domingo, 25 de setembro de 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Autor: Martha Batalha
Edição: 2016/ julho
Páginas: 216
ISBN: 978-972-0-04859-2
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Quando Guida Gusmão, perdida num amor proibido, desaparece da casa dos pais sem deixar rasto, a irmã Eurídice prometeu ser a filha exemplar, a que nunca faria algo que trouxesse novo desgosto aos pais. E Eurídice torna-se a dona de casa perfeita, casada com Antenor, um bom marido, apesar de tudo, ou apesar do nada em que a vida de Eurídice se tornou. 
A vida de Eurídice Gusmão é em muito semelhante à de inúmeras mulheres nascidas no início do século XX e educadas apenas para serem boas esposas. Mulheres como as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a sua própria vida.

A minha opinião: 
Eurídice escreveu um livro. A história da invisibilidade. A história das mulheres na década de 40 que eram educadas para serem mães e donas de casa. A história de mulheres que reprimiam os seus sonhos para encaixarem nos sonhos dos outros. Um livro importante que deve ser lido por mulheres fora do comum. 

"Para ela o casamento era algo endémico, algo que acometia homens e mulheres entre dezoito e vinte e cinco anos, Tipo surto de gripe, só que um pouquinho melhor. 
(...)
Antenor confundiu equilíbrio esta mania de Eurídice de usar só metade da atenção para encarar a vida, e pensou Taí a mulher perfeita. Não sabia que a moça estava assim lânguida por tempo limitado. Já na noite de núpcias Eurídice lhe aparece com surpresas indesejadas. E depois ao longo dos anos inventou projetos estapafúrdios." (pag. 90/1)

Não é segredo que gosto de romances no feminino. O que também não é difícil de encontrar. Mas não gosto de um qualquer romance. Muito sentimental, fantasioso ou lamechas não aprecio. Uma história que faça eco em mim e que seja bem contada, com humor e inteligência, de preferência. Como esta da vida de duas protagonistas; Eurídice e Guida, que ainda podem ser vistas por aí

Uma maravilhosa surpresa escrita em português do Brasil que me deixou encantada. 

Advertência: Este livro enquadra-se na categoria de livros que se lêem em dois dias, se conseguirmos interromper a leitura para as atividades normais do dia-a-dia e outras necessidades imperiosas. Senão, arriscam-se a lê-lo em poucas horas com verdadeiro deleite. Uma pausa bem vinda. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Partir de Uma História Verdadeira

Autor: Delphine De Vigan
Edição: 2016/ maio
Páginas: 400
ISBN: 9789897222993
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
A história é contada na primeira pessoa, com Delphine, a narradora, como uma das duas personagens. Todos os nomes são de pessoas reais: o da autora/narradora, o dos filhos, do namorado… A história é aparentemente autobiográfica e, no entanto, torna-se a certa altura um jogo de espelhos, em que é difícil discernir entre realidade e ficção. Nada previsível, cheio de surpresas, com um suspense crescente (chega a ser atemorizante), mantém o leitor literalmente agarrado até ao fim(*). Delphine crê que a sua incapacidade de escrever terá coincidido com a entrada de L. na sua vida. L. é a mulher perfeita que Delphine gostaria de ser: muito bonita, impecavelmente cuidada, de uma grande sofisticação e inteligência. L. está também ligada à escrita - é escritora-fantasma. L. insinua-se lenta mas inexoravelmente na vida de Delphine: lê-lhe os pensamentos, adivinha-lhe os desejos e necessidades, termina-lhe as frases, torna-se totalmente indispensável - é a amiga ideal. Mas, aos poucos, sabemos que ela conseguiu isolar Delphine (afastando toda a gente), que lhe lê os diários, a correspondência, que se faz passar por ela! E quer demover Delphine de escrever o livro que esta está a preparar, obrigando-a a escrever a obra que ela (L.) quer: Introduz-se, assim, na vida da amiga de forma insidiosa, permanente, por fim violenta, controlando tudo. É aqui que há um volte-face na intriga - até aí muito perto do real - e uma possibilidade autobiográfica. O fim é maravilhosamente surpreendente. O seu livro anterior, Rien ne s’oppose à la nuit, em que conta a história da mãe, vendeu cerca de um milhão de exemplares em França e teve vendas na casa das dezenas de milhares em Espanha.

