sábado, 30 de abril de 2016

Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2016/ abril
Páginas: 192
ISBN: 9789722127998
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

A minha opinião:
Um precioso pequeno livro para mim. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos. 

Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.

Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, mas que se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler. Termina com uma oração difícil de esquecer:

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:
"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos  ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos."   (pag. 11/2)

"Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)



"A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem."  (pag.67)



"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida."  (pag. 76)


"Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade."  (pag. 87)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

História de Quem Vai e de Quem Fica

Autor: Elena Ferrante
Re/Edição: 2015/ setembro
Páginas: 336
ISBN: 9789896415570
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.
Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.

A minha opinião:
E prossegui com a leitura das memorias de Elena, mas não de imediato. Outras leituras se interpuseram mas sem esquecer a vida em Nápoles e a estranha ligação entre as duas amigas. Uma ligação que Lenú, alias Elena, procura entender algumas vezes neste romance, num Tempo Intermédio.  

Pode parecer estranha esta pausa nos livros da tetralogia de Elena Ferrante. E mais uma vez, uso essa palavra. Mas estranha é uma palavra que me ocorria enquanto lia. Personagens fortes que se materializaram e tomaram os meus pensamentos.

Perturbadora a relação destas duas amigas, muito semelhante a uma que vivi. Extraordinariamente inteligentes, usam as suas capacidades com muito sacrifício de forma distinta e em função das oportunidades vingam. Rivalizam. E essa rivalidade tem uma dinâmica muito própria que as empurra em diante.

O bairro com as desigualdades, a prepotência e a miséria. A luta armada, os comunistas e os fascistas. Os crimes. O sexo e a intimidade.

A narrativa que não me parece um mero exercício criativo vai ao passado rebuscar como funciona o mundo com a finalidade de conhecermos corações que batem forte sem superficialidades ou frivolidades, condensando tanto entre os tumultos que se torna avassalador para quem lê. Entre Nápoles e Florença senti um aperto no peito com esta narrativa que me pareceu estranho. E dai a necessidade da pausa. Para retomar o controle e o equilíbrio.

Um livro para ler e reler. 

sábado, 16 de abril de 2016

O Discípulo

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 2)
Edição: 2016/ março
Páginas: 672
ISBN: 9789896650667
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Numa Estocolmo em chamas, assolada por uma onda de calor, várias mulheres são encontradas brutalmente assassinadas. Os assassinatos têm a marca de Edward Hinde, o assassino em série preso por Bergman há quinze anos, e que continua detido. Sendo um incontestável profiler e perito em Hinde, Sebastian é reintegrado na equipa, e não demora muito a perceber que tem mais ligações com o caso do que pensava. Todas as vítimas estão diretamente ligadas a eles. E a sua filha pode estar em perigo.

A minha opinião:
Satisfeito o meu capricho com este intimidante calhamaço que atrai pela maravilhosa capa. E pelo conteúdo, claro!

Independente do volume anterior, inclusive porque encontramos neste uma resenha, o enredo prende e passamos rapidamente várias páginas em curto espaço de tempo enquanto seguimos Sebastian Bergman, bem como Vanja, Ursula, Torkel, Billy e ainda o Homem Alto. 

Romance policial com personagens bem caracterizadas psicologicamente, não sobressalta tanto quanto se poderia esperar e tem algo de ingénuo no modo como encaram e entabuam conversa com um psicopata como Edward Hinde, que facilmente manipula os outros que percepciona, como Haraldsson, o novo diretor da prisão. Inteligente e vitima de abusos e abandono tem em Sebastian um rival que parece mais perdido do que nunca e incapaz de reagir a um oponente tão calculista. Depois de Sebastian estabelecer a ligação das vitimas consigo começa a ação, uma vez que Edward conhece o passado e o segredo de Sebastian.

Sebastian provoca em toda a narrativa emoções contraditórias, e se por um lado a sua faceta de mulherengo insensível e egoísta chateia, por outro lado é compreendido pelas perdas que procura apaziguar. O lado humano não é descurado neste livro e todas as personagens apresentam fragilidades bem exploradas e empáticas ao leitor. Assim, menos intenso ou dramático do que o esperado mas muito envolvente e viciante até ao final, que nos deixa com mais um segredo intrigante para o próximo livro que não pretendo perder.

sábado, 2 de abril de 2016

Segredos Obscuros

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 1)
Edição: 2015/ julho
Páginas: 544
ISBN: 9789898775535
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Sebastian Bergman é um homem à deriva. 
Psicólogo de formação, trabalhava como profiler para a polícia e era um dos grandes especialistas do país em serial killers. Perdeu tudo quando o tsunami no continente indiano lhe levou a mulher e a filha. 
Tudo muda com uma chamada para a polícia. 
Um rapaz de dezasseis anos, Roger Eriksson, desapareceu na cidade de Västerås. Organiza-se uma busca e um grupo de jovens escuteiros faz uma descoberta macabra no meio de um pântano: Roger está morto e falta-lhe o coração.

É o momento de Sebastian se confrontar com um mundo que conhece demasiado bem. 
O Departamento de Investigação Criminal pede ajuda a Sebastian. Os modos bruscos e revoltados de Sebastian não impedem a investigação de avançar. E as descobertas sobre a escola que Roger frequentava são aterradoras.

A minha opinião:
Esqueci este livro e quando me questionaram se o queria ler, hesitei. Tantos outros que passaram à frente, e outros tantos sobressaiam no topo da pilha, mas como não gosto de ficar em falta, concordei, e gostei bastante. De inicio, não me pareceu o tipo de leitura esperada para um thriller, ou um romance policial, o que se alterou com a entrada de Sebastian Bergman na investigação e consequentemente na equipa, por um motivo pessoal e escuso.

Regressara a Västerås para resolver rapidamente tudo o que se relacionava com a sua herança após o falecimento da mãe, laço familiar que cortou na juventude e pouco explicado, quando a investigação a um obscuro crime decorre e acaba por se envolver. Grosseiro, sexista, critico ou simplesmente sórdido, e ainda charmoso e intuitivo ou não soubesse ele a ténue linha que o separava dos criminosos que caçava. 

Neste género de romances não se pode afirmar que um protagonista com este perfil seja original mas continua a encaixar perfeitamente. E para mais, mulherengo. A inteligência seduz e como leitora sucumbi ao poder de dedução e analise que nem sempre me surpreendia mas compreendia. Algumas das observações fora do âmbito da investigação também são oportunas e eficazes.  

Os crimes que se seguiram tornaram esta narrativa mais e mais interessante e cheguei ao fim com a sensação de "quero mais" depois do ultimo segredo revelado. Felizmente, o livro seguinte de Sebastian Bergman - O Discípulo vai satisfazer este capricho.