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quarta-feira, 27 de março de 2019

Lealdades

A minha opinião:
Belíssima capa. Apropriada a um livro que se deve ler devagar, porque as palavras têm poder de ressoar e dar um nó cá dentro.

Acho que muitos pais, ressentidos um com o outro, deveriam ler este livro. Iriam perceber as consequências das suas palavras e dos seus actos. 

Opressivo. É essa a sensação que nos atinge com estas quatro personagens que se sentem encurraladas nas suas vidas. Hélene (vitima de maus tratos) a professora que capta o que o aluno Théo cala. O melhor Mathias, alinha num terrível esquema e Cécile, a mãe deste, que percebe que algo se passa, inquieta com um segredo tenebroso do marido. Todos eles leais e sobre esse prisma a primeira página deste livro é brilhante. Voltei a ela várias vezes.

Delphine de Vigan é uma extraordinária escritora e os seus romances não visam apenas o entretenimento. Suponho que seja o que definem como romances de intervenção. Depois de ler, nada permanece igual. Desafio alguém a ler este livro sem ficar perturbado. É uma pena, certos livros não serem mais publicitados e não terem a visibilidade ou protagonismo que merecem. 

Muito, muito, muito bom!

Autor: Delphine De Vigan
Tradução: Tiago Marques
Edição: 2019/ fevereiro
Páginas: 168
ISBN: 9789896168711
Editora: Gradiva

Sinopse:
Este é um livro que, com profunda sensibilidade, explora mundos distantes que, afinal, têm muitos pontos em comum: a infância e a vida adulta, a autodestruição e a salvação abnegada, o sofrimento e a busca pela felicidade.

Através de uma narração caleidoscópica, Delphine de Vigan apresenta-nos o drama das relações humanas, com tudo o que estas têm de mais negro e de mais belo.

Lealdades, assente no equilíbrio de contrapontos, é um verdadeiro romance psicológico dos nossos tempos.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Partir de Uma História Verdadeira

Autor: Delphine De Vigan
Edição: 2016/ maio
Páginas: 400
ISBN: 9789897222993
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.

A minha opinião:
Este é um romance que me perseguiu desde o momento em que o vi. Mas resisti. Achei precoce. Nada sabia de si e poderia revelar-se frustrante, exigente, denso ou maçador.  Uma má aposta. Aguardei algum feedback que acabou por surgir e das mãos de uma boa amiga me foi entregue.

Inquietante e perturbador. Quão vulneráveis podemos ser perante uma mente intuitiva e empenhada que não descura os pormenores para conseguir os seus intentos sem que seja observada ou travada? Quanto podemos ser manipulados e confundidos para nos conduzirem onde se pretende? Duas questões que se colocam enquanto lemos este romance.
O nome da personagem/ narradora é o mesmo da autora e o título induz em dúvida em boa parte da narrativa. Brilhante premissa que mantém o  suspense e a dúvida. L. não tem nome próprio, é apenas uma inicial como se não pudesse ser nomeada para não se materializar. Muito é revelado de autobiográfico, como referido em:

"Julgo que as pessoas sabem que aquilo que escrevemos nunca nos é totalmente estranho. Sabem que há sempre um fio, um motivo, uma falha, que nos liga ao texto. Mas aceitam que substituamos, que condensemos, que desviemos, que alteremos. E que inventemos."  (pag. 88) 

Mas há mais. A natureza do trabalho de um escritor. Os livros que se impõem sem escolha. E as dúvidas que o assaltam. O real ou a ficção. A vida real que pode ser mais audaciosa, criativa ou a inventada como todo o colorido que se conseguir imaginar?!

Um romance de que não me apartei mesmo quando interrompia a leitura. Uma narrativa fulgurante e mais não conto.