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domingo, 30 de julho de 2023

Perder-se

 

A minha opinião: 

Diário intímo de uma paixão clandestina com um diplomata russo. A diferença de idades e os diferentes códigos culturais. Angústia, vazio, medo, cíume e anseio. O sentir e a interpretação. O real e o imaginado. A sexualidade associada à dor num ciclo vicioso que se repete com outro antagonista. A solidão, o envelhecimento e a depressão. Tudo isto numa escrita insinuosa e pungente em que o título o define. Perder-se.

Autor: Annie Ernaux
Páginas: 272
Editora: Livros do Brasil
ISBN: 978-989-711-149-5
Edição: junho/2023

Sinopse:
Confessar: nunca desejei nada senão o amor. E a literatura.

Perder-se revela o diário íntimo mantido por Annie Ernaux durante o ano e meio em que viveu uma relação intensa e secreta com um diplomata russo, mais jovem, casado, que a deixou à beira da obsessão. Conhecem-se em setembro de 1988. Annie está divorciada, tem dois filhos crescidos, mora nos arredores de Paris e acaba de fazer quarenta e oito anos. Sem conseguir trabalhar num novo livro e desempenhando automaticamente as tarefas banais do dia a dia, é a expectativa da visita daquele homem que lhe ocupa os pensamentos. Quando tudo acaba, sem um gesto de despedida, restam-lhe os sonhos – e a escrita. Esta é a relação retratada em Uma Paixão Simples, aqui exposta através de apontamentos mais imediatos e sem artifícios, que põem a nu toda a vulnerabilidade de uma mulher perdida de amor e de desejo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Um Lugar ao Sol seguido de Uma Mulher

 

A minha opinião:

O terceiro livro que li de Annie Ernaux. Duas narrativas compiladas bnum único volume com os progenitores como personagens centrais em que mantêm o seu estilo desassombrado numa viagem no tempo que inicia com o fim das suas vidas. Escrita regulada que impõe uma leitura ponderada.

"Escrevo lentamente. Esforço-me por revelar a trama significativa de uma vida num conjunto de factos e escolhas, e tenho a impressão de perder gradualmente a figura particular do meu pai."

Agridoce. Memórias que nos transportam para momentos felizes ou terríveis, de alienação. Annie consegue que o leitor reviva aquelas situações e sensações consigo, colando-as às suas próprias vivências. É isso que faz dos seus romances especiais. O seu partilhado e muito sentido que se pode tornar avalassador. Orgulho.

"O que espero escrever de mais justo situa-se sem dúvida na conjugação do familiar e do social, do mito e da história."

Autor: Annie Ernaux
Páginas: 152
Editora: Livros do Brasil
ISBN: 978-989-711-203-4
Edição: Novembro/2022

Sinopse:
Dois meses depois de passar nos exames finais para se tornar professora, o pai de Annie Ernaux morreu. Revisitando a memória da sua vida, no que ela teve de mais particular, repleta de confiança no trabalho árduo e igual dose de sonhos frustrados, complexos de inferioridade e vergonha, uma filha procura preencher um vazio que é seu, traçando em simultâneo um retrato coletivo sobre uma época, um meio social, uma ligação familiar. Pouco depois, também a mãe desapareceu, após uma doença prolongada que lhe arrasou a existência, intelectual e física, e mais uma vez cabe à filha restaurar, através da palavra escrita, a sua presença na história. Neste volume reúnem-se os dois textos de Annie Ernaux sobre estas perdas: Um Lugar ao Sol, sobre o pai, publicado em 1984 e vencedor do Prémio Renaudot, e Uma Mulher, sobre a mãe, lançado em 1988. Duas peças literárias fulgurantes, misto de biografia, sociologia e história, onde resplandece a ambivalência dos sentimentos que unem filhos e pais e o impacto da quebra desse elo vital.

sábado, 15 de outubro de 2022

O Acontecimento

A minha opinião:

A narrativa é uma partilha intima de um tempo fora do tempo. Uma dádiva invertida.

Há dois anos escrevi estas frases a propósito de um outro pequeno livro, Uma Paixão Simples, da atual agraciada com o Prémio Nobel da Literatura, Annie Ernaux. 
A singularidade deste e do livro referido é que são ambos assumidamente catárticos, sem mascarar ou sublimar nada. E a força das palavras expressam um sentir profundo que não deixam os leitores indiferentes.

Annie faz parte dessas mulheres que nunca conhecemos, com quem sentimos ter, apesar das diferenças, algo em comum, como uma cadeia invisível. Durante anos girou à volta deste acontecimento da sua vida até que decidiu escrever sobre o que considera inesquecível. Uma narrativa num registo confessional que merece ser lida em voz alta. Dolorosamente sentido, sem apelo ou agravo.

Autor: Annie Ernaux
Páginas: 96
Editora: Livros do Brasil
ISBN: 978-989-711-185-3
Edição: Setembro/2022

Sinopse: 
Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer. Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual. Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza.

«Há anos que giro à volta deste acontecimento da minha vida. Ler num romance a narrativa de um aborto mergulha-me numa comoção sem imagens nem pensamentos, como se as palavras se transformassem instantaneamente numa sensação violenta.»

domingo, 8 de novembro de 2020

Uma Paixão Simples

A minha opinião:
Um pequeno livro. Uma simples paixão. Pessoal. Intemporal porque os sentimentos assim o são. E universais.

Ao contrário do que eu imaginava, a escrita não é maçadora mas fluída e rica. É impossível não perceber o estado de paixão cega desta mulher. Profundamente honesto e solitário também. Desamparo e êxtase.

O tempo de escrita não tem nada que ver com o da paixão. A narrativa é uma partilha intima de um tempo fora do tempo em que não é ele ou ela mas o sentimento. Uma dádiva invertida. Uma dádiva para o leitor que comunga deste sentir.

Autor: Annie Ernaux
Páginas: 72
Editora:Porto Editora
ISBN: 978-989-711-080-1
Edição: 2020/ outubro

Sinopse: 
De um lado, uma mulher culta, independente, divorciada e já com filhos adultos. Do outro, um homem casado, estrangeiro, mais jovem, por quem ela perde completamente a cabeça. E por quem espera, dia após dia. Se o tema parece trivial, não o é, de todo, o modo como os dois anos que dura esta «paixão simples» são contados: no seu estilo frontal, acutilante, despido de vergonhas e julgamentos, Annie Ernaux desfoca a linha ténue entre ficção e autobiografia e põe na voz da narradora as confidências da história de uma relação que toma conta de tudo, que extasia e rebaixa, fonte da maior felicidade e da mais dolorosa solidão. Viver algo assim será, talvez, o maior privilégio da existência. Lançado em 1991, Uma Paixão Simples surpreendeu o panorama literário francês, quebrando os estereótipos do romance sentimental pelo seu erotismo e pela sua honestidade. Em 2020, é adaptado ao cinema por Danielle Arbid.