domingo, 31 de janeiro de 2016

Uma Vida à Sua Frente

Autor: Romain Gary
Edição: 2011
Páginas: 184
ISBN: 978-989-676-035-9
Editora: Sextante Editora,Lda

Sinopse:
Uma vida à sua frente é narrado por Mohammed, um rapaz árabe de 14 anos, órfão, que vive no bairro pobre de Belleville com Madame Rosa, prostituta reformada e sobrevivente de Auschwitz.

A minha opinião:
A minha opinião é pouco importante porque este livro publicado em 1975, teve êxito imediato: vendeu milhões de exemplares em todo o mundo, foi traduzido em mais de vinte línguas e adaptado para o cinema num filme com Simone Signoret. Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Goncourt. 

Perante isto, é de ler. Mais uma vez, uma boa amiga  o recomendou e emprestou. E assim se fazem as coisas. Obrigado Cristina Delgado.

Uma romance para quem tem necessidade de se imiscuir mais e mais em vidas fictícias que se desenvolvem enquanto folheamos as páginas do livro e nos deparamos com um miúdo muçulmano criado por uma judia idosa com outras crianças em idênticas circunstancias (dificuldades), e que assim  descreve a sua vida:

"Explique-lhes que a Madame Rosa era uma antiga puta que tinha regressado enquanto deportada nos lares judeus na Alemanha e que tinha aberto uma casa clandestina para filhos de puta que se podem chantangear com perda dos direitos de paternidade por prostituição ilícita e que se vêem obrigadas a esconder os miúdos, porque há vizinhos sacanas e que podem sempre fazer uma denuncia à Assistência Publica.(...) com a Madame Rosa em estado de abstinência e o meu pai que matara a minha mãe porque era psiquiátrico... E a minha mãe chamava-se Aicha e defendia-se com... e tinha até vinte serviços por dia, antes de ser morta numa crise de loucura, mas nao era certo que eu era hereditário."                         (pag. 144)

Solidariedade, solidão, velhice, sofrimento, abandono e amizade, num prédio que é uma pequena comunidade e onde diferentes pessoas convivem em harmonia e respeito e tudo isto visto pelos olhos de uma criança que interpreta e conta à sua maneira. Sem preconceitos ou tabus.

Ler para crer. E tanto para pensar.

Um prazer de ler.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Thérèse Desqueyroux

Autor: François Mauriac
Edição: 2015/ fevereiro
Páginas: 128
ISBN: 9789896232016
Editora:  Cavalo de Ferro

Sinopse:
«Thérèse Desqueyroux, órfã de mãe, educada por um pai ateu no «orgulho de pertencer à elite humana», tentou, falsificando receitas médicas, envenenar Bernard, seu marido, um ser respeitável mas frio, obtuso. Para preservar a família do escândalo, este último, grande proprietário das Landes, depôs a seu favor no tribunal; o caso de Thérèse foi declarado improcedente…»

Romance inspirado em factos de crónica que chocaram a sociedade da época e marcaram profundamente o autor (prémio Nobel François Mauriac), ao ponto de nunca mais abandonar a sua personagem, Thérèse Desqueyroux, por muitos apenas comparável a Madame Bovary, é considerada uma das obras mais significativas e intemporais da literatura do século XX.

A minha opinião:
Raramente leio grandes romances como este de 1927 que, apesar de sobejamente conhecidos e apreciados impõem uma leitura mais atenta. A linguagem por ser mais elaborada e rica pode ser um obstáculo,  mas neste romance a carga emocional e a densidade psicológica são os elementos chaves que prendem e perturbam o leitor. 

Uma mulher inteligente e culta como Thérèse sente-se desesperada quando todas as suas expectativas são defraudadas com o casamento e a maternidade. Quase por acaso inicia um esquema para assassinar o marido que depõe a seu favor, não por amor mas por valores que determinam a sua liberdade depois de muito sofrimento. 

O mais curioso é perceber o temor e desdém que as suas capacidades provocam nos mais próximos como o marido Bernard e a cunhada Anne.  

Inquietante e sombrio retrato de uma mulher que se contextualiza com brilhantismo, como só acontece num grande romance que perdura no tempo.   

domingo, 17 de janeiro de 2016

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Autor: Rosa Montero
Edição: 2015
Páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04712-0
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 

São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

A minha opinião:
Fazer parte de um grupo de leitura abriu os meus horizontes. Uma experiência que recomendo, mesmo para os mais introvertidos e antisociais (que não é de todo o meu caso), pela possibilidade de encontrar empatia literária e não só, e assim descobrir tantos autores que de outro modo nos estariam vedados. Apenas porque estando ao nosso alcance não os iríamos ver e este seguramente seria para mim um dos casos. 

