domingo, 25 de setembro de 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Autor: Martha Batalha
Edição: 2016/ julho
Páginas: 216
ISBN: 978-972-0-04859-2
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Quando Guida Gusmão, perdida num amor proibido, desaparece da casa dos pais sem deixar rasto, a irmã Eurídice prometeu ser a filha exemplar, a que nunca faria algo que trouxesse novo desgosto aos pais. E Eurídice torna-se a dona de casa perfeita, casada com Antenor, um bom marido, apesar de tudo, ou apesar do nada em que a vida de Eurídice se tornou. 
A vida de Eurídice Gusmão é em muito semelhante à de inúmeras mulheres nascidas no início do século XX e educadas apenas para serem boas esposas. Mulheres como as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a sua própria vida.

A minha opinião: 
Eurídice escreveu um livro. A história da invisibilidade. A história das mulheres na década de 40 que eram educadas para serem mães e donas de casa. A história de mulheres que reprimiam os seus sonhos para encaixarem nos sonhos dos outros. Um livro importante que deve ser lido por mulheres fora do comum. 

"Para ela o casamento era algo endémico, algo que acometia homens e mulheres entre dezoito e vinte e cinco anos, Tipo surto de gripe, só que um pouquinho melhor. 
(...)
Antenor confundiu equilíbrio esta mania de Eurídice de usar só metade da atenção para encarar a vida, e pensou Taí a mulher perfeita. Não sabia que a moça estava assim lânguida por tempo limitado. Já na noite de núpcias Eurídice lhe aparece com surpresas indesejadas. E depois ao longo dos anos inventou projetos estapafúrdios." (pag. 90/1)

Não é segredo que gosto de romances no feminino. O que também não é difícil de encontrar. Mas não gosto de um qualquer romance. Muito sentimental, fantasioso ou lamechas não aprecio. Uma história que faça eco em mim e que seja bem contada, com humor e inteligência, de preferência. Como esta da vida de duas protagonistas; Eurídice e Guida, que ainda podem ser vistas por aí

Uma maravilhosa surpresa escrita em português do Brasil que me deixou encantada. 

Advertência: Este livro enquadra-se na categoria de livros que se lêem em dois dias, se conseguirmos interromper a leitura para as atividades normais do dia-a-dia e outras necessidades imperiosas. Senão, arriscam-se a lê-lo em poucas horas com verdadeiro deleite. Uma pausa bem vinda. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Partir de Uma História Verdadeira

Autor: Delphine De Vigan
Edição: 2016/ maio
Páginas: 400
ISBN: 9789897222993
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.

A minha opinião:
Este é um romance que me perseguiu desde o momento em que o vi. Mas resisti. Achei precoce. Nada sabia de si e poderia revelar-se frustrante, exigente, denso ou maçador.  Uma má aposta. Aguardei algum feedback que acabou por surgir e das mãos de uma boa amiga me foi entregue.

Inquietante e perturbador. Quão vulneráveis podemos ser perante uma mente intuitiva e empenhada que não descura os pormenores para conseguir os seus intentos sem que seja observada ou travada? Quanto podemos ser manipulados e confundidos para nos conduzirem onde se pretende? Duas questões que se colocam enquanto lemos este romance.
O nome da personagem/ narradora é o mesmo da autora e o título induz em dúvida em boa parte da narrativa. Brilhante premissa que mantém o  suspense e a dúvida. L. não tem nome próprio, é apenas uma inicial como se não pudesse ser nomeada para não se materializar. Muito é revelado de autobiográfico, como referido em:

"Julgo que as pessoas sabem que aquilo que escrevemos nunca nos é totalmente estranho. Sabem que há sempre um fio, um motivo, uma falha, que nos liga ao texto. Mas aceitam que substituamos, que condensemos, que desviemos, que alteremos. E que inventemos."  (pag. 88) 

Mas há mais. A natureza do trabalho de um escritor. Os livros que se impõem sem escolha. E as dúvidas que o assaltam. O real ou a ficção. A vida real que pode ser mais audaciosa, criativa ou a inventada como todo o colorido que se conseguir imaginar?!

Um romance de que não me apartei mesmo quando interrompia a leitura. Uma narrativa fulgurante e mais não conto.

sábado, 10 de setembro de 2016

Assim Começa o Mal

Autor: Javier Marías
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 532
ISBN: 9789896650087
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
Assim começa o mal é um livro sobre um dos factores mais determinantes na vida de qualquer um, condutor de desprezo por qualquer lealdade, consideração ou respeito para com os outros: o desejo.

A minha opinião:
Demorei consideravelmente mais tempo a ler este romance do que o habitual. A qualidade da escrita de Javier Marías impôs um ritmo lento em que frequentemente relia passagens de uma beleza ímpar e tão lúcidas e assertivas como poucas vezes tive oportunidade de ler. Um analista da natureza humana, quer em termos colectivos ou individuais. 

Para mim tratou-se de uma estreia auspiciosa de um autor deveras apreciado como o grande romancista espanhol da actualidade. 

"Assim começa o mal e o pior fica para trás" é o que diz a citação de Shakespeare que parafraseara para se referir ao benefício ou conveniência, prejuízo comparativamente menor de renunciar a saber aquilo que não se pode saber. Segredos perpassam toda a trama num suspense que desassossega quem procura desvendar nos cenários o mistério que influencia no tempo a vida do casal de protagonistas: Eduardo Muriel e Beatriz Noguera. A açao passa-se em Madrid na década de 80 à medida que o narrador Juan de Vere contextualiza o que se passou. O médico Van Vehten, personagem secundária está ligada a um segredo que Juan é incumbido de saber.

A desdita de um casamento que durante anos assentou numa mentira que quando revelada nada pode suster. O segredo que procurei descortinar sem atinar. 

Lentamente é explorada a curiosidade e encaminhado o leitor numa reflexão profunda sobre o mal de uma sociedade após uma ditadura e a memória de abusos e vilanias que ao encolhermos os ombros deixamos o pior para trás porque é passado mas aquiescemos ao mau que é aquilo que está por vir. 

Romance marcante para a altura certa. Altamente recomendado mas com parcimónia.