terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lago Perdido

Autor: Sarah Addison Allen
Edição: 2014/ julho
Páginas: 280
ISBN: 9789897261367
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Uma história bela e arrebatadora sobre amores antigos e novos, e o poder das ligações que nos unem para sempre...
A primeira vez que Eby Pim viu Lago Perdido foi num postal. Apenas uma fotografia antiga e algumas palavras num pequeno quadrado de papel pesado, mas quando o viu soube que estava a olhar para o seu futuro.

Isso foi há metade de uma vida. Agora Lago Perdido está prestes a deslizar para o passado de Eby. O seu marido George faleceu há muito tempo. A maior parte da sua exigente família desapareceu. Tudo o que resta é uma velha estância de cabanas outrora encantadoras à beira do lago a sucumbirem ao calor e à humidade do Sul da Georgia, e um grupo de inadaptados fiéis atraídos para Lago Perdido ano após ano pelos seus próprios sonhos e desejos.
É bastante, mas não o suficiente para impedir Eby de abrir mão de Lago Perdido e vendê-lo a um empreiteiro.
Este é por isso o seu último verão no lago… até que uma última oportunidade de reencontrar a família lhe bate à porta.
Lago Perdido é onde Kate Pheris passou o seu último melhor verão com doze anos, antes de aprender o que era a solidão, o desgosto e a perda. Agora está demasiado familiarizada com essas coisas, mas também conhece a esperança, graças à sua filha Devin e à sua própria vontade de começar a avançar. Talvez em Lago Perdido a filha possa agarrar-se à sua infância por mais algum tempo... e talvez a própria Kate possa redescobrir algo que lhe escorregara por entre os dedos há muito tempo.
Uma após outra, as pessoas encontram o seu caminho para Lago Perdido, em busca de algo de que não tinham a certeza de precisar: amor, uma segunda oportunidade, paz, um mistério solucionado, um coração remendado. Conseguirão encontrar aquilo de que precisam antes que seja demasiado tarde?
Simultaneamente atmosférico e encantador, Lago Perdido mostra Sarah Addison Allen no seu melhor, iluminando os anseios secretos e a magia quotidiana que esperam ser descobertos no mais improvável dos lugares.

A minha opinião:
Pelas coisas boas vale a pena esperar. Assim é com os romances desta autora, que tanto me encantou quando estreou o seu Jardim em 2008, e repetiu o feito com o Quarto Mágico.

Encanto e Magia são duas palavras que facilmente associamos aos romances de Sarah Addison Allen. A escrita é maravilhosa e as personagens são ... vou bisar... de encantar. Aparentemente, e as capas não ajudam (desta, não gosto mesmo nada), parecem ser romances levezinhos. Mas, quando iniciamos a leitura ficamos cativos de uma escrita sedutora e rica, e de personagens com tanto de si para dar. Serenidade e paz de espírito é o que sentimos depois. Algumas das personagens permanecem connosco muito depois de terminada a leitura. Devin é a criança que Kate fora, e encarna o espírito do amor que a todos liga nesta trama.

Tal como o título indica, e feitas as apresentações em que conhecemos as personalidades e circunstancias das personagens principais, passamos a acompanhar o regresso ao Lago Perdido, em que tudo acontece. Na beleza e calma daquele espaço recôndito, que tão bem acolheu os habitantes de uma pequena comunidade próxima, vão juntar-se algumas personagens peculiares para desfrutar de um último e memorável verão. Alguma inquietação e ansiedade em torno da venda do Lago Perdido.

Perdas, desencantos, reencontros e recomeços porque:
"Quando o nosso copo está vazio, não nos lamentamos pelo que desapareceu. Porque, se o fizermos, perdemos a oportunidade de o encher outra vez". (pag. 265)

"Eby sabia muito bem que existia uma linha ténue quando se tratava da dor. Se a ignorarmos, ela vai-se embora, mas depois volta sempre quando menos se espera. Se a deixarmos ficar, se lhe arranjarmos um lugar na nossa vida, ela fica demasiado confortável e nunca mais se vai embora, Era melhor tratar a dor como se fosse um hóspede. Aceitamo-la, servimo-la e depois mandamo-a seguir o seu caminho." (pag. 147/8)

sábado, 23 de agosto de 2014

Estou Nua e Agora?

