terça-feira, 21 de maio de 2019

A Única História

A minha opinião:
Julian Barnes continua igual a si próprio, com uma trama de uma simplicidade desarmante que se revela de uma complexidade estonteante. Sentimentos e emoções que vemos à lupa guiados pela memória de Paul. Divertido, de início, questiona que palavra usaríamos para descrever uma relação entre um rapaz de dezanove anos e uma mulher de quarenta e oito. E conta a sua história. A única que interessa. 

A narrativa analítica abrange relacionamentos e sentimentos, muitas vezes tristes, descodificando, uma relação desigual como esta. Afinal... andamos todos à procura de um lugar seguro. E se não o encontrarmos, então temos de aprender a passar o tempo. 

Contrariamente ao que seria de se esperar, não se trata de uma paixão avassaladora que derruba barreiras. Um amor envergonhado, em que as restantes personagens como o marido e as filhas de Susan, a amiga Joan ou os amigos e pais de Paul não têm relevo. Personagens sem brilho ou alegria.

Os romances de Julian Barnes são para ler devagar. A fleuma inglesa no seu melhor.

Autor: Julian Barnes
Edição: 2019/ abril
Páginas: 256
ISBN: 9789897224690
Editora: Quetzal

Sinopse:
«Preferiam amar mais e sofrer mais; ou amar menos e sofrer menos?» É com este convite à reflexão - um enunciado falso, já que não temos escolha, pois não se controla o quanto se ama - que Barnes inicia o seu mais recente romance.

À guisa de preâmbulo, o narrador faz-nos notar que, embora todos tenhamos imensas histórias, inúmeros acontecimentos e ocorrências que transformamos em histórias, cada um de nós tem apenas uma, aquela história - a que contamos mais vezes, nomeadamente a nós mesmos. E a primeira questão que se levanta é se o facto de a contarmos e recontarmos nos aproxima da verdade.

A história do narrador deste livro é a da relação amorosa que se inicia entre ele, um jovem de dezanove anos e a senhora Macleod, uma mulher casada de quarenta e muitos, durante um jogo de ténis.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Em Queda Livre

A minha opinião:
Li sobre uma mulher à beira de um ataque de nervos, se não tomasse algo que a ajudasse a relaxar.  Uma vida aparentemente perfeita que saiu dos eixos com a maternidade, a mudança para os subúrbios e o abdicar da carreira. As pressões sociais, as exigências da filha sensível e caprichosa, o distanciamento do marido focado no seu umbigo e o sucesso como blogger levou-a ao limite.
A doença de Alzeihmer do pai agravou o quadro do ponto de vista da protagonista/ narradora em negação. 

Nada de novo na vida de uma mulher que faz coisas demais e se esforça por gerir tudo sem dar parte de fraca. A alternativa é que talvez não seja tão banal. Comprimidos para as dores (de um acidente anterior) que passaram a analgésicos para as dores da vida. Nada disto combina com a capa fofinha deste livro, se não repararmos nos comprimidos rosa choque no pires da chávena.

Como leitora, não gostei muito de nenhuma das personagens, em que reconheço qualidades e defeitos, o que me agarrou à narrativa. No final, esperava mais. A revelação que tardou, não me conquistou e ficou uma sensação agridoce. Compreendi a mensagem e atribuo autenticidade à trama mas achei fastidiosa. 

Autor: Jennifer Weiner
Edição: 2019/ abril
Páginas: 360
ISBN: 9789722535274
Editora: Bertrand

Sinopse:
Allison Weiss é a típica mãe trabalhadora que tenta conciliar um negócio, pais idosos, uma filha exigente e um casamento. Mas quando o website por ela desenvolvido se torna um enorme sucesso, fica completamente esmagada. Enquanto se esforça por manter a vida equilibrada e satisfazer as necessidades dos que a rodeiam, Allison descobre que os analgésicos receitados para uma lesão nas costas a ajudam a lidar com algo mais do que apenas o desconforto físico - fazem com que se sinta calma e capaz de ultrapassar os seus dias cada vez mais agitados.

