sábado, 4 de junho de 2016

As Viúvas de Dom Rufia

Autor: Carlos Campaniço
Edição: 2016/ maio
Páginas: 280
ISBN:9789897414916
Editora: Casa das Letras

Sinopse:
Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.

Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.

A minha opinião:
Este romance de época visa perpetuar a incrível história de Dom Rufia, que na morte se revelou, nomeadamente na biografia de um velório em terras do Baixo Alentejo em tempos que já lá vão.

Dom Rufia era um encantador aldrabão, de bigode fininho, tez de sírio, olhos verdes e sorriso bonito que de mentira em mentira conquistava e seduzia. Tinha o dom, a magia que fazia falta na vida das pessoas, o que estava ligado à sua maneira de ser, e assim se tornou uma personagem inesquecível para uma leitura muito prazeiroza. As mulheres eram a fraqueza de Dom Rufia que não lhes resistia e o meio para contrariar o destino e fugir de uma vida de miséria e escravidão a trabalhar terras sem fim no Alentejo. Neste ambiente rural se espalhou e muitas de diferentes idades e proveniências encantou, que mais tarde, se apresentaram como surpresas viúvas.

Juan de los Fenómenos, velho chileno, culto e inteligente, espantava ver este homem em diferentes cenários e com diferentes papeis. 

O narrador em interlúdio com o leitor explica a natureza deste parente afastado conhecido como Dom Rufia, e conta as suas aventuras, bem como justifica as suas ações numa linguagem pouco usual ou brejeira, que nos desvirtua mas predispõe bem. Entretanto, tece algumas considerações bem humoradas sobre a nova Republica e o poder do dinheiro. 

Este romance é um imenso prazer de ler! De chorar a rir com certas peripécias!  

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Síndrome de Antuérpia

Autor: João Felgar
Edição: 2016/ maio
Páginas: 268
ISBN: 9789897243059
Editora: Clube do Autor


Sinopse:
No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. 
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome. 

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. 
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

A minha opinião:
Gosto cada vez mais de ler romances de autores portugueses. E se antes isso me surpreendia, atualmente não acontece porque espero ler algo francamente bom e com a nossa marca. Personagens com facetas que identifico, em contextos que reconheço e em circunstancias que compreendo. 
O que me surpreende é esse gosto cada vez apurado não estar mais difundido e o novo não ser motivo de curiosidade e interesse para tantos outros leitores como eu. Assim, tento espicaçar essa vontade de novas e quiçá felizes incursões literárias partilhando a minha opinião. 

Para o fazer tenho que reler os parágrafos que marquei com post its porque este pequeno livro prendeu a minha atenção tanto pela forma como pelo conteúdo. A escrita e a capacidade de expressar ideias lúcidas e bem articuladas numa trama que desvendei no inicio, mas que ainda assim me deixou cativa com a caracterização gradual de todas as personagens sem enfado ou decepção, e a confirmação do desfecho que a mestria do autor não desiludiu. Não é uma historia feliz mas é uma historia possível e impõe alguma reflexão. Os juízos de valor e as regras de conduta desta pequena comunidade fascinaram-me. 

"Há seres que não se procuram nem fazem falta, mas que não se dispensam depois de os termos. São amuletos que não dão sorte, mas não se jogam fora para não darem azar. E´ por isso que as aldeias devem ter sempre, pelo menos um tolo, para que a tolerância possa ser aprendida e exercida sem se pedir grandes concessões aos valores. Um ganho para a tranquilidade de consciência, que se alcança sem perdas morais a lamentar."                              (pag. 236)  

terça-feira, 24 de maio de 2016

A Livraria dos Finais Felizes

Autor: Katarina Bivald
Edição: 2016/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789896650704
Editora: Suma

