domingo, 31 de julho de 2016

O Livro dos Baltimore

Autor: Joël Dicker
Edição: 2016/ maio
Páginas: 552
ISBN: 9789896650674
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
«Se encontrar este livro, por favor leia-o. Queria que alguém conhecesse a história dos Goldman de Baltimore.»

Até ao dia do Drama, existiam dois ramos da família Goldman: os Goldman de Baltimore e os Goldman de Montclair.
O ramo de Baltimore, próspero e bafejado pela sorte, mora numa luxuosa mansão. Encarna a imagem da elite americana, abastada e influente, que vive em bairros exclusivos, passa férias nos Hamptons e frequenta colégios privados. Já os Goldman de Montclair são uma típica família de classe média e vivem numa casa banal em Nova Jérsia. É a esta família modesta que pertence Marcus Goldman, autor do romance "A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert". Mas era à família feliz e privilegiada de Baltimore que Marcus secretamente desejava pertencer. Mas tudo isto se transforma com o Drama.
Oito anos depois do dia que tudo mudou, é a história da sua família que Marcus Goldman decide investigar. Movido pelas memórias felizes dos tempos áureos de Baltimore, procura descobrir o que se passou no dia do Drama, que mudaria para sempre o destino da família. O que aconteceu realmente aos Goldman de Baltimore?

A minha opinião: 
Provavelmente não teria lido este livro se não me tivesse sido oferecido. 

Até então não me tinha chamado a atenção, mas depois fui investigar. Constatei que tinha estado desatenta porque várias foram as vezes em que o autor foi referido por amigos que tinham lido as outras duas obras - "Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e "Os Últimos Dias dos Nossos Pais". Sem paralelo para mim que ainda não os li. 

"O Livro dos Baltimore" trata-se de uma promessa cumprida por Marcus Goldman ao seu tio Saul Goldman de Baltimore. 

Um cão, Duke, faz a ponte entre o escritor e Alexandra que se tinham afastado oito anos antes e Marcus que tentava ultrapassar um bloqueio criativo retoma ao passado com memórias felizes da adolescência e juventude quando pertencia ao "Gangue dos Baltimore". Saltos temporais marcam esta narrativa mas sem perder a cadência e o interesse pelo enredo desta família.

A perspectiva de Marcus apresenta lacunas que gradualmente ele vai preenchendo e o que parecia óbvio e inevitável percebe-se que não o foi. Os motivos prendem-se com o Drama que ele tende mas tarda em revelar, na proximidade com o curioso vizinho Leo que o julga e repreende como a voz da consciência, 

Sentimentos profundos e conturbados alteram o rumo de sucesso que parecia traçado para os Goldman. Inveja, orgulho e paixão ocultos no seio da família antes e depois do Drama de 2004. Segredos obscuros que tornam esta leitura empolgante e rápida e uma ótima leitura de verão. 

domingo, 24 de julho de 2016

Manual para mulheres de limpeza

Autor: Lucia Berlin
Edição: 2016/ maio
Páginas: 528
ISBN: 9789896650650
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
Manual para mulheres de limpeza reúne o melhor da obra da lendária escritora norte-americana Lucia Berlin. Com um estilo muito próprio, faz eco da sua própria experiência - tão rica quanto turbulenta - e cria verdadeiros milagres a partir da vida de todos os dias. As suas histórias são pedaços de vidas convulsas.

Um dos melhores livros do ano segundo os jornais The New York Times e The Guardian.

A minha opinião: 
Gostei deste livro assim que o vi. 

A capa com aquela figura feminina (a autora) de sorriso negligente chamou-me a atenção, antes mesmo do titulo que guardei na memória e da sinopse que li quando o virei. Ainda assim não foi um livro que li compulsivamente. Ficou parado na minha mesa de cabeceira e ao fim do dia pegava nele para ler mais um conto e apreciar devagar o outro lado do sonho que Lucia narra com desapego, compassividade e economia de palavras.  Quase como se fosse uma peça jornalística que precisamos de conhecer para entender o mundo em que vivemos, que por outro lado, com o tanto que conta torna-se difícil de entender. A violência, maus tratos em mulheres e crianças, a miséria, a dependência do álcool e de drogas, o abandono, a dor e a morte, e em que o belo se mistura com tudo isto em pormenores observados ou imaginados que a autora registou para dar força e profundidade à prosa. Uma escrita tão realista que se torna verdadeira para o leitor. Sentida. 

