domingo, 27 de dezembro de 2015

Quando Menos Esperamos...

Autor: Sarah Dunn
Edição: 2010/ julho 
Páginas: 248
ISBN: 978-972-23-4386-2
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Holly Frick é uma escritora nova-iorquina de trinta e cinco anos, inteligente e divertida, que se vê confrontada com a separação do marido, Alex, por quem ainda está apaixonada. No seu círculo de amigos todos parecem capazes de retirar algum prazer da situação de vida em que se encontram, e Holly decide fazer o mesmo. Compra um cão e envolve-se com um rapaz bastante mais novo. O quotidiano de Holly e dos seus amigos, as amizades, os casos amorosos e as aventuras sexuais, a busca incessante da felicidade e do amor formam um complexo padrão afectivo e emocional que é aqui retratado com profundidade, subtileza e muito humor.

A minha opinião:
Numa demanda por novos velhos livros, este chamou-me a atenção. Depois de ler a sinopse e as primeiras paginas, decidi comprá-lo. Pareceu-me extamente o que precisava naquele momento - uma divertida comédia de costumes, bem ao género de "O Sexo e a Cidade". 

No inicio, o gozo com a caricaturização de personagens çosmopolitas sobrepôs-se e a leitura leve fluiu, mas depois aspetos mais sérios foram surgindo, como a solidão, o desamor, vícios e temores em personagens aparentemente bem sucedidas, e a piada desvaneceu-se. 

Ainda assim não é uma leitura muito exigente ou surpreendente e cumpriu o seu propósito. Desanuviar e relaxar. O mote da capa com o cão na relva desconcertou-me porque Holly resgatou um animal doente que ajudou a curar e depois descobriu o seu dono anterior e... ganhou, perdeu e voltou a ganhar porque quando menos esperamos... 

A magia dos números

Autor: Yoko Ogawa
Edição: 2011/ 
Páginas: 216
ISBN: 9789725649558
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
Uma empregada de limpeza começa a trabalhar em casa de um velho matemático, um homem com mais de sessenta anos, cuja carreira foi brutalmente interrompida por um acidente de automóvel, que reduziu a autonomia da sua memória a oitenta minutos. 
A cada manhã, a jovem mulher deve apresentar-se como se se vissem pela primeira vez - o professor esquece-se que ela existe de um dia para o outro -, mas é com grande paciência, gentileza e muita atenção que ela consegue ganhar a sua confiança, apresentando-lhe também o filho de dez anos. Aí se inicia uma relação maravilhosa: o rapazinho e a sua mãe vão não só partilhar com o velho amnésico a sua paixão pelo beisebol, como vão também aprender com ele a magia dos números. Neste subtil romance sobre a herança e a filiação - e em que três gerações se encontram sob o signo de uma memória extraviada e fugidia - a narrativa desdobra-se com a graça e o rigor de um origami. Lapidar e profundo como um haiku, A Magia dos Números é uma pequena obra-prima..

A minha opinião:
Por motivos alheios `a minha vontade tenho andado arredada de leituras. E de comentários. 

Este romance, sugestão de uma boa amiga com um gosto irrepreensível para livros, esteve algum tempo por ler. A capa é belíssima, mas os números nunca exerceram magia sobre mim. Mas nesta historia ficaram muito perto, porque numa escrita linear e simplicista, de uma delicadeza subtil e rara sensibilidade acompanhei a amizade crescente entre três improváveis personagens sem nome, e assim fui contagiada pelo fascínio dos números e imagine-se... basebol.

O brilhante professor tem uma limitada memória de oitenta minutos e sucessivamente repete as mesmas perguntas ou argumentos, sem enfado, critica ou estranheza para Root, o miúdo de dez anos assim chamado pelo professor porque a forma da sua cabeça lhe parece uma raiz quadrada, ou a empregada, em que juntos brincam com a magia dos números e a associam a factos simples da vida.

