domingo, 27 de dezembro de 2015

Quando Menos Esperamos...

Autor: Sarah Dunn
Edição: 2010/ julho 
Páginas: 248
ISBN: 978-972-23-4386-2
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Holly Frick é uma escritora nova-iorquina de trinta e cinco anos, inteligente e divertida, que se vê confrontada com a separação do marido, Alex, por quem ainda está apaixonada. No seu círculo de amigos todos parecem capazes de retirar algum prazer da situação de vida em que se encontram, e Holly decide fazer o mesmo. Compra um cão e envolve-se com um rapaz bastante mais novo. O quotidiano de Holly e dos seus amigos, as amizades, os casos amorosos e as aventuras sexuais, a busca incessante da felicidade e do amor formam um complexo padrão afectivo e emocional que é aqui retratado com profundidade, subtileza e muito humor.

A minha opinião:
Numa demanda por novos velhos livros, este chamou-me a atenção. Depois de ler a sinopse e as primeiras paginas, decidi comprá-lo. Pareceu-me extamente o que precisava naquele momento - uma divertida comédia de costumes, bem ao género de "O Sexo e a Cidade". 

No inicio, o gozo com a caricaturização de personagens çosmopolitas sobrepôs-se e a leitura leve fluiu, mas depois aspetos mais sérios foram surgindo, como a solidão, o desamor, vícios e temores em personagens aparentemente bem sucedidas, e a piada desvaneceu-se. 

Ainda assim não é uma leitura muito exigente ou surpreendente e cumpriu o seu propósito. Desanuviar e relaxar. O mote da capa com o cão na relva desconcertou-me porque Holly resgatou um animal doente que ajudou a curar e depois descobriu o seu dono anterior e... ganhou, perdeu e voltou a ganhar porque quando menos esperamos... 

A magia dos números

Autor: Yoko Ogawa
Edição: 2011/ 
Páginas: 216
ISBN: 9789725649558
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
Uma empregada de limpeza começa a trabalhar em casa de um velho matemático, um homem com mais de sessenta anos, cuja carreira foi brutalmente interrompida por um acidente de automóvel, que reduziu a autonomia da sua memória a oitenta minutos. 
A cada manhã, a jovem mulher deve apresentar-se como se se vissem pela primeira vez - o professor esquece-se que ela existe de um dia para o outro -, mas é com grande paciência, gentileza e muita atenção que ela consegue ganhar a sua confiança, apresentando-lhe também o filho de dez anos. Aí se inicia uma relação maravilhosa: o rapazinho e a sua mãe vão não só partilhar com o velho amnésico a sua paixão pelo beisebol, como vão também aprender com ele a magia dos números. Neste subtil romance sobre a herança e a filiação - e em que três gerações se encontram sob o signo de uma memória extraviada e fugidia - a narrativa desdobra-se com a graça e o rigor de um origami. Lapidar e profundo como um haiku, A Magia dos Números é uma pequena obra-prima..

A minha opinião:
Por motivos alheios `a minha vontade tenho andado arredada de leituras. E de comentários. 

Este romance, sugestão de uma boa amiga com um gosto irrepreensível para livros, esteve algum tempo por ler. A capa é belíssima, mas os números nunca exerceram magia sobre mim. Mas nesta historia ficaram muito perto, porque numa escrita linear e simplicista, de uma delicadeza subtil e rara sensibilidade acompanhei a amizade crescente entre três improváveis personagens sem nome, e assim fui contagiada pelo fascínio dos números e imagine-se... basebol.

O brilhante professor tem uma limitada memória de oitenta minutos e sucessivamente repete as mesmas perguntas ou argumentos, sem enfado, critica ou estranheza para Root, o miúdo de dez anos assim chamado pelo professor porque a forma da sua cabeça lhe parece uma raiz quadrada, ou a empregada, em que juntos brincam com a magia dos números e a associam a factos simples da vida.

Apesar de tudo não foi suficiente para se tornar um livro memorável para mim. Certamente que a falha é minha pela fase da vida em que o li. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Flores

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 272
ISBN: 9789898775733
Editora: Companhia das Letras

Sinopse:
Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos. 

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome. 
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

A minha opinião:
Consigo ver Afonso Cruz nos seus livros. Não desaparece atrás da beleza, da eternidade da sua voz que encontramos em palavras, em letras que não existem quando lemos, que desaparecem através do seu significado, através daquilo que imaginamos ao ler. "Imagine, como que uma voz que nos eleva e aniquila ao mesmo tempo, nascemos e morremos no mesmo instante." (pag. 98) Esta dicotomia de viver/ morrer, amor/ doença, presente nos livros de Afonso é que me incomoda e me desafia a ler e a não gostar da sua maneira cínica de ver o mundo, apesar da forma quase poética e efabulada de contar uma história.

Flores não é sobre botânica. Tem a ver com a a história das irmãs Flores, no Alentejo do século XX, quando o narrador, um jornalista desencantado com a vida, decide ajudar o vizinho, que a sua filha adora, a recuperar as memorias afetivas e a reconstruir a sua vida através de todos os que o conheceram. Um trabalho difícil com muitas contradições porque há quem o ache bom e quem o ache mau. Afinal, é a memoria que nos forma e quando o idoso Ulme perde a memoria devido a uma doença degenerativa perde a identidade, mas não a capacidade de se indignar e sofrer com as tragédias que sabe através dos meios de comunicação, ao contrario do narrador que se busca no espelho, apático "num sonambulismo que a vida acaba por oferecer em conjunto com tantas frustrações". 

Grito de revolta contra a rotina porque a vida morre com a rotina e não com a morte. Fugir de uma vida absolutamente sedentária e abraçar a mudança, sem o conforto da banalidade ou um outro olhar para a corrupção quotidiana e a miséria sem indiferença, porque Deus está em todo o lado e não apenas nas igrejas. Flores existem mas precisamos de as ver, cheirar e sentir.  
"Entremos mais dentro da espessura."

domingo, 6 de dezembro de 2015

O amante japonês

Autor: Isabel Allende
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-04774-8
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois brota um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família – como milhares de outros nipo-americanos – são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo. 

Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.

A minha opinião:
Isabel Allende é uma referencia que dispensa grandes argumentos. A sua obra fala por si. Mesmo assim não resisto a usar as suas próprias palavras "...demonstrara o seu virtuosismo de narradora, o seu sentido de ritmo e a habilidade para manter o suspense, a sua capacidade de contrastar os factos luminosos com os mais trágicos, luz e sombra...) (pag. 277). 

Não sei porque demorei tanto a escrever sobre este romance de que tanto gostei. Talvez, porque precisei de assentar ideias e ponderar no que escrever e mesmo assim, não vou conseguir atingir nem de perto a clareza, eloquência e lucidez da narrativa. Sem esquecer, as personagens bem definidas que ganham vida para o leitor. Alma, Ichimei e Nathaniel são admiráveis. Irina e Seth não lhes ficam atrás. Mas todas as personagens são grandiosas neste romance que pode conter muito de autobiográfico. Inicialmente, ilude, como sendo uma leitura morna e sensaborona mas ganha fôlego e cativa sem que se perceba.

O ponto de convergência da historia é Lark House, casa de repouso, o que não parece ser muito interessante, mas sobre a perspectiva apresentada fascina e encanta. Senão vejamos:

"Aprendeu a afastar os impulsos de violência, que ás vezes se apoderavam deles como tempestades passageiras, e não ficava assustada com a avareza e as manias de perseguição que alguns sentiam como consequência da solidão. Tentava perceber o significado de carregar o inverno as costas, a insegurança em cada passo, a confusão perante as palavras que não se ouvem bem, a sensação que o resto da humanidade anda muito apressado e fala muito depressa, o vazio, a fragilidade, a fadiga e a indiferença perante o que não lhes diga diretamente respeito, inclusive filhos e netos, cuja ausência já não pesa como antes e é preciso fazer um esforço para os recordar. Sentia ternura pelas rugas, os dedos deformados e a falta de visão. Imaginava como iria ela ser quando fosse idosa, anciã." (pag. 79)

"De acordo com Alma existiam demasiados anciãos no planeta que viviam muito mais do que o necessário para a biologia e do que o possível para a economia, não fazia sentido obriga-los a permanecer presos num corpo dolorido ou numa mente desesperada." (pag. 189)

Historia, entretenimento e reflexão. Que mais se pode pedir de um romance?

Recomendadissimo.  

domingo, 22 de novembro de 2015

Pura Coincidência

Autor: Renée Knight
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 304
ISBN: 9789898775757
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa-de-cabeceira um livro de título O perfeito desconhecido.

Não sabe como terá ido parar ao seu quarto ou quem o terá ali posto. Ainda assim, começa a lê-lo e rapidamente fica agarrada à história de suspense. Até que, depois de ler várias páginas, chega a uma conclusão aterradora: NÃO É FICÇÃO. O perfeito desconhecido recria vividamente, sem esquecer o mais ínfimo detalhe, o fatídico dia em que Catherine ficou prisioneira de um segredo terrível. Um segredo que só mais uma pessoa conhecia. E essa pessoa está morta.

A minha opinião:
O que dizer de um livro quando este é tão bom e nos deixa sem palavras? O que escrever quando quando nos faz sentir muito mais do que esperávamos e ficamos sem saber por onde começar sem revelar demasiado?

"Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidênciaé frase final deste romance que me atingiu como uma bofetada, depois de perceber onde este bem conseguido thriller psicológico me levou com as diferentes graduações e palpitações sentidas pelas personagens, que à vez vão tendo voz desde que aquele maldito livro surgiu nas suas vidas. Diferentes perspectivas com diferentes ângulos sobre factos que os protagonistas não podem ou optam por não revelar. Fotos são os resquícios que sobraram e deram origem a um livro ficcionado.

Catherine é uma mulher bem sucedida e com uma vida familiar estável até que "O Perfeito Desconhecido" surge na sua vida e a obriga a recuar vinte anos atrás e procurar quem a persegue com aquele segredo vergonhoso. Neste processo, como leitores bem informados, vamos entrando na cabeça e motivações do coautor e promotor do livro, bem como na da vitima, num crescendo de ansiedade. 

E neste enredo, de capítulos pequenos, frases curtas, palavras de acção encontrei uma leitura inquietante mas imparável. Controlo de dados e emoções em narrativas bem interligadas e ajustadas para não se perder a fluência e o ritmo da história que nos surge numa capa chamativa com um bom titulo. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Pequenas Grandes Mentiras

Autor: Liane Moriarty
Edição: 2015/ maio
Páginas: 480
ISBN: 9789892330945
Editora: ASA

Sinopse:
A vila costeira de Pirriwee é um bom lugar para viver. As ruas são seguras, as casas são elegantes, e os seus habitantes distintos. Bom… quase todos…

Madeline é tudo menos perfeita. Para começar, recusa-se a viver para as aparências e não se coíbe de dar a sua opinião (principalmente quando não é pedida). O seu lema "Nunca perdoar. Nunca esquecer." vai ser inesperadamente testado ao limite.

Celeste tem o tipo de beleza que leva as pessoas a parar na rua. 
É tão serena que ninguém repara que por detrás dos seus magníficos olhos se escondem sombras negras. Nem as suas melhores amigas sabem o que se passa quando a noite cai.

Jane acabou de chegar. Ao fim de anos a tentar encontrar um lar, a idílica vila parece ter tudo o que procura… e até já conseguiu fazer duas amigas, cujas vidas perfeitas, espera, venham a ter uma boa influência sobre si. É mãe solteira e tão jovem que, no recreio da escola, a confundem com uma babysitter. Mas a sua inocência há muito que se perdeu. 

Um acidente vai unir estas três mulheres numa amizade aparentemente indestrutível. Pelo menos, até à noite da festa. Na vila, nada mais será como antes. São muitas as versões mas o facto indiscutível é que houve uma morte. Como aconteceu? Quem viu? Acima de tudo, quem morreu?

