domingo, 20 de maio de 2018

Nem Um Som

Autor: Heather Gudenkauf
Edição: 2017/ julho
Páginas: 320
ISBN: 9789898869159
Tradutor: Rui Azeredo
Editora: TopSeller

Sinopse:

Para sobreviver ao perigo num mundo sem sons, todos os outros sentidos têm de estar em alerta máximo.
Após um trágico acidente, Amelia Winn perde a audição, entrando numa espiral de depressão que a leva a procurar conforto no álcool e a afastar-se de tudo o que de mais importante tem: o trabalho, o marido e, sobretudo, a enteada, que tanto ama.

Agora, passados dois anos, e com a ajuda do seu cão de assistência, Stitch, Amelia decide retomar a sua vida. Mas, quando o corpo de uma enfermeira sua amiga surge a flutuar num rio perto de casa, Amelia mergulha num mistério perturbador que ameaça destruir tudo outra vez.

À medida que as pistas começam a aparecer, o perigo volta a rondar a vida de Amelia. Quanto estará ela disposta a arriscar para trazer a verdade à superfície?

A minha opinião:
Confesso que quando a Cristina me falou deste thriller não me chamou a atenção. Tento perceber porquê, o que para meu grande embaraço e vergonha, deve estar relacionado com o facto de a protagonista, que dá título ao livro, ser surda. Subestimei Amelia Winn, uma extraordinária personagem. Uma personagem de quem não me apetecia afastar sempre que tinha que interromper a leitura. Sensata e afetuosa rejeitou a piedade depois do acidente criminoso que a remeteu para o silêncio, e para a bebida, até perder a familia. Com a ajuda de Jake e Stich (o seu cão de assistência) recuperou o controle da sua vida nesta sólida narrativa, sem vertigem mas com suspeição e mistério quando descobre a vitima de uma crime. A partir daqui começa a trama que segui com entusiasmo. 

Intui o assassino, mas as pistas levavam noutro sentido. De qualquer modo, a narrativa e a Amelia são tão empolgantes e inebriantes que não conseguia parar de ler até confirmar que todos os passos que dava eram aqueles que eu (friamente) daria. E a autora, da qual nada li e não vou querer perder, conseguiu um thriller ao mais alto nível (nem sempre os mais publicitados são os melhores, como é o caso).  Seguramente dos melhores thrillers que já li. 

Temas sérios do cancro e dos cuidados de saúde são debatidos em fundo. Pessoalmente, sei do que se trata e sei os custos que envolve. A surdez profunda é algo que me assusta e do qual nada sabia. Ler este thriller desmistificou e elucidou-me muito sobre soluções que não sabia existirem.

Brilhante!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A rapariga que lia no metro

Autor: Christine Féret-Fleury
Edição: 2018/ março
Páginas: 168
ISBN: 978-972-0-03038-2
Tradutor: Artur Lopes Cardoso
Editora: Porto Editora

Sinopse:

De segunda a sexta-feira, sempre à mesma hora matutina, Juliette apanha o metro em Paris. Nesse caminho diário e rotineiro para um emprego cada vez mais rotineiro, a viagem na linha seis é a única oportunidade de que Juliette dispõe para sonhar.

Aos poucos, essa necessidade espelha-se na observação dos demais passageiros, pelo menos, daqueles que leem: a velha senhora que coleciona edições raras, o ornitólogo amador, a rapariga apaixonada que chora sempre na página 247. Com curiosidade e ternura, Juliette observa-os como se, pelas suas leituras, lhes adivinhasse as paixões, e a diversidade das suas existências pudesse dar cor à sua vida, tão monótona e previsível.

Até ao dia em que, seguindo um impulso invulgar, decide descer duas estações antes da paragem habitual - e esse gesto, aparentemente inocente e aleatório, acabará por se tornar o primeiro passo de uma experiência completamente alucinante e tão perturbadora quanto a de Alice no País das Maravilhas.

A minha opinião:
Ao ver este pequeno livro recordei-me de "O Leitor do Comboio" e fiquei ansiosa por o ler. Livros que reportam a outras livros são sempre desejáveis para uma livrólica. Nem sempre são bons, mas ainda assim são imperdíveis.

