domingo, 10 de dezembro de 2017

As Coisas Que Perdemos no Fogo

Autor: Mariana Enriquez
Edição: 2017/ maio
Páginas: 208
ISBN: 9789897223341
Tradutor: Margarida Amado Acosta
Editora: Quetzal

Sinopse:
Nestas narrativas do macabro, selvagens, imaginativas e diabolicamente ousadas, Mariana Enriquez, dá uma vida vibrante à Argentina contemporânea, e torna-a num lugar em que a desigualdade, violência e corrupção constituem a lei, e a ditadura militar e milhares de «desaparecidos» se agigantam na memória coletiva. 
Mariana Enriquez tem sido comparada a Shirley Jackson e Julio Cortázar. 
A par da magia negra e dos inquietantes desaparecimentos, estas histórias alimentam-se da compaixão pelos atemorizados ou perdidos, acabando por trazê-los para realidades surpreendentes. Escrito numa prosa hipnótica, As Coisas que Perdemos no Fogo, é uma exploração poderosa do que acontece quando deixamos à solta os nossos desejos mais obscuros e assinala a chegada de uma voz surpreendente e necessária à ficção contemporânea.

A minha opinião:
Gosto de contos e desde logo este livro não me passou despercebido. Porém, receava o que iria ler. Sabia que tinha que estar mentalizada para narrativas breves mas assustadoras. Não errei. Algumas são recheadas de pormenores negros ou surreais, que não é o meu género, mas não consegui parar de os ler. 


O primeiro conto "O rapaz sujo" marca e define o tipo de leitura que nos espera. A prosa e o estilo de Mariana Enriquez. Dura, direta e critica. Um outro olhar para o exterior e o interior do que a rodeia. Sem contemplações ataca os grandes males, dividida entre os fantasmas do passado e os estigmas do presente. O último conto, nome do livro, foge completamente ao que  eu supunha, mas não é menos terrível, uma vez que em protesto pelo crime passional, que infelizmente não é nenhum absurdo, surge a autoflagelação. 

Pertubadoras histórias como as de tradição oral que se contam em noites de Inverno.  Não é uma leitura recomendável para almas sensiveis, mas para quem gosta de terror anda lá perto. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Os Loucos da Rua Mazur

Autor: João Pinto Coelho
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 312
ISBN: 9789896604578
Editora: Leya

Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

A minha opinião:
O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos (e li recentemente um romance), mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral. 

A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka, é a misteriosa e relevante personagem do trio. 

A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Último dos Nossos

Autor: Adélaïde de Clarmont-Tonnerre
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 412
ISBN: 9789897243981
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Do inferno da Europa, em 1945, à Nova Iorque hippie. Neste romance premiado com o Grande Prémio do romance da Academia Francesa, Adelaide de Clermont-Tonnerre conta a história dos anos loucos vividos na pele por dois genuínos filhos do século XX: Werner Zilch, nascido na Alemanha no estertor da Segunda Guerra Mundial, e Rebecca Lynch, herdeira de um homem de negócios e de uma mulher que logrou escapar com vida ao campo de concentração de Auschwitz. Uma paixão louca e proibida num cenário histórico repleto de reviravoltas e marcado pelo suspense.

Werner Zilch é um jovem carismático e empreendedor. Adotado desde tenra idade, vê-se confrontado com a descoberta das suas origens, tudo menos gloriosas. Aos olhos dos outros, pode ser considerado responsável pelos erros cometidos pelos seus antepassados? Como aceitar que o seu progenitor estivesse ligado ao nazismo?

A par das personagens, surgem nomes que os leitores por certo reconhecerão, todos eles figuras marcantes do seu tempo. A saber: Andy Warhol, Truman Capote, tom Wolfe, Joan Baez, Patti Smith, Bob Dylan...

Uma complexa história de amor que é, ao mesmo tempo, um capítulo ficcionado da nossa História. O leitor não conseguirá pousar o livro enquanto não descobrir quem é, na verdade, «o último dos nossos». No fim, fica a pergunta: estaremos condenados a responder pelos crimes e pelo sofrimento dos nossos pais e avós?

