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domingo, 10 de janeiro de 2016

Um Estranho no Coração

Autor: Eduardo Sá
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 232
ISBN: 9789892333847
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Sentado num café, com o mar ao fundo, Gaspar sente a mão a tocar-lhe de leve no ombro, ouve a voz que não identifica e o chama. Vira-se para trás, leva algum tempo a reconhecê-la, assim tão pálida, escondida atrás dos óculos escuros. É a Luísa.

Viu-a pela última vez vai para 42 anos, toda uma vida. E agora ali está ela, à sua frente, a sentar-se à sua mesa, como se fosse ontem. E tira os óculos. E os olhos encontram-se, a unir pontas que um dia se partiram, num verão distante, naquela mesma Nazaré. 

O coração de Gaspar aperta-se. É um coração velho, que já não serve. Gastou-o numa vida sem amor. E agora espera por um novo, um transplante, um milagre que lhe prolongue o prazo de validade. Agora mais do que nunca. Porque ela está ali, trazendo consigo a promessa de um futuro que não sabe se tem. Ou se algum dia terá.

Romance de amor, de memórias, de reflexões, Um Estranho no Coração revela-nos uma faceta inesperada de Eduardo Sá. O contador de histórias continua presente, em cada página, em cada personagem. Mas desta vez usa como fio condutor uma única história, a de Gaspar; e nela projeta as suas (e as nossas) dúvidas, as decisões que tomamos, os desvios do caminho, as paragens sem porquê. E se nos oferece o balanço de uma vida vivida a medo, oferece-nos também uma ideia redentora: a segunda oportunidade, o eterno retorno.

A minha opinião:
Um observador da vida que ousa escrever um romance que inquieta porque fala ao coração dos muitos que não se lembram que o têm. 

Vários aspectos do real se cruzam nesta trama sempre focada na vida interior de um homem maduro que questiona toda a sua vida quando descobre que o seu coração pode falhar se não for substituído por um outro, de um estranho, numa fase da sua vida em que voltou a amar a única mulher que nunca deixou de amar. O bater do seu próprio coração lhe parece estranho.

Percebe-se obviamente a faceta de psiquiatra do autor com as muitas historias presentes na vida de Gaspar e os muitos considerandos que tece sobre si e sobre os que o rodeiam, numa tentativa de nos levar a refletir sobre questões que normalmente andam arredadas do nosso pensamento. 

Confuso consegue ser, como o pode ser um livro que procura explorar e expor sentimentos e emoções. Aprecio Eduardo Sá e não desiludiu. Contudo, não posso deixar de alertar que não se trata de uma leitura linear ou fluída. Um livro de esperança e consciência do bater do coração, antes que seja tarde demais.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Nunca se perde uma paixão

Autor: Eduardo Sá
Edição: 2011, Outubro
Páginas: 280
ISBN: 9789722046411
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Histórias e ensaios sobre o amor. Um livro que nos faz descobrir que «a segunda prioridade de toda a vida é conquistar um grande amor. A primeira, nunca o perder.» «Todo o amor é tímido. E excêntrico, talvez. Não se previne nem se explica. Por tudo isso, não sei se deva escrever sobre o amor. (...) Este livro apanhou-me desprevenido. E talvez só isso tenha feito, tomado por hesitações, aventurar-me nele. Porque é assim - suponho eu - que, em todos nós, se vive qualquer amor: de forma singular e com a descontracção que só se tem diante dos gestos com qualquer coisa de banal.
Por isso mesmo, não há como escrever sobre o amor. Será mais ele que nos escreve a nós.»

A minha opinião:
Estou sem palavras perante a eloquência do autor, que não sendo anónimo (algumas vezes já nos entrou pela casa dentro - não tanto a minha, porque foram raras as vezes que coincidimos horários),  apela a uma lucidez (quem é que consegue ser lúcido a escrever sobre paixão e amor entre outros assuntos) e humor para me deixar a sorrir ou a "matutar . Sentir o autor como um amigo próximo é algo de muito estranho que não me recordo de ter sentido antes, enquanto lia não sei se um diário, um livro de ficção ou um ensaio. Em suma, um livro sobre os pára-raios.
Não sei se será pretensioso escrever um comentário sobre um livro de alguém que tão bem transmite ideias, emoções e sentimentos para o papel. Sábio e simples. "Todos nós nos desencontramos para o amor. (Menos os psicanalistas...)".

Vejo-me na iminência de ter que reler todo o livro para melhor compreender, absorver e consolidar do muito que este livro me deu. Não pela novidade mas pela maturidade.
Para melhor o compreenderem vou tentar acrescentrar alguns extractos que vou reler.

"Muitas vezes - mesmo, muitas vezes - eu acho que as pessoas confundem ânsia com angústia. Ânsia é uma espécie de "tenho pressa de viver"; angústia tem uma aragem de um qualquer "tarde de mais". Gosto das pessoas que transbordam ânsia, reconheço.  Amam a vida, sobre todas as coisas"
(Eu também!)                                                                pag. 12

"Acho eu, agora, que ou temos memória ou temos saudade. A memória é um estado de espírito amigo do futuro. A saudade um "oh tempo, volta para trás", vizinho dos remorsos, sem a aragem, guerreira, com que só a memória nos consegue aconchegar. Na verdade, talvez não haja memória sem esperança.E vice-versa. Ou melhor: memória é esperança. E nada mais.
Viver é, realmente uma questão de tempo.  Mas só o namoro o torna eterno."
                           pags. 29 e 30

"O silêncio é o melhor amigo da angústia. ... São sentimentos que foram atropelados pela falta de palavras e ficaram na tal despensa dos pensamentos por pensar. Mas como dos ressentimentos há um único degrau a separá-los, amealhamos pequenas iras que jogamos, a pretexto dum motivo ridículo...anos depois. E, quando é assim, divorciamo-nos, em suaves prestações. Nunca nos divorciamos sózinhos, como vê. Mas divorciamo-nos por falta de namoro e de colo. E - sempre! por mútuo consentimento.
                              pags. 34 e 35

"... o pó dos dias, descuidos e desamparos..." (adorei!!!)
                      pag.  35

"Uma paixão torna-nos mais inteligentes e mais patetas. Mais inteligentes, porque sempre que pensamos de dentro para fora par fora de nós (e a dois, ao mesmo tempo) pensamos melhor. Depois... com o que o amor nos habilita, torna-nos mais claros, mais audazes e muito mais clarividentes. Finalmente, porque o amor nos serena por dentro. Mas torna-nos, também mais patetas: porque ficamos mais transparentes quando amamos. E todos os nossos pequenos disfarces se desmoronam, dando lugar a um lado mais espontâneo e mais autêntico de nós, mais aberto ao brincar e aos gestos de ternura, por mais que eles pareçam mais ou menos desajeitados e impulsivos, até." 
                        pag. 151