Sinopse:
Se a vida fosse um romance, o da Sara certamente não seria um livro de aventuras. Em vinte e oito anos nunca saiu da Suécia e nenhum encontro do destino desarrumou a sua existência. Tímida e insegura, só se sente à vontade na companhia de um bom livro e os seus melhores amigos são as personagens criadas pela imaginação dos escritores, que a fazem viver sonhos, viagens e paixões. Mas tudo muda no dia em que recebe uma carta de uma pequena cidade perdida no meio do Iowa e com um nome estranho: Broken Wheel. A remetente é uma tal Amy, uma americana de 65 anos que lhe envia um livro. E assim começa entre as duas uma correspondência afetuosa e sincera. Depois de uma intensa troca de cartas e livros, Sara consegue juntar o dinheiro para atravessar o oceano e encontrar a sua querida amiga. No entanto, Amy não está à sua espera, o seu final, infelizmente, veio mais cedo do que o esperado. E enquanto os excêntricos habitantes, de quem Amy tanto lhe tinha falado, tomam conta da assustada turista (a primeira na história de Broken Wheel), Sara decide retribuir a bondade iniciando-os no prazer da leitura. Porque rapidamente percebe que Broken Wheel precisa de um pouco de aventura, uma dose de auto-ajuda e, talvez, um pouco de romance. Em suma, esta é uma cidade que precisa de uma livraria. E Sara, que sempre preferiu os livros às pessoas, naquela aldeia de poucas gente, mas de grande coração, encontrará amizade, amor e emoções para viver. E finalmente será a verdadeira protagonista da sua vida.

A minha opinião
Uma tentação a que não resisti. A capa e o titulo sugerem um livro sobre livros, o que a uma livrólica assumida não deixa alternativa.

Uma livraria com livros com finais felizes intriga. E esta é uma livraria muito especial que resulta do esforço de Sara com o espolio de Amy em retribuir a uma pequena comunidade, que subsistia graças a uma rede de favores em cadeia, com um livro para cada um dos seus habitantes. O que consegue de uma forma simplista e muito eficaz e paulatinamente cativar o leitor.

Achei muito curiosa a livraria com obras que Sara bem conhecia, muitos lidos e relidos e como tal catalogados não por géneros literários, mas com indicações úteis e relevantes para um leitor não experimentado que precisasse de informação para se deixar seduzir.

Sara aceita um convite para passar dois meses numa pequena cidade do Iowa para conhecer com quem convivia por carta. E as surpresas sucedem-se porque apesar de Amy ter referido muito nas suas cartas, não corresponde exatamente ao esperado. E nesta aventura, com alguma reciprocidade com personagens bem peculiares se desenrola a ação. Mais do que um livro sobre livros temos um livro sobre a descoberta de novos amigos e o quanto podemos mudar por influencia dos outros e... de um bom livro.

"Não é que os livros conseguissem, de uma maneira ou de outra, atenuar o sofrimento causado pela guerra, quando um ente querido morria ou alcançar a paz mundial ou algo do género. Porém, Sara não conseguia deixar de pensar que na guerra, tal como na vida, um dos grandes problemas era o tédio, um desgaste lento e implacável. Nada de dramático, apenas uma erosão gradual da energia do individuo e da sua vontade de viver.
Então, o que poderia ser melhor que um livro?"        (pag. 154)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Uma Senhora Nunca

Autor: Patrícia Müller
Edição: 2016/ abril
Páginas: 280
ISBN: 9789897222962
Editora: Quetzal Editores
 
Sinopse:
A resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Maria Laura é senhora desde que nasceu. Oriunda de uma família antiga e latifundiária, nunca trabalhou um dia na vida. Casa-se, tem filhos, gere um país próprio - o apartamento onde mora numa zona rica de Lisboa. Cuida de vivos e mortos com uma devoção cristã. Depois, enlouquece de medo e de rancor perante todas as mudanças que vêm com a Revolução de Abril de 1974. Esta é a vida de Maria Laura, da sua insignificância e das suas memórias familiares, mas também a história de um amor proibido, filho do marido, a da obsessão em cumprir regras que nunca discutiu, a da demência que é a antecâmara da morte - e a resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Esta é também uma história romântica, violenta e voluptuosa da vida dos seus pais e filhos, extensões naturais dos braços tentaculares da Senhora. E uma narrativa natural, intimista e sexual do século xx: uma família que vive com o poder e a glória - e que tudo perde com o 25 de Abril.

