segunda-feira, 22 de maio de 2017

A Construção do Vazio

Autor: Patrícia Reis
Edição: 2017/ março
Páginas: 160
ISBN: 9789722062312
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo.
Será possível atenuar a dor?
Como se resiste ao fantasma real da infância?
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida?
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final.

Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.

 
 A minha opinião:
Gosto muito da escrita de Patrícia Reis. Incisiva e económica nas palavras a marcar uma ideia ou emoção. Concisa e eficaz. Irrepreensivel. Sabia à priori que não seria uma leitura fácil devido ao tema. Desejava e receava ler este livro.

No entanto, Sofia, "a menina-desastre", conquistou-me de imediato com a sua terível narrativa. A mulher que se construiu no vazio e no silêncio, marcada desde a infância pelo abuso e violência exercida pelo pai e a maldade da mãe. Uma mulher solitária que perserva uma mão cheia de amigos. Uma sobrevivente. Não era a única naquele edificio onde vivia.
 
Leitura avassaladora. O sofrimento e busca de si mesma em Sofia levava-me a desejar-lhe um final feliz e a admirar mais o brilhantismo de Patrícia que, sem subterfúgios ou banalidades, sabe contar uma estória sem que me sinta tentada a abandonar a leitura e ainda me leva a refletir sobre o que se esconde entre quatro paredes e o que se oculta ao escurtinio publico, e como resistir a uma presença dominadora e manipuladora.

Possivelmente, foi o melhor romance que já li desta autora. Faltou-me no meu rol de leituras o "Por Este Mundo Acima" onde Sofia surgiu inicialmente. 

domingo, 14 de maio de 2017

A Avó e a Neve Russa

Autor: João Reis
Edição: 2017/ fevereiro
Páginas: 224
ISBN: 9789898843654
Editora: Elsinore

Sinopse:
Babushka está doente. Esta russa idosa, emigrante no Canadá, sobreviveu ao acidente nuclear de Chernobyl. Esconde no peito a doença que a obriga a respirar a contratempo e lhe impõe uma tosse longa e larga e comprida e sem fim — um mal que a faz viver mergulhada nas memórias do seu passado luminoso, a neve pura da Rússia, recordação sob recordação.
Na fronteira com a realidade caminha o seu neto mais novo, de dez anos, um menino que não desiste de puxar o fio à meada e de tentar devolver a avó ao presente. Para ajudar Babushka, precisa de encontrar uma solução para os seus pulmões destruídos, sacos rasgados e quase vazios — mesmo que isso o obrigue a crescer de repente e partir em busca de uma planta milagrosa, o segredo que poderá salvar a família e completar a matriosca que só ele vê.

Narrado na primeira pessoa e escrito a partir da perspetiva de uma criança, A Avó e a Neve Russa é um livro feito da inocência e da coragem com que se veste o deslumbramento das infâncias. Romance simples e emotivo sobre a força da memória e da abnegação, relata a peregrinação de um neto através da esperança, do Canadá ao México, para encontrar a possibilidade de um final feliz.

A minha opinião:
Este livro não foi desejado, mas de tão bem recomendado fiquei sugestionada.

Muito bem concebido na apresentação.  A imagem enternece, a sinopse promete, enquanto a capa apetece afagar. 

À primeira vista, pareceu-me literatura infantil. Mudei de opinião com um olhar mais atento. A inocência e cuidado de um "homenzinho" de 10 anos que procura salvar a avó Babushka, uma vez que não compreendia como os médicos poderiam ajudar com a observação ou desenho de pássaros (confusão do termo oncologia com ornitologia). O recurso a todo os amigos que, na sua boa fé tinham alternativas. A demanda para encontrar um cacto milagroso e impedir que fosse entregue aos serviços sociais ou a uma familia de acolhimento se ficasse só com o irmão Andrei. Tudo isto, explicado por quem conhece o mundo através das palavras dos adultos e faz enleados raciocínios que a sua compreensão permite. Extensos demais no meu entender, mesmo considerando que este menino é especial. Talvez por isso, não tenha correspondido ao meu ideal. Bem escrito, sem dúvida, dentro do plano. Exaustivo, ambicioso e nem sempre credível. Apesar de tudo, inspirado e bem concluido.  

domingo, 7 de maio de 2017

Hoje Vai Ser Diferente

Autor: Maria Semple
Edição: 2017/ abril
Páginas: 304
ISBN: 9789724751313
Editora: Editorial Teorema

Sinopse:
Hoje vai ser diferente! - pensa Eleanor. 
E, de facto, vai… mas não da maneira que ela imagina. 