O título fisgou-me logo, ou não fosse eu também uma rapariga que lê no metro. E tal como Juliette tenho algumas rotinas em que  observo as pessoas e o que lêem. Aborrece-me um pouco quando os livros vão tapados, mas compreendo que desse modo protegem a sua privacidade e a integridade dos livros.

Lamentavelmente, não me agarrou. O tom é de desalento e melancolia. Esperava que ficasse mais animado e nem por isso. A esperança e entusiasmo passou ao de leve. As referências a livros e autores, bem como as manias de leitor foi o que mais me agradou. As personagens não são relevantes, apenas suporte para os verdadeiros protagonistas, os livros. Julliette, a personagem principal merecia mais, assim como a criança Zaide. 

Enfim...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Uma Velha e o Seu Gato e a história de dois cães

Autor: Doris Lessing
Edição: 2016/ abril
Páginas: 96
ISBN: 9789722531436
Tradutor: Ana Falcão Bastos
Editora: Bertrand

Sinopse:
Dois dos mais emblemáticos contos de Doris Lessing, Nobel da Literatura. Era célebre a sua paixão pelos animais, especialmente os gatos, bem patente nestas duas histórias. Em Uma Velha e o Seu Gato, uma mulher de sangue cigano, agora velha, viúva, com pouco contacto com os filhos adultos, vai-se lentamente desligando do mundo, das normas sociais e da convivência com os outros. A sua grande companhia é o seu gato, com quem se vai tornando cada vez mais selvagem e mais afastada dos outros humanos. Em História de Dois Cães, Doris Lessing narra a fascinante amizade entre dois cães, até ao fim da vida de ambos. Um é morto a tiro por roubar ovos, o outro, envelhece e entristece com a perda do amiga e acaba por ser posto a dormir.

A minha opinião:
Mais uma vez afirmo que gosto de ler contos. E gosto de animais. Como tal, não podia deixar de ler este pequeno livro e para isso tive de fazer um interregno no que estava a ler, para numa tarde devorar estes dois contos. Importa referir que, Doris Lessing foi prémio Nobel da Literatura em 2007 e nesta pequena amostra percebi o seu imenso talento. 

Uma Velha e o seu Gato é um conto tocante sem ser piegas ou lamechas. Desde o início há uma critica implícita sobre a incompreensão e o abandono dos idosos pelas familias e pela sociedade, que como não se encaixam no padrão estabelecido são esquecidos ou acomodados nos lares para morrerem. Os interesses imobiliários também dão uma ajudinha neste desfecho. Sem sentimentalismo é um conto que machuca. 

Nada dúbia ou hesitante na escrita Doris Lessing assume a sua alma livre e lúcida que escreve sobre o que quer sem se preocupar com desconfortos alheios. A liberdade é um tema subjacente em ambos os contos. O gato é um animal incompreendido por muitos e Tibby não fugia à regra. Caçador que sobrevive independente mas aprecia a proteção e os afagos de um dono que escolhe. Hetty era uma velha extravagante que a familia rejeitou e que tinha por companhia o seu amigo gato.

A História de Dois Cães fala sobre as dificuldades de subsistir, o isolamento e o espaço aberto das grandes fazendas de África, onde os animais se podiam tornar selvagens mesmo quando criados pelo homem, como os dois cães da narrativa. A tentativa de os ensinar não era bem sucedida e o mais livre influenciava o mais dócil a seguirem soltos na vastidão que os rodeava. As incursões em fazendas vizinhas geravam alguns problemas que eram resolvidos a tiro. 

Ao contrário do que se poderia imaginar, os contos não são de encantar. De pensar para mudar. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Filha

Autor: Anna Giurickovic Dato
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 192
ISBN: 9789722064347
Tradutor: José Colaço Barreiros
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, revoltar-se continuamente contra a mãe e crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos.

Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas: Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?

Um livro que põe em causa todas as nossas certezas: as vítimas são ao mesmo tempo algozes e os inocentes são também culpados.

A minha opinião:
Desejava e receava ler este livro. Sabia qual era o tema e que este mexe comigo, e ainda assim estava convicta de que o devia ler. A medo comecei, preparada para o largar. Não aconteceu e li, incomodada, mas absorta, uma narrativa que vicia.

Uma extraordinária estreia, para mais com um tema forte. Não é para qualquer um, pelo que vou aguardar com expectativa os próximos romances.

