domingo, 7 de janeiro de 2018

Prantos, amores e outros desvarios

Autor: Teolinda Gersão
Edição: 2017/ julho
Páginas: 144
ISBN: 978-972-0-04863-9
Editora: Porto Editora

Sinopse:
A morte de um homem amado; o pranto de uma mulher que falha uma promessa e se julga castigada; uma mãe, uma filha e o cheiro venenoso das acácias; uma mulher que se extravia dentro dos seus sonhos; aquele elevador com alguém preso lá dentro; o futebol, implacável jogo bravo; setenta e cinco rosas cor de salmão, seguras por um laço de seda e embrulhadas em papel de prata; solidariedade machista, conselhos de um velho a um rapaz; uma água-marinha que traz uma mensagem; não cobiçar as coisas alheias; uma teia de enredos, e a Alice que caiu num buraco do qual dificilmente conseguirá sair.

Catorze contos extraordinários, de uma das autoras mais consagradas e inquietantes da literatura actual, que nunca deixa de nos surpreender com a acutilância e profundidade da sua escrita. 

A minha opinião:
Comecei o ano a ler dois livros em simultâneo, o que não é nada habitual em mim. Claro que conclui primeiro o mais pequeno, que dissimulado dentro da minha mala me acompanhava para todo o lado. Um livro de contos. Um livro que eu adiava ler, por suspeita de que a linguagem fosse difícil e o estilo melancólico. Teolinda Gersão, um nome em que eu alimentava esse tipo de fantasia. Por isso, não experienciei mais cedo. 

Não poderia estar mais equivocada. A escrita é exemplar na sua correção, maestria e flui com desembaraço. A prosa é inspirada, e a leitura é fácil e enriquecedora. 

Contos soltos, na sua maioria numa perspetiva feminina em que tenho dificuldade em afirmar de qual gostei mais. Adorei o significado e desfecho do primeiro, emocionei-me com o segundo, entristeci  com o terceiro e o quarto, diverti-me com o quinto, compreendi muito bem o sétimo e o oitavo, inquietei-me com o nono, delirei com o décimo, suspirei com décimo primeiro, refleti amargurada sobre o décimo segundo e continuei a sentir todos como próximos inclusive o décimo terceiro. O mais longo, o último - Alice in Thunderlan - saí deste registo. Não deixei de o ler com toda a atenção porque a história de Lewis Carroll que tem por base, nunca me agradou por ser sombria e perturbadora. Prantos, amores e outros desvarios é um bom título. 

Possivelmente, os melhores contos que já li. Provavelmente, o primeiro seja o conto de que mais gostei. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Em jeito de balanço os sete livros que marcaram 2017 (sem ordem especifica)


 





 

Antes que Seja Tarde

Autor: Margarida Rebelo Pinto
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 272
ISBN: 9789897244001
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Neste novo livro de Margarida Rebelo Pinto encontramos três mulheres de gerações diferentes, desde os anos 60 até aos dias de hoje, com vidas sentimentais atribuladas e algo em comum: a atração pelo proibido. 

Antes que seja tarde é um romance sobre o lado mais selvagem do amor, quando a paixão manda mais do que a razão e os sentidos falam mais alto. Os amores proibidos nunca caem na rotina, mas serão o caminho certo para o verdadeiro amor? O que fazer quando não se pode construir uma vida com quem se ama? 

O destino cruzado destas 3 mulheres leva-nos a uma viagem alucinante sobre o lado obscuro das relações, onde a mentira, a traição e o adultério andam a par com a dignidade de uma grande história de amor.

A minha opinião:
Não escolhi ler este livro. Mas quando o recebi (obrigado Clube do Autor) gostei da sinopse e se não o li mais cedo foi porque outras leituras se interpuseram. Importa referir que há alguns anos atrás cruzei-me com a autora e... não foi um bom cartão de visita. Desde então, não leio os seus livros. Arrisquei agora e encontro maturidade e lucidez em estórias individuais de personagens com caminhos tortuosos de amores ilícitos. A protagonista é Maria do Amparo, de quem gostei desde o início. Apesar do desalento porque não se encaixa no papel de a outra quando se apaixonou por Gonçalo, é iluminada, forte e independente. 

As amigas Sara e Cristina desistiram dos homens mas ainda anseiam por um principe encantado. "Uma geração que veio ao mundo para completar os ideais femininos e que pagou caro o mito do happy end." (pag. 207) "Aos 50 deve ser complicado tentar ter 30".