Apesar de tudo não foi suficiente para se tornar um livro memorável para mim. Certamente que a falha é minha pela fase da vida em que o li. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Flores

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 272
ISBN: 9789898775733
Editora: Companhia das Letras

Sinopse:
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. 
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

A minha opinião:
Consigo ver Afonso Cruz nos seus livros. Não desaparece atrás da beleza, da eternidade da sua voz que encontramos em palavras, em letras que não existem quando lemos, que desaparecem através do seu significado, através daquilo que imaginamos ao ler. "Imagine, como que uma voz que nos eleva e aniquila ao mesmo tempo, nascemos e morremos no mesmo instante." (pag. 98) Esta dicotomia de viver/ morrer, amor/ doença, presente nos livros de Afonso é que me incomoda e me desafia a ler e a não gostar da sua maneira cínica de ver o mundo, apesar da forma quase poética e efabulada de contar uma história.

Flores não é sobre botânica. Tem a ver com a a história das irmãs Flores, no Alentejo do século XX, quando o narrador, um jornalista desencantado com a vida, decide ajudar o vizinho, que a sua filha adora, a recuperar as memorias afetivas e a reconstruir a sua vida através de todos os que o conheceram. Um trabalho difícil com muitas contradições porque há quem o ache bom e quem o ache mau. Afinal, é a memoria que nos forma e quando o idoso Ulme perde a memoria devido a uma doença degenerativa perde a identidade, mas não a capacidade de se indignar e sofrer com as tragédias que sabe através dos meios de comunicação, ao contrario do narrador que se busca no espelho, apático "num sonambulismo que a vida acaba por oferecer em conjunto com tantas frustrações". 

Grito de revolta contra a rotina porque a vida morre com a rotina e não com a morte. Fugir de uma vida absolutamente sedentária e abraçar a mudança, sem o conforto da banalidade ou um outro olhar para a corrupção quotidiana e a miséria sem indiferença, porque Deus está em todo o lado e não apenas nas igrejas. Flores existem mas precisamos de as ver, cheirar e sentir.  
"Entremos mais dentro da espessura."

domingo, 6 de dezembro de 2015

O amante japonês

Autor: Isabel Allende
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-04774-8
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois brota um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família – como milhares de outros nipo-americanos – são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo. 

Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.

A minha opinião:
Isabel Allende é uma referencia que dispensa grandes argumentos. A sua obra fala por si. Mesmo assim não resisto a usar as suas próprias palavras "...demonstrara o seu virtuosismo de narradora, o seu sentido de ritmo e a habilidade para manter o suspense, a sua capacidade de contrastar os factos luminosos com os mais trágicos, luz e sombra...) (pag. 277). 

Não sei porque demorei tanto a escrever sobre este romance de que tanto gostei. Talvez, porque precisei de assentar ideias e ponderar no que escrever e mesmo assim, não vou conseguir atingir nem de perto a clareza, eloquência e lucidez da narrativa. Sem esquecer, as personagens bem definidas que ganham vida para o leitor. Alma, Ichimei e Nathaniel são admiráveis. Irina e Seth não lhes ficam atrás. Mas todas as personagens são grandiosas neste romance que pode conter muito de autobiográfico. Inicialmente, ilude, como sendo uma leitura morna e sensaborona mas ganha fôlego e cativa sem que se perceba.

O ponto de convergência da historia é Lark House, casa de repouso, o que não parece ser muito interessante, mas sobre a perspectiva apresentada fascina e encanta. Senão vejamos:

"Aprendeu a afastar os impulsos de violência, que ás vezes se apoderavam deles como tempestades passageiras, e não ficava assustada com a avareza e as manias de perseguição que alguns sentiam como consequência da solidão. Tentava perceber o significado de carregar o inverno as costas, a insegurança em cada passo, a confusão perante as palavras que não se ouvem bem, a sensação que o resto da humanidade anda muito apressado e fala muito depressa, o vazio, a fragilidade, a fadiga e a indiferença perante o que não lhes diga diretamente respeito, inclusive filhos e netos, cuja ausência já não pesa como antes e é preciso fazer um esforço para os recordar. Sentia ternura pelas rugas, os dedos deformados e a falta de visão. Imaginava como iria ela ser quando fosse idosa, anciã." (pag. 79)

"De acordo com Alma existiam demasiados anciãos no planeta que viviam muito mais do que o necessário para a biologia e do que o possível para a economia, não fazia sentido obriga-los a permanecer presos num corpo dolorido ou numa mente desesperada." (pag. 189)

Historia, entretenimento e reflexão. Que mais se pode pedir de um romance?

Recomendadissimo.