quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea

Autor: Romain Puértolas
Edição: 2014/ setembro
Páginas: 208
ISBN: 9789720046925
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a 99,99€ na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião – fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante – e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e, maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço.

No entanto, um batalhão de funcionários da loja, a trabalhar fora de horas, obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.
Trata-se de uma aventura rocambolesca e hilariante passada nos quatro cantos da Europa e na Líbia pós-Kadhafi, uma história de amor efervescente, mas também o reflexo de uma terrível realidade: o combate travado por todos os clandestinos, últimos aventureiros do nosso século.

A minha opinião: 
Uma fantástica viagem que começou em França num armário e passou por Inglaterra, Espanha, Itália e Líbia durante nove dias como clandestino involuntário. Uma viagem interior que nos ensina que é descobrindo outras coisas que nos tornamos diferentes. 

Os encontros que o faquir teve ao sabor dos imprevistos que marcaram o seu périplo com cinco "electrochoques em pleno peito"durante esta aventura, o amor de Marie e a amizade de Sophie, transformaram-no num novo homem. E certamente, transformam o leitor que lê esta genial narrativa, sugestionados à partida por um título longo e estapafúrdio esperam um livro humorístico (tipo banda desenhada em texto) e não um romance bem engendrado, que apesar de divertidíssimo também é critico e fala sobre assuntos muito sérios, como a realidade dos "países ricos" com os imigrantes clandestinos.

Um fragmento adaptado (os tempos dos verbos) reza assim:
"Abandonam tudo para partir para um país onde pensam que os deixam trabalhar e ganhar dinheiro, mesmo que para isso tenham que apanhar merda com as mãos. Tudo o que pedem, desde que os aceitem. Encontrar um trabalho honesto a fim de poderem enviar dinheiro para a família, para a sua gente, para que as crianças não ostentem aqueles ventres dilatados e pesados como bolas de basquete, e ao mesmo tempo tão vazios, para que sobrevivam todos à luz do sol, sem as moscas que se colam aos lábios depois de terem pousado no cu das vacas".

Conto, sátira ou farsa, não sei ... mas impõe alguma reflexão. As metáforas abundam, inclusive com as personagens. 
O faquir indiano, charlatão e vigarista, de turbante branco, alto, seco, com um bigode que lhe atravessa a cara, piercings e cicatrizes é difícil de esquecer e não visualizar sem sorrir. Regenera e torna-se escritor e começa por escrever numa camisa os primeiros capítulos do seu livro. Não é maravilhoso?

Estereótipos cómicos para realçar aspectos críticos na sociedade. Um livro diferente e especial, que merece ser lido.

domingo, 26 de outubro de 2014

A Mulher Silenciosa

Autor: A. S. A. Harrisom
Edição: 2014/ maio
Páginas: 272
ISBN: 9789722352765
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
Jodi Brett e Todd Gilbert vivem juntos há 22 anos, num confortável apartamento em Chicago com vista para o lago. Os dias decorrem numa tranquilidade aparente, à medida que a sua relação se vai lentamente consumindo. Até ao dia em que Jodi fica a saber que Todd tem um relacionamento sério com a filha de um dos seus melhores amigos, Natasha Kovacs. Em estado de negação, Jodi não reage quando Todd lhe diz que vai casar com Natasha ou quando a avisa de que ela terá de abandonar o apartamento onde vivem. Mas este será, para Jodi, um ponto de viragem sem regresso possível.

A Mulher Silenciosa é um romance avassalador, misto de comédia de costumes e thriller psicológico, que nos revela o lado negro do casamento e até onde uma mulher é capaz de ir quando já nada mais tem a perder.

A minha opinião: 
Há livros que nos perseguem. E não sossegamos enquanto não estão na nossa posse. Com este romance foi assim, uma obsessão disparatada que se revelou acertada logo nas primeiras páginas. 

Duas personagens e dois narradores que alternadamente contam a sua versão dos factos. Ele (Todd), e Ela(Jodi), na primeira parte e na segunda apenas Ela, depois de ele já a não a poder contar.