O cliché é a amante do pai, Lurdes. E Luisa, a filha psicólcoga, que se vê enredada num amor improvável. E por fim, temos o lado masculino, através de Gonçalo, Jorge e Luis Miguel. Os dois primeiros são homens casados, apaixonados sem ser pelas mulheres e que optam por ficar e o segundo é o irmão de Maria do Amparo, que se apaixona por quem não deve mas escolhe.  

Narrativas soltas que se cruzam num conjunto harmonioso de leitura fácil e rápida. Estórias verossimeis, previsiveis, e tão nossas. Como tantas outras que tão bem conhecemos. Escrita corrente, acessivel e despretensiosa. Gostei muito e provavelmente vou voltar. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman
Edição: 2017/ abril
Páginas: 328
ISBN: 9789720048981
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

A minha opinião: 
Eleanor Oliphant é uma personagem literária única e este romance é realmente um achado. Um belissimo primeiro romance

Uma capa banal que apenas faz sentido depois de ler o livro. À primeira vista não cativa. Ora bem, à segunda também não. Senão fosse uma ou outra critica/opinião que li, certamente não lhe teria pegado. A sinopse cumpre e não revela demasiado mas acaba por ser muito limitada. E as criticas na bandana, que normalmente são encaradas com cepticismo, desta vez são o melhor incentivo para esta leitura. 

Quantas vezes refletimos sobre o mal e nos que lhe são próximos? E nos que lhe sobrevivem? Afinal, não é apenas ficção. E com isto alerto para que nem sempre o que parece é, e um romance pode ser mais do uma história de enamoramento e felicidade como nos contaram em criança. 

Uma existência absolutamente vazia e rotineira. Durante anos foi assim a vida de Eleanor, mas um novo projecto para agradar à mamã, levou de um contacto a outro e assim mudou. Gradualmente a inteligente e mordaz Eleanor começa a sua educação. 

Cheguei a pensar que a inaptidão social se tratava de uma doença e fui avançando lentamente na leitura com um misto de expetativa, ansiedade e angustia. E o que mais me espantou foi a empatia com a personagem que se manteve coerente ao longo de toda a narrativa, enquanto vamos percepcionando o mundo pelos seus olhos. Um mundo que evolui na medida dos seu crescimento emocional. Divertido e embaraçoso, cruel e compassivo, um romance agridoce que mexe com emoções. Raymond e Sammy, que personagens secundárias extraordinárias. Generosas! E no final, algumas surpresas que acomodaram o meu coração e me deixaram a ansiar por mais. 

Obrigado Célia!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Para lá do inverno

Autor: Isabel Allende
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 336
ISBN: 9789720030221
Tradutor: Ângela Barroqueiro
Editora: Porto Editora

Sinopse:
«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»
Albert Camus 

Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.

Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.

Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

A minha opinião:
No natal, numa pequna reunião em Brooklyn surgiu a ideia para este romance, que seria iniciado como todos os outros livros de Isabel Allende a 8 de janeiro. Considerando a frase de abertura de Albert Camus trata-se de encontrar a alegria (e o amor) numa fase da vida em que não era esperado. E com este pressuposto e para mais com o tempo que se faz sentir lá fora (muito aquém dos nevões em Brooklyn), escolhi um canto acolhedor para me dedicar a uma leitura tranquila. Contudo, já deveria saber, apesar de não serem muitos os livros que li desta senhora, que há sempre lições a retirar e que outros temas estariam subjacentes. A emigração ilegal, os refugiados, gangues e violência doméstica, seriam estes os temas e a leitura não seria tão pacifica como eu imaginava. Falta referir a critica social sobre os Estados Unidos que dispensa mais comentários. 

Três personagens bem delineadas. Três enredos fortes que se revelam na bagagem emocional de cada uma. Três personagens que acarinhei. A interação entre elas, na sequência de um pequeno acidente, foi muito reveladora, apesar dos diálogos simples e diretos. Alternado, cada personagem tem a sua vez para contar de si enquanto o mistério adensa sobre o crime que se quer desvendar. O romance maduro foi o que menos apreciei. Em compensação, adorei o final. 