Subtítulo: 1 ano, 7 continentes, uma aventura inesquecível
Autor: Francisco Salgueiro
Edição: 2014/ maio
Páginas: 328
ISBN: 9789897411595
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Quantas vezes acordamos com vontade de mudar de vida? Deixar para trás os mesmos lugares, as mesmas pessoas, a relação que não vai dar a lado nenhum?
Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo.

Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos – até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas – tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?
Um convite aos adolescentes e jovens adultos a tomarem as rédeas da sua vida e a partirem à descoberta do mundo!

A minha opinião:
Seis continentes para onde ir. Em cada local, uma cultura diferente para descobrir, e é preciso abertura de espírito para receber o que há para oferecer. A maioria das pessoas que viaja em Couchsurfing procura um propósito na vida ou foge de algo. Esta é história de Alex que escolhe incerteza em vez de infelicidade, e narra-nos as suas experiências arrojadas e perigosas nesta nova forma de circular pelo mundo. Afinal, a vida é perigosa. Ainda ninguém sobreviveu a ela. 

Escrito na primeira pessoa, Alex narra gradualmente as suas deambulações e as pessoas com quem se cruzou e que tanto a enriqueceram, quando abandonou um emprego garantido para mudar o seu mundo.

Ler este livro abre os nossos horizontes porque nos permite ver a forma como Alex pensou, sentiu e reagiu a tantas situações, e podemos incorporar em nós aquilo que achamos ser importante. Tal e qual a opinião de Ramon, uma das personagens com quem Alex se cruzou no Cambodja. 

Divertido e inquietante, este é um livro que se lê em poucas horas. Não é uma leitura profunda ou espiritualizada, sequer tem pretensões disso. Alex é demasiado terra-a-terra e a linguagem é corrente e fluída. Um livro para mentes aventureiras.

Uma amizade com o autor, que resultou neste livro. Um amor em Portugal. Ler breves passagens sobre a vivência no nosso país é sempre um prazer de ler.

Sem elevadas expetativas, este é um livro que recomendo. Proporcionou-me algumas gargalhadas... na Tailândia. Não fazia a mínima ideia do que era um bar de ping-pong por lá. E começar Couchsurfing em casa de Ron e Mike é especial. Nem queiram saber!!!

sábado, 16 de agosto de 2014

Madre Paula

Autor: Patricia Müller
Edição: 2014/ julho
Páginas: 216
ISBN: 9789892327839
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Para o mundo ela era apenas uma freira. Mas para El Rei ela era uma rainha.
Lisboa, início do século XVIII da Graça de El Rei D. João V. Paula, a filha pobre de um ourives, deixa a azáfama das ruas de Lisboa para ingressar no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas. Não é Deus quem a chama, mas sim a necessidade de um pai que já não a pode sustentar. Quis o destino, porém, que aquela rapariga de pé descalço se viesse a tornar na mais conhecida freira da nossa história. E numa das mulheres mais poderosas de um reino que vivia no extravagante esplendor pago com os escravos de África, com o ouro do Brasil…

Madre Paula é a história desse amor proibido, entre o Rei-Sol português, D. João V, e a famigerada freira de Odivelas. Um amor intenso, maior que tudo, que levou o rei a ignorar o bom senso e a tomar a freira como amante, confidente e conselheira. 
D. João V sempre teve uma predileção por mulheres bonitas, mas Paula foi o seu grande amor. Permaneceram juntos, secretamente, mais de uma década, e chegaram a ter um filho. A história entre um dos homens mais poderosos do mundo e a plebeia que a Deus traiu inscreve-se na categoria de mito, mas é bem real, nas páginas do romance de estreia de Patrícia Müller. Juntos enfrentaram intrigas palacianas, a ameaça do castigo divino, o ciúme e os jogos de poder. E a quase tudo resistiram – pois durante uma década, para D. João V, Madre Paula foi a sua única e verdadeira rainha.

A minha opinião:
Possivelmente o melhor romance histórico que já li. Palavras cruas e belas, impregnadas de sentimento, já que de uma amor proibido se trata. O amor entre o rei D. João V e a freira do mosteiro de Odivelas, Paula Tereza da Silva, madre Paula. Esta é também uma fantástica história de amor.

Não sei como Patrícia Müller conseguiu criar duas personagens tão extraordinárias como Soror Paula e D. João V, e dar-lhes vida como se recuássemos alguns séculos e testemunhássemos as escaramuças e os arrojos apaixonados destes dois seres de vincada personalidade e génio tumultuoso que se debatiam e se amavam ferozmente. Uma mulher digna, capaz de actos indignos, para um rei soberbo e homem de muitas mulheres. Seja como for, esta é uma autora que sabe como usar as palavras ao contar uma história que a História não esqueceu.

