sábado, 16 de junho de 2018

As vinhas de La Templanza

Autor: María Dueñas
Edição: 2018/ abril
Páginas: 536
ISBN: 978-972-0-03085-6
Tradutor: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

Sinopse: 

Uma história de coragem perante as adversidades e de um destino marcado pela força de uma paixão.

Nada fazia supor a Mauro Larrea que a fortuna que tinha conquistado fruto de anos de luta e perseverança se desmoronaria de um dia para o outro, graças a um inesperado revés.

Asfixiado com dívidas e afogado em incertezas, aposta os últimos recursos numa jogada temerária na esperança de se reerguer. Até que a perturbadora Soledad Montalvo, mulher dum negociante de vinhos inglês, entra na sua vida para o arrastar rumo a um futuro inesperado. 

Da jovem república mexicana à radiante Havana colonial, das Antilhas à Jerez da segunda metade do século XIX quando o comércio de vinhos com Inglaterra converteu a cidade andaluza num enclave cosmopolita e lendário, por todos estes cenários se desenrola As vinhas de La Templanza, um romance que fala de glórias e derrotas, de minas de prata, intrigas de família, vinhas e cidades fascinantes cujo esplendor se desvaneceu com o tempo.

A minha opinião: 
Não são muitas as vezes que fico sem palavras com um livro. Um livro que supera todas as minhas mais auspiciosas expectativas numa semana de férias planeada para algumas leituras e dou por mim enredada apenas numa. E completamente envolvida. Rendida a uma personagem que me arrebatou. Um mineiro duro, audaz e temerário. Um aventureiro que procura noutras latitudes recuperar a sua fortuna. "Para o Oriente, as Antípodas, a Terra do Fogo, os mares do Sul." (pag. 483) México, Cuba e Espanha. Locais dispares que deixaram de existir e que foram reconstituidos com precisão e encanto. Uma piscadela de olho ao passado num jogo crucial (de bilhar) de mentiras e verdades, de paixões, derrotas, maquinações e amores frustados, em que intervêm duas mulheres prodigiosas e rivais. Corajosas, arrogantes e descaradas, assim são Carola e Soledad. As personagens ganham vida neste grande romance que lembra os grandes clássicos de outros tempos num tributo aos mineiros e adegueiros. 

Muito mais poderia acrescentar sobre os cenários com atmosferas e ambientes que segui ávida ou sobre a movimentada e vigorosa trama que na magistral prosa fluí com graça e sensibilidade, sem quebras, até que no final deixa um vazio na alma. Um romance que me deixa a clamar por mais romances assim, pelo que tenho de procurar ler "O Tempo Entre Costuras". Posto isto, tenho de ponderar bem o que ler a seguir...

sábado, 9 de junho de 2018

Estuário

Autor: Lídia Jorge
Edição: 2018/ maio
Páginas: 288
ISBN: 9789722065139
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Estuário é um livro sobre a vulnerabilidade de um homem, de uma família, de uma sociedade e do próprio equilíbrio da Terra, relatados pelo olhar de um jovem sonhador que se interroga sobre a fragilidade da condição humana.

Edmundo Galeano andou pelo mundo, esteve numa missão humanitária e regressou à casa do pai sem parte da mão direita. Regressou com uma experiência para contar e uma recomendação a fazer por escrito, e na elaboração desse testemunho passou a ocupar por completo os seus dias.

Porém, ao encontro deste irmão mais novo da família, vêm ter sem remédio as vicissitudes diárias que desequilibram a grande casa do Largo do Corpo Santo. Edmundo vai-se, então, apercebendo que as atribulações longínquas mantêm uma relação directa com as batalhas privadas travadas ao seu lado. E a sua mão direita, desfigurada, transforma-se numa defesa da invenção literária perante a crueza da realidade.

Em outros seus livros costumam a autora dar o rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos. Mas neste caso ambicio
na mais. Estuário pertence à categoria dos livros de premonição, através do enlace entre o desenho do futuro e a Literatura.