O cenário de fundo é em Rabat, Marrocos, idílico, sobre o qual paira uma sombra funesta. Na perspectiva de Silvia, confusa e cansada, que vai olhando para trás e para a frente, num jogo entre o consciente e o inconsciente, sem conseguir intervir e é neste registo que decorre toda a narrativa. As memórias alegres e também as horrendas, onde sente que ainda pertence, enquanto atualmente em Roma, Itália, sente que não existe, presa num jogo perverso que assiste apática aquando da visita do namorado. Como leitora, li chocada. Compreensivel mas difícil de processar. Sofrimento, solidão e vergonha. Complexo. O pai desaparecido causa uma forte impressão na mãe e na filha, e afeta permanentemente a relação entre elas.

Muito bom. Em tempo de Eurovisão, replicando, se pontuasse leituras, teria quase nota máxima. 

sábado, 5 de maio de 2018

Um Amante no Porto

Autor: Rita Ferro
Edição: 2018/ abril 
Páginas: 224
ISBN: 9789722064811
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os meninos da Foz, o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará.

Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

A minha opinião:
Nas minha opiniões restrinjo ao que considero de interesse e acabam por ser restritas. Nesta senda começo por afirmar que gosto dos romances que Rita Ferro tem publicado recentemente. Escreve bem, brinca com as palavras e expõe estados de alma com sentido crítico. Franca, sem ser consensual ou humilde. Destemida e direta no discurso. 

Gostei de Zara. Posso estar equivocada mas tem muito da Rita que imagino. Lúcida e objetiva, para o bom e para o mal. Uma mulher que vê o "quadro" todo e não apenas parte. Nesta narrativa, na primeira pessoa, temos um retrato de epoca que reconheço (apesar de eu não ser natural do Porto) e o Amor;

"É extraordinário que nenhuma teoria o esgote e que ninguém se canse de o interpretar" (pag. 107)

que me arrebatou a partir do III capítulo. Muitos são os excertos que leio e releio antes de prosseguir a leitura. E gosto disso. Compreendo ou identifico-me com o que está escrito e dificilmente o conseguiria exprimir melhor. A complexidade da natureza humana e os equivocos nos relacionamentos tomando como exemplo Zara e  Álvaro.O fim do romance foi devastador. Sabia que não ficariam juntos mas não previ aquele desfecho que me pareceu genial e verossímel. 

Gostei muito. Enriquecedor e divertido, ainda que não fosse essa a intenção. Li arrebatada pelas personagens e pelas circunstâncias. 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Mulher Culpada

Autor: Elle Croft
Edição: 2018/ março
Páginas: 320
ISBN: 9789892341545
Tradutor: Ana Saldanha
Editora: ASA

Sinopse:
Bethany Reston é uma fotógrafa de sucesso e tem um casamento feliz. Quando consegue um cliente de renome, o bilionário Calum Bradley, sabe que a sua carreira vai prosperar. O que não sabe é que a relação profissional dará lugar a um tórrido caso extraconjugal.

Não foi premeditado. Mas aconteceu. É avassalador. E ninguém - ninguém - pode descobrir.
Quando Calum aparece morto, tendo sido apunhalado em plena estação de metro - o último local onde Bethany se encontrou com ele - ela sofre duplamente. Pela perda de um grande amor. E por não poder partilhar a sua dor. Acima de tudo, tem de manter as aparências.

Mas alguém sabe o seu segredo. Alguém que está agora a ameaçá-la... lenta e impiedosamente.
Com o cerco a apertar, e as provas contra ela a avolumarem-se, só há uma forma de Bethany provar a sua inocência: tem de encontrar o assassino.
Mas todos, polícia incluída, parecem cada vez mais convencidos de que a assassina… é ela.

Será?

A minha opinião:
Mais um excelente thriller de estreia. O anterior do género que li, A Conspiração da Senhora Parrish foi viciante e surpreendente e este é igualmente convincente. Na  génese, um relacionamento e adúlterio contados na perspetiva feminina.

Bethany apaixona-se e apesar do secretismo da relação, alguém sabe e enreda-a numa armadilha em que acaba por ser suspeita do crime do amante;

"Não é paranoia quando é verdade."