À medida que as semanas passam os analgésicos vão desaparecendo a uma velocidade cada vez maior e naturalmente, a sua preocupação aumenta. Em pouco tempo vê-se num mundo que nunca imaginara possível: a reabilitação. No longo caminho que Allison se vê obrigada a percorrer, as lições de vida vão-se suceder.

Numa história rica e absorvente, sempre marcada por um toque de humor e caracterizações realistas e carinhosas, Jennifer Weiner acompanha-nos num percurso emocionante de recuperação e redenção.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Maré Alta

A minha opinião:
Gosto de ser surpreendida por um bom livro. Ocasionalmente acontece, quando o livro não é tão divulgado quanto devia, principalmente, quando se trata de novos autores portugueses não consagrados.

Li agora o segundo dos três romances que Pedro Vieira já publicou. O primeiro não li. A ânsia de ler este romance surgiu na sequência de uma entrevista ao autor numa livraria bem conhecida. O avô materno de quem nem o nome sabe foi o mote para um romance que me fisgou logo nas primeiras páginas, pela linguagem brejeira, pejada de expressões populares que, uso e abuso e pelas personagens de ficção que me provocaram comoção e apreço.  E foi uma leitura compulsiva, em suspense, por aquelas vidas difíceis e árduas que povoaram um passado recente. Vidas incompreendidas. Vidas comuns. 

Retrato de um homem, de um família, de um povo.  Portugal do sec. XX. Um romance bestial de homens e mulheres valentes. Bem pensado e bem concebido. Uma epopeia que marca. Não vou perder nenhum outro romance do Pedro.

Autor: Pedro Vieira
Edição: 2019/ fevereiro
Páginas: 472
ISBN: 9789896657314
Editora: Companhia das Letras

Sinopse:
Cabe quase tudo num século de vida de um povo. Naufrágios e glórias, luz e trevas, gente levantada e de joelhos. E, durante todos esses anos, a maré sobe e desce. Há um país que se vai transformando, mesmo visto de longe. Há homens em fuga para a frente, que trocam de nome e de moral. Há mulheres de dentes cerrados. Há filhos deixados para trás. Meadas de histórias e de sangues às quais se perdeu o fio.

Num romance sem heróis, onde todos lutam, sobrevivem e morrem a tentar ser livres, é possível, embora vão, tentar destrinçar, no meio do medo e da culpa, onde acaba a ficção e começa a realidade. E se, por vezes, a intimidade da escrita nos aproxima de acontecimentos distantes, noutros, é a frieza da narrativa que resguarda momentos de grande profundidade. Cortesia de um dos romancistas mais promissores da literatura portuguesa contemporânea, Maré alta é um retrato cru e épico do Portugal do século XX e de quem o viveu, no limiar onde a esperança, o sonho e a memória se confundem e perdem na sucessão de marés.

Um século é muito tempo. Um século não é nada, quando aprendemos a nadar.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Um Ano em Veneza

A minha opinião:
Nicky Pellegrino. Um gosto perdido, agora recuperado. Um romance que apela aos sentidos. Páginas de cor e aventura. Exactamente o que me apetecia ler.

O problema é que seja qual for o livro de Nicky, a comida é a espinha dorsal da história e fico a salivar ansiosa por viajar.

A Kat está numa das cidades mais românticas do mundo, tem cinquenta anos e precisa desesperadamente de uma paixão. Duas mulheres mais velhas e um homen mais novo vão ajudá-la nesse propósito. 

A empatia pela personagem e a admiração por Coco, uma idosa cheia de genica, facilitou a leitura que se fez breve. O destaque vai para Veneza e não posso deixar de comparar com Lisboa devido ao mau estar que certos turistas geram. De resto, é um romance tranquilo e prevísivel que me dispôs bem e se não superou as minhas expectativas, também não as defraudou. Uma espécie de limpa palato, como é referido, para leituras mais exigentes ou pesadas. 

