sábado, 17 de outubro de 2015

Também Isto Passará


Autor: Milena Busquets 
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 120
ISBN: 78-989-87-5289-5
Editora: Jacarandá

Sinopse:
Quando Blanca era pequena, para a ajudar a ultrapassar a morte do pai, a sua mãe contou-lhe uma lenda chinesa. Uma lenda sobre um poderoso imperador que convocou os sábios e lhes pediu uma frase que se aplicasse a todas as situações possíveis.

Depois de meses de deliberações, os sábios apresentaram uma proposta ao imperador:«Também isto passará.» E a mãe acrescentou: «A dor e a mágoa passarão, como passam a alegria e a felicidade.» Agora morreu a mãe de Blanca, e este romance, que começa e termina num cemitério, fala da dor da perda, do peso dilacerante da ausência.

Milena Busquets transforma experiências pessoais em literatura e, partindo do íntimo, consegue criar um romance que rompe fronteiras. Através da história de Blanca e da doença e morte da sua mãe, das relações com os amantes e as amigas, combinando prodigiosamente profundidade e leveza, a autora de Também Isto Passará, fala-nos de temas universais.
A dor e o amor, o medo e o desejo, a tristeza e a vontade de sorrir, a desolação e a beleza de uma paisagem em que se entrevê fugazmente a mãe falecida a passear junto ao mar. Porque aqueles que amámos não podem simplesmente desaparecer.

A minha opinião:
A temática dor da perda e o peso dilacerante da ausência não é de todo o tipo de leitura que procuro mesmo que ficcional. Sentimentos profundos e intensos fazem eco em corações magoados com narrativas plenas de sentido. 

A acção passa-se em Cadaqués, localidade catalã da província de Girona. Um lugar deslumbrante e acolhedor, como que um porto de abrigo para a personagem Blanca, que regressa com filhos, ex-maridos e amigos num processo de luto e balanço de vida. A mãe que faleceu após prolongada doença, doença essa que a transfigurou completamente como a mulher que era, deixa a filha devastada apesar da convivência ter sido marcada por uma relação de amor-ódio. 

Narrativa agridoce e acutilante que toca em factos da atualidade que urge refletir. Amor incondicional e absoluto, relacionamentos vários, e valores que se transmitem aos que nos sucedem na vida. Um bom exemplo da linguagem utilizada, sem subterfúgios ou subtilezas é o excerto abaixo (e com isto, fico por aqui neste meu comentário).

"Por vezes interrogo-me sobre o que acontecerá quando esta nova geração de crianças, cujas mães consideram a maternidade uma religião (...mulheres cujo único interesse e preocupação e razão de ser são os filhos, que educam como se eles estivessem destinados a reinar sobre um império, que inundam as redes sociais com as fotografias dos seus rebentos, não apenas de aniversários e viagens, mas dos filhos na sanita ou sentados no penico - não há amor mais impudico do que o amor maternal contemporâneo), crescer e se transformar em seres humanos tão deficientes, contraditórios e infelizes como nós, talvez mais até, porque não me parece que se possa sair ileso de ser fotografado a cagar."                                                                                                                               (pag. 111)

sábado, 10 de outubro de 2015

A Vinha do Anjo

Autor: Sveva Casati Modignani
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 384
ISBN: 9789720047755
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Longas filas de videiras estendem-se pelas colinas suaves de Borgofranco. Há dois séculos que a família Brugliani é proprietária daquele antigo burgo e das vinhas, tratadas com paciência para delas extrair vinhos preciosos e únicos. Aos 35 anos, Angelica é a herdeira da tradição e do património familiar. Mãe, esposa, empresária de sucesso: tudo parece perfeito na sua vida. Só ela sabe que por detrás daquela fachada se esconde um mundo sombrio, feito de mentiras - as do marido - e de sonhos pueris.

Numa noite, em que conduzia a sua moto e sentindo-se dominada pela amargura e pelas lágrimas, Angelica não se apercebe de que o carro à sua frente está a travar. O choque é violento, mas felizmente sem consequências graves, quer para ela, quer para o condutor do automóvel, Tancredi D'Azaro. Angelica não sabe ainda que aquele homem é um dos chefs mais aclamados em todo o mundo. E ambos ignoram que, depois daquele encontro fugaz, o destino voltará a entrelaçar os seus caminhos, suscitando a tentação de um novo começo. É então tempo de fazer escolhas, tendo em conta o peso do passado e as responsabilidades do presente - porque a vida é feita de sonhos e paixões.
A Vinha do Anjo conta-nos a história envolvente de uma família e de uma tradição milenar, o retrato de uma protagonista fascinante no qual se reveem muitas das mulheres empreendedoras e corajosas que anonimamente constroem as nossas sociedades.

