sábado, 30 de abril de 2016

Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2016/ abril
Páginas: 192
ISBN: 9789722127998
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

A minha opinião:
Um precioso pequeno livro para mim. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos. 

Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.

Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, mas que se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler. Termina com uma oração difícil de esquecer:

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:
"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos  ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos."   (pag. 11/2)

"Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)



"A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem."  (pag.67)



"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida."  (pag. 76)


"Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade."  (pag. 87)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

História de Quem Vai e de Quem Fica

Autor: Elena Ferrante
Re/Edição: 2015/ setembro
Páginas: 336
ISBN: 9789896415570
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.
Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.

A minha opinião:
E prossegui com a leitura das memorias de Elena, mas não de imediato. Outras leituras se interpuseram mas sem esquecer a vida em Nápoles e a estranha ligação entre as duas amigas. Uma ligação que Lenú, alias Elena, procura entender algumas vezes neste romance, num Tempo Intermédio.  

Pode parecer estranha esta pausa nos livros da tetralogia de Elena Ferrante. E mais uma vez, uso essa palavra. Mas estranha é uma palavra que me ocorria enquanto lia. Personagens fortes que se materializaram e tomaram os meus pensamentos.

Perturbadora a relação destas duas amigas, muito semelhante a uma que vivi. Extraordinariamente inteligentes, usam as suas capacidades com muito sacrifício de forma distinta e em função das oportunidades vingam. Rivalizam. E essa rivalidade tem uma dinâmica muito própria que as empurra em diante.

O bairro com as desigualdades, a prepotência e a miséria. A luta armada, os comunistas e os fascistas. Os crimes. O sexo e a intimidade.

A narrativa que não me parece um mero exercício criativo vai ao passado rebuscar como funciona o mundo com a finalidade de conhecermos corações que batem forte sem superficialidades ou frivolidades, condensando tanto entre os tumultos que se torna avassalador para quem lê. Entre Nápoles e Florença senti um aperto no peito com esta narrativa que me pareceu estranho. E dai a necessidade da pausa. Para retomar o controle e o equilíbrio.

Um livro para ler e reler. 

sábado, 16 de abril de 2016

O Discípulo

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 2)
Edição: 2016/ março
Páginas: 672
ISBN: 9789896650667
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Numa Estocolmo em chamas, assolada por uma onda de calor, várias mulheres são encontradas brutalmente assassinadas. Os assassinatos têm a marca de Edward Hinde, o assassino em série preso por Bergman há quinze anos, e que continua detido. Sendo um incontestável profiler e perito em Hinde, Sebastian é reintegrado na equipa, e não demora muito a perceber que tem mais ligações com o caso do que pensava. Todas as vítimas estão diretamente ligadas a eles. E a sua filha pode estar em perigo.

A minha opinião:
Satisfeito o meu capricho com este intimidante calhamaço que atrai pela maravilhosa capa. E pelo conteúdo, claro!

Independente do volume anterior, inclusive porque encontramos neste uma resenha, o enredo prende e passamos rapidamente várias páginas em curto espaço de tempo enquanto seguimos Sebastian Bergman, bem como Vanja, Ursula, Torkel, Billy e ainda o Homem Alto. 

Romance policial com personagens bem caracterizadas psicologicamente, não sobressalta tanto quanto se poderia esperar e tem algo de ingénuo no modo como encaram e entabuam conversa com um psicopata como Edward Hinde, que facilmente manipula os outros que percepciona, como Haraldsson, o novo diretor da prisão. Inteligente e vitima de abusos e abandono tem em Sebastian um rival que parece mais perdido do que nunca e incapaz de reagir a um oponente tão calculista. Depois de Sebastian estabelecer a ligação das vitimas consigo começa a ação, uma vez que Edward conhece o passado e o segredo de Sebastian.

