domingo, 22 de novembro de 2015

Pura Coincidência

Autor: Renée Knight
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 304
ISBN: 9789898775757
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa-de-cabeceira um livro de título O perfeito desconhecido.

Não sabe como terá ido parar ao seu quarto ou quem o terá ali posto. Ainda assim, começa a lê-lo e rapidamente fica agarrada à história de suspense. Até que, depois de ler várias páginas, chega a uma conclusão aterradora: NÃO É FICÇÃO. O perfeito desconhecido recria vividamente, sem esquecer o mais ínfimo detalhe, o fatídico dia em que Catherine ficou prisioneira de um segredo terrível. Um segredo que só mais uma pessoa conhecia. E essa pessoa está morta.

A minha opinião:
O que dizer de um livro quando este é tão bom e nos deixa sem palavras? O que escrever quando quando nos faz sentir muito mais do que esperávamos e ficamos sem saber por onde começar sem revelar demasiado?

"Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidênciaé frase final deste romance que me atingiu como uma bofetada, depois de perceber onde este bem conseguido thriller psicológico me levou com as diferentes graduações e palpitações sentidas pelas personagens, que à vez vão tendo voz desde que aquele maldito livro surgiu nas suas vidas. Diferentes perspectivas com diferentes ângulos sobre factos que os protagonistas não podem ou optam por não revelar. Fotos são os resquícios que sobraram e deram origem a um livro ficcionado.

Catherine é uma mulher bem sucedida e com uma vida familiar estável até que "O Perfeito Desconhecido" surge na sua vida e a obriga a recuar vinte anos atrás e procurar quem a persegue com aquele segredo vergonhoso. Neste processo, como leitores bem informados, vamos entrando na cabeça e motivações do coautor e promotor do livro, bem como na da vitima, num crescendo de ansiedade. 

E neste enredo, de capítulos pequenos, frases curtas, palavras de acção encontrei uma leitura inquietante mas imparável. Controlo de dados e emoções em narrativas bem interligadas e ajustadas para não se perder a fluência e o ritmo da história que nos surge numa capa chamativa com um bom titulo. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Pequenas Grandes Mentiras

Autor: Liane Moriarty
Edição: 2015/ maio
Páginas: 480
ISBN: 9789892330945
Editora: ASA

Sinopse:
A vila costeira de Pirriwee é um bom lugar para viver. As ruas são seguras, as casas são elegantes, e os seus habitantes distintos. Bom… quase todos…

Madeline é tudo menos perfeita. Para começar, recusa-se a viver para as aparências e não se coíbe de dar a sua opinião (principalmente quando não é pedida). O seu lema "Nunca perdoar. Nunca esquecer." vai ser inesperadamente testado ao limite.

Celeste tem o tipo de beleza que leva as pessoas a parar na rua. 
É tão serena que ninguém repara que por detrás dos seus magníficos olhos se escondem sombras negras. Nem as suas melhores amigas sabem o que se passa quando a noite cai.

Jane acabou de chegar. Ao fim de anos a tentar encontrar um lar, a idílica vila parece ter tudo o que procura… e até já conseguiu fazer duas amigas, cujas vidas perfeitas, espera, venham a ter uma boa influência sobre si. É mãe solteira e tão jovem que, no recreio da escola, a confundem com uma babysitter. Mas a sua inocência há muito que se perdeu. 

Um acidente vai unir estas três mulheres numa amizade aparentemente indestrutível. Pelo menos, até à noite da festa. Na vila, nada mais será como antes. São muitas as versões mas o facto indiscutível é que houve uma morte. Como aconteceu? Quem viu? Acima de tudo, quem morreu?

A minha opinião:
BRUTAL!
A palavra que me ocorre imediatamente após terminar a leitura. A historia continua a "martelar-me" no cérebro com tantos significativos episódios e muitos detalhes tão banais e plausíveis, que nos passam despercebidos no quotidiano, mas que a autora recolheu para criar um enredo forte pela credibilidade dos acontecimentos e das personagens, que tomamos como nossas amigas e conhecidas nas suas peculiaridades e angustias (algumas podemos reconhecer como nossas, identificando-nos com as personagens).     