A vida de Eleanor Flood é um caos. Mas ela está decidida a mudar. Hoje vai ser diferente, acredita. Hoje vai tomar duche e vestir roupa elegante. Vai à aula de ioga depois de deixar o filho, Timby, na escola. Vai almoçar com uma amiga. Não vai dizer asneiras. Vai tomar a iniciativa na cama com o marido, Joe. Mas antes de conseguir pôr em prática o seu plano, a realidade obriga-a a travar… a fundo.

Pois hoje é o dia em que Timby decide fingir-se doente para ficar com a mãe. É também o dia em que Joe resolve gozar uns dias de férias mas se esquece de avisar Eleanor. E quando parece impossível as coisas piorarem, um antigo colega desencanta uma relíquia do passado, obrigando-a confrontar-se com velhos segredos de família e uma irmã desaparecida.

Introspetivo, trágico e cómico, "Hoje Vai Ser Diferente" marca o tão-aguardado regresso de Maria Semple após o sucesso de "Até Ao Fim do Mundo".

A minha opinião:
A expetativa era alta quando encarei este livro nas estantes de uma livraria e apressei-me a comprar. Sei o quanto apreciei a escrita e a irreverência de Até ao Fim do Mundo

Na senda do anterior com personagens extravagantes. Geniais intelectualmente mas desajustados na relação com os outros e no quotidiano mundano. Humor corrosivo e drama com Eleanor. Senão vejamos:
Perdeu a mãe aos nove anos, por causa de um cancro de pulmão. O pai, um bêbedo, abandonou as filhas que tiveram que se desenvencilhar sózinhas sem nunca saberem se ele regressava. A irmã, virou-se desconcertamente contra ela depois de se casar com um pedante rico e controlador de New Orleans. Casou com Joe, um conceituado cirurgião especializado em mãos, abandonou uma carreira como novelista gráfica com intenção de escrever um livro e teve um filho.  

Loucura e bravata com antecendentes que o justificam. Uma personagem tão terra a terra e despretensiosa que conquista. Uma personagem que assume as suas fragilidades e o desenquadramento com o meio em que vive de Seatle. Uma personagem que luta contra a carência e dor da ausência. E Timby, um garoto especial que a observa e protege com amor. 

Narrativa vibrante e divertida. Escrita fluída e ritmada que prende num desconcertante carrocel de emoções. Mais um romance de Maria Semple que se estranha mas que entranha. Narrativa sem falhas ou gralhas que me chamou a atenção para a tradução, que confirmei ser de Tânia Ganho. 

domingo, 30 de abril de 2017

O Velho e o Gato

Autor: Nils Uddenderg
Edição: 2017/ março
Páginas: 224
ISBN: 9789722533331
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
O Velho e o Gato conta a história de como Nils Uddenberg, antigo professor universitário de Psiquiatria, se tornou dono de uma gata, embora nunca tenha querido ter qualquer espécie de animal doméstico. Certa manhã de inverno, o autor encontrou uma gata no jardim da sua casa. A partir desse momento, Kitty introduziu-se, suave mas firmemente, na sua vida, para nunca mais a abandonar. Sendo, um escritor premiado com formação em Psiquiatria, não podia deixar de investigar mais profundamente a vida interior do gato, assim como a natureza da relação entre um animal e um ser humano.