Autor: Nicky Pellegrino
Edição: 2019/ abril
Páginas: 336
ISBN: 9789892344751
Editora: ASA

Sinopse:
Kat é uma aventureira de alma e coração. De tal modo que ganha a vida a viajar para os lugares mais recônditos, a experimentar as iguarias mais exóticas e a escrever sobre as suas experiências. E agora está prestes a embarcar na aventura mais louca de sempre: um relacionamento amoroso.

Perdidamente apaixonada, ela está disposta a ultrapassar todas as barreiras. Massimo é italiano e Kat não tem meias medidas: vai viver com ele para Veneza, ajudá-lo a gerir a sua guesthouse, o Hotel Gondola, explorar a cidade e documentar as suas vivências. Tudo é uma novidade repleta de encanto… os aromas, os sabores, as cores vibrantes dos canais, as pessoas com quem se cruza, e até o homem que a fez querer assentar.

Mas Kat já devia saber que o grande problema das aventuras é que nunca correm da forma que esperamos…

Romântico e delicioso, o novo livro de Nicky Pellegrino transporta-nos para as ruas e os canais de La Serenissima, onde não faltarão - é claro! - os mais ricos e saborosos petiscos venezianos.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

As Regras da Cortesia

A minha opinião:
Não podia ter começado o mês de modo mais auspicioso do que ao ler este livro.
Muitos são os que me recomendaram o livro "Um Gentleman em Moscovo", pousado há algum tempo na minha mesa de cabeceira, mas apesar disso comecei com "As Regras da Cortesia", o livro antecessor do autor. A sinopse deste belo livro de capa grossa agradou-me com a promessa de um romance no feminino. 

A escrita elegante e fluída cativou-me de imediato, enquanto a narrativa sem excessos descritivos sagaz no relato da conduta humana apresenta desde o princípio um soberbo retrato de época, que me prendeu a atenção como poucos romances o conseguem.

Katey Kontent é pragmática e deliciosamente irónica. Gosta de ler e faz algumas referências a livros e aos seus autores.

Em 1966 numa exposição de retratos dos anos 30, Katey reconhece um dos rostos e história recua no tempo até ao início de 1938 quando ela e Eve disputam Tinker. Banal, não fosse a linguagem, as reviravoltas e as personagens invulgares que  percebem a rapidez com que Nova Iorque muda de direção: como um catavento ... ou a cabeça de uma cobra. O tempo encarrega-se de mostrar qual dos dois. 

As Regras da Cortesia é um manual de conduta de George Washington que se pode ler na integra no fim do livro. Imperdível!


Autor: Amor Towles
Tradução: Tânia Ganho
Edição: 2019/ março
Páginas: 408
ISBN: 9789722066693
Editora: Dom Quixote

Sinopse;
A última noite de 1937, Katey desliza deslumbrante por entre nuvens de fumo num clube de jazz em Greenwich Village. Tem três dólares na carteira e está empenhada em fazê-los render até ao amanhecer. Não será preciso. Porque na mesa ao lado senta-se Tinker, um jovem banqueiro, aconchegado num extraordinário sobretudo de caxemira. E aquele encontro, naquela noite, define a vida de Katey. A remediada filha de emigrantes russos, que sobrevive a custo em Brooklyn, dirá ali adeus ao passado; e dará início a uma imparável escalada social.

As Regras da Cortesia é uma nostálgica revisitação da eufórica Nova Iorque dos anos 30 - uma cidade a recuperar da grande depressão com banhos de champanhe, festas e cocktails. Narrada em flashback por uma protagonista que recorda, décadas mais tarde, aquele amor da juventude.