A minha opinião:
Este é um romance que me perseguiu desde o momento em que o vi. Mas resisti. Achei precoce. Nada sabia de si e poderia revelar-se frustrante, exigente, denso ou maçador.  Uma má aposta. Aguardei algum feedback que acabou por surgir e das mãos de uma boa amiga me foi entregue.

Inquietante e perturbador. Quão vulneráveis podemos ser perante uma mente intuitiva e empenhada que não descura os pormenores para conseguir os seus intentos sem que seja observada ou travada? Quanto podemos ser manipulados e confundidos para nos conduzirem onde se pretende? Duas questões que se colocam enquanto lemos este romance.
O nome da personagem/ narradora é o mesmo da autora e o título induz em dúvida em boa parte da narrativa. Brilhante premissa que mantém o  suspense e a dúvida. L. não tem nome próprio, é apenas uma inicial como se não pudesse ser nomeada para não se materializar. Muito é revelado de autobiográfico, como referido em:

"Julgo que as pessoas sabem que aquilo que escrevemos nunca nos é totalmente estranho. Sabem que há sempre um fio, um motivo, uma falha, que nos liga ao texto. Mas aceitam que substituamos, que condensemos, que desviemos, que alteremos. E que inventemos."  (pag. 88) 

Mas há mais. A natureza do trabalho de um escritor. Os livros que se impõem sem escolha. E as dúvidas que o assaltam. O real ou a ficção. A vida real que pode ser mais audaciosa, criativa ou a inventada como todo o colorido que se conseguir imaginar?!

Um romance de que não me apartei mesmo quando interrompia a leitura. Uma narrativa fulgurante e mais não conto.

sábado, 10 de setembro de 2016

Assim Começa o Mal

Autor: Javier Marías
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 532
ISBN: 9789896650087
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
Assim começa o mal é um livro sobre um dos factores mais determinantes na vida de qualquer um, condutor de desprezo por qualquer lealdade, consideração ou respeito para com os outros: o desejo.

A minha opinião:
Demorei consideravelmente mais tempo a ler este romance do que o habitual. A qualidade da escrita de Javier Marías impôs um ritmo lento em que frequentemente relia passagens de uma beleza ímpar e tão lúcidas e assertivas como poucas vezes tive oportunidade de ler. Um analista da natureza humana, quer em termos colectivos ou individuais. 

Para mim tratou-se de uma estreia auspiciosa de um autor deveras apreciado como o grande romancista espanhol da actualidade. 

"Assim começa o mal e o pior fica para trás" é o que diz a citação de Shakespeare que parafraseara para se referir ao benefício ou conveniência, prejuízo comparativamente menor de renunciar a saber aquilo que não se pode saber. Segredos perpassam toda a trama num suspense que desassossega quem procura desvendar nos cenários o mistério que influencia no tempo a vida do casal de protagonistas: Eduardo Muriel e Beatriz Noguera. A açao passa-se em Madrid na década de 80 à medida que o narrador Juan de Vere contextualiza o que se passou. O médico Van Vehten, personagem secundária está ligada a um segredo que Juan é incumbido de saber.

A desdita de um casamento que durante anos assentou numa mentira que quando revelada nada pode suster. O segredo que procurei descortinar sem atinar. 

Lentamente é explorada a curiosidade e encaminhado o leitor numa reflexão profunda sobre o mal de uma sociedade após uma ditadura e a memória de abusos e vilanias que ao encolhermos os ombros deixamos o pior para trás porque é passado mas aquiescemos ao mau que é aquilo que está por vir. 

Romance marcante para a altura certa. Altamente recomendado mas com parcimónia.  

domingo, 28 de agosto de 2016

A Incrível Viagem de Arthur Pepper

Autor: Phaedra Patrick
Edição: 2016/ maio
Páginas: 320
ISBN: 9789898839817
Editora: Topseller

Sinopse: 
Repleta de personagens inesquecíveis e episódios memoráveis, A Incrível Viagem de Arthur Pepper é uma história imperdível sobre o despertar para as possibilidades infinitas da vida. 