Sebastian provoca em toda a narrativa emoções contraditórias, e se por um lado a sua faceta de mulherengo insensível e egoísta chateia, por outro lado é compreendido pelas perdas que procura apaziguar. O lado humano não é descurado neste livro e todas as personagens apresentam fragilidades bem exploradas e empáticas ao leitor. Assim, menos intenso ou dramático do que o esperado mas muito envolvente e viciante até ao final, que nos deixa com mais um segredo intrigante para o próximo livro que não pretendo perder.

sábado, 2 de abril de 2016

Segredos Obscuros

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 1)
Edição: 2015/ julho
Páginas: 544
ISBN: 9789898775535
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Sebastian Bergman é um homem à deriva. 
Psicólogo de formação, trabalhava como profiler para a polícia e era um dos grandes especialistas do país em serial killers. Perdeu tudo quando o tsunami no continente indiano lhe levou a mulher e a filha. 
Tudo muda com uma chamada para a polícia. 
Um rapaz de dezasseis anos, Roger Eriksson, desapareceu na cidade de Västerås. Organiza-se uma busca e um grupo de jovens escuteiros faz uma descoberta macabra no meio de um pântano: Roger está morto e falta-lhe o coração.

É o momento de Sebastian se confrontar com um mundo que conhece demasiado bem. 
O Departamento de Investigação Criminal pede ajuda a Sebastian. Os modos bruscos e revoltados de Sebastian não impedem a investigação de avançar. E as descobertas sobre a escola que Roger frequentava são aterradoras.

A minha opinião:
Esqueci este livro e quando me questionaram se o queria ler, hesitei. Tantos outros que passaram à frente, e outros tantos sobressaiam no topo da pilha, mas como não gosto de ficar em falta, concordei, e gostei bastante. De inicio, não me pareceu o tipo de leitura esperada para um thriller, ou um romance policial, o que se alterou com a entrada de Sebastian Bergman na investigação e consequentemente na equipa, por um motivo pessoal e escuso.

Regressara a Västerås para resolver rapidamente tudo o que se relacionava com a sua herança após o falecimento da mãe, laço familiar que cortou na juventude e pouco explicado, quando a investigação a um obscuro crime decorre e acaba por se envolver. Grosseiro, sexista, critico ou simplesmente sórdido, e ainda charmoso e intuitivo ou não soubesse ele a ténue linha que o separava dos criminosos que caçava. 

Neste género de romances não se pode afirmar que um protagonista com este perfil seja original mas continua a encaixar perfeitamente. E para mais, mulherengo. A inteligência seduz e como leitora sucumbi ao poder de dedução e analise que nem sempre me surpreendia mas compreendia. Algumas das observações fora do âmbito da investigação também são oportunas e eficazes.  

Os crimes que se seguiram tornaram esta narrativa mais e mais interessante e cheguei ao fim com a sensação de "quero mais" depois do ultimo segredo revelado. Felizmente, o livro seguinte de Sebastian Bergman - O Discípulo vai satisfazer este capricho. 

sábado, 26 de março de 2016

A Mulher

Autor: Meg Wolitzer
Edição: 2016/ março
Páginas: 288
ISBN: 9789724750743
Editora: Teorema

Sinopse:
A trinta e cinco mil pés de altitude, no conforto da cabina de 1ª classe do avião, Joan Castleman decide deixar o marido. Estão lado a lado, rumam a Helsínquia, onde ele, escritor de renome, irá receber o prémio literário de uma vida.
Na semiobscuridade, Joan mergulha numa intensa reflexão sobre a sua relação com Joe. O início tempestuoso, na universidade, onde ela era a aluna promissora e deslumbrada e ele o professor carismático e casado. E depois, o resto, a vida boémia em Greenwich Village, o nascimento dos filhos, e a decisão de subjugar o seu talento em prol da vida que acreditava querer.