Com humor e um grande sentido de observação, Nils conta-nos como a sua vida mudou depois de Kitty ter ido viver para sua casa. Os sentimentos que ela desperta nele são uma surpresa para o autor, que não tarda a dar por si apaixonado pela encantadora gatinha tigrada.


A minha opinião:
Uma história banal, quase ridicula. Uma história de amor. 

Uma gata determinada, metódica e cautelosa venceu a resistência de um septuagenário professor e ofereceu calor e aconcheco que descontrai e inspira segurança. No âmago independente. Assim são os gatos. Animais domésticos por opção que caçam por prazer. 

Pequeno livro com imagens singelas e enternecedoras, uma narrativa suave e pessoal para um leitor que aprecie a companhia destes animais. Como eu, que desde que me lembro sempre tive a presença de um gato por perto. Um gato que se mantêm vigilante e descontraído enroscado ao meu lado, que parte quando se sente mais desperto e ativo. Um gato que regressa quando lhe apetece. 

Este livro é um pequeno mimo como o que os gatos me proporcionam. Um mimo antes de leituras mais pesadas ou exigentes e não tão agradáveis e aprazíveis. Um mimo que revela algumas curiosidades sobre felinos, umas que eu sabia e outras não, assim como grandes autores que escreveram sobre a natureza destes animais. Um livro de lazer. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

A tentação de sermos felizes

Autor: Lorenzo Marone 
Edição: 2017/ março
Páginas: 216
ISBN: 978-972-0-04849-3
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Um velho e cínico «embusteiro».

Sem nos alongarmos mais, poderíamos assim definir Cesare Annunziata. Setenta e sete anos de idade, viúvo há cinco, e pai de dois filhos, Cesare decidiu, positivamente, marimbar-se para os outros. As suas opiniões são marcadas por uma ironia feroz, talvez por medo de não ser capaz de continuar a transmiti-las por muito mais tempo, e a sua vida segue o curso normal, rumo ao final previsível e universal, entre os copos de vinho tomados com Marino, o velho neurótico do segundo andar, as conversas indesejadas com Eleonora, a louca «velha dos gatos», e os breves encontros sexuais com Rossana, prostituta e enfermeira a meio tempo, que concede uma especial atenção aos viúvos do bairro.

Mas um dia chega ao prédio a jovem e enigmática Emma, casada com um indivíduo sinistro, com quem nada parece ter em comum, e Cesare não demora muito a perceber que há algo de errado no casal. No entanto, tal não significa que se vá intrometer… exceto quando recebe um silencioso pedido de ajuda, expresso no olhar triste de Emma.

Os segredos que Cesare desvenda acerca dos novos vizinhos, mas, em particular, aquilo que descobre sobre si mesmo, irão formar o enredo deste romance formidável, revelando-nos uma personagem singular, que vive em alegre contradição, entre o cinismo mais feroz e a humanidade mais profunda.

 
A minha opinião:
Romance formidável. Adorei da primeira à ùltima página.

A personagem Cesare Annunziata é uma personagem singular e marcante. Um "velho" com uma humanidade e autenticidade que lhe dá vida para além das páginas deste livro. Um embusteiro no cinismo que exibe com os seus comentários irónicos e os títulos falsos para intimidar ou persuadir os outros a agir corretamente. Um "velho" que segue a sua intuição e gosta de viver de uma forma fantasiosa e faz tudo para não se sentir idoso porque decidiu atirar-se à vida enquanto lhe é permitido. Um "velho" lúcido com dificuldade em demonstrar afetos. Um "velho", como eu gostaria de conhecer.

Uma história tão simples e tão bem conseguida. Por vezes, são as melhores. As que nos tocam mais profundamente porque sentimos mais próximas. Mas... este romance não é um mero exercício de escrita lamechas e "cor-de-rosa". Um olhar em redor numa cidade como Nápoles. Um olhar que detecta os problemas da velhice, da solidão, do vazio que se colmata mal e da violência doméstica. 

