sexta-feira, 23 de outubro de 2020

A Vida Brinca Comigo

A minha opinião:
Vera era pragmática, decidida e impaciente e, como dizia de si própria, "sem a menor paciência para malvados e estúpidos". Vera tinha uma história difícil, antes de entrar na vida de Rafael e Túvia, o que tinha afetado profundamente Nina, a sua bela filha. Guili é a neta, filha de Rafael e Nina, que desde cedo os abandonou. Uma história agridoce, onde há amor e tristeza, que a escrita apurada de David não permite ignorar sem marcar.

"Temos filme?" A convivência de Vera, Nina, Rafi e Guili, com o tanto que têm para resolver de culpa, remorso ou vergonha, num filme dramático em que a protagonista é a nonagenária, mas em que todos têm de desempenhar bem o seu papel intenso. Vidas que viviam no fio da navalha.

"Em geral... a vida prega-me muitas partidas." diz Vera.

Um romance implacável. Quase fisicamente doloroso, dada a tensão que trespassa nas palavras.
E o amor absoluto que os unia. Uma viagem ao princípio, em que as memórias e as escolhas entram na equação. Uma viagem ao passado de má memória com o cruel conflito dos Balcãs.

Autor: David Grossman
Páginas: 328
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722069854
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 
Por ocasião da festa dos noventa anos de Vera, Nina regressa a Israel: apanhou três aviões, que a trouxeram do Ártico até ao kibutz para se reencontrar com a euforia da mãe, a raiva da filha, Guili, e a veneração intacta de Rafi, o homem que, apesar de tudo, ainda perde todas as suas defesas quando a vê.

Desta vez, Nina não pretende fugir: ela quer que a mãe acabe por contar o que aconteceu na Jugoslávia durante a primeira parte da sua vida, quando, jovem judia croata, se apaixonou por Milosz, filho de camponeses sérvios sem terra. Nina quer saber mais sobre o seu pai, Milosz, preso sob a acusação de ser um espião estalinista. E porque é que Vera foi deportada para o campo de reeducação na ilha de Goli Otok, abandonando-a quando tinha apenas seis anos.

Para desvendar os mistérios do passado, Nina sugere um regresso ao lugar de horror que sugou Vera, marcando o destino de todas elas. A viagem de Vera, Nina, Guili e Rafi a Goli Otok acaba por se transformar num confronto dramático que quebra o silêncio, despertando sentimentos e emoções com a violência da tempestade que atinge as falésias da ilha. Uma viagem catártica, confiada à filmagem de uma câmara de vídeo, onde a memória e o esquecimento se fundem num único testemunho imperfeito.


domingo, 18 de outubro de 2020

Quem é amado nunca morre

A minha opinião:
Victoria Hislop escreve romances como ninguém que eu tenha lido, com base na História recente da Grécia. Marcantes porque reflectem as clivagens sociais e políticas que conduziram a profundos dramas familiares como é o do irmãos Koralis, que se iniciou em 1930. A cisma entre esquerda e direita dividiu o povo e com o termo da guerra perderam a humanidade numa narrativa tocante que trespassa o leitor através do profundo sentir das personagens.

Esta é a história de vida de Themis que a deixa como legado a dois netos. E é uma história impressionante de uma mulher comum com uma vida extraordinária de coragem e resiliência que aprendeu desde cedo o valor do silêncio. E mais tarde, da flexibilidade.

A escrita, as personagens e o enredo são de uma força que não se esquece e que em determinadas passagens até me deixou com falta de ar, mas a ligação com as crianças encheu-me o coração. Afinal, "quem é amado nunca morre" como dizia o poeta.

Autor: Victoria Hislop
Páginas: 432
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03379-6
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 

Atenas, abril de 1941. Tendo resistido a uma primeira tentativa de invasão, a Grécia é ocupada pelas potências do Eixo. Após décadas de incerteza, o país encontra-se dividido entre a direita e a esquerda políticas. Themis, então com quinze anos, vem de uma família separada por essas diferenças ideológicas. A ocupação nazi não só aprofunda a discórdia entre aqueles que a rapariga ama, como reduz a Grécia à miséria. É impossível ficar indiferente: na fome que se seguiu à ocupação, e que lhe levou os amigos, os atos de resistência são quase um imperativo moral para ela.