Primeira obra de Amor Towles (escreveria a seguir Um Gentleman em Moscovo), revela um autor nascido já em plena maturidade estilística. Encontramos aqui a mesma escrita rendilhada e elegante - e a mesma ternura na evocação de uma época de ouro, e de uma cidade e de uma mulher que se reinventam num tempo de promessas.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

O Fim da Solidão

A minha opinião:
Não é segredo. Este romance que Benedict Wells teve que escrever em sete anos tem muito de autobiográfico. 

Extraordinário romance em que uma infância difícil  é como um inimigo invisível que nunca se sabe quando os pode atingir.

Jules é o narrador e o mais novo de três irmãos, órfãos, quando os pais morreram num acidente de viação. O amor que os unia prevaleceu, apesar do distanciamento em que cada um reagiu à sua maneira enquanto estiveram num internato. Solitário e taciturno Jules tinha uma amiga especial, também ela despedaçada - Alva. Juntos e também separados vão construir um futuro.

Um romance terno que me tocou do princípio ao fim e foi impossível parar de ler. Vários fragmentos desta história não devo conseguir esquecer. E não são muitos os que isso acontece. 

Benedict Well limitou-se a escrever sobre a vida como ela é, sem exageros ou lamentos e  apenas delineou personagens com profundidade, que me deixaram a suspirar por mais. Alva e Jules são inesquecíveis. 

Seguramente um dos melhores romances que já li. Este livro é bonito por fora e por dentro.


Autor: Benedict Wells
Edição: 2019/ março
Páginas: 312
ISBN: 9789892344393
Editora: Edições Asa

Sinopse:
Jules Moreau tem onze anos quando os pais morrem num acidente de carro. Nessa noite, a sua infância termina. Segue-se a ida para um colégio interno, juntamente com os dois irmãos mais velhos. Pouco a pouco, os laços que os unem quebram-se. Jules isola-se, alimentando-se das suas memórias; Marty refugia-se ferozmente nos estudos; e Liz procura todas as formas de evasão possíveis para preencher o vazio.

O único consolo do protagonista advém dos momentos que passa na companhia de uma menina ruiva chamada Alva. As duas crianças lêem, ouvem música, partilham o silêncio das tardes no colégio. E nunca falam sobre si mesmas.

Quinze anos mais tarde, os irmãos afastaram-se irremediavelmente uns dos outros. Jules, que continua a reviver o passado interrompido, apenas encontra alento no sonho de se tornar escritor e na ânsia de reencontrar Alva. E quando, por uma vez, tudo parece subitamente possível, uma força invisível - talvez o destino - volta a intervir.

O fim da história de Jules está ainda por acontecer..

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O mundo à beira de um ataque de nervos




A minha opinião:
Li o "Razóes para Viver" e fui agradávelmente surpreendida pela franqueza e honestidade do autor e quis repetir. 

No dia a dia não paramos para pensar. Matt Haig pensa e pensa muito. Tem tudo a ver com a sua saúde mental e consequentemente com a saúde física perceber o que lhe faz mal e superar ou evitar. Este livro é sobre a luta dele que é também a luta de todos nós. A nossa vida tornou-se dependente da tecnologia que evolui a grande velocidade e temos que rever e temos que rever a forma como a usamos. E com esta sociedade de consumo funciona. Não é ficção. O alarme já soou e sabemos disso pela ansiedade e solidão que grassa por aí.

Leitor convicto regista muitas notas pertinentes de outros pensadores num pequeno livro concebido para formar e consultar.

Uma leitura poderosa e realista que, nos faz dar mais valor à vida, sem medos e um outro conceito de tempo. Logo, uma leitura compulsiva. 
A linguagem acessível e a escrita organizada levou-me na corrente de ideias assertivas de Matt Haig, baseada na sua experiência pessoal. Exactamente como eu esperava. Muito bom.

Autor: Matt Haig
Edição: 2019/ abril
Páginas: 376
ISBN: 978-972-0-03174-7
Editora: Porto Editora

Sinopse:
E se o modo como vivemos estivesse programado para nos deixar infelizes? Toda a sociedade de consumo assenta na ideia de nos criar o desejo de ter o último modelo, em vez de nos contentarmos com o que temos; somos encorajados a sairmos de nós e a querermos outras vidas: uma receita quase infalível para a infelicidade.