Narrativa consistente e sem quebras. Escrita fluída e corrente. Um romance para qualquer um. Drama e ternura em doses iguais com ótimas personagens e um Cesare. Formidável!

domingo, 23 de abril de 2017

A Rapariga de Antes

Autor: J. P. Delaney
Edição: 2017/ abril
Páginas: 400
ISBN: 9789896652029
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
«Por favor, faça uma lista de todos os bens que considera essenciais na sua vida.»

O pedido parece estranho, até intrusivo. É a primeira pergunta de um questionário de candidatura a uma casa perfeita, a casa dos sonhos de qualquer um, acessível a muito poucos. Para as duas mulheres que respondem ao questionário, as consequências são devastadoras.

EMMA: A tentar recuperar do final traumático de um relacionamento, Emma procura um novo lugar para viver. Mas nenhum dos apartamentos que vê é acessível ou suficientemente seguro. Até que conhece a casa que fica no n.º 1 de Folgate Street. É uma obra-prima da arquitectura: desenho minimalista, pedra clara, muita luz e tectos altos. Mas existem regras. O arquitecto que projectou a casa mantém o controlo total sobre os inquilinos: não são permitidos livros, almofadas, fotografias ou objectos pessoais de qualquer tipo. O espaço está destinado a transformar o seu ocupante, e é precisamente o que faz…

JANE:Depois de uma tragédia pessoal, Jane precisa de um novo começo. Quando encontra o n.º 1 de Folgate Street, é instantaneamente atraída para o espaço —e para o seu sedutor, mas distante e enigmático, criador. É uma casa espectacular. Elegante, minimalista. Tudo nela é bom gosto e serenidade. Exactamente o lugar que Jane procurava para começar do zero e ser feliz.
Depois de se mudar, Jane sabe da morte inesperada do inquilino anterior, uma mulher semelhante a Jane em idade e aparência. Enquanto tenta descobrir o que realmente aconteceu, Jane repete involuntariamente os mesmos padrões, faz as mesmas escolhas e experimenta o mesmo terror
que A Rapariga de Antes.

A minha opinião:
Gosto de thrillers psicológicos. Daqueles que me deixam arrepiada e inquieta. Por esse motivo, este livro não me podia passar ao lado. A complexidade ou a perturbação de algumas personagens atrai-me para uma leitura que sei compulsiva e viciante e induz em erro até um conseguido final.

Um elemento novo é quase protagonista desta narrativa onde antes e agora se passa a ação com duas mulheres, Emma e Jane, que vivem esperiências que o autor compara como se de duas imagens onde procuramos as diferenças se tratasse, e refiro-me, à casa minimalista e tecnológicamente avançada, concebida para uma vida confortável e segura que as personagens ambicionavam. Para a conseguirem a um módico valor sujeitam-se a um escrutínio por inquérito e aceitam muitas regras que o obscecado Edward impõe e que põem em causa o contrato se não forem cumpridas.

Li a entrevista do autor em que fiquei a saber que usou um pseudónimo para este livro que levou 15 anos a escrever.  O rumo do enredo foi mudando e nota-se várias influencias inclusive um Edward ao jeito de Mr. Grey e um desvio do foco da trama. A dado momento, algo de muito pessoal do autor passou para a narrativa através de Jane, a minha personagem favorita.


Um livro que merece bem a pena ler.  Não sabia de toda a campanha publicitária que foi gerada e como tal, não fui afetada por elevadas expetativas e gostei. 



quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Poder das Pequenas Coisas

Autor: Jodi Picoult
Edição: 2017/ março
Páginas: 512
ISBN: 9789722359788
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Ruth Jefferson é uma enfermeira obstetra com mais de vinte anos de experiência. Um dia, durante o seu turno, começa uma avaliação de rotina a um recém-nascido. Minutos depois é informada de que lhe foi atribuído outro paciente.

Os pais do bebé são supremacistas brancos e não querem que Ruth, afro-americana, toque no seu filho. O hospital acede a esta exigência, mas no dia seguinte o bebé enfrenta complicações cardíacas.

Ruth está sozinha na enfermaria. Deve ela cumprir as ordens que lhe foram dadas ou intervir? O que se segue altera a vida de todos os intervenientes e põe em causa a imagem que têm uns dos outros.

