quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

BALANÇO 2018


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Eliete

Autor: Dulce Maria Cardoso
Edição: 2018/ novembro
Páginas: 308
ISBN: 9789896714581
Editora: Tinta da China

Sinopse:
Novo romance de Dulce Maria Cardoso, sete anos depois do estrondoso sucesso de O Retorno, o livro que pôs Portugal a falar pela primeira vez sobre os retornados, o maior tabu da sua história recente.

Eliete é um romance construído em torno da protagonista homónima, e é o seu mundo que Dulce Maria Cardoso apresenta agora aos leitores. Estar a meio da vida é como estar a meio de uma ponte suspensa, qualquer brisa a balança. A vida da Eliete vai a meio e, como se isso não bastasse, aproxima-se um vendaval.

Mas este é ainda o tempo que será recordado como sendo já terrivelmente estranho, apesar de ninguém dar conta disso. Porque tudo parece normal. Deus está ausente ou em trabalhos clandestinos. De tempos a tempos, a Pátria acorda em erupções festivas, mas lá se vai diluindo. E a Família?


A minha opinião:
Adoro os livros da Tinta da China. Bonitos, jeitosinhos e com fitinha marcador. Um mimo!

Eliete é um nome estranho, não é banal, apesar disso esta mulher nada tem de extraordinário e muito em comum com outras da mesma faixa etária que acumularam memórias e sentir. 

A escrita de Dulce Maria Cardoso e a narrativa na primeira pessoa, merecem uma leitura atenta. Não sei se para todos porque as vozes são maioritáriamente femininas. 

Eliete é a protagonista. Casada, duas filhas adultas e uma profissão irrelevante, sente-se só e mal amada. A avó marca uma viragem quando tem um surto e é hospitalizada. A mãe e as filhas Márcia e Inês são personagens de fundo com pouco relevo, mas impactantes no percurso de Eliete, assim como a amiga Milena. Mulheres sem presença masculina forte, com exceção da avó que viveu com o Sr. Pereira. O final do campeonato europeu de futebol em 2016 é outro acontecimento marcante na existência desta mulher que decide agir em sigilo e ... mudar. 

Poderia ser aborrecido ou mais um romance de uma mulher de meia idade insatisfeita neste Portugal pequenino de clima ameno e brandos costumes, mas a inteligência emocional e a sensibilidade de Eliete tornam este romance empolgante e viciante, que dá que pensar e recordar. Continua...

Imperdível.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Anoitecer no Paraíso

Autor: Lucia Berlin
Edição: 2018/ novembro
Páginas: 280
ISBN: 9789896655907
Tradutor: Ester Cortegano
Editora: Alfaguara 

Sinopse:
Do Texas ao Chile, do México a Nova Iorque, Lucia Berlin vislumbra beleza nos lugares mais sombrios e pressente escuridão quando tudo parece ser cristalino.

Há um par de anos, o panorama literário mundial foi sacudido por uma colectânea de contos de uma escritora desaparecida e quase esquecida. Era Manual para mulheres de limpeza. A autora, Lucia Berlin, conquistou então o lugar que justamente lhe deveria ter pertencido antes: colocando-se entre os favoritos da crítica e dos leitores e ganhando comparações a Raymond Carver, Alice Munro, Anton Chekhov, Charles Bukowski.

A singular capacidade de Berlin para representar a beleza e a dor da rotina e da vida, a sua desarmante honestidade, o seu irresistível magnetismo, a sua subtil mas inquietante melancolia, as suas personagens tão próximas da vida. Tudo isto se encontra com grande intensidade em Anoitecer no paraíso, uma colectânea que é um deleite para os todos os leitores que se apaixonaram por Lucia Berlin ou um convite aos que ainda não o fizeram.

Volume indispensável da obra de Lucia Berlin, Anoitecer no paraíso foi preparado pelo filho da autora, e está recheado de pequenos tesouros da literatura, inéditos em português.

A minha opinião:
O poder e a beleza das palavras. Algo para saborear e ponderar, como referiu o filho de Lucia Berlin no prefácio. Histórias verdadeiras; não necessáriamente autobiográficas do bando Berlin, mas afinal o que interessa são as histórias que conta. E como as conta! Não são histórias felizes, apresentam momentos alegres, descontraídos, descritos com minúcia e exaltação, mas também com crueza e mágoa. Solidão, vicios, violência e amor. Mulheres fortes, mulheres maduras, anseiam por romance. 

Estranho sortido de histórias, do quotidiano, de diferentes épocas, em distintos lugares, que tanto são extraordinárias como inesperadas. O belo e o grotesco andam a par. Incomodam. Fazem nos olhar para dentro e perceber as contigências da vida e das relações. 

Um talento desaparecido e eterno - Lucia Berlin.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A Casa à Beira Mar

Autor: Debbie Macomber
Edição: 2018/ setembro
Páginas: 320
ISBN: 9789897761829
Tradutor: Susana Serrão
Editora: IN

Sinopse:
Annie Marlow passou por uma tragédia impensável e decide partir para o único lugar onde se lembra de ter sido feliz: uma casa à beira-mar numa pequena cidade na zona costeira do Noroeste Pacífico. Uma vez lá, Annie começa a restaurar o seu espírito destroçado e apaixona-se por Keaton, que lhe oferece conforto e alívio para a dor. No entanto, a vida tende a colidir com os nossos sonhos e, quando surge uma oportunidade única, Annie tem de decidir se volta a partir ou se permanece na segurança do refúgio - e do homem - que veio a chamar de lar.

A minha opinião:
Depois de algumas leituras mais inquietantes procurei uma história mais serena, até que me deparei com este romance de Debbie Macomber que comprara recentemente, e foi ... redentor, ou não fosse uma história de personagens magnanimas em processo de cura, depois de graves perdas, numa pequena cidade de veraneio. A protagonista, Annie, viu a sua vida mudar drásticamente e procurou recomeçar no lugar onde tinha sido feliz, mas alerto que todas as personagens são emocionalmente envolventes e tem algo para contar nesta história iluminada. LINDO!

