quinta-feira, 23 de junho de 2016

Uma Boa Mulher


Autor: Jill Alexander EssBaum
Edição: 2016/ maio
Páginas: 304
ISBN: 9789897242908
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
O fascínio e a culpa de uma mulher dividida entre o amor e a luxúria.

Complexo e íntimo, "Uma Boa Mulher" é a história de uma mulher que enfrenta o vazio no seu casamento e procura dar um novo sentido à sua vida. Este é um romance que explora a sensualidade e o desejo em toda a sua força libertadora e subversiva.
Muito elogiado pela crítica internacional e pelos leitores, "Uma Boa Mulher" é um livro profundo e intenso sobre o casamento, a moralidade e o amor-próprio.

A minha opinião:
Não consigo compreender porque tive dificuldade em escrever este parecer, quando gosto de romances no feminino. Esta Boa Mulher (na maior parte do tempo), conheceu apenas uma versão do amor, e ao longo de toda a leitura perturbou-me sem contudo me desinteressar dela. Triste, solitária e entediada escolheu uma controversa via para atenuar as suas dores sem conseguir mais do que viver com o desconforto da culpa e do medo.

Uma americana na Suiça, devido ao regresso do marido ao seu pais natal que não se consegue adaptar ou integrar numa sociedade que considera fria e pragmática, onde a língua também é uma barreira que pouco tenta superar com aulas diárias de alemão. O complexo e intimo mundo de Anna que apenas o leitor conhece já que não o revela à psiquiatra que a acompanha consciente dessa situação, em paralelo com os amantes que nada significam, bem como o desapego à família levaram-me como leitora num carrossel de emoções sem antecipar desfecho possível.

Foi assim uma leitura intensa e envolvente que não se consegue esquecer facilmente porque esta mulher chegou ao limite e tanto perdeu para depois procurar ganhar. Não é literatura cor-de-rosa. Antes um nó no estômago se transportarmos esta narrativa da ficção onde pertence, para o deambular de existências vazias num mundo perfeito por ai.

domingo, 19 de junho de 2016

Rio do Esquecimento

Autor: Isabel Rio Novo
Edição: 2016/ fevereiro
Páginas: 160
ISBN: 9789722059275
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças. Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, "Rio do Esquecimento" descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.

A minha opinião:
Não foi fácil de ler. A escrita requintada e a prosa descritiva para uma narrativa que remonta ao Sec. XIX levou-me para os romances que li enquanto adolescente e estudante nem sempre apreciados e foi necessário vencer essa resistência involuntária que antecipei para me deixar envolver com personagens que também elas remontam aos grandes dramas de amor do século passado.    

Bem urdida trama para um pequeno livro que supus ler num fôlego dadas as suas pequenas dimensões mas que me acompanhou durante dias para melhor o apreciar e assim compreender as intrincadas malhas de sentimentos que motivavam as ações das personagens num salto entre o antes e o agora da narrativa sem perder a coerência e a cadencia do tempo e do lugar. A maldade disfarçada que manipula, o ressentimento e amargura que vinga, a teimosia e ambição que enriquece, o sonho que comanda a vida e determina a morte, o desencanto e insegurança que apaga mas não esquece os que permanecem num toque sobrenatural que deu titulo à obra.

Poderoso como gosto adquirido que importa persistir para surpreender com a natureza humana que silenciosamente se manifesta. 

sábado, 18 de junho de 2016

Razões para viver

Autor: Matt Haig
Edição: 2016/ abril
Páginas: 260
ISBN: 978-972-0-04814-1
Editora: Porto Editora

Sinopse:

Um livro sobre como tirar o máximo partido da vida enquanto cá estamos. 