A minha opinião:
Queria ler um romance de Lídia Jorge! Tantos autores que ainda desconheço e que a pouco e pouco vou desbravando, cautelosa, na tentativa de compreender o que quiseram passar ao mundo com as suas palavras. O seu testemunho. Lídia admirada por tantos era uma ousadia e um deslumbre que não me tinha permitido. A escrita irrepreensível, madura e serena que me faltava. Contudo, tenho um misto de emoções sobre este romance, contraditórios como os que se abrigam no coração e são objecto de reflexão, também neste romance. A históra que o narrador conta, por personagem, com destaque para Edmundo, o jovem sonhador que, nuima missão humanitária perdeu parte da mão direita e se agarrou a uma utopia sobre um livro grandioso que alertava sobre a ameaça global, e do qual se foi distanciando, na medida em que se tornava mais próximo da complexidade e desnorte dos que o rodeavam e nele confiavam, não me fascinou pela morosidade contemplativa que condicionou a leitura. Presa das palavras, não fiquei do sentido das mesmas. A preocupação e premonição com os riscos ambientais, nomeadamente os plásticos que poluem os oceanos, é motivo de apreço, mas as personangens errantes não. 

Um livro belo mas não sedutor. Um livro que fica para reler mais tarde. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Macbeth

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2018/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789722535014
Tradutor: Maria Dulce Guimarães da Costa 
Editora: Bertrand

Sinopse: 

Passado nos anos 70, numa cidade industrial cinzenta e chuvosa, a força policial da zona está concentrada em acabar com um persistente problema de drogas. Duncan, chefe da polícia, é um idealista e visionário, um sonho para a população e um pesadelo para os criminosos. O comércio das drogas é liderado por dois homens, um dos quais, mestre da manipulação chamado Hécate, tem ligações aos poderes mais levados. E pretende usá-las para conseguir escapar ileso.

O seu plano consiste em manipular, de forma consistente e persistente, o inspetor Macbeth, um homem já de si suscetível a tendências paranoides e violentas. O que se segue é uma história irresistível de amor e culpa, de ambição política e inveja, que explora os recantos mais negros da natureza humana, assim como as aspirações da mente criminosa.

A minha opinião: 
Jo Nesbø é um gosto adquirido, ao qual regresso sempre que possível. As personagens que cria são fantásticas e o enredo cinematográfico. Desta feita, recuamos ao ambiente sombrio e intimidante dos anos 70, a uma cidade sórdida na costa oeste que ensombra os espíritos, corrompe corações e encurta vidas.

Como o nome indica - Macbeth é o drama de Shakespeare, recontado por Jo Nesbø, de que eu pouco ou nada sabia. Não foi uma leitura fácil. A violência, a ausência de escrúpulos e a ganância pelo poder levaram-me a interromper algumas vezes a leitura. Afinal, o poder é a droga mais viciante do mundo, despoja de todas as emoções que prendem à moralidade e à humanidade.

"Sob várias alcunhas, mas os químicos são os mesmos. As pessoas pensam que é um antidepressivo porque atua inicialmente como uma anfetamina das primeiras vezes, até que os episíodios se tornam psicóticos. " (pag. 323)

Macbeth sugestionado por Lady elabora um plano para matar o comissário-chefe Duncan e o herói torna-se o vilão. Inversão de valores. A voz feminina comanda porque visualiza o quadro completo e não apenas uma perspectiva. Antecipa comportamentos. Macbeth é um Populista.  E por fim, a fé na capacidade de mudança em que pequenos passos nos vão tornando melhores. Um pouco mais humanitários. Assim caminha o mundo. Intemporal. Pertubador. Atual.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata

Autores: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
Edição: 2010/ março
Páginas: 377
ISBN: 9789896720155
Tradutor: Ana Mendes Lopes
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 

Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. 
É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. 
Curiosa por natureza, Juliet Ashton começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. 
É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. 
Fascinada pela história da dita Sociedade Literária, e ainda mais pelos seus novos amigos, Juliet parte para Guernsey. O que encontra na ilha mudará a sua vida para sempre…

A minha opinião: 
Ler bons livros arruina a nossa capacidade de ler livros maus. (pag. 78)

Este romance estava pousado na minha estante à espera do momento certo que chegou agora. Um daqueles livros que comprei para ler um dia. Eventualmente, quando passasse à reforma. Como se eu precissasse disso! Comprei-o porque sabia que era bom. Com a sua reedição, depois do filme chegar às salas de cinema, com um título mais completo como Guernsey - A Sociedade Literárira da Tarte de Casca de Batata, peguei nele para desanuviar do thriller anterior. Não é exatamente como eu esperava. É melhor! Comovente e divertido, num estilo mordaz e loquaz, trata-se de um romance epistolar. As cartas de Juliet são espirituosas e fiquei fã dela desde a primeira. De resto, adorei tudo. As descrições da ilha, as extraordinárias personagens e a ligação entre elas. Um romance em que aprendemos sobre a Ocupação das Ilhas do Canal e não só, mais se pudermos rir ao mesmo tempo. Emocionei-me também. Nada sabia sobre este pedaço da História. Da Segunda Guerra Mundial sabia o suficiente para temer ler mais sobre o assunto. Sabia porém que uma sociedade literária com referência a livros seria fascinante de ler. 