Os índices de stresse e ansiedade estão a subir. Estamos cada vez mais ligados uns aos outros e, no entanto, cada vez mais isolados.

•Como manter o equilíbrio num planeta que nos enlouquece?
•Como preservar a humanidade numa era tão obsessivamente tecnológica?
•Como ser feliz quando somos incentivados a cultivar a ansiedade?

O mundo à beira de um ataque de nervos oferece uma visão pessoal e importante que procura compreender de que forma nos podemos sentir felizes, humanos e íntegros em pleno século XXI.

sábado, 20 de abril de 2019

A Outra Mulher



A minha opinião:
Gabriel Allon. O meu espião favorito. Um artista. Atualmente chefe dos serviços secretos israelitas.

Uma deserção em Viena de um importante agente russo acaba na morte deste. Aos olhos do mundo foi uma execução feita por Gabriel Allon. Na perspectiva dele houve uma fuga.

E foi o início de uma complexa trama, com alguma crítica social e política bem dissimulada, para travarem o Sasha e as "suas medidas ativas" de enfraquecimento do Ocidente. Mais um empolgante e vertiginoso romance de espionagem, de curtos diálogos e muita acção. Entretenimento inteligente.

A Outra Mulher era a filha da traição. 
Vale a pena descobrir e não se esqueçam de ler as notas do autor.



Autor: Daniel Silva
Edição: 2019/ março
Páginas: 464
ISBN: 9788491392903
Editora: HARPER COLLINS
Sinopse:
Num lugarejo isolado da Andaluzia vive uma misteriosa mulher de nacionalidade francesa que começou a escrever umas memórias mais do que perigosas.

É a história de um homem que em tempos amou em Beirute, e de um filho que lhe foi arrebatado em nome da traição. A mulher é a guardiã do segredo mais bem guardado pelo Kremlin: há décadas o KGB infiltrou um agente duplo em pleno coração do ocidente, um traidor que hoje se encontra à beira do poder absoluto. Só uma pessoa é capaz de pôr esta conspiração a nu: Gabriel Allon, o já lendário restaurador de arte e assassino que na atualidade exerce o cargo de diretor dos eficacíssimos serviços secretos israelitas.

Já anteriormente Gabriel se vira obrigado a combater as sombrias forças da nova Rússia, com repercussões pessoais custosas. Desta feita, ele e os russos travarão um confronto final épico em que o destino do mundo que conhecemos está em causa. Gabriel vê-se empurrado para o meio da conspiração quando o seu ativo mais importante no seio dos serviços secretos russos é assassinado enquanto tentava desertar em Viena.

A procura da verdade levá-lo-á a recuar no tempo, até à maior traição do século xx para terminar nas margens do Potomac em Washington. A mil por hora, estranhamente belo e cheio de sentidos duplos e reviravoltas na ação, este livro é um verdadeiro golpe de mestre que demonstra mais uma vez que Daniel Silva é pura e simplesmente o melhor escritor de romances de espionagem dos nossos tempos.

domingo, 14 de abril de 2019

História de uma Família Decente

A minha opinião:
- Mas porque é que vocês me obrigam a fazer destas coisas?

A habitual pergunta que o pai de Maria "Malacarne" repetia à família antes de perder a paciência ou imediatamente a seguir a ter desatado à pancada à direita e à esquerda. Cliché, em situações de violência doméstica. Terrivelmente banal e intemporal. Uma família imperfeita e genuína.

A história de vida de uma mulher italiana. Começa nos anos 80. Maria tinha nove anos e observava a dureza e fealdade do bairro em que vivia. A amizade em segredo entre ela e outra criança, Michele, invisíveis aos olhos dos outros, preservava-os da sordidez do meio. 
Maria era inteligente e pode continuar a estudar. Sagaz, cedo desenvolveu um sexto sentido na compreensão das pessoas.