"Isto pode acontecer a qualquer pessoa."

Pois pode e acontece!

As historias não são tão preto e branco como as letras impressas nas paginas de um livro e as vitimas de actos cruéis, sádicos e egoístas não se parecem de todo com a imagem que esperaríamos que tivessem. Protegem-se com pequenas grandes mentiras e reagem como se a vida fosse perfeita até que tudo desabe. 
Acasos e equívocos num desfecho desejável onde a amizade prevalece numa pequena comunidade idílica. 

Quando leio uma historia assim fico sempre a pensar na extraordinária capacidade de transpor em palavras um enredo que se formou na mente criativa de quem a concebeu. E mais não escrevo porque não tenho esse dom.   

domingo, 8 de novembro de 2015

O que ela deixou para trás

Autor: Ellen Marie Wiseman
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 352
ISBN: 9789897101861
Editora: Chá das Cinco

Sinopse:
luminado e provocador, este é um romance sublime sobre o desejo de pertença e os mistérios sob as vidas mais comuns. 
Há dez anos, a mãe de Izzy Stone disparou sobre o seu pai enquanto este dormia. Arrasada pela insanidade da mãe, a jovem recusa-se a visitá-la na prisão. Para a ocupar, os seus pais de acolhimento inscreveram-na como voluntária num asilo público. Ali, no meio de pilhas de pertences sem dono, Izzy descobre um molho de cartas por abrir, um jornal antigo e uma janela improvável para o seu passado.

Clara Cartwright, com 18 anos em 1929, está encurralada entre os seus pais superprotetores e o amor por um italiano. Irado por Clara recusar um casamento arranjado para ela, o pai coloca-a num lar sofisticado para pessoas nervosas. Mas, quando a sua fortuna se perde com o crash de 1929, não consegue suportar os custos do lar e Clara é enviada para um asilo público.
A história de Clara mergulha Izzy num passado cheio de enigmas. Se Clara, na verdade, nunca foi doente mental, poderia explicar-se de outra forma o crime da sua mãe? Completar as peças deste puzzle do passado conduz Izzy à reflexão sobre a sua própria vida e a questionar-se sobre tudo o que pensava saber e acreditar.

A minha opinião:
Nunca o proverbio "Não se pode julgar um livro pela capa", fez tanto sentido para mim. Um claro exemplo de que não podemos julgar uma obra pela imagem exterior. Um romance bem estruturado e definido, brilhante pela carga psicológica, com uma capa nada adequada. Uma jovem sonhadora e rica pode espelhar "Clara Cartwright, com 18 anos em 1929" mas não me parece que seja esta a moda da época, e tem pouco ou nada a ver com a narrativa de uma jovem sã internada num sanatório estatal lotado e com difíceis condições. Presa devido a uma educação severa que reprimia sem amar, um numero entre a multidão de esposas, mães, irmãs e filhas descartadas e esquecidas.   

Izzy é a outra jovem protagonista desta narrativa, com um passado marcado pelo assassinato do pai pela mãe. Nada romântico mas muito realista. O assombroso passado de Clara revela o o mistério do doloroso passado de Izzy com consequências que não contamos e que nos tiram o fôlego e obrigam a pausas dada a violência das cenas descritas (pouco comum num romance como o que esperamos com esta capa). A crueldade humana priva-nos de lucidez e é intemporal. Bullying e ... algo mais que não revelo. 