Uma casualidade. Um livro é devolvido à sua legítima proprietária, Juliet Ashton e começa uma inesperada troca de correspondência no pós-guerra com os habitantes da ilha de Guersney e uma interessante partilha entre personagens tão altruistas e generosas.

Curiosamente, esta sociedade literária tem muito em comum com um grupo de leitores com quem me enconto mensalmente. As regras: "falávamos à vez dos livros que iamos lendo. No início, tentámos ser calmos e objectivos, mas essa intenção desmoronou-se rápidamente e o propósito dos oradores passou a ser o de tentar convencer os ouvintes a lerem o livro em questão. (Nós também o fazemos). Depois de dois membros lerem o mesmo livro já podiam discutir - que era aquilo que mais nos dava prazer. Nós liamos, falávamos e discutíamos livros e fomo-nos tornando cada vez mais amigos uns dos outros. (Nós também o fizemos). Outros habitantes da ilha pediram-nos para se juntarem à Sociedade e os nossos serões juntos passaram a ser momentos animados, vivos - de quando em vez quase nos conseguíamos esquecer da escuridão que grassava lá fora." 

PRECIOSO, DIVINO (como diria uma amiga minha), SUBLIME. Um romance para guardar e acarinhar, tão fácil de ler e ainda assim inesquecível. Não percam a oportunidade de o ler e apreciar a nova capa que achei linda. 



segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Mulher à Janela

Autor: A. J. Finn
Edição: 2018/ março
Páginas: 488
ISBN: 9789722361873
Tradutor: Maria João Lourenço
Editora: Presença

Sinopse: 

Anna Fox não sai à rua há dez meses, um longo período em que ela vagueou pelos quartos da sua velha casa em Nova Iorque como se fosse um fantasma, perdida nas suas memórias e aterrorizada só de pensar em sair à rua. A ligação de Anna ao mundo real é uma janela, junto à qual passa os dias a observar os vizinhos. Quando os Russells se mudam para a casa em frente, Anna sente-se desde logo atraída por eles - uma família perfeita de três pessoas que a fazem recordar-se da vida que já teve. Mas um dia, um grito quebra o silêncio e Anna, da sua janela, testemunha algo que ninguém deveria ter visto e terá de fazer tudo para encobrir o que presenciou . Mas mesmo que decida falar, irá alguém acreditar nela? E poderá Anna acreditar em si própria?

Um thriller eletrizante onde nada nem ninguém é o que parece.

A minha opinião: 
Li recentemente algo com o qual concordo. Por vezes, são os livros que nos escolhem. Parece bizarro, mas nem tanto, se considerarmos o que nos atrai para um livro. As editoras procuram acertar e sem dúvida que uma boa campanha publicitária resulta num bom número de vendas, mas não necessáriamente num sucesso que deslumbre o leitor. Pode ser apenas mais um livro que se lê. Este thriller atraiu e convenceu. 

Uma mulher em frangalhos, por razões que se desconhecem. Agorafóbica. Sabem o que é? Alguém que não aguenta estar em espaços abertos. E que sofre ataques de pânico. Alguém que se enclausurou em casa... e vê filmes antigos, quase todos a preto e branco. Anna, aliás doutora Fox, está só e anestesia-se com álcool e medicamentos enquanto espia os vizinhos através da lente da sua máquina fotográfica. Uma personagem que parece tão cinematográfica quanto as personagens dos filmes que assiste, quando testemunha o assassinato de uma mulher no outro lado da rua e ninguém parece reparar ou saber. Um pressuposto aliciante.

Puro psicopata. A adrenalina levava-me a interromper a leitura por alguns momentos e retomava logo de seguida ansiosa por saber mais. Gosto disso. Desse contágio que trespassa o leitor, quando somos reféns da tensão e suspense da narrativa. A personagem jogava xadrez e calculava as suas ações como numa partida para descobrir quem é o criminoso de entre os suspeitos. E o mistério adensa-se quase até ao final. A problemática protagonista cativa e dá que pensar. E o que se passa no seio de uma familia também. 

