segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Pequenos Delírios Domésticos

Autor: Ana Margarida de Carvalho
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 144
ISBN: 9789896417901
Editora: Relógio D'Água

Sinopse:
Ana Margarida de Carvalho é conhecida como romancista.
Com Que Importa a Fúria do Mar e Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 2013 e 2017.
Este seu primeiro livro de contos evidencia o seu talento para a narrativa breve.

A minha opinião:
Nem sempre tenho disposição para certas leituras. Por vezes, preciso de consumir o que é mais imediato, sem muito o que processar. Leituras que desfaçam o nó na garganta de tantas contrariedades, ainda que por breves momentos. Este pequeno livro de contos não é o indicado e não pode ser escolhido para esse propósito, apesar de amiúde haver laivos de humor. Os contos são sérios e sensitivos. Com exceção do primeiro, todos são ficção, ainda que no âmbito do real. Chão Zero é muito pessoal, mas dada a proximidade toca a todos. Nenhum me deixou indiferente por diferentes motivos. Uns são maiores, outros menores, todos intensos. Não se iludam, os curtos, com o espaçamento entre linhas abreviado, não são tão curtos assim. A força das palavras combinadas com efeito e eficácia. E musicalidade também. Adequados para serem lidos em voz alta, o que para mim torna mais fácil a compreensão e assimilação.

Curioso o título, apelativo, e no entanto, os primeiros contos são mais abrangentes do que apenas circunscritos ao ambiente doméstico. Problemas da atualidade como a temática dos Refugiados, com o Do inferno ninguém regressa. E tantos outros, dos quinze que são. Manhas e manias rápidamente esquecidos no ruído do quotidiano. Estranha-se tanta dor, tanto sofrimento, tanto abandono, mas passa. 

Sem mais, quem gosta de contos não deve dispensar este livro.  Deixar pousado e retomar em doses moderadas bem desfrutadas. 

Deixa-me Odiar-te

Autor: Anna Premoli
Reimpressão: 2018/ fevereiro
Páginas: 312
ISBN: 9789897244131
Tradutor: Catarina Mourão
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Jennifer e Ian conhecem-se há sete anos e nos últimos cinco só têm discutido. Chefes de duas equipas no mesmo banco, entre eles sempre houve um confronto aberto e declarado. Detestam-se e dificultam a vida uma ao outro. Até que um dia são obrigados a cooperar na gestão da conta de um cliente aristocrata e abastado.

Na vida e no amor há sempre uma segunda oportunidade?

Um romance moderno, divertido e terno, uma história atual e muito cinamatográfica com todos os ingredientes de uma bela comédia romântica.

A minha opinião:
Este romance não é uma novidade. Mas isso não importa quando se gosta do que se lê. Ademais relemos um livro sempre que nos apraz.

Sem mais delongas, adorei esta comédia romântica. Um verdadeiro antistress a relação dos dois protagonistas que lutam para se distanciarem de uma atração que resvala numa intensa rivalidade. Narrativa animada por muitos diálogos, com muito sarcasmo e ironia, a arma com que digladiam nesta divertida e revigorante contenda, que começa por ser profissional. Ian é um adversário à altura de Jenny.

O ponto de vista de Jenny sobre os que o testemunham e a sua perspetiva tornam-na hilariante.

Li com avidez na expetativa do previsível desfecho que sempre me consola. Terminei com um sorriso no rosto que combinou bem com o dia simpático que se fazia sentir. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Reino de Feras

Autor: Gin Phillips
Edição: 2018/ janeiro
Páginas: 272
ISBN: 9789896655259
Tradutor: Ester Cortegano
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Lincoln é um bom menino. Aos quatro anos, é curioso, inteligente e bem-comportado. Lincoln faz o que a mãe diz e sabe quais são as regras.

«As regras hoje são diferentes. As regras são que temos de nos esconder e não deixar que o homem da pistola nos encontre.» 

Quando um dia comum no Jardim Zoológico se transfoma num pesadelo, Joan fica presa com o seu querido filho. tem de reunir todas as suas forças, encontrar a coragem oculta e proteger Lincoln a todo o custo - mesmo que isso signifique cruzar a linha entre o certo e o errado, entre a humanidade e o instinto animal. 

É uma linha que nenhum de nós jamais sonharia cruzar. 

Mas, por vezes, as regras são diferentes. 

Um passeio de emoção magistral e uma exploração da maternidade em si - desde os ternos momentos de graça até ao poder selvagem. Reino de Feras questiona onde se encontra o limite entre o instinto animal para sobreviver e o dever humano de proteger os outros. Por quem deve uma mãe arriscar a sua vida? 

A minha opinião:

Pequeno livro, fácil de transportar, ótimo de manusear, tem ainda assim um peso imenso. O peso é em sentido figurado. O peso é o temor de qualquer mãe. Proteger o seu filho.