Arthur Pepper, de 69 anos, leva uma vida simples e rotineira, como quando a sua mulher, Miriam, era viva. Levanta-se às 7h30, rega a sua planta Frederica e vai tratar do jardim. O dia a dia de Arthur corre como deve ser. Sem surpresas. Sem sobressaltos. 

Até que no primeiro aniversário da morte da mulher, tudo muda. Ele encontra no meio dos pertences de Miriam uma pulseira que não se recorda de ter visto antes. Uma pulseira com oito berloques diferentes, cada um mais misterioso do que o outro. Num deles encontra até um número de telefone. 

Intrigado, Arthur resolve telefonar e descobrir a quem pertence aquele número. As revelações que se seguem vão lançá-lo numa jornada surpreendente. De Londres a Paris, cidades que nunca imaginou visitar, Arthur irá fazer novas e fascinantes descobertas não só sobre a sua mulher, mas também sobre si próprio. 

Encantador e comovente, mordaz e cheio de humor, este romance é ideal para leitoras de ficção romântica.

A minha opinião: 
Este é um livro encantador e muito simples. Despretensioso. Apenas entretenimento e alguma reflexão ou balanço para uma fase mais tardia da vida. Contudo, pareceu-me uma leitura mais juvenil ou adequada a um leitor menos experiente. 

Gostei de o ler mas não retive muito. Uma lufada de ar fresco entre leituras mais pesadas e exigentes.

Um idoso em plena forma que se deixara esmagar pelo luto da mulher com quem partilhara uma existência rotineira e confortável em que se sentia seguro. Uma vizinha também ela enlutada que se desdobra em cozinhar para outros que se sentiam perdidos enquanto o seu filho jovem não reagia aos seus apelos, insiste em atazanar Arthur Pepper. 

Uma misteriosa e intrigante pulseira com berloques que é o início de uma grande aventura para este homem que vai descobrir o passado da mulher que ela nunca revelara mas também muito mais sobre si próprio. Na verdade, este é um livro sobre recomeços. 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Fortuna

Autor: Cynthia D'Aprix Sweeney 
Edição: 2016/ junho
Páginas: 384
ISBN: 9789724750934
Editora: Editorial Teorema

Sinopse:
A família Plumb destaca-se pela sua espetacular disfuncionalidade. Há anos que os quatro irmãos Plumb desesperam por causa da herança. Em testamento, o pai ditou que o dinheiro fosse distribuído apenas quando a filha mais nova celebrasse 40 anos. O seu objetivo era salutar: incentivá-los a lutarem pelos seus sonhos. Mas o plano saiu gorado, pois a poucos meses do aniversário, eles estão tão endividados que só a fortuna familiar poderá salvá-los.
Melody conta pagar a hipoteca da casa e a universidade das filhas gémeas. Jack espera saldar a dívida que contraiu para manter a sua loja de antiguidades. Bea, uma escritora promissora, debate-se com a inércia e a falta de rumo. Leo, o único que vingou por si próprio, arrisca perder tudo num divórcio tumultuoso. 
E quando estão prestes a deitar a mão ao dinheiro, Leo entra seu Porsche acompanhado por uma jovem empregada de mesa. O que acontece a seguir vai ter consequências devastadoras… e um preço exorbitante que só a herança poderá pagar. 

Privados daquilo que os definiu perante si próprios e os outros, o que será dos irmãos Plumb? A solução para todos os males parece estar nas mãos do próprio Leo. Estará ele disposto a sacrificar-se? Ou terão todos de se adaptar a novas (e infernais) circunstâncias? Unidos pela primeira vez, os irmãos revisitam velhos rancores, enfrentam novas verdades, e (finalmente!) refletem sobre as escolhas que fizeram na vida.

