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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O Cultivo de Flores de Plástico

 

A minha opinião:

Um pequeno livro com ilustrações simples sobre duas personagens masculinas e duas femininas que tinham em comum a sua situação. Eram sem abrigo. As conversas decorriam quando se recolhiam debaixo de umas arcadas para dormir e apenas se tinham uns aos outros por companhia. Invisíveis aos olhos dos outros.
Pertinente história para recolocar as prioridades e perceber que a linha que nos separa é estreita.

O que não gostei e me transtornou foi o excerto de maldade com um cão. E não, não era nada com nenhuma das personagens.

Uma brevissima narrativa num elegante livro de capa dura que tem uma linguagem quase poética e muito sentida.
Uma prenda de natal.

P.s.- Uma peça de teatro, o que não tinha percebido que se tratava.

Autor: Afonso Cruz
Páginas: 112
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897849237
Edição: novembro/2023

Sinopse:
Lili ocupa o tempo de sobra a experimentar chaves em portas. O couraçado Korzhev dobra e desdobra mapas e carrega no bolso conchas que lhe devolvem a maresia. A senhora de fato suspira pelo tempo em que vivia uma vida alcatifada, com dois carros, um cão e um gato. Jorge sabe que bastou um passo em falso para ir parar ali. É o que separa as pessoas que vivem em casas das pessoas que vivem na rua: um passo mal dado.

Num texto belíssimo, pleno de dor e ironia, Afonso Cruz imagina as vidas de um grupo de pessoas que vive debaixo do mau tempo, abaixo da linha mínima da dignidade e conforto que deveria caber a cada pessoa. O Cultivo de Flores de Plástico é um apelo para que olhemos para os seres invisíveis das nossas cidades.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Sinopse de Amor e Guerra

 

A minha opinião: 

Um pequeno romance que todo ele é sentimento, onde coexiste amor e ódio. Um amor profundo. Predestinado. Apartado por um muro. "...se me perguntarem o que é a vida depois da morte, ou a separação física, o que vai ao mesmo, respondo que é isso: a silhueta que deixamos nas paredes da alma de quem nos ama." (pag. 117)

A narrativa tem o cunho de Afonso Cruz em que se conjuga várias latitudes serenamente ponderadas num olhar que varia entre o fatalista e o terno sobre a natureza humana. E os livros, sempre os livros, que os tios de Theobald, donos de uma livraria, serviam numa bem intencionada pausa de sabedoria e ironia. "Instantes de eternidade, pequenos episódios de sentido que dão propósito e nos enquadram no mundo, não como seres insignificantes que amam. E isso muda tudo." (pag.140)

Sinopse de amor e guerra é o segundo na coleção Geografias: narrativas que partem de uma viagem ou de um lugar. Berlim é a cidade. Não estive atenta mas li Princípio de Karenina, o primeiro e, remonta à Cochichina.

Romances que nos fazem crescer e devem ser lidos por quem tem alma de leitor.

Autor: Afonso Cruz
Páginas: 192
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789896658113
Edição: 2021/ dezembro 

Sinopse:
Theobald Thomas e Bluma Janek estão fadados a ficar juntos desde que vêm ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito.

Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro o mais famoso da História e a promessa do primeiro beijo fica adiada.

O novo romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no fado individual de dois amantes o reflexo de algo universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O Vício dos Livros

A minha opinião:

Belissímo. Uma preciosidade. Afonso Cruz quando gravou estas histórias, gravou a sua alma. E como tal, este livro vai ter um lugar de destaque na minha biblioteca. E vai passar de mão em mão entre leitores. Do tanto que sabia, muito mais quero saber. Afinal...

A morte, perante os livros, fica sem porder

É que a morte também é leitora, por isso, aconselho a que andem sempre com um livro na mão, porque, quando a morte chega e vê o livro, espreita para ver o que estamos a ler, tal como eu faço no autocarro, e distrái-se. 

                                 ____ # ____

Os livros são seres pacientes- Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.