Com uma empatia, inteligência e simplicidade notáveis, Jodi Picoult aborda temas como a raça, o privilégio, o preconceito, a injustiça e a compaixão num livro magistral sem respostas fáceis.
 
A minha opinião:
Small Great Things é o título original e uma referência a uma citação frequente de Martin Luther King Jr., usada pela autora para explicar nesta narrativa que é através de pequenos atos que o racismo é tanto perpetuado como parcialmente desmontado. O poder das pequenas coisas. Singelo e maravilhoso este título que me atraiu para uma leitura que supunha erradamente banal e prevísivel.

Racismo nos Estados Unidos. Atual ... e pertinente.

A perspetiva de uma enfermeira negra que trabalhava em obstretícia há mais de vinte anos e é impedida por um pai supremacista branco de tocar no seu filho.

A perspetiva de uma defensora oficiosa bem intencionada sem ser idealista que não se considerava de todo racista e que vai aprender mais sobre si mesma.

A perspetiva de um racista que foi orientado desde jovem para canalizar assim a sua raiva.

A perspetiva de um jovem negro talentoso que foi educado a crer que trabalhando arduamente conquistaria o seu lugar e foi confrontado com a injustiça.

Várias perspetivas para a temática da diferença que benefica uns à partida e estes nem percebem que ganham porque outros perdem.

 Um romance que começou por me irritar a ponto de ponderar abandoná-lo e acabou por me convencer. Uma estreia com Jodi Picoult que me levou à reflexão introspetiva.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A Viúva Negra

Autor: Daniel Silva
Edição: 2017/ março
Páginas: 508
ISBN: 9788491391098
Editora: HARPERCOLLINS

Sinopse:
O lendário espião e restaurador de arte Gabriel Allon está prestes a tornar-se chefe dos serviços secretos israelitas.
Porém, em vésperas da promoção, os acontecimentos parecem confabular para o atrair para uma última operação no terreno.
O ISIS fez explodir uma enorme bomba no distrito do Marais, em Paris, e um governo francês desesperado quer que Gabriel elimine o homem responsável antes que este ataque novamente.

Chamam-lhe Saladino...
É um cérebro terrorista cuja ambição é tão grandiosa quanto o seu nome de guerra, um homem tão esquivo que nem a sua nacionalidade é conhecida. Escudada por um sofisticado software de encriptação, a sua rede comunica em total segredo, mantendo o Ocidente às escuras quanto aos seus planos e não deixando outra opção a Gabriel senão infiltrar uma agente no mais perigoso grupo terrorista que o mundo algum dia conheceu. Trata-se de uma extraordinária jovem médica, tão corajosa quanto bonita.

Às ordens de Gabriel, far-se-á passar por uma recruta do ISIS à espera do momento de agir, uma bomba-relógio, uma viúva negra sedenta de sangue.
Uma arriscada missão levá-la-á dos agitados subúrbios de Paris à ilha de Santorini e ao brutal mundo do novo califado do Estado Islâmico e, eventualmente, até Washington, onde o implacável Saladino planeia uma noite apocalíptica de terror que alterará o curso da história.
A Viúva Negra é um thriller fascinante de uma chocante presciência. Mas é também uma viagem ponderada até ao novo coração das trevas que perseguirá os leitores muito depois de terem virado a última página.
Uma teia de enganos.


A minha opinião:
Ao reparar nos livros de Daniel Silva associei aos romances de José Rodrigues dos Santos. Não me recordo se encontrei alguma semelhança, mas voltei à série Gabriel Allon depois de ter lido o primeiro. Com espanto, descobri que li o 16º livro e não me parece que o autor vá ficar por aqui.