A minha opinião:
Dar e receber livros é um prazer! Neste caso, recebi. E rejubilei com isso. Obrigado Clube do Autor.



A Segunda Guerra Mundial teve consequências que se prolongam no tempo. Alguns recordam, outros procuram esquecer ou ignorar, e há quem procure saber. Esta é a história de Werner e também de Rebecca, que procuram saber tudo o que seja possível apurar sobre o passado dos seus antecessores. A narrativa decorre em dois tempos alternadamente -passado próximo - com início em Manhattan, 1969 e Saxe, Alemanha, 1945 - passado mais distante - com dois acontecimentos impactantes. E a expetativa aumenta a cada página. O entendimento também.  

Werner Zilch é um personagem forte e temperamental, que não é particularmente carismático. Exemplo da concretização do sonho americano, graças ao apoio do sócio e grande amigo Marcus Howard, apaixona-se por uma mulher muito especial como é Rebecca, uma artista, e vivem uma turbulenta e contrariada relação. Por fim, decidem vingar o passado. 


Muitos são os romances que têem como tema a Segunda Guerra Mundial. Alguns li, outros adio (ainda). Sei que a História (realidade) supera a ficção e o "O Último dos Nossos" é mais uma bem engendrada trama sobre o génio e a bestialidade humana que, com rostos idênticos se podem confundir como os irmãos Kasper e Johann Zilch, e assim a infâmia perigar os grandes feitos ou impôr-se para a destruição e morte. 

Não tão envolvente como eu suspeitava, é um romance que se lê com interesse e avidez, enquanto se procura descobrir quem é quem, numa escrita objetiva e corrente, sem subterfúgios e delicadezas. 

Gostei e recomendo.

sábado, 25 de novembro de 2017

A Menina Silenciosa

Autor: Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 4)
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 564
ISBN: 9789896653125
Tradutor: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Suécia. Uma bonita casa branca, de dois andares. Dentro, uma família brutalmente assassinada - mãe, pai e duas crianças pequenas, mortos a tiro, em plena luz do dia. E o assassino escapou. Sebastian Bergman, com o Departamento de Investigação Criminal, tenta deslindar o crime, mas, com o principal suspeito morto, está num beco sem saída. Até que descobre que há uma testemunha do crime.
Uma menina, Nicole, viu tudo e fugiu, assustada. Quando a encontram, descobrem que o trauma do que viu a deixou totalmente muda, comunicando apenas através de caneta e papel. Os seus desenhos revelam um facto convincente e inescapável: ela viu o assassino. Bergman fica obcecado com o desafio de romper a parede de silêncio de Nicole. Enquanto isso, o assassino está apostado em garantir que ela fique calada.


A minha opinião:
Chateou-me levar este romance policial para todo o lado, contudo sabia que não me iria conseguir separar dele e que todos os momentos livres seriam aproveitados para ler mais um pequeno capítulo. Mais um e não último livro da série Sebastian Bergman. Ainda bem. Não o podia perder e não quero perder o próximo. E assim, um grande livro lê-se num instante.

O início é a percepção de duas crianças. E um assassinato brutal e frio de uma familia com duas crianças. A Unidade de Homicídios da Polícia Sueca conhecida como Riksmord é chamada a intervir. A equipa, de cinco elementos, está um tanto desiquilibrada, uma vez que cada um deles se debate com crises pessoais na sequência de acontecimentos anteriores, agravado pela ausência de um dos elementos que se encontra a recuperar. Senti a falta de Ursula. A ligação e interação entre eles e Sebastian Bergman é essencial para o sucesso deste romance. 

Não tão violento como se poderia esperar, consegue supreender com tantas reviravoltas perfeitamente plausíveis e quase casuais. E Sebastian, surge mais conectado com uma testemunha e não só, o que o pode ajudar a recuperar da culpa e da dor da perda da sua própria familia.  Mulherengo, impaciente e arrogante é um psicólogo criminal carismático.