Um romance que inesperadamente nos marca sobre duas jovens que admiramos. O final compensa. Mas até lá chegarmos o que penamos na companhia de Clara, ou alternadamente na companhia de Izzy. MARAVILHOSO E INEBRIANTE!!!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Esta Noite, Fala-me de Amor

Autor: Elin Hilderbrand
Edição: 2015/ maio
Páginas: 360
ISBN: 9789892330921
Editora: ASA

Sinopse:
Esta noite, fala-me de amor, porque esta noite pode ser a última...
A adorável Dabney Kimball Beech é uma lenda viva na ilha de Nantucket. Dabney estudou em Harvard e é uma profissional de sucesso. Mas o seu grande talento é outro: graças a um dom que muitos consideram místico, ela é a casamenteira perfeita. Quando duas pessoas são compatíveis, Dabney vê-as sob uma aura cor de rosa; quando não são, o tom que as envolve é um desolador esverdeado. Ela já juntou mais de quarenta casais. Apenas uma pessoa parece teimosamente imune à sua seta de Cupido: ela própria.

Por mau carma ou piada cósmica, Dabney perdeu o seu grande amor: Clen Hughes, o belíssimo homem de olhos verdes que lhe partiu o coração e que agora, tantos anos depois, está de volta à ilha. A notícia deixa-a inquieta. A mera perspetiva de um reencontro é suficiente para lhe tirar o sono… e com razão. Clen vem virar o seu pequeno mundo do avesso, algo que é simultaneamente maravilhoso e terrível.
Os deliciosos dias e noites que passam juntos não deixam antever a tempestade que se aproxima. No fim, Dabney terá de fazer novamente uso do seu dom… numa corrida contra o tempo.

A minha opinião:
Gosto de finais felizes. E gosto de romances que me proporcionam bons momentos de entretenimento em que posso esperar um final feliz como recompensa pelas circunstancias difíceis que as personagens tiveram que enfrentar. E com o castigo dos maus na trama, claro. 

Mas nem mesmo nos romances temos o final que projectamos e ansiamos. Não significa que não seja um bom final, lógico e razoável, mas não a recompensa esperada dos bons com a punição dos maus. Neste livro temos um romance de encantar com uma personagem de excepcionais qualidades humanas e alta sensibilidade, mas com uma limitação diretamente relacionada com o abandono da mãe em criança (por esta se sentir incapaz de manter uma vida familiar tão insignificante), como sair da ilha de Nantucket para seguir o amor da sua vida Clen. Com o regresso deste, toda a sua vida balança, e a filha entra na confusão, com um pai que sabia mas não conhecia, e um noivo possessivo e controlador a disputar a sua atenção. Um romance tão banal mas envolvente e terno, em que os sentimentos se sobrepõem a tudo o resto e justificam escolhas que podem ser cruciais. 

Parece um romance leve e fútil mas tem muito que se lhe diga. Com um moral a reter e valores a refletir. E tanto para sentir. Gostei muito e não me importo de repetir. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Também Isto Passará


Autor: Milena Busquets 
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 120
ISBN: 78-989-87-5289-5
Editora: Jacarandá

Sinopse:
Quando Blanca era pequena, para a ajudar a ultrapassar a morte do pai, a sua mãe contou-lhe uma lenda chinesa. Uma lenda sobre um poderoso imperador que convocou os sábios e lhes pediu uma frase que se aplicasse a todas as situações possíveis.

Depois de meses de deliberações, os sábios apresentaram uma proposta ao imperador:«Também isto passará.» E a mãe acrescentou: «A dor e a mágoa passarão, como passam a alegria e a felicidade.» Agora morreu a mãe de Blanca, e este romance, que começa e termina num cemitério, fala da dor da perda, do peso dilacerante da ausência.

Milena Busquets transforma experiências pessoais em literatura e, partindo do íntimo, consegue criar um romance que rompe fronteiras. Através da história de Blanca e da doença e morte da sua mãe, das relações com os amantes e as amigas, combinando prodigiosamente profundidade e leveza, a autora de Também Isto Passará, fala-nos de temas universais.
A dor e o amor, o medo e o desejo, a tristeza e a vontade de sorrir, a desolação e a beleza de uma paisagem em que se entrevê fugazmente a mãe falecida a passear junto ao mar. Porque aqueles que amámos não podem simplesmente desaparecer.