(Não gosto de revelar muitos detalhes para não perderem o prazer da descoberta).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A Sereia de Brighton


 
Autor: Dorothy Koomson
Edição: 2018/ agosto
Páginas: 512
ISBN: 978-972-0-03115-0
Tradutor: T
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Praia de Brighton, 1993

As adolescentes Nell e Jude descobrem o corpo de uma jovem na praia e, quando ninguém o reclama, a vítima passa a ser conhecida como A Sereia de Brighton. Três semanas mais tarde, Jude desaparece e Nell, ainda chocada com os acontecimentos na praia, fica completamente desamparada.

Passados 25 anos, Nell vive atormentada pelo passado, abandonando o emprego para descobrir a verdadeira identidade da jovem assassinada – e o que aconteceu à amiga naquele verão inesquecível.

Quanto mais perto fica da verdade, maior é o perigo. Alguém parece estar a seguir cada passo de Nell, que já não sabe em quem confiar.

Da autora bestseller de a filha da minha melhor amiga, chega-nos uma intrigante história sobre irmãs, segredos e crime.

A minha opinião:
O mistério da Sereia de Brighton durou vinte e cinco. 
Duas adolescentes encontraram o corpo e enquanto uma desapareceu logo de seguida, a outra viu a sua familia ser atormentada e traumatizada pela perseguição policial.

Alternando passado e presente vamos desvendando os contornos deste crime que, Nell procura resolver pelo ADN. A narrativa é partilhada entre Nell e a irmã Macy, também ela com sequelas, como transtorno obsessivo compulsivo. Nell é uma personagem forte com uma missão. Os homens da vida das duas irmãs são... questionáveis. 

Racismo, violência policial, maus tratos infantis são os temas de fundo deste recente romance de Dorothy Koomson, que ficou muito áquem das minhas expectativas. Longo, muito longo, não desenvolvia como eu gostaria, apesar dos capítulos curtos, que ajudam um pouco.

Enfim... não gostei muito.

sábado, 1 de dezembro de 2018

O Silêncio da Cidade Branca




Autor: Eva G. Saénz de Urturi
Edição: 2018/ julho
Páginas: 488
ISBN: 9789892342603
Tradutor: Tânia Sarmento
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Vinte anos depois, a cidade de Vitoria volta a ser assolada por uma série de assassinatos macabros. São em tudo iguais aos crimes do passado. Mas há um pequeno senão: o suposto assassino está preso.

Na altura a imprensa chamou-lhes Os Crimes do Dólmen. Porque foi num dólmen que encontraram as primeiras vítimas: dois recém-nascidos unidos num abraço macabro. Seguiram-se várias outras mortes, encenadas com requinte em monumentos históricos. Tinham sido crimes quase perfeitos. Mas o assassino - um arqueólogo brilhante - acabou por ser apanhado, pelo seu não menos brilhante irmão gémeo, então inspetor da polícia. Caso encerrado. Ou talvez não. na altura Unai era adolescente. Vivia obcecado com os crimes, mas aterrorizado com a perspetiva de ser a próxima vítima. 

Passados vinte anos, tornou-se um profiler implacável, especializado em assassinos em série. e quando o chamam à Catedral Velha de Vitoria, um calafrio percorre-o. nos claustros encontra dois cadáveres e a mesma arrepiante encenação: nus, abraçados, com abelhas vivas na garganta… Mas pistas, nenhumas.

Unai, dá início à caçada. e as suas investigações levam-no a mergulhar a fundo na história da cidade, nos seus antiquíssimos mitos, lendas, segredos. 
Thriller arrepiante, que vendeu meio milhão de exemplares em Espanha, envolve o leitor numa cidade fascinante, Vitoria, que já tinha servido de cenário e inspiração a Os Pilares da Terra, de Ken Follet.

A minha opinião:
Li grandes livros e não me refiro às suas dimensões. Sei que os vou estimar e mais tarde reler.

O Silêncio da Cidade Branca é um destes livros e uma das minhas melhores leituras de sempre e são muitos os que constam nesse registo. Apaixonante. Thriller policial de uma trilogia que anseio ler. 

A capa belíssima e sombria sugeria-me outro género de literatura, mais crua e difícil de processar e não podia estar mais equivocada.

Assassínios com rituais que atentam contra os usos e costumes em lugares históricos de Vitoria. Um único cérebro com poder para mudar a vida de tantas pessoas que nada tinham a ver com os seus motivos.  Um assassino que retoma os seus crimes vinte anos depois. Pontos do passado que conduzem ao presente porque se ligam com personagens que reconhecemos como próximos numa cidade com um cenário de encantar. Tudo conjugado numa narrativa vibrante e envolvente que se desenrola a um bom ritmo e sem que seja possível antecipar quem é o psicopata. Um livro que se lê compulsivamente.  

Por tudo isto e para não gorar expectativas, nada mais acrescento. Apenas não deixem de ler. Muito provavelmente vão gostar!

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Ao Sol de Tânger

Autor: Christine Mangan
Edição: 2018/ setembro
Páginas: 288
ISBN: 9789722362641
Tradutor: Miguel Romeira
Editora: Presença

Sinopse:
A última pessoa que Alice espera ver quando chegou a Tânger, com o seu novo marido, é Lucy Mason. Depois de um acidente em Bennington, as duas jovens - outrora colegas de quarto inseparáveis - não se viam há mais de um ano. Mas ali está Lucy, a tentar reparar as coisas e recuperar a cumplicidade de antigamente. Alice talvez devesse sentir algum alívio por ter ali uma amiga, ela ainda não conseguiu adaptar-se à sua vida em Marrocos; tem medo de se aventurar na confusão das medinas e o calor opressivo apavora-a. Lucy, independente e destemida como sempre, ajuda Alice a sair do apartamento e a explorar o país. Porém, Alice depressa dá por si dominada por um sentimento que já conhece: o controlo constante de Lucy.