Uma existência aprazível e luxuosa numa relação confortável que durava há vinte e dois anos, sem filhos, que se desmorona sem que nenhum deles o deseje. A leviandade dele com inúmeras traições inconsequentes, que ela procurava ignorar, neste homem de meia idade que procura ultrapassar uma depressão com uma relação mais séria com a filha do melhor amigo de infância e os catapulta para o abismo com uma gravidez.

A autora, já desaparecida, conseguiu capturar nesta narrativa muitas das vicissitudes de uma relação longa e assente em silêncios, em que as personagens têm um passado perturbador mal resolvido.
O que distingue este romance dos demais, é a proximidade com o real, ao dissecar o comportamento de um casal por detrás da fachada. Uma análise psicológica num crescendo de ansiedade para uma leitura participativa, com a empatia ou aversão do leitor.  Ambas as personagens são censuráveis e ambos são perceptíveis. A tolerância e passividade de Jodi, para a fraqueza e cobardia de Todd na dinâmica do casal.  

Bem conseguido primeiro romance, que inquieta e instiga a ler até ao desfecho, tal a intensidade da narrativa.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A vida secreta de Stella Bain

Autor: Anita Shreve
Edição: 2014/ julho
Páginas: 260
ISBN: 9789897241635
Editora: Clube do Autor

Sinopse: 
Um livro sobre a vida, a esperança, as lembranças do passado e a capacidade de construir um futuro contra todas as expectativas.
França, 1916. Uma mulher acorda na cama de um hospital de campanha em Marne, sem qualquer recordação do seu passado ou de como ali chegara. Enverga o uniforme de uma enfermeira voluntária britânica, mas fala com um sotaque americano. O que fará ali, em pleno campo de batalha?

Identificou-se como Stella, mas sente que esse não é o seu verdadeiro nome. De repente, uma palavra incita-a a agir e Stella parte para Londres, onde espera encontrar algumas respostas e abrir as portas para o seu passado.
Com a ajuda de um cirurgião britânico, que a acolhe e se interessa pelo seu caso, vai-se redescobrindo, e as verdades são ao mesmo tempo chocantes e surpreendentes. Ao recuperar a memória, Stella vê-se obrigada a confrontar o passado sombrio da mulher que foi.
Neste envolvente drama, Anita Shreve tece uma apaixonante história acerca do amor e da memória, tendo como pano de fundo uma guerra que devastou milhões de civis e deixou sequelas em todos aqueles que testemunharam os seus horrores.
Um romance histórico inesquecível, sério e surpreendente.

A minha opinião: 
Este romance reconciliou-me com Anita Shreve. "A praia do Destino" foi uma revelação, mas os outros romances que li da autora foram uma desilusão. "A vida secreta de Stella Bain" tem o mesmo cunho do primeiro livro que li (e referi), e por isso, ficará impresso na minha memória. 

Stella Bain é uma mulher forte, determinada e corajosa que enfrenta a morte enquanto condutora de ambulâncias e muito sofrimento e devastação durante a 1º Guerra Mundial como auxiliar de enfermagem. Uma mulher que perdeu a memória e a identidade. Uma mulher coerente com um tempo e um lugar em que o rigor e a rigidez das regras masculinas dava pouca liberdade e espaço às mulheres. 

O passado para explicar o presente da narrativa que decorre no início do Sec. XX. Etna Bliss surge no Almirantado, enquanto os primórdios da psicoterapia começa a lidar com o que sabemos ser o trauma de guerra.

Uma história viciante que se lê de um fôlego. Uma personagem admirável, contida e reservada, mas de uma ética inabalável. Recomeçar e recuperar o que de mais precioso uma mulher pode ter. 

E mais não revelo, porque a descoberta é algo que não se deve perder no desenvolvimento de uma narrativa.