E o balanço foi muito positivo. Uma senhora que sabe o que faz e faz muito bem. Retemperadora leitura. Equilibrada. Aguardo o próximo romance que certamente já deve estar a planear começar no próximo ano. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

As Coisas Que Perdemos no Fogo

Autor: Mariana Enriquez
Edição: 2017/ maio
Páginas: 208
ISBN: 9789897223341
Tradutor: Margarida Amado Acosta
Editora: Quetzal

Sinopse:
Nestas narrativas do macabro, selvagens, imaginativas e diabolicamente ousadas, Mariana Enriquez, dá uma vida vibrante à Argentina contemporânea, e torna-a num lugar em que a desigualdade, violência e corrupção constituem a lei, e a ditadura militar e milhares de «desaparecidos» se agigantam na memória coletiva. 
Mariana Enriquez tem sido comparada a Shirley Jackson e Julio Cortázar. 
A par da magia negra e dos inquietantes desaparecimentos, estas histórias alimentam-se da compaixão pelos atemorizados ou perdidos, acabando por trazê-los para realidades surpreendentes. Escrito numa prosa hipnótica, As Coisas que Perdemos no Fogo, é uma exploração poderosa do que acontece quando deixamos à solta os nossos desejos mais obscuros e assinala a chegada de uma voz surpreendente e necessária à ficção contemporânea.

A minha opinião:
Gosto de contos e desde logo este livro não me passou despercebido. Porém, receava o que iria ler. Sabia que tinha que estar mentalizada para narrativas breves mas assustadoras. Não errei. Algumas são recheadas de pormenores negros ou surreais, que não é o meu género, mas não consegui parar de os ler. 


O primeiro conto "O rapaz sujo" marca e define o tipo de leitura que nos espera. A prosa e o estilo de Mariana Enriquez. Dura, direta e critica. Um outro olhar para o exterior e o interior do que a rodeia. Sem contemplações ataca os grandes males, dividida entre os fantasmas do passado e os estigmas do presente. O último conto, nome do livro, foge completamente ao que  eu supunha, mas não é menos terrível, uma vez que em protesto pelo crime passional, que infelizmente não é nenhum absurdo, surge a autoflagelação. 

Pertubadoras histórias, como as de tradição oral que se contam em noites de Inverno.  Não é uma leitura recomendável para almas sensiveis, mas para quem gosta de terror anda lá perto. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Os Loucos da Rua Mazur

Autor: João Pinto Coelho
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 312
ISBN: 9789896604578
Editora: Leya

Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

A minha opinião:
O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos (e li recentemente um romance), mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral. 

A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka, é a misteriosa e relevante personagem do trio. 

A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Último dos Nossos

Autor: Adélaïde de Clarmont-Tonnerre
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 412
ISBN: 9789897243981
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Do inferno da Europa, em 1945, à Nova Iorque hippie. Neste romance premiado com o Grande Prémio do romance da Academia Francesa, Adelaide de Clermont-Tonnerre conta a história dos anos loucos vividos na pele por dois genuínos filhos do século XX: Werner Zilch, nascido na Alemanha no estertor da Segunda Guerra Mundial, e Rebecca Lynch, herdeira de um homem de negócios e de uma mulher que logrou escapar com vida ao campo de concentração de Auschwitz. Uma paixão louca e proibida num cenário histórico repleto de reviravoltas e marcado pelo suspense.

Werner Zilch é um jovem carismático e empreendedor. Adotado desde tenra idade, vê-se confrontado com a descoberta das suas origens, tudo menos gloriosas. Aos olhos dos outros, pode ser considerado responsável pelos erros cometidos pelos seus antepassados? Como aceitar que o seu progenitor estivesse ligado ao nazismo?

A par das personagens, surgem nomes que os leitores por certo reconhecerão, todos eles figuras marcantes do seu tempo. A saber: Andy Warhol, Truman Capote, tom Wolfe, Joan Baez, Patti Smith, Bob Dylan...

Uma complexa história de amor que é, ao mesmo tempo, um capítulo ficcionado da nossa História. O leitor não conseguirá pousar o livro enquanto não descobrir quem é, na verdade, «o último dos nossos». No fim, fica a pergunta: estaremos condenados a responder pelos crimes e pelo sofrimento dos nossos pais e avós?

A minha opinião:
Dar e receber livros é um prazer! Neste caso, recebi. E rejubilei com isso. Obrigado Clube do Autor.



A Segunda Guerra Mundial teve consequências que se prolongam no tempo. Alguns recordam, outros procuram esquecer ou ignorar, e há quem procure saber. Esta é a história de Werner e também de Rebecca, que procuram saber tudo o que seja possível apurar sobre o passado dos seus antecessores. A narrativa decorre em dois tempos alternadamente -passado próximo - com início em Manhattan, 1969 e Saxe, Alemanha, 1945 - passado mais distante - com dois acontecimentos impactantes. E a expetativa aumenta a cada página. O entendimento também.  

