de corações partidos.

Maravilhoso.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Bibliotecário

Autor:  A.M. Dean
Edição: 2014/ março
Páginas: 404
ISBN: 9789897241246
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
O Bibliotecário é um romance rico e aliciante, baseado numa pesquisa histórica profunda. A história envolve um dos tesouros da Antiguidade e passa-se numa série de cenários exóticos e marcados pelo mistério, mantendo o suspense até ao último momento.
Uma professora universitária, especialista em história das religiões, sonha com uma vida de aventuras, desconhecendo que o seu desejo está prestes a concretizar-se.

Arno Holmstrand, um reputado académico, deixa um conjunto de pistas à jovem professora momentos antes de ser assassinado. Emily inicia então uma busca tão inesperada quanto perigosa: a localização da biblioteca perdida de Alexandria. Durante sete séculos, o edifício guardou o maior património cultural e científico da Antiguidade. O mundo julga esse tesouro perdido para todo o sempre, mas as evidências levam Emily a questionar a história.
Decifrando as sucessivas pistas deixadas pelo misterioso guardião, Emily lança-se numa corrida contra o tempo para impedir que o paradeiro da biblioteca e a sua preciosa sabedoria caia nas mãos erradas.

A minha opinião:
"A Idade das Trevas pode pertencer ao passado (...) mas as mais obscuras estarão ainda por vir , e chegarão no momento em que ficarmos privados do passado." (pag. 220)

Uma lição de História partindo do desaparecimento da grande Biblioteca Real da Alexandria, um dos grandes mistérios da Antiguidade. Conjugando factos reais com fição, o autor criou uma complexa teia de mistério e suspense, onde toda a ação se passa entre Londres, Alexandria e Istambul.

A informação em si mesma não é perigosa, o que é perigoso é o que fazemos com ela. Por essa razão, o chefe dos Bibliotecários, o Guardião da Biblioteca, tomou a decisão de transferir o imenso espólio que incluía literatura, conhecimentos sobre Estados e governos, bem como avanços científicos e investigação tecnológica para a clandestinidade e formou a Sociedade no início do VII. A organização dos Bibliotecários de Alexandria não era uma simples rede de indivíduos a guardar uma colecção de saber e conhecimento, mas uma das mais antigas e maiores operações de espionagem da história, com um poderoso inimigo na figura do Secretário do Conselho, outra milenar e bem organizada rede de indivíduos que planeiam um terrível golpe sobre o presidente dos Estados Unidos da América.

Uma perseguição implacável à arguta doutora Emily, que espantosamente consegue recursos e energia para prosseguir nesta demanda. Num bom ritmo, esta narrativa empolga mas não convence. Não deixa de ser uma história interessante e envolvente mas fica a faltar algo que lhe dê sustentabilidade na atuação da heroína e dos vilões.  Romance histórico ao estilo de Dan Brown.  

sábado, 14 de junho de 2014

Grace de Mónaco

Subtítulo: Biografia Oficial
Autor:  Jeffrey Robinson
Edição: 2014/ maio
Páginas: 376
ISBN: 9789892325620
Editora: ASA

Sinopse:
Em 1955, Grace Kelly tinha a América a seus pés. Já ganhara um Óscar, era a atriz preferida do grande mestre Hitchcock e uma estrela de Hollywood. Na Europa, o príncipe Rainier, soberano do Principado do Mónaco, era o solteirão mais cobiçado. Conheceram-se rodeados por uma comitiva e expostos aos flashes das câmaras fotográficas. Pouco sabiam um sobre o outro.
O que se seguiu foi um dos romances mais badalados do século XX e um casamento que emocionou o mundo.

O nascimento dos filhos - os príncipes Alberto, Carolina e Stéphanie - teve um impacto mediático sem precedentes. O Mónaco transformou-se no destino de sonho de milhões de pessoas. Foram tempos mágicos, nos quais tudo parecia possível. Mas o conto de fadas teria um fim abrupto. No fatídico dia 13 de setembro de 1982, Grace saiu de casa ao volante de um Rover e sofreu um acidente fatal. Nas colinas de Monte Carlo, morreu uma estrela e nasceu uma lenda.
Numa iniciativa inédita, o príncipe Rainier e os filhos – o príncipe Alberto e as princesas Carolina e Stéphanie – colaboraram na escrita desta biografia. A história de amor entre Rainier e Grace; os anos rebeldes de Carolina e a morte trágica do seu marido, Stefano Casiraghi; o peso da responsabilidade do príncipe Alberto enquanto futuro monarca e a solidão de Stephanie após o acidente que vitimou a mãe, todos os momentos marcantes da Casa Grimaldi são pela primeira vez revelados pela família. Esta é a sua fascinante história.

A minha opinião:
Esta é a biografia oficial que começou a ser escrita em 1989, e contou com a cooperação plena e inédita de quatro pessoas: o príncipe Rainier III, o príncipe Alberto, a princesa Carolina e a princesa Stéphanie, e que assim pretendiam contar a verdade.   