Ao contrário de tantos outros vícios, o dos livros é, na verdade, uma virtude. De facto, ter livros não é o mesmo que, por exemplo, ter dinheiro. Ter livros é como ter amigos, ter dinheiro é como ter com que pagar a amigos.

Autor: Afonso Cruz
Páginas: 128
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897841972
Edição: 2021/ abril

Sinopse: 
Na biblioteca do faraó Ramsés II estava escrito por cima da porta de entrada: «Casa para terapia da alma». É o mais antigo mote bibliotecário. De facto, os livros completam-nos e oferecem-nos múltiplas vidas. São seres pacientes e generosos. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.

Somos histórias, e os livros são uma das nossas vozes possíveis (um leitor é, mal abre um livro, um autor: ler é uma maneira de nos escrevermos).

Nesta deliciosa colheita de relatos históricos e curiosidades literárias, de reflexões e memórias pessoais, Afonso Cruz dialoga com várias obras, outros tantos escritores e todos os leitores.

Este é, evidentemente, um livro para quem tem o vício dos livros.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Princípio de Karenina

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2018/ novembro
Páginas: 168
ISBN: 9789896656928
Editora: Alfaguara

Sinopse:
Um pai que se dirige à filha e lhe conta a sua história, que é a história de ambos, revelando distâncias e aproximando-se por causa disso, numa entrega sincera e emocional.

Uma viagem até aos confins do mundo, até ao Vietname e Camboja, até ao território que antigamente se designava como Cochinchina, para encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita. Um pai que ergue muros de silêncio, uma mãe que faz arco-íris de música, uma criada quase tão velha como o Mundo, um amigo que veste roupas de mulher, uma amante que carrega sabores e perfumes proibidos. São estas algumas das inesquecíveis personagens que rodeiam este homem que se dirige à filha, que testemunham - ou dificultam - essa procura do amor mais incondicional.

Uma busca que nos leva a todos a chegar tão longe, para lá de longe, para nos depararmos connosco, com as nossas relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo, encontrar talvez felicidade.

A minha opinião:
Relutei em ler este novo romance de Afonso Cruz. Li alguns dos seus livros e tive o prazer de o conhecer. Uma pessoa rara. Os seus romances são belos e duros, e daí a minha relutância. A escrita que pede para ser lida em voz alta, dada a musicalidade das frases, bem como o sentido das palavras que afloram sentimentos profundos, fazem-me estremecer sem ceder.  

Romance pequenino, de capítulos curtos e muitas metáforas, intercalado com imagens e alguns excertos de outras latitudes, conta a história de um homem que escreve à filha que não conheceu. Um homem com uma deformidade de nascença que foi amado pela mãe apesar dessa diferença, aprendeu com o pai o medo do estrangeiro e o tédio existencial, foi salvo pelo amor que corrige o mundo mas também aleija muito. 

"Todos os anjos caídos serão levantados."
Uma história com princípio, meio e fim de um menino que se tornou homem, marido, amante e pai, sem se preocupar com a felicidade, mas acabou por reflectir muito nela. E o leitor também, preso das palavras lúcidas e sábias de Afonso Cruz.

Gostei muito.

domingo, 6 de novembro de 2016

Uma Dor tão Desigual

Autor: Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis, Richard Zimler
Edição: 2016/ setembro
Páginas: 200
ISBN: 9789724751139
Editora: Teorema

Sinopse:
Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda.
Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós.
A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída.

A minha opinião: 
Gosto de contos. São curtos, concisos e diretos. Ou seja, estórias pequeninas, sem muitos detalhes que não façam diferença, em que rapidamente chegamos à mensagem que estava na mente do autor, ou não, porque cada leitor foca aspectos que mais lhe interessam.   

Estes contos são relevantes pela temática que abordam. E foi justamente isso que me chamou a atenção.  Isso e o conjunto de autores convidados para este desafio, que do meu ponto de vista foi superado com exito.  

