domingo, 13 de março de 2016

A Amiga Genial e História do Novo Nome

Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2014/ dezembro
Páginas: 272
ISBN: 9789896414795
Editora: Relógio D'Água



Sinopse:

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.
Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.
O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.                                      
Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2015/ julho
Páginas: 384
ISBN: 9789896415440
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século XX.
Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos.
Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele.
No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações.
Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.

A minha opinião:
Tanto ouvi falar desta autora e desta tetralogia como um fenómeno, que não adiei. Comecei com algum receio que esta leitura que algumas amigas definiram como compulsiva e avassaladora ficasse aquém das minhas expectativas. Li os dois livros como se de um se tratasse e por essa razão optei por os referir em conjunto. Por si só, este aspecto já dá razão aos pareceres que ouvi.

O primeiro tem o subtítulo de Infância, Adolescência e o seguinte Juventude. A ação acontece num bairro pobre de Nápoles, uma pequena comunidade onde as duas protagonistas, amigas desde a primeira classe, Lenú (a narradora) e Lila/Lina, ou melhor Elena e Rafaela viviam com as famílias. No prólogo, são apresentadas as várias famílias/ personagens destas narrativas.

No primeiro livro não me rendi completamente, apesar de identificar e reconhecer sentimentos muitos próprios daquela fase que recordo, mas com o segundo, li sem querer parar, viciada na relação ambígua mas muito estreita destas duas jovens que seguiram caminhos dispares, nem sempre próximas, mas conscientes uma da outra. Como se fossem duas faces da mesma moeda e ora admirava uma pelas suas qualidades, ora desdenhava a outra pelos seus defeitos, mas depois mudava de perspectiva. Uma ligação difícil como o eram muitas que retrata, algumas marcadas pela violência e interligadas, que merece uma leitura atenta.

Pode parecer uma história banal mas há uma força contida nas palavras que transfigura esta narrativa. Um realismo cru que me fez sentir que se tratava de uma espécie de catarse para a autora ao relatar sentimentos e vivências de tempos idos. Por tudo isto, tenho de continuar a ler...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Milagre

Autor: Deborah Smith
Edição: 2016/ fevereiro
Páginas: 456
ISBN: 978-972-0-04801-1
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Sebastien de Savin é um brilhante cirurgião cuja habilidade e arrogância representam uma mistura explosiva. No passado, um segredo obscuro foi o responsável pelo endurecer do seu coração, até que um milagre acontece. O milagre dá pelo nome de Amy Miracle, uma rapariga tímida com um emprego de verão nas vinhas da família de Savin e a última pessoa pela qual alguém como Sebastien esperaria apaixonar-se.
Um acaso junta-os: graças a Sebastien, Amy escapa de uma vida de pobreza e abusos psicológicos, adquire autoconfiança e progride numa carreira de sucesso. Graças a Amy, Sebastien reaprende a rir e desperta para o amor. No entanto, a vida real separa-os. Embora tendo passado pouco tempo juntos, a memória desses preciosos momentos assombra-os durante anos. Até ao dia em que os seus caminhos se cruzam novamente…

A minha opinião:
"A Doçura da Chuva" foi o primeiro romance que li desta autora e fiquei fã. Um daqueles romances que guardamos para mais tarde voltar  a ler. E dos quais, procuramos mais, porque nos deixam com o coração cheio. 

"Milagre" não tem o mesmo impacto mas é um romance que se lê sem parar e nos conforta. Como um paliativo para algum mal que nos aflija. Como uma camisola quente que nos aconchega em dias de frio. Nestes dias. 

Amy e Sebastien, duas personagens aparentemente antagónicas mas ambas com um passado/ presente amargo e uma necessidade de o superar. Maravilhosas e generosas cativam nas primeiras paginas, mas isso é o efeito da escrita de Deborah Smith e a sua capacidade de criar personagens realistas e muito humanas que se tornam intimas do leitor. 

Dez anos é o período que marca o desenvolvimento deste romance que a autora divide em quatro partes. Amy deve a Sebastien a sua mudança de rumo. Sebastien deve ao seu poderoso pai o seu regresso a França e a sua perdição enquanto retoma o caminho que a sua fortuna designa. Mas por mais e melhor que se faça, a vida interpõe se e o desfecho pode ser imprevisível e altamente improvável e isso é o que mais nos anima num romance. A possibilidade de realizar sonhos. De se dar um Milagre.   

