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quinta-feira, 12 de maio de 2022

Cuidado com o Cão

A minha opinião: 

Rodrigo Guedes de Carvalho é sobejamente connhecido desde que nos entra pela casa adentro nos noticiários ao fim do dia. E o seu estilo, que não nos deixa indiferentes, goste-se ou não, também é o mesmo na escrita. Curto, direto, crítico, sarcástico. As estórias são escorreitas, cheias de detalhes e aparenteemnte desconectadas como a de Luciana e Adriana, gêmeas, que já tinham sido trapezistas e uma jovem como Mafalda, violoncelista, contrariando o desejo paterno de que seguisse medicina como ele. E de repente lembrei-me desta personagem de um anterior romance de RGC e fiquei com "o coração na boca", o que me quebrou um bocadinho o entusiasmo mas rápidamente recuperado com a ação de Luciana. 

E a partir daí foi um carrocel de emoções e um carinho cada vez maior por estas personagens tão humanas que se tornaram próximas, e que me acompanhavam mesmo quando não estava entre as páginas do livro. E é isto que adoro num bom romance. Quando sou transportada para uma estória muito atual com vidas que reconhecemos e que não são necessáriamente felizes mas completas. 

Alguns assuntos são caros a RGC como as doenças mentais, a disfuncionalidade de alguns relacionamentos, a pressão das redes sociais, mas há sempre um tema dominante que são os afetos.

Cuidado com o cão que dorme no coração. E são quatro cães, ou apenas um, mas é um romance que emociona e vicia. Como os outros que o precederam. Gostei muito.

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Páginas: 384
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722074599
Edição: 2022/  abril

Sinopse: 
O muito aguardado novo romance do autor, no ano em que celebra 30 anos de vida literária.

Em plena pandemia, um médico reformado está confinado na casa onde vive só, atormentado por recordações dolorosas, quando lhe bate à porta uma mulher que ele nunca viu, mas que garante conhecê-lo bem. Duas irmãs que nunca se separaram um único dia caem num inesperado abismo e, por causa de um incidente, passarão sete anos sem se ver. E quatro cães desempenham papéis importantes nas vivências das personagens principais, cujas vidas acabam por se cruzar da forma mais inesperada.

Cuidado com o Cão é uma narrativa comovente sobre amor e redenção. Um livro carregado dos mais fortes e inconfessáveis sentimentos, e onde subitamente surge o enfermeiro Luís Gustavo e onde o carismático médico Pedro Gouveia assume um papel preponderante.

Sem constituírem nenhuma série, O Pianista de Hotel, Jogos de Raiva e Cuidado com o Cão têm a particularidade de tecer uma rede de personagens que se cruzam continuamente. Mas se é verdade que cada um destes romances tem uma história autónoma e se basta a si próprio, também é verdade que no seu conjunto constroem algo maior, um universo único onde estamos sempre desejosos de regressar.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Margarida Espantada

A minha opinião:
O melhor é o último. Li os dois livros anteriores do Rodrigo Guedes de Carvalho e cada um deles traz uma marca, uma missão, um despertar para uma realidade para o qual estamos alheados. O lado jornalístico do autor não se perde, apura-se numa escrita incisiva, em romances que perturbam e fascinam.
 
A violência doméstica e as doenças mentais são temas fortes e fraturantes da sociedade. Não são temas que eu procure porque exigem alguma resistência. Temo ler porque são credíveis numa narrativa ficcionada.  

Margarida Espantada foi uma surpresa dada a empatia pelas personagens. Conciso nas palavras, Rodrigo Guedes de Carvalho enreda o leitor num mistério que quer desvendar e vai tecendo a estória, personagem a personagem e revelando gradualmente o mal, perpetuado no tempo. Oculto, sigiloso e acompanhado de muita dor.
 
Um romance que deveria ser obrigatório ler. Duríssimo mas brilhante. Uma narrativa emotiva para uma leitura imparável. Muito, muito bom e tão avassalador que fiquei perdida sem saber o que ler a seguir.
 
Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Páginas: 284
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722069830
Edição: 2020/ junho

Sinopse:
Margarida Espantada é sobre família. Sobre irmãos. É sobre violência doméstica e doença mental. É um efeito dominó sobre a dor.

