sábado, 27 de fevereiro de 2016

Milagre

Autor: Deborah Smith
Edição: 2016/ fevereiro
Páginas: 456
ISBN: 978-972-0-04801-1
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Sebastien de Savin é um brilhante cirurgião cuja habilidade e arrogância representam uma mistura explosiva. No passado, um segredo obscuro foi o responsável pelo endurecer do seu coração, até que um milagre acontece. O milagre dá pelo nome de Amy Miracle, uma rapariga tímida com um emprego de verão nas vinhas da família de Savin e a última pessoa pela qual alguém como Sebastien esperaria apaixonar-se.
Um acaso junta-os: graças a Sebastien, Amy escapa de uma vida de pobreza e abusos psicológicos, adquire autoconfiança e progride numa carreira de sucesso. Graças a Amy, Sebastien reaprende a rir e desperta para o amor. No entanto, a vida real separa-os. Embora tendo passado pouco tempo juntos, a memória desses preciosos momentos assombra-os durante anos. Até ao dia em que os seus caminhos se cruzam novamente…

A minha opinião:
"A Doçura da Chuva" foi o primeiro romance que li desta autora e fiquei fã. Um daqueles romances que guardamos para mais tarde voltar  a ler. E dos quais, procuramos mais, porque nos deixam com o coração cheio. 

"Milagre" não tem o mesmo impacto mas é um romance que se lê sem parar e nos conforta. Como um paliativo para algum mal que nos aflija. Como uma camisola quente que nos aconchega em dias de frio. Nestes dias. 

Amy e Sebastien, duas personagens aparentemente antagónicas mas ambas com um passado/ presente amargo e uma necessidade de o superar. Maravilhosas e generosas cativam nas primeiras paginas, mas isso é o efeito da escrita de Deborah Smith e a sua capacidade de criar personagens realistas e muito humanas que se tornam intimas do leitor. 

Dez anos é o período que marca o desenvolvimento deste romance que a autora divide em quatro partes. Amy deve a Sebastien a sua mudança de rumo. Sebastien deve ao seu poderoso pai o seu regresso a França e a sua perdição enquanto retoma o caminho que a sua fortuna designa. Mas por mais e melhor que se faça, a vida interpõe se e o desfecho pode ser imprevisível e altamente improvável e isso é o que mais nos anima num romance. A possibilidade de realizar sonhos. De se dar um Milagre.   

Um prazer de ler! 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Improbabilidade do Amor

Autor: Hannah Rothschild
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 528
ISBN: 9789892333601
Editora: ASA

Sinopse:
Um quadro velho e sujo é comprado numa obscura loja de velharias por Annie McDee. Chef talentosa mas falida, apaixonada mas com o coração partido, Annie cedeu a um impulso e gastou nele as últimas 75 libras que tinha no bolso. E enquanto se debate com a solidão e a falta de perspetivas, está longe de imaginar as repercussões da sua humilde extravagância.
É que, singelamente pendurada entre os tachos e as panelas da sua cozinha, está agora uma obra-prima. A Improbabilidade do Amor é o quadro perdido de um célebre pintor do século XVIII. Na tentativa de desvendar a verdadeira identidade da obra, Annie vai deparar com um dos segredos mais bem guardados da História da Europa.
E ser inadvertidamente arrastada para o frenético mundo da arte e perseguida por potenciais compradores. De uma princesa árabe a um oligarca russo, passando por um conde falido e uma socialite americana, não falta quem esteja disposto a tudo para acrescentar mais uma peça à sua coleção.
Mas A Improbabilidade do Amor não é apenas uma obra de arte.
A sua alma é-nos gradualmente revelada. Na sua voz sedutora, sofisticada e muito cínica, o quadro comenta a atribulada vida amorosa de Annie, narra a sua própria história e ajusta contas com os seus (muitos) donos anteriores, entre eles, Luís XV, Voltaire e Catarina, a Grande…

A minha opinião:
Um volumoso romance com letra miudinha (e para o conseguir ler bem, visitei uma livraria para comprar uns óculos mas... acabei com mais um livro e sem óculos). A capa remete para o inicio da história quando Annie entra numa loja de velharias e compra impulsivamente um pequeno quadro que coloca no cesto da sua bicicleta ao regressar a casa. 