Narradora inata. Rosa Ventrella é brilhante. Nada entediante. Descrições que ganham vida aos olhos do leitor, mas em que não encontro paralelo especial com os livros de Elena Ferrante. O título e a capa explicam o cerne desta história. Malacarne e a sua família decente. Um romance cinematográfico, de que fiquei completamente viciada e li sofregamente.
Muito bom. Para quem gosta de avaliações, a nota máxima. 

Autor: Rosa Ventrella
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Edição: 2019/ março
Páginas: 320
ISBN: 9789722066716
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Sul de Itália, anos 80. Os verões em Bari velha são passados entre os becos de lajes brancas, onde as crianças se perseguem pelas curvas de um labirinto de ruelas, no meio dos aromas dos lençóis estendidos em arames e dos molhos saborosos.

Maria, de doze anos, cresce aqui com os dois irmãos mais velhos. É uma menina pequena e morena, com feições selvagens que a tornam diferente das outras crianças - uma boca grande e dois olhos quase orientais que brilham como pequenos buracos - e uma certa maneira de ser hostil e insolente que lhe valeu a alcunha Malacarne.

Vive numa terra sem tempo, num bairro onde os abusos são sofridos e infligidos, e de onde é muito difícil escapar. No entanto, Marì não está disposta a submeter-se a normas que não respeita. O seu único apoio é Michele, o filho mais novo do clã Senzasagne, a gente mais decadente de Bari velha.

Apesar da hostilidade entre as suas famílias, entre ambos surge uma amizade delicada, quase fraternal, que o tempo converte em amor.
Um amor que, embora impossível, os preserva do rancor do resto do mundo.

A Casa do Lago

A minha opinião:
A sinopse prometia e como tal, não hesitei comprei. Uma daquelas decisões de impulso, que costumam ser certeiras. Parecia ser um pequeno e encantador livro.

Em conjunto com a Cristina Delgado, Maria João Covas e Maria João decidimos ler este livro e as opiniões divergiram. 

O começo, para mim, não funcionou. Não me agarrou. Depois, também não. A escrita não cumpria. As personagens não tinham profundidade.
Faltava magia ou carisma, mesmo tratando-se de uma época de glamour como foram os famosos anos trinta nesta história contada alternadamente a dois tempos. O próximo remonta a 2010, uma vez que é inspirado num facto (a revelação de um belo apartamento em Paris que estivera fechado  durante 70 anos), mas o passado parecia-me mais interessante até metade do livro, quando a aura de mistério se adensa e surge uma personagem na vida de Anna que muito me agrada - Will, o advogado de sucesso que tem a chave do antigo palácio da familia, Schloss Sieger. O elo de ligação onde tudo começou.
Apesar disso, a narrativa não fluía a bom ritmo como eu pretendia e a leitura apressada visava apenas terminar a leitura o quanto antes. Anna e o avô eram muito formais/ frios na sua relação e nem quando o avô foi hospitalizado e Anna recuperou o que viera buscar voou para junto dele (outros dados não faziam sentido). 
A morte de Max mudou um pouco o desenvolvimento da história e as revelações foram surgindo. Ganhou alguma intensidade e emoção. 

No final, ficou uma sensação agridoce, de dever cumprido, sem glória ou brilho. Não gostei. Gosto de uma história que me deixe plena e a remoer nos acontecimentos depois de terminar. 

Autor: Ella Carey
Edição: 2019/ março
Páginas: 240
ISBN: 9789897103315
Editora: Chá das Cinco

Sinopse:
Anna Young está satisfeita com a sua vida bem-sucedida em São Francisco. Mas o seu mundo é virado do avesso quando o seu avô, Max Albrecht, revela um segredo surpreendente: Anna é a herdeira de uma família aristocrática que perdeu tudo durante a Segunda Guerra Mundial. Há mais de setenta anos, Max foi forçado a deixar para trás a sua vida e um precioso objeto na sua propriedade na antiga Prússia. E agora quer que Anna o recupere.