Não é uma leitura fácil, e por isso, comecei e larguei, por recear o que lá vinha. No início, o rimo é lento, com uma mãe paciente com um filho curioso e imaginativo num recanto mais isolado do Jardim Zoológico. Eu receava que o enredo descambasse para a ameaça dos animais que no seu reino se virassem contra esta mãe e o seu filho. Não poderia estar mais equivocada. A estória segue outro rumo, não menos tenso e angustiante. Explora a complexidade e intensidade do vinculo materno e é uma narrativa extrordináriamente bem conseguida com todas as minúcias do quotidiano e o primário instinto de sobrevivência. A perspetiva global é de Joan, que apela aos seus sentidos e emoções para determinar como agir, mas surgem outras personagens sobreviventes reféns neste espaço de lazer e convivio familiar. Assim como um dos psicopatas. 

Nem sempre mantêm o mesmo ritmo mas ainda assim é uma leitura intensa. Um thriller. 

Não amei mas gostei. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Louca

Autor: Chloé Esposito
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 384
ISBN: 9789722534581
Tradutor: Fernanda Oliveira
Editora: Bertrand

Sinopse:
Louca é um thriller passado em Londres e na Sicília, no espaço de uma violenta semana de verão, e que explora os temas do ciúme e do engano, do crime e da inveja. Uma gémea não só se apodera da vida perfeita da irmã, como se dispõe a continuar a vivê-la. Alvie Knightly está muito em baixo: sem objetivos na vida e a beber demais. A sua vida é ainda pior se comparada com a de Beth, a sua irmã gémea e perfeita. Beth casou-se com um italiano lindo e rico, tem um bebé maravilhoso e sempre foi a preferida da mãe. Há muito tempo que a única coisa que as gémeas têm em comum é a aparência. Quando Beth envia um bilhete de avião à irmã para que a visite em Itália, Alvie mostra alguma relutância. Mas quando é despedida do emprego que detesta e os companheiros de casa a põem na rua, começa a mudar de ideias e a pensar na luxuosa villa de Taormina. Beth pede à irmã que troque de identidade com ela durante umas horas, para poder escapar à atenção do marido. Alvie agarra com unhas e dentes a oportunidade de viver a vida da irmã, ainda que temporariamente. Porém, quando a noite acaba com Beth morta no fundo da piscina, Alvie dá-se conta de que aquela é a sua oportunidade de mudar de vida. E, afinal, o que escondia Beth do marido? E porque é que a convidou para ir a Itália? Alvie vai descobrindo segredos e mentiras à medida que mergulha mais fundo na vida da irmã morta. E terá de fazer de tudo para conseguir suportar as suas próprias mentiras.

A minha opinião:
Alvie Knightly é louca. Uma louca egocêntrica. Uma louca que percorre no espaço de uma semana os sete pecados capitais, depois de um termo de responsabilidade em que a sua irmã gêmea é como um anjo, enquanto ela, inversa, como a imagem num espelho. Impulsiva, promíscua, ressentida, mortal, mas também mordaz e muito divertida.

As suas ações são justificadas por um sentido de justiça, lógica ou recompensa muito próprios e os seus pensamentos expressos numa espécie de monólogo, um convite à diversão. Não sei bem como, mas senti mais empatia do que desconcerto ou aversão por Alvie, e compulsivamente acompanhei as suas desventuras nesta narrativa vibrante e frenética, o que não deixa de ser notável para uma estreia. A prosseguir já que se trata de uma trilogia.

Não consigo compreender bem como foi classificado como thriller. Os ciúmes da gêmea que usurpou tudo o que lhe era devido, entendidos à medida que a estória se vai desenrolando e em que se percebe os contornos daquela relação, bem como o desejo, despudor, oportunismo nas suas relações carnais adequam-se mais a um romance. 

Ainda assim posso afirmar com segurança que adorei ler este livro e Alvie é uma personagem e tanto, sem filtros ou limites. Talvez, no fundo, gostassemos de ter um pouco de Alvie em certos momentos. Livres e desapegadas. Desapiedadas mesmo. Uma excelente leitura para um fim de semana. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A Herdeira dos Olhos Tristes

Autor: Karen Swan
Edição: 2018/ janeiro
Páginas: 464
ISBN: 9789897244087
Tradutor: Luís Santos
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
A Herdeira dos Olhos Tristes centra-se na vida de uma mulher que tinha tudo para ser feliz e na de uma jovem advogada em fuga do seu passado. Duas histórias improváveis que se cruzam, revelando um mundo assente em intrigas e mentiras e todo o esplendor da cidade de Roma.

Os leitores dizem que se trata de um romance de leitura compulsiva, uma obra contemporânea tão convincente quanto fascinante. No site Goodreads há quem o classifique como um livro "inteligente, enigmático e hipnotizante sobre o poder do amor e tudo aquilo que somos capazes de fazer por
ele."