"E´ uma questão de melhorarmos a realidade, de fazermos a nossa própria verdade." (pag. 483)  

Lidos todos os contos temos a trajectória de vida da autora, que confirmamos no fim com Uma nota sobre Lucia Berlin. Uma vida recheada mas sombria, com rasgos de humor e ironia. Uma nobreza de carácter que marca. Como um diário que se espreita em segredo.  

"O único motivo porque vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha, parte chávenas e garrafas, derruba frascos e estilhaça janelas, faz-me tropeçar, ensanguentada, em açúcar entornado e em vidros partidos, sufocando de pavor até que, num ultimo estremecimento e soluço, fecho a porta pesada. Apanho os cacos uma vez mais. (pag. 509)

domingo, 17 de julho de 2016

História da Menina Perdida

Autor: Elena Ferrante
Edição: 2016/ maio
Páginas: 432
ISBN: 9789896415815
Editora: Relógio D'Água

Sinopse: 
Deixando o marido em Florença, Elena volta a Nápoles para viver com Nino Sarratore, esperando que este se separe da mulher. É agora uma escritora reconhecida e procura escapar ao ambiente conflituoso do bairro onde cresceu e a sua família continua a viver. Evita encontrar Lila. Mas as duas amigas de infância não conseguem manter-se distantes e acabam mesmo por engravidar ao mesmo tempo, o que lhes permite reencontrar, por algum tempo, a passada cumplicidade.

A minha opinião: 
Finalmente li o ultimo volume da tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante. 

Ao contrario de outras opiniões considero a narrativa limpa e honesta de Elena Greco exigente pela complexidade de sentimentos que a amizade com Lila tem, bem como os restantes relacionamentos com contornos políticos deste bairro napolitano, para que me permita ler ininterruptamente.  

As personagens permanecem connosco, ou melhor, o desassossego que nos causam não nos deixa esquece-las, mesmo que façam interregnos como os meus. Como se fizéssemos parte da trama. 

Quem escreve com o pseudónimo Elena Ferrante parece ter se inspirado em factos vividos para criar uma historia ficcional muito genuína e sentida, que gradualmente nos conquista mas incomoda porque muitas são as situações angustiantes e dolorosas no bairro miserável, violento e decadente onde cresceram e do qual Elena se procurou libertar mas ao que regressou numa fase da sua vida aqui retratada. A história da Menina Perdida encerra um ciclo de alguma proximidade e consenso entre as duas amigas novamente mães. A ligação das crianças e as suas diferenças deixa Elena insegura mas o pior estava para vir. E tantas outras experiências quotidianas e tantas emoções nesta narrativa rica e dinâmica. 

Para ler e mais tarde reler, porque muitos são os aspectos e pormenores que importa reter nesta bem contada história.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um Homem Chamado Ove

Autor: Fredrik Backman
Edição: 2016/ maio
Páginas: 312
ISBN: 978-972-23-5825-5
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se.

Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter.

Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer. 

Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises.

Um Homem Chamado Ove é um livro simultaneamente hilariante e encantador. Fala-nos deamizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros.

A minha opinião:
Possivelmente a minha melhor leitura deste verão. E quão inesperado pode ser, quando um pequeno e singelo livro, enreda de tal modo, que tudo e todos os que nos rodeiam ficam em segundo plano, enquanto se acompanha as peripécias das personagens que lidam com o mau feitio de Ove, e ganham vida. Ove, esse, vai direitinho ao coração.