Possivelmente, o melhor livro da série Sebastian Bergman desta dupla de escritores. A perseguição do assassino à única testemunha é realmente trepidante. E o final, mais uma vez, deixou-me admirada e empolgada. A seguir... 

domingo, 19 de novembro de 2017

O Meu Nome Era Eileen

Autor: Ottessa Moshfegh
Edição: 2017/ maio
Páginas: 264
ISBN: 9789896652418
Tradutor: José Remelhe
Editora: Alfaguara

Sinopse:
O Natal é uma época que tem muito pouco para oferecer a Eileen Dunlop, uma rapariga modesta e perturbada, presa a um emprego enfadonho como secretária num instituto de correção de menores e forçada a cuidar de um pai alcoólico. Eileen tempera os seus dias vazios com fantasias perversas e sonhos de fuga para uma cidade grande. Enquanto não o consegue, entretém-se a fazer pequenos furtos na loja de conveniência e a fantasiar com Randy, um guarda do reformatório com corpo de homem e cabeça de rapaz. Quando Rebecca Saint John, uma ruiva vistosa, alegre e inteligente, é contratada como a nova psicóloga do reformatório, Eileen é incapaz de resistir à sedução de uma amizade que promete transformar a sua vida. Mas, numa reviravolta digna de Hitchcock, o poder de Rebecca sobre Eileen converte a rapariga em cúmplice de um crime a que pode ser impossível escapar. Com a paisagem nevada da Nova Inglaterra como pano de fundo, a história de Eileen é arrepiante, hipnótica e divertida.
Com um primeiro romance cheio de força, que agarra e perturba o leitor até à última página, Ottessa Moshfegh faz uma entrada retumbante nas letras norte-americanas.

A minha opinião:
"O Meu Nome Era Eileen" é surpreendentemente bom. Obscuro e empolgante. Não esperava que a degradação, abandono e carência  de Eileen pudesse ser uma leitura tão viciante. A estrutura narrativa em que se permite saber quando e onde se deu a mudança, mas não como e porquê sustenta o interesse. 

Dezembro de 1964,  X-Ville (nome fictício), em Nova Inglaterra, Eileen tinha 24 anos e, conta à posteriori muitos anos depois, a história do seu desaparecimento. A narradora conta tudo o que recorda com uma crueza inaudita e intimista sobre os seus pensamentos e ações enquanto cuidava do pai, um ex-policia alcoólico e vigiava as visitas a  jovens num centro correcional, no âmbito do seu trabalho de secretariado. Estranha e miserável forma de vida. 


Emocionalmente fecunda, mordaz e intensa, recorda a sua paixão platónica por Randy como a sua razão de viver até conhecer Rebeca. A extensão e dramatismo do que conta torna o leitor testemunha dos acontecimentos e simultâneamente cumplice da sua fuga. 

Manual Para Mulheres de Limpeza” de Lucia Berlin esteve presente no meu pensamento enquanto lia a história de Eileen. A mesma profundidade e força que impressiona e assombra. Os pormenores que fazem toda a diferença. Poderosa narrativa que marca. Corajoso primeiro romance de Ottessa Moshfegh. Brilhante! 

domingo, 12 de novembro de 2017

Falcó

Autor: Arturo Pérez-Reverte
Edição: 2017/ agosto
Páginas: 272
ISBN: 9789892340319
Editora: ASA

Sinopse:
Em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, Lorenzo Falcó move-se por entre as sombras do submundo. Ex-contrabandista de armas, espião sem escrúpulos, encontra-se agora a trabalhar para os serviços de inteligência franquistas. A sua missão? Libertar um detido da prisão. Tem Eva Rengel e os irmãos Montero como companheiros. (E, quem sabe, vítimas? Pois os tempos são traiçoeiros, e nada é o que parece.)

Mas surgem imprevistos, há conflitos de interesses, desenterram-se segredos, há torturas, perseguições e massacres. Só que Falcó não é dos que desistem facilmente… e está determinado a levar a cabo uma missão que poderá alterar o curso da História. Será em Portugal, na aparente tranquilidade do Estoril - local favorito entre espiões - que tudo se conclui.

Entrelaçando magistralmente realidade e ficção, Arturo Pérez-Reverte dá início a uma nova saga protagonizada por Lorenzo Falcó, um personagem fascinante, complexo e inesquecível.