A minha opinião:
A temática dor da perda e o peso dilacerante da ausência não é de todo o tipo de leitura que procuro mesmo que ficcional. Sentimentos profundos e intensos fazem eco em corações magoados com narrativas plenas de sentido. 

A acção passa-se em Cadaqués, localidade catalã da província de Girona. Um lugar deslumbrante e acolhedor, como que um porto de abrigo para a personagem Blanca, que regressa com filhos, ex-maridos e amigos num processo de luto e balanço de vida. A mãe que faleceu após prolongada doença, doença essa que a transfigurou completamente como a mulher que era, deixa a filha devastada apesar da convivência ter sido marcada por uma relação de amor-ódio. 

Narrativa agridoce e acutilante que toca em factos da atualidade que urge refletir. Amor incondicional e absoluto, relacionamentos vários, e valores que se transmitem aos que nos sucedem na vida. Um bom exemplo da linguagem utilizada, sem subterfúgios ou subtilezas é o excerto abaixo (e com isto, fico por aqui neste meu comentário).

"Por vezes interrogo-me sobre o que acontecerá quando esta nova geração de crianças, cujas mães consideram a maternidade uma religião (...mulheres cujo único interesse e preocupação e razão de ser são os filhos, que educam como se eles estivessem destinados a reinar sobre um império, que inundam as redes sociais com as fotografias dos seus rebentos, não apenas de aniversários e viagens, mas dos filhos na sanita ou sentados no penico - não há amor mais impudico do que o amor maternal contemporâneo), crescer e se transformar em seres humanos tão deficientes, contraditórios e infelizes como nós, talvez mais até, porque não me parece que se possa sair ileso de ser fotografado a cagar."                                                                                                                               (pag. 111)

sábado, 10 de outubro de 2015

A Vinha do Anjo

Autor: Sveva Casati Modignani
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 384
ISBN: 9789720047755
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Longas filas de videiras estendem-se pelas colinas suaves de Borgofranco. Há dois séculos que a família Brugliani é proprietária daquele antigo burgo e das vinhas, tratadas com paciência para delas extrair vinhos preciosos e únicos. Aos 35 anos, Angelica é a herdeira da tradição e do património familiar. Mãe, esposa, empresária de sucesso: tudo parece perfeito na sua vida. Só ela sabe que por detrás daquela fachada se esconde um mundo sombrio, feito de mentiras - as do marido - e de sonhos pueris.

Numa noite, em que conduzia a sua moto e sentindo-se dominada pela amargura e pelas lágrimas, Angelica não se apercebe de que o carro à sua frente está a travar. O choque é violento, mas felizmente sem consequências graves, quer para ela, quer para o condutor do automóvel, Tancredi D'Azaro. Angelica não sabe ainda que aquele homem é um dos chefs mais aclamados em todo o mundo. E ambos ignoram que, depois daquele encontro fugaz, o destino voltará a entrelaçar os seus caminhos, suscitando a tentação de um novo começo. É então tempo de fazer escolhas, tendo em conta o peso do passado e as responsabilidades do presente - porque a vida é feita de sonhos e paixões.
A Vinha do Anjo conta-nos a história envolvente de uma família e de uma tradição milenar, o retrato de uma protagonista fascinante no qual se reveem muitas das mulheres empreendedoras e corajosas que anonimamente constroem as nossas sociedades.

A minha opinião:
Gosto muito dos romances da Sveva. Uma fraqueza minha mas não perco um. Gosto mais de uns do que de outros, mas gosto sempre. Com o tanto que gosto de ler e de variar em estilo e género, seria de supor que esta fraqueza estaria ultrapassada há muito, mas sempre que se aproxima um novo romance desta autora, eu apresso-me em ler. 