Ove é um homem extraordinário sem o desejar. Taciturno e habilidoso, raramente mostra sentimentos que o seu coração demasiado grande e a sua rabugice oculta, mas quando os princípios porque se rege são questionados, tem de agir. E quando decide ir ao encontro da sua Sonja, porque sente muito a sua falta, depois de ser dispensado do emprego, uma iraniana Grávida de um Esgalgado e as suas duas filhas pequenas mudam-se para a casa do lado, e a sua vida muda. Nem o Gato que não queria fica aos seus cuidados.

Como leitora, passei boa parte do tempo perdida de riso e outro tanto comovida com a generosidade e o desapego de tais personagens. Claro, que o mérito é do autor que consegue imprimir uma autenticidade e vivacidade à narrativa (que nada deixa por contar sobre Ove) que se lê com muito gozo e algum suspense, enquanto se torce por um desfecho favorável às personagens que acarinhamos. 

Há romances assim, que nos pegam desprevenidos e nos conquistam o coração. E são sempre as coisas mais simples como seguir o que parece certo que o conseguem plenamente, com o impacto que isso tem na vida dos outros.

Um prazer de ler!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Felicidade é um Chá Contigo

Autor: Mamen Sánchez
Edição: 2016/ maio
Páginas: 284
ISBN: 9789897542213
Editora: Marcador

Sinopse: 
O inexplicável desaparecimento do gentleman Atticus Craftsman parece estar relacionado com as bruxarias de cinco mulheres desesperadas. São funcionárias da revista Librarte e capazes de qualquer coisa para conservar o emprego.

O inspetor Manchego será encarregue de desenredar uma trama na qual a comédia romântica se entrelaça com o drama mais ternurento. E a intriga policial dá lugar ao maior achado literário de todos os tempos.

Aquilo que parece difícil acaba por ser tornar fácil e todos os problemas se afogam num mar de lágrimas… de tanto rir. Tudo isto para chegar à conclusão de que, aconteça o que acontecer, o amor consegue explicar tudo.

A minha opinião:
De ferias! E ferias sem livros não faz sentido. Assim, para começar procurei uma leitura que fosse leve, alegre e vigorosa, sem ser muito juvenil ou delirante. 

"A Felicidade é um chá contigo" pareceu-me uma boa sugestão, apesar da letra miudinha que redimensiona o livro. Não sei se consegui bem os meus intentos com esta agradável leitura de verão, que me transportou para Espanha, nomeadamente para Granada, diretamente para uma comunidade cigana com toda aquela exuberância e alegria de viver, e um jeitinho muito malandro de conseguir os seus objectivos. O misterioso desaparecimento do Inglês, fanático por um chá, que se deixa seduzir por tudo aquilo que o povo espanhol tem de melhor e que bem conhecemos, como odores e sabores, bem como a generosidade e simpatia que subjuga como magia.

De resto, a história é um pouco fantasiosa e pueril, com personagens encantadoras que se apaixonam e ultrapassam as suas dificuldades, enganos e traições. Sem dúvida uma comédia romântica, com um inspector muito boa pessoa mas pouco competente. Divertido, mas não hilariante. Recomendo com parcimónia.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Uma Boa Mulher


Autor: Jill Alexander EssBaum
Edição: 2016/ maio
Páginas: 304
ISBN: 9789897242908
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
O fascínio e a culpa de uma mulher dividida entre o amor e a luxúria.

Complexo e íntimo, "Uma Boa Mulher" é a história de uma mulher que enfrenta o vazio no seu casamento e procura dar um novo sentido à sua vida. Este é um romance que explora a sensualidade e o desejo em toda a sua força libertadora e subversiva.
Muito elogiado pela crítica internacional e pelos leitores, "Uma Boa Mulher" é um livro profundo e intenso sobre o casamento, a moralidade e o amor-próprio.

A minha opinião:
Não consigo compreender porque tive dificuldade em escrever este parecer, quando gosto de romances no feminino. Esta Boa Mulher (na maior parte do tempo), conheceu apenas uma versão do amor, e ao longo de toda a leitura perturbou-me sem contudo me desinteressar dela. Triste, solitária e entediada escolheu uma controversa via para atenuar as suas dores sem conseguir mais do que viver com o desconforto da culpa e do medo.