A literatura é um jogo do avesso. Os bons romances são sempre sobre amor, e os melhores são os que fingem que não são.
Não devemos recear livros duros. As histórias que mais nos prendem trazem uma catarse que nos carrega as mágoas, personagens que apresentam as suas semelhanças connosco.
Gosto da ficção que é número arriscado de circo, com fogo e espadas, que nos faz chegar muito perto da queimadura que não vamos realmente sentir. Mas reconhecemos.

domingo, 12 de agosto de 2018

Jogos de Raiva

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Edição: 2018/ maio
Páginas: 448
ISBN: 9789722065047
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui?

A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada.

É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo.
Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias.
É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor.
É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo


A minha opinião:
Estou a ler menos. Retomar o labor habitual após as férias custa e com este livro é garantido que logo na primeira página levamos um abanão, ou melhor, um estalo bem dado para acordar. Depois... é perceber como e porquê ao longo de uma narrativa que sem peias nem meias palavras explode à frente dos nossos olhos para nos recordar o que queremos esquecer ou ignorar. Assuntos tabu como o suicidio, a depressão, o racismo, são abordados de um modo que, os mais distraidos ou pouco exigentes não podem deixar de reparar, mesmo que não percebam o quanto custou a aguçar. Leitura exigente, durissima em algumas partes, abraça causas que não procuramos num romance e extrema-as até ao limite, sem com isso nos impedir de ler compulsivamente até ao fim. De assinalar, a escrita apurada, assertiva e tão lúcida de Rodrigo Guedes de Carvalho que nos obriga a ler e a reler. Importa refletir sobre o jornalismo de hoje e o impacto das redes sociais na vida quotidiana. 

A história gira em torno de uma familia do Porto. Riquissimas personagens. De conteúdo. Tanto de nós existe em cada uma delas. Os mais atentos, sensiveis e inteligentes vão perceber o quanto a vilania, ira, vaidade e inveja se manifesta e como combatê-la. A familia na dor da perda e na dor de não entender, subsiste e supera, com o amor que os une apesar das diferenças. 

Como Bernard Shaw tinha aconselhado numa lição para alunos de escrita criativa:"Se não consegues livrar-te dos esqueletos da tua familia, ao menos fá-los dançar".  (pag. 182)

Rodrigo, obrigada por esta dança.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Pianista de Hotel

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Edição: 2017/ maio
Páginas: 480
ISBN: 9789722062701
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
O Pianista de Hotel transporta-nos numa melodia.

É uma entrada para um mundo regido pela linguagem da música, pela sua força e beleza, presentes no ritmo de cada frase, de cada parágrafo rigorosamente medido.
Livro em camadas, nele se cruzam diversos planos, diversas histórias perpassadas pelo poder redentor da música que entra e rasga, a solidão, a dor e o vazio das pessoas que habitam nestas páginas. Com um vasto subtexto, a densidade das personagens está carregada de mistérios que nos prendem a sucessivas interrogações.

Há um pouco de nós em todas elas.
Há muito de nós neste mergulho ao mais fundo da alma humana.
É um romance que se lê e ouve, que mantém todos os sentidos alerta. Uma pauta musical, com andamentos diversos, que acabam por se cruzar numa vertigem imprevisível de autêntico thriller psicológico.

E, depois, há o pianista…

A minha opinião:
"O Pianista de Hotel" é o quinto romance de Rodrigo Guedes de Carvalho e o primeiro que leio deste autor. A publicidade e os comentários favoráveis tornaram possível esta leitura, marcada por uma inquietação ou tensão constante. Uma leitura que não se quer rápida, apesar da linguagem acessível e rica em diferentes tons.  A estrutura narrativa  não tem qualquer reparo, excepto o acesso sem pejo que a torna compulsiva. 

Duas personagens principais, Maria Luísa e Luis Gustavo, dois nomes próprios como que a chamar a atenção para a solidão, a perda e o desamparo, num vazio tão  grande que os torna conscientes do que e de quem os rodeia. Circunstâncias tão próximas que julguei que teriam que se encontrar. Outras vidas se sobrepõem nesta narrativa, como Pedro Gouveia e Saúl Samuel, outras dores se acumulam no quotidiano de uma grande cidade portuguesa. A violência contra as mulheres que me toca particularmente. Bullying, homossexualidade e morte. E claro, a música e o pianista de hotel. A beleza que não ouvimos neste romance que desperta os sentidos. 

Um romance forte e acutilante. Um romance que vou querer reler. Um romance para o qual desejava um final idílico. Um romance que perturba. Muito bom.