A minha opinião:
Gosto de romances de estreia. Gosto do entusiasmo e energia que marcam a escrita e agarram com facilidade como este romance cinematográfico sobre quatro irmãos no meio cosmopolita de Nova Iorque e a relação entre eles quando está em causa uma herança que tomaram como garantida e a que se habituaram a referir como "a Fortuna". 

Um romance que correspondeu plenamente às minhas expectativas, com um enredo bem desenvolvido e personagens bem definidas, numa narrativa ligeira e movimentada sobre o poder desagregador do dinheiro no seio de uma família com comportamentos disfuncionais que escolhiam um local de encontro porque não sabiam estar uns com os outros enquanto carregavam fracassos pessoais A noção de direito de cada um deles sobre esse dinheiro que deturpa memórias e decisões.

Leo, Jack, Bea e Melody são as personagens centrais desta narrativa, mas gostei muito de Stephanie, que ganha destaque enquanto Leo perde. Gostei dos laços que se criam com a convivência inicial sobre o dinheiro mas alargando para outros assuntos. Gostei de encontrar o que fui buscar. Esperança de que o apego não seja material e outros valores mais elevados se sobreponham, o que não é para todos. Esses são o que falham.

Sem reservas, recomendo. Não é um best seller mas vale bem a pena ler. 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

As Histórias que não se Contam

Autor: Susana Piedade
Edição: 2016/ julho
Páginas: 344
ISBN: 9789897415524
Editora: Oficina do Livro

Sinopse: 
Ana pergunta-se como seria hoje o seu dia-a-dia se tivesse sabido detetar no namorado os indícios da doença que o levou inesperadamente. Isabel, seis meses depois da tragédia que lhe virou a vida do avesso, ainda se sente culpada por não ter chegado a horas ao infantário naquela tarde de chuva. Marta, que ousou abandonar, ainda adolescente, uma casa onde era maltratada, não tem agora a coragem de confessar que o amor em que apostou tudo está longe de ser um mar de rosas. São três mulheres jovens, com a vida inteira pela frente, mas para quem o presente se tornou um fardo difícil de carregar e o futuro um tempo sem qualquer esperança. Quem poderia entender a sua dor incomparável? Para quê, então, contarem as suas histórias? Um acidente acabará por cruzar estas três desconhecidas num lugar onde muitas vidas se perdem, mas que para elas representará sobretudo o nascimento de uma amizade que lhes vai permitir lutarem contra o sofrimento e recuperarem aos poucos o ânimo e a vontade de viver. Porque quanto maior é o drama, maior tem de ser a partilha. Com uma linguagem cuidada e uma estrutura francamente original, este belíssimo romance de estreia, finalista do Prémio LeYa em 2015, traz para a cena questões de grande atualidade que afetam muitas mulheres e não devem ser silenciadas, e lê-se de um fôlego, mantendo o suspense até à última página.

A minha opinião: 
"As histórias que não se contam" é sugestivo. Um bom título. As histórias de três protagonistas femininas que vão intercalando as suas vozes enquanto avaliam o que sentem intensamente. Não deve ter sido nada fácil analisar a fundo emoções tão difíceis como as que Ana, Isabel e Marta vivem, como também não foi para mim ler.

Depois de um período em que li bons romances, estava indecisa sobre o que ler a seguir. Procurava um livro que continuasse nessa linha. Não necessariamente um romance exemplar, mas um que me levasse ao abandono dos meus pensamentos enquanto o lesse. E este livro ...hesitei durante dois dias, receava o conteúdo, especificamente a temática da dor da perda e a violência doméstica. O fim dos sonhos e o encarar de uma realidade que não se quer crer. Atual e intemporal.

Gostei da escrita e da fluidez da narrativa, e o meu receio revelou-se certo. Custava-me a avançar e tinha de abrandar para interpretar o sentido das palavras e amortecer o seu impacto, ainda que admirando quem assim escreve. Com alma.

Aproximadamente a meio do livro, dei por mim a lê-lo com avidez, curiosa com o desenrolar de acontecimentos ou o concretizar de possibilidades deixadas em suspense. A amizade entre Ana, Isabel e Marta faz a diferença. Progressivamente, na partilha, vão desconstruindo os problemas, num rumo inesperado que me agradou muito.