Curiosamente, Calum e  Jason, amante e marido, não têm peso nesta narrativa, são apenas personagens secundárias, assim como a amiga Alex, enquanto o misterioso assassino sobressai na perseguição inteligente e audaz que faz a Bethany, em que imprime um ritmo e uma intensidade tal que se torna quase impossível interromper a leitura. Capítulos curtos e eficazes, linguagem direta e sem rodeios ou grandes metáforas, tudo bem doseado e calculado para um bem sucedido thriller.

Claro que o marido é o primeiro que ocorre mas... as dúvidas persistem e a falta de pistas também. E apenas no fim percebi. Como eu gosto. Exatamente o tipo de leitura que me intriga, desafia e conquista. 
Muito Bom. 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

As Sombras de Leonardo da Vinci

Autor: Christian Gálvez
Edição: 2018/ março
Páginas: 388
ISBN: 9789897243677
Tradutor: Inês Guerreiro
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Século XVI. Os conflitos pelo poder nos Estados Italianos crescem ao mesmo tempo que as artes prosperam. A Igreja e famílias como os Médici e os Sforza detêm o domínio do território e das riquezas. Savonarola ganha seguidores. Verrocchio, Botticelli, Miguel Ângelo e Rafael são artistas respeitados.
Florença é casa dos Médici e berço desta ebulição cultural. O criativo e genial Leonardo da Vinci finalmente começa a criar nome, tem o seu próprio ateliê e clientes e liberdade para desenvolver a sua arte e as suas invenções. Mas uma acusação anónima de sodomia obriga-o a abandonar os seus planos e a cidade das artes.
Invejas e medos, ignorância e corrupção, sofrimento e perseguição. Quando Leonardo percebe que nada do que parece ser é e que os inimigos podem estar em qualquer lugar, debate-se entre a vontade de triunfar e o desejo de vingança, entre o homem pecador e o génio inventivo, entre o passado e o futuro.

Este é um romance histórico com uma extensa pesquisa por trás, em que as descrições e os grandes nomes da época criam o ambiente perfeito para conhecermos melhor o homem por trás de toda a genialidade.

A minha opinião:
Há algum tempo que não lia um romance histórico, particularmente um bom romance histórico. Mais uma gentileza do Clube do Autor que, muito agradeço. 

Leonardo da Vinci, o imortal génio de que ouvimos falar, foi pintor, cientista, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, urbanista, botânico, músico, poeta, filósofo e escritor. Este romance histórico pretende dar a conhecer um pouco do homem, por detrás de todos estes talentos. Leonardo era belo e garboso e conheceu a lealdade e a traição. E a vingança. Usou a perseverança e a determinação para sobreviver e vingar num mundo de fanáticos religiosos em que ousou voar e conquistar o céu ancorado ao chão. 

O seu quadro mais famoso, Mona Lisa, também conhecido como A Gioconda, é explicado no fim pelo seu fiel discípluo Francesco Melzi a D. Francisco I, rei de França. 

Uma vida corajosa, aventuras e rivalidades, num elaborado romance que resultou de uma exaustiva investigação e verdadeira paixão e admiração por esta personagem impar. Um romance que não me conquistou de imediato mas seduziu-me gradualmente, página a página. Ausente destas páginas a sexualidade de Leonardo da Vinci, que muito jovem foi acusado de sodomia e quase pereceu. Os amigos e os inimigos. Miguel Ângelo Buonarroti, retratado como rude e mal disposto foi um rival digno que apreciava a competição, enquanto Sandro Botticelli, um traidor com o pecado da gula. 

Recomendo. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

A minha avó pede desculpa

Autor: Fredrik Backman
Edição: 2018/ março
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-03069-6
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

Sinopse:

Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

A minha opinião:
Quando vi este livro reconheci o autor de Um Homem Chamado Ove. Um excelente cartão de visita para este novo livro para quem já o leu. Daí, a pedir este livro emprestado à minha boa amiga Cristina foi um instantinho e logo o recebi dado o entusiasmo que ambas partilhamos por esta escrita fantasiosa  baseada na realidade. 