Porém, o sucesso de um dos movimentos de resistência mais eficazesna europa ocupada volta-secontra o próprio e, com o fim da ocupação, advém a guerra civil. Themis junta-se ao exército comunista, onde experimenta os extremos do amor e do ódio. Quando por fim é presa nas ilhas do exílio, encontra outra mulher cuja vida se entrelaçará com a sua de maneiras que nenhuma delas poderia antecipar, e descobre que deve pesar os seus princípios contra o desejo de viver.

Um romance poderoso, que lança luz sobre a complexidade e o trauma do passado da Grécia, a partir da vida extraordinária de uma mulher comum.

Festa de Família

A minha opinião:
Quatro jovens mulheres, muito diferentes umas das outras, mas entendiam-se muito bem e acabaram por se tornar amigas inseparáveis.

Histórias de vida em que Sveva Casati Modignani é especialista. Os romances são um deleite que não perco. Durante anos li todos os romances desta autora, que conquistou leitores e ganhou nome, mas por fim comecei a cansar (aparte que surgiu em conversa com uma boa amiga livrólica). Este romance reconciliou-me com a autora que conhece bem a natureza feminina e sabe contar histórias que nos aproximam de nós próprias. Romances que confortam. E não menos importante, apelam ao palato com a maravilhosa gastronomia.

A amizade destas quatro mulheres que se reuniam semanalmente para jantar e dar á lingua era um elo forte como o de uma familia. Mulheres batalhadoras e de sucesso. Um romance que reproduz as histórias de princesas que nos continuam a fazer sonhar. Mulheres que se impõem e realizam. 
Mais um romance da Sveva que é um bálsamo para a alma. E que bem que ela o sabe fazer.

Autor: Sveva Casati Modignani
Páginas: 280
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03386-4
Edição: 2020/ outubro

Sinopse: 
É quase Natal. Em Milão, num restaurante da Piazza Novelli já decorado de forma festiva, a proprietária prepara-se para receber as habituais clientes das quintas-feiras. Andreina, Carlotta, Gloria e Maria Sole: quatro jovens amigas que a cada semana se permitem um momento de conversa fiada e confidências. Duas solteiras, duas casadas, todas se debatem com as dúvidas do coração: relacionamentos que as fazem infelizes, homens que após grandes declarações e presentes preciosos desaparecem ou entram no modo chinelo e pensam que o maior desejo de qualquer mulher é um robot de cozinha.
Naquela noite, há um aniversário para comemorar. Mas há também uma confissão inesperada: Andreina está à espera de bebé.
Com um novo ano em perspetiva, e enquanto procura um pouco de paz na bela Villa Sans-souci de Paraggi, que herdou da avó materna, Maria Sole relembra o grande engano que foi o seu casamento e questiona-se sobre como foi possível não notar que o marido não era o que parecia, mesmo conhecendo-o desde a infância.
Refazendo as memórias contidas nos quartos da vila, a jovem percebe que a sua família sempre viveu envolta em secretismos, para não sujar a imagem de respeitabilidade. Felizmente, tem as amigas a seu lado, prontas para se apoiarem nos momentos difíceis.

Cada uma das quatro enfrenta o ano novo com um novo desafio e a sua força será o vínculo que as une como irmãs. Como uma família sincera.
Uma história de recomeços e afetos a manter como tesouros preciosos.

Dias de outono

A minha opinião:
Simplídade de escrita numa estória que nos parece próxima, como se o Miguel fosse mais um amigo que se questiona sobre o que fazer com a sua vida. Muito bom o que li e vi, com as belas fotos que marcam o início de cada capítulo.

De quando em quando, sempre que um livro me chama, faço uma incursão por autores portugueses e o gosto de encontrar a alma lusa nos usos e costumes e até nos cantos descritos ou nos aromas e paladares que não nos saem da memória, é um conforto bem vindo.Certamente, este romance foi feito com imenso carinho porque é raro encontrar uma personagem masculina tão conectada com os seus sentimentos e emoções que nos passa noções claras do que é primordial. O outono é uma estação de grande beleza, tal como este romance.

Sem ser uma narrativa virtuosa é tocante ao abordar vários temas mundanos e nada fáceis. Mas para saber mais é preciso ler este romance. Eu, adorei. E, se possível, irei repetir com os livros de José Rodrigues.

Autor: José Rodrigues
Páginas: 304
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03339-0
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 

«O sentimento de felicidade pode dar medo. Medo de que, de repente, tudo se desmorone. Que o coração gele, depois de aquecer. Que a pele esfrie, depois de recolher os melhores pedaços do Sol.»