Gosto de romances sobre mulheres. Mulheres que sofrem mas resistem, endurecem e vingam. Mulheres que se perdem e se encontram. Amam e sofrem e voltam a amar. Mulheres com uma carreira profissional e uma família com quem se preocupam e cuidam. Mulheres privilegiadas mas que não se acomodam. Mulheres independentes e com interesse porque se interessam. Este é o universo dos romances da Sveva que eu tanto prezo. 

Angelica Brugliani é uma destas mulheres. Uma mulher do vinho e da terra, que se tinha tornado parte integrante da sua empresa vinícola, tão presente na história da sua família. Uma mulher com uma extraordinária sensibilidade que nos transmite o gosto pelo requintado prazer que obtemos de degustar um bom prato ou um bom vinho. E para isso, temos Tancredi D'Azaro, um chef de cozinha, também ele ligado às origens, que não são muito distantes das nossas, como a ligação ao sol, ao mar, ao céu, ao curso das estações, e à alegria e saber dos sentidos. Enfim... um romance envolvente e sedutor, com personagens com história e que tanto nos dizem. 

Recomendo. Como sempre.

domingo, 4 de outubro de 2015

A Vida Contada de A. J. Fikry

Autor: Gabrielle Zevin
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 264
ISBN: 9789898781468
Editora: Self

Sinopse:
A vida de A. J. Fikry não é, de modo algum, a que ele esperou que fosse. Vive sozinho, a sua livraria está a passar pelo pior momento da sua história e, agora, a sua preciosidade mais valiosa, uma rara antologia de poemas de Poe, foi roubada. Mas quando uma misteriosa encomenda aparece na livraria, a sua inesperada chegada dá a Fikry a oportunidade de mudar completamente a sua vida, e ver tudo com novos olhos.

Divertida, terna e comovente, A Vida Contada de A. J. Fikry relembra-nos a todos porque é que lemos e porque é que amamos. Este livro tem humor, romance, suspense, mas, acima de tudo, amor - amor pelos livros e amor pelas pessoas dos livros. 
Um hino à gloriosa imperfeição da humanidade.

A minha opinião:
Não sei explicar porque fiquei cismada com este livro, mas essa é a verdade. Procurei-o e coloquei-o no topo da minha lista de leituras. E uma história tão simples e despretensiosa, com personagens banais e humildes, mas com as quais nos identificamos pelas suas qualidades humanas, perdura na minha memoria e leva-me a refletir nos acasos da vida e no apego que temos por coisas e por pessoas. 

A.J.Fikry é um livreiro que escolheu sê-lo por amor aos livros e à literatura, mas a perda da sua parceira de vida e de negócios muda a sua perspetiva das coisas. Maya altera tudo. Amélia também. Não achei muito verossímil a transfiguração do rabugento Fikry, nem a extraordinária capacidade de Maya ou o romance com Amélia, mas no conjunto temos uma narrativa calorosa e acessível que nos transmite confiança e otimismo, apesar do final.  

A livraria Livros da Ilha na Ilha Alice é o cenário onde se dão os principais acontecimentos e ponto de encontro de pessoas com afinidades que desconheciam. Local de veraneio que fora da época ganha vida literária. Um hino aos livros, em que o e-book não foi esquecido.

"As palavras que não conseguimos arranjar, pedimo-las emprestadas. 
Lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Lemos porque estamos sozinhos. Lemos e não estamos sozinhos. Não estamos sozinhos."                                            (pag.249)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Se Eu Fosse Chão

Autor: Nuno Camarneiro
Edição: 2015/ maio
Páginas: 128
ISBN: 9789722057493
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
«Um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir. Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. Servimos os nossos hóspedes e damos-lhes a importância que merecem, ou que podem pagar. O resto pertence à justiça ou à igreja, não somos juízes nem padres. Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.»

Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue. Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de "Se Eu Fosse Chão" – diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas – contam histórias a quem as queira escutar.


