domingo, 22 de fevereiro de 2015

A caminho de casa


 Autor: Fabio Volo
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 304
ISBN: 9789722353595
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
A Caminho de Casa conta a história de dois irmãos que são o oposto um do outro. Andrea é engenheiro, responsável, tem um casamento perfeito e o dom de fazer sempre as escolhas certas. Marco, três anos mais novo, é dono de um restaurante em Londres, rebelde, instável e um mulherengo inveterado. Nunca se sentiram íntimos na sua relação, mas a súbita doença do pai irá aproximá-los e fazê-los compreender muita coisa sobre si próprios e sobre a família. 

Um romance que atesta a maturidade de Fabio Volo como escritor e que nos fala de temas universais como: o amor, a paixão, o casamento, a amizade, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer, e a extrema importância dos afetos na passagem para a vida adulta.

A minha opinião: 
Não foi um livro que me cativasse de imediato como eu supus quando o pedi emprestado a uma boa amiga. Demorei a compreender as personagens e as suas motivações. As personagens, dois irmãos que pouco se viam e quando se falavam era acerca do pai em telefonemas breves e formais. Dois homens muito diferentes que não tinham conseguido ter uma relação mais intima, fraterna. Uma relação de cumplicidade familiar. Andrea e Marco não tinham rancores ou grandes questões por resolver mas quando o pai os impediu de questionar a doença da mãe na tentativa vá de os proteger, piorou tudo porque aumentaram os medos e conflitos interiores de cada um.  Desde a morte da mãe, o pai tentou proteger os seus filhos de tudo, mas falhou porque não os conseguiu proteger da própria infelicidade.   
Nesta fase, aproximadamente na pag. 70, o livro prendeu-me com a densidade das personagens enredadas em conflitos banais que se resolviam por dialogo, como se isso fosse fácil e simples de ultrapassar na medida em que ambos conseguiam perceber as limitações um do outro.  

Para alem de tudo isto, as turbulentas relações afetivas de cada um dos irmãos que não superaram os seus receios e bloqueios. Andrea casado e infeliz, sem filhos e Marco livre e desimpedido em amizades coloridas que surgiam por coincidência ou por solidão mas preso a um amor correspondido da juventude que nunca quis assumir e que evoluísse.   

Novamente a doença os vai sujeitar a alterarem as suas vidas criando uma brecha nas fortalezas que criaram em torno dos seus sentimentos. Confrontos e alguma argumentação revelam muito do que não sabiam a respeito um do outro e de si mesmos. Uma surpresa final vai fechar um capitulo e retomarem o fio condutor das suas vidas.  

Um romance terno e compassivo que numa linguagem direta e despretensiosa procura alcançar o leitor numa historia tão simples como a vida. Especial dependendo do estado de espírito e vivências do leitor.  

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Prazer

Autor: Nicole Jordan
Serie: Notorious (Vol. 5)
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 368
ISBN: 9789897261619
Editora: Quinta Essência

Sinopse: 
O verdadeiro amor é o maior de todos os prazeres…
Jeremy Dare North, marquês de Wolverton, é um espião e um libertino. Frio e calculista, no passado tinha sido um jovem apaixonado, disposto a fugir e a deixar tudo pela sua amada. Mas a traição desta levou-o a alistar-se no exército e a fechar para sempre o seu coração. 
Anos mais tarde, quando a traição ameaça a Coroa, Dare vê-se forçado a recrutar Julienne, o seu primeiro e único amor, para o ajudar a desmascarar um traidor mortífero.

Forçada a trair o único homem que amou, Julienne quer apenas esquecer a terna paixão que ambos conheceram em jovens. Porém, quando Dare anuncia publicamente que a tomará de novo como amante, ela responde ao desafio com um da sua autoria: fazer ajoelhar aquele homem arrogante. 
O reencontro do casal desencadeará muitas paixões e um perigoso jogo de sedução. No final, juntos descobrirão o que Dare negou toda a sua vida: que não existe maior prazer que o verdadeiro amor.

A minha opinião: 
Este romance de época remonta a contos de príncipes e princesas que nos foram contados na nossa infância e que tanto nos fizeram sonhar. A formula continua a resultar mas atualmente são bem mais adultos e... eróticos. O encanto surge dois séculos antes em que estar em sociedade era mais elaborado e requintado para os ricos e privilegiados e o galanteio e a adulação faziam parte dos usos e costumes, mas a libertinagem e alguma promiscuidade também.
Jeremy e Julienne reencontram-se sete anos depois e a intensa atracão sexual entre eles reacende-se com esta proximidade e um desafio que publicamente colocaram. Ao confirmar que ela não traia o seu pais como o traiu a ele, Jeremy conta com a sua ajuda para desmascarar um perigoso espião ao serviço de alguns interesses de França. Muita acção descrita com alguma detalhe quando se trata do relacionamento físico entre estas duas personagens. Para a época são muito avançados e nada tradicionais dado os interesses que partilham e como consumam os atos sexuais com prazer.