Os dias de Miguel são divididos entre a intensa atividade profissional e o apoio a Teresa, a sua tia, institucionalizada com uma doença irreversível. Na família encontra o conforto dos seus dias agitados, com Catarina e os filhos André e Tiago.
As alterações recentes na administração do banco onde trabalha, a degradação do casamento e os problemas vividos pelo filho adolescente levam Miguel a questionar as opções de vida. Ao mesmo tempo, retoma as memórias mais antigas, incluindo a sua vila no interior e a casa onde nasceu e viveu, criado por Teresa, num ambiente de permanente felicidade.
Quando o mundo de Miguel parece desabar, passado e presente unem-se numa longa jornada de salvação e de mudança de prioridades, onde o amor se transforma no principal caminho para a reconstrução da felicidade, mesmo quando a perda e a saudade pareciam não querer dar tréguas…

domingo, 11 de outubro de 2020

A Terceira Índia

A minha opinião:
Não me seduziu de imediato mas ao ler alguns comentários lisonjeadores fiquei intrigada, inclusive com o título que associei e bem ao aspecto da protagonista. A premissa agradou-me com um tema que a autora certamente saberia explorar bem como a infertilidade.


O explanar do namoro e casamento da menina bonita freak e o beto católico de olhos verdes fulgurantes em mais de cem páginas, ainda que a escrita seja ótima, levou-me a questionar o público-alvo, dada a maturidade das personagens. O que me divertiu muito em toda a trama foram as fúrias e a relação com a amiga Joana.


Retomando, na segunda parte, Sofia saiu da sua zona de conforto e viajou para Moçambique onde encontra um companheiro de viagem bruto e grande como um urso e como os opostos se atraem há uma dinâmica de picardia e envolvimento que dura outras muitas cento e tal páginas com referências ao povo, modo de vida e cultura dos moçambicanos. As mulheres e as crianças como o elo mais fraco de uma cadeia numa aventura perigosa numa terceira parte.


Leitura leve, vivaça e bem disposta. Um romance de fácil leitura e muito cativante. Os dois relacionamentos da protagonista são o foco com muitos diálogos, em que as opiniões das leitoras podem dividir-se para o melhor companheiro para Sofia.


Conhecer e conversar com a autora foi muito bom e compreendi melhor tudo o que envolvia este romance. Obrigada Iris. Foi um prazer.



Autor: Iris Bravo
Páginas: 484
Editora: Cultura
ISBN: 9789898979551
Edição: 2020/ julho

Sinopse: 
Sofia tem 32 anos, é professora num colégio em Lisboa e casada com um arquiteto de uma família nobre ribatejana. Ele conservador e ela liberal, não tinham nada em comum quando se apaixonaram numas férias de verão dez anos antes. Viveram um namoro feliz seguido de um casamento de sonho, desgastado pela sua obsessão por uma gravidez.

Quando descobre que foi traída, Sofia aceita uma proposta para substituir a sua mentora e viaja para o interior de Moçambique.
Disposta a viver aventuras, envolve-se com Alex, um homem que a atrai, apesar dos seus modos secos e do pressentimento de que lhe esconde algo.

Corajosa e determinada, Sofia irá descobrir tudo aquilo de que é capaz, incluindo arriscar a sua vida.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Um castelo em Ipanema

A minha opinião:

MA-RA-VI-LHO-SO!

Como um mergulho em uma praia deserta terminou na construção de um castelo em Ipanema… Uma experiência inolvidável de leitura desde as primeiras páginas. Leveza e ligeireza numa narrativa colorida como um quadro em movimento.

A história de Ipanema até à década de oitenta com amores irrealizados e tragédias pessoais numa linguagem cantada que merece ser lida em voz alta. Histórias de gente que viveu ali muito tempo e há tanto tempo. "Brigas, conciliações, choramingos, chamegos, petulâncias, elucubrações, modinhas, surpresas, desilusões, mentiras, gargalhadas, apostas, temores, desconfianças, tentações, sonhos e promessas, planos e devaneios." (pág. 159) Não há como negar que está escrito em português do Brasil e é tão bom que esmaga todos os preconceitos. Um romance encantador que não se consegue parar de ler.
Tantas mudanças em Ipanema, no Rio, no Brasil. E na família Jansson em três gerações que acompanharam o avanço do seu mundo.