Para agravar a situação, John, o marido de Alice, desaparece e ela começa a questionar tudo à sua volta: a relação com a sua enigmática amiga, a decisão de se mudar para Tânger e até a sua própria sanidade mental. Uma história afiada como um punhal, numa estreia literária cheia de peripécias, exotismo e charme, escrita com tal mestria, que deixará o leitor arrebatado.

A minha opinião:
Gosto da capa. Bem escolhida. Facilmente e sem nada saber imaginei o tempo e o lugar.  E assumi que seria a foto de Lucy, quem dizia sempre o que lhe ia na cabeça, sabia o que queria e tratava de o conseguir.

Alice... é a outra personagem. Uma jovem mulher marcada pela morte dos pais e com algumas sombras que a rodeavam. 

E Tânger, uma estranha cidade sem lei que pertencia a todos e a ninguém, que pelo peso que tem na história é em si uma personagem com os seus odores, ruídos e clima. 

O enredo é sobre a estranha relação destas duas mulheres, outrora amigas, que alternadamente contam a sua versão. A ligação lembra a série de Elena Ferrante, apesar de o desiquilíbrio de forças entre elas ser mais acentuado. 

Mais um thriller, de estreia, muito competente. Cinematográfico, o que muito apreciei. Mistério, suspense e intriga.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A Última Mentira

Autor: Kimberly Belle
Edição: 2018/ junho
Páginas: 304
ISBN: 9789897103179
Tradutor: Ester Cortegano
Editora: Chá das Cinco

Sinopse:
O casamento de Iris e Will é perfeito: uma mansão num bairro excelente, carreiras apaixonantes e a excitação de tentarem ter o primeiro filho. Mas na manhã em que Will parte para uma viagem de negócios a Orlando, o mundo idílico de Iris desmorona-se. Um avião que se dirigia para Seattle despenhou-se e, de acordo com a companhia aérea, Will é uma das vítimas mortais.

Confusa e arrasada pela dor, Iris pensa que só pode ser um mal-entendido. Mas à medida que o tempo passa e não há sinal de Will, ela aceita relutantemente que ele morreu. Ainda assim, precisa de respostas. Porque é que Will mentiu sobre o destino da viagem? O que ia fazer a Seattle? E que mais mentiras contou? Infelizmente, há perguntas que só devemos fazer quando estamos preparados para as respostas.

A minha opinião:
Acabei de ler este livro sem saber bem o que opinar. Durante boa parte do livro achei que não convencia, mas mais para o fim conseguiu entusiarmar-me e o fim agradou-me mesmo. O idílio de sete anos de casamento desfaz-se com um trágico acidente de avião em que Iris descobre um rol de mentiras do seu perfeito marido. Não me chocou que uma psicóloga não se tenha apercebido. A paixão tira a lucidez e discernimento dos mais aptos e a relação era tão boa que tentavam ter um filho, contudo a narrativa não evoluiu como eu esperava e não me provocou aquele frémito de ansiedade que gosto, talvez, porque leio muito. 

Gostei da caracterização de um narcisista que dá credibilidade profissional à protagonista. Gostei da Iris e da sua familia. Gostei de Evan. E depois a busca de dados no rasto das pistas que ia apurando fazia sentido, mas... faltou algo. A surpresa. Nem o vilão me enganou.

 Enfim... um thriller "doméstico" mediano.

sábado, 3 de novembro de 2018

Se Esta Rua Falasse

Autor: James Baldwin
Edição: 2018/ setembro
Páginas: 208
ISBN: 9789896656461
Tradutor: José Mário Silva
Editora: Alfaguara

Sinopse: 
Se esta rua falasse, esta seria a história que contaria: Tish, 19 anos, apaixona-se por Fonny, que conhece desde criança. Fazem juras de amor e conjuram sonhos para a vida a dois. Sensual, violento e profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, com notas de raiva e ainda assim cheia de esperança. Publicado pela primeira vez em 1974, Se esta rua falasse é o quinto romance de James Baldwin, um dos nomes maiores da literatura americana do século XX e uma das vozes mais influentes do activismo pelos direitos civis.

Um romance manifesto contra a injustiça da justiça e uma história de amor intemporal, é hoje tão pertinente e tão comovente quanto no dia da sua publicação. 

A minha opinião: 
Uma tremenda história de amor. Belíssima como o são todas as grandes histórias de amor. E pungente. 

Escrita simples e inspirada que encanta e desarma quando se trata de pobreza, preconceito e despotismo. Mesmo entre negros, no Harlem, algumas décadas atrás. Se considerarmos que, James Baldwin faleceu em 1987 e fugiu ao racismo e homofobia, percebemos a atualidade deste romance, que provoca alguma angústia, sendo por isso um tanto difícil de ler. Essencial quando esses mesmos problemas ressurgem um pouco por todo o lado.

Fonny, o amor de Tish, narradora e protagonista, é acusado e preso por um crime que não cometeu e tudo gira à volta do esforço para o libertar, enquanto nos dá a conhecer as pessoas que são e o meio onde se movem.  

As personagens são grandiosas e inesquecíveis. Adorei a família de Tish, bem como os protagonistas, claro, e abominei a mãe e irmãs de Fonny. 

O final deixou-me abismada, e no primeiro momento não o entendi. Tive que ler e reler e fiquei naquela "será que é o copo meio cheio ou meio vazio"? Aconteceu o melhor ou o pior aquele jovem casal que tanto sofreu? Depois de uma perda conclui que foi o melhor mas... bolas... custou.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O Desaparecimento de Stephanie Mailer

Autor: Joël Dicker
Edição: 2018/ julho
Páginas: 661
ISBN: 9789896655884
Tradutor: José Mário Silva
Editora: Alfaguara

Sinopse: 
Na noite de 30 de Julho de 1994, a pacata vila de Orphea, na costa leste dos Estados Unidos, assiste ao grande espectáculo de abertura do festival de teatro. Mas o presidente da Câmara está atrasado para a cerimónia… Ao mesmo tempo, Samuel Paladin percorre as ruas desertas da vila à procura da mulher, que saiu para correr e não voltou. Só para quando encontra o seu corpo em frente à casa do presidente da Câmara. Dentro da casa, toda a família do presidente está morta.