A vida de Marie Curie (e Pierre) fascina mas nunca me dispus a ler sobre esta mulher que ganhou dois prémios Nobel num tempo em que as mulheres não tinham visibilidade e eram alvo de discriminação. Mas não se trata apenas da paixao de Marie pelo seu trabalho mas pelo marido Pierre, e o processo de luto e de dor com a sua morte, em paralelo com o da autora com a morte de Pablo. O diário desvenda uma faceta mais humana e não menos relevante desta extraordinária mulher .

Não conhecia a escrita de Rosa Montero e nas primeiras vezes que ouvi falar sobre este livro fiquei relutante porque o tema não me atraia, mesmo que afirmassem ser um livro luminoso e nada deprimente com interessantes e validas consideraçoes sobre a vida e os afectos, mas só depois de o ler percebi. A escrita é coloquial e torna-nos cúmplices dos segredos de alma destas mulheres, comuns a um género e nunca expressas com esta clarividência e naturalidade. 

Gostei muito e recomendo.  

Um Castigo Exemplar

Autor: Júlia Pinheiro
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 256
ISBN: 9789896265298
Editora: A Esfera dos Livros

Sinopse:
«Muito antes de amar o meu marido, odiei-o profundamente. Não tive alternativa, nem ninguém me ensinou outro caminho. Procurei conselho junto da minha família, entrei desesperada no confessionário para revelar a sombra que se apoderava do meu coração. Todos os esforços se revelaram em vão. Eu, como qualquer mulher do meu tempo e da minha classe, fui ensinada para fazer dos sentimentos a razão da minha existência. Não me posso sujeitar à indignidade do trabalho e não escondo que acho a caridade entediante. Só me restou o amor, o casamento e a maternidade. Como falhei estes desígnios, abracei o ódio com a ternura e o empenho com que qualquer marido gostaria de ter sido amado. Até o meu.»

Amélia Novaes não queria acreditar no que ouvia da boca do seu orgulhoso pai. Ela, uma jovem, tímida, sem berço, cortejada por Henrique Bettancourt Vasconcelos, jovem industrial de vinte e quatro anos, filho terceiro do visconde de Vila Fria! Só podia ser feio, ou ter algum defeito, senão porque é que a quereria a ela? A pergunta ressoava, sem piedade, na sua cabeça. Mas, para sua surpresa, Henrique era um homem bem aparentado e galante. E de pretendente passou a noivo e de noivo a marido. Amélia vivia um sonho. Mas o sonho estava prestes a transformar-se em pesadelo, no dia em que Henrique lhe anuncia, passando-lhe a mão pela cara, num gesto de carinho fugidio, que iria partir numa longa viagem pela Europa para dar asas aos seus negócios na indústria farmacêutica, cujo crescimento exponencial prometia riqueza e fama. Amélia ficaria em Portugal, como esposa exemplar que era, a aguardar o seu regresso. 
Depois do sucesso de "Não Sei Nada Sobre o Amor", Júlia Pinheiro regressa à escrita com "Castigo Exemplar", um romance passado nos finais do século XIX, entre Lisboa e o Porto, que retrata a vida de Amélia, uma mulher disposta a tudo, até mesmo a aplicar um castigo exemplar.

A minha opinião:
Este foi o primeiro romance que li na integra neste novo ano. E foi um começo auspicioso porque foi arrebatador desde as primeiras paginas. Tal qual eu gosto. 

Amélia, uma jovem burguesa conta a sua historia e enquanto lia sentia aquela personagem, e fiquei mais e mais interessada em conhecer e saber tudo sobre ela e sobre o desapaixonado e visionário marido nobre, Henrique de Vasconcelos. As peripécias e os atritos orientavam mais para a desgraça do que para o romance e com alguma emoção viajei na minha imaginação ao séc. XIX, onde passei mais tempo do que o designado `a leitura com esta mulher inteligente com falta de afecto que se transfigura quando se sente usada, porque para muitos o casamento era um contrato e o amor entre cônjuges uma fantasia da literatura. Por essa razão contactei uma boa amiga e afirmei peremptória - "Tens que ler este romance!". 

Escrita irrepreensível (para minha grande surpresa que reconheço a autora de outras lides) em contar uma historia com mestria, e onde os pormenores são apenas os necessários para explicar as circunstancias e conhecer as motivações e expectativas das personagens. Assim nada se perde nesta trama bem urdida que não se esquece facilmente ou não retratasse um Portugal de outro tempo. Mentalidade e usos e costumes em analise e algumas considerações curiosas e intemporais.