A minha opinião:
BRUTAL!
A palavra que me ocorre imediatamente após terminar a leitura. A historia continua a "martelar-me" no cérebro com tantos significativos episódios e muitos detalhes tão banais e plausíveis, que nos passam despercebidos no quotidiano, mas que a autora recolheu para criar um enredo forte pela credibilidade dos acontecimentos e das personagens, que tomamos como nossas amigas e conhecidas nas suas peculiaridades e angustias (algumas podemos reconhecer como nossas, identificando-nos com as personagens).     

"Isto pode acontecer a qualquer pessoa."

Pois pode e acontece!

As historias não são tão preto e branco como as letras impressas nas paginas de um livro e as vitimas de actos cruéis, sádicos e egoístas não se parecem de todo com a imagem que esperaríamos que tivessem. Protegem-se com pequenas grandes mentiras e reagem como se a vida fosse perfeita até que tudo desabe. 
Acasos e equívocos num desfecho desejável onde a amizade prevalece numa pequena comunidade idílica. 

Quando leio uma historia assim fico sempre a pensar na extraordinária capacidade de transpor em palavras um enredo que se formou na mente criativa de quem a concebeu. E mais não escrevo porque não tenho esse dom.   

domingo, 8 de novembro de 2015

O que ela deixou para trás

Autor: Ellen Marie Wiseman
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 352
ISBN: 9789897101861
Editora: Chá das Cinco

Sinopse:
luminado e provocador, este é um romance sublime sobre o desejo de pertença e os mistérios sob as vidas mais comuns. 
Há dez anos, a mãe de Izzy Stone disparou sobre o seu pai enquanto este dormia. Arrasada pela insanidade da mãe, a jovem recusa-se a visitá-la na prisão. Para a ocupar, os seus pais de acolhimento inscreveram-na como voluntária num asilo público. Ali, no meio de pilhas de pertences sem dono, Izzy descobre um molho de cartas por abrir, um jornal antigo e uma janela improvável para o seu passado.

Clara Cartwright, com 18 anos em 1929, está encurralada entre os seus pais superprotetores e o amor por um italiano. Irado por Clara recusar um casamento arranjado para ela, o pai coloca-a num lar sofisticado para pessoas nervosas. Mas, quando a sua fortuna se perde com o crash de 1929, não consegue suportar os custos do lar e Clara é enviada para um asilo público.
A história de Clara mergulha Izzy num passado cheio de enigmas. Se Clara, na verdade, nunca foi doente mental, poderia explicar-se de outra forma o crime da sua mãe? Completar as peças deste puzzle do passado conduz Izzy à reflexão sobre a sua própria vida e a questionar-se sobre tudo o que pensava saber e acreditar.

A minha opinião:
Nunca o proverbio "Não se pode julgar um livro pela capa", fez tanto sentido para mim. Um claro exemplo de que não podemos julgar uma obra pela imagem exterior. Um romance bem estruturado e definido, brilhante pela carga psicológica, com uma capa nada adequada. Uma jovem sonhadora e rica pode espelhar "Clara Cartwright, com 18 anos em 1929" mas não me parece que seja esta a moda da época, e tem pouco ou nada a ver com a narrativa de uma jovem sã internada num sanatório estatal lotado e com difíceis condições. Presa devido a uma educação severa que reprimia sem amar, um numero entre a multidão de esposas, mães, irmãs e filhas descartadas e esquecidas.   

Izzy é a outra jovem protagonista desta narrativa, com um passado marcado pelo assassinato do pai pela mãe. Nada romântico mas muito realista. O assombroso passado de Clara revela o o mistério do doloroso passado de Izzy com consequências que não contamos e que nos tiram o fôlego e obrigam a pausas dada a violência das cenas descritas (pouco comum num romance como o que esperamos com esta capa). A crueldade humana priva-nos de lucidez e é intemporal. Bullying e ... algo mais que não revelo. 

Um romance que inesperadamente nos marca sobre duas jovens que admiramos. O final compensa. Mas até lá chegarmos o que penamos na companhia de Clara, ou alternadamente na companhia de Izzy. MARAVILHOSO E INEBRIANTE!!!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Esta Noite, Fala-me de Amor

Autor: Elin Hilderbrand
Edição: 2015/ maio
Páginas: 360
ISBN: 9789892330921
Editora: ASA

Sinopse:
Esta noite, fala-me de amor, porque esta noite pode ser a última...
A adorável Dabney Kimball Beech é uma lenda viva na ilha de Nantucket. Dabney estudou em Harvard e é uma profissional de sucesso. Mas o seu grande talento é outro: graças a um dom que muitos consideram místico, ela é a casamenteira perfeita. Quando duas pessoas são compatíveis, Dabney vê-as sob uma aura cor de rosa; quando não são, o tom que as envolve é um desolador esverdeado. Ela já juntou mais de quarenta casais. Apenas uma pessoa parece teimosamente imune à sua seta de Cupido: ela própria.

Por mau carma ou piada cósmica, Dabney perdeu o seu grande amor: Clen Hughes, o belíssimo homem de olhos verdes que lhe partiu o coração e que agora, tantos anos depois, está de volta à ilha. A notícia deixa-a inquieta. A mera perspetiva de um reencontro é suficiente para lhe tirar o sono… e com razão. Clen vem virar o seu pequeno mundo do avesso, algo que é simultaneamente maravilhoso e terrível.
Os deliciosos dias e noites que passam juntos não deixam antever a tempestade que se aproxima. No fim, Dabney terá de fazer novamente uso do seu dom… numa corrida contra o tempo.

A minha opinião:
Gosto de finais felizes. E gosto de romances que me proporcionam bons momentos de entretenimento em que posso esperar um final feliz como recompensa pelas circunstancias difíceis que as personagens tiveram que enfrentar. E com o castigo dos maus na trama, claro. 