A investigação é entregue a Jesse Rosenberg e Derek Scott, dois jovens polícias do estado de Nova Iorque. Ambiciosos e tenazes, conseguem cercar o assassino e são condecorados por isso. Vinte anos mais tarde, na cerimónia de despedida de Rosenberg da Polícia, a jornalista Stephanie Mailer confronta-o com uma revelação inesperada: o assassino não é quem eles pensavam, e a jornalista reclama ter informações-chave para encontrar o verdadeiro culpado.

Dias depois, Stephanie desaparece.

Assim começa este thriller colossal, de ritmo vertiginoso, entrelaçando tramas, personagens, surpresas e volte-faces, sacudindo o leitor e impelindo-o, sem possibilidade de parar, até ao inesperado e inesquecível desenlace.

O que aconteceu a Stephanie Mailer?

E o que aconteceu realmente no Verão de 1994?

A minha opinião: 
Não sou fã de Joël Dicker. A escrita e as personagens não me seduzem. Apesar disso, li quase todos os seus livros e admiro a sua capacidade de "emaranhar" uma trama a dois tempos e ainda conseguir "tecer" uma história consistente, plausível e perfeitamente perceptivel num esquema sem "malhas" soltas e ainda recheado de cor num padrão de belo efeito. 

Tanto quanto me lembro não difere muito do seu mais conhecido livro "A verdade sobre o caso de Harry Quebert". Admito que, como a expectativa não era alta foi bem sucedido e apesar das suas mais de 600 páginas foi um verdadeiro "page turner".

A ação passa-se em Orphea, nos Hamptons, (um lugar onde a vida parece mais doce) com várias personagens, em que todas elas escondem segredos que as torna suspeitas em algum momento. Jesse, instigado por Stephanie e Derek, os dois policias, na companhia de Anna, reabrem um doloroso processo de um quádruplo assassinato em 1994. Os equívocos e as revelações sucedem-se, enquanto a sorte protege quem procura recuperar pistas perservadas nesta narrativa hollywoodesca, de curtos capítulos e muito diálogo.

Em suma, não fica na memória, mas entretêm quanto baste. O final é francamente dececionante. Steven Bergdorf na sua relação com Alice foram os que menos me convenceram e o seu desfecho, ainda que irónico, manteve o mesmo registo. De resto, lê-se bem, mas está longe de ser dos thrillers policiais que mais gostei. 

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Fica Comigo

Autor: Ayobámi Adébáyò
Edição: 2018/ outubro
Páginas: 288
ISBN: 9789898864437
Tradutor: R
Editora: Elsinore

Sinopse: 
Yejide e Akin estão casados desde os tempos de faculdade, onde se conheceram e apaixonaram. Agora, decorridos vários anos, Yejide espera por um milagre: uma criança. É o que o seu marido quer, e o que a sociedade espera dela - e, entre consultas de fertilidade, curandeiros e tisanas, Yejide tem feito tudo o que pode para consegui-lo. A família de Akin, no entanto, começa a dar sinais de impaciência, e quando sugerem ao jovem casal acolher em casa uma segunda esposa, mais jovem, os dois percebem que terão de encontrar uma solução rapidamente.

Percorrendo os anos turbulentos da Nigéria da década de 1980 até aos nossos dias, Fica Comigo é uma história sobre a fragilidade do amor conjugal e do colapso da família sob o peso exasperante da maternidade, bem como da contradição de valores que coexistem no interior de uma mesma sociedade.

A minha opinião: 
Surpreendentemente bom. Mesmo muito. De quando em quando, surge um romance, de que nada sabia e que me consegue arrebatar com uma personagem feminina tão forte e marcante, nada ofuscada pelo marido, igualmente impactante, numa história que nada tem de banal ou simples quando se trata da Nigéria na década de 80 e que vai até dias mais próximos. 

A pressão da maternidade numa sociedade que aceita a poligamia. Uma visão sábia e intima do drama do casal sem sentimentalismo e muita emoção. Perda. Traição. E redenção. E que história!!!

Bem pensada e bem contada. Daquelas que não se esquecem. Uma jovem escritora que se lançou com o seu primeiro romance. Uau!

A Persuasão Feminina

Autor: Meg Wolitzer
Edição: 2018/ setembro
Páginas: 480
ISBN: 9789896605186
Tradutor: Raquel Dutra Lopes
Editora: Teorema

Sinopse: 
Jovem, brilhante e ambiciosa, Greer Kadetsky acaba de ser aceite na prestigiada universidade de Yale com uma bolsa de estudo. Para entrar, basta preencher um formulário. Algo que os pais, na sua descontracção de hippies da velha guarda, não fazem.

É assim que ela se vê relegada para uma universidade de segunda linha enquanto o namorado, Cory, filho de imigrantes portugueses, concretiza o sonho de ambos e segue para Yale.

Enquanto se debate com a inesperada falta de rumo, Greer conhece a carismática Faith Frank, figura icónica do feminismo americano. Ao assistir a uma palestra de Faith, a chama que Greer temia extinta ilumina-se.

Anos depois, já terminada a faculdade, Cory dedica-se à alta finança enquanto Greer luta pelos seus ideais com fervor. São percursos distintos que os obrigam a confrontarem-se com a complexidade da vida adulta.

Aos poucos, ambos se afastam do futuro que sempre imaginaram para si próprios. E um dia, vão perceber como estão longe daquilo que sonharam ser.

A minha opinião: 
Não li o "Os Interessantes", que aguarda vez na minha estante em muito boa companhia, mas adorei o romance "A mulher".