O livro é apelativo e a sinopse explicita e concisa. Tudo neste romance foi bem conjecturado, e razões de sobra para ser um sucesso. O enquadramento histórico, mesmo para uma leiga como eu, foi objecto de uma sucinta apreciação. 

Desnecessário insistir em elogios sobre um romance que tanta satisfação me deu. Mas atentem neste fragmento retirado das primeiras páginas e saberão o quão promissora pode ser esta leitura. Imaginem a minha surpresa quando descobri que esta era mais uma obra de uma escritora portuguesa. Somos bons, muito bons quando nos propomos ser. A História assim o diz.

“Sei o que me chamam pelas costas: rameira.
Como se os pecados deles fossem diferentes do meu. O meu pecado? Traí Deus com um homem. Um rei. Tivemos um filho, prova viva da minha culpa. Não choro, não me arrependo. Que falem, experimentem viver atrás das grades, reclusos num palácio de ouro. Nascessem pobres, mal tendo o que comer, chegassem a amar a ponto de não poderem saber se estão vivos ou mortos. Saberiam o que é caminhar nos meus sapatos e poderiam ensaiar todos os julgamentos do mundo. Iam dar-se mal.
(…)
Com os anos, a marioneta foi ganhando vida. Conquistou o público e substituiu el-rei, o mestre que a fazia abrir e fechar a boca para falar, abrir e fechar as pernas para dar prazer.
Amor.
E eu sabia que era verdade o que sentia e dizia, mas que a verdade vale no fim muito pouco. O amor não serve se não poder ser vivido por inteiro. E a minha história com João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança, o Magnânimo, o Rei-Sol, o meu sol é uma história incompleta. Interrompida pelo destino divino e pela história de um país.
(…)
Uma plebeia tratada como um princesa. Tive os destinos de uma nação entre os lençóis. 
Apaixonei-me pelo poder e amei o homem por detrás dele.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Estranho Ano de Vanessa M.

Autor: Filipa Fonseca Silva
Edição: 2014/ julho
Páginas: 200
ISBN: 9789722528641
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
Quando entrou no carro naquela tarde de Inverno, Vanessa não sabia que estava a embarcar numa viagem sem retorno. Uma viagem interior, que pôs em causa todas as suas escolhas e, acima de tudo, toda uma vida construída em torno das expectativas e opiniões dos outros.

Entre momentos trágicos e cómicos, que envolvem uma mãe controladora, uma tia hippie, um casamento entediante, um chefe insuportável e uma amiga que não sabe quando se calar, O Estranho ano de Vanessa M. conduz-nos numa viagem de autodescoberta e faz-nos reflectir sobre o sentido da vida e o poder que temos de, a qualquer momento, colocar tudo em questão. Porque a busca da felicidade não tem prazo.
Uma nova voz irrompe na cena literária portuguesa, leve, despretensiosa, crua, divertidíssima e incrivelmente humana.

A minha opinião:
A capa ou o título não captaram a minha atenção. A autora sim, apesar de recear que um segundo romance pudesse ficar aquém do primeiro, mas não desiludiu. Um romance que não quis perder.

Vanessa é uma mulher exasperada com o rumo que a sua vida levou, em muito contrário aos seus desejos. Um tédio insuportável de que tomou consciências nas consultas que frequentava por imposição do tribunal. Atitudes impetuosas como o estranho abandono de Mimi, o desfazer do casamento e a interrupção de uma carreira à qual se tinha dedicado durante dez anos, são as consequências mais visíveis da sua mudança de vida. Um ano a desbravar um novo caminho até à boaventura alcançar. 

Com uma boa noção dos conflitos da geração dos trinta, a autora cria uma ficção bem humorada, critica e mordaz sobre assuntos sérios que, atingem algumas mulheres no seu quotidiano. Uma carreira exigente com um chefe medíocre que brilha com o trabalho dos seus subordinados, um casamento por amor mas demasiado cedo por ceder às vontades alheias, uma filha menor que se culpabiliza por não amar o suficiente e compensa com bens materiais e tantas outras responsabilidades que a deprimem, sem compensações de maior. Um estória que tem tanto de divertido quanto de matéria de reflexão e que se lê sem parar porque a Vanessa no seu bom ritmo não nos dá descanso. 

Narrativa fluída e coloquial, como se a Vanessa interagisse com o leitor e este fosse mais uma personagem com quem partilhava os seus pensamentos e a sua intimidade.