Muito Bom. Mais uma estreia. 

domingo, 20 de maio de 2018

Nem Um Som

Autor: Heather Gudenkauf
Edição: 2017/ julho
Páginas: 320
ISBN: 9789898869159
Tradutor: Rui Azeredo
Editora: TopSeller

Sinopse:

Para sobreviver ao perigo num mundo sem sons, todos os outros sentidos têm de estar em alerta máximo.
Após um trágico acidente, Amelia Winn perde a audição, entrando numa espiral de depressão que a leva a procurar conforto no álcool e a afastar-se de tudo o que de mais importante tem: o trabalho, o marido e, sobretudo, a enteada, que tanto ama.

Agora, passados dois anos, e com a ajuda do seu cão de assistência, Stitch, Amelia decide retomar a sua vida. Mas, quando o corpo de uma enfermeira sua amiga surge a flutuar num rio perto de casa, Amelia mergulha num mistério perturbador que ameaça destruir tudo outra vez.

À medida que as pistas começam a aparecer, o perigo volta a rondar a vida de Amelia. Quanto estará ela disposta a arriscar para trazer a verdade à superfície?

A minha opinião:
Confesso que quando a Cristina me falou deste thriller não me chamou a atenção. Tento perceber porquê, o que para meu grande embaraço e vergonha, deve estar relacionado com o facto de a protagonista, que dá título ao livro, ser surda. Subestimei Amelia Winn, uma extraordinária personagem. Uma personagem de quem não me apetecia afastar sempre que tinha que interromper a leitura. Sensata e afetuosa rejeitou a piedade depois do acidente criminoso que a remeteu para o silêncio, e para a bebida, até perder a familia. Com a ajuda de Jake e Stich (o seu cão de assistência) recuperou o controle da sua vida nesta sólida narrativa, sem vertigem mas com suspeição e mistério quando descobre a vitima de uma crime. A partir daqui começa a trama que segui com entusiasmo. 

Intui o assassino, mas as pistas levavam noutro sentido. De qualquer modo, a narrativa e a Amelia são tão empolgantes e inebriantes que não conseguia parar de ler até confirmar que todos os passos que dava eram aqueles que eu (friamente) daria. E a autora, da qual nada li e não vou querer perder, conseguiu um thriller ao mais alto nível (nem sempre os mais publicitados são os melhores, como é o caso).  Seguramente dos melhores thrillers que já li. 

Temas sérios do cancro e dos cuidados de saúde são debatidos em fundo. Pessoalmente, sei do que se trata e sei os custos que envolve. A surdez profunda é algo que me assusta e do qual nada sabia. Ler este thriller desmistificou e elucidou-me muito sobre soluções que não sabia existirem.

Brilhante!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A rapariga que lia no metro

Autor: Christine Féret-Fleury
Edição: 2018/ março
Páginas: 168
ISBN: 978-972-0-03038-2
Tradutor: Artur Lopes Cardoso
Editora: Porto Editora

Sinopse:

De segunda a sexta-feira, sempre à mesma hora matutina, Juliette apanha o metro em Paris. Nesse caminho diário e rotineiro para um emprego cada vez mais rotineiro, a viagem na linha seis é a única oportunidade de que Juliette dispõe para sonhar.

Aos poucos, essa necessidade espelha-se na observação dos demais passageiros, pelo menos, daqueles que leem: a velha senhora que coleciona edições raras, o ornitólogo amador, a rapariga apaixonada que chora sempre na página 247. Com curiosidade e ternura, Juliette observa-os como se, pelas suas leituras, lhes adivinhasse as paixões, e a diversidade das suas existências pudesse dar cor à sua vida, tão monótona e previsível.

Até ao dia em que, seguindo um impulso invulgar, decide descer duas estações antes da paragem habitual - e esse gesto, aparentemente inocente e aleatório, acabará por se tornar o primeiro passo de uma experiência completamente alucinante e tão perturbadora quanto a de Alice no País das Maravilhas.

A minha opinião:
Ao ver este pequeno livro recordei-me de "O Leitor do Comboio" e fiquei ansiosa por o ler. Livros que reportam a outras livros são sempre desejáveis para uma livrólica. Nem sempre são bons, mas ainda assim são imperdíveis.

O título fisgou-me logo, ou não fosse eu também uma rapariga que lê no metro. E tal como Juliette tenho algumas rotinas em que  observo as pessoas e o que lêem. Aborrece-me um pouco quando os livros vão tapados, mas compreendo que desse modo protegem a sua privacidade e a integridade dos livros.