"Todas as crianças de sete anos merecem ter os seus super-heróis e um dos superpoderes dos herois devia ser nunca ter cancro." (pag.27)

A avóznha é a melhor amiga de Elsa, uma criança inteligente e perspicaz, que através de vários contos de fadas lhe dá a conhecer o mundo e os que a rodeiam no que define como "castelo", que não é nada mais nada menos do que o pequeno prédio onde habitam e em que todos os inquilinos são personagens. Um mundo de encantar, sem perder o pé no real e nos múltiplos problemas do dia-a-dia. Morte, perda, sofrimento, solidão, perseguição, traumas, tudo tem o seu lugar sem perder a beleza e a leveza, numa narrativa que sem ser exaustiva é muito completa e abrangente. Ao alcance do entendimento de uma criança. 

"Porque nem todos os monstros eram monstros, a princípio. Alguns são monstros nascidos da dor." (pag.118)

A relação desta avó tão especial com esta criança tão peculiar, tão diferentes e tão iguais a tantas outras que muito se amam, é o tema principal deste romance. Mas o protagonistmo desta avó não se encerra na relação com a neta. Os superpoderes desta avó vão sendo desvendados ao longo da trama e a admiração e o espanto confortam o leitor como só um bom romance o consegue. 

"A avózinha de Elsa vivia num ritmo diferente das outras pessoas. Funcionava de forma diferente. Num mundo real, em comparação com tudo o que funcionava, ela era caótica. Porém, quando o mundo real se desmorona, quando tudo se transforma em caos, as pessoas como a avózinha de Elsa podem ser as únicas que se mantêm funcionais." (pag.123)

Talvez por a expetativa ser muito alta não me deslumbrou como esperava.Ainda assim é um romance que merece muito ser lido para descobrir o tanto que se esconde nas "entrelinhas". Ternura que se manifesta na capa e extravassa ao longo de todo a estória. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Nervo Ótico

Autor: María Gainza
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 168
ISBN: 9789722064323
Tradutor: Maria do Carmo Abreu
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Quando María Gainza escreve nestas páginas sobre as vidas incríveis de El Greco, Courbet, Fujjita ou Toulouse-Lautrec, sobre o banquete que Picasso ofereceu em honra de Henri Rousseau entre a admiração e a troça ou sobre as misteriosas razões por que Rothko se recusou a entregar ao luxuoso Four Seasons uma encomenda milionária, a sua narradora está também a falar do hospital em que o marido fez quimioterapia e onde uma prostituta andava de quarto em quarto, da decadência da sua própria família em Buenos Aires, do desaparecimento precoce de uma amiga, do desconforto da gravidez ou até do pânico de voar. Como num museu - lugar que, aliás, frequenta muitas vezes à maneira de uma sala de primeiros-socorros -,a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam.

O Nervo Ótico é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Singular e inclassificável, celebra o detalhe e inaugura um género literário no qual confluem, de forma absolutamente perfeita, a história da arte e a crónica íntima, num tom que oscila entre a comédia social e a ironia trágica. Traduzido por grandes editoras em todo o mundo, esta obra de estreia, tão depressa ousada como subtil, apresenta-nos uma grande escritora contemporânea.

A minha opinião:
Começo com um desabafo. Num dia de chuva escorreguei e cai, e estou um bocadinho "lerda" de locomoção. Eventualmente, de raciocinio. Sem a agilidade mental e a elasticidade de María Gainza, uma renegada da sua classe que, em momentos de ansiedade e melancolia percorre museus argentinos, em que lhe ocorrem aspectos da vida dos génios criativos que admira, bem como reflexões pessoais desassombradas.
Como refere de início "escrevemos uma coisa para contar outra,  e muitas são as coisas que conta neste pequeno romance em que se retarda a leitura para melhor o apreciar.

Bem sei que “O Nervo Ótico” incomoda muita gente por aderir ao acordo ortográfico, mas ultrapassado esse obstáculo vão certamente adorar. A arte marca. A literatura também. 

Quantas e quantas vezes já o escrevi, mas mais uma vez afirmo que, gosto muito de romances de estreia. Quase sempre têm um fulgor difícil de igualar.  Neste romance temos uma visita guiada pelas pinturas preferidas da autora em que nos altera a perspetiva. Admito a minha ignorância e nem todos conhecia. Onze preciosos capítulos em que tudo é uma questão de olhar

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sangue na Neve

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2018/ março
Páginas: 152
ISBN: 9789722064590
Tradutor: Ricardo Gonçalves
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 

Olav é um assassino contratado, mas tem uma vida solitária e tranquila. Quando o que se faz na vida é matar o próximo, não é fácil fazer amigos, mas sem ninguém a quem se afeiçoar ou prestar contas, os dias também decorrem sem problemas. Só que o quotidiano de Olav complica-se ao conhecer a mulher dos seus sonhos.