Mas Joe revelou-se medíocre enquanto pai e marido, concentrando-se unicamente no seu dom. E Joan, entretanto, perdeu qualquer sentido de identidade, vivendo apenas como "a mulher do génio".
Agora, perante o apogeu da carreira literária do marido, é-lhe impossível refrear a memória do momento em que, ainda estudante, leu o primeiro conto dele. Chegou o momento de se confrontar com as consequências das opções que tomou tão cedo na vida - e do segredo que ambos sempre guardaram tão bem.

A minha opinião:
Joan Castleman, narradora e personagem principal conta a sua historia com Joe. Tal e qual como a sinopse revela, e o motivo porque quis ler este livro, que considerei a prenda perfeita para uma leitora convicta como eu. Por acaso, a leitura foi antecipada porque a minha generosa amiga deixou-mo ler primeiro. 

Não é uma leitura fácil ou óbvia como pode parecer, mas profunda e poderosa como apenas uma grande romancista consegue. O impacto da escrita de Meg Wolitzer é justamente porque funciona e ganha vida. O leitor mergulha  nas palavras e realiza o filme na sua cabeça. São palavras desencantadas, viscerais e irónicas, que tem o peso das decisões irreversíveis sobre o papel de mulheres brilhantes na vida de homens de sucesso que são os donos do mundo. O preço a pagar na década de 1950 em que as mulheres não conseguiam singrar e vingar simultaneamente no amor e na fama. Muitas ainda hoje não conseguem.
"(...) acho que se pode dizer que é uma conspiração para manter as vozes das mulheres abafadas e mínimas e as dos homens altas."    (pag. 67)

Sorumbático talvez. Em muitas passagens não parecia uma escrita feminina, noutras era intensamente feminina. Talento, casamento e filhos, realização pessoal e identidade, infidelidade, são muitos os temas abordados numa perspectiva muito pessoal e realista, mas principalmente o preço da fama.

Não li os "Interessantes" porque o que sei sobre esse romance ainda não me atraiu, mas depois de "A Mulher", vou considerar essa opção. 

Uma escolha adequada nestes dias longos de lazer e reflexão.

terça-feira, 15 de março de 2016

A Vida É Fácil, Não Te Preocupes

Autor: Agnes Martin-Lugand
Edição: 2016/ março
Páginas: 232
ISBN: 9789896650346
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Desde o seu regresso da Irlanda, Diane virou a página da sua tumultuosa história com Edward, determinada a reconstruir sua vida em Paris. Com a ajuda do seu amigo Felix, lança-se de cabeça na compra e abertura do seu café literário. E é aí, em As pessoas felizes lêem e bebem café, o seu refúgio, que conhece Olivier. É simpático, atencioso e principalmente compreende e aceite a sua recusa em ser mãe novamente. Diane sabe que nunca vai se recuperar da perda da sua filha.

No entanto, um evento inesperado muda tudo: as certezas de Diane, as suas escolhas, pelas quais tanto lutou, vão entrar em colapso, uma após a outra.
Será que Diane tem a coragem necessária para aceitar um outro caminho?

A minha opinião:
As pessoas felizes lêem e bebem café foi o romance anterior que me seduziu pelo titulo. Na ocasião, ainda não sabia que se tratava do café literário da Diane. A Vida É Fácil, Não Te Preocupes continua a ter esse efeito. Adoro o titulo deste romance. E continuo a adorar Diane e Edward, bem como Abby, Jack, Judith, Felix  e agora Declan.

Do que recordo, Diane estava a fazer um luto difícil e escapuliu se para a Irlanda por um ano, e nesse período ... conheceu uma família que lhe fez retomar a sua vida e regressar ao seu refúgio - Pessoas Felizes. Sei que fiquei um pouco desiludida porque esperava outro final, mas não imaginei que um novo romance surgisse para concluir em beleza.

As pessoas felizes fumam?! Diane e Edward sim, e fumavam mais quando não estavam felizes. Algo que tinham em comum, e desfrutavam sempre que podiam sem pejo.

Pobre Olivier. Empatia é o que sentimos pelas personagens e dai o sucesso deste romance que usa a formula do amor e da família para ultrapassar a dor e a perda, com uma escrita suave e tranquila que nos sussurra como se nos confidenciasse um segredo que devemos conhecer.