A minha opinião:
Gostaria de ter ido ao lançamento deste livro para conhecer quem escreve assim, mas no mesmo dia sobrepuseram três acontecimentos de autores que muito prezo.

Patrícia Müller conseguiu mais uma vez, (depois de "Madre Paula"), deslumbrar-me com uma personagem forte e simultaneamente frágil que, quase parece banal como na vida real onde se inspirou, se não penetrasse no universo mental de Maria Laura. 

"Uma senhora nunca deixa de ser senhora, mas pode sentir-se mulher."   (pag. 258)

"Eu sempre vivi duas vidas. Nas duas existo, vejo, sinto, ouço, penso." (pag. 49)

"(...) Maria Laura, uma cabra e uma santa, não ao mesmo tempo, mas com a mesma cara." 
(pag. 249) 

Uma história familiar, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Mudanças repentinas e algumas nem tanto entre mães e filhas que não percebem que o amor tem várias feições e repetem um padrão que nada tem de coincidência apesar da generosidade transmitida pelo sangue. Sem a garantia de que nunca lhes falte um casaquinho de malha sobre os ombros.

Criadas que garantem a eficiência e o rolar dos dias sem sobressaltos, mas sem o amor maternal de quem cuida, resumido apenas a uma presença simples e silenciosa no combate à solidão. 

"Uma senhora não se estende às criadas, mesmo que a infância tenha sido passada em cima da barriga de uma."      

"Nem sempre a pessoa que está dentro do coração e da alma obedece aos preceitos do senso comum."   (pag. 159)

Relações amorosas falhadas por infâncias incompletas. Matrimonio com afetividade mas sem sexo porque esse reservavam os maridos para o pessoal domestico e afins. 

Perdas para uma mulher que deixa de olhar a vida da mesma forma. 

"A memoria aprisiona-se num espaço e num tempo em que foi feliz." 

"A demência começa a nebular o buraco que Maria Laura tem no coração." (pag. 270)

Prodigiosa imaginação da autora e talento para contar una história que me prende desde o início, sem que esta se torne insípida ou maçadora e assim suscita em mim uma profunda admiração.

sábado, 30 de abril de 2016

Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2016/ abril
Páginas: 192
ISBN: 9789722127998
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

A minha opinião:
Um precioso pequeno livro para mim. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos. 

Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.

Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, mas que se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler. Termina com uma oração difícil de esquecer:

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:
"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos  ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos."   (pag. 11/2)

"Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)



"A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem."  (pag.67)



"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida."  (pag. 76)


"Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade."  (pag. 87)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

História de Quem Vai e de Quem Fica

Autor: Elena Ferrante
Re/Edição: 2015/ setembro
Páginas: 336
ISBN: 9789896415570
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.
Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.

A minha opinião:
E prossegui com a leitura das memorias de Elena, mas não de imediato. Outras leituras se interpuseram mas sem esquecer a vida em Nápoles e a estranha ligação entre as duas amigas. Uma ligação que Lenú, alias Elena, procura entender algumas vezes neste romance, num Tempo Intermédio.  

Pode parecer estranha esta pausa nos livros da tetralogia de Elena Ferrante. E mais uma vez, uso essa palavra. Mas estranha é uma palavra que me ocorria enquanto lia. Personagens fortes que se materializaram e tomaram os meus pensamentos.

Perturbadora a relação destas duas amigas, muito semelhante a uma que vivi. Extraordinariamente inteligentes, usam as suas capacidades com muito sacrifício de forma distinta e em função das oportunidades vingam. Rivalizam. E essa rivalidade tem uma dinâmica muito própria que as empurra em diante.