Apaixonar-se por alguém já é por si só uma situação desafiante, mas há duas outras particularidades que fazem desta mulher um vendaval na sua rotina: é casada com o seu chefe. E este acaba de o contratar para a matar.

Como é que Olav irá gerir a situação?
Será que vai conseguir enganar um dos mais temíveis criminosos do país?

Este livro, anterior à série Harry Hole, tem já todos os ingredientes que fazem com que Jo Nesbø seja um dos autores nórdicos de policiais mais bem-sucedidos em todo o mundo.

A minha opinião:
Olav é um anti-herói. Um tipo com tendência em dar às pessoas alguma margem de manobra em relação às suas ações e decisões. Um controverso protagonista por quem se sente empatia. E não é o único que li. Fora da série Harry Hole,  com "O Filho", senti o mesmo pelo protagonista. 

Um assassino com dislexia, que na primeira pessoa narra as suas intuitivas percepções  e alguns detalhes da sua vida, num livro tão pequeno que se lê com animo e interesse até ao fim. Cheguei a questionar-me se não seria um conto, dadas as dimensões dos restantes livros que vi de Jo Nesbø. Ainda assim, em nada o desmerece, porque grandes ou pequenos lêem-se com paixão. 

A escrita coloquial e eficiente é um alento que não cansa. As personagens e o ambiente completam o quadro. As paisgens geladas, bem descritas, cenário em que a frieza também é uma carateristica das personagens. Sangue na Neve é enaltecido pelo contraste visual de alguma beleza. 

Traição, mas em que não existe desenvolvimento das restantes personagens, apenas enquadramento, sequer das mulheres que Olav amou.  Não senti falta de mais. Gostei da trama. O final surpreendeu-me. Gostei e vou repetir. Pretendo conhecer Harry Hole.

domingo, 8 de abril de 2018

Tudo é Possível

Autor: Elizabeth Strout
Edição: 2018/ março
Páginas: 240
ISBN: 9789896655020
Tradutor: Rita Canas Mendes
Editora: Alfaguara 

Sinopse: 
Depois do sucesso de O Meu Nome é Lucy Barton (Alfaguara, 2016), a escritora americanaElizabeth Strout (n. 1956), uma das romancistas mais aclamadas da actualidade, regressa com um mosaico delicado da vida de todos os dias, um retrato íntimo das pessoas comuns que tentam entender-se e entender os outros, esforçando-se por ultrapassar o sempre crescente abismo entre o desejar e o ter.
Lançando um olhar sobre as ambiguidades e ambivalências da alma humana, Tudo é Possível, obra com a chancela da Editora Alfaguara, é um hino à sensibilidade e à compaixão.

A minha opinião: 
Não sou crítica literária. E nem tinha como o ser. Limito-me a reportar o que pensei ou senti com os livros que li. Afinal, sou uma leitora. 

Alguns livros são avassaladores. Retemos na memória a forte impressão que causaram. O mais importante pode ser não o que descrevem, mas o que sentimos com o que lemos. O romance O Meu Nome é Lucy Barton foi assim e este romance voltou a ser. 

Todos temos um universo dentro de nós, ambiguidades, contradições, mágoas, expetativas, que perservamos. Cada uma das personagens, agora idosas, que fizeram parte da vida de Lucy Barton (ela é uma personagem secundária quando regressa à sua terra natal, após o lançamento do seu livro de memórias) ganham vida e todo o seu sentir é colocado a nú de forma desprendida e crua. Cada capítulo, subtilmente interligados, é um conto que retrata uma personagem, com as suas misérias e grandezas, em que amiúde fui surpreendida com compaixão e generosidade, o que me fez crer que na vida TUDO É POSSÍVEL. 

Maturidade na escrita e na narrativa, que nos confronta com a nossa humanidade. Intenso. Muito bom. Mais uma autora que não vai sair do meu radar.