"A Persuasão Feminina" começa com a protagonista Greer jovem, zangada com os pais por não estar na faculdade que merecia quando conhece Faith Frank, uma acérrima defensora dos direitos das mulheres. Mais tarde, vão trabalhar juntas e criam um laço quase maternal, dada a diferença geracional. A mudança das personagens, inclusive das personagens secundárias relevantes no enredo, bem como as mudanças na sociedade, com os anseios e conquistas das mulheres antes e depois, ou as cedências que se fazem em prol de um bem que se julga maior. Um romance com um cunho marcadamente feminista, pertinente e atual. O poder e ambição a par do desenvolvimento e humanidade, tantas vezes longe do que idealizamos.

Naturalmente bem escrito. Um romance para se ler devagar.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O Castigo dos Ignorantes

Autor: Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 5)
Edição: 2018/ setembro
Páginas: 512
ISBN: 9789896655556
Tradutor: Elin Baginha
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
O REGRESSO DE SEBASTIAN BERGMAN

A estrela de um reality show é encontrada morta numa escola, com um disparo na cabeça. Amarrado a uma cadeira de sala de aula, posicionado de frente para um canto, com orelhas-de-burro. Um exame longo, de várias páginas, pregado na parte de trás da cadeira. A julgar pelo número de respostas erradas, a vítima falhou no teste mais importante da sua vida.

Esta morte será o primeiro de uma série de assassinatos contra várias personalidades dos media e o Departamento de Investigação Criminal é chamado. Lutam para encontrar provas e finalmente Sebastian Bergman descobre pistas em chats e cartas anónimas publicadas em jornais. O autor das cartas opõe-se à falta de educação entre os modelos da nova geração e fala muito sobre os assassinatos. Sebastian desafia-o e fica claro que o seu oponente sem rosto tem informações sobre os assassinatos a que ninguém além da polícia —e do assassino —tem acesso.

Neste novo caso Sebastian Bergman e sua equipa enfrentam um serial killer complexo e tortuoso, que ameaça a própria existência da equipa.

A minha opinião:
Finalmente terminei. Uma história bem contada quando chega ao fim é um climax ansiado. Para mais, esta dupla de autores não deixa a intensidade narrativa quebrar em qualquer um dos volumosos livros e o final é sempre tremendo. Como leitores, ansiamos por mais, porque o próximo já foi iniciado com o desfecho deste livro, completamente inesperado.

A equipa de Riksmord continua eficaz e emocionalmente caótica. Qualquer um deles lida com dificuldades ou problemas que atenuam com o trabalho. Esta faceta humana torna-os mais realistas, enquanto a dinâmica do grupo é volátil e gera empatia.

Sebastian Bergman, um mentiroso viciado em sexo para esquecer a dor e a culpa encontra um criminoso à sua altura, motivado para acabar com a idolatria da estupidez, punindo primeiro os ignorantes que reprovam nos testes e depois os que os promovem. Uma chamada de atenção ao que singra hoje em dia, enquanto os crimes continuam e a equipa busca o culpado, no que terá sucesso graças à temeridade de Sebastian. Mais uma vez, muito bom.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Fim de Turno

Autor: Stephen King
Edição: 2018/ julho
Páginas: 376
ISBN: 9789722535458
Tradutor: Ana lourenço
Editora: Bertrand

Sinopse:
Bill Hodges, que agora gere uma agência com a colega Holly Gibney, fica intrigado com a letra Z escrita a marcador na cena de um crime para que são chamados.
À medida que se vão acumulando casos idênticos, Hodges fica espantado ao perceber que as pistas apontam para Brady Hartsfield, o célebre «assassino do Mercedes» que eles ajudaram a condenar. Devia ser impossível: Brady está confinado a um quarto de hospital num estado aparentemente vegetativo.

Mas Brady Hartsfield tem novos poderes letais. E planeia uma vingança, não só contra Hodges e os seus amigos, mas contra a cidade inteira.
O relógio bate de formas inesperadas…

A minha opinião:
Depois de ler "Sr. Mercedes", "Perdido e Achado", tinha que ler "Fim de Turno", o último livro da trilogia Bill Hodges do género Thriller Policial, que fecha em grande o ciclo Brady Hartshield. Em sequência, com uma breve resenha no início do primeiro,  pode perfeitamente ser lido sem os restantes. Apenas quem se apega a Holly e Bill como eu, tem que os ler todos, sem perder este Fim de Turno (termo utilizado na passagem à reforma de um policia). Fim de Turno é o que está prestes a acontecer ao antigo parceiro de Bill que o chama para um último caso. Um crime seguido de suicídio. Uma vitima do mediático assassino do Mercedes, que deixa estranhas pistas que o det-ref e a sua sócia seguem. Afinal, Bill duvida do estado vegetativo do príncipe do suicídio. 

Para este assassino não é o controle. Suicídio é controle. "Brady sabe que há alguma coisa porque toda a gente se preocupa, e os adolescentes preocupam-se mais do que toda a gente." (pag. 254) A capacidade de transformar o desagradável ruído de fundo dos adolescentes em monstros devastadores que os conduzem a um final definitivo que não desejam é o poder do vilão desta história. Afinal, cada suicídio que chega às redes sociais gera novas sete tentativas, cinco que são só para chamar a atenção e duas que são reais. 

O brilhantismo da narrativa repete-se com a mestria de Stephen King e o seu fascínio pelo terror e o fantástico. Adequando os vícios em eletrónica e jogos, bem como certos desenhos animados que são considerados potencialmente perigosos, cria uma trama hipnótica e genial, de suspense até ao fim. Muito fixe. 


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Dez Anos Depois



Autor:Liane Moriarty
Edição: 2011/ junho
Páginas: 424
ISBN: 9789722345354
Tradutor: Ana Lourenço
Editora: Presença

Sinopse:
Quando, aos trinta e nove anos, Alice Love dá uma aparatosa queda numa aula de step, a última década da sua vida parece ter-se apagado por completo da sua memória. Tem novamente 29 anos, está apaixonadíssima pelo marido e à espera do primeiro filho. Só há um pequeno problema: tudo isto se passou há dez anos… No presente, Alice é mãe de três filhos, enfrenta um difícil processo de divórcio e está de relações cortadas com a irmã, que adora. Conseguirá alguma vez reencontrar a mulher que foi na fase mais feliz da sua vida?