Recomendo sem reversas. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A Fórmula da Saudade

Subtítulo: Podemos fugir dos outros, mas não de nós mesmos
Autor: Daniel Oliveira
Edição: 2014/ outubro
Páginas: 248
ISBN: 9789897411854
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Uma história inspirada em factos reais, com vários elementos autobiográficos ao longo de todo o livro.
A conhecida apresentadora de televisão Camila Vaz vê-se obrigada a fugir de Portugal para atenuar o escândalo provocado pelo lançamento do livro A Persistência da Memória. Quando finalmente decide reaparecer em público, recebe um jornalista num hotel do Rio de Janeiro, no último dia do ano - e rapidamente o encontro se torna um espaço de confissão e sedução, despertando sentimentos e memórias de ambos há muito perdidos no tempo.

A conversa entre os dois trará à superfície a paixão e o ciúme, a inocência e a perversão, a fé e o sexo, levando a que o entrevistador recorde a bela história de amor que lhe corre no sangue - a dos seus avós, Zulmira e Joaquim, que se conhecem na Lisboa dos anos 1950, até que o jovem oficial é enviado para as colónias portuguesas na Índia, onde a tensão social fará com que a sua missão termine em tragédia. O que sucede depois de acontecer o pior? Será possível condensar a saudade numa fórmula universal que descodifique o amor, a morte, a vida? E como é que uma conversa entre um homem e uma mulher se pode tornar uma viagem ao íntimo da alma humana?

A minha opinião:
"Nós estamos permanentemente a conhecer o que acontece e a definir essas imagens por comparação com o conhecimento que já adquirimos, daí que a definição de beleza, inteligência (...) seja sempre uma interpretação nossa, que nos vai estimular consoante a nossa idiossincrasia e o histórico do nosso próprio comportamento."     (pag.59)

Pareceu-me uma metáfora para a abordagem que fazemos a este livro. Consoante o leitor e o seu sentir, esta viagem que a leitura nos proporciona pode ser empolgante e estimulante ou difusa e insatisfatória.  Pela minha parte, tenho um mix dos dois. 
Nota-se, que é inspirada em factos reais, e que muito do autor  foi transferido para o narrador nesta entrevista a Camila. A sua faceta de entrevistador, com perguntas sustentadas não apenas na pesquisa ou interesse, mas também na sua sensibilidade e historia, no que que procura desvendar Camila. Uma mulher bela, madura, sofisticada e  inteligentíssima, que desconcerta por vezes o entrevistador. E o leitor. 
Um jogo de sedução em que se fala de sentimentos e relacionamentos. Muitas são as definições apresentadas, que nos fazem abrandar a leitura e refletir. Ainda assim, houve momentos em que me pareceu que faltou alma na narrativa. Uma percepção difícil de definir por palavras. 

Aproximadamente a meio do livro, surge a história de amor dos avós do narrador como prova concreta de que que o amor pode transformar.   

"- A saudade doí?" - Questionei.o.
"- É a mãe de todas as dores. É uma falta de nós, uma incompletude de nós mesmos. A saudade é a inconsequência da vida, é a frustração, o não ter tamanho suficiente para se chegar aonde se quer, é não ser bom o suficiente para ter tudo o que se merece, não ter a glória da satisfação permanente. É não conseguir. Saudade é o que somos, mais do que aquilo que fomos."   (pag. 90)

sábado, 18 de outubro de 2014

Em Segredo

Autor: Catherine McKenzie
Edição: 2014/ julho
Páginas: 304
ISBN: 9789898626516
Editora: Topseller

Sinopse: 
Será que conhece a pesoa que ama?
Ao regressar a casa, vindo do trabalho, Jeff Manning é atropelado por um carro e morre. Duas mulheres ficam desfeitas perante a notícia: a sua esposa, Claire, e uma colega de trabalho, Tish. 
Destroçada com a sua perda, Claire tem sobre os ombros o dever de confortar o filho, e ainda de lidar com os preparativos para o funeral e com a chegada do irmão de Jeff, com quem namorara anos antes.
Tish, por seu lado, voluntaria-se para estar presente no velório em nome da empresa, mas apenas ela sabe a dor que realmente sente. 