Por tudo isto, um romance que recomendo. Uma ótima estreia. Um caso sério ou para ser levado a sério. 

domingo, 31 de julho de 2016

O Livro dos Baltimore

Autor: Joël Dicker
Edição: 2016/ maio
Páginas: 552
ISBN: 9789896650674
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
«Se encontrar este livro, por favor leia-o. Queria que alguém conhecesse a história dos Goldman de Baltimore.»

Até ao dia do Drama, existiam dois ramos da família Goldman: os Goldman de Baltimore e os Goldman de Montclair.
O ramo de Baltimore, próspero e bafejado pela sorte, mora numa luxuosa mansão. Encarna a imagem da elite americana, abastada e influente, que vive em bairros exclusivos, passa férias nos Hamptons e frequenta colégios privados. Já os Goldman de Montclair são uma típica família de classe média e vivem numa casa banal em Nova Jérsia. É a esta família modesta que pertence Marcus Goldman, autor do romance "A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert". Mas era à família feliz e privilegiada de Baltimore que Marcus secretamente desejava pertencer. Mas tudo isto se transforma com o Drama.
Oito anos depois do dia que tudo mudou, é a história da sua família que Marcus Goldman decide investigar. Movido pelas memórias felizes dos tempos áureos de Baltimore, procura descobrir o que se passou no dia do Drama, que mudaria para sempre o destino da família. O que aconteceu realmente aos Goldman de Baltimore?

A minha opinião: 
Provavelmente não teria lido este livro se não me tivesse sido oferecido. 

Até então não me tinha chamado a atenção, mas depois fui investigar. Constatei que tinha estado desatenta porque várias foram as vezes em que o autor foi referido por amigos que tinham lido as outras duas obras - "Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” e "Os Últimos Dias dos Nossos Pais". Sem paralelo para mim que ainda não os li. 

"O Livro dos Baltimore" trata-se de uma promessa cumprida por Marcus Goldman ao seu tio Saul Goldman de Baltimore. 

Um cão, Duke, faz a ponte entre o escritor e Alexandra que se tinham afastado oito anos antes e Marcus que tentava ultrapassar um bloqueio criativo retoma ao passado com memórias felizes da adolescência e juventude quando pertencia ao "Gangue dos Baltimore". Saltos temporais marcam esta narrativa mas sem perder a cadência e o interesse pelo enredo desta família.

A perspectiva de Marcus apresenta lacunas que gradualmente ele vai preenchendo e o que parecia óbvio e inevitável percebe-se que não o foi. Os motivos prendem-se com o Drama que ele tende mas tarda em revelar, na proximidade com o curioso vizinho Leo que o julga e repreende como a voz da consciência, 

Sentimentos profundos e conturbados alteram o rumo de sucesso que parecia traçado para os Goldman. Inveja, orgulho e paixão ocultos no seio da família antes e depois do Drama de 2004. Segredos obscuros que tornam esta leitura empolgante e rápida e uma ótima leitura de verão. 

domingo, 24 de julho de 2016

Manual para mulheres de limpeza

Autor: Lucia Berlin
Edição: 2016/ maio
Páginas: 528
ISBN: 9789896650650
Editora: Alfaguara Portugal

Sinopse: 
Manual para mulheres de limpeza reúne o melhor da obra da lendária escritora norte-americana Lucia Berlin. Com um estilo muito próprio, faz eco da sua própria experiência - tão rica quanto turbulenta - e cria verdadeiros milagres a partir da vida de todos os dias. As suas histórias são pedaços de vidas convulsas.

Um dos melhores livros do ano segundo os jornais The New York Times e The Guardian.

A minha opinião: 
Gostei deste livro assim que o vi. 