Apesar do volume dos livros é uma leitura de ritmo acelerado ou não se tratasse de bons livros de espionagem inspirados em factos reais. A venda de antiguidades roubadas para angariarem dinheiro e a destruição de tesouros do passado não são ficção, bem como o recrutamento para o califado de jovens desencantados e desenraízados, nomeadamente mulheres que cedo ficam viúvas.
Não os li todos. Pontualmente, gosto do reencontro com o Gabriel para desanuviar e espicaçar. O bom senso, inteligência e segurança dele é reconfortante. As situações em que se vê enredado nem tanto. Nesta fase, à luz de acontecimentos recentes é inquietante mas elucidativo.

"O restaurador tinha-se restaurado." Além de espião, Gabriel é um talentoso restaurador de arte, que superou trauma e vingou como chefe do Departamento em Israel.
Natalie era judia. Perfeita. Para espia. Leila era palestiana. E forte. Viúva negra. 

domingo, 2 de abril de 2017

Um Instante de Amor




Autor: Milena Agus
ReEdição: 2017/ fevereiro
Páginas: 96
ISBN: 978-972-23-5969-6
Editora: Editorial Presença

Sinopse:
Um Instante de Amor conta-nos a história de uma mulher extraordinária que viveu em Cagliari, na Sardenha, durante a Segunda Guerra Mundial. A rigidez e os preconceitos do meio onde nasceu não se compadecem com a sua natureza sonhadora e romântica. Embora seja extremamente bonita, os homens estranham-na, e o amor teima em fazer-se esperar. Atormentada pelo desejo que um casamento de conveniência não aplacou, reinventa a sua própria vida, num rasgo de erotismo e poesia, belo e assombroso como o próprio romance que deslumbrou a Itália e a França e veio confirmar Milena Agus como uma voz única, deliciosamente irreverente, da actual narrativa italiana.

Uma história arrebatadora que ganha nova vida no cinema com Marion Cotillard, Louis Garrel e Alex Brendemühl.

A minha opinião:
Uma história que inspirou o filme, agora em exibição, e que não terei oportunidade de ver, de modo que, decidi-me a ler o pequeno livro numa tarde de lazer. Não foi o esperado. Não foi uma agradável surpresa, e dada a sua modesta dimensão para uma história contada pela neta sobre a avó louca, foi uma leitura moderadamente convincente sobre o período pós-guerra na Sardenha.

"Um instante de Amor" deve o titulo ao que foi escrito num caderninho preto com a borda vermelha sobre a relação da sua avó com um veterano da guerra que conheceu nas Termas, onde ambos procuravam libertar-se das pedras (nos rins) que lhes afetara a saúde. Uma mulher linda, considerada louca pela paixão exaltada com que se manifestava numa época que  tal não era aceite, ou compreendido. Do casamento com um viúvo imposto pela família surge o rol do que sabia fazer para que o marido não gastasse dinheiro com as mulheres da casa de passe, e surgem descrições inesperadas de sexo sem sentimento e sem poesia. 

A escrita é corrida e fluída, com escassa pontuação, o que me obrigava a reler para "não perder o fio à meada", Interessante que baste mas longe de ser um livro brilhante. 

Um instante de agradável leitura. 

sábado, 1 de abril de 2017

Deus Não Mora em Havana

Autor: Yasmina Khadra
Edição: 2017/ março
Páginas: 256
ISBN: 9789725305867
Editora: Bizâncio

Sinopse:
No momento em que o regime castrista perde o alento, «Don Fuego» continua a cantar nos cabarés de Havana. Outrora, a sua voz electrizava as multidões. Agora, os tempos mudaram e o rei da rumba tem de ceder o seu lugar. Entregue a si próprio, conhece Mayensi, uma jovem «ruiva e radiosa como uma chama», pela qual se apaixona perdidamente. Mas o mistério que cerca essa beldade fascinante ameaça o seu improvável idílio.

Cântico dedicado aos fabulosos destinos contrariados pela sorte, Deus não Mora em Havana é também uma viagem ao país de todos os paradoxos e de todos os sonhos.

Aliando a mestria e o fôlego de um Steinbeck contemporâneo, Yasmina Khadra conduz uma reflexão nostálgica sobre a juventude perdida, incessantemente contrabalançada pelo júbilo de cantar, de dançar e de acreditar em amanhãs felizes.