Grace Kelly é uma personalidade incontornável do sec. XX que encarna beleza, glamour e sucesso e foi seguida por milhares de pessoas ao longo da sua vida como atriz e mais tarde, como princesa. Grace era uma pessoa delicada e amável, oriunda de uma família com antecedentes irlandeses e alemães, onde teve uma educação tradicional e rígida, muito ligada ao desporto. Quando casou, ela e Rainier foram protagonistas de um conto de fadas, mais do que governantes de um pequeno país que reabilitaram e em que Grace deu vida à Riviera como um ícone do cinema o poderia fazer com os seus amigos de Hollywood.

Poucos tiveram uma vida tão cheia e encantadora, mas com um final tão triste. Cercados por parasitas, lacaios, oportunistas, alpinistas sociais e patifes, tiveram sérias dificuldades em escolher em quem confiar e amar. Os filhos foram sempre alvo de perseguições intoleráveis pelos paparazzis e muitos escândalos suscitaram, ora fabricados ora imprudentes.  

Numa retrospectiva alargada, o autor não deixa nada por contar. Escrutina tudo, desde os conflitos políticos e económicos do Mónaco, ao convívio social e eventos, e à vida em família. Perfeito! Demasiado para mim, e é isso que torna este livro um tanto excessivo e exaustivo, porque não creio em tanta perfeição e idílio. Sequer acredito ou admiro ícones. Mas, para quem acompanhou a vida e obra de Grace kelly, é um livro a ler.  

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Quando éramos mentirosos

Autor:  E. Lockhart
Edição: 2014/ maio
Páginas: 312
ISBN: 9789892327365
Editora: ASA

Sinopse:
E se alguém lhe perguntar como acabar este livro… MINTA.

A família Sinclair parece perfeita. Ninguém falha, levanta a voz ou cai no ridículo. Os Sinclair são atléticos, atraentes e felizes. A sua fortuna é antiga. Os seus verões são passados numa ilha privada, onde se reúnem todos os anos sem exceção.

É sob o encantamento da ilha que Cadence, a mais jovem herdeira da fortuna familiar, comete um erro: apaixona-se desesperadamente. Cadence é brilhante, mas secretamente frágil e atormentada. Gat é determinado, mas abertamente impetuoso e inconveniente. A relação de ambos põe em causa as rígidas normas do clã. E isso simplesmente não pode acontecer.
Os Sinclair parecem ter tudo. E têm, de facto. Têm segredos. Escondem tragédias. Vivem mentiras. E a maior de todas as mentiras é tão intolerável que não pode ser revelada. Nem mesmo a si.

A minha opinião:
Pode parecer, mas não se trata de um romance comum. Não é mais um conto de encantar. No início, com um capítulo dedicado às boas vindas, é sugerido um romance com uma forte carga dramática, sobre a bela Família Sinclair, onde os quatro mentirosos são os protagonistas - Johnny, Mireen, Cady (primos) e Gat, e assim é. 

Nas primeiras páginas temos um mapa da ilha privada dos Sinclair, o que se revela muito útil para conseguir visualizar o cenário onde a ação se dá, assim como a árvore genealógica da família de modo a não nos perdermos numa estória onde os nomes próprios são uma constante, numa narrativa espartilhada em pequenos capítulos, composto por frases curtas e incisivas. 

O modo como a autora escolheu contar esta estória consegue apanhar o leitor desprevenido. Narrativa singela e inocente que se adensa gradualmente, com detalhes horríveis e contornos sinistros, para um desfecho inesperado e marcante. As notas de imprensa da capa não são mera publicidade. 

Patriarcado manipulador, irmãs inúteis e frustradas que, na rivalidade entre si, perdem o que de mais importante têm, enquanto os jovens perdem a inocência, mas mantêm a amizade que os liga e o amor de Gat e Cadence subsiste para sempre.

Um romance inesquecível.

A Sentinela

Autor:  Richard Zimler
Edição: 2013/ outubro
Páginas: 424
ISBN: 9789720044907
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise em que se encontra o país?
6 de julho de 2012. Henrique Monroe, inspetor-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspetor descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.

Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade.

A minha opinião:
Nunca tinha lido nenhum outro romance de Richard Zimler. Achei que teria a oportunidade de apreciar a sua escrita e a capacidade de conceber uma boa estória através deste livro, mas não antevi, pela sinopse, a intensidade dos meus sentimentos para com esta ficção que retrata uma realidade recente. Violação e abuso de menores, bem como crueldade e violência por parte de quem mais os devia proteger, são temáticas que, mesmo em ficção, evito.

Contudo, esta foi uma leitura apetecível e imparável dada a bem construída trama que vai aumentando em complexidade e ambivalência enquanto novos elementos vão surgindo no decorrer da investigação policial, acompanhada de personagens credíveis e conturbadas que vão ganhando profundidade ao longo da narrativa, em paralelo com um confronto da personagem principal com o passado num crescendo quase intolerável.

Harry e Ernie, dois irmãos inseparáveis, com tanto para contar e superar que vai surgir entre eles uma terceira personagem sempre vigilante - a sentinela Gabriel.

Romance forte e muito bem concebido. Muito bom.