Ressalva: Ainda não percebi a escolha da capa que não me parece adequada ou corresponder ao que li. 

Mais uma vez, uma escritora portuguesa a que me rendi. Uma agradável surpresa que tanto me satisfez. E de boas em boas leituras vou prosseguindo.

Romance em Amesterdão

Autor: Tiago Rebelo
Edição: Mai/2014 (8ª Edição - 1ª na ASA)
Páginas: 288
ISBN: 9789892326214
Editora: ASA

Sinopse:
Quando o amor parecia diluído no tempo, eis que volta a ser vivido no presente. Uma história apaixonante.
Passaram quinze anos desde a última vez em que Mariana e Zé Pedro estiveram juntos - tempo que poderia ter sido suficiente para fazer desmaiar os tons da paixão se os amantes fossem outros, se o sentimento não tivesse calado tão fundo nas suas almas. Mariana imaginara, milhares de vezes, o reencontro; Zé Pedro desesperara por voltar a vê-la. E, sem que nada o fizesse prever, um brevíssimo encontro, numa estação de metro apinhada de gente, vem tornar aqueles quinze anos quase irreais.

Quando tudo parecia ter sido aplacado pelo tempo, quando tudo o que acontecera em Amesterdão parecia confinado ao universo das fantasias românticas e do sonho, eis que o passado ressurge e se impõe, com um ímpeto que os esmaga, que lhes revolve o coração.
Mas peças no tabuleiro do jogo da vida são múltiplas e, não raras vezes, dotadas de vontade própria. A felicidade, alada e colorida, é tão apetecível quanto caprichosa - e sempre imprevisível.

A minha opinião:
Quando escolhi ler este livro, não reparei que a edição original era de 2004, e pensei ao iniciar a leitura que, poderia ser dissuasor por algum desenquadramento. Tal não se verifica, porque os sentimentos não passam de moda ou sofrem alterações significativas com o passar do tempo.

Esta estória é sobre um triângulo amoroso. Nada mais trivial, excepto para os intervenientes em tão delicada situação, como se pode ler nesta narrativa. Os sentimentos de afeto construíram uma relação entre duas pessoas que se afastaram com uma promessa não concretizada alguns anos atrás, mas o confronto entre dois homens apaixonados pela mesma mulher ditou o desfecho. Sentimentos fortes de virilidade ferida. 

Singelo e aprazível, este romance lê-se muito bem e podemos antever o desenrolar dos acontecimentos entre Zé Pedro e Ricardo conhecendo a índole do macho latino. Emoções irreflectidas e fortes sentimentos marcam esta estória, em que todos saíram a perder, mas que no fim, talvez tenham ganho. 

Uma boa leitura de verão. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dizem que Sebastião

Autor: João Rebocho Pais
Edição: 2014/ junho
Páginas: 176
ISBN: 9789724746968
Editora: TEOREMA

Sinopse:
Uma viagem pela cidade de Lisboa na companhia de grandes escritores…

Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing – e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem.
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um romance – divertido, terno e cheio de ironia – sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.

A minha opinião:
"... Sebastião aprendeu a voar." Não foram os pombos que o disseram. É a última sentença do último capítulo deste livro, e não deixa de ser uma boa síntese desta história.

Não é habitual, mas comprei este livro porque a sinopse convenceu-me de que era o tipo de leitura que procurava para aquele momento. As primeiras páginas, agarraram-me à história do Sebastião, um gestor dedicado e empenhado no sucesso e lucro da empresa, como tanto outros que por aí conheço, mas que vivem na solidão e no vazio fora do horário de expediente. Margarida, uma desejável e inteligente mulher, perturba o Sebastião o suficiente para ele sair da sua zona de conforto e ousar um convite, que não poderia ser mais desastroso dada a sua ignorância literária e incapacidade para descobrir assuntos de interesse em comum. Nada como uma mulher para redimensionar o mundo de um homem. Mas não é somente ela, porque vai contar com a colaboração do doutor Boavida, quando sujeito aos seus cuidados após umas palpitações que bem poderiam ser de paixão assolapada mas são um amoque cardíaco e Simplício, o afável e naturalmente simpático livreiro que o orienta na sua redescoberta dos autores clássicos, homenageados e até esquecidos nessa Lisboa, que tantas vezes percorremos apressadamente.