Mas nem mesmo nos romances temos o final que projectamos e ansiamos. Não significa que não seja um bom final, lógico e razoável, mas não a recompensa esperada dos bons com a punição dos maus. Neste livro temos um romance de encantar com uma personagem de excepcionais qualidades humanas e alta sensibilidade, mas com uma limitação diretamente relacionada com o abandono da mãe em criança (por esta se sentir incapaz de manter uma vida familiar tão insignificante), como sair da ilha de Nantucket para seguir o amor da sua vida Clen. Com o regresso deste, toda a sua vida balança, e a filha entra na confusão, com um pai que sabia mas não conhecia, e um noivo possessivo e controlador a disputar a sua atenção. Um romance tão banal mas envolvente e terno, em que os sentimentos se sobrepõem a tudo o resto e justificam escolhas que podem ser cruciais. 

Parece um romance leve e fútil mas tem muito que se lhe diga. Com um moral a reter e valores a refletir. E tanto para sentir. Gostei muito e não me importo de repetir. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Também Isto Passará


Autor: Milena Busquets 
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 120
ISBN: 78-989-87-5289-5
Editora: Jacarandá

Sinopse:
Quando Blanca era pequena, para a ajudar a ultrapassar a morte do pai, a sua mãe contou-lhe uma lenda chinesa. Uma lenda sobre um poderoso imperador que convocou os sábios e lhes pediu uma frase que se aplicasse a todas as situações possíveis.

Depois de meses de deliberações, os sábios apresentaram uma proposta ao imperador:«Também isto passará.» E a mãe acrescentou: «A dor e a mágoa passarão, como passam a alegria e a felicidade.» Agora morreu a mãe de Blanca, e este romance, que começa e termina num cemitério, fala da dor da perda, do peso dilacerante da ausência.

Milena Busquets transforma experiências pessoais em literatura e, partindo do íntimo, consegue criar um romance que rompe fronteiras. Através da história de Blanca e da doença e morte da sua mãe, das relações com os amantes e as amigas, combinando prodigiosamente profundidade e leveza, a autora de Também Isto Passará, fala-nos de temas universais.
A dor e o amor, o medo e o desejo, a tristeza e a vontade de sorrir, a desolação e a beleza de uma paisagem em que se entrevê fugazmente a mãe falecida a passear junto ao mar. Porque aqueles que amámos não podem simplesmente desaparecer.

A minha opinião:
A temática dor da perda e o peso dilacerante da ausência não é de todo o tipo de leitura que procuro mesmo que ficcional. Sentimentos profundos e intensos fazem eco em corações magoados com narrativas plenas de sentido. 

A acção passa-se em Cadaqués, localidade catalã da província de Girona. Um lugar deslumbrante e acolhedor, como que um porto de abrigo para a personagem Blanca, que regressa com filhos, ex-maridos e amigos num processo de luto e balanço de vida. A mãe que faleceu após prolongada doença, doença essa que a transfigurou completamente como a mulher que era, deixa a filha devastada apesar da convivência ter sido marcada por uma relação de amor-ódio. 

Narrativa agridoce e acutilante que toca em factos da atualidade que urge refletir. Amor incondicional e absoluto, relacionamentos vários, e valores que se transmitem aos que nos sucedem na vida. Um bom exemplo da linguagem utilizada, sem subterfúgios ou subtilezas é o excerto abaixo (e com isto, fico por aqui neste meu comentário).

"Por vezes interrogo-me sobre o que acontecerá quando esta nova geração de crianças, cujas mães consideram a maternidade uma religião (...mulheres cujo único interesse e preocupação e razão de ser são os filhos, que educam como se eles estivessem destinados a reinar sobre um império, que inundam as redes sociais com as fotografias dos seus rebentos, não apenas de aniversários e viagens, mas dos filhos na sanita ou sentados no penico - não há amor mais impudico do que o amor maternal contemporâneo), crescer e se transformar em seres humanos tão deficientes, contraditórios e infelizes como nós, talvez mais até, porque não me parece que se possa sair ileso de ser fotografado a cagar."                                                                                                                               (pag. 111)

sábado, 10 de outubro de 2015

A Vinha do Anjo

Autor: Sveva Casati Modignani
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 384
ISBN: 9789720047755
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Longas filas de videiras estendem-se pelas colinas suaves de Borgofranco. Há dois séculos que a família Brugliani é proprietária daquele antigo burgo e das vinhas, tratadas com paciência para delas extrair vinhos preciosos e únicos. Aos 35 anos, Angelica é a herdeira da tradição e do património familiar. Mãe, esposa, empresária de sucesso: tudo parece perfeito na sua vida. Só ela sabe que por detrás daquela fachada se esconde um mundo sombrio, feito de mentiras - as do marido - e de sonhos pueris.

Numa noite, em que conduzia a sua moto e sentindo-se dominada pela amargura e pelas lágrimas, Angelica não se apercebe de que o carro à sua frente está a travar. O choque é violento, mas felizmente sem consequências graves, quer para ela, quer para o condutor do automóvel, Tancredi D'Azaro. Angelica não sabe ainda que aquele homem é um dos chefs mais aclamados em todo o mundo. E ambos ignoram que, depois daquele encontro fugaz, o destino voltará a entrelaçar os seus caminhos, suscitando a tentação de um novo começo. É então tempo de fazer escolhas, tendo em conta o peso do passado e as responsabilidades do presente - porque a vida é feita de sonhos e paixões.
A Vinha do Anjo conta-nos a história envolvente de uma família e de uma tradição milenar, o retrato de uma protagonista fascinante no qual se reveem muitas das mulheres empreendedoras e corajosas que anonimamente constroem as nossas sociedades.

A minha opinião:
Gosto muito dos romances da Sveva. Uma fraqueza minha mas não perco um. Gosto mais de uns do que de outros, mas gosto sempre. Com o tanto que gosto de ler e de variar em estilo e género, seria de supor que esta fraqueza estaria ultrapassada há muito, mas sempre que se aproxima um novo romance desta autora, eu apresso-me em ler. 