Nicole Jordan sabe como prender as leitoras mais sonhadoras com historias de encantar bem contadas com fantásticas personagens. Agradável entretenimento focado na relação emocional e sexual de Dare e Julienne. Alguma aventura e intriga com a misteriosa identidade de Caliban que atormentara o grupo de amigos da Liga do Fogo, mas principalmente fantasia, romance e sexo. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ate´ que a morte nos una

Autor: Jonathan Tropper
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 408
ISBN: 9789898775214
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 
Quando Judd Foxman encontra a esposa, Jen, na cama com o seu chefe numa posição muito comprometedora, perde o trabalho e a mulher. E no momento em que começava a pensar que as coisas não podiam piorar, recebe a notícia da morte do pai, cuja última e derradeira vontade é que os filhos cumpram o Shivá, uma tradição judaica que pretende juntar, debaixo do mesmo tecto, toda a família durante sete dias. Esta será a primeira vez que o clã Foxman se reúne desde há muito tempo.

Algumas famílias podem-se tornar tóxicas quando expostas a uma exposição prolongada. E a família Foxman em particular pode atingir um nível de toxicidade letal. É nisso que Judd está a pensar, com o prato de salmão e batatas à sua frente, na mesa, tentando alhear-se dos gritos dos sobrinhos. O telemóvel do cunhado não pára de tocar, a irmã e seu eterno compincha (o irmão mais novo) insistem em desferir-lhe dardos venenosos enquanto a sua mãe, num vestido demasiado justo, o olha com uma insuportável expressão de pena.
Bastam algumas horas para que a casa se torne num barril de pólvora prestes a explodir, com velhos rancores, paixões nunca silenciadas e segredos vergonhosos. E, enquanto todos à sua volta parecem perder o controlo, Judd terá de tentar descobrir se consegue encontrar um novo equilíbrio, apesar de tudo.

A minha opinião: 
Um talento ímpar para transformar o amor numa imensa trapalhada.   
Não dispenso ou adio ler qualquer romance de Jonathan Tropper. São imbatíveis em sarcasmo, muitas vezes irreverente mas sempre inteligente e profundo que nos deixam com lágrimas nos olhos de comoção ou de riso descontrolado em cenas visualmente expressivas e fortes. 

Esta saga familiar e´ de leitura compulsiva apesar das suas mais de 400 paginas de letra miudinha. Não consegui me apertar desta brilhante historia e das suas peculiares personagens tão bem caracterizadas porque estava presente no Shivá daquela enlutada e entorpecida família. Todos nos tocam de um jeito especial porque os compreendemos e aceitamos como melhores amigos. Uma família com dificuldade em exprimir emoções em acontecimentos trágicos, que recorrem a gracejos, sarcasmos e insultos em aniversários, dias de festa, casamentos e doenças.

Não tenho palavras para elucidar ou preparar para o que vão encontrar nestas paginas sem  parecer que estou a pecar por excesso. Mas, não se consegue resistir ao que projectamos com as cenas protagonizadas pelos membros desta família. Os seus perturbados pensamentos ou comentários são um festim, bem como a sua sagacidade que em animados diálogos nos deixam estarrecidos. 

Para perceberem do que escrevo, nada melhor do que incluir alguns fragmentos.

"E´ preciso um GPS para acompanhar as vidas sexuais desta família. Interrogo-me se o amor será uma coisa assim tão retorcida com todas as outras pessoas ou se a nossa família tem um talento ímpar para o transformar numa imensa trapalhada."                       (pag. 330)

"Os casamentos desmoronam-se. Todas as pessoas tem as suas razoes, mas ninguém sabe ao certo porque. (...) Sabíamos que o casamento poderia ser difícil tal como sabíamos que havia crianças a morrer em África. Era um facto trágico mas a milhas da nossa realidade. Nos iríamos ser diferentes. Iríamos manter a chama acesa; seriamos os melhores amigos que fo*iam todas as noites ate perder os sentidos. Iríamos evitar as armadilhas da complacência: manter-nos-íamos jovens por dentro e por fora, sempre de barriga lisa, continuaríamos a dar beijos demorados e arrebatados, a dar a mão ao passear, a ter conversas sussurradas noite dentro, a curtir em salas de cinema e a fazer sexo oral um ao outro, com um entusiasmo indefectível, ate´ que as limitações artríticas da velhice o desaconselhassem."                                                                                            (pag. 23)   

"O que queria dizer e´ que seria demasiado fácil afirmar que a perda do bebe foi o ponto onde descarrilamos. As pessoas adoram fazer isto, apontar um único fenómeno, atribuir-lhe todas as culpas e fazer tábua rasa, tal como quando os comilões processam a McDonald's por os ter transformado nuns potes de banho. No entanto, a verdade e´ sempre muito mais difusa, esconde-se na periferia e não fica bem focada. No fundo, ou temos o tipo de casamento capaz de aguentar o trauma ou não."                                                                                               (pag. 174/5) 