O bairro com as desigualdades, a prepotência e a miséria. A luta armada, os comunistas e os fascistas. Os crimes. O sexo e a intimidade.

A narrativa que não me parece um mero exercício criativo vai ao passado rebuscar como funciona o mundo com a finalidade de conhecermos corações que batem forte sem superficialidades ou frivolidades, condensando tanto entre os tumultos que se torna avassalador para quem lê. Entre Nápoles e Florença senti um aperto no peito com esta narrativa que me pareceu estranho. E dai a necessidade da pausa. Para retomar o controle e o equilíbrio.

Um livro para ler e reler. 

sábado, 16 de abril de 2016

O Discípulo

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 2)
Edição: 2016/ março
Páginas: 672
ISBN: 9789896650667
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Numa Estocolmo em chamas, assolada por uma onda de calor, várias mulheres são encontradas brutalmente assassinadas. Os assassinatos têm a marca de Edward Hinde, o assassino em série preso por Bergman há quinze anos, e que continua detido. Sendo um incontestável profiler e perito em Hinde, Sebastian é reintegrado na equipa, e não demora muito a perceber que tem mais ligações com o caso do que pensava. Todas as vítimas estão diretamente ligadas a eles. E a sua filha pode estar em perigo.

A minha opinião:
Satisfeito o meu capricho com este intimidante calhamaço que atrai pela maravilhosa capa. E pelo conteúdo, claro!

Independente do volume anterior, inclusive porque encontramos neste uma resenha, o enredo prende e passamos rapidamente várias páginas em curto espaço de tempo enquanto seguimos Sebastian Bergman, bem como Vanja, Ursula, Torkel, Billy e ainda o Homem Alto. 

Romance policial com personagens bem caracterizadas psicologicamente, não sobressalta tanto quanto se poderia esperar e tem algo de ingénuo no modo como encaram e entabuam conversa com um psicopata como Edward Hinde, que facilmente manipula os outros que percepciona, como Haraldsson, o novo diretor da prisão. Inteligente e vitima de abusos e abandono tem em Sebastian um rival que parece mais perdido do que nunca e incapaz de reagir a um oponente tão calculista. Depois de Sebastian estabelecer a ligação das vitimas consigo começa a ação, uma vez que Edward conhece o passado e o segredo de Sebastian.

Sebastian provoca em toda a narrativa emoções contraditórias, e se por um lado a sua faceta de mulherengo insensível e egoísta chateia, por outro lado é compreendido pelas perdas que procura apaziguar. O lado humano não é descurado neste livro e todas as personagens apresentam fragilidades bem exploradas e empáticas ao leitor. Assim, menos intenso ou dramático do que o esperado mas muito envolvente e viciante até ao final, que nos deixa com mais um segredo intrigante para o próximo livro que não pretendo perder.

sábado, 2 de abril de 2016

Segredos Obscuros

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 1)
Edição: 2015/ julho
Páginas: 544
ISBN: 9789898775535
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Sebastian Bergman é um homem à deriva. 
Psicólogo de formação, trabalhava como profiler para a polícia e era um dos grandes especialistas do país em serial killers. Perdeu tudo quando o tsunami no continente indiano lhe levou a mulher e a filha. 
Tudo muda com uma chamada para a polícia. 
Um rapaz de dezasseis anos, Roger Eriksson, desapareceu na cidade de Västerås. Organiza-se uma busca e um grupo de jovens escuteiros faz uma descoberta macabra no meio de um pântano: Roger está morto e falta-lhe o coração.

É o momento de Sebastian se confrontar com um mundo que conhece demasiado bem. 
O Departamento de Investigação Criminal pede ajuda a Sebastian. Os modos bruscos e revoltados de Sebastian não impedem a investigação de avançar. E as descobertas sobre a escola que Roger frequentava são aterradoras.