Contada através das vozes de três pessoas, Jeff, Tish e Claire, a narrativa de Em Segredo explora a complexidade das relações, as repercussões das nossas escolhas individuais e a responsabilidade que temos perante aqueles que amamos.

A minha opinião: 
Não há "meias palavras" para expressar a minha opinião sobre este livro. 
Normalmente, por respeito a quem o apreciou, tento suavizar a minha opinião quando negativa, mas essa vontade revela-se dificultada com este romance. Promissor, mas muito aquém das expetativas. Nem as personagens ou a narrativa cativam o leitor.  

Três narradores para um triângulo amoroso. As suas vidas durante um curto período exaustivamente analisadas, com diálogos pormenorizados e sem grande relevância, para personagens com pouco encanto ou carisma. A morte de um dos narradores e uma das principais personagens, é possivelmente o ponto mais alto da trama. 

Até meio do livro, consegui ler com algum empenho, depois, gradualmente fui desistindo, até terminar a leitura, como direi ... em diagonal. 

Enfim! Não recomendo!

domingo, 12 de outubro de 2014

O Primeiro Marido

Autor: Laura Dave
Edição: 2014/ abril
Páginas: 256
ISBN: 9789898626363
Editora: Topseller

Sinopse: 
Se o amor da tua vida te deixasse, o que farias?
Uma história romântica e divertida sobre uma mulher dividida entre o seu marido e o homem com quem ela julgava que se ia casar.
Annie Adams está a alguns dias de celebrar o seu 32.º aniversário e pensa que encontrou, finalmente, a felicidade. Jornalista, escreve uma coluna semanal sobre viagens e passa a vida a explorar os lugares mais exóticos e interessantes do mundo. Vive em Los Angeles com Nick, o namorado com quem já pensa casar, numa relação aparentemente feliz que já conta com cinco anos. Quando Nick chega um dia a casa e a informa de que, «segundo a terapeuta», talvez precisem de «um tempo», Annie fica destroçada.

Perdida num turbilhão de sentimentos, Annie acaba por conhecer Griffin, um charmoso chef, que de imediato a conquista. E em apenas três meses, Annie dá por si casada e a reconstruir a sua vida numa zona rural do Massachusetts. Mas quando Nick lhe pede uma segunda oportunidade, Annie fica dividida entre o seu marido e o homem com quem ela sente que deveria ter casado.

A minha opinião: 
Irónico e imensamente divertido. A aventura de uma vida para a escritora de viagens Annie Adams.

Sempre procuramos coisas que nos façam sentir bem. A procura pode ser o mais longe que se consegue. Até se pode transformar isso numa carreira. E podemos passar o resto da vida a tentar. Até encontrarmos o lugar a que pertencemos e de onde não se quer fugir. Tem tudo a ver com a pessoa que está ao nosso lado.

Tão simples e tão eficaz. Assim é este enredo. Simples! 
E delicioso! 
A supersticiosa Annie que sempre que vê o filme "Férias em Roma" com Audrey Hepburn, se consola com a possibilidade de encontrar o tipo de romance idílico das personagens e não as tragédias com que se depara depois. O fim de uma relação de cinco anos, nenhuma viagem de jeito, um despedimento e um pedido de casamento tardio. Nenhum futuro aparente numa cidade pequena, fria e ventosa. Onde tinha um cunhado louco e uma casa preenchida com dois gémeos cheios de saudades da mãe e quinhentas fotografias arruinadas. Onde o marido tinha uma linda e simpática ex-namorada, uma mãe que não gostava dela e um restaurante sem nome. Um lugar onde conseguia ouvir todos os seus medos. Um sentimento crescente de liberdade para descobrir aquilo que pode ser e alguém que a ame por aquilo que é.