A minha opinião:
É inevitável pensar como me sentiria se perdesse dez anos da minha memória e que coisas me iriam surpreender. Os filhos esquecidos enquanto indivíduos com as suas próprias personalidades, peculiaridades e histórias. E tantas pessoas que entraram e saíram da minha vida seriam apagadas.

Muito estranho, mas realizar uma história divertida, credível e empolgante é um feito para Liane Moriarty. Não tão brilhante quanto O Segredo do Meu Marido ou Pequenas Grandes Mentiras, que suponho que sejam livros posteriores, mas ainda assim a capacidade narrativa, eloquência e o carisma das personagens que prendem o leitor está lá. E não ficam pontas soltas. Tudo bem desenvolvido e resolvido sem maçar. 

Uma leitura reconfortante, como por vezes eu gosto e preciso. 

Alice Love te, uma nova oportunidade de mudar de rumo e quantos de nós não gostariamos disso?

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Carne

Autor: Rosa Montero
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 192
ISBN: 978-972-0-03013-9
Tradutor: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espetáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante.

No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô, trinta e dois. Começa o jogo…

A narração desta aventura irá mesclar-se com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional - e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?

Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento.

A minha opinião:
Demorei a conseguir ler este romance. A sinopse pareceu-me promissora mas a oportunidade  não surgiu antes e apenas nesta atribulada fase em que os afazeres e inquietações são muitos foi possível concretizar este desejo. Com este romance, a escritora/jornalista entrou definitivamente na minha lista do autores que não dispenso de ler. 

A necessidade de amor, o abismo do desamor, a raiva e glória da paixão, contemplados na exposíção sobre Escritores Malditos que a curadora de arte se preparava para apresentar ao mundo e que intercala em pequenos curiosos excertos na narrativa vibrante e mordaz do seu relacionamento com Adam, o gigolo, também eles malditos.

Soledad sente a inexpugnável passagem do tempo e o apelo da carne de uma forma que não pode deixar de exteriorizar com humor e mágoa. A parafernália de truques e produtos para retardar o envelhecimento e combater as maleitas que por medo ou debilidade se ganham muito me divertiu. Soledad é uma mulher como tantas outras e certamente este romance tem um pouco de autobiográfico, no que concerne à pressão social, o isolamento e a solidão de certas mulheres, nomeadamente mulheres de carreira. Adam, o gigolo não é o tipo de personagem que eu esperava encontrar. Surpreende e desarma mas não cativa. O apelo e a empatia/ antipatia com este livro depende exclusivamente de Soledad.

Rosa Montero aparece como personagem secundária (com algum relevo) na trama de Soledad Alegre, que bem se poderia chamar Crónica do Desamor.

Tr
epidante, e lúcido, numa escrita desarmante e envolvente é profundamente sentido, pelo menos para mim. Recomendo sem reservas.

O Segredo da Minha Mãe

Autor: J. L. Witterick
Edição: 2018/ março
Páginas: 208
ISBN: 9789898869791
Tradutor: Marta Mendonça
Editora: TopSeller

Sinopse:
Contada de quatro perspetivas diferentes, esta é a história comovente de duas mulheres que serão recordadas pela sua tremenda coragem e humanidade.

Em 1939, as tropas de Hitler invadem a Polónia e põem em marcha uma perseguição desumana ao povo judeu. Todos sabem que proteger judeus num país ocupado pelos nazis é uma sentença de morte.

Mas Franciszka e a filha, Helena, movidas por um profundo sentimento de justiça e respeito pela vida humana, decidem arriscar tudo para abrigar duas famílias judaicas e um soldado alemão desertor na sua modesta casa em Sokal. Uma das famílias fica escondida numa cave improvisada por baixo da cozinha. A outra, num palheiro por cima da pocilga. O soldado fica num sótão exíguo.

Para que todos possam sobreviver, Franciszka e a filha terão de ser mais astutas do que os vizinhos e do que os temíveis comandantes alemães, que montam guarda em frente à casa. As duas mulheres estão dispostas a tudo para salvá-los, o que implica não só escondê-los e alimentá-los, mas também conseguir manter acesa dentro deles a chama da esperança.

A minha opinião:
Não pensei que pudesse gostar tanto deste livrinho comovente e inspirador. A Segunda Guerra Mundial é um tema de sofrimento que me incomoda muito e não procuro ler, mesmo tratando-se de ficção. Este maravilhoso livro foi inspirado numa história verídica de nobreza de espírito, inteligência e coragem. Pessoas extraordinárias que confirmam que o amor é a única coisa que se recebe em maior quantidade do que se dá.

O segredo da minha mãe com quatro singelos testemunhos ligados entre si lê-se como se fosse poesia, que deveria ser lida por qualquer um como leitura obrigatória. 

Sem mais a acrescentar porque a sinopse não ilude, sugiro que entrem na leitura como eu o fiz. Sem expectativas e relativa informação. Certamente que irão gostar. 

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Trânsito

Autor: Rachel Cusk
Edição: 2018/ julho
Páginas: 232
ISBN: 9789897224454
Tradutor: Ana Matoso
Editora: Quetzal 

Sinopse:
No rescaldo do colapso da família, uma escritora e os seus dois filhos mudam-se para Londres. Essa perturbação vai ser o catalisador de uma série de transições - pessoais, morais, artísticas e práticas -, à medida que ela, Faye, se esforça por construir uma nova realidade para si e para os filhos. Na cidade, é confrontada com aspetos da realidade que sempre tentara evitar - aspetos de vulnerabilidade e poder, de morte e renovação. Esta é a luta para se religar a si própria e à sua crença na vida.