Werner Zilch é um personagem forte e temperamental, que não é particularmente carismático. Exemplo da concretização do sonho americano, graças ao apoio do sócio e grande amigo Marcus Howard, apaixona-se por uma mulher muito especial como é Rebecca, uma artista, e vivem uma turbulenta e contrariada relação. Por fim, decidem vingar o passado. 


Muitos são os romances que têem como tema a Segunda Guerra Mundial. Alguns li, outros adio (ainda). Sei que a História (realidade) supera a ficção e o "O Último dos Nossos" é mais uma bem engendrada trama sobre o génio e a bestialidade humana que, com rostos idênticos se podem confundir como os irmãos Kasper e Johann Zilch, e assim a infâmia perigar os grandes feitos ou impôr-se para a destruição e morte. 

Não tão envolvente como eu suspeitava, é um romance que se lê com interesse e avidez, enquanto se procura descobrir quem é quem, numa escrita objetiva e corrente, sem subterfúgios e delicadezas. 

Gostei e recomendo.

sábado, 25 de novembro de 2017

A Menina Silenciosa

Autor: Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 4)
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 564
ISBN: 9789896653125
Tradutor: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Suécia. Uma bonita casa branca, de dois andares. Dentro, uma família brutalmente assassinada - mãe, pai e duas crianças pequenas, mortos a tiro, em plena luz do dia. E o assassino escapou. Sebastian Bergman, com o Departamento de Investigação Criminal, tenta deslindar o crime, mas, com o principal suspeito morto, está num beco sem saída. Até que descobre que há uma testemunha do crime.
Uma menina, Nicole, viu tudo e fugiu, assustada. Quando a encontram, descobrem que o trauma do que viu a deixou totalmente muda, comunicando apenas através de caneta e papel. Os seus desenhos revelam um facto convincente e inescapável: ela viu o assassino. Bergman fica obcecado com o desafio de romper a parede de silêncio de Nicole. Enquanto isso, o assassino está apostado em garantir que ela fique calada.


A minha opinião:
Chateou-me levar este romance policial para todo o lado, contudo sabia que não me iria conseguir separar dele e que todos os momentos livres seriam aproveitados para ler mais um pequeno capítulo. Mais um e não último livro da série Sebastian Bergman. Ainda bem. Não o podia perder e não quero perder o próximo. E assim, um grande livro lê-se num instante.

O início é a percepção de duas crianças. E um assassinato brutal e frio de uma familia com duas crianças. A Unidade de Homicídios da Polícia Sueca conhecida como Riksmord é chamada a intervir. A equipa, de cinco elementos, está um tanto desiquilibrada, uma vez que cada um deles se debate com crises pessoais na sequência de acontecimentos anteriores, agravado pela ausência de um dos elementos que se encontra a recuperar. Senti a falta de Ursula. A ligação e interação entre eles e Sebastian Bergman é essencial para o sucesso deste romance. 

Não tão violento como se poderia esperar, consegue supreender com tantas reviravoltas perfeitamente plausíveis e quase casuais. E Sebastian, surge mais conectado com uma testemunha e não só, o que o pode ajudar a recuperar da culpa e da dor da perda da sua própria familia.  Mulherengo, impaciente e arrogante é um psicólogo criminal carismático.

Possivelmente, o melhor livro da série Sebastian Bergman desta dupla de escritores. A perseguição do assassino à única testemunha é realmente trepidante. E o final, mais uma vez, deixou-me admirada e empolgada. A seguir... 

domingo, 19 de novembro de 2017

O Meu Nome Era Eileen

Autor: Ottessa Moshfegh
Edição: 2017/ maio
Páginas: 264
ISBN: 9789896652418
Tradutor: José Remelhe
Editora: Alfaguara

Sinopse:
O Natal é uma época que tem muito pouco para oferecer a Eileen Dunlop, uma rapariga modesta e perturbada, presa a um emprego enfadonho como secretária num instituto de correção de menores e forçada a cuidar de um pai alcoólico. Eileen tempera os seus dias vazios com fantasias perversas e sonhos de fuga para uma cidade grande. Enquanto não o consegue, entretém-se a fazer pequenos furtos na loja de conveniência e a fantasiar com Randy, um guarda do reformatório com corpo de homem e cabeça de rapaz. Quando Rebecca Saint John, uma ruiva vistosa, alegre e inteligente, é contratada como a nova psicóloga do reformatório, Eileen é incapaz de resistir à sedução de uma amizade que promete transformar a sua vida. Mas, numa reviravolta digna de Hitchcock, o poder de Rebecca sobre Eileen converte a rapariga em cúmplice de um crime a que pode ser impossível escapar. Com a paisagem nevada da Nova Inglaterra como pano de fundo, a história de Eileen é arrepiante, hipnótica e divertida.
Com um primeiro romance cheio de força, que agarra e perturba o leitor até à última página, Ottessa Moshfegh faz uma entrada retumbante nas letras norte-americanas.