Uma americana na Suiça, devido ao regresso do marido ao seu pais natal que não se consegue adaptar ou integrar numa sociedade que considera fria e pragmática, onde a língua também é uma barreira que pouco tenta superar com aulas diárias de alemão. O complexo e intimo mundo de Anna que apenas o leitor conhece já que não o revela à psiquiatra que a acompanha consciente dessa situação, em paralelo com os amantes que nada significam, bem como o desapego à família levaram-me como leitora num carrossel de emoções sem antecipar desfecho possível.

Foi assim uma leitura intensa e envolvente que não se consegue esquecer facilmente porque esta mulher chegou ao limite e tanto perdeu para depois procurar ganhar. Não é literatura cor-de-rosa. Antes um nó no estômago se transportarmos esta narrativa da ficção onde pertence, para o deambular de existências vazias num mundo perfeito por ai.

domingo, 19 de junho de 2016

Rio do Esquecimento

Autor: Isabel Rio Novo
Edição: 2016/ fevereiro
Páginas: 160
ISBN: 9789722059275
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças. Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, "Rio do Esquecimento" descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.

A minha opinião:
Não foi fácil de ler. A escrita requintada e a prosa descritiva para uma narrativa que remonta ao Sec. XIX levou-me para os romances que li enquanto adolescente e estudante nem sempre apreciados e foi necessário vencer essa resistência involuntária que antecipei para me deixar envolver com personagens que também elas remontam aos grandes dramas de amor do século passado.    

Bem urdida trama para um pequeno livro que supus ler num fôlego dadas as suas pequenas dimensões mas que me acompanhou durante dias para melhor o apreciar e assim compreender as intrincadas malhas de sentimentos que motivavam as ações das personagens num salto entre o antes e o agora da narrativa sem perder a coerência e a cadencia do tempo e do lugar. A maldade disfarçada que manipula, o ressentimento e amargura que vinga, a teimosia e ambição que enriquece, o sonho que comanda a vida e determina a morte, o desencanto e insegurança que apaga mas não esquece os que permanecem num toque sobrenatural que deu titulo à obra.

Poderoso como gosto adquirido que importa persistir para surpreender com a natureza humana que silenciosamente se manifesta. 

sábado, 18 de junho de 2016

Razões para viver

Autor: Matt Haig
Edição: 2016/ abril
Páginas: 260
ISBN: 978-972-0-04814-1
Editora: Porto Editora

Sinopse:

Um livro sobre como tirar o máximo partido da vida enquanto cá estamos. 

Aos 24 anos, o mundo de Matt Haig desabou: 

Durante algum tempo, fiquei parado junto ao abismo. Primeiro, a ganhar coragem para morrer; depois, a ganhar coragem para viver. 
Este é um relato na primeira pessoa sobre a forma como Matt mergulhou numa crise profunda, triunfou sobre uma doença que quase o matou e reaprendeu a viver.
Quando se está deprimido, sentimos que estamos sozinhos e que mais ninguém está a passar exatamente por aquilo que nos está a acontecer. Temos tanto medo de que os outros nos achem loucos que acabamos por interiorizar tudo. Temos tanto medo de que as pessoas nos ostracizem ainda mais, que acabamos por nos fechar numa concha. E não falamos sobre o que se passa connosco, o que é uma pena, pois ajuda se falarmos sobre o assunto.

A minha opinião:
Este é um testemunho importante que resulta da coragem de um homem em partilhar a sua experiência com uma doença como a depressão e explorando soluções que devem ser adequadas a cada um como razões para viver. 

Ler este livro foi opção quando a doença me tocou muito perto com um familiar chegado. Sabia bastante sobre o assunto porque infelizmente muitas são as pessoas com quem me cruzei ao longo dos tempos que sofriam deste flagelo. Algumas sabem-no e lutam bravamente contra, outras supõem que estão apenas infelizes afetadas por problemas banais, e outras ainda recusam encarar essa possibilidade por não serem malucos e não falam abertamente sobre o assunto mas apresentam sinais exteriores de risco como a ansiedade, a perturbação do pânico, entre outros.