Relacionamentos e escolhas. Fracassos e vitórias. Erros com que se aprende. Sempre com um sorriso. 
Jovial e Romântico. Odiei a capa deste livro mas adorei lê-lo. Um perfeito livro para um dia de chuva. 

sábado, 11 de outubro de 2014

Para Sempre

Autor: Judith McNaught
Edição: 2014/ setembro
Páginas: 448
ISBN: 9789892328317
Editora: ASA

Sinopse: 
A vida muda num segundo.
Victoria Seaton cruzou um oceano. Para trás, deixou tudo o que amava. A sua cidade, Nova Iorque. Andrew, o homem dos seus sonhos. E a casa onde nasceu, agora tristemente vazia após a morte súbita dos pais. 
Órfã e desamparada, Victoria não tem outra solução que não rumar ao desconhecido. A Inglaterra, um país que nunca visitou. Aos aristocráticos Fielding, uma família que nunca viu e à qual pertence apenas no papel. A uma herança que não sabia existir.

O seu único conforto é a sua irmã Dorothy, a quem protege fingindo ser a mulher corajosa que, intimamente, teme não ser. A alta sociedade britânica rapidamente a põe à prova com as suas regras rígidas, tão diferentes dos modos calorosos e simples do seu país natal. Igualmente impenetráveis são as reacções da família. Quando conhece a avó - a duquesa de Claremont - Victoria não percebe o porquê do seu olhar venenoso e a sua obstinação em acolher apenas Dorothy. As irmãs acabam por ser separadas e Victoria fica à mercê do jovem lorde Jason Fielding, seu primo afastado. Jason é um homem frio, sensual e implacável. Nos salões da moda, é o alvo de todas as atenções, a chama que atrai homens e mulheres, o "felino selvagem entre gatinhos domésticos". Ele permanece um mistério aos olhos de Victoria, que recusa submeter-se às suas ordens ríspidas. Por seu lado, Jason não sabe como reagir ao temperamento explosivo da jovem americana. A relação de ambos é tão excitante quanto impossível. Sobre ela paira - negra e omnipresente - a sombra do passado com os seus mistérios, segredos e crimes…

A minha opinião: 
Um romance clássico, de fácil leitura, apesar das quase quatrocentos e quarenta páginas de história. 

Uma das características da maioria dos romances de época que li, e que os torna muito semelhantes entre si, mas também adequados para determinados momentos em que se pretende relaxar e vaguear sem pensar, é possuírem um enredo focado em personagens fascinantes e carismáticas, privilegiadas, envolvidas numa paixão com muitos capítulos, que tem um derradeiro final feliz, contada por uma maga da escrita. As personagens secundárias tem o papel assegurado como vilãs ou gentis cavalheiros ou perfeitas damas. 
Um regresso ao passado, na trama e por vezes na vivência da leitora (como é o meu caso), que mergulho num tempo de inocência e devaneio com um romance de encantar. 

Escrita fluída e ritmada, que arrebata as mais românticas e sonhadoras, com a história da pobre, desamparada, corajosa, hábil e lindíssima jovem que vai apaixonar-se pelo viril, belo e temido protector, "sobrinho" do primo que a acolhe quando órfã. Muitas peripécias e muitos confrontos. Jason é um homem marcado por um passado sofrido que o levou ao sucesso e à fortuna, mas relutante em ceder ao amor.

Um livro que nos dá exatamente o que esperamos.

domingo, 5 de outubro de 2014

A mulher de Cabelos Loiros e o Homem do Chapéu

Autor: Deborah McKinlay
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 240
ISBN: 9789892328003
Editora: ASA

Sinopse: 
Tudo começa com uma carta.
Eve Petworth escreve-a com o objetivo de felicitar um dos seus escritores favoritos. 
Jackson Cooper lê-a e, embora tenha tudo o que um escritor de fama mundial possa desejar, sente uma ligação imediata com a sua autora. Algo que, percebe então, o sucesso e o dinheiro não compram. 
Não se conhecem pessoalmente e têm pouco – ou mesmo nada – em comum.