A minha opinião:
Não é segredo que gosto muito da escrita precisa de Arturo Pérez-Reverte que abrilhanta os enredos. Com o ex-contrabandista e espião dos anos 30 Lorenzo Falcó fiquei agarrada a um tempo e a um lugar em que se confundiam anarquistas, socialistas, fascistas, comunistas e uma denuncia era sinal de sofrimento e morte sem fundamentação. Os espiões proliferavam e o vil metal era considerado por todos igual. Sem escrúpulos, mulherengo, Falcó não é o heroi romântico que se poderia imaginar. Não luta por uma causa ou ideologia como Eva Rengel, personagen enigmática e aguerrida com quem se envolve. 

"Só disponho de uma vida, disse ele. Um breve momento entre duas noites. E o mundo é uma aventura formidável que não estou disposto a perder." (pag.82)

A Guerra Civil Espanhola. Neste romance, sentimos o ambiente de uma guerra, sem lados para defender ou personagens para acarinhar, mas sem deixar de perceber o comportamento dos intervenientes e sentir o horror, dadas as descrições e observações que constam da narrativa, fruto da investigação e critica do autor. 

Observei a foto de Arturo Pérez-Reverte e não pude deixar de pensar que o protagonista Lorenzo Falcó poderia ser interpretado pelo mesmo numa qualquer boa produção cinematográfica. O sorriso sarcástico e o olhar inteligente e algo cínico tem tudo a ver com o espião sedutor e aventureiro dos anos 30.

O fim em Portugal, nomeadamente no Estoril, encerra bem esta narrativa, sem pontas soltas e que promete continuação. Gostei muito e espero regressar em breve a mais um romance.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Uma Mulher Desnecessária

Autor: Rabih Alameddine
Edição: 2017/ agosto
Páginas: 264
ISBN: 978-972-0-03008-5
Tradutor: Tânia Ganho
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

A minha opinião:
SUMPTUOSO!

Um romance para se ler devagar porque Aaliya Saleh é uma protagonista resilente, solitária, culta e inteligente que importa conhecer e apreender. Uma verdadeira leitora e uma leitora voraz que dedicou a sua vida a uma causa sigilosa como tradutora e refere amiude os grandes autores clássicos e contemporâneos com admiração e espirito critico. Entrar na vida desta mulher sujeita a pressões familiares, com uma única amiga Hannah, que perdeu, e três "bruxas" "brancas" por vizinhas que a amparam quando o desastre acontece, é um privilégio e não tenho a eloquência dela para o contar.

"Uma mulher desnecessária" é uma mulher necessária na vida de qualquer livrólico assumido, como eu. Uma referência literária, certamente, que muito beneficiou com  a tradução exemplar em que o belo e singular desta protagonista não se perdeu, antes se enalteceu.

Prosa sentida, linguagem requintada e narrativa inspirada, em que a história e a politica estão lado a lado com a humanidade e as descrições sem serem excessivas são as suficientes para captar a ligação de Aaliya à cidade e ao lar que nunca abandonou durante a Guerra Civil.

Um romance para ler e reler. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Regresso da Primavera

Autor: Sveva Casati Modignani
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 400
ISBN: 978-972-0-03017-7
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Passamos muito tempo a perseguir sonhos que nos escapam da mão, uma felicidade que não se deixa aprisionar. E depois acontece que o melhor da vida se revela num instante, talvez na magia de um encontro inesperado. Como aquele que aconteceu entre Lorenzo e Fiamma, surpreendidos por um amor que nem mesmo eles, provavelmente, acreditavam ser ainda possível.

Lorenzo Perego, um homem fascinante e culto, é professor de Geografia Económica numa escola profissional de Milão. Poderia ter escolhido um estabelecimento de maior prestígio, mas o ensino é a sua paixão e ajudar jovens com talento numa realidade difícil e muitas vezes desoladora é um desafio que o entusiasma e enriquece.

Fiamma Morino, com pouco mais de 40 anos, é diretora editorial de uma pequena editora de sucesso que ela própria fundou. Agora que a editora está prestes a sofrer uma drástica mudança de gestão, com que Fiamma não concorda, está disposta a tudo para a defender e continuar a garantir o cuidado e o amor que desde sempre dedica aos seus autores.