Depois de um interregno irregular na leitura, deparei-me com diálogos telepáticos, que mais não eram do que monólogos do Sebastião com escritores que, anteriormente não fizeram parte da sua vida, mas que nesta nova fase procurou conhecer e incluir, quando percepciona e se insere livremente no ambiente que o rodeia.

Em suma, escrita espirituosa que tanto me apraz, numa narrativa enriquecedora e divertida. Um realce sobre o quanto nos distanciamos do que realmente gostamos e engrandece a nossa vida.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pecadora

Autor: Madeline Hunter
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 328
ISBN: 9789892327884
Editora: ASA

Sinopse:
Ela ditou as suas próprias regras.
Habituada a uma existência pacata, Celia Pennifold vê a sua vida virada do avesso após a morte da mãe, Alessandra Northrope, uma cortesã afamada. Para além de uma pequena casa, a mãe deixou-lhe de herança apenas dívidas e uma reputação manchada.

O destino de Celia já está traçado há muito. Ela foi educada para seguir as pisadas da mãe. Mas Celia é determinada e tem os seus próprios planos… que não incluem, evidentemente, o misterioso inquilino com que se depara ao instalar-se no seu novo lar.
Jonathan Albrighton encontra-se numa missão a mando do tio, pois há suspeitas de que Alessandra possuía informações delicadas sobre alguns dos homens mais influentes da sociedade londrina. Jonathan pensava estar perante uma tarefa simples, não contava encontrar em Celia uma adversária à sua altura…

A minha opinião:
Um romance de época que visa apenas entreter e distrair durante algum tempo. O mais parecido com as histórias de princesas que tanto lemos e ouvimos durante a nossa infância e que tantas ilusões nos criaram, mas agora com um conteúdo mais adulto e ousado, onde não faltam descrições carregadas de sensualidade e erotismo. 

Neste romance, temos duas personagens fortes, inteligentes e belas que foram desfavorecidas pela sorte, como filhos bastardos de um nobre que não os reconheceu. Celia lutou para conhecer a identidade do pai, pois a única herança de que beneficiava era da mãe, afamada cortesã, que lhe ensinou como vencer naquela vida. Um futuro que Célia rejeitava à partida e que se tornou mais sombrio depois de ser arrebatada pelo jogo de sedução de Jonathan. O desfecho só poderia ser feliz. 

Leitura de verão despretensiosa e divertida, considerando os "amigos" de Jonathan. Sem surpresas, uma escrita fluída e bem cadenciada que, com excepção de uma gralha de conteúdo de início, não interrompi.

domingo, 3 de agosto de 2014

Índice Médio de Felicidade

Autor: David Machado
Edição: 2013/ junho
Páginas: 256
ISBN: 9789722052764
Editora: DOM QUIXOTE

Sinopse:
Daniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com as estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem. E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido. 

Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. Dramático e realista, mas com momentos hilariantes, confirma o talento de David Machado como um dos melhores ficcionistas da sua geração.

A minha opinião:
Por muito ler, pensava que conhecia muitos dos bons escritores e os respectivos livros que se encontravam facilmente disponíveis nas livrarias. Como membro da Roda dos Livros, descobri que não poderia estar mais equivocada, e nem ter sido mais presunçosa, porque tanto há para descobrir, principalmente novos e bons autores portugueses. Confesso, com algum embaraço, que ainda não me rendi completamente. Ideias preconcebidas, muito enraizadas, apoiadas em más memórias de alguns clássicos ou conceituados autores que me aborreceram terrivelmente. Ainda assim, são cada vez mais os que ouso ler e aprecio bastante. Índice Médio de Felicidade aguardou muito tempo na estante que o lesse, mas tal como aventaram revelou-se uma leitura actual, pertinente e difícil, pelo muito que em si contem da real conjuntura económica.

Três amigos criaram um site que funcionava como uma rede social, sem sucesso, tal como eles, já que todos se distanciaram dos seus planos. Xavier, deprimida e sombria personagem, tinha um questionário com uma única questão:

- Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?

A partir daqui tudo se complica. Focado na demanda da felicidade como objectivo primordial do ser humano, esta é uma questão abrangente e complexa que envolve tanta informação e emoção, que até para o leitor comum se torna perturbador. Equacionar a vontade de ser feliz e a esperança nos reveses da vida ou da sorte, quando relativizamos tudo, e não aceitamos menos e queremos sempre mais e até mesmo uma profissão nos define, leva a confrontar-nos com as nossas escolhas e valores numa obra de fição muito bem escrita e com um Daniel extraordinário.