A minha opinião:
Esqueci este livro e quando me questionaram se o queria ler, hesitei. Tantos outros que passaram à frente, e outros tantos sobressaiam no topo da pilha, mas como não gosto de ficar em falta, concordei, e gostei bastante. De inicio, não me pareceu o tipo de leitura esperada para um thriller, ou um romance policial, o que se alterou com a entrada de Sebastian Bergman na investigação e consequentemente na equipa, por um motivo pessoal e escuso.

Regressara a Västerås para resolver rapidamente tudo o que se relacionava com a sua herança após o falecimento da mãe, laço familiar que cortou na juventude e pouco explicado, quando a investigação a um obscuro crime decorre e acaba por se envolver. Grosseiro, sexista, critico ou simplesmente sórdido, e ainda charmoso e intuitivo ou não soubesse ele a ténue linha que o separava dos criminosos que caçava. 

Neste género de romances não se pode afirmar que um protagonista com este perfil seja original mas continua a encaixar perfeitamente. E para mais, mulherengo. A inteligência seduz e como leitora sucumbi ao poder de dedução e analise que nem sempre me surpreendia mas compreendia. Algumas das observações fora do âmbito da investigação também são oportunas e eficazes.  

Os crimes que se seguiram tornaram esta narrativa mais e mais interessante e cheguei ao fim com a sensação de "quero mais" depois do ultimo segredo revelado. Felizmente, o livro seguinte de Sebastian Bergman - O Discípulo vai satisfazer este capricho. 

sábado, 26 de março de 2016

A Mulher

Autor: Meg Wolitzer
Edição: 2016/ março
Páginas: 288
ISBN: 9789724750743
Editora: Teorema

Sinopse:
A trinta e cinco mil pés de altitude, no conforto da cabina de 1ª classe do avião, Joan Castleman decide deixar o marido. Estão lado a lado, rumam a Helsínquia, onde ele, escritor de renome, irá receber o prémio literário de uma vida.
Na semiobscuridade, Joan mergulha numa intensa reflexão sobre a sua relação com Joe. O início tempestuoso, na universidade, onde ela era a aluna promissora e deslumbrada e ele o professor carismático e casado. E depois, o resto, a vida boémia em Greenwich Village, o nascimento dos filhos, e a decisão de subjugar o seu talento em prol da vida que acreditava querer.

Mas Joe revelou-se medíocre enquanto pai e marido, concentrando-se unicamente no seu dom. E Joan, entretanto, perdeu qualquer sentido de identidade, vivendo apenas como "a mulher do génio".
Agora, perante o apogeu da carreira literária do marido, é-lhe impossível refrear a memória do momento em que, ainda estudante, leu o primeiro conto dele. Chegou o momento de se confrontar com as consequências das opções que tomou tão cedo na vida - e do segredo que ambos sempre guardaram tão bem.

A minha opinião:
Joan Castleman, narradora e personagem principal conta a sua historia com Joe. Tal e qual como a sinopse revela, e o motivo porque quis ler este livro, que considerei a prenda perfeita para uma leitora convicta como eu. Por acaso, a leitura foi antecipada porque a minha generosa amiga deixou-mo ler primeiro. 

Não é uma leitura fácil ou óbvia como pode parecer, mas profunda e poderosa como apenas uma grande romancista consegue. O impacto da escrita de Meg Wolitzer é justamente porque funciona e ganha vida. O leitor mergulha  nas palavras e realiza o filme na sua cabeça. São palavras desencantadas, viscerais e irónicas, que tem o peso das decisões irreversíveis sobre o papel de mulheres brilhantes na vida de homens de sucesso que são os donos do mundo. O preço a pagar na década de 1950 em que as mulheres não conseguiam singrar e vingar simultaneamente no amor e na fama. Muitas ainda hoje não conseguem.
"(...) acho que se pode dizer que é uma conspiração para manter as vozes das mulheres abafadas e mínimas e as dos homens altas."    (pag. 67)

Sorumbático talvez. Em muitas passagens não parecia uma escrita feminina, noutras era intensamente feminina. Talento, casamento e filhos, realização pessoal e identidade, infidelidade, são muitos os temas abordados numa perspectiva muito pessoal e realista, mas principalmente o preço da fama.