Autor: Martha Batalha 
Páginas: 288
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03381-9
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 
Rio de Janeiro, 1968.
Estela, recém-casada, mancha com lágrimas e rímel a fronha bordada do seu travesseiro. Uma semana antes ela estava na festa de passagem de ano que marcaria de modo irremediável o seu casamento. Estela sabia decorar uma casa, receber convidados e preparar banquetes, mas não estava preparada para o que aconteceu nesse dia.

Setenta anos antes, Johan Edward Jansson conhece Brigitta também durante uma festa de passagem de ano, em Estocolmo. Casam-se, mudam-se para o Rio de Janeiro e constroem um castelo num lugar ermo e distante do centro, chamado Ipanema.

Em Um castelo em Ipanema, Martha Batalha conta-nos como essas duas festas de Ano Novo definem a trajetória dos Jansson ao longo de 110 anos. É uma saga familiar imersa em história, construída com humor, ironia e sensibilidade. A riqueza e a complexidade dos múltiplos personagens criados pela autora permitem tratar de temas que se entrelaçam e definiram a sociedade brasileira nas últimas décadas, como o sonho da ascensão social, os ideais femininos e feministas, a revolução sexual, a reação ao golpe militar, a divisão de classes, a deterioração do país.

Um romance comovente sobre escolhas e arrependimentos, sobre a matéria granular da memória e as mudanças impercetíveis e irremediáveis do tempo.

As três vidas

A minha opinião:

Não muito convencida peguei neste romance para o Clube À descoberta de João tordo. O anterior, referente ao mês de agosto, não me tinha enchido as medidas (ao contrário da maioria das pessoas que o leu). Acho que tinha expectativas elevadissímas e por consguinte para este romance eram baixíssimas. Decidi confirmar e para minha grande surpresa, a fluidez da narrativa cativou-me de imediato. Uma história mirabolante porque viver com um fascista é muito mais perigoso e sedutor do que um comunista, porque sabem à partida daquilo que são capazes.

Um grande enigma. A trama desenvolve-se num ambiente de grande mistério que vicia. O cenário na Quinta do Tempo em Santiago do Cacém nos anos oitenta e a ação que remonta a anos anteriores com a espionagem em tempo de guerra, numa narrativa em torno de Millhouse Pascal e o anónimo testemunho de quem expiar os seus pecados. As três vidas numa coreografia de desastre iminente.

Negros sentimentos envolvem as personagens que abraçam a culpa e a solidão. O autor, nos seus romances apresenta personagens marcadas ou sofridas com frequência e este romance não foi exceção. Contudo, o que me enredou foi o humanismo e o desfecho das personagens. Valeu.

Autor: João Tordo
Páginas: 480
Editora: Casa das Letras
ISBN: 9789896656126
Edição: 2020/ março

Sinopse: 
História de amor, saga familiar, mistério policial, retrato de um mundo que ameaça resvalar da corda bamba, Três Vidas é um dos mais importantes romances de João Tordo, tendo-lhe valido o Prémio Literário José Saramago.
António Augusto Milhouse Pascal vive longe do mundo, num velho casarão alentejano, com os três netos pouco dados a regras e um jardineiro taciturno. O isolamento é quebrado pelas visitas de clientes abastados que procuram ajuda do velho patriarca, em tempos um importante espião e contra-espião, testemunha activa das grandes guerras do século XX. O nosso narrador - um lisboeta de origens modestas - entra na história quando Milhouse Pascal o contrata como arquivista dos segredos que envolvem os seus clientes. Não poderia adivinhar o rapaz, ao aceitar o trabalho, que este acabaria por consumir a sua própria vida. A partir do momento em que se apaixona por Camila, neta do patrão com sonhos de ser funambulista, que desaparece após uma viagem a Nova Iorque, o destino do narrador enreda-se irreversivelmente nos mistérios da família, partindo a sua existência em três.

domingo, 27 de setembro de 2020

Oração a que faltam joelhos

 


A minha opinião:

Improvável este romance não me chamar a atenção com este título e esta capa belíssima. Mal conseguia esperar para o começar a ler!

Kate Souza não é uma protagonista qualquer que apela à compaixão. Um narrador, ora seco, ora abupto, que mistura conflitos claros e zonas cinzentas, estranhezas coerentes e assustadoras, numa narrativa que começa logo após a morte do pai por afogamento no rio Lima num regresso a Portugal depois de emigrados nos EUA onde enviuvara.