O titulo deve-se a esse quadro - A Improbabilidade do Amor, pintado em 1702 pelo mestre Antoine Watteau que representa a agonia e o êxtase do amor. (Fui pesquisar sobre a vida e obra deste pintor que desconhecia).

O quadro, também ele personagem deste romance é altivo mas afetuoso e viaja ao passado das suas memorias enquanto analisa a situação atual. Percebo a intenção da autora mas não me convenceu, apesar das referencias históricas me parecerem corretas. Annie e Evie são as personagens com mais peripécias em torno do quadro mas faltou um rasgo de inspiração para tornar estas personagens marcantes. 

Uma trama bem desenvolvida mas um tanto dispersa. Muitas personagens, talvez demasiadas. O foco é a arte e o seu papel ao longo dos tempos. A cobiça e o poder que sempre lhe estiveram associados. Os meandros de negócios de muitos milhões. E os saques durante a Guerra. A beleza no meio de tanta fealdade.
E também... a culinária que é uma forma de arte quando feita com dedicação, inspiração e amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Coro dos Defuntos

Autor: António Tavares
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 216
ISBN: 9789896603915
Editora:  Leya

Sinopse:
Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. 
Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. 
E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. 
Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar... 

Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974.

A minha opinião:
Decidi ir à livraria no intuito de comprar uns óculos para ler as letras miudinhas em dias que me sinto muito cansada e a leitura se faz com esforço, mas por lá me perdi, sem óculos e com mais um livro que me apressei a ler. Garantiram-me que a linguagem rebuscada em homenagem a Aquilino Ribeiro era fácil de decifrar, senão com uso do glossário no final,  e tratava-se de um divertidíssimo retrato de época em ambiente rural. De facto, assim é.

Talvez por ter memorias de infância de um ambiente assim, não foi difícil entrar na crença de um povo com valores distintos dos de hoje, em que as informações chegavam dispersas e confusas e por vias diversas, e as interpretações estavam ligadas ao senso comum ou à mística com a natureza porque dai provinha o pão de cada dia.

Narrado pela neta de uma mulher sábia e intuitiva que naquela aldeia viveu, com o marido regedor e todo um leque de personagens inesquecíveis que compunham a vida naquele lugar e naquele tempo, entramos num mundo ora fantasioso, ora realista, com o tanto que sabemos e não esquecemos. A nossa identidade que não perdemos.

Um prazer de ler. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Morte de um Apicultor

Autor:  Lars Gustafsson
Edição/ Reimpressão: 2015
Páginas: 192
ISBN: 9789897540554
Editora: Marcador

Sinopse:
Lars Westin está a morrer; embora se recuse a ler a carta enviada pelo hospital, que confirma o seu diagnóstico, ele sabe que tem cancro e que não irá viver até ao final da primavera seguinte.
Não aceita, porém, entregar o tempo que lhe resta ao espaço impessoal de um hospital, preferindo tomar o controlo do seu próprio destino e prosseguir com a sua vida solitária e reflexiva.
Abandona a carreira de professor e inicia uma nova vida como apicultor. Prescindindo de qualquer tratamento médico, Lars continua a sua vida simples e recolhida, na sua casa de campo, em pleno cenário rural sueco.
Esta é uma história sobre a vida, em particular a vida que antecede a morte. É sobre como, com a linguagem, se esconde a verdade. É sobre a forma como a dor pode revelar o nosso verdadeiro eu.

A minha opinião:
Este livro é um caso sério, como as notas deixadas em três cadernos pela personagem ausente e que servem de base para uma história comum. E o comum partilhamos e por isso nos toca. Fácil de entender mas difícil no sentir. 

Um ex-professor divorciado que se tornou apicultor reflete sem amargura sobre percepções e memorias da sua vida  e  encara o inevitável declínio com a doença que sabe que tem. Um homem  pacificado mas lúcido. Um homem simples que recomeça a cada dia. 

De pequenas dimensões não é um livro maçador ou particularmente difícil apesar do tema. Escrita sem mácula, cuidada e ponderada sobre o oculto e profundo Eu. 

Um clássico a não recear ler. Gostei e vou repetir mais tarde.