Aos 24 anos, o mundo de Matt Haig desabou: 

Durante algum tempo, fiquei parado junto ao abismo. Primeiro, a ganhar coragem para morrer; depois, a ganhar coragem para viver. 
Este é um relato na primeira pessoa sobre a forma como Matt mergulhou numa crise profunda, triunfou sobre uma doença que quase o matou e reaprendeu a viver.
Quando se está deprimido, sentimos que estamos sozinhos e que mais ninguém está a passar exatamente por aquilo que nos está a acontecer. Temos tanto medo de que os outros nos achem loucos que acabamos por interiorizar tudo. Temos tanto medo de que as pessoas nos ostracizem ainda mais, que acabamos por nos fechar numa concha. E não falamos sobre o que se passa connosco, o que é uma pena, pois ajuda se falarmos sobre o assunto.

A minha opinião:
Este é um testemunho importante que resulta da coragem de um homem em partilhar a sua experiência com uma doença como a depressão e explorando soluções que devem ser adequadas a cada um como razões para viver. 

Ler este livro foi opção quando a doença me tocou muito perto com um familiar chegado. Sabia bastante sobre o assunto porque infelizmente muitas são as pessoas com quem me cruzei ao longo dos tempos que sofriam deste flagelo. Algumas sabem-no e lutam bravamente contra, outras supõem que estão apenas infelizes afetadas por problemas banais, e outras ainda recusam encarar essa possibilidade por não serem malucos e não falam abertamente sobre o assunto mas apresentam sinais exteriores de risco como a ansiedade, a perturbação do pânico, entre outros.

Contudo este livro é mais abrangente porque nos faz encarar a vida e procurar tirar proveito dela realçando os aspectos positivos em que nos devemos focar, apreciar, sem ignorar o mundo em que vivemos e do qual fazemos parte em conjunto. Altos e baixos de quem sofre desta doença, como de qualquer existência. 

Descobri que a leitura é um excelente terapia porque "cada livro é fruto de uma mente humana num determinado estado" e "alguém que procura alguma coisa" como o leitor procura dentro de si com provisões de esperança e confiança. Apesar da escrita desarmada e fluída não consegui ler este pequeno livro todo de uma só vez e retomei-o sempre que precisava de acomodar e reter a informação que me transmitia. Gratificante, sem duvida, mas realista e como tal inquietante com o muito que desvenda, e simultaneamente redentor e positivo, mesmo que sem falsas esperanças de curas milagrosas.

Recomendo vivamente. 

sábado, 4 de junho de 2016

As Viúvas de Dom Rufia

Autor: Carlos Campaniço
Edição: 2016/ maio
Páginas: 280
ISBN:9789897414916
Editora: Casa das Letras

Sinopse:
Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.

Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.

A minha opinião:
Este romance de época visa perpetuar a incrível história de Dom Rufia, que na morte se revelou, nomeadamente na biografia de um velório em terras do Baixo Alentejo em tempos que já lá vão.

Dom Rufia era um encantador aldrabão, de bigode fininho, tez de sírio, olhos verdes e sorriso bonito que de mentira em mentira conquistava e seduzia. Tinha o dom, a magia que fazia falta na vida das pessoas, o que estava ligado à sua maneira de ser, e assim se tornou uma personagem inesquecível para uma leitura muito prazeiroza. As mulheres eram a fraqueza de Dom Rufia que não lhes resistia e o meio para contrariar o destino e fugir de uma vida de miséria e escravidão a trabalhar terras sem fim no Alentejo. Neste ambiente rural se espalhou e muitas de diferentes idades e proveniências encantou, que mais tarde, se apresentaram como surpresas viúvas.

Juan de los Fenómenos, velho chileno, culto e inteligente, espantava ver este homem em diferentes cenários e com diferentes papeis. 

O narrador em interlúdio com o leitor explica a natureza deste parente afastado conhecido como Dom Rufia, e conta as suas aventuras, bem como justifica as suas ações numa linguagem pouco usual ou brejeira, que nos desvirtua mas predispõe bem. Entretanto, tece algumas considerações bem humoradas sobre a nova Republica e o poder do dinheiro. 

Este romance é um imenso prazer de ler! De chorar a rir com certas peripécias!  