Não li os "Interessantes" porque o que sei sobre esse romance ainda não me atraiu, mas depois de "A Mulher", vou considerar essa opção. 

Uma escolha adequada nestes dias longos de lazer e reflexão.

terça-feira, 15 de março de 2016

A Vida É Fácil, Não Te Preocupes

Autor: Agnes Martin-Lugand
Edição: 2016/ março
Páginas: 232
ISBN: 9789896650346
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Desde o seu regresso da Irlanda, Diane virou a página da sua tumultuosa história com Edward, determinada a reconstruir sua vida em Paris. Com a ajuda do seu amigo Felix, lança-se de cabeça na compra e abertura do seu café literário. E é aí, em As pessoas felizes lêem e bebem café, o seu refúgio, que conhece Olivier. É simpático, atencioso e principalmente compreende e aceite a sua recusa em ser mãe novamente. Diane sabe que nunca vai se recuperar da perda da sua filha.

No entanto, um evento inesperado muda tudo: as certezas de Diane, as suas escolhas, pelas quais tanto lutou, vão entrar em colapso, uma após a outra.
Será que Diane tem a coragem necessária para aceitar um outro caminho?

A minha opinião:
As pessoas felizes lêem e bebem café foi o romance anterior que me seduziu pelo titulo. Na ocasião, ainda não sabia que se tratava do café literário da Diane. A Vida É Fácil, Não Te Preocupes continua a ter esse efeito. Adoro o titulo deste romance. E continuo a adorar Diane e Edward, bem como Abby, Jack, Judith, Felix  e agora Declan.

Do que recordo, Diane estava a fazer um luto difícil e escapuliu se para a Irlanda por um ano, e nesse período ... conheceu uma família que lhe fez retomar a sua vida e regressar ao seu refúgio - Pessoas Felizes. Sei que fiquei um pouco desiludida porque esperava outro final, mas não imaginei que um novo romance surgisse para concluir em beleza.

As pessoas felizes fumam?! Diane e Edward sim, e fumavam mais quando não estavam felizes. Algo que tinham em comum, e desfrutavam sempre que podiam sem pejo.

Pobre Olivier. Empatia é o que sentimos pelas personagens e dai o sucesso deste romance que usa a formula do amor e da família para ultrapassar a dor e a perda, com uma escrita suave e tranquila que nos sussurra como se nos confidenciasse um segredo que devemos conhecer.

Quanto ao café literário, um sonho realizado como Diane o descreve.

"Eu queria que o Pessoas Felizes se tornasse um local de convívio, caloroso, aberto a todos, onde todas as literaturas encontrassem o seu lugar. Queria aconselhar os leitores permitindo-lhes sentir prazer de lerem as historias que tivessem vontade de ler, sem vergonha. Pouco importava que quisessem ler um prémio literário ou um sucesso popular, só uma coisa contava: que os clientes lessem, sem terem a impressão de estarem a ser julgados relativamente `a sua escolha. A leitura fora sempre um prazer para mim, desejava que as pessoas que frequentassem o meu café o sentissem, o descobrissem e, no caso dos mais refractários, que tentassem a aventura. Nos meus degraus, misturavam-se todas as literaturas; o romance policial, a literatura generalista, o romance sentimental, a poesia, o young adult, os testemunhos, os bestsellers e os títulos mais confidenciais. (...) Eu gostava do lado de caça ao tesouro de encontrar O livro. Os novos clientes eram iniciados progressivamente por uns e por outros."