Eve é inglesa e vive voluntariamente enclausurada em casa. O mundo fora de portas angustia-a. As relações sociais paralisam-na. É uma romântica que se condenou à solidão. 
Jackson é americano e vive rodeado de pessoas, principalmente mulheres. Mas ninguém consegue ajudá-lo a ultrapassar o bloqueio criativo que o atormenta secretamente. É um artista sem rumo. 
Em jeito de evasão, Jackson transfere o seu impulso criativo para a cozinha. Infelizmente, a sua nova namorada é vegetariana e pouco dada a devaneios gastronómicos. Essa é uma lacuna que Eve está mais do que habilitada a preencher, dada a energia que dedica às mais delicadas e complexas iguarias. E quando trocam receitas e segredos culinários, a distância entre ambos quase se extingue. Uma distância que é simultaneamente reconfortante (para Eve) e tentadora (para Jackson). 
O escritor está disposto a arriscar quebrar a magia que esta improvável amizade trouxe à sua vida e propõe um encontro na cidade mais gourmet do mundo: Paris.
Não podia saber que a ansiedade patológica de Eve torna esse sonho impossível...

A minha opinião: 
Uma histórira que nos é contada com tal delicadeza, que damos por nós atentos a duas personagens em dois pontos distintos do globo terreste com uma atração comum... por comida. Não por gula, mas requinte e sofisticação de duas almas gémeas que nada sabem uma da outra, e que retiram prazer no ato de preparar saborosos pratos, que degustam deliciados e partilham um com o outro.

O tipo de envolvência que confundimos com ligeireza ou leveza, num enredo que convida a uma leitura serena.  

"Uma leitura que se abranda, de propósito, para apreciar a escrita, o humor nas frases breves, as descrições evocativas das refeições e dos cenários. (...) Um livro que nos faz sentir a solidão que estava subjacente na história que saía das páginas."  

O titulo intriga por parecer inusitado e nada revelar. A imagem da dama da capa transporta-nos para o passado e a sinopse convida à leitura para quem tem esse vício. Quem resiste a um platónico contacto com o seu escritor favorito iniciado por carta?! As palavras certas para um escritor bloqueado e desencantado, de uma admiradora com um outro tipo de bloqueio, resultado de carregar um fardo demasiado pesado durante muito tempo. Um fardo que a progenitora lhe colocara em cima sem contemplações. Um ímpeto de momento de profundo prazer levaram-na a escrever uma breve missiva, que desencadeou uma intensa correspondência entre ambos. 

Um livro que consegue fazer o que as boas histórias sempre conseguem: fazer-nos esquecer de nós.

sábado, 4 de outubro de 2014

Viagem ao Fim do Coração

Autor: Ana Casaca
Edição: 2014/ setembro
Páginas: 328
ISBN: 9789897021152
Editora: Guerra & Paz

Sinopse: 
Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.

Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações. 
"Viagem ao Fim do Coração" é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.

A minha opinião: 
Há livros que nos tocam de uma maneira única. Este é demasiado real, ou não fosse inspirado numa história verídica. Talvez por isso, cria uma ligação com o leitor, que fica a pensar na personagem e nas suas circunstâncias, mesmo quando não está debruçado sobre as páginas do livro. Mesmo depois de o terminar, não quer ler sobre qualquer outra pessoa.

Neste romance, o que me chamou de imediato a atenção foi quem o escreveu - Ana Casaca. E logo decidi que tinha de o ler, antes de o virar para ler a sinopse. Depois, vacilei na minha determinação. Aprecio a capacidade criativa e mestria da escrita da autora, ao captar sentimentos e emoções por palavras pungentes e sinceras, lindas e comoventes, mas nesta narrativa, isso seria avassalador para mim.

Luisa é uma personagem excecional, inspirada em Rita, uma jovem brilhante que se deslocava para os tratamentos de bicicleta e encarava a sua doença de frente, conversando sem pudor, sobre os seus medos e as suas dúvidas. Sem lamechices e pieguices, este é um romance forte e pragmático, que tem o amor como o elo vital entre todas as personagens que alternadamente tem voz nesta narrativa. O amor filial do Tiago em oposição ao desamor filial de Luísa e Pedro, ou o amor fraternal entre Luísa e Pedro, bem como o profundo e verdadeiro amor entre Tiago e Luísa.

Talento em contar uma história. E que história! Uma história que não podia perder. Obrigado Cristina.