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Síndrome de Antuérpia

Autor: João Felgar
Edição: 2016/ maio
Páginas: 268
ISBN: 9789897243059
Editora: Clube do Autor


Sinopse:
No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. 
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome. 

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. 
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

A minha opinião:
Gosto cada vez mais de ler romances de autores portugueses. E se antes isso me surpreendia, atualmente não acontece porque espero ler algo francamente bom e com a nossa marca. Personagens com facetas que identifico, em contextos que reconheço e em circunstancias que compreendo. 
O que me surpreende é esse gosto cada vez apurado não estar mais difundido e o novo não ser motivo de curiosidade e interesse para tantos outros leitores como eu. Assim, tento espicaçar essa vontade de novas e quiçá felizes incursões literárias partilhando a minha opinião. 

Para o fazer tenho que reler os parágrafos que marquei com post its porque este pequeno livro prendeu a minha atenção tanto pela forma como pelo conteúdo. A escrita e a capacidade de expressar ideias lúcidas e bem articuladas numa trama que desvendei no inicio, mas que ainda assim me deixou cativa com a caracterização gradual de todas as personagens sem enfado ou decepção, e a confirmação do desfecho que a mestria do autor não desiludiu. Não é uma historia feliz mas é uma historia possível e impõe alguma reflexão. Os juízos de valor e as regras de conduta desta pequena comunidade fascinaram-me. 

"Há seres que não se procuram nem fazem falta, mas que não se dispensam depois de os termos. São amuletos que não dão sorte, mas não se jogam fora para não darem azar. E´ por isso que as aldeias devem ter sempre, pelo menos um tolo, para que a tolerância possa ser aprendida e exercida sem se pedir grandes concessões aos valores. Um ganho para a tranquilidade de consciência, que se alcança sem perdas morais a lamentar."                              (pag. 236)  

terça-feira, 24 de maio de 2016

A Livraria dos Finais Felizes

Autor: Katarina Bivald
Edição: 2016/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789896650704
Editora: Suma

Sinopse:
Se a vida fosse um romance, o da Sara certamente não seria um livro de aventuras. Em vinte e oito anos nunca saiu da Suécia e nenhum encontro do destino desarrumou a sua existência. Tímida e insegura, só se sente à vontade na companhia de um bom livro e os seus melhores amigos são as personagens criadas pela imaginação dos escritores, que a fazem viver sonhos, viagens e paixões. Mas tudo muda no dia em que recebe uma carta de uma pequena cidade perdida no meio do Iowa e com um nome estranho: Broken Wheel. A remetente é uma tal Amy, uma americana de 65 anos que lhe envia um livro. E assim começa entre as duas uma correspondência afetuosa e sincera. Depois de uma intensa troca de cartas e livros, Sara consegue juntar o dinheiro para atravessar o oceano e encontrar a sua querida amiga. No entanto, Amy não está à sua espera, o seu final, infelizmente, veio mais cedo do que o esperado. E enquanto os excêntricos habitantes, de quem Amy tanto lhe tinha falado, tomam conta da assustada turista (a primeira na história de Broken Wheel), Sara decide retribuir a bondade iniciando-os no prazer da leitura. Porque rapidamente percebe que Broken Wheel precisa de um pouco de aventura, uma dose de auto-ajuda e, talvez, um pouco de romance. Em suma, esta é uma cidade que precisa de uma livraria. E Sara, que sempre preferiu os livros às pessoas, naquela aldeia de poucas gente, mas de grande coração, encontrará amizade, amor e emoções para viver. E finalmente será a verdadeira protagonista da sua vida.

A minha opinião
Uma tentação a que não resisti. A capa e o titulo sugerem um livro sobre livros, o que a uma livrólica assumida não deixa alternativa.

Uma livraria com livros com finais felizes intriga. E esta é uma livraria muito especial que resulta do esforço de Sara com o espolio de Amy em retribuir a uma pequena comunidade, que subsistia graças a uma rede de favores em cadeia, com um livro para cada um dos seus habitantes. O que consegue de uma forma simplista e muito eficaz e paulatinamente cativar o leitor.