A minha opinião:
"O Meu Nome Era Eileen" é surpreendentemente bom. Obscuro e empolgante. Não esperava que a degradação, abandono e carência  de Eileen pudesse ser uma leitura tão viciante. A estrutura narrativa em que se permite saber quando e onde se deu a mudança, mas não como e porquê sustenta o interesse. 

Dezembro de 1964,  X-Ville (nome fictício), em Nova Inglaterra, Eileen tinha 24 anos e, conta à posteriori muitos anos depois, a história do seu desaparecimento. A narradora conta tudo o que recorda com uma crueza inaudita e intimista sobre os seus pensamentos e ações enquanto cuidava do pai, um ex-policia alcoólico e vigiava as visitas a  jovens num centro correcional, no âmbito do seu trabalho de secretariado. Estranha e miserável forma de vida. 


Emocionalmente fecunda, mordaz e intensa, recorda a sua paixão platónica por Randy como a sua razão de viver até conhecer Rebeca. A extensão e dramatismo do que conta torna o leitor testemunha dos acontecimentos e simultâneamente cumplice da sua fuga. 

Manual Para Mulheres de Limpeza” de Lucia Berlin esteve presente no meu pensamento enquanto lia a história de Eileen. A mesma profundidade e força que impressiona e assombra. Os pormenores que fazem toda a diferença. Poderosa narrativa que marca. Corajoso primeiro romance de Ottessa Moshfegh. Brilhante! 

domingo, 12 de novembro de 2017

Falcó

Autor: Arturo Pérez-Reverte
Edição: 2017/ agosto
Páginas: 272
ISBN: 9789892340319
Editora: ASA

Sinopse:
Em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, Lorenzo Falcó move-se por entre as sombras do submundo. Ex-contrabandista de armas, espião sem escrúpulos, encontra-se agora a trabalhar para os serviços de inteligência franquistas. A sua missão? Libertar um detido da prisão. Tem Eva Rengel e os irmãos Montero como companheiros. (E, quem sabe, vítimas? Pois os tempos são traiçoeiros, e nada é o que parece.)

Mas surgem imprevistos, há conflitos de interesses, desenterram-se segredos, há torturas, perseguições e massacres. Só que Falcó não é dos que desistem facilmente… e está determinado a levar a cabo uma missão que poderá alterar o curso da História. Será em Portugal, na aparente tranquilidade do Estoril - local favorito entre espiões - que tudo se conclui.

Entrelaçando magistralmente realidade e ficção, Arturo Pérez-Reverte dá início a uma nova saga protagonizada por Lorenzo Falcó, um personagem fascinante, complexo e inesquecível.

A minha opinião:
Não é segredo que gosto muito da escrita precisa de Arturo Pérez-Reverte que abrilhanta os enredos. Com o ex-contrabandista e espião dos anos 30 Lorenzo Falcó fiquei agarrada a um tempo e a um lugar em que se confundiam anarquistas, socialistas, fascistas, comunistas e uma denuncia era sinal de sofrimento e morte sem fundamentação. Os espiões proliferavam e o vil metal era considerado por todos igual. Sem escrúpulos, mulherengo, Falcó não é o heroi romântico que se poderia imaginar. Não luta por uma causa ou ideologia como Eva Rengel, personagen enigmática e aguerrida com quem se envolve. 

"Só disponho de uma vida, disse ele. Um breve momento entre duas noites. E o mundo é uma aventura formidável que não estou disposto a perder." (pag.82)

A Guerra Civil Espanhola. Neste romance, sentimos o ambiente de uma guerra, sem lados para defender ou personagens para acarinhar, mas sem deixar de perceber o comportamento dos intervenientes e sentir o horror, dadas as descrições e observações que constam da narrativa, fruto da investigação e critica do autor. 

Observei a foto de Arturo Pérez-Reverte e não pude deixar de pensar que o protagonista Lorenzo Falcó poderia ser interpretado pelo mesmo numa qualquer boa produção cinematográfica. O sorriso sarcástico e o olhar inteligente e algo cínico tem tudo a ver com o espião sedutor e aventureiro dos anos 30.

O fim em Portugal, nomeadamente no Estoril, encerra bem esta narrativa, sem pontas soltas e que promete continuação. Gostei muito e espero regressar em breve a mais um romance.