Anna acede ao pedido do avô e viaja para a Alemanha, impaciente por obter respostas: O que poderá ser assim tão importante para o seu avô? E por que razão ocultou a sua história? A busca leva-a a Wil, um homem que pode deter a chave para desvendar o mistério. Juntos descobrem que os segredos da família estão ligados a um apartamento abandonado em Paris… e que esses segredos têm raízes mais profundas do que alguma vez imaginaram.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

A Grande Solidão

A minha opinião:
Desafiaram-me a ler Kristin Hannah, de quem tenho há muito alguns livros por ler.

Começamos com A Grande Solidão (como chamaram ao Alasca) contado por Leni, uma míuda de treze anos. O pai assustava-a e a mãe que o amava demais mantinha a esperança. Ernt tinha combatido e sido feito prisioneiro na guerra do Vietname. 

A narrativa rica em detalhes sobre a paisagem de grande beleza agreste e inflexível do Alasca deslumbra e é neste cenário onde buscavam encontrar paz, que se sente uma inquietação crescente que angustia e vicia. 

Na segunda parte, Leni tem dezassete anos e a família está em melhores condições financeiras. A vida no Alasca, naquela pequena comunidade continua, com personagens de fibra que apetece conhecer. Novos desafios surgem e o velho obstáculo das mulheres Allbright regressa, apesar de ser expectável que desapareça, o que me renovou o entusiasmo.

Por fim, avança mais alguns anos. As mulheres encontram um porto seguro, mas a vida não pára e novo revês impõe o regresso a onde pertencem. Muita adrenalina nesta inspirada história. 

Um romance épico de amor, dor, perda e redenção... que eu não planeava ler. Projecto Kristin Hannah. Brutal!

Autor: Kristin Hannah
Edição: 2019/ janeiro
Páginas: 456
ISBN: 9789722535991
Editora: Bertrand

Sinopse:
1974, Alasca. Indómito. Imprevisível. E para uma família em crise, a prova definitiva. Ernt Allbright regressa da Guerra do Vietname transformado num homem diferente e vulnerável. Incapaz de manter um emprego, toma uma decisão impulsiva: toda a família deverá encetar uma nova vida no selvagem Alasca, a última fronteira, onde viverão fora do sistema. Com apenas 13 anos, a filha Leni é apanhada na apaixonada e tumultuosa relação dos pais, mas tem esperança de que uma nova terra proporcione um futuro melhor à sua família. Está ansiosa por encontrar o seu lugar no mundo. A mãe, Cora, está disposta a tudo pelo homem que ama, mesmo que isso signifique segui-lo numa aventura no desconhecido. Inicialmente, o Alasca parece ser uma boa opção. Num recanto selvagem e remoto, encontram uma comunidade autónoma, constituída por homens fortes e mulheres ainda mais fortes. Os longos dias de verão e a generosidade dos habitantes locais compensam a inexperiência e os recursos cada vez mais limitados dos Allbright.

À medida que o inverno se aproxima e que a escuridão cai sobre o Alasca, o frágil estado mental de Ernt deteriora-se e a família começa a quebrar. Os perigos exteriores rapidamente se desvanecem quando comparados com as ameaças internas. Na sua pequena cabana, coberta de neve, Leni e a mãe aprendem uma verdade terrível: estão sozinhas. Na natureza, não há ninguém que as possa salvar, a não ser elas mesmas. Neste retrato inesquecível da fragilidade e da resiliência humana, Kristin Hannah revela o carácter indomável do moderno pioneiro americano e o espírito de um Alasca que se dissipa - um lugar de beleza e perigo incomparáveis. A Grande Solidão é uma história ousada e magnífica sobre o amor e a perda, a luta pela sobrevivência e a rudeza que existe tanto no homem como na natureza.