A minha opinião:
Em algum momento, quem pernoita em hotéis se interroga sobre as muitas histórias, fragmentos de vidas, que se encerram entre as paredes daqueles quartos.

Que memórias preservam, boas e más, de jubilo ou de dor, angústia ou exaltação, resignação ou coragem? Que poderiam contar sobre os protagonistas? E os que lá trabalham, silenciosas testemunhas, que guardam para si?

"Um quarto de hotel é também um repositório das vidas que por lá passaram."  

Foi esta a premissa para este livro, considerando 3 épocas distintas (1928, 1956 e 2015), e passando por 51 quartos de um qualquer Palace Hotel em Portugal. Tanto para contar, sentir e refletir sobre um vasto leque de personagens que nos fazem abrandar uma leitura que se crê breve.

Um pequeno núcleo representativo de um universo muito maior, porque um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior", e a minha maior motivação para esta leitura. Como qualquer voyeur que espreita pela fechadura para vislumbrar nesgas vidas alheias e antever um filme que passa nas nossas cabeças. 

"Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um ha-de ter a sua".

domingo, 20 de setembro de 2015

Teoria dos Limites

Autor: Maria Manuel Viana
Edição: 2014/ março
Páginas: 164
ISBN: 9789898580191
Editora: Teodolito

Sinopse:
A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. 
O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.

A minha opinião:
Fazendo uso das palavras da autora, "trata-se de uma historia de algumas pessoas que constituíam uma família, que se amavam e se zangavam, que eram felizes e tristes, que riam e choravam, que se abraçavam no cemitério quando um deles partiu." O que partiu era o Escritor, uma figura central e anónima, para o qual todos convergiam pelo seu carisma, inteligência e talento, admirador de Leibniz e da sua teoria dos limites. As diferentes perspetivas de algumas destas personagens, como a Mariana (filha), Ana Sofia e Ana Lúcia (sobrinhas), João Caetano (irmão) e a mãe, mais duas personagens estranhas à família (Ana B. e Maria João), serve para provar que o todo não é a soma das partes. 

Afirmar que compreendi bem a teoria, temática do grandioso livro ficcional do Escritor, seria pretensioso e falso, considerando a minha limitada aptidão. O romance que se divide em três partes:  “O que não pode ser dito”, “O que talvez seja dito” e “O que irá ser dito”, e em que as personagens fazem a sua introspeção algo angustiante, por não ser isenta de dor, medo, culpa e solidão, não possibilita uma leitura fácil mas profunda e desafiante, que quase impõe releitura.

Escrita que não me atrevo a qualificar, merece uma leitura atenta pela dimensão do sentir, sempre muito pessoal, para quem ambiciona mais do género literário a que esta obra pertence.

domingo, 13 de setembro de 2015

Mistério na Califórnia

Autor: Elizabeth Adler
Edição: 2015/ março
Páginas: 352
ISBN: 9789897261749
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
A vida tranquila de Fen Dexter na costa idílica da Califórnia é interrompida numa noite de tempestade, quando um homem coberto de sangue aparece à sua porta, alegando ter tido um acidente de carro. Diz-lhe que vai a caminho de São Francisco para ajudar a polícia a resolver o homicídio da sua noiva. Incapaz de chegar ao hospital por causa da tempestade, ele passa a noite em casa de Fen, e a atração entre ambos é óbvia.

Na manhã seguinte, ele dirige-se ao hospital onde a sobrinha médica de Fen, Vivi, trabalha nas Urgências. Vivi está a tratar o mais recente alvo de um assassino em série cuja assinatura é deixar um bilhete a dizer «Por favor, não contes» colado sobre a boca das suas vítimas. Quando o desconhecido misterioso de Fen vai ter com Vivi para que as suas feridas sejam cosidas, ela concorda em pô-lo a falar com a polícia sobre a sua noiva. Quem é este homem, realmente? O que quer com Fen e a sobrinha? E irão elas viver o suficiente para descobrir a verdade?
Contada com o talento de Elizabeth Adler para personagens femininas incríveis e reviravoltas de tirar o fôlego, esta empolgante história irá mantê-lo em suspense... até ao fim.