Gosto de romances sobre mulheres. Mulheres que sofrem mas resistem, endurecem e vingam. Mulheres que se perdem e se encontram. Amam e sofrem e voltam a amar. Mulheres com uma carreira profissional e uma família com quem se preocupam e cuidam. Mulheres privilegiadas mas que não se acomodam. Mulheres independentes e com interesse porque se interessam. Este é o universo dos romances da Sveva que eu tanto prezo. 

Angelica Brugliani é uma destas mulheres. Uma mulher do vinho e da terra, que se tinha tornado parte integrante da sua empresa vinícola, tão presente na história da sua família. Uma mulher com uma extraordinária sensibilidade que nos transmite o gosto pelo requintado prazer que obtemos de degustar um bom prato ou um bom vinho. E para isso, temos Tancredi D'Azaro, um chef de cozinha, também ele ligado às origens, que não são muito distantes das nossas, como a ligação ao sol, ao mar, ao céu, ao curso das estações, e à alegria e saber dos sentidos. Enfim... um romance envolvente e sedutor, com personagens com história e que tanto nos dizem. 

Recomendo. Como sempre.

domingo, 4 de outubro de 2015

A Vida Contada de A. J. Fikry

Autor: Gabrielle Zevin
Edição: 2015/ setembro
Páginas: 264
ISBN: 9789898781468
Editora: Self

Sinopse:
A vida de A. J. Fikry não é, de modo algum, a que ele esperou que fosse. Vive sozinho, a sua livraria está a passar pelo pior momento da sua história e, agora, a sua preciosidade mais valiosa, uma rara antologia de poemas de Poe, foi roubada. Mas quando uma misteriosa encomenda aparece na livraria, a sua inesperada chegada dá a Fikry a oportunidade de mudar completamente a sua vida, e ver tudo com novos olhos.

Divertida, terna e comovente, A Vida Contada de A. J. Fikry relembra-nos a todos porque é que lemos e porque é que amamos. Este livro tem humor, romance, suspense, mas, acima de tudo, amor - amor pelos livros e amor pelas pessoas dos livros. 
Um hino à gloriosa imperfeição da humanidade.

A minha opinião:
Não sei explicar porque fiquei cismada com este livro, mas essa é a verdade. Procurei-o e coloquei-o no topo da minha lista de leituras. E uma história tão simples e despretensiosa, com personagens banais e humildes, mas com as quais nos identificamos pelas suas qualidades humanas, perdura na minha memoria e leva-me a refletir nos acasos da vida e no apego que temos por coisas e por pessoas. 

A.J.Fikry é um livreiro que escolheu sê-lo por amor aos livros e à literatura, mas a perda da sua parceira de vida e de negócios muda a sua perspetiva das coisas. Maya altera tudo. Amélia também. Não achei muito verossímil a transfiguração do rabugento Fikry, nem a extraordinária capacidade de Maya ou o romance com Amélia, mas no conjunto temos uma narrativa calorosa e acessível que nos transmite confiança e otimismo, apesar do final.  

A livraria Livros da Ilha na Ilha Alice é o cenário onde se dão os principais acontecimentos e ponto de encontro de pessoas com afinidades que desconheciam. Local de veraneio que fora da época ganha vida literária. Um hino aos livros, em que o e-book não foi esquecido.

"As palavras que não conseguimos arranjar, pedimo-las emprestadas. 
Lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Lemos porque estamos sozinhos. Lemos e não estamos sozinhos. Não estamos sozinhos."                                            (pag.249)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Se Eu Fosse Chão

Autor: Nuno Camarneiro
Edição: 2015/ maio
Páginas: 128
ISBN: 9789722057493
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
«Um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir. Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. Servimos os nossos hóspedes e damos-lhes a importância que merecem, ou que podem pagar. O resto pertence à justiça ou à igreja, não somos juízes nem padres. Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.»

Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue. Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de "Se Eu Fosse Chão" – diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas – contam histórias a quem as queira escutar.


A minha opinião:
Em algum momento, quem pernoita em hotéis se interroga sobre as muitas histórias, fragmentos de vidas, que se encerram entre as paredes daqueles quartos.

Que memórias preservam, boas e más, de jubilo ou de dor, angústia ou exaltação, resignação ou coragem? Que poderiam contar sobre os protagonistas? E os que lá trabalham, silenciosas testemunhas, que guardam para si?

"Um quarto de hotel é também um repositório das vidas que por lá passaram."  

Foi esta a premissa para este livro, considerando 3 épocas distintas (1928, 1956 e 2015), e passando por 51 quartos de um qualquer Palace Hotel em Portugal. Tanto para contar, sentir e refletir sobre um vasto leque de personagens que nos fazem abrandar uma leitura que se crê breve.

Um pequeno núcleo representativo de um universo muito maior, porque um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior", e a minha maior motivação para esta leitura. Como qualquer voyeur que espreita pela fechadura para vislumbrar nesgas vidas alheias e antever um filme que passa nas nossas cabeças. 

"Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um ha-de ter a sua".

domingo, 20 de setembro de 2015

Teoria dos Limites

Autor: Maria Manuel Viana
Edição: 2014/ março
Páginas: 164
ISBN: 9789898580191
Editora: Teodolito

Sinopse:
A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. 
O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.

A minha opinião:
Fazendo uso das palavras da autora, "trata-se de uma historia de algumas pessoas que constituíam uma família, que se amavam e se zangavam, que eram felizes e tristes, que riam e choravam, que se abraçavam no cemitério quando um deles partiu." O que partiu era o Escritor, uma figura central e anónima, para o qual todos convergiam pelo seu carisma, inteligência e talento, admirador de Leibniz e da sua teoria dos limites. As diferentes perspetivas de algumas destas personagens, como a Mariana (filha), Ana Sofia e Ana Lúcia (sobrinhas), João Caetano (irmão) e a mãe, mais duas personagens estranhas à família (Ana B. e Maria João), serve para provar que o todo não é a soma das partes. 