A minha opinião:
Mais uma vez fui gratificada com um livro do Clube do Autor que me apressei a ler, dado que a sinopse e a capa me agradaram sobejamente. O título (e a sinopse) apontam para uma mulher rica e priveligiada, julgada como a mais felizarda sem o ser. Pela capa reconheci Roma. 

Duas mulheres, de gerações e classes sociais diferentes que se cruzam na cidade que escolheram viver. Ambas tem um passado que querem ocultar. Dores por apaziguar. O primeiro aspecto que importa referir é que a autora criou em dois períodos temporais distintos uma narrativa rica em pormenores, não só das personagens mas do meio em que estão inseridas. Apesar de beneficiar com o envolvimento do leitor na história pela curiosidade que suscita a privacidade e intimidade de um  tão extraordinário padrão de vida, também torna a leitura um pouco mais exaustiva.

Elena e Cesca ocultam os seus profundos sentimentos. Um ou outro indicio surge para levar o leitor a desvendar o enigma da vida destas duas personagens que mais escondem do que revelam, e no caso de Elena distancia-se mesmo da verdade na sua biografia. A reviravolta surge com a dolina (termo que eu desconhecia e que se significa uma depressão no terreno) e  paulatinamente novas pistas e uma nova personagem adensam a trama. A expectativa em torno do passado de Elena aumenta mas ... e esse é o segundo aspecto a referir, ela não ganha profundidade e com isso não há carisma. Cesca não é bem assim e os seus afectos são bem animados.

Na verdade, deve ser mais ou menos isso que se passa na vida real, onde tudo e todos se compram e os sentimentos ficam em segundo plano. Um território desconhecido para quem cresceu assim. A autora preocupou-se em contar uma história que pudesse parecer verossímel, vagamente inspirada em socialites daquele tempo e conseguiu plenamente os seus intentos. Um romance que se lê com agrado. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Parem Todos os Relógios

Autor: Nuno Amado
Edição: 2018/ janeiro
Páginas: 272
ISBN: 9789897418617
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Aos trinta e seis anos, a professora de literatura Helena Remington apaixona-se loucamente por um italiano de visita a Lisboa. O romance entre os dois, intenso e tórrido, é, porém, abruptamente interrompido por um acidente de automóvel na costa italiana onde ambos passavam férias.

Decorridos vinte anos sem notícias de Fabrizio, Helena recebe uma carta da filha dele com um pedido ousado e urgente. Para o satisfazer, terá de lançar-se na mais arriscada aventura da sua vida, envolvendo-se com gente perigosa numa autêntica corrida contra o tempo. Tudo para salvar o homem que tanto amou. 

Muitos anos mais tarde, Carlos - o sobrinho-neto preferido de Helena - conhece Francesca, uma rapariga italiana que também precisa de ser salva e que o destino transforma em tradutora de cartas de amor. 

Parem todos os Relógios é uma narrativa fluida e aliciante sobre as consequências do amor, que combina magistralmente elementos de thriller policial, história de amor e épico familiar.

A minha opinião:
Provavelmente, um dos melhores romances da minha vida! 
Pode parecer uma sentença, mas não é. Espero ainda ter muitos melhores romances na minha vida. 

A capa e o título exerceram uma certa atração ao ver este livro numa vitrine. Lamento não ter visto o anuncio da apresentação. Não sabia quem era Nuno Amado, mas teria ficado a saber se o tivesse visto. Assim que li a sinopse soube que iria ler este romance de seguida. Romance este que superou todas as minhas expectativas, de tal modo, que retardei a leitura para melhor o apreciar. Uma escrita sublime, prosa quase poética, sentido profundo e exemplar numa alma lusa que importa considerar e reter. E a protagonista é a minha Helena (como eu gosto do nome Helena na literatura), uma mulher para além do seu tempo. Uma princesa metafórica. 

Helena dá-nos um novo fôlego e luz com a sua história de amor. Uma história de amor com um italiano, mas principalmente uma história de amor com a vida. Uma história com vários andamentos, num compasso alternado entre presente e passado e sempre com agrado por belas paisagens onde surpreende com as reviravoltas da trama. Aventura, intriga, paixão, drama e redenção, numa escrita fluída e ritmada. Como eu referi antes, que chega a ser sublime.

Aquele momento. Parem todos os relógios. 
Aquele momento em que todas as coisas estão no seu lugar ou o momento em que os relógios deviam ter parado. O acidente muda tudo. Carlos, o sobrinho-neto que leva uma existência morna desde que perdeu o elo com a tia. E Francesca, que importa descobrir neste enredo em que se cruzam. 

Romance merecedor de vencer o prémio Leya. Gostei muito do livro deste ano, mas acabei dividida depois de ler este romance admirável. Não deixem de ler! Vão perder!