Um prazer de ler! 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Improbabilidade do Amor

Autor: Hannah Rothschild
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 528
ISBN: 9789892333601
Editora: ASA

Sinopse:
Um quadro velho e sujo é comprado numa obscura loja de velharias por Annie McDee. Chef talentosa mas falida, apaixonada mas com o coração partido, Annie cedeu a um impulso e gastou nele as últimas 75 libras que tinha no bolso. E enquanto se debate com a solidão e a falta de perspetivas, está longe de imaginar as repercussões da sua humilde extravagância.
É que, singelamente pendurada entre os tachos e as panelas da sua cozinha, está agora uma obra-prima. A Improbabilidade do Amor é o quadro perdido de um célebre pintor do século XVIII. Na tentativa de desvendar a verdadeira identidade da obra, Annie vai deparar com um dos segredos mais bem guardados da História da Europa.
E ser inadvertidamente arrastada para o frenético mundo da arte e perseguida por potenciais compradores. De uma princesa árabe a um oligarca russo, passando por um conde falido e uma socialite americana, não falta quem esteja disposto a tudo para acrescentar mais uma peça à sua coleção.
Mas A Improbabilidade do Amor não é apenas uma obra de arte.
A sua alma é-nos gradualmente revelada. Na sua voz sedutora, sofisticada e muito cínica, o quadro comenta a atribulada vida amorosa de Annie, narra a sua própria história e ajusta contas com os seus (muitos) donos anteriores, entre eles, Luís XV, Voltaire e Catarina, a Grande…

A minha opinião:
Um volumoso romance com letra miudinha (e para o conseguir ler bem, visitei uma livraria para comprar uns óculos mas... acabei com mais um livro e sem óculos). A capa remete para o inicio da história quando Annie entra numa loja de velharias e compra impulsivamente um pequeno quadro que coloca no cesto da sua bicicleta ao regressar a casa. 

O titulo deve-se a esse quadro - A Improbabilidade do Amor, pintado em 1702 pelo mestre Antoine Watteau que representa a agonia e o êxtase do amor. (Fui pesquisar sobre a vida e obra deste pintor que desconhecia).

O quadro, também ele personagem deste romance é altivo mas afetuoso e viaja ao passado das suas memorias enquanto analisa a situação atual. Percebo a intenção da autora mas não me convenceu, apesar das referencias históricas me parecerem corretas. Annie e Evie são as personagens com mais peripécias em torno do quadro mas faltou um rasgo de inspiração para tornar estas personagens marcantes. 

Uma trama bem desenvolvida mas um tanto dispersa. Muitas personagens, talvez demasiadas. O foco é a arte e o seu papel ao longo dos tempos. A cobiça e o poder que sempre lhe estiveram associados. Os meandros de negócios de muitos milhões. E os saques durante a Guerra. A beleza no meio de tanta fealdade.
E também... a culinária que é uma forma de arte quando feita com dedicação, inspiração e amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Coro dos Defuntos

Autor: António Tavares
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 216
ISBN: 9789896603915
Editora:  Leya

Sinopse:
Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. 
Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. 
E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. 
Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar... 

Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974.

A minha opinião:
Decidi ir à livraria no intuito de comprar uns óculos para ler as letras miudinhas em dias que me sinto muito cansada e a leitura se faz com esforço, mas por lá me perdi, sem óculos e com mais um livro que me apressei a ler. Garantiram-me que a linguagem rebuscada em homenagem a Aquilino Ribeiro era fácil de decifrar, senão com uso do glossário no final,  e tratava-se de um divertidíssimo retrato de época em ambiente rural. De facto, assim é.

Talvez por ter memorias de infância de um ambiente assim, não foi difícil entrar na crença de um povo com valores distintos dos de hoje, em que as informações chegavam dispersas e confusas e por vias diversas, e as interpretações estavam ligadas ao senso comum ou à mística com a natureza porque dai provinha o pão de cada dia.

Narrado pela neta de uma mulher sábia e intuitiva que naquela aldeia viveu, com o marido regedor e todo um leque de personagens inesquecíveis que compunham a vida naquele lugar e naquele tempo, entramos num mundo ora fantasioso, ora realista, com o tanto que sabemos e não esquecemos. A nossa identidade que não perdemos.