Se Nos Encontrarmos de Novo

Autor: Ana Teresa Pereira
Edição: 2004/ novembro
Páginas: 164
ISBN: 9789727088157
Editora: Relógio D'Água

Excerto: 
«Rose começou a aparecer nas suas aulas e a princípio não a reconheceu; aos dezanove anos usava o cabelo curto e os seus olhos eram definitivamente azuis, tinha um encanto muito especial. Byrne apercebia-se do brilho nos olhos dela quando o procurava depois das aulas, do entusiasmo com que trabalhava para ele, parecia não ter qualquer interesse pelas outras cadeiras. E uma noite encontrou-a à sua espera, sentada nos degraus da sua casa, os braços à volta dos joelhos, o cabelo caindo-lhe sobre os olhos; tinha voltado aos tempos da promiscuidade mas aquela rapariguinha não lhe interessava nada, sem querer foi demasiado brusco, quase cruel. Deixou de vê-la nas aulas e meses depois soube que não estava em Oxford, arranjara um emprego em Londres. A história não o preocupara muito, não era responsável pelas pessoas que se apaixonavam por ele.»

«Rose começou a aparecer nas suas aulas e a princípio não a reconheceu; aos dezanove anos usava o cabelo curto e os seus olhos eram definitivamente azuis, tinha um encanto muito especial. Byrne apercebia-se do brilho nos olhos dela quando o procurava depois das aulas, do entusiasmo com que trabalhava para ele, parecia não ter qualquer interesse pelas outras cadeiras. E uma noite encontrou-a à sua espera, sentada nos degraus da sua casa, os braços à volta dos joelhos, o cabelo caindo-lhe sobre os olhos; tinha voltado aos tempos da promiscuidade mas aquela rapariguinha não lhe interessava nada, sem querer foi demasiado brusco, quase cruel. Deixou de vê-la nas aulas e meses depois soube que não estava em Oxford, arranjara um emprego em Londres. A história não o preocupara muito, não era responsável pelas pessoas que se apaixonavam por ele.»

A minha opinião: 
Não conhecia esta autora, o que não me parece estranho dada a minha desconfiança anterior com autores portugueses. Uma amiga "apresentou-nos" e fico-lhe grata por isso. Gosto de descobrir beleza nas suas mais diversas formas. Este romance singelo tem tanto de belo como de insinuante e tortuoso. Não e´ um romance luminoso e nesse aspecto não e´ o meu género de leitura. Fujo frequentemente para lugares mais aprazíveis nos meus momentos de leitura, mas contrabalanço sempre que possível com outras passagens que me tragam uma noção de equilíbrio.  

Um romance de pensamentos, emoções e sentimentos a duas vozes. Bryne e Ashey duas talentosas almas perdidas, que depois de muito procurar se encontram. Com uma rara sensibilidade artística procuraram em muitos corpos o seu aconchego e um lar. Ashey tem impulsos destrutivos muito fortes, e e´ raro acabar uma tela, abandona-as e começa de novo, e cada quadro pode ser o ultimo. Tom foi o seu amor. Bryne voltara para casa ao fim de muitos anos mas não sabia para que, ate´ começar a estar obcecado por uma mulher que mal conhecia, um vulto sentado nos degraus do pavilhão, caminhando na neve, passando por ele nas escadas.

"Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida e´ feita desses encontros."                (pag. 139)

"Aquela casa sempre lhe parecera quase magica nesse sentido, na parte de trás passava-se para outro mundo, onde quase não se ouviam os sons da rua ou da cidade, só os sinos das igrejas ao domingo. E quando a solidão se tornava muito forte era só ir a uma janela da frente ou sair para a rua, e estava-se em Londres."                                                                                           (pag.90)

Desse encontro naquela casa vivem-se momentos mágicos de felicidade rara e de comunhão com a beleza e a arte.  Viveram e  amaram `a sua maneira.

"(...) o pão fresco, a fruta, o vinho, a neve, o sol, os parques de Londres, as primeiras flores da primavera, os quadros nos museus, Ticiano e Andrea del Sarto, Turner e Monet, Mondrian e Rothko, os meus quadros, o cheiro da tinta, os pássaros e os peixes, os cães, os meus cães, os animais, as folhas, as pedras, o anoitecer, o nevoeiro de Londres, o meu rio, os outros rios que conheci, os homens com quem fiz amor, os meus pais que quase não recordo, a minha filha, as viagens de comboio através da neve, um velho mosteiro na Rússia onde havia um fresco de Rublev, o mar. as minhas casas, os romances de Henry James, os poemas de Rupert Brooke, as aventuras de William, as poças de agua, os lilases, as cerejeiras, os filmes a preto e branco, Robert Mitchum e Katherine Hepburn, Charles Boyer e Ingrid Bergman, a ilha. 
E Tom. E Byrne. Os seus homens de olhos azuis, sotaque irlandês e cinquenta e dois anos." (pag.153)