A minha opinião:
Mais um romance de Elizabeth Adler que li. Uma expectável agradável leitura. Enredos cheios de acção, aventura e romance com personagens dinâmicas que nos cativam, em cenários deslumbrantes (usados como titulo) num escrita fluída e bem ritmada. As capas sobejamente conhecidas não me agradam muito, mas identificam os romances desta autora.  

Neste romance, os crimes acontecem, e a vertente policial sobressai, enquanto procuramos desvendar a identidade de um frio assassino com um determinado estereotipo feminino, qual puzzle que montamos, peça por peça, para compor o quadro final. Não foi difícil desvendar o mistério mas com personagens que cativam na sua normalidade e bom humor, segui o inspetor Brad Merlim e a sua irresistível Flyin no decorrer da investigação até que o amor consolidasse e a justiça fosse feita.

Um livro para entreter e desanuviar que cumpre o que se propõe. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Doce Tortura

Autor: Rebecca James
Edição: 2015/ agosto
Páginas: 384
ISBN: 9789898775436
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Quando Tim Ellison encontra um quarto barato para alugar num dos melhores locais de Sydney, parece um golpe de sorte: estará perto do restaurante onde trabalha e ainda mais perto do seu lugar preferido para praticar surf. Mas há uma condição para que possa arrendar o quarto: Tim terá de fazer todos os recados à misteriosa dona do quarto, uma mulher muito reservada e pouco amistosa, que nunca abandona a casa.

Tim esforça-se cada vez mais por conhecer melhor a figura inquietante de Anna. A princípio muito reservada, ela começa a revelar-se aos poucos: a sua história, a sua tristeza, os seus medos paralisantes.
É então que começam a acontecer coisas estranhas na casa: golpes a meio da noite, figuras inexplicáveis nas sombras, mensagens sinistras nas paredes. Tim assusta-se porque, ao mesmo tempo que o seu desconforto em relação àquela casa vai aumentando, crescem também os seus sentimentos pela bela e misteriosa dona da casa.
Que tipo de pessoa será Anna London: alguém que merece compaixão, alguém para amar ou alguém para temer?

A minha opinião:
Peguei neste livrinho recém chegado porque tinha um bom palpite. Que se revelou, mais um vez, acertado.

A capa agrada-me, mas o titulo nem tanto, por me parecer um tanto lamechas ou juvenil. Ao iniciar a leitura essa duvida dissipou-se, com um enredo e personagens convincentes numa tensão e suspense absolutamente inebriantes para um thriller psicológico com pequenos capítulos, que tornam a narrativa fluída e eloquente, confirmada com uma leitura frenética e absorvente.

Tim e Anna não são personagens carismáticas e interessadas mas comuns, focados nas suas limitações e problemas quotidianos. Anna é um enigma que procuramos desvendar. Agorafobia caracteriza-a mas quando e porque se desenvolveu essa patologia após o acidente de viação dos seus pais é algo que procuramos perceber nas palavras de Tim e da própria Anna.

Tim tem uma paixão não correspondida mas explorada por Lilla , personagem com matizes mais ricas pela sua vivacidade, agressividade e arrogância. Dois rígidos e emproados irmãos, únicos amigos de Anna confundem-nos no papel que desempenham na vida da jovem Anna. Uma casa impressionante e bem localizada é onde misteriosos acontecimentos tem lugar.

Enfim... Um enredo rico e bem desenvolvido que nos agarra com surpresa e onde procuramos descortinar o que sentimos no virar de cada pagina em que se percepciona dor, perda e inveja contrabalançada com a bondade e desprendimento.

Melhor do que outros do género mais promovidos. Vale muito a pena ler.