Afirmar que compreendi bem a teoria, temática do grandioso livro ficcional do Escritor, seria pretensioso e falso, considerando a minha limitada aptidão. O romance que se divide em três partes:  “O que não pode ser dito”, “O que talvez seja dito” e “O que irá ser dito”, e em que as personagens fazem a sua introspeção algo angustiante, por não ser isenta de dor, medo, culpa e solidão, não possibilita uma leitura fácil mas profunda e desafiante, que quase impõe releitura.

Escrita que não me atrevo a qualificar, merece uma leitura atenta pela dimensão do sentir, sempre muito pessoal, para quem ambiciona mais do género literário a que esta obra pertence.

domingo, 13 de setembro de 2015

Mistério na Califórnia

Autor: Elizabeth Adler
Edição: 2015/ março
Páginas: 352
ISBN: 9789897261749
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
A vida tranquila de Fen Dexter na costa idílica da Califórnia é interrompida numa noite de tempestade, quando um homem coberto de sangue aparece à sua porta, alegando ter tido um acidente de carro. Diz-lhe que vai a caminho de São Francisco para ajudar a polícia a resolver o homicídio da sua noiva. Incapaz de chegar ao hospital por causa da tempestade, ele passa a noite em casa de Fen, e a atração entre ambos é óbvia.

Na manhã seguinte, ele dirige-se ao hospital onde a sobrinha médica de Fen, Vivi, trabalha nas Urgências. Vivi está a tratar o mais recente alvo de um assassino em série cuja assinatura é deixar um bilhete a dizer «Por favor, não contes» colado sobre a boca das suas vítimas. Quando o desconhecido misterioso de Fen vai ter com Vivi para que as suas feridas sejam cosidas, ela concorda em pô-lo a falar com a polícia sobre a sua noiva. Quem é este homem, realmente? O que quer com Fen e a sobrinha? E irão elas viver o suficiente para descobrir a verdade?
Contada com o talento de Elizabeth Adler para personagens femininas incríveis e reviravoltas de tirar o fôlego, esta empolgante história irá mantê-lo em suspense... até ao fim.

A minha opinião:
Mais um romance de Elizabeth Adler que li. Uma expectável agradável leitura. Enredos cheios de acção, aventura e romance com personagens dinâmicas que nos cativam, em cenários deslumbrantes (usados como titulo) num escrita fluída e bem ritmada. As capas sobejamente conhecidas não me agradam muito, mas identificam os romances desta autora.  

Neste romance, os crimes acontecem, e a vertente policial sobressai, enquanto procuramos desvendar a identidade de um frio assassino com um determinado estereotipo feminino, qual puzzle que montamos, peça por peça, para compor o quadro final. Não foi difícil desvendar o mistério mas com personagens que cativam na sua normalidade e bom humor, segui o inspetor Brad Merlim e a sua irresistível Flyin no decorrer da investigação até que o amor consolidasse e a justiça fosse feita.

Um livro para entreter e desanuviar que cumpre o que se propõe. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Doce Tortura

Autor: Rebecca James
Edição: 2015/ agosto
Páginas: 384
ISBN: 9789898775436
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Quando Tim Ellison encontra um quarto barato para alugar num dos melhores locais de Sydney, parece um golpe de sorte: estará perto do restaurante onde trabalha e ainda mais perto do seu lugar preferido para praticar surf. Mas há uma condição para que possa arrendar o quarto: Tim terá de fazer todos os recados à misteriosa dona do quarto, uma mulher muito reservada e pouco amistosa, que nunca abandona a casa.

Tim esforça-se cada vez mais por conhecer melhor a figura inquietante de Anna. A princípio muito reservada, ela começa a revelar-se aos poucos: a sua história, a sua tristeza, os seus medos paralisantes.
É então que começam a acontecer coisas estranhas na casa: golpes a meio da noite, figuras inexplicáveis nas sombras, mensagens sinistras nas paredes. Tim assusta-se porque, ao mesmo tempo que o seu desconforto em relação àquela casa vai aumentando, crescem também os seus sentimentos pela bela e misteriosa dona da casa.
Que tipo de pessoa será Anna London: alguém que merece compaixão, alguém para amar ou alguém para temer?

A minha opinião:
Peguei neste livrinho recém chegado porque tinha um bom palpite. Que se revelou, mais um vez, acertado.

A capa agrada-me, mas o titulo nem tanto, por me parecer um tanto lamechas ou juvenil. Ao iniciar a leitura essa duvida dissipou-se, com um enredo e personagens convincentes numa tensão e suspense absolutamente inebriantes para um thriller psicológico com pequenos capítulos, que tornam a narrativa fluída e eloquente, confirmada com uma leitura frenética e absorvente.

Tim e Anna não são personagens carismáticas e interessadas mas comuns, focados nas suas limitações e problemas quotidianos. Anna é um enigma que procuramos desvendar. Agorafobia caracteriza-a mas quando e porque se desenvolveu essa patologia após o acidente de viação dos seus pais é algo que procuramos perceber nas palavras de Tim e da própria Anna.

Tim tem uma paixão não correspondida mas explorada por Lilla , personagem com matizes mais ricas pela sua vivacidade, agressividade e arrogância. Dois rígidos e emproados irmãos, únicos amigos de Anna confundem-nos no papel que desempenham na vida da jovem Anna. Uma casa impressionante e bem localizada é onde misteriosos acontecimentos tem lugar.

Enfim... Um enredo rico e bem desenvolvido que nos agarra com surpresa e onde procuramos descortinar o que sentimos no virar de cada pagina em que se percepciona dor, perda e inveja contrabalançada com a bondade e desprendimento.

Melhor do que outros do género mais promovidos. Vale muito a pena ler. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

E É Assim Que Acaba...

Autor: Kathleen Macmahon
Edição: 2013
Páginas: 320
ISBN: 978-972-23-5121-8
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Quando começa
Outono, 2008.

Onde começa
Na costa irlandesa, perto de Dublin.