"A ociosidade nas mulheres é perigosa. Por isso, se inventaram os labores femininos, as artes domesticas complexas que nos ocupa as mãos e nos permitiu esvaziar a mente."               (pag. 225)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Um Estranho no Coração

Autor: Eduardo Sá
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 232
ISBN: 9789892333847
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Sentado num café, com o mar ao fundo, Gaspar sente a mão a tocar-lhe de leve no ombro, ouve a voz que não identifica e o chama. Vira-se para trás, leva algum tempo a reconhecê-la, assim tão pálida, escondida atrás dos óculos escuros. É a Luísa.

Viu-a pela última vez vai para 42 anos, toda uma vida. E agora ali está ela, à sua frente, a sentar-se à sua mesa, como se fosse ontem. E tira os óculos. E os olhos encontram-se, a unir pontas que um dia se partiram, num verão distante, naquela mesma Nazaré. 

O coração de Gaspar aperta-se. É um coração velho, que já não serve. Gastou-o numa vida sem amor. E agora espera por um novo, um transplante, um milagre que lhe prolongue o prazo de validade. Agora mais do que nunca. Porque ela está ali, trazendo consigo a promessa de um futuro que não sabe se tem. Ou se algum dia terá.

Romance de amor, de memórias, de reflexões, Um Estranho no Coração revela-nos uma faceta inesperada de Eduardo Sá. O contador de histórias continua presente, em cada página, em cada personagem. Mas desta vez usa como fio condutor uma única história, a de Gaspar; e nela projeta as suas (e as nossas) dúvidas, as decisões que tomamos, os desvios do caminho, as paragens sem porquê. E se nos oferece o balanço de uma vida vivida a medo, oferece-nos também uma ideia redentora: a segunda oportunidade, o eterno retorno.

A minha opinião:
Um observador da vida que ousa escrever um romance que inquieta porque fala ao coração dos muitos que não se lembram que o têm. 

Vários aspectos do real se cruzam nesta trama sempre focada na vida interior de um homem maduro que questiona toda a sua vida quando descobre que o seu coração pode falhar se não for substituído por um outro, de um estranho, numa fase da sua vida em que voltou a amar a única mulher que nunca deixou de amar. O bater do seu próprio coração lhe parece estranho.

Percebe-se obviamente a faceta de psiquiatra do autor com as muitas historias presentes na vida de Gaspar e os muitos considerandos que tece sobre si e sobre os que o rodeiam, numa tentativa de nos levar a refletir sobre questões que normalmente andam arredadas do nosso pensamento. 

Confuso consegue ser, como o pode ser um livro que procura explorar e expor sentimentos e emoções. Aprecio Eduardo Sá e não desiludiu. Contudo, não posso deixar de alertar que não se trata de uma leitura linear ou fluída. Um livro de esperança e consciência do bater do coração, antes que seja tarde demais.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Quando Menos Esperamos...

Autor: Sarah Dunn
Edição: 2010/ julho 
Páginas: 248
ISBN: 978-972-23-4386-2
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Holly Frick é uma escritora nova-iorquina de trinta e cinco anos, inteligente e divertida, que se vê confrontada com a separação do marido, Alex, por quem ainda está apaixonada. No seu círculo de amigos todos parecem capazes de retirar algum prazer da situação de vida em que se encontram, e Holly decide fazer o mesmo. Compra um cão e envolve-se com um rapaz bastante mais novo. O quotidiano de Holly e dos seus amigos, as amizades, os casos amorosos e as aventuras sexuais, a busca incessante da felicidade e do amor formam um complexo padrão afectivo e emocional que é aqui retratado com profundidade, subtileza e muito humor.

A minha opinião:
Numa demanda por novos velhos livros, este chamou-me a atenção. Depois de ler a sinopse e as primeiras paginas, decidi comprá-lo. Pareceu-me extamente o que precisava naquele momento - uma divertida comédia de costumes, bem ao género de "O Sexo e a Cidade". 

No inicio, o gozo com a caricaturização de personagens çosmopolitas sobrepôs-se e a leitura leve fluiu, mas depois aspetos mais sérios foram surgindo, como a solidão, o desamor, vícios e temores em personagens aparentemente bem sucedidas, e a piada desvaneceu-se. 