Pode-se gostar mais de um ou de outro dos oito contos que aqui se apresentam,  mas todos foram bem conseguidos. Criativos e muito bem escritos como seria de se esperar. Todos focam problemas distintos e tocam-nos porque já os conhecemos através de amigos, familiares ou meras versões verbais bem menos imaginativas e mais assustadoras. Provavelmente, em algum momento das nossas vidas sentimos a necessidade de ajuda ou de compreensão para situações assim que fugiram do nosso controle. 

Se não, não deixem de ler como um  breve interlúdio que não se deve dispensar pelo muito que nos faz sentir e reflectir.  Uma dor tão desigual. Um prazer de ler!

sábado, 30 de abril de 2016

Vamos Comprar um Poeta

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2016/ abril
Páginas: 192
ISBN: 9789722127998
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

A minha opinião:
Um precioso pequeno livro para mim. Uma lição de vida. Uma reflexão obrigatória nas palavras de uma criança de 12 anos. 

Uma família e a relação desta com o mundo, e mais importante ainda com o poeta, porque um poeta não faz muita porcaria. E assim entra a cultura no quotidiano desta família e tudo muda.

Afonso Cruz brinca com as palavras para se expressar sobre coisas tão serias. E que bem que o faz. Ironia e metáforas num livro que se lê num ápice, mas que se volta a ler. Um pouco diferente do registo que lhe conhecia. Mais terno, talvez. E com um posfácio que explica muita coisa, para quem se der ao cuidado de ler. Termina com uma oração difícil de esquecer:

"Tenho milhas a percorrer antes de dormir. E não abandonar os poetas nos parques."
A reter:
"Dizem que é bom transacionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos  ou gerador de renda, há quem acredite - é uma questão de fé -, que nos pode trazer dividendos."   (pag. 11/2)

"Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental." (pag. 66)



"A cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem."  (pag.67)



"As rugas são as cicatrizes das emoções que vamos tendo na vida."  (pag. 76)


"Nunca li um bom verso que não voasse da página em que foi escrito. A poesia é um dedo espetado na realidade."  (pag. 87)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Flores

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 272
ISBN: 9789898775733
Editora: Companhia das Letras

Sinopse:
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. 
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

A minha opinião:
Consigo ver Afonso Cruz nos seus livros. Não desaparece atrás da beleza, da eternidade da sua voz que encontramos em palavras, em letras que não existem quando lemos, que desaparecem através do seu significado, através daquilo que imaginamos ao ler. "Imagine, como que uma voz que nos eleva e aniquila ao mesmo tempo, nascemos e morremos no mesmo instante." (pag. 98) Esta dicotomia de viver/ morrer, amor/ doença, presente nos livros de Afonso é que me incomoda e me desafia a ler e a não gostar da sua maneira cínica de ver o mundo, apesar da forma quase poética e efabulada de contar uma história.

Flores não é sobre botânica. Tem a ver com a a história das irmãs Flores, no Alentejo do século XX, quando o narrador, um jornalista desencantado com a vida, decide ajudar o vizinho, que a sua filha adora, a recuperar as memorias afetivas e a reconstruir a sua vida através de todos os que o conheceram. Um trabalho difícil com muitas contradições porque há quem o ache bom e quem o ache mau. Afinal, é a memoria que nos forma e quando o idoso Ulme perde a memoria devido a uma doença degenerativa perde a identidade, mas não a capacidade de se indignar e sofrer com as tragédias que sabe através dos meios de comunicação, ao contrario do narrador que se busca no espelho, apático "num sonambulismo que a vida acaba por oferecer em conjunto com tantas frustrações". 

Grito de revolta contra a rotina porque a vida morre com a rotina e não com a morte. Fugir de uma vida absolutamente sedentária e abraçar a mudança, sem o conforto da banalidade ou um outro olhar para a corrupção quotidiana e a miséria sem indiferença, porque Deus está em todo o lado e não apenas nas igrejas. Flores existem mas precisamos de as ver, cheirar e sentir.  
"Entremos mais dentro da espessura."

domingo, 23 de março de 2014

Jesus Cristo bebia cerveja

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2012/ abril
Páginas: 252
ISBN: 9789896721336
Editora: Alfaguara

Sinopse:
Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja.