Contudo este livro é mais abrangente porque nos faz encarar a vida e procurar tirar proveito dela realçando os aspectos positivos em que nos devemos focar, apreciar, sem ignorar o mundo em que vivemos e do qual fazemos parte em conjunto. Altos e baixos de quem sofre desta doença, como de qualquer existência. 

Descobri que a leitura é um excelente terapia porque "cada livro é fruto de uma mente humana num determinado estado" e "alguém que procura alguma coisa" como o leitor procura dentro de si com provisões de esperança e confiança. Apesar da escrita desarmada e fluída não consegui ler este pequeno livro todo de uma só vez e retomei-o sempre que precisava de acomodar e reter a informação que me transmitia. Gratificante, sem duvida, mas realista e como tal inquietante com o muito que desvenda, e simultaneamente redentor e positivo, mesmo que sem falsas esperanças de curas milagrosas.

Recomendo vivamente. 

sábado, 4 de junho de 2016

As Viúvas de Dom Rufia

Autor: Carlos Campaniço
Edição: 2016/ maio
Páginas: 280
ISBN:9789897414916
Editora: Casa das Letras

Sinopse:
Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.

Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.

A minha opinião:
Este romance de época visa perpetuar a incrível história de Dom Rufia, que na morte se revelou, nomeadamente na biografia de um velório em terras do Baixo Alentejo em tempos que já lá vão.

Dom Rufia era um encantador aldrabão, de bigode fininho, tez de sírio, olhos verdes e sorriso bonito que de mentira em mentira conquistava e seduzia. Tinha o dom, a magia que fazia falta na vida das pessoas, o que estava ligado à sua maneira de ser, e assim se tornou uma personagem inesquecível para uma leitura muito prazeiroza. As mulheres eram a fraqueza de Dom Rufia que não lhes resistia e o meio para contrariar o destino e fugir de uma vida de miséria e escravidão a trabalhar terras sem fim no Alentejo. Neste ambiente rural se espalhou e muitas de diferentes idades e proveniências encantou, que mais tarde, se apresentaram como surpresas viúvas.

Juan de los Fenómenos, velho chileno, culto e inteligente, espantava ver este homem em diferentes cenários e com diferentes papeis. 

O narrador em interlúdio com o leitor explica a natureza deste parente afastado conhecido como Dom Rufia, e conta as suas aventuras, bem como justifica as suas ações numa linguagem pouco usual ou brejeira, que nos desvirtua mas predispõe bem. Entretanto, tece algumas considerações bem humoradas sobre a nova Republica e o poder do dinheiro. 

Este romance é um imenso prazer de ler! De chorar a rir com certas peripécias!  

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Síndrome de Antuérpia

Autor: João Felgar
Edição: 2016/ maio
Páginas: 268
ISBN: 9789897243059
Editora: Clube do Autor


Sinopse:
No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. 
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome. 

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. 
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

A minha opinião:
Gosto cada vez mais de ler romances de autores portugueses. E se antes isso me surpreendia, atualmente não acontece porque espero ler algo francamente bom e com a nossa marca. Personagens com facetas que identifico, em contextos que reconheço e em circunstancias que compreendo. 
O que me surpreende é esse gosto cada vez apurado não estar mais difundido e o novo não ser motivo de curiosidade e interesse para tantos outros leitores como eu. Assim, tento espicaçar essa vontade de novas e quiçá felizes incursões literárias partilhando a minha opinião. 

Para o fazer tenho que reler os parágrafos que marquei com post its porque este pequeno livro prendeu a minha atenção tanto pela forma como pelo conteúdo. A escrita e a capacidade de expressar ideias lúcidas e bem articuladas numa trama que desvendei no inicio, mas que ainda assim me deixou cativa com a caracterização gradual de todas as personagens sem enfado ou decepção, e a confirmação do desfecho que a mestria do autor não desiludiu. Não é uma historia feliz mas é uma historia possível e impõe alguma reflexão. Os juízos de valor e as regras de conduta desta pequena comunidade fascinaram-me. 