Consciência, medo, solidão e morte. Os temas recorrentes em muitos pensamentos desordenados que Kate catalisa na escrita. Conto da Realidade.  Cenas imprevisíveis do dia a dia também. O caos interior em pequenas metáforas do exterior em palavras que fazem eco em quem lê. Era uma vez uma história. 

Não foi uma leitura fácil. E não correspondeu às minhas expectativas. Bem escrito mas com uma estrutura circular e não linear para uma leutura do mundo. 

Autor: Jacinto Lucas Pires
Páginas: 168
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03330-7
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 
Órfã de mãe, desde cedo Kate Souza aprendeu a conviver com os silêncios do pai António e o espaço que estes ocupavam na ampla casa familiar, de madeira, com cerca e relvado à frente, igual a tantas outras, nessa terra das oportunidades para onde há muito os pais haviam emigrado. No entanto, quando António morre afogado no rio Lima, durantes as primeiras férias de Kate em Portugal, ela sente-se perdida, culpada e com uma história nas mãos. Uma história que é a sua vida. Talvez seja isso que – num mundo duro e doente, com cada vez menos capacidade de imaginação – faz dela escritora.
Identidade e culpa, amizade e amor, jornalismo e literatura, totalitarismo e loucura, terrorismo e religião cruzam-se na história desta mulher, num tempo e num mundo onde, à falta de outro milagre, as velhas linguagens parecem querer renascer.

A Dádiva da Costureira de Paris

A minha opinião:
Uma fotografia antiga. Um fragmento da familia por parte da mãe. Uma ténue ligação para o pouco que sobrara, ajudou Harriet a moldar os seus sonhos para o mundo da moda. Três jovens elegantes numa esquina em Paris há mais de quarenta anos pareciam chamá-la para ir ao encontro do passado. Fios de vida que se entrelaçam inexplicávelmente. 

A história recua até 1940 com Claire e a par vai contando também a história de Harriet em 2017. O domínio dos alemães e o estigma dos ataques terrorristas. Fascinante. Duas mulheres com mais em comum do que os laços de sangue como avó e neta.

Gosto muito da escrita despretensiosa e concisa da autora, bem como dos enredos de época que enlevam e ensinam. Sem moralismo retratam pessoas comuns com todas as suas dificuldades e sonhos. Neste romance, a determinação obstinada e a coragem de três mulheres , heroínas da vida quotidiana em tempo de guerra. O paradoxo do amor em tempos extraordinários numa história emocionante. Mais um romance de Fiona Valpy que ganhei em não perder.

Autor: Fiona Valpy
Páginas: 320
Editora: TopSeller
ISBN: 9789895641192
Edição: 2020/ setembro

Sinopse: 
Uma inesquecível história de amizade e coragem que atravessa gerações e une o destino de três mulheres audazes.

Harriet chega a Paris com pouco mais do que os seus sonhos e uma fotografia antiga. O destino leva-a à Rue Cardinale, ao mesmo prédio onde a sua avó Claire vivera e trabalhara décadas antes. Ansiosa por saber mais sobre o seu passado, Harriet procura pistas sobre a vida da avó, mas o que descobre é uma história muito mais negra e dolorosa do que alguma vez imaginara.

Em 1940, três costureiras tentam sobreviver numa Paris ocupada pelos nazis, uma cidade onde tudo parece faltar. Enquanto Claire se envolve com um oficial do Exército Alemão, Mireille ajuda a Resistência, participando em missões cada vez mais arriscadas, e a enigmática Vivienne desempenha um papel que não pode revelar às suas companheiras.

À medida que se enredam mais profundamente em atividades clandestinas, o cerco aperta-se em torno destas três mulheres, e os segredos que guardam ameaçam não só a amizade que as une como também as suas vidas. As escolhas difíceis que são obrigadas a fazer acabarão por determinar o seu futuro e o das gerações vindouras.

domingo, 20 de setembro de 2020

Apneia

 

A minha opinião:

Tinha que ler este romance que sabia ser marcante. Perturbador. Angustiante até, em determinadas passagens por breves frases e capítulos curtos, que tudo fazem sentir com muito sentido. Nada que não soubesse sobre as várias nuances de uma relação abusiva em que o filho é apenas um joguete usado pelo pai contra a mãe que o ama e quer proteger. A mulher que ousou abandoná-lo quando lhe pertencia. A mulher que luta para manter a integridade e a sanidade e perservar o amor que a liga ao filho. 