Neste segundo livro de um preciso, curto e ainda assim épico ciclo, Cusk capta com inquietante contenção e honestidade o desejo de habitar uma vida e ao mesmo tempo abandoná-la, e a tortuosa ambivalência que anima a nossa necessidade do real.

A minha opinião:
Mais uma estreia. Não comecei pelo primeiro - A Contraluz, mas antes pelo segundo desta triologia, atraida pela sinopse e pelo título. 

Quando algo não foi concluido ou está a  decorrer, em tom de brincadeira digo que está em Trânsito. Por isso, este título faz todo o sentido tratando-se de uma mudança de vida após um divórcio em que a personagem/ narradora saí do campo para a cidade de Londres, decide comprar uma casa má num lugar bom e descobre o mal nos vizinhos. A premissa começa com um email de uma astróloga que alega saber da sua situação e pode ajudá-la a tirar proveito.

A análise das circunstâncias banais do quotidiano e de si mesma como se contemplada à distância, sem grandes rasgos emocionais, é fascinante e dei por mim absorta num romance que não tem muita ação, nem enquadramento ou previsiel desfecho. Decorre e pronto. Simples assim mas muito eficaz. E bem escrito. Elegante introspeção que nos leva à reflexão. Gosto disso. Recordou-me alguns romances que li de Julian Barnes. 

Fiquei com muita vontade de ler o romance que se segue e espero que não demore muito porque Faye ficou na minha cabeça. Uma mulher só. Retrato atual e acutilante. Uma vida sem história. Narrativa forte e pertubadora em que "observamos" gestos e maneirismos, competitividade, ansiedade, raiva e alegrias, sobretudo em necessidades tanto fisicas como emocionais. Padrões de comportamento.

Muito bom mas não para todos ou em qualquer momento. Um livro que requer disponibilidade.

sábado, 1 de setembro de 2018

Ala Feminina

Autor: Vanessa Ribeiro Rodrigues
Edição: 2018/ março
Páginas: 272
ISBN: 9789898892041
Editora: Desassossego

Sinopse:
Pode a reclusão revelar mistérios da condição da mulher?


O que têm em comum uma colombiana, uma romena, uma angolana, uma venezuelana, uma uruguaia, três brasileiras e nove portuguesas? Para elas, a liberdade é um desejo que carregam na mente, livre para sonhar, com o corpo preso num cárcere, labirinto entre o Rio de Janeiro, o Porto e Lisboa.

São mães, vaidosas, filhas, amantes, sonhadoras, escrevem cartas, leem livros, amam. São barqueiras invisíveis entre dois mundos: o mundo cá de fora e um céu gradeado. Este é mais do que um livro-reportagem, é a intuição subjetiva a partir de conversas com mulheres privadas de liberdade: os medos, os desafios, as conquistas, os desabafos, a ânsia de ser livre.

A minha opinião:
Fiquei curiosa quando percebi que este livro de não ficção era sobre mulheres reclusas. "Tendemos a olhar o mundo e os outros com as lentes da nossa própria condição. Com a fronteira dos nossos próprios caminhos e limitações. Temos uma lente que é a nossa construção social. E isso é sempre limitador ou indagador."  (pag.71)  

A minha consciência indagadora e limitada levou-me a ler este livro. A abrir o meu prisma sobre a condição destas mulheres. "Sonhos, ansiedades, dificuldades, tempo ocupado, reinserção social, criminalidade" (pag. 106) violência e dor. Em suma, a condição feminina em reclusão, porquê e como subsistem.  

O peso do tempo fechada. "O tempo, sempre o tempo, precioso traiçoeiro se não ocuparem os dias. Uma faca de dois gumes, uma densidade que impõe a inércia e a autodestruição." (pag.107) (PELE, Afroreggae e Reklusas). Projectos ocupacionais e não só. Tantos testemunhos apurados em sete anos entre lá e cá do Oceano Atlântico. Na sua essência muitos são semelhantes. Lamento, engano, culpa, mas nunca desapego afectivo que dá alento, esperança e disponibilidade para a mudança ao sairem.

Fragmentos de histórias escolhidas. De azar, ambição e ilusão. Narrativas paralelas. Desabafos de alma. A forma de ver, pensar e sentir da jornalista que compôs este livro com intenção de dar voz às margens. Simples e cru, em passagens quase poéticas, deve ser lido para sentir o pulsar destas mulheres tão genuinas e humanas. 

Apesar disso, não correspondeu às minhas expetativas. Não deve ser lido de seguida porque se torna um tanto repetitivo, monocromático como a capa. Por outro lado, talvez não tenha sido o meu melhor momento para o ler. Não deixem por isso de o experienciar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O Homem que Não Ligou

Autor: Rosie Walsh
Edição: 2018/ junho
Páginas: 352
ISBN: 9789892342450
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: ASA

Sinopse:
Imagine que conhece um homem e se apaixona loucamente e é recíproco. São almas gémeas e um dia ele desaparece sem deixar rasto.

É o que acontece a Sarah. o seu primeiro encontro com Eddie é acidental mas tão intenso que não voltam a separar-se durante sete dias. São dias mágicos em que partilham tudo e se dão a conhecer sem reservas. Sabem que o que sentem um pelo outro é profundo e verdadeiro. Até que ele parte numa viagem breve. Promete telefonar. Mas não telefona.


Nunca mais.

Passam-se semanas, meses… e a preocupação de Sarah intensifica-se. Não acredita nos amigos, que tentam convencê-la a esquecê-lo. Afinal, dizem, ela não é a primeira pessoa (nem a última) a ser ignorada por um amante. o melhor, garantem, é seguir em frente e não pensar mais no assunto. Mas ela não é capaz. Pois sabe - e sabe, com toda a certeza - que algo de terrível aconteceu.

E um dia descobre que, afinal, tinha razão.