Como começa
Bruno é corretor da bolsa norte-americana que, depois de perder o seu posto de trabalho em plena crise financeira, chega a Irlanda em busca das suas raízes. Duas vezes divorciado, tem agora 50 anos. 
Addie é uma arquiteta irlandesa tambem desempregada, que esta a cuidar do pai enquanto este recupera de um acidente. Quando conhece Bruno, Addie tem 38 anos e luta por superar pesadas perdas familiares e uma experiência amorosa falhada. Nem ela nem o pai estão muito recetivos àquele americano que aparece nas suas vidas, nem se encontram particularmente motivados pela pesquisa genealógica ou o património histórico irlandês. No entanto, apesar destas divergências, Addie e Bruno descobrem juntos as alegrias de um improvável amor. E em breve vão ter a oportunidade de verificar a força redentora de um sentimento que a vida vai por a prova de forma que eles nunca teriam imaginado. 

E é que acaba...
Uma historia de amor que não vai conseguir esquecer!

A minha opinião:
E agora sei como acaba... depois de algum tempo em espera por ler porque a oportunidade não surgia. E foi uma leitura diferente, como o são todas as que aguardam o momento certo. 
Aparentemente, um pequeno livro que se lê rapidamente, mas não é bem assim. Não quando a baixa granulometria do papel nos induz em erro e viramos página atrás de página sem avançar muito na serena narrativa.

E o que temos são personagens conformadas com uma existência em que se sente e fala em recessão e crise financeira. Um americano que se distancia para encontrar as suas raízes, numa fuga a um período pré-eleitoral. Uma mulher desencantada com a vida que acompanha temporariamente o pai em contencioso com o hospital e uma família enlutada. Uma família feliz com quatro crianças. E todos estes elementos vão conviver e surpreender-se com a plenitude de sentimentos e emoções que não esperavam viver. 
Addie e Bruno vivem um improvável romance que abala a estrutura de toda a sua família.

E é assim que acontece… insidioso e definitivo sem ser idílico. Uma história que intencionalmente nos dá que pensar no que é  realmente importante e como escolhemos viver as nossas vidas. 

domingo, 30 de agosto de 2015

A Espia do Oriente

Autor: Nuno Nepomuceno
Trilogia: Freelancer (Vol. 2)
Edição: 2015/maio
Páginas: 376
ISBN: 9789897061479
Editora: Top Books

Sinopse:
Dúvida. Confiança. Traição.
Dubai, Emirados Árabes Unidos.
De férias na região, um investigador norte-americano é raptado do hotel onde se encontrava instalado. Uma nova pista sobre um antigo projecto de manipulação genética é descoberta e a Dark Star, uma organização terrorista internacional, está decidida a utilizar os conhecimentos deste cientista para ganhar vantagem.

Contudo, de regresso à Europa, uma das suas operacionais resolve trair o sindicato do crime e oferece-se para trabalhar como agente dupla ao serviço da inteligência britânica. O mistério adensa-se quando esta mulher, de nome de código China Girl, impõe como única condição colaborar com André Marques-Smith, o director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português e espião ocasional.
Obrigados a trabalhar juntos para evitarem um atentado a uma importante líder europeia, uma atmosfera tensa, de suspeição e desconfiança, instala-se de imediato entre os dois. Mas que segredos esconderá esta mulher, cujo próprio nome é uma incógnita? Serão as suas intenções autênticas? Será o espião português capaz de resistir à sua invulgar e exótica beleza?

A minha opinião:
Mais um autor português a destacar-se num género não habitual como a espionagem, com a série Freelancer. 

Freelancer é o nome de código de André Marques-Smith, rival da agente China Girl, protagonistas desta movimentada trama que nos envolve em vários cenários com muito brilho e glamour. 

Claramente, gostei mais deste segundo volumoso livro do que do anterior, talvez porque a protagonista me pareceu mais autêntica, ou a narrativa mais elaborada mas fluída, sempre com alguma suavidade e elegância como é apanágio do autor. O lado humano das personagens não é esquecido. Algum suspense e volte-face fica sempre bem e foi bem conseguido nesta trama. Vislumbres do passado permitem-nos saber mais sobre as personagens e consequentemente conhecer resumidamente o que se passou no primeiro volume desta trilogia.

Um livro que se lê com agrado e nos deixa expectantes com o último livro desta série e com o desfecho destas personagens, sem esquecer Elena e Anssi.

sábado, 22 de agosto de 2015

Perguntem a Sarah Gross

Autor: João Pinto Coelho
Edição: 2015
Páginas: 448
ISBN: 9789722057103
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador.
Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.

A minha opinião:
Certamente que quem gosta de ler, principalmente romances, sabe da existência deste livro e algo sabe sobre ele. Julgou, como eu, quando leu a sinopse ou ouviu comentar, que se tratava de um livro (mais um) sobre o Holocausto (Auschwitz) e hesitou ou desistiu, por ser um leitura difícil, que nos magoa e de que não nos conseguimos abstrair como sendo ficção. Não se pode esquecer, desvalorizar ou perder de vista. 

Este romance vale mesmo a pena ler e sem expectativas ou ideias preconcebidas. Demorei a escrever sobre ele, porque achei que não era capaz de o comentar com justiça e tinha que acomodar sensações e emoções. Não é tarefa fácil, e com agrado constato que cada vez mais sou surpreendida por autores portugueses que escrevem magistralmente romances de estreia. Parece que toda a sua vida ensaiaram para escrever bons livros. 

Estrutura narrativa bem conseguida, com duas vertentes, sobre os judeus de Auschwitz, recuando ao passado mas evoluindo gradualmente, até reunir a personagem Sarah a Kimberly no colégio. Duas mulheres misteriosas marcadas pelo passado.  

Auschwitz, surge com rigor histórico numa parte final do livro. O enredo e as personagens superam completamente todas as expectativas. E ultrapassam-nos nos acontecimentos. Um romance que nos conquista sem resistência quando estamos armados.