Ainda assim não é uma leitura muito exigente ou surpreendente e cumpriu o seu propósito. Desanuviar e relaxar. O mote da capa com o cão na relva desconcertou-me porque Holly resgatou um animal doente que ajudou a curar e depois descobriu o seu dono anterior e... ganhou, perdeu e voltou a ganhar porque quando menos esperamos... 

A magia dos números

Autor: Yoko Ogawa
Edição: 2011/ 
Páginas: 216
ISBN: 9789725649558
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
Uma empregada de limpeza começa a trabalhar em casa de um velho matemático, um homem com mais de sessenta anos, cuja carreira foi brutalmente interrompida por um acidente de automóvel, que reduziu a autonomia da sua memória a oitenta minutos. 
A cada manhã, a jovem mulher deve apresentar-se como se se vissem pela primeira vez - o professor esquece-se que ela existe de um dia para o outro -, mas é com grande paciência, gentileza e muita atenção que ela consegue ganhar a sua confiança, apresentando-lhe também o filho de dez anos. Aí se inicia uma relação maravilhosa: o rapazinho e a sua mãe vão não só partilhar com o velho amnésico a sua paixão pelo beisebol, como vão também aprender com ele a magia dos números. Neste subtil romance sobre a herança e a filiação - e em que três gerações se encontram sob o signo de uma memória extraviada e fugidia - a narrativa desdobra-se com a graça e o rigor de um origami. Lapidar e profundo como um haiku, A Magia dos Números é uma pequena obra-prima..

A minha opinião:
Por motivos alheios `a minha vontade tenho andado arredada de leituras. E de comentários. 

Este romance, sugestão de uma boa amiga com um gosto irrepreensível para livros, esteve algum tempo por ler. A capa é belíssima, mas os números nunca exerceram magia sobre mim. Mas nesta historia ficaram muito perto, porque numa escrita linear e simplicista, de uma delicadeza subtil e rara sensibilidade acompanhei a amizade crescente entre três improváveis personagens sem nome, e assim fui contagiada pelo fascínio dos números e imagine-se... basebol.

O brilhante professor tem uma limitada memória de oitenta minutos e sucessivamente repete as mesmas perguntas ou argumentos, sem enfado, critica ou estranheza para Root, o miúdo de dez anos assim chamado pelo professor porque a forma da sua cabeça lhe parece uma raiz quadrada, ou a empregada, em que juntos brincam com a magia dos números e a associam a factos simples da vida.

Apesar de tudo não foi suficiente para se tornar um livro memorável para mim. Certamente que a falha é minha pela fase da vida em que o li. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Flores

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 272
ISBN: 9789898775733
Editora: Companhia das Letras

Sinopse:
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. 
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

A minha opinião:
Consigo ver Afonso Cruz nos seus livros. Não desaparece atrás da beleza, da eternidade da sua voz que encontramos em palavras, em letras que não existem quando lemos, que desaparecem através do seu significado, através daquilo que imaginamos ao ler. "Imagine, como que uma voz que nos eleva e aniquila ao mesmo tempo, nascemos e morremos no mesmo instante." (pag. 98) Esta dicotomia de viver/ morrer, amor/ doença, presente nos livros de Afonso é que me incomoda e me desafia a ler e a não gostar da sua maneira cínica de ver o mundo, apesar da forma quase poética e efabulada de contar uma história.

Flores não é sobre botânica. Tem a ver com a a história das irmãs Flores, no Alentejo do século XX, quando o narrador, um jornalista desencantado com a vida, decide ajudar o vizinho, que a sua filha adora, a recuperar as memorias afetivas e a reconstruir a sua vida através de todos os que o conheceram. Um trabalho difícil com muitas contradições porque há quem o ache bom e quem o ache mau. Afinal, é a memoria que nos forma e quando o idoso Ulme perde a memoria devido a uma doença degenerativa perde a identidade, mas não a capacidade de se indignar e sofrer com as tragédias que sabe através dos meios de comunicação, ao contrario do narrador que se busca no espelho, apático "num sonambulismo que a vida acaba por oferecer em conjunto com tantas frustrações". 

Grito de revolta contra a rotina porque a vida morre com a rotina e não com a morte. Fugir de uma vida absolutamente sedentária e abraçar a mudança, sem o conforto da banalidade ou um outro olhar para a corrupção quotidiana e a miséria sem indiferença, porque Deus está em todo o lado e não apenas nas igrejas. Flores existem mas precisamos de as ver, cheirar e sentir.  
"Entremos mais dentro da espessura."

domingo, 6 de dezembro de 2015

O amante japonês

Autor: Isabel Allende
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-04774-8
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois brota um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família – como milhares de outros nipo-americanos – são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo. 

Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.

A minha opinião:
Isabel Allende é uma referencia que dispensa grandes argumentos. A sua obra fala por si. Mesmo assim não resisto a usar as suas próprias palavras "...demonstrara o seu virtuosismo de narradora, o seu sentido de ritmo e a habilidade para manter o suspense, a sua capacidade de contrastar os factos luminosos com os mais trágicos, luz e sombra...) (pag. 277). 

Não sei porque demorei tanto a escrever sobre este romance de que tanto gostei. Talvez, porque precisei de assentar ideias e ponderar no que escrever e mesmo assim, não vou conseguir atingir nem de perto a clareza, eloquência e lucidez da narrativa. Sem esquecer, as personagens bem definidas que ganham vida para o leitor. Alma, Ichimei e Nathaniel são admiráveis. Irina e Seth não lhes ficam atrás. Mas todas as personagens são grandiosas neste romance que pode conter muito de autobiográfico. Inicialmente, ilude, como sendo uma leitura morna e sensaborona mas ganha fôlego e cativa sem que se perceba.

O ponto de convergência da historia é Lark House, casa de repouso, o que não parece ser muito interessante, mas sobre a perspectiva apresentada fascina e encanta. Senão vejamos:

"Aprendeu a afastar os impulsos de violência, que ás vezes se apoderavam deles como tempestades passageiras, e não ficava assustada com a avareza e as manias de perseguição que alguns sentiam como consequência da solidão. Tentava perceber o significado de carregar o inverno as costas, a insegurança em cada passo, a confusão perante as palavras que não se ouvem bem, a sensação que o resto da humanidade anda muito apressado e fala muito depressa, o vazio, a fragilidade, a fadiga e a indiferença perante o que não lhes diga diretamente respeito, inclusive filhos e netos, cuja ausência já não pesa como antes e é preciso fazer um esforço para os recordar. Sentia ternura pelas rugas, os dedos deformados e a falta de visão. Imaginava como iria ela ser quando fosse idosa, anciã." (pag. 79)

"De acordo com Alma existiam demasiados anciãos no planeta que viviam muito mais do que o necessário para a biologia e do que o possível para a economia, não fazia sentido obriga-los a permanecer presos num corpo dolorido ou numa mente desesperada." (pag. 189)

Historia, entretenimento e reflexão. Que mais se pode pedir de um romance?

Recomendadissimo.  

domingo, 22 de novembro de 2015

Pura Coincidência

Autor: Renée Knight
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 304
ISBN: 9789898775757
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa-de-cabeceira um livro de título O perfeito desconhecido.

Não sabe como terá ido parar ao seu quarto ou quem o terá ali posto. Ainda assim, começa a lê-lo e rapidamente fica agarrada à história de suspense. Até que, depois de ler várias páginas, chega a uma conclusão aterradora: NÃO É FICÇÃO. O perfeito desconhecido recria vividamente, sem esquecer o mais ínfimo detalhe, o fatídico dia em que Catherine ficou prisioneira de um segredo terrível. Um segredo que só mais uma pessoa conhecia. E essa pessoa está morta.

A minha opinião:
O que dizer de um livro quando este é tão bom e nos deixa sem palavras? O que escrever quando quando nos faz sentir muito mais do que esperávamos e ficamos sem saber por onde começar sem revelar demasiado?

"Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidênciaé frase final deste romance que me atingiu como uma bofetada, depois de perceber onde este bem conseguido thriller psicológico me levou com as diferentes graduações e palpitações sentidas pelas personagens, que à vez vão tendo voz desde que aquele maldito livro surgiu nas suas vidas. Diferentes perspectivas com diferentes ângulos sobre factos que os protagonistas não podem ou optam por não revelar. Fotos são os resquícios que sobraram e deram origem a um livro ficcionado.

Catherine é uma mulher bem sucedida e com uma vida familiar estável até que "O Perfeito Desconhecido" surge na sua vida e a obriga a recuar vinte anos atrás e procurar quem a persegue com aquele segredo vergonhoso. Neste processo, como leitores bem informados, vamos entrando na cabeça e motivações do coautor e promotor do livro, bem como na da vitima, num crescendo de ansiedade. 

E neste enredo, de capítulos pequenos, frases curtas, palavras de acção encontrei uma leitura inquietante mas imparável. Controlo de dados e emoções em narrativas bem interligadas e ajustadas para não se perder a fluência e o ritmo da história que nos surge numa capa chamativa com um bom titulo.