Achei muito curiosa a livraria com obras que Sara bem conhecia, muitos lidos e relidos e como tal catalogados não por géneros literários, mas com indicações úteis e relevantes para um leitor não experimentado que precisasse de informação para se deixar seduzir.

Sara aceita um convite para passar dois meses numa pequena cidade do Iowa para conhecer com quem convivia por carta. E as surpresas sucedem-se porque apesar de Amy ter referido muito nas suas cartas, não corresponde exatamente ao esperado. E nesta aventura, com alguma reciprocidade com personagens bem peculiares se desenrola a ação. Mais do que um livro sobre livros temos um livro sobre a descoberta de novos amigos e o quanto podemos mudar por influencia dos outros e... de um bom livro.

"Não é que os livros conseguissem, de uma maneira ou de outra, atenuar o sofrimento causado pela guerra, quando um ente querido morria ou alcançar a paz mundial ou algo do género. Porém, Sara não conseguia deixar de pensar que na guerra, tal como na vida, um dos grandes problemas era o tédio, um desgaste lento e implacável. Nada de dramático, apenas uma erosão gradual da energia do individuo e da sua vontade de viver.
Então, o que poderia ser melhor que um livro?"        (pag. 154)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Uma Senhora Nunca

Autor: Patrícia Müller
Edição: 2016/ abril
Páginas: 280
ISBN: 9789897222962
Editora: Quetzal Editores
 
Sinopse:
A resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Maria Laura é senhora desde que nasceu. Oriunda de uma família antiga e latifundiária, nunca trabalhou um dia na vida. Casa-se, tem filhos, gere um país próprio - o apartamento onde mora numa zona rica de Lisboa. Cuida de vivos e mortos com uma devoção cristã. Depois, enlouquece de medo e de rancor perante todas as mudanças que vêm com a Revolução de Abril de 1974. Esta é a vida de Maria Laura, da sua insignificância e das suas memórias familiares, mas também a história de um amor proibido, filho do marido, a da obsessão em cumprir regras que nunca discutiu, a da demência que é a antecâmara da morte - e a resistência aos turbilhões sentimentais, a vitória da vida sobre o tempo que nos devora. Esta é também uma história romântica, violenta e voluptuosa da vida dos seus pais e filhos, extensões naturais dos braços tentaculares da Senhora. E uma narrativa natural, intimista e sexual do século xx: uma família que vive com o poder e a glória - e que tudo perde com o 25 de Abril.

A minha opinião:
Gostaria de ter ido ao lançamento deste livro para conhecer quem escreve assim, mas no mesmo dia sobrepuseram três acontecimentos de autores que muito prezo.

Patrícia Müller conseguiu mais uma vez, (depois de "Madre Paula"), deslumbrar-me com uma personagem forte e simultaneamente frágil que, quase parece banal como na vida real onde se inspirou, se não penetrasse no universo mental de Maria Laura. 

"Uma senhora nunca deixa de ser senhora, mas pode sentir-se mulher."   (pag. 258)

"Eu sempre vivi duas vidas. Nas duas existo, vejo, sinto, ouço, penso." (pag. 49)

"(...) Maria Laura, uma cabra e uma santa, não ao mesmo tempo, mas com a mesma cara." 
(pag. 249) 

Uma história familiar, antes e depois do 25 de Abril de 1974. Mudanças repentinas e algumas nem tanto entre mães e filhas que não percebem que o amor tem várias feições e repetem um padrão que nada tem de coincidência apesar da generosidade transmitida pelo sangue. Sem a garantia de que nunca lhes falte um casaquinho de malha sobre os ombros.

Criadas que garantem a eficiência e o rolar dos dias sem sobressaltos, mas sem o amor maternal de quem cuida, resumido apenas a uma presença simples e silenciosa no combate à solidão. 

"Uma senhora não se estende às criadas, mesmo que a infância tenha sido passada em cima da barriga de uma."      