Através das vivências de Fiamma e Lorenzo, conhecemos a Itália de hoje, a da crise da Escola e da Economia, mas também aquela que é feita de pessoas empreendedoras, prontas a arregaçar as mangas e decididas a não se renderem.

A minha opinião:
Um gosto adquirido. Não encontro outra explicação para ler qualquer um dos romances da Sveva logo que saiem. O mundo de afetos dos ricos e privilegiados seduz-me inexplicávelmente. Histórias que se centram em personagens bonitas, generosas, altruístas, em contextos profissionais específicos na velha Itália. Desta feita, temos o meio editorial e o pedagógico, com o foco na formação de caráter e de valores. A ténue critica social e política não falta.

Adorei o Lorenzo e Fiamma. Ambos brilham. O passado e o presente muito bem integrados na narrativa, dando-nos a conhecer bem os protagonistas. Uma fórmula em que a escritora é eximia. O equilibrio neste casal invejável tem um desfecho diferente que apreciei. 


Enredo sereno, escrita fluída e visual, são apenas alguns dos elogios que atribuo aos romances desta autora que não me surpreende tanto assim, mas conquista com as suas personagens. E acabo sempre por regressar com deleite. Resquícios da juventude, talvez. Romantismo tolo, quem sabe. Que me importa, gosto assim.

domingo, 22 de outubro de 2017

Homens sem Mulheres

Autor: Haruki Murakami
Edição: 2017/ setembro
Páginas: 256
ISBN: 9789897418105
Editora: Casa das Letras

Sinopse:
O que têm em comum os Beatles, Hemingway, François Truffaut, Woody Allen, Tchékhov, um rapaz chamado Gregor Samsa, um médico doente de amor e o dono de um bar de jazz? Haruki Murakami, pois claro. São sete os contos que dão forma ao mais recente livro: Homens sem Mulheres. Sete homens desencantados e a contas com a solidão. Sete histórias de solidão, mágoa e luto que desafiam os lugares- -comuns sobre o amor. Sete maneiras de traduzir a mesma melancolia, enquanto lá fora «a chuva continua a cair, provocando no mundo inteiro um interminável calafrio». Mas não se deixem enganar: este livro está repleto de mulheres: desejadas, sonhadas, traídas, ouvidas, invocadas, incompreendidas, sobrevalorizadas, eternamente amadas e perdidas para sempre. Um dia, o leitor corre o risco de se transformar num homem sem mulheres. Depois não digam que não avisámos.

A minha opinião:
Nunca li nada de Haruki Murakami. Livros são os amigos que escolhemos ter e como tal sou razoávelmente seletiva. Não achei que Murakami pudesse ser incluido e deixei-o de fora.

Homens sem mulheres é exatamente isso, sete contos de homens sem mulheres.  Desamor, solidão, isolamento e muitos outros sentimentos são contemplados nestes contos numa escrita límpida, tão simples e honesta que fiquei a apreciar. 

Alguma melancolia mas adorei o primeiro conto "Drive my car"em que se assume que todos somos atores. "Yesterday", título da canção dos Beatles, letra inventada por um amigo improvável em que se reflete sobre as dores de crescimento na juventude. 

Na ausência de complicações e inquietações acumuldas, certas pessoas levam uma vida surpreendentemente artificial. O dr. Tokai em um "Orgão Independente" é para mim o conto mais marcante e dramático.

As mulheres têem o condão de anular a realidade mergulhando nela e sem essa intimidade feita de momentos especiais surge a consciência de uma profunda amargura como a Habara em Xerazade. Kino é mais misterioso, enigmático e impactante. Samsa saiu do quarto para aprender sobre o mundo e apaixonou-se. Homens sem mulheres é o último conto. Lidar com a perda no mundo quando se muda de perspetiva. Qualquer um pode saber. 

Qualquer um pode ler e mudar de opinião. 

domingo, 15 de outubro de 2017

Ao Fechar a Porta

Autor: B. A. Paris
Edição: 2017/ julho
Páginas: 264
ISBN: 9789722360593
Editora: Presença

Sinopse:
Quem não conhece um casal como Jack e Grace? Ele é atraente e rico. Ela é encantadora e elegante. Ele é um hábil advogado que nunca perdeu um caso. Ela orienta de forma esmerada a casa onde vivem, e é muito dedicada à irmã com deficiência. Jack e Grace têm tudo para serem um casal feliz. Por mais que alguém resista, é impossível não se sentir atraído por eles. a paz e o conforto que a sua casa proporciona e os jantares requintados que oferecem encantam os amigos. Mas não é fácil estabelecer uma relação próxima com Grace... Ela e Jack são inseparáveis. 