Lamentavelmente, não me agarrou. O tom é de desalento e melancolia. Esperava que ficasse mais animado e nem por isso. A esperança e entusiasmo passou ao de leve. As referências a livros e autores, bem como as manias de leitor foi o que mais me agradou. As personagens não são relevantes, apenas suporte para os verdadeiros protagonistas, os livros. Julliette, a personagem principal merecia mais, assim como a criança Zaide. 

Enfim...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Uma Velha e o Seu Gato e a história de dois cães

Autor: Doris Lessing
Edição: 2016/ abril
Páginas: 96
ISBN: 9789722531436
Tradutor: Ana Falcão Bastos
Editora: Bertrand

Sinopse:
Dois dos mais emblemáticos contos de Doris Lessing, Nobel da Literatura. Era célebre a sua paixão pelos animais, especialmente os gatos, bem patente nestas duas histórias. Em Uma Velha e o Seu Gato, uma mulher de sangue cigano, agora velha, viúva, com pouco contacto com os filhos adultos, vai-se lentamente desligando do mundo, das normas sociais e da convivência com os outros. A sua grande companhia é o seu gato, com quem se vai tornando cada vez mais selvagem e mais afastada dos outros humanos. Em História de Dois Cães, Doris Lessing narra a fascinante amizade entre dois cães, até ao fim da vida de ambos. Um é morto a tiro por roubar ovos, o outro, envelhece e entristece com a perda do amiga e acaba por ser posto a dormir.

A minha opinião:
Mais uma vez afirmo que gosto de ler contos. E gosto de animais. Como tal, não podia deixar de ler este pequeno livro e para isso tive de fazer um interregno no que estava a ler, para numa tarde devorar estes dois contos. Importa referir que, Doris Lessing foi prémio Nobel da Literatura em 2007 e nesta pequena amostra percebi o seu imenso talento. 

Uma Velha e o seu Gato é um conto tocante sem ser piegas ou lamechas. Desde o início há uma critica implícita sobre a incompreensão e o abandono dos idosos pelas familias e pela sociedade, que como não se encaixam no padrão estabelecido são esquecidos ou acomodados nos lares para morrerem. Os interesses imobiliários também dão uma ajudinha neste desfecho. Sem sentimentalismo é um conto que machuca. 

Nada dúbia ou hesitante na escrita Doris Lessing assume a sua alma livre e lúcida que escreve sobre o que quer sem se preocupar com desconfortos alheios. A liberdade é um tema subjacente em ambos os contos. O gato é um animal incompreendido por muitos e Tibby não fugia à regra. Caçador que sobrevive independente mas aprecia a proteção e os afagos de um dono que escolhe. Hetty era uma velha extravagante que a familia rejeitou e que tinha por companhia o seu amigo gato.

A História de Dois Cães fala sobre as dificuldades de subsistir, o isolamento e o espaço aberto das grandes fazendas de África, onde os animais se podiam tornar selvagens mesmo quando criados pelo homem, como os dois cães da narrativa. A tentativa de os ensinar não era bem sucedida e o mais livre influenciava o mais dócil a seguirem soltos na vastidão que os rodeava. As incursões em fazendas vizinhas geravam alguns problemas que eram resolvidos a tiro. 

Ao contrário do que se poderia imaginar, os contos não são de encantar. De pensar para mudar. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Filha

Autor: Anna Giurickovic Dato
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 192
ISBN: 9789722064347
Tradutor: José Colaço Barreiros
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, revoltar-se continuamente contra a mãe e crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos.

Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas: Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?

Um livro que põe em causa todas as nossas certezas: as vítimas são ao mesmo tempo algozes e os inocentes são também culpados.

A minha opinião:
Desejava e receava ler este livro. Sabia qual era o tema e que este mexe comigo, e ainda assim estava convicta de que o devia ler. A medo comecei, preparada para o largar. Não aconteceu e li, incomodada, mas absorta, uma narrativa que vicia.

Uma extraordinária estreia, para mais com um tema forte. Não é para qualquer um, pelo que vou aguardar com expectativa os próximos romances.

O cenário de fundo é em Rabat, Marrocos, idílico, sobre o qual paira uma sombra funesta. Na perspectiva de Silvia, confusa e cansada, que vai olhando para trás e para a frente, num jogo entre o consciente e o inconsciente, sem conseguir intervir e é neste registo que decorre toda a narrativa. As memórias alegres e também as horrendas, onde sente que ainda pertence, enquanto atualmente em Roma, Itália, sente que não existe, presa num jogo perverso que assiste apática aquando da visita do namorado. Como leitora, li chocada. Compreensivel mas difícil de processar. Sofrimento, solidão e vergonha. Complexo. O pai desaparecido causa uma forte impressão na mãe e na filha, e afeta permanentemente a relação entre elas.