"Nem sempre a pessoa que está dentro do coração e da alma obedece aos preceitos do senso comum."   (pag. 159)

Relações amorosas falhadas por infâncias incompletas. Matrimonio com afetividade mas sem sexo porque esse reservavam os maridos para o pessoal domestico e afins. 

Perdas para uma mulher que deixa de olhar a vida da mesma forma. 

"A memoria aprisiona-se num espaço e num tempo em que foi feliz." 

"A demência começa a nebular o buraco que Maria Laura tem no coração." (pag. 270)

Prodigiosa imaginação da autora e talento para contar una história que me prende desde o início, sem que esta se torne insípida ou maçadora e assim suscita em mim uma profunda admiração.

sábado, 30 de abril de 2016

Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2016/ abril
Páginas: 192
ISBN: 9789722127998
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

A minha opinião:
Um precioso pequeno livro para mim. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos. 

Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.

Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, mas que se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler. Termina com uma oração difícil de esquecer:

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:
"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos  ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos."   (pag. 11/2)

"Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)



"A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem."  (pag.67)



"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida."  (pag. 76)


"Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade."  (pag. 87)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

História de Quem Vai e de Quem Fica

Autor: Elena Ferrante
Re/Edição: 2015/ setembro
Páginas: 336
ISBN: 9789896415570
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Elena e Lila, as duas amigas que os leitores já conhecem de A Amiga Genial e História do Novo Nome, tornaram-se mulheres. E isso aconteceu muito depressa.
Navegam agora ao ritmo agitado a que Elena Ferrante nos habituou, no mar alto dos anos 70, num cenário de esperança e incerteza, tensões e desafios até então impensáveis, unidas sempre com um vínculo fortíssimo, ambivalente, umas vezes subterrâneo, outras visível, com episódios violentos e reencontros que abrem perspetivas inesperadas.

A minha opinião:
E prossegui com a leitura das memorias de Elena, mas não de imediato. Outras leituras se interpuseram mas sem esquecer a vida em Nápoles e a estranha ligação entre as duas amigas. Uma ligação que Lenú, alias Elena, procura entender algumas vezes neste romance, num Tempo Intermédio.  

Pode parecer estranha esta pausa nos livros da tetralogia de Elena Ferrante. E mais uma vez, uso essa palavra. Mas estranha é uma palavra que me ocorria enquanto lia. Personagens fortes que se materializaram e tomaram os meus pensamentos.

Perturbadora a relação destas duas amigas, muito semelhante a uma que vivi. Extraordinariamente inteligentes, usam as suas capacidades com muito sacrifício de forma distinta e em função das oportunidades vingam. Rivalizam. E essa rivalidade tem uma dinâmica muito própria que as empurra em diante.

O bairro com as desigualdades, a prepotência e a miséria. A luta armada, os comunistas e os fascistas. Os crimes. O sexo e a intimidade.

A narrativa que não me parece um mero exercício criativo vai ao passado rebuscar como funciona o mundo com a finalidade de conhecermos corações que batem forte sem superficialidades ou frivolidades, condensando tanto entre os tumultos que se torna avassalador para quem lê. Entre Nápoles e Florença senti um aperto no peito com esta narrativa que me pareceu estranho. E dai a necessidade da pausa. Para retomar o controle e o equilíbrio.

Um livro para ler e reler. 

sábado, 16 de abril de 2016

O Discípulo

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 2)
Edição: 2016/ março
Páginas: 672
ISBN: 9789896650667
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Numa Estocolmo em chamas, assolada por uma onda de calor, várias mulheres são encontradas brutalmente assassinadas. Os assassinatos têm a marca de Edward Hinde, o assassino em série preso por Bergman há quinze anos, e que continua detido. Sendo um incontestável profiler e perito em Hinde, Sebastian é reintegrado na equipa, e não demora muito a perceber que tem mais ligações com o caso do que pensava. Todas as vítimas estão diretamente ligadas a eles. E a sua filha pode estar em perigo.