Um prazer de ler. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Morte de um Apicultor

Autor:  Lars Gustafsson
Edição/ Reimpressão: 2015
Páginas: 192
ISBN: 9789897540554
Editora: Marcador

Sinopse:
Lars Westin está a morrer; embora se recuse a ler a carta enviada pelo hospital, que confirma o seu diagnóstico, ele sabe que tem cancro e que não irá viver até ao final da primavera seguinte.
Não aceita, porém, entregar o tempo que lhe resta ao espaço impessoal de um hospital, preferindo tomar o controlo do seu próprio destino e prosseguir com a sua vida solitária e reflexiva.
Abandona a carreira de professor e inicia uma nova vida como apicultor. Prescindindo de qualquer tratamento médico, Lars continua a sua vida simples e recolhida, na sua casa de campo, em pleno cenário rural sueco.
Esta é uma história sobre a vida, em particular a vida que antecede a morte. É sobre como, com a linguagem, se esconde a verdade. É sobre a forma como a dor pode revelar o nosso verdadeiro eu.

A minha opinião:
Este livro é um caso sério, como as notas deixadas em três cadernos pela personagem ausente e que servem de base para uma história comum. E o comum partilhamos e por isso nos toca. Fácil de entender mas difícil no sentir. 

Um ex-professor divorciado que se tornou apicultor reflete sem amargura sobre percepções e memorias da sua vida  e  encara o inevitável declínio com a doença que sabe que tem. Um homem  pacificado mas lúcido. Um homem simples que recomeça a cada dia. 

De pequenas dimensões não é um livro maçador ou particularmente difícil apesar do tema. Escrita sem mácula, cuidada e ponderada sobre o oculto e profundo Eu. 

Um clássico a não recear ler. Gostei e vou repetir mais tarde.  

domingo, 31 de janeiro de 2016

Uma Vida à Sua Frente

Autor: Romain Gary
Edição: 2011
Páginas: 184
ISBN: 978-989-676-035-9
Editora: Sextante Editora,Lda

Sinopse:
Uma vida à sua frente é narrado por Mohammed, um rapaz árabe de 14 anos, órfão, que vive no bairro pobre de Belleville com Madame Rosa, prostituta reformada e sobrevivente de Auschwitz.

A minha opinião:
A minha opinião é pouco importante porque este livro publicado em 1975, teve êxito imediato: vendeu milhões de exemplares em todo o mundo, foi traduzido em mais de vinte línguas e adaptado para o cinema num filme com Simone Signoret. Nesse mesmo ano, recebeu o Prémio Goncourt. 

Perante isto, é de ler. Mais uma vez, uma boa amiga  o recomendou e emprestou. E assim se fazem as coisas. Obrigado Cristina Delgado.

Uma romance para quem tem necessidade de se imiscuir mais e mais em vidas fictícias que se desenvolvem enquanto folheamos as páginas do livro e nos deparamos com um miúdo muçulmano criado por uma judia idosa com outras crianças em idênticas circunstancias (dificuldades), e que assim  descreve a sua vida:

"Explique-lhes que a Madame Rosa era uma antiga puta que tinha regressado enquanto deportada nos lares judeus na Alemanha e que tinha aberto uma casa clandestina para filhos de puta que se podem chantangear com perda dos direitos de paternidade por prostituição ilícita e que se vêem obrigadas a esconder os miúdos, porque há vizinhos sacanas e que podem sempre fazer uma denuncia à Assistência Publica.(...) com a Madame Rosa em estado de abstinência e o meu pai que matara a minha mãe porque era psiquiátrico... E a minha mãe chamava-se Aicha e defendia-se com... e tinha até vinte serviços por dia, antes de ser morta numa crise de loucura, mas nao era certo que eu era hereditário."                         (pag. 144)

Solidariedade, solidão, velhice, sofrimento, abandono e amizade, num prédio que é uma pequena comunidade e onde diferentes pessoas convivem em harmonia e respeito e tudo isto visto pelos olhos de uma criança que interpreta e conta à sua maneira. Sem preconceitos ou tabus.

Ler para crer. E tanto para pensar.

Um prazer de ler.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Thérèse Desqueyroux

Autor: François Mauriac
Edição: 2015/ fevereiro
Páginas: 128
ISBN: 9789896232016
Editora:  Cavalo de Ferro

Sinopse:
«Thérèse Desqueyroux, órfã de mãe, educada por um pai ateu no «orgulho de pertencer à elite humana», tentou, falsificando receitas médicas, envenenar Bernard, seu marido, um ser respeitável mas frio, obtuso. Para preservar a família do escândalo, este último, grande proprietário das Landes, depôs a seu favor no tribunal; o caso de Thérèse foi declarado improcedente…»

Romance inspirado em factos de crónica que chocaram a sociedade da época e marcaram profundamente o autor (prémio Nobel François Mauriac), ao ponto de nunca mais abandonar a sua personagem, Thérèse Desqueyroux, por muitos apenas comparável a Madame Bovary, é considerada uma das obras mais significativas e intemporais da literatura do século XX.

