sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Dez Anos Depois



Autor:Liane Moriarty
Edição: 2011/ junho
Páginas: 424
ISBN: 9789722345354
Tradutor: Ana Lourenço
Editora: Presença

Sinopse:
Quando, aos trinta e nove anos, Alice Love dá uma aparatosa queda numa aula de step, a última década da sua vida parece ter-se apagado por completo da sua memória. Tem novamente 29 anos, está apaixonadíssima pelo marido e à espera do primeiro filho. Só há um pequeno problema: tudo isto se passou há dez anos… No presente, Alice é mãe de três filhos, enfrenta um difícil processo de divórcio e está de relações cortadas com a irmã, que adora. Conseguirá alguma vez reencontrar a mulher que foi na fase mais feliz da sua vida?


A minha opinião:
É inevitável pensar como me sentiria se perdesse dez anos da minha memória e que coisas me iriam surpreender. Os filhos esquecidos enquanto indivíduos com as suas próprias personalidades, peculiaridades e histórias. E tantas pessoas que entraram e saíram da minha vida seriam apagadas.

Muito estranho, mas realizar uma história divertida, credível e empolgante é um feito para Liane Moriarty. Não tão brilhante quanto O Segredo do Meu Marido ou Pequenas Grandes Mentiras, que suponho que sejam livros posteriores, mas ainda assim a capacidade narrativa, eloquência e o carisma das personagens que prendem o leitor está lá. E não ficam pontas soltas. Tudo bem desenvolvido e resolvido sem maçar. 

Uma leitura reconfortante, como por vezes eu gosto e preciso. 

Alice Love te, uma nova oportunidade de mudar de rumo e quantos de nós não gostariamos disso?

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Carne

Autor: Rosa Montero
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 192
ISBN: 978-972-0-03013-9
Tradutor: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espetáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante.

No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô, trinta e dois. Começa o jogo…

A narração desta aventura irá mesclar-se com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional - e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?

Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento.

A minha opinião:
Demorei a conseguir ler este romance. A sinopse pareceu-me promissora mas a oportunidade  não surgiu antes e apenas nesta atribulada fase em que os afazeres e inquietações são muitos foi possível concretizar este desejo. Com este romance, a escritora/jornalista entrou definitivamente na minha lista do autores que não dispenso de ler. 

A necessidade de amor, o abismo do desamor, a raiva e glória da paixão, contemplados na exposíção sobre Escritores Malditos que a curadora de arte se preparava para apresentar ao mundo e que intercala em pequenos curiosos excertos na narrativa vibrante e mordaz do seu relacionamento com Adam, o gigolo, também eles malditos.

Soledad sente a inexpugnável passagem do tempo e o apelo da carne de uma forma que não pode deixar de exteriorizar com humor e mágoa. A parafernália de truques e produtos para retardar o envelhecimento e combater as maleitas que por medo ou debilidade se ganham muito me divertiu. Soledad é uma mulher como tantas outras e certamente este romance tem um pouco de autobiográfico, no que concerne à pressão social, o isolamento e a solidão de certas mulheres, nomeadamente mulheres de carreira. Adam, o gigolo não é o tipo de personagem que eu esperava encontrar. Surpreende e desarma mas não cativa. O apelo e a empatia/ antipatia com este livro depende exclusivamente de Soledad.

Rosa Montero aparece como personagem secundária (com algum relevo) na trama de Soledad Alegre, que bem se poderia chamar Crónica do Desamor.

Tr
epidante, e lúcido, numa escrita desarmante e envolvente é profundamente sentido, pelo menos para mim. Recomendo sem reservas.

O Segredo da Minha Mãe

Autor: J. L. Witterick
Edição: 2018/ março
Páginas: 208
ISBN: 9789898869791
Tradutor: Marta Mendonça
Editora: TopSeller

Sinopse:
Contada de quatro perspetivas diferentes, esta é a história comovente de duas mulheres que serão recordadas pela sua tremenda coragem e humanidade.

Em 1939, as tropas de Hitler invadem a Polónia e põem em marcha uma perseguição desumana ao povo judeu. Todos sabem que proteger judeus num país ocupado pelos nazis é uma sentença de morte.

Mas Franciszka e a filha, Helena, movidas por um profundo sentimento de justiça e respeito pela vida humana, decidem arriscar tudo para abrigar duas famílias judaicas e um soldado alemão desertor na sua modesta casa em Sokal. Uma das famílias fica escondida numa cave improvisada por baixo da cozinha. A outra, num palheiro por cima da pocilga. O soldado fica num sótão exíguo.

Para que todos possam sobreviver, Franciszka e a filha terão de ser mais astutas do que os vizinhos e do que os temíveis comandantes alemães, que montam guarda em frente à casa. As duas mulheres estão dispostas a tudo para salvá-los, o que implica não só escondê-los e alimentá-los, mas também conseguir manter acesa dentro deles a chama da esperança.

A minha opinião:
Não pensei que pudesse gostar tanto deste livrinho comovente e inspirador. A Segunda Guerra Mundial é um tema de sofrimento que me incomoda muito e não procuro ler, mesmo tratando-se de ficção. Este maravilhoso livro foi inspirado numa história verídica de nobreza de espírito, inteligência e coragem. Pessoas extraordinárias que confirmam que o amor é a única coisa que se recebe em maior quantidade do que se dá.

O segredo da minha mãe com quatro singelos testemunhos ligados entre si lê-se como se fosse poesia, que deveria ser lida por qualquer um como leitura obrigatória. 