A minha opinião:
Satisfeito o meu capricho com este intimidante calhamaço que atrai pela maravilhosa capa. E pelo conteúdo, claro!

Independente do volume anterior, inclusive porque encontramos neste uma resenha, o enredo prende e passamos rapidamente várias páginas em curto espaço de tempo enquanto seguimos Sebastian Bergman, bem como Vanja, Ursula, Torkel, Billy e ainda o Homem Alto. 

Romance policial com personagens bem caracterizadas psicologicamente, não sobressalta tanto quanto se poderia esperar e tem algo de ingénuo no modo como encaram e entabuam conversa com um psicopata como Edward Hinde, que facilmente manipula os outros que percepciona, como Haraldsson, o novo diretor da prisão. Inteligente e vitima de abusos e abandono tem em Sebastian um rival que parece mais perdido do que nunca e incapaz de reagir a um oponente tão calculista. Depois de Sebastian estabelecer a ligação das vitimas consigo começa a ação, uma vez que Edward conhece o passado e o segredo de Sebastian.

Sebastian provoca em toda a narrativa emoções contraditórias, e se por um lado a sua faceta de mulherengo insensível e egoísta chateia, por outro lado é compreendido pelas perdas que procura apaziguar. O lado humano não é descurado neste livro e todas as personagens apresentam fragilidades bem exploradas e empáticas ao leitor. Assim, menos intenso ou dramático do que o esperado mas muito envolvente e viciante até ao final, que nos deixa com mais um segredo intrigante para o próximo livro que não pretendo perder.

sábado, 2 de abril de 2016

Segredos Obscuros

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 1)
Edição: 2015/ julho
Páginas: 544
ISBN: 9789898775535
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Sebastian Bergman é um homem à deriva. 
Psicólogo de formação, trabalhava como profiler para a polícia e era um dos grandes especialistas do país em serial killers. Perdeu tudo quando o tsunami no continente indiano lhe levou a mulher e a filha. 
Tudo muda com uma chamada para a polícia. 
Um rapaz de dezasseis anos, Roger Eriksson, desapareceu na cidade de Västerås. Organiza-se uma busca e um grupo de jovens escuteiros faz uma descoberta macabra no meio de um pântano: Roger está morto e falta-lhe o coração.

É o momento de Sebastian se confrontar com um mundo que conhece demasiado bem. 
O Departamento de Investigação Criminal pede ajuda a Sebastian. Os modos bruscos e revoltados de Sebastian não impedem a investigação de avançar. E as descobertas sobre a escola que Roger frequentava são aterradoras.

A minha opinião:
Esqueci este livro e quando me questionaram se o queria ler, hesitei. Tantos outros que passaram à frente, e outros tantos sobressaiam no topo da pilha, mas como não gosto de ficar em falta, concordei, e gostei bastante. De inicio, não me pareceu o tipo de leitura esperada para um thriller, ou um romance policial, o que se alterou com a entrada de Sebastian Bergman na investigação e consequentemente na equipa, por um motivo pessoal e escuso.

Regressara a Västerås para resolver rapidamente tudo o que se relacionava com a sua herança após o falecimento da mãe, laço familiar que cortou na juventude e pouco explicado, quando a investigação a um obscuro crime decorre e acaba por se envolver. Grosseiro, sexista, critico ou simplesmente sórdido, e ainda charmoso e intuitivo ou não soubesse ele a ténue linha que o separava dos criminosos que caçava. 

Neste género de romances não se pode afirmar que um protagonista com este perfil seja original mas continua a encaixar perfeitamente. E para mais, mulherengo. A inteligência seduz e como leitora sucumbi ao poder de dedução e analise que nem sempre me surpreendia mas compreendia. Algumas das observações fora do âmbito da investigação também são oportunas e eficazes.  

Os crimes que se seguiram tornaram esta narrativa mais e mais interessante e cheguei ao fim com a sensação de "quero mais" depois do ultimo segredo revelado. Felizmente, o livro seguinte de Sebastian Bergman - O Discípulo vai satisfazer este capricho.