A minha opinião:
Gosto muito dos romances da Sveva. Uma fraqueza minha mas não perco um. Gosto mais de uns do que de outros, mas gosto sempre. Com o tanto que gosto de ler e de variar em estilo e género, seria de supor que esta fraqueza estaria ultrapassada há muito, mas sempre que se aproxima um novo romance desta autora, eu apresso-me em ler. 

Gosto de romances sobre mulheres. Mulheres que sofrem mas resistem, endurecem e vingam. Mulheres que se perdem e se encontram. Amam e sofrem e voltam a amar. Mulheres com uma carreira profissional e uma família com quem se preocupam e cuidam. Mulheres privilegiadas mas que não se acomodam. Mulheres independentes e com interesse porque se interessam. Este é o universo dos romances da Sveva que eu tanto prezo. 

Angelica Brugliani é uma destas mulheres. Uma mulher do vinho e da terra, que se tinha tornado parte integrante da sua empresa vinícola, tão presente na história da sua família. Uma mulher com uma extraordinária sensibilidade que nos transmite o gosto pelo requintado prazer que obtemos de degustar um bom prato ou um bom vinho. E para isso, temos Tancredi D'Azaro, um chef de cozinha, também ele ligado às origens, que não são muito distantes das nossas, como a ligação ao sol, ao mar, ao céu, ao curso das estações, e à alegria e saber dos sentidos. Enfim... um romance envolvente e sedutor, com personagens com história e que tanto nos dizem. 

Recomendo. Como sempre.

domingo, 4 de outubro de 2015

A Vida Contada de A. J. Fikry

Autor: Gabrielle Zevin
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 264
ISBN: 9789898781468
Editora: Self

Sinopse:
A vida de A. J. Fikry não é, de modo algum, a que ele esperou que fosse. Vive sozinho, a sua livraria está a passar pelo pior momento da sua história e, agora, a sua preciosidade mais valiosa, uma rara antologia de poemas de Poe, foi roubada. Mas quando uma misteriosa encomenda aparece na livraria, a sua inesperada chegada dá a Fikry a oportunidade de mudar completamente a sua vida, e ver tudo com novos olhos.

Divertida, terna e comovente, A Vida Contada de A. J. Fikry relembra-nos a todos porque é que lemos e porque é que amamos. Este livro tem humor, romance, suspense, mas, acima de tudo, amor - amor pelos livros e amor pelas pessoas dos livros. 
Um hino à gloriosa imperfeição da humanidade.

A minha opinião:
Não sei explicar porque fiquei cismada com este livro, mas essa é a verdade. Procurei-o e coloquei-o no topo da minha lista de leituras. E uma história tão simples e despretensiosa, com personagens banais e humildes, mas com as quais nos identificamos pelas suas qualidades humanas, perdura na minha memoria e leva-me a refletir nos acasos da vida e no apego que temos por coisas e por pessoas. 

A.J.Fikry é um livreiro que escolheu sê-lo por amor aos livros e à literatura, mas a perda da sua parceira de vida e de negócios muda a sua perspetiva das coisas. Maya altera tudo. Amélia também. Não achei muito verossímil a transfiguração do rabugento Fikry, nem a extraordinária capacidade de Maya ou o romance com Amélia, mas no conjunto temos uma narrativa calorosa e acessível que nos transmite confiança e otimismo, apesar do final.  

A livraria Livros da Ilha na Ilha Alice é o cenário onde se dão os principais acontecimentos e ponto de encontro de pessoas com afinidades que desconheciam. Local de veraneio que fora da época ganha vida literária. Um hino aos livros, em que o e-book não foi esquecido.

"As palavras que não conseguimos arranjar, pedimo-las emprestadas. 
Lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Lemos porque estamos sozinhos. Lemos e não estamos sozinhos. Não estamos sozinhos."                                            (pag.249)