Sem mais a acrescentar porque a sinopse não ilude, sugiro que entrem na leitura como eu o fiz. Sem expectativas e relativa informação. Certamente que irão gostar. 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Trânsito

Autor: Rachel Cusk
Edição: 2018/ julho
Páginas: 232
ISBN: 9789897224454
Tradutor: Ana Matoso
Editora: Quetzal 

Sinopse:
No rescaldo do colapso da família, uma escritora e os seus dois filhos mudam-se para Londres. Essa perturbação vai ser o catalisador de uma série de transições - pessoais, morais, artísticas e práticas -, à medida que ela, Faye, se esforça por construir uma nova realidade para si e para os filhos. Na cidade, é confrontada com aspetos da realidade que sempre tentara evitar - aspetos de vulnerabilidade e poder, de morte e renovação. Esta é a luta para se religar a si própria e à sua crença na vida.

Neste segundo livro de um preciso, curto e ainda assim épico ciclo, Cusk capta com inquietante contenção e honestidade o desejo de habitar uma vida e ao mesmo tempo abandoná-la, e a tortuosa ambivalência que anima a nossa necessidade do real.

A minha opinião:
Mais uma estreia. Não comecei pelo primeiro - A Contraluz, mas antes pelo segundo desta triologia, atraida pela sinopse e pelo título. 

Quando algo não foi concluido ou está a  decorrer, em tom de brincadeira digo que está em Trânsito. Por isso, este título faz todo o sentido tratando-se de uma mudança de vida após um divórcio em que a personagem/ narradora saí do campo para a cidade de Londres, decide comprar uma casa má num lugar bom e descobre o mal nos vizinhos. A premissa começa com um email de uma astróloga que alega saber da sua situação e pode ajudá-la a tirar proveito.

A análise das circunstâncias banais do quotidiano e de si mesma como se contemplada à distância, sem grandes rasgos emocionais, é fascinante e dei por mim absorta num romance que não tem muita ação, nem enquadramento ou previsiel desfecho. Decorre e pronto. Simples assim mas muito eficaz. E bem escrito. Elegante introspeção que nos leva à reflexão. Gosto disso. Recordou-me alguns romances que li de Julian Barnes. 

Fiquei com muita vontade de ler o romance que se segue e espero que não demore muito porque Faye ficou na minha cabeça. Uma mulher só. Retrato atual e acutilante. Uma vida sem história. Narrativa forte e pertubadora em que "observamos" gestos e maneirismos, competitividade, ansiedade, raiva e alegrias, sobretudo em necessidades tanto fisicas como emocionais. Padrões de comportamento.

Muito bom mas não para todos ou em qualquer momento. Um livro que requer disponibilidade.

sábado, 1 de setembro de 2018

Ala Feminina

Autor: Vanessa Ribeiro Rodrigues
Edição: 2018/ março
Páginas: 272
ISBN: 9789898892041
Editora: Desassossego

Sinopse:
Pode a reclusão revelar mistérios da condição da mulher?


O que têm em comum uma colombiana, uma romena, uma angolana, uma venezuelana, uma uruguaia, três brasileiras e nove portuguesas? Para elas, a liberdade é um desejo que carregam na mente, livre para sonhar, com o corpo preso num cárcere, labirinto entre o Rio de Janeiro, o Porto e Lisboa.

São mães, vaidosas, filhas, amantes, sonhadoras, escrevem cartas, leem livros, amam. São barqueiras invisíveis entre dois mundos: o mundo cá de fora e um céu gradeado. Este é mais do que um livro-reportagem, é a intuição subjetiva a partir de conversas com mulheres privadas de liberdade: os medos, os desafios, as conquistas, os desabafos, a ânsia de ser livre.

A minha opinião:
Fiquei curiosa quando percebi que este livro de não ficção era sobre mulheres reclusas. "Tendemos a olhar o mundo e os outros com as lentes da nossa própria condição. Com a fronteira dos nossos próprios caminhos e limitações. Temos uma lente que é a nossa construção social. E isso é sempre limitador ou indagador."  (pag.71)  

A minha consciência indagadora e limitada levou-me a ler este livro. A abrir o meu prisma sobre a condição destas mulheres. "Sonhos, ansiedades, dificuldades, tempo ocupado, reinserção social, criminalidade" (pag. 106) violência e dor. Em suma, a condição feminina em reclusão, porquê e como subsistem.  

O peso do tempo fechada. "O tempo, sempre o tempo, precioso traiçoeiro se não ocuparem os dias. Uma faca de dois gumes, uma densidade que impõe a inércia e a autodestruição." (pag.107) (PELE, Afroreggae e Reklusas). Projectos ocupacionais e não só. Tantos testemunhos apurados em sete anos entre lá e cá do Oceano Atlântico. Na sua essência muitos são semelhantes. Lamento, engano, culpa, mas nunca desapego afectivo que dá alento, esperança e disponibilidade para a mudança ao sairem.

Fragmentos de histórias escolhidas. De azar, ambição e ilusão. Narrativas paralelas. Desabafos de alma. A forma de ver, pensar e sentir da jornalista que compôs este livro com intenção de dar voz às margens. Simples e cru, em passagens quase poéticas, deve ser lido para sentir o pulsar destas mulheres tão genuinas e humanas. 

Apesar disso, não correspondeu às minhas expetativas. Não deve ser lido de seguida porque se torna um tanto repetitivo, monocromático como a capa. Por outro lado, talvez não tenha sido o meu melhor momento para o ler. Não deixem por isso de o experienciar.