A minha opinião:
Que surpresa maravilhosa! Um autor que nunca antes lera transporta-me para o ambiente de Havana com uma narrativa viva, colorida e cativante, que me fez sonhar com um país que nunca visitei, mas de que ouvi sobejamente falar como destino de férias. Não é habitual, mas enchi o pequeno livro de post-its dado o fascínio que a escrita de Yasmina exerceu sobre mim. Parece um nome de uma mulher e no entanto é um homem que tão bem o faz. 

"Em Havana, Deus perdeu a sua cotação. Nesta cidade que trocou o seu brilho de outrora por uma humildade militante feita de privações e de abjurações, a pressão ideológica liquidou a fé. " (pag.44)

"Em Havana, vivem várias familias num mesmo apartamento. Desde 1959 e da revolução castrista, a população centruplicou, mas a cidade não aumentou, como se uma maldição a mantivesse cativa de um passado tão flamejante como o inferno." (pag.49/50)

"Havana está repleta desses individuos "descaracterizados" que passam o tempo a vigiar os actos e os gestos das pessoas."  (pag. 70)

Cantar era a vida de "Don Fuego", o sopro incendiário das Caraíbas que se vê impedido de o fazer quando o Buena Vista é vendido e se confronta com dificuldades em regressar ao palco. Vai tomando o pulso à vida e à realidade que o rodeia. Para agravar o quadro, apaixona-se perdidamente por uma jovem. No fim, uma aventura. 

Panchito, o velho sábio e trompetista excepcional, que se refugiou com o seu cão Orfeo numa velha barraca depois da glória, é o mistério que procuro desvendar durante toda a narrativa. 

Uma leitura arrebatadora carregada de cheiros e de sons numa paisagem distante que deixa adivinhar. Uma viagem inebriante. Jonava é o mago que nos dá a mão nesta viagem. Que bom!

"O poeta inspira-nos, o cantor respira-nos. O poeta ilumina-nos, o músico inflama-nos. (...) Não se presta a mesma atenção a um recital de poesia e a um concerto de música. Não se está lá pela mesma razão, ainda que, em ambos os casos, o objetivo seja o mesmo: procurar a evasão. A relação com a poesia é mais íntima. É a procura tranquila de si próprio. Com a música, uma pessoa adere às outras, expande-se em vez de se conter, dá-se em vez de se procurar. As pessoas não vão aos concertos procurar verdades mas sim romper com elas."  (pag.174/5)

sexta-feira, 31 de março de 2017

O Czar do Amor e do Tecno

Autor: Anthony Marra
Edição: 2016/ agosto
Páginas: 384
ISBN: 9789724750965
Editora: Editorial Teorema

Sinopse:
Em 1937, um promissor pintor de Leninegrado vê-se reduzido à tarefa ingrata de "apagar", de pinturas e fotografias, os dissidentes do regime soviético. Entre os inúmeros rostos que faz desaparecer, está o do seu próprio irmão, condenado à morte.

Na atualidade, uma historiadora de arte dedica-se a estudar o mistério que se esconde na obra desse censor. Nas centenas de imagens que alterou, ele introduziu obsessivamente um rosto. Quem foi essa figura anónima, a um tempo dissimulada e omnipresente na História da Rússia?

O segredo do criador de rostos atravessa décadas e fronteiras e confunde-se com a memória do país. Cruza as trajectórias de uma bailarina caída em desgraça, espiões polacos, mercenários, um aprendiz de mendigo, uma beldade siberiana, e até um lobo. E como pano de fundo, uma cidade com um lago de mercúrio, um céu sem estrelas e uma floresta de plástico.

Um livro profundamente original, que nos leva de S. Petersburgo aos confins da Sibéria e à Chechénia, e consolida Anthony Marra como um dos jovens escritores americanos mais aclamados da atualidade.