Muito bom. Em tempo de Eurovisão, replicando, se pontuasse leituras, teria quase nota máxima. 

sábado, 5 de maio de 2018

Um Amante no Porto

Autor: Rita Ferro
Edição: 2018/ abril 
Páginas: 224
ISBN: 9789722064811
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os meninos da Foz, o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará.

Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

A minha opinião:
Nas minha opiniões restrinjo ao que considero de interesse e acabam por ser restritas. Nesta senda começo por afirmar que gosto dos romances que Rita Ferro tem publicado recentemente. Escreve bem, brinca com as palavras e expõe estados de alma com sentido crítico. Franca, sem ser consensual ou humilde. Destemida e direta no discurso. 

Gostei de Zara. Posso estar equivocada mas tem muito da Rita que imagino. Lúcida e objetiva, para o bom e para o mal. Uma mulher que vê o "quadro" todo e não apenas parte. Nesta narrativa, na primeira pessoa, temos um retrato de epoca que reconheço (apesar de eu não ser natural do Porto) e o Amor;

"É extraordinário que nenhuma teoria o esgote e que ninguém se canse de o interpretar" (pag. 107)

que me arrebatou a partir do III capítulo. Muitos são os excertos que leio e releio antes de prosseguir a leitura. E gosto disso. Compreendo ou identifico-me com o que está escrito e dificilmente o conseguiria exprimir melhor. A complexidade da natureza humana e os equivocos nos relacionamentos tomando como exemplo Zara e  Álvaro.O fim do romance foi devastador. Sabia que não ficariam juntos mas não previ aquele desfecho que me pareceu genial e verossímel. 

Gostei muito. Enriquecedor e divertido, ainda que não fosse essa a intenção. Li arrebatada pelas personagens e pelas circunstâncias. 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Mulher Culpada

Autor: Elle Croft
Edição: 2018/ março
Páginas: 320
ISBN: 9789892341545
Tradutor: Ana Saldanha
Editora: ASA

Sinopse:
Bethany Reston é uma fotógrafa de sucesso e tem um casamento feliz. Quando consegue um cliente de renome, o bilionário Calum Bradley, sabe que a sua carreira vai prosperar. O que não sabe é que a relação profissional dará lugar a um tórrido caso extraconjugal.

Não foi premeditado. Mas aconteceu. É avassalador. E ninguém - ninguém - pode descobrir.
Quando Calum aparece morto, tendo sido apunhalado em plena estação de metro - o último local onde Bethany se encontrou com ele - ela sofre duplamente. Pela perda de um grande amor. E por não poder partilhar a sua dor. Acima de tudo, tem de manter as aparências.

Mas alguém sabe o seu segredo. Alguém que está agora a ameaçá-la... lenta e impiedosamente.
Com o cerco a apertar, e as provas contra ela a avolumarem-se, só há uma forma de Bethany provar a sua inocência: tem de encontrar o assassino.
Mas todos, polícia incluída, parecem cada vez mais convencidos de que a assassina… é ela.

Será?

A minha opinião:
Mais um excelente thriller de estreia. O anterior do género que li, A Conspiração da Senhora Parrish foi viciante e surpreendente e este é igualmente convincente. Na  génese, um relacionamento e adúlterio contados na perspetiva feminina.

Bethany apaixona-se e apesar do secretismo da relação, alguém sabe e enreda-a numa armadilha em que acaba por ser suspeita do crime do amante;

"Não é paranoia quando é verdade."

Curiosamente, Calum e  Jason, amante e marido, não têm peso nesta narrativa, são apenas personagens secundárias, assim como a amiga Alex, enquanto o misterioso assassino sobressai na perseguição inteligente e audaz que faz a Bethany, em que imprime um ritmo e uma intensidade tal que se torna quase impossível interromper a leitura. Capítulos curtos e eficazes, linguagem direta e sem rodeios ou grandes metáforas, tudo bem doseado e calculado para um bem sucedido thriller.

Claro que o marido é o primeiro que ocorre mas... as dúvidas persistem e a falta de pistas também. E apenas no fim percebi. Como eu gosto. Exatamente o tipo de leitura que me intriga, desafia e conquista. 
Muito Bom.