Quanto ao café literário, um sonho realizado como Diane o descreve.

"Eu queria que o Pessoas Felizes se tornasse um local de convívio, caloroso, aberto a todos, onde todas as literaturas encontrassem o seu lugar. Queria aconselhar os leitores permitindo-lhes sentir prazer de lerem as historias que tivessem vontade de ler, sem vergonha. Pouco importava que quisessem ler um prémio literário ou um sucesso popular, só uma coisa contava: que os clientes lessem, sem terem a impressão de estarem a ser julgados relativamente `a sua escolha. A leitura fora sempre um prazer para mim, desejava que as pessoas que frequentassem o meu café o sentissem, o descobrissem e, no caso dos mais refractários, que tentassem a aventura. Nos meus degraus, misturavam-se todas as literaturas; o romance policial, a literatura generalista, o romance sentimental, a poesia, o young adult, os testemunhos, os bestsellers e os títulos mais confidenciais. (...) Eu gostava do lado de caça ao tesouro de encontrar O livro. Os novos clientes eram iniciados progressivamente por uns e por outros."

Um prazer de ler.

domingo, 13 de março de 2016

A Amiga Genial e História do Novo Nome

Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2014/ dezembro
Páginas: 272
ISBN: 9789896414795
Editora: Relógio D'Água



Sinopse:

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.
Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.
O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.                                      
Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2015/ julho
Páginas: 384
ISBN: 9789896415440
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século XX.
Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos.
Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele.
No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações.
Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.

A minha opinião:
Tanto ouvi falar desta autora e desta tetralogia como um fenómeno, que não adiei. Comecei com algum receio que esta leitura que algumas amigas definiram como compulsiva e avassaladora ficasse aquém das minhas expectativas. Li os dois livros como se de um se tratasse e por essa razão optei por os referir em conjunto. Por si só, este aspecto já dá razão aos pareceres que ouvi.

O primeiro tem o subtítulo de Infância, Adolescência e o seguinte Juventude. A ação acontece num bairro pobre de Nápoles, uma pequena comunidade onde as duas protagonistas, amigas desde a primeira classe, Lenú (a narradora) e Lila/Lina, ou melhor Elena e Rafaela viviam com as famílias. No prólogo, são apresentadas as várias famílias/ personagens destas narrativas.

No primeiro livro não me rendi completamente, apesar de identificar e reconhecer sentimentos muitos próprios daquela fase que recordo, mas com o segundo, li sem querer parar, viciada na relação ambígua mas muito estreita destas duas jovens que seguiram caminhos dispares, nem sempre próximas, mas conscientes uma da outra. Como se fossem duas faces da mesma moeda e ora admirava uma pelas suas qualidades, ora desdenhava a outra pelos seus defeitos, mas depois mudava de perspectiva. Uma ligação difícil como o eram muitas que retrata, algumas marcadas pela violência e interligadas, que merece uma leitura atenta.

Pode parecer uma história banal mas há uma força contida nas palavras que transfigura esta narrativa. Um realismo cru que me fez sentir que se tratava de uma espécie de catarse para a autora ao relatar sentimentos e vivências de tempos idos. Por tudo isto, tenho de continuar a ler...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Milagre

Autor: Deborah Smith
Edição: 2016/ fevereiro
Páginas: 456
ISBN: 978-972-0-04801-1
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Sebastien de Savin é um brilhante cirurgião cuja habilidade e arrogância representam uma mistura explosiva. No passado, um segredo obscuro foi o responsável pelo endurecer do seu coração, até que um milagre acontece. O milagre dá pelo nome de Amy Miracle, uma rapariga tímida com um emprego de verão nas vinhas da família de Savin e a última pessoa pela qual alguém como Sebastien esperaria apaixonar-se.
Um acaso junta-os: graças a Sebastien, Amy escapa de uma vida de pobreza e abusos psicológicos, adquire autoconfiança e progride numa carreira de sucesso. Graças a Amy, Sebastien reaprende a rir e desperta para o amor. No entanto, a vida real separa-os. Embora tendo passado pouco tempo juntos, a memória desses preciosos momentos assombra-os durante anos. Até ao dia em que os seus caminhos se cruzam novamente…