A minha opinião:
Raramente leio grandes romances como este de 1927 que, apesar de sobejamente conhecidos e apreciados impõem uma leitura mais atenta. A linguagem por ser mais elaborada e rica pode ser um obstáculo,  mas neste romance a carga emocional e a densidade psicológica são os elementos chaves que prendem e perturbam o leitor. 

Uma mulher inteligente e culta como Thérèse sente-se desesperada quando todas as suas expectativas são defraudadas com o casamento e a maternidade. Quase por acaso inicia um esquema para assassinar o marido que depõe a seu favor, não por amor mas por valores que determinam a sua liberdade depois de muito sofrimento. 

O mais curioso é perceber o temor e desdém que as suas capacidades provocam nos mais próximos como o marido Bernard e a cunhada Anne.  

Inquietante e sombrio retrato de uma mulher que se contextualiza com brilhantismo, como só acontece num grande romance que perdura no tempo.   

domingo, 17 de janeiro de 2016

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Autor: Rosa Montero
Edição: 2015
Páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04712-0
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 

São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

A minha opinião:
Fazer parte de um grupo de leitura abriu os meus horizontes. Uma experiência que recomendo, mesmo para os mais introvertidos e antisociais (que não é de todo o meu caso), pela possibilidade de encontrar empatia literária e não só, e assim descobrir tantos autores que de outro modo nos estariam vedados. Apenas porque estando ao nosso alcance não os iríamos ver e este seguramente seria para mim um dos casos. 

A vida de Marie Curie (e Pierre) fascina mas nunca me dispus a ler sobre esta mulher que ganhou dois prémios Nobel num tempo em que as mulheres não tinham visibilidade e eram alvo de discriminação. Mas não se trata apenas da paixao de Marie pelo seu trabalho mas pelo marido Pierre, e o processo de luto e de dor com a sua morte, em paralelo com o da autora com a morte de Pablo. O diário desvenda uma faceta mais humana e não menos relevante desta extraordinária mulher .

Não conhecia a escrita de Rosa Montero e nas primeiras vezes que ouvi falar sobre este livro fiquei relutante porque o tema não me atraia, mesmo que afirmassem ser um livro luminoso e nada deprimente com interessantes e validas consideraçoes sobre a vida e os afectos, mas só depois de o ler percebi. A escrita é coloquial e torna-nos cúmplices dos segredos de alma destas mulheres, comuns a um género e nunca expressas com esta clarividência e naturalidade. 

Gostei muito e recomendo.  

Um Castigo Exemplar

Autor: Júlia Pinheiro
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 256
ISBN: 9789896265298
Editora: A Esfera dos Livros

Sinopse:
«Muito antes de amar o meu marido, odiei-o profundamente. Não tive alternativa, nem ninguém me ensinou outro caminho. Procurei conselho junto da minha família, entrei desesperada no confessionário para revelar a sombra que se apoderava do meu coração. Todos os esforços se revelaram em vão. Eu, como qualquer mulher do meu tempo e da minha classe, fui ensinada para fazer dos sentimentos a razão da minha existência. Não me posso sujeitar à indignidade do trabalho e não escondo que acho a caridade entediante. Só me restou o amor, o casamento e a maternidade. Como falhei estes desígnios, abracei o ódio com a ternura e o empenho com que qualquer marido gostaria de ter sido amado. Até o meu.»

Amélia Novaes não queria acreditar no que ouvia da boca do seu orgulhoso pai. Ela, uma jovem, tímida, sem berço, cortejada por Henrique Bettancourt Vasconcelos, jovem industrial de vinte e quatro anos, filho terceiro do visconde de Vila Fria! Só podia ser feio, ou ter algum defeito, senão porque é que a quereria a ela? A pergunta ressoava, sem piedade, na sua cabeça. Mas, para sua surpresa, Henrique era um homem bem aparentado e galante. E de pretendente passou a noivo e de noivo a marido. Amélia vivia um sonho. Mas o sonho estava prestes a transformar-se em pesadelo, no dia em que Henrique lhe anuncia, passando-lhe a mão pela cara, num gesto de carinho fugidio, que iria partir numa longa viagem pela Europa para dar asas aos seus negócios na indústria farmacêutica, cujo crescimento exponencial prometia riqueza e fama. Amélia ficaria em Portugal, como esposa exemplar que era, a aguardar o seu regresso. 
Depois do sucesso de "Não Sei Nada Sobre o Amor", Júlia Pinheiro regressa à escrita com "Castigo Exemplar", um romance passado nos finais do século XIX, entre Lisboa e o Porto, que retrata a vida de Amélia, uma mulher disposta a tudo, até mesmo a aplicar um castigo exemplar.