A capa com aquela figura feminina (a autora) de sorriso negligente chamou-me a atenção, antes mesmo do titulo que guardei na memória e da sinopse que li quando o virei. Ainda assim não foi um livro que li compulsivamente. Ficou parado na minha mesa de cabeceira e ao fim do dia pegava nele para ler mais um conto e apreciar devagar o outro lado do sonho que Lucia narra com desapego, compassividade e economia de palavras.  Quase como se fosse uma peça jornalística que precisamos de conhecer para entender o mundo em que vivemos, que por outro lado, com o tanto que conta torna-se difícil de entender. A violência, maus tratos em mulheres e crianças, a miséria, a dependência do álcool e de drogas, o abandono, a dor e a morte, e em que o belo se mistura com tudo isto em pormenores observados ou imaginados que a autora registou para dar força e profundidade à prosa. Uma escrita tão realista que se torna verdadeira para o leitor. Sentida. 

"E´ uma questão de melhorarmos a realidade, de fazermos a nossa própria verdade." (pag. 483)  

Lidos todos os contos temos a trajectória de vida da autora, que confirmamos no fim com Uma nota sobre Lucia Berlin. Uma vida recheada mas sombria, com rasgos de humor e ironia. Uma nobreza de carácter que marca. Como um diário que se espreita em segredo.  

"O único motivo porque vivi tanto tempo foi ter largado o meu passado. Fechar a porta à dor, ao arrependimento, ao remorso. Se os deixar entrar, basta uma nesga autocomplacente, zás, a porta abre-se por inteiro e eis que entra uma torrente de dor que me rasga o coração e me cega os olhos de vergonha, parte chávenas e garrafas, derruba frascos e estilhaça janelas, faz-me tropeçar, ensanguentada, em açúcar entornado e em vidros partidos, sufocando de pavor até que, num ultimo estremecimento e soluço, fecho a porta pesada. Apanho os cacos uma vez mais. (pag. 509)

domingo, 17 de julho de 2016

História da Menina Perdida

Autor: Elena Ferrante
Edição: 2016/ maio
Páginas: 432
ISBN: 9789896415815
Editora: Relógio D'Água

Sinopse: 
Deixando o marido em Florença, Elena volta a Nápoles para viver com Nino Sarratore, esperando que este se separe da mulher. É agora uma escritora reconhecida e procura escapar ao ambiente conflituoso do bairro onde cresceu e a sua família continua a viver. Evita encontrar Lila. Mas as duas amigas de infância não conseguem manter-se distantes e acabam mesmo por engravidar ao mesmo tempo, o que lhes permite reencontrar, por algum tempo, a passada cumplicidade.

A minha opinião: 
Finalmente li o ultimo volume da tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante. 

Ao contrario de outras opiniões considero a narrativa limpa e honesta de Elena Greco exigente pela complexidade de sentimentos que a amizade com Lila tem, bem como os restantes relacionamentos com contornos políticos deste bairro napolitano, para que me permita ler ininterruptamente.  

As personagens permanecem connosco, ou melhor, o desassossego que nos causam não nos deixa esquece-las, mesmo que façam interregnos como os meus. Como se fizéssemos parte da trama. 

Quem escreve com o pseudónimo Elena Ferrante parece ter se inspirado em factos vividos para criar uma historia ficcional muito genuína e sentida, que gradualmente nos conquista mas incomoda porque muitas são as situações angustiantes e dolorosas no bairro miserável, violento e decadente onde cresceram e do qual Elena se procurou libertar mas ao que regressou numa fase da sua vida aqui retratada. A história da Menina Perdida encerra um ciclo de alguma proximidade e consenso entre as duas amigas novamente mães. A ligação das crianças e as suas diferenças deixa Elena insegura mas o pior estava para vir. E tantas outras experiências quotidianas e tantas emoções nesta narrativa rica e dinâmica. 

Para ler e mais tarde reler, porque muitos são os aspectos e pormenores que importa reter nesta bem contada história.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Um Homem Chamado Ove

Autor: Fredrik Backman
Edição: 2016/ maio
Páginas: 312
ISBN: 978-972-23-5825-5
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
À primeira vista, Ove é o homem mais rabugento do mundo. Sempre foi assim, mas piorou desde a morte da mulher, que ele adorava. Agora que foi despedido, Ove decide suicidar-se.