A minha opinião:
"A Doçura da Chuva" foi o primeiro romance que li desta autora e fiquei fã. Um daqueles romances que guardamos para mais tarde voltar  a ler. E dos quais, procuramos mais, porque nos deixam com o coração cheio. 

"Milagre" não tem o mesmo impacto mas é um romance que se lê sem parar e nos conforta. Como um paliativo para algum mal que nos aflija. Como uma camisola quente que nos aconchega em dias de frio. Nestes dias. 

Amy e Sebastien, duas personagens aparentemente antagónicas mas ambas com um passado/ presente amargo e uma necessidade de o superar. Maravilhosas e generosas cativam nas primeiras paginas, mas isso é o efeito da escrita de Deborah Smith e a sua capacidade de criar personagens realistas e muito humanas que se tornam intimas do leitor. 

Dez anos é o período que marca o desenvolvimento deste romance que a autora divide em quatro partes. Amy deve a Sebastien a sua mudança de rumo. Sebastien deve ao seu poderoso pai o seu regresso a França e a sua perdição enquanto retoma o caminho que a sua fortuna designa. Mas por mais e melhor que se faça, a vida interpõe se e o desfecho pode ser imprevisível e altamente improvável e isso é o que mais nos anima num romance. A possibilidade de realizar sonhos. De se dar um Milagre.   

Um prazer de ler! 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A Improbabilidade do Amor

Autor: Hannah Rothschild
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 528
ISBN: 9789892333601
Editora: ASA

Sinopse:
Um quadro velho e sujo é comprado numa obscura loja de velharias por Annie McDee. Chef talentosa mas falida, apaixonada mas com o coração partido, Annie cedeu a um impulso e gastou nele as últimas 75 libras que tinha no bolso. E enquanto se debate com a solidão e a falta de perspetivas, está longe de imaginar as repercussões da sua humilde extravagância.
É que, singelamente pendurada entre os tachos e as panelas da sua cozinha, está agora uma obra-prima. A Improbabilidade do Amor é o quadro perdido de um célebre pintor do século XVIII. Na tentativa de desvendar a verdadeira identidade da obra, Annie vai deparar com um dos segredos mais bem guardados da História da Europa.
E ser inadvertidamente arrastada para o frenético mundo da arte e perseguida por potenciais compradores. De uma princesa árabe a um oligarca russo, passando por um conde falido e uma socialite americana, não falta quem esteja disposto a tudo para acrescentar mais uma peça à sua coleção.
Mas A Improbabilidade do Amor não é apenas uma obra de arte.
A sua alma é-nos gradualmente revelada. Na sua voz sedutora, sofisticada e muito cínica, o quadro comenta a atribulada vida amorosa de Annie, narra a sua própria história e ajusta contas com os seus (muitos) donos anteriores, entre eles, Luís XV, Voltaire e Catarina, a Grande…

A minha opinião:
Um volumoso romance com letra miudinha (e para o conseguir ler bem, visitei uma livraria para comprar uns óculos mas... acabei com mais um livro e sem óculos). A capa remete para o inicio da história quando Annie entra numa loja de velharias e compra impulsivamente um pequeno quadro que coloca no cesto da sua bicicleta ao regressar a casa. 

O titulo deve-se a esse quadro - A Improbabilidade do Amor, pintado em 1702 pelo mestre Antoine Watteau que representa a agonia e o êxtase do amor. (Fui pesquisar sobre a vida e obra deste pintor que desconhecia).