A minha opinião:
Este foi o primeiro romance que li na integra neste novo ano. E foi um começo auspicioso porque foi arrebatador desde as primeiras paginas. Tal qual eu gosto. 

Amélia, uma jovem burguesa conta a sua historia e enquanto lia sentia aquela personagem, e fiquei mais e mais interessada em conhecer e saber tudo sobre ela e sobre o desapaixonado e visionário marido nobre, Henrique de Vasconcelos. As peripécias e os atritos orientavam mais para a desgraça do que para o romance e com alguma emoção viajei na minha imaginação ao séc. XIX, onde passei mais tempo do que o designado `a leitura com esta mulher inteligente com falta de afecto que se transfigura quando se sente usada, porque para muitos o casamento era um contrato e o amor entre cônjuges uma fantasia da literatura. Por essa razão contactei uma boa amiga e afirmei peremptória - "Tens que ler este romance!". 

Escrita irrepreensível (para minha grande surpresa que reconheço a autora de outras lides) em contar uma historia com mestria, e onde os pormenores são apenas os necessários para explicar as circunstancias e conhecer as motivações e expectativas das personagens. Assim nada se perde nesta trama bem urdida que não se esquece facilmente ou não retratasse um Portugal de outro tempo. Mentalidade e usos e costumes em analise e algumas considerações curiosas e intemporais.

"A ociosidade nas mulheres é perigosa. Por isso, se inventaram os labores femininos, as artes domesticas complexas que nos ocupa as mãos e nos permitiu esvaziar a mente."               (pag. 225)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Um Estranho no Coração

Autor: Eduardo Sá
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 232
ISBN: 9789892333847
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Sentado num café, com o mar ao fundo, Gaspar sente a mão a tocar-lhe de leve no ombro, ouve a voz que não identifica e o chama. Vira-se para trás, leva algum tempo a reconhecê-la, assim tão pálida, escondida atrás dos óculos escuros. É a Luísa.

Viu-a pela última vez vai para 42 anos, toda uma vida. E agora ali está ela, à sua frente, a sentar-se à sua mesa, como se fosse ontem. E tira os óculos. E os olhos encontram-se, a unir pontas que um dia se partiram, num verão distante, naquela mesma Nazaré. 

O coração de Gaspar aperta-se. É um coração velho, que já não serve. Gastou-o numa vida sem amor. E agora espera por um novo, um transplante, um milagre que lhe prolongue o prazo de validade. Agora mais do que nunca. Porque ela está ali, trazendo consigo a promessa de um futuro que não sabe se tem. Ou se algum dia terá.

Romance de amor, de memórias, de reflexões, Um Estranho no Coração revela-nos uma faceta inesperada de Eduardo Sá. O contador de histórias continua presente, em cada página, em cada personagem. Mas desta vez usa como fio condutor uma única história, a de Gaspar; e nela projeta as suas (e as nossas) dúvidas, as decisões que tomamos, os desvios do caminho, as paragens sem porquê. E se nos oferece o balanço de uma vida vivida a medo, oferece-nos também uma ideia redentora: a segunda oportunidade, o eterno retorno.

A minha opinião:
Um observador da vida que ousa escrever um romance que inquieta porque fala ao coração dos muitos que não se lembram que o têm. 

Vários aspectos do real se cruzam nesta trama sempre focada na vida interior de um homem maduro que questiona toda a sua vida quando descobre que o seu coração pode falhar se não for substituído por um outro, de um estranho, numa fase da sua vida em que voltou a amar a única mulher que nunca deixou de amar. O bater do seu próprio coração lhe parece estranho.

Percebe-se obviamente a faceta de psiquiatra do autor com as muitas historias presentes na vida de Gaspar e os muitos considerandos que tece sobre si e sobre os que o rodeiam, numa tentativa de nos levar a refletir sobre questões que normalmente andam arredadas do nosso pensamento. 

Confuso consegue ser, como o pode ser um livro que procura explorar e expor sentimentos e emoções. Aprecio Eduardo Sá e não desiludiu. Contudo, não posso deixar de alertar que não se trata de uma leitura linear ou fluída. Um livro de esperança e consciência do bater do coração, antes que seja tarde demais.