"Há seres que não se procuram nem fazem falta, mas que não se dispensam depois de os termos. São amuletos que não dão sorte, mas não se jogam fora para não darem azar. E´ por isso que as aldeias devem ter sempre, pelo menos um tolo, para que a tolerância possa ser aprendida e exercida sem se pedir grandes concessões aos valores. Um ganho para a tranquilidade de consciência, que se alcança sem perdas morais a lamentar."                              (pag. 236)  

terça-feira, 24 de maio de 2016

A Livraria dos Finais Felizes

Autor: Katarina Bivald
Edição: 2016/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789896650704
Editora: Suma

Sinopse:
Se a vida fosse um romance, o da Sara certamente não seria um livro de aventuras. Em vinte e oito anos nunca saiu da Suécia e nenhum encontro do destino desarrumou a sua existência. Tímida e insegura, só se sente à vontade na companhia de um bom livro e os seus melhores amigos são as personagens criadas pela imaginação dos escritores, que a fazem viver sonhos, viagens e paixões. Mas tudo muda no dia em que recebe uma carta de uma pequena cidade perdida no meio do Iowa e com um nome estranho: Broken Wheel. A remetente é uma tal Amy, uma americana de 65 anos que lhe envia um livro. E assim começa entre as duas uma correspondência afetuosa e sincera. Depois de uma intensa troca de cartas e livros, Sara consegue juntar o dinheiro para atravessar o oceano e encontrar a sua querida amiga. No entanto, Amy não está à sua espera, o seu final, infelizmente, veio mais cedo do que o esperado. E enquanto os excêntricos habitantes, de quem Amy tanto lhe tinha falado, tomam conta da assustada turista (a primeira na história de Broken Wheel), Sara decide retribuir a bondade iniciando-os no prazer da leitura. Porque rapidamente percebe que Broken Wheel precisa de um pouco de aventura, uma dose de auto-ajuda e, talvez, um pouco de romance. Em suma, esta é uma cidade que precisa de uma livraria. E Sara, que sempre preferiu os livros às pessoas, naquela aldeia de poucas gente, mas de grande coração, encontrará amizade, amor e emoções para viver. E finalmente será a verdadeira protagonista da sua vida.

A minha opinião
Uma tentação a que não resisti. A capa e o titulo sugerem um livro sobre livros, o que a uma livrólica assumida não deixa alternativa.

Uma livraria com livros com finais felizes intriga. E esta é uma livraria muito especial que resulta do esforço de Sara com o espolio de Amy em retribuir a uma pequena comunidade, que subsistia graças a uma rede de favores em cadeia, com um livro para cada um dos seus habitantes. O que consegue de uma forma simplista e muito eficaz e paulatinamente cativar o leitor.

Achei muito curiosa a livraria com obras que Sara bem conhecia, muitos lidos e relidos e como tal catalogados não por géneros literários, mas com indicações úteis e relevantes para um leitor não experimentado que precisasse de informação para se deixar seduzir.

Sara aceita um convite para passar dois meses numa pequena cidade do Iowa para conhecer com quem convivia por carta. E as surpresas sucedem-se porque apesar de Amy ter referido muito nas suas cartas, não corresponde exatamente ao esperado. E nesta aventura, com alguma reciprocidade com personagens bem peculiares se desenrola a ação. Mais do que um livro sobre livros temos um livro sobre a descoberta de novos amigos e o quanto podemos mudar por influencia dos outros e... de um bom livro.

"Não é que os livros conseguissem, de uma maneira ou de outra, atenuar o sofrimento causado pela guerra, quando um ente querido morria ou alcançar a paz mundial ou algo do género. Porém, Sara não conseguia deixar de pensar que na guerra, tal como na vida, um dos grandes problemas era o tédio, um desgaste lento e implacável. Nada de dramático, apenas uma erosão gradual da energia do individuo e da sua vontade de viver.
Então, o que poderia ser melhor que um livro?"        (pag. 154)