A minha opinião:
Apesar da capa pirosérrima, do título que sugere outro enredo, e da nota de capa sobre amar perdidamente e acreditar contra tudo e todos me parecer uma lamechice, é surpreendentemente bom. Muito bom mesmo. Um livro, contrário às piores expectativas pode ser assim, simplesmente maravilhoso. A narrativa bem conseguida, as personagens de forte personalidade e carisma e a trama que nos apanha desprevenidos fazem deste um dos melhores que já li, porque conseguiu emocionar-me como raramente acontece, para mais num romance e consistentemente em todo ele. Recordou-me os romances de Charles Martin, que eu adoro.

Um homem esfuziante e atraente que apareceu numa parte do mundo que ela tanto temia e pintou tudo de cores vivas. Um amor improvável. O elo desta história que se descontroi com um regresso ao passado num quebra cabeças muito bem feito, em que mesmo um leitor experiente não antecipa numa trama que parece banal sem o ser, em que as personagens de ficção tornam-se reais. Resilência, força e recompensa.  

Sei que estou a ser enigmática, mas não devo revelar mais. Espero que partam à descoberta como eu fiz.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Deixo-Te Para Não Te Perder

Autor: Taylor Jenkins Reid
Edição: 2018/ agosto
Páginas: 336
ISBN: 9789722362528
Tradutor: Cristina Lourenço 
Editora: Presença

Sinopse:
Um romance deslumbrante sobre casamento, laços familiares e uma mulher singular. O casamento de Lauren e Ryan atinge o ponto de rutura e ambos tomam a decisão pouco convencional de se afastarem durante um ano, na esperança de que isso lhes permita apaixonarem-se de novo. Durante esta separação, cada um é livre de viver como entender, à exceção de nenhum estabelecer qualquer contacto com o outro.

Lauren inicia uma viagem de autodescoberta e depressa se apercebe de que tanto os seus familiares como os seus amigos têm ideias muito próprias sobre o significado do matrimónio. a perceção desse facto e os desafios decorrentes da separação de Ryan mudam a visão de Lauren sobre monogamia e casamento. E ela passa a interrogar-se: quando estamos ligados a alguém sem um compromisso de fidelidade e quando vivemos uma relação sem casamento - ou seja, quando já não há laços entre o amor e o desejo - a que damos nós valor? Pelo que estamos nós dispostos a lutar?

Um romance surpreendente sobre o que acontece quando o amor se dissipa. E sobre continuarmos apaixonados, lutarmos pelo amor, renunciarmos a ele ou entregarmo-nos com toda a nossa alma. É, sobretudo, a história de um casal preso a um velho arquétipo, mas à procura de um novo caminho rumo à felicidade.

A minha opinião:
Literaura light. Precisava disto depois do romance anterior. Sem ser fútil ou demasiado juvenil, mas que não me obrigasse a um carrocel de emoções fortes. E acertei em cheio. Uma pequena maravilha. As personagens simpáticas e francas no contexto de uma relação que descambou analisada, sob a perspectiva dela e epistolar dele (emails). Divertidamente séria e dividida em cinco partes esta inteligente história que tantos casais já vivenciaram. Aquele ponto do casamento em que a maioria cede. 


"Tudo o que tens a fazer é nunca desistir."  (pag. 326)

Lauren lia muito, como revelou num primeiro encontro após a separação. Ficção, principalmente. Thrillers. Policiais. Na verdade deixara de ler tudo o que tivesse uma história de amor. Era muito menos deprimente ler sobre homicídios. 

A Presença frequentemente nos presenteia com romances inspiradores. Leves e encantadores, que nos fazem sorrir e sonhar com o futuro, como este, em que um belo e frágil casamento não se perdeu. E outros relacionamentos com personagens enternecedoras giram em torno dos protagonistas. Contudo, também nos induz em erro porque parece que se leêm em poucas horas e damos por nós arrebatadas durante dias, a virar página atrás de página (quase transparente) sem vislumbrar o fim e sem pressa de o alcançar. Delicioso engano. E sempre com o livrinho a reboque, bem disfarçado em qualquer mala. 

Não conhecia a autora e gostei tanto que espero repetir. Fiquei apenas intrigada por não saber o que aconteceu ao pai de Lauren. Enfim... mistério, que enalteceu a familia. 

domingo, 12 de agosto de 2018

Jogos de Raiva

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Edição: 2018/ maio
Páginas: 448
ISBN: 9789722065047
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui?

A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada.

É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo.
Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias.
É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor.
É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo


A minha opinião:
Estou a ler menos. Retomar o labor habitual após as férias custa e com este livro é garantido que logo na primeira página levamos um abanão, ou melhor, um estalo bem dado para acordar. Depois... é perceber como e porquê ao longo de uma narrativa que sem peias nem meias palavras explode à frente dos nossos olhos para nos recordar o que queremos esquecer ou ignorar. Assuntos tabu como o suicidio, a depressão, o racismo, são abordados de um modo que, os mais distraidos ou pouco exigentes não podem deixar de reparar, mesmo que não percebam o quanto custou a aguçar. Leitura exigente, durissima em algumas partes, abraça causas que não procuramos num romance e extrema-as até ao limite, sem com isso nos impedir de ler compulsivamente até ao fim. De assinalar, a escrita apurada, assertiva e tão lúcida de Rodrigo Guedes de Carvalho que nos obriga a ler e a reler. Importa refletir sobre o jornalismo de hoje e o impacto das redes sociais na vida quotidiana. 

A história gira em torno de uma familia do Porto. Riquissimas personagens. De conteúdo. Tanto de nós existe em cada uma delas. Os mais atentos, sensiveis e inteligentes vão perceber o quanto a vilania, ira, vaidade e inveja se manifesta e como combatê-la. A familia na dor da perda e na dor de não entender, subsiste e supera, com o amor que os une apesar das diferenças. 

Como Bernard Shaw tinha aconselhado numa lição para alunos de escrita criativa:"Se não consegues livrar-te dos esqueletos da tua familia, ao menos fá-los dançar".  (pag. 182)

Rodrigo, obrigada por esta dança.