Um prazer de ler!

domingo, 16 de agosto de 2015

A Herança de Eszter

Autor: Sándor Márai
Edição: 2010/ março
Páginas: 180
ISBN: 
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Instalada na casa que herdou do seu pai e com a única companhia de uma parente idosa, Eszter é uma mulher solteira que vive com a placidez de quem conseguiu adaptar-se ao que a vida lhe ofereceu. Até que um dia recebe um telegrama de Lajos, um velho amigo da família, anuciando a sua iminente visita. Um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível, Lajos não só traiu o amor de Eszter, mas também destruiu a sua família e roubou tudo o que possuíam, excepto a casa em que vivem e o jardim com que subsistem. Eszter prepara-se então para o receber, comovida por um turbilhão de sentimentos contraditórios.

A minha opinião:
A sinopse resume bem a trama desta história. O que não nos conta, sabemos assim que começamos a ler este romance, e ficamos absortos e inquietos com a força dos sentimentos expressos em personagens que são intemporais.  

Sándor Márai tem uma escrita assim, perturbadora. E isto é dizer pouco. Escrita irrepreensível e acutilante que trespassa a nossa couraça de duros e indiferentes e sem haver sangue. E tudo isto, apenas expondo sentimentos e emoções que ultrapassam a ficção. Provavelmente, o profundo conhecimento que tinha do coração humano não o permitiu continuar. 

Em jeito de confissão, Eszter escreve a história do dia em que Lajos foi vê-la pela ultima vez e a roubou, bem como revela tudo o que sabe sobre ele. A sabedoria de Nunu e a fuga de Eszter,  em luta contra um inimigo mais forte do que elas. Ardiloso e sem escrúpulos, consegue tudo o que quer, sem com isso trabalhar um dia, ou amar com coragem quem quer que seja. Um individuo que sabe o poder que detém, porque tem consciência de uma lei mais dura e severa que estabelece a ligação entre as pessoas e da qual não se pode fugir.

Um pequeno livro com uma grande história, que não nos deixa indiferentes. Imperdível!

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Só Se Morre Uma Vez

Autor: Rita Ferro
Edição: 2015/ julho
Páginas: 312
ISBN: 9789722057677
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Que pensa uma mulher de 60 anos enquanto os homens se matam uns aos outros? Que a preocupa para além da crise e das guerras? Que utilidade lhe encontram, quanto vale para certas pessoas? Que amores ainda a podem surpreender? Que esperanças, que forças lhe restarão antes de se render à idade?
Numa época em que a beleza e a juventude se apresentam como divindades e o dinheiro se revela - dir-se-ia - como a única religião verdadeiramente ecuménica do Mundo, é com a singularidade do indivíduo à margem destes padrões que a grande humanidade se identifica.
Talvez por isso, Rita Ferro teime em deixar o testemunho do seu tempo, lugar e circunstância, partilhando com os leitores o seu Diário 2, interlocutor das suas memórias, perplexidades e reflexões na passagem para os sessenta.

A minha opinião:
Li o primeiro volume do Diário Intimo de Rita Ferro e gostei de conhecer esta mulher que se expõe nas paginas do livro e partilha tantas opiniões e juízos de valor sem grande critério. Tanto de si, para o mundo, que julga conhecê-la  sem saber o mundo que traz dentro de si. 

Neste segundo volume, o tom agridoce mantêm-se. Leio com um sorriso nos lábios, uma gargalhada, lamento ou critica, uma escrita inteligente e reveladora, livre e despretensiosa. Uma mulher de altos e baixos. Uma mulher esclarecida e decidida. Uma mulher aguerrida, mesmo nas horas amargas. Um testemunho muito pessoal destes tempos conturbados que vivemos.

Goste-se ou discorde-se, são muitas as passagens por ordem cronológica e espacial que, nos dão que pensar ou recordar.

Gosto da escrita clara e acessível, numa letra bem visível, num livro de razoáveis dimensões, que me acompanhou durante um curto período nas minhas deambulações por aqui e ali. Quem sabe ainda me cruzo com a escritora Rita Ferro?
Por ora, aguardo o ultimo Diário que me falta ler. 

O Fim Das Estações

Autor: Will North
Edição: 2015/ julho
Páginas: 280
ISBN: 978-972-23-5584-1
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
A caminho do trabalho, Colin Ryan encontra Pete - a mulher que ama há 30 anos e que é casada com o seu melhor amigo - caída inconsciente numa curva perigosa da estrada. Acreditando tratar-se de uma tentativa de suicídio, Colin faz o que sempre fez desde que se iniciou a sua amizade turbulenta: trata de Pete e conforta-a, atento às pistas que poderão resolver o mistério que a deixou quase moribunda à beira da estrada enevoada.

A minha opinião:
Suponho que, todos os que temos este vicio de ler, temos alguns autores que seguimos com carinho. As histórias que nos contam, prendem-nos como encantamento, e é quase certo que todo o tempo de que dispomos para a leitura, é... impagável. Especial.

Will North é um desses autores que referi. Uma quase obsessão.
Narrativa forte, segura e cinematográfica, com personagens que nos marcam, e onde nada fica por contar. E sem cansar ou deixar pontas soltas. Histórias dentro da história.

Um grupo de pessoas, habitantes de verão duma pequena ilha, Madrona Beach, Seattle, viviam num "mundo aparentemente isento de problemas civis ou domésticos convencionais e imune ao crime, a sua riqueza fora da ilha funcionando como uma espécie de redoma de fibra de vidro que os isolava das fragilidades e tragédias humanas mais banais. (...) as pessoas de verão também sofriam. Mas guardavam-no para elas." (pag. 140)

Tão semelhante ao que pensamos dos ricos e famosos que acompanhamos através dos meios de comunicação. Como se existissem a um nível superior do comum dos mortais, sem dificuldades de maior, sofrimento, perdas ou dor. Felizes e privilegiados, como se tratasse de uma graça divina. Esquecemos que, os sentimentos e emoções são comuns, bem como os erros.

Famílias. Ligadas durante anos. E o quanto ocultam. E que deliciosa comédia de costumes vamos desvendando gradualmente, em suspense, numa paisagem de sonho, Colin, preconiza um ideal masculino, de tão integro e humano. Como o autor deve ser.

Um prazer de ler!