Um prazer de ler.

domingo, 13 de março de 2016

A Amiga Genial e História do Novo Nome

Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2014/ dezembro
Páginas: 272
ISBN: 9789896414795
Editora: Relógio D'Água



Sinopse:

A Amiga Genial é a história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade adolescente.
Elena conhece a sua amiga na primeira classe. Provêm ambas de famílias remediadas. O pai de Elena trabalha como porteiro na câmara municipal, o de Lila Cerullo é sapateiro.
Lila é bravia, sagaz, corajosa nas palavras e nas acções. Tem resposta pronta para tudo e age com uma determinação que a pacata e estudiosa Elena inveja.
Quando a desajeitada Lila se transforma numa adolescente que fascina os rapazes do bairro, Elena continua a procurar nela a sua inspiração.
O percurso de ambas separa-se quando, ao contrário de Lila, Elena continua os estudos liceais e Lila tem de lutar por si e pela sua família no bairro onde vive. Mas a sua amizade prossegue.                                      
Autor:  Elena Ferrante
Edição: 2015/ julho
Páginas: 384
ISBN: 9789896415440
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Este romance continua a história de Lila e Elena, tendo como pano de fundo a cidade de Nápoles e a Itália do século XX.
Lila, filha de um sapateiro, escolhe o caminho de ascensão social no próprio bairro e, no final de A Amiga Genial, vemo-la casada com um comerciante. Elena, pelo contrário, dedica-se aos estudos.
Ambas têm agora 17 anos e sentem-se num beco sem saída. Ao assumir o nome do marido, Lila tem a sensação de ter perdido a identidade. Elena, estudante modelo, descobre que não se sente bem nem no bairro nem fora dele.
No início, vemos Elena a abrir um caderno de notas onde Lila fala sobre a vida com o seu marido e as complicadas relações com a Mafia e os grupos neofascistas, que invadem os bairros com as suas proclamações.
Lila e Elena hesitam entre a tendência para a conformidade e a obstinação em tomar nas suas mãos o seu destino, numa relação conflitual, inseparável mistura de dependência e vontade de autoafirmação, em que o amor é um sentimento «molesto» que se alimenta do desequilíbrio até nos momentos mais felizes.

A minha opinião:
Tanto ouvi falar desta autora e desta tetralogia como um fenómeno, que não adiei. Comecei com algum receio que esta leitura que algumas amigas definiram como compulsiva e avassaladora ficasse aquém das minhas expectativas. Li os dois livros como se de um se tratasse e por essa razão optei por os referir em conjunto. Por si só, este aspecto já dá razão aos pareceres que ouvi.

O primeiro tem o subtítulo de Infância, Adolescência e o seguinte Juventude. A ação acontece num bairro pobre de Nápoles, uma pequena comunidade onde as duas protagonistas, amigas desde a primeira classe, Lenú (a narradora) e Lila/Lina, ou melhor Elena e Rafaela viviam com as famílias. No prólogo, são apresentadas as várias famílias/ personagens destas narrativas.

No primeiro livro não me rendi completamente, apesar de identificar e reconhecer sentimentos muitos próprios daquela fase que recordo, mas com o segundo, li sem querer parar, viciada na relação ambígua mas muito estreita destas duas jovens que seguiram caminhos dispares, nem sempre próximas, mas conscientes uma da outra. Como se fossem duas faces da mesma moeda e ora admirava uma pelas suas qualidades, ora desdenhava a outra pelos seus defeitos, mas depois mudava de perspectiva. Uma ligação difícil como o eram muitas que retrata, algumas marcadas pela violência e interligadas, que merece uma leitura atenta.

Pode parecer uma história banal mas há uma força contida nas palavras que transfigura esta narrativa. Um realismo cru que me fez sentir que se tratava de uma espécie de catarse para a autora ao relatar sentimentos e vivências de tempos idos. Por tudo isto, tenho de continuar a ler...