Mal sabe ele as peripécias em que se vai meter.

Um jovem casal recém-chegado destrói-lhe a caixa de correio, o seu amigo mais antigo está prestes a ser internado a contragosto num lar, e um gato vadio dá-se a conhecer. 

Ove vê-se obrigado a adiar o fim para ajudar a resolver, muito contrariado, uma série de pequenas e grandes crises.

Um Homem Chamado Ove é um livro simultaneamente hilariante e encantador. Fala-nos deamizades inesperadas e do impacto profundo que podemos ter na vida dos outros.

A minha opinião:
Possivelmente a minha melhor leitura deste verão. E quão inesperado pode ser, quando um pequeno e singelo livro, enreda de tal modo, que tudo e todos os que nos rodeiam ficam em segundo plano, enquanto se acompanha as peripécias das personagens que lidam com o mau feitio de Ove, e ganham vida. Ove, esse, vai direitinho ao coração.

Ove é um homem extraordinário sem o desejar. Taciturno e habilidoso, raramente mostra sentimentos que o seu coração demasiado grande e a sua rabugice oculta, mas quando os princípios porque se rege são questionados, tem de agir. E quando decide ir ao encontro da sua Sonja, porque sente muito a sua falta, depois de ser dispensado do emprego, uma iraniana Grávida de um Esgalgado e as suas duas filhas pequenas mudam-se para a casa do lado, e a sua vida muda. Nem o Gato que não queria fica aos seus cuidados.

Como leitora, passei boa parte do tempo perdida de riso e outro tanto comovida com a generosidade e o desapego de tais personagens. Claro, que o mérito é do autor que consegue imprimir uma autenticidade e vivacidade à narrativa (que nada deixa por contar sobre Ove) que se lê com muito gozo e algum suspense, enquanto se torce por um desfecho favorável às personagens que acarinhamos. 

Há romances assim, que nos pegam desprevenidos e nos conquistam o coração. E são sempre as coisas mais simples como seguir o que parece certo que o conseguem plenamente, com o impacto que isso tem na vida dos outros.

Um prazer de ler!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

A Felicidade é um Chá Contigo

Autor: Mamen Sánchez
Edição: 2016/ maio
Páginas: 284
ISBN: 9789897542213
Editora: Marcador

Sinopse: 
O inexplicável desaparecimento do gentleman Atticus Craftsman parece estar relacionado com as bruxarias de cinco mulheres desesperadas. São funcionárias da revista Librarte e capazes de qualquer coisa para conservar o emprego.

O inspetor Manchego será encarregue de desenredar uma trama na qual a comédia romântica se entrelaça com o drama mais ternurento. E a intriga policial dá lugar ao maior achado literário de todos os tempos.

Aquilo que parece difícil acaba por ser tornar fácil e todos os problemas se afogam num mar de lágrimas… de tanto rir. Tudo isto para chegar à conclusão de que, aconteça o que acontecer, o amor consegue explicar tudo.

A minha opinião:
De ferias! E ferias sem livros não faz sentido. Assim, para começar procurei uma leitura que fosse leve, alegre e vigorosa, sem ser muito juvenil ou delirante. 

"A Felicidade é um chá contigo" pareceu-me uma boa sugestão, apesar da letra miudinha que redimensiona o livro. Não sei se consegui bem os meus intentos com esta agradável leitura de verão, que me transportou para Espanha, nomeadamente para Granada, diretamente para uma comunidade cigana com toda aquela exuberância e alegria de viver, e um jeitinho muito malandro de conseguir os seus objectivos. O misterioso desaparecimento do Inglês, fanático por um chá, que se deixa seduzir por tudo aquilo que o povo espanhol tem de melhor e que bem conhecemos, como odores e sabores, bem como a generosidade e simpatia que subjuga como magia.

De resto, a história é um pouco fantasiosa e pueril, com personagens encantadoras que se apaixonam e ultrapassam as suas dificuldades, enganos e traições. Sem dúvida uma comédia romântica, com um inspector muito boa pessoa mas pouco competente. Divertido, mas não hilariante. Recomendo com parcimónia.