Para uns, o amor entre eles é verdadeiro. Outros estranham Grace. Por que razão não atende o telefone e não sai à rua sozinha? Como pode ser tão magra, sendo tão talentosa na cozinha? Por que motivo as janelas dos quartos têm grades? Será aquele um casamento perfeito, ou tudo não passará de uma perfeita mentira?

A minha opinião:
Reparei neste livrinho. Quando a oportunidade surgiu, não a deixei passar. A sua legitima proprietária teceu elogios e eu fiquei muito curiosa. Daí, a pedi-lo emprestado foi um instantinho. Obrigado Célia.

A tentação da perfeição. O idílico "principe encantado". O sonho realizado em seis meses. A independência financeira abdicada em torno de uma vida a dois. A autonomia suspensa pela promessa de amor conjugal e maternidade.A capacidade de manipular e encantar os mais próximos. Tudo possível de se tornar um pesadelo sufocante. 

Jack e Grace, o aparente casal perfeito. Grace, a vitima silenciada pelo amor à irmã Millie, portadora de sindroma de Down, que conhecemos quando Grace recorda o início do relacionamento. A capacidade de resistir a um sádico jogo de extrema violência psicológica. A vingança no fim. 

Primeiro romance. Gostei.  Ótimas personagens num enredo credível e muito perturbador. Narrativa interrompida por breves momentos para respirar. Expetativa com futuros romances.

O Décimo Terceiro Conto

Autor: Diane Setterfield
Edição: 2007/ abril
Páginas: 366
ISBN: 978-989-84-7028-7
Editora: Marcador

Sinopse:
O Décimo Terceiro Conto narra o encontro de duas mulheres: Margaret, jovem, filha de um alfarrabista, biógrafa amadora, e Vida Winter, escritora famosa, que, sentindo aproximar-se o final dos seus dias, convida a primeira para escrever a sua biografia. Na sua casa de campo, a escritora decide contar a verdadeira história da sua vida, revelando um passado misterioso e cheio de segredos. As duas vão partilhar vivências profundas, resgatando velhas memórias e confrontando-se com fantasmas há muito adormecidos. Sem que pudessem inicialmente prever, acabam por entrelaçar as suas vidas de forma tão intensa, que o resultado não poderia ser outro que não uma inesquecível história de amor, amizade e solidão.

A minha opinião:
Guardei este livro durante tanto tempo por ler. Até ao dia, em que precisei do encantamento das palavras, desejosa de ficar arrebatada com uma boa história e profundamente embrenhada numa narrativa e pensei neste livro.

Encontrei Margaret Lea, que partilha comigo o mesmo anseio nostálgico pelo prazer perdido dos livros. E Vida Winter, uma escritora já idosa com um passado misterioso, que contrata Margaret, desconhecida biógrafa, para contar a sua história. A verdadeira, enquanto todos os seus leitores aguardam "O Décimo Terceiro Conto" do seu primeiro livro incompleto.

Angelfield. A casa, os destinos de George e Mathilde, dos seus filhos Charlie e Isabelle, das netas gémeas Emmeline e Adeline, e o fantasma. Sem esquecer os empregados Missus, John-da-enxada e Judith, personagens secundárias, que provavelmente vivem para lá das páginas deste livro. A estranheza como marca de familia. O isolamento e o medo. Fragmentos de vidas que se colam a quem lê e tenta imaginar um tempo e um lugar distantes, em que recordam outras leituras, como a de Kate Morton, detentora do mesmo poder de transfigurar o real. Simplesmente brilhante. 

Uma história com princípio, meio e... um extraordinário fim. Puzzles, mistérios e segredos. Um verdadeiro romance. Completo. Intemporal. Um insuspeito gosto para amantes de livros. 

Numa casa com crianças não pode haver segredos.