O quadro, também ele personagem deste romance é altivo mas afetuoso e viaja ao passado das suas memorias enquanto analisa a situação atual. Percebo a intenção da autora mas não me convenceu, apesar das referencias históricas me parecerem corretas. Annie e Evie são as personagens com mais peripécias em torno do quadro mas faltou um rasgo de inspiração para tornar estas personagens marcantes. 

Uma trama bem desenvolvida mas um tanto dispersa. Muitas personagens, talvez demasiadas. O foco é a arte e o seu papel ao longo dos tempos. A cobiça e o poder que sempre lhe estiveram associados. Os meandros de negócios de muitos milhões. E os saques durante a Guerra. A beleza no meio de tanta fealdade.
E também... a culinária que é uma forma de arte quando feita com dedicação, inspiração e amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Coro dos Defuntos

Autor: António Tavares
Edição: 2015/ novembro
Páginas: 216
ISBN: 9789896603915
Editora:  Leya

Sinopse:
Vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. 
Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção deste romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. 
E, mesmo assim, passam-se por ali coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma inesperada metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. 
Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar... 

Um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974.

A minha opinião:
Decidi ir à livraria no intuito de comprar uns óculos para ler as letras miudinhas em dias que me sinto muito cansada e a leitura se faz com esforço, mas por lá me perdi, sem óculos e com mais um livro que me apressei a ler. Garantiram-me que a linguagem rebuscada em homenagem a Aquilino Ribeiro era fácil de decifrar, senão com uso do glossário no final,  e tratava-se de um divertidíssimo retrato de época em ambiente rural. De facto, assim é.

Talvez por ter memorias de infância de um ambiente assim, não foi difícil entrar na crença de um povo com valores distintos dos de hoje, em que as informações chegavam dispersas e confusas e por vias diversas, e as interpretações estavam ligadas ao senso comum ou à mística com a natureza porque dai provinha o pão de cada dia.

Narrado pela neta de uma mulher sábia e intuitiva que naquela aldeia viveu, com o marido regedor e todo um leque de personagens inesquecíveis que compunham a vida naquele lugar e naquele tempo, entramos num mundo ora fantasioso, ora realista, com o tanto que sabemos e não esquecemos. A nossa identidade que não perdemos.

Um prazer de ler. 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A Morte de um Apicultor

Autor:  Lars Gustafsson
Edição/ Reimpressão: 2015
Páginas: 192
ISBN: 9789897540554
Editora: Marcador

Sinopse:
Lars Westin está a morrer; embora se recuse a ler a carta enviada pelo hospital, que confirma o seu diagnóstico, ele sabe que tem cancro e que não irá viver até ao final da primavera seguinte.
Não aceita, porém, entregar o tempo que lhe resta ao espaço impessoal de um hospital, preferindo tomar o controlo do seu próprio destino e prosseguir com a sua vida solitária e reflexiva.
Abandona a carreira de professor e inicia uma nova vida como apicultor. Prescindindo de qualquer tratamento médico, Lars continua a sua vida simples e recolhida, na sua casa de campo, em pleno cenário rural sueco.
Esta é uma história sobre a vida, em particular a vida que antecede a morte. É sobre como, com a linguagem, se esconde a verdade. É sobre a forma como a dor pode revelar o nosso verdadeiro eu.

A minha opinião:
Este livro é um caso sério, como as notas deixadas em três cadernos pela personagem ausente e que servem de base para uma história comum. E o comum partilhamos e por isso nos toca. Fácil de entender mas difícil no sentir. 

Um ex-professor divorciado que se tornou apicultor reflete sem amargura sobre percepções e memorias da sua vida  e  encara o inevitável declínio com a doença que sabe que tem. Um homem  pacificado mas lúcido. Um homem simples que recomeça a cada dia. 

De pequenas dimensões não é um livro maçador ou particularmente difícil apesar do tema. Escrita sem mácula, cuidada e ponderada sobre o oculto e profundo Eu. 

Um clássico a não recear ler. Gostei e vou repetir mais tarde.