Avassalador e tão real. Soberbamente bem escrito mas isso eu já sabia. Simples e bela escrita mas para conseguir lidar com a amálgama de emoções que me suscitou tive que o ler em doses homeopáticas numa leitura conjunta com algumas amigas.

Muitas questões para refletir e quase todas muito difíceis e delicadas. A guarda partilhada, sucinta e concisa, na página 350 é uma delas. E ainda... A identidade e a proteção de menores nos tribunais. O fracasso do sistema em dar uma solução ao sofrimento de uma criança caindo nas malhas da manipulação. Os erros e a indiferença. O desespero e o cansanço. Egos e fragilidades. E a depressão não aceite. Um falhanço apenas para os fracos e os burgueses. E por fim, o mal na forma de todos os abusos.

Ao concluir senti um alivio e um desalento enorme. O desfecho foi perfeito. A arte de sobreviver mas a que custo. Um romance de intervenção. Um grito. Uma pedrada no charco. Um romance extraordinário.

Autor: Tânia Ganho
Páginas: 696
Editora: Casa das Letras
ISBN: 9789896608101
Edição: 2020/ julho

Sinopse: 
Quando Adriana ganha finalmente coragem para sair de casa com o filho de cinco anos, pondo fim ao casamento com Alessandro, mal pode imaginar que o marido, incapaz de aceitar o divórcio, tudo fará para a destruir - nem que para isso tenha de destruir o próprio filho.

Apneia é uma viagem ao mundo sórdido da violência conjugal e parental, através de um labirinto negro em que os limites da resistência psicológica são postos à prova, ameaçando desabar a qualquer instante, e dos meandros tortuosos de uma Justiça por vezes incompreensível, desumana e desfasada da realidade.

Escrito com uma sobriedade e frieza inquietantes, Apneia é um romance intenso, absorvente e perturbador, que ilustra com uma autenticidade desarmante o estado de guerra em que vivem milhares de famílias estilhaçadas, e com o qual, inevitavelmente, muitos leitores se vão identificar, encontrando nestas páginas ecos da sua própria experiência.

O teu nome é uma promessa

 

A minha opinião:

Deborah Smith. O teu nome é uma promessa desde que li A Doçura da Chuva. Não desilude. Romances ternos com personagens valentes e estóicas, oriundas de familias desavindas ou generosas, que se bateram pelo que queriam ou mereciam desde crianças. Não são romances cor de rosa porque tem tonalidades escuras que ensombram, mas no fim temos um fantástico colorido como o do pôr do sol que tanto nos emociona. 

Um romance bem escrito com alguma adrenalina por conta das contrariedades e tragédias que os honrados protagonistas enfrentam é um livro extenso com uma boa caracterização no cenário Salgueiro Azul que torna esta história muito visual.

Os Colebrooks e os Mackenzies deveriam ser unidos mas a lealdade e a família os separou e foram precisas mais de quinhentas páginas para desatar todos os nós que os impediam. Um romance que remonta os grandes clássicos. Nada lamechas ou banal é um romance que prende enquanto seguimos o evoluir das personagens e o desvendar de alguns segredos negros. O fim é expectável mas não diminui em nada o entusiasmo de o descobrir. 

Autor: Deborah Smith
Páginas: 524
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03331-4
Edição: 2020/ junho

Sinopse: 
Sempre existiram MacKenzies e Colebrooks na propriedade do Salgueiro Azul, as suas histórias entrelaçadas como os galhos graciosos dos salgueiros raros que ali crescem. Porém, Artemas Colebrook e Lily MacKenzie partilham mais do que história: as suas almas ligaram-se uma à outra e àquela terra no dia em que, aos sete anos, ele segurou a minúscula Lily, minutos após o seu nascimento. Mas a tragédia que, mais tarde, a traz de volta à pequena fazenda onde passou a infância também transforma os irmãos de Artemas em seus eternos inimigos.


Divididos entre a lealdade às respetivas famílias e o amor que foi crescendo entres eles, Artemas e Lily terão de aprender a aceitar que a devoção que nutrem um pelo outro desde crianças se transformou em desejo, e que não mais poderão negar um sentimento capaz de destruir tudo aquilo por que lutaram na vida.