Jesus Cristo bebia cerveja é o novo e esperado romance de uma das vozes mais fortes e originais da literatura portuguesa actual, a que é impossível ficar indiferente.

A minha opinião:
Até há bem pouco tempo não conhecia Afonso Cruz e as suas obras. A oportunidade surgiu num encontro de leitores que muito o admiravam e fervorosamente recomendavam os seus livros. "Para onde vão os guarda-chuvas" foi o primeiro romance que li e apesar de apreciar a sua prosa fiquei desagradada como o final que me marcou. O intuito seria esse mas fiquei relutante em ler outros livros. Receava que o choque se repetisse e fosse confrontada com outros finais perturbadores. Este livro, teve o mérito de me reconciliar com o autor e permitir novas incursões no seu fantástico mundo criativo e critico, que nos desafia com tantas personagens que parecem irreais ou mera ficção mas que se enquadram perfeitamente no quotidiano ou no real pelos seus valores e princípios. O bom e o mau conjugam-se e convivem numa bem estruturada estória num ambiente surreal mas vibrante de vida e energia.

É gratificante quando para além do aspecto lúdico conseguimos extrair muito mais e esse objectivo é plenamente alcançado com interpretações e questões filosóficas, religiosas, sociais e espirituais mais ou menos subtis ou despercebidas que cada um em cada momento absorve à sua maneira através desta leitura. Muitos excertos/ fragmentos podem ser extraídos mas seria exaustivo fazê-lo. Considerei apenas um que se segue. A minha sugestão é ler e reler esta espécie de tragicomédia de uma mente delirante mas muito assertiva.

"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele mas ainda assim fazemo-lo existir. É feito de argumentos. Nasce de barrigas cheias. No primeiro acreditamos com o corpo, com o fígado, com o estômago, com os rins e com o sangue. No segundo, acreditamos com a cabeça. O primeiro tem mãos, unhas encardidas, barbas e relâmpagos na voz. O segundo não tem forma, nem corpo, nem nome."
(pag. 127)

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Para onde vão os guarda-chuvas

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2013, outubro
Páginas: 624
ISBN: 9789896721978
Editora: Alfaguara (uma chancela Objectiva)

Sinopse:
O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.

Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

A minha opinião:
Ouvi e li tantos e tão rasgados elogios a Afonso Cruz, que não resisti a conhecer este seu último romance. Senti-me excluída de um clube de admiradores e apreciadores, que bem o conhecem, em que eu nada sabia.

Desasossego e pasmo foram os estados de espírito que me acompanharam durante toda a leitura deste romance efabulado sobre um Oriente imaginário e que transcende o passado e o presente. 

Tanto para refletir e assimilar sobre a natureza, nomeadamente a natureza humana. O bem e o mal, de mãos dadas na complexidade da vida. O padrão de um tapete comparado à trama da vida em que se entrelaçam os fios de várias cores qual personagens de uma narrativa, para um efeito espantoso feito por um hábil tecelão. 
Religião e tolerância. Talvez seja este o tom de fundo em que tudo se confunde e mesmo assim continua a fazer sentido. Elahi é a personagem central que sofre perdas terríveis e resiste, enquanto se interroga sobre o "equilibrio/ absurdamente/ moralmente/ esteticamente desiquilibrado" do mundo.

Histórias que podem não ser felizes ou redentoras como esperamos ler, apesar dos valores subjacentes e sublimados numa linguagem poética (ou quase- não sei avaliar) e bem ritmada , de tolerância, compreensão e afetos. Talvez o propósito seja agitar consciências e certamente que o faz muito bem. 

Simplicidade e despojamento que torna Afonso Cruz brilhante na sua criatividade e originalidade. Digno de se conhecer e valorizar numa experiência literária completamente diferente e  fora dos meus padrões.