A minha opinião:
Este ano tem sido fértil em boas leituras, e isso é tão gratificante, principalmente, quando não é previsível e como tal não nos lançamos na leitura com elevadas expectativas.  Francamente, não percebo, como livros menores são amplamente divulgados, enquanto um livro excelente não há um maior cuidado com a imagem e é quase inexistente. Não gosto da capa. Mas reconheço que gosto cada vez mais de ler contos, e este, é talvez, o melhor livro que já li do género.

O livro tem um lado A, com quatro contos, e um lado B com mais quatro, e no meio um intervalo preenchido pelo conto que dá nome ao livro. Várias personagens são comuns e as tramas cruzam-se e completam a panorâmica que vai desde a Rússia Estalinista até aos nossos dias, com foco na  Chechénia.  Não são contos bonitos. As vidas que retratam são de uma sensibilidade e beleza diferente que nos marca. Que incomodam mas convencem. Não estão muito longe do que sabemos mas não queremos ler, ou pensar sequer.

Começa com o artista corretor, um oficial da propaganda, um cidadão soviético que introduz o rosto do traidor Vaska, seu irmão, em segundo plano porque "o mal nunca será remediado e os Vaskas acrescentados à arte nunca compensarão o Vaska subtraído à vida". (pag.43) Ficou conhecida como a assinatura do censor anónimo que mais tarde Nadya perseguia em um outro conto. Uma bailarina espantosa com quem foi acusado de conspirar foi a queda deste artista e das vidas que lhes sucederam numa paisagem pós-apocalíptica e tóxica porque lhes foi ensinado que "Estaline foi um gestor eficaz que agiu de maneira completamente racional" e que os campos de trabalhos forçados no Ártico constituiram "uma parte crucial do projeto de Estaline para fazer do país uma grande nação". (pag.96).

Tanto para descobrir nestes contos, como o que se passa no metro, ou melhor, no Palácio do Povo, como lhe chamavam, porque se destinava não a czares ou príncipes mas a pessoas comuns. Mas o melhor é ler, sem nada perder. Recomendadissimo. Gostei muito.

domingo, 19 de março de 2017

Nem Tudo Será Esquecido

Autor: Wendy Walker
Edição: 2017/ janeiro
Páginas: 280
ISBN: 978-972-23-5933-7
Editora: Editoral Presença

Sinopse:
Na pacata cidade de Fairview, no Conneticut, a vida parecia perfeita até à noite em que um acontecimento trágico chocou a comunidade. Jenny Kramer, uma adolescente com quinze anos, é brutalmente violada depois de sair de uma festa. Os médicos decidem administrar-lhe um fármaco usado nos casos de patologias de stresse pós-traumático, eliminando as memórias do incidente. Contudo, nos meses seguintes, Jenny é surpreendida com sensações que a fragilizam psicologicamente, levando-a a tentar o suicídio. O pai, Tom, está determinado a descobrir o culpado e fazer justiça. A mãe, Charlotte, age como se nada tivesse acontecido.

Os pais de Jenny procuram a ajuda do psiquiatra, Alan Forrester. Nisto, o seu casamento é posto à prova, revelando segredos e fragilidades, bem como a teia que une toda a comunidade. Afinal, todos têm algo que não desejam revelar e a busca pelo violador conduz a um thriller psicológico com um desfecho inesperado e perturbante.

A minha opinião:
Gosto quando um livro que eu não antecipei, me agarra e me prende á leitura como este. Um livro que eu afirmara não pretender ler. Apenas pela temática. Uma violação brutal de uma adolescente. Um crime numa pequena comunidade sem testemunhas. E sem provas. Um crime que acharam que poderiam apagar da vitima, esquecendo as emoções que ficam registadas, apesar da memória ter desaparecido. Mas... um trauma não pode ser curado com comprimidos. Implica tempo e esforço. A arte do terapeuta é fazer com que a vitima reviva os acontecimentos num ambiente emocional tranquilo para as acomodar com emoções mais benignas, o que lhe dá imenso poder. A mente que controla o corpo. 

Uma boa amiga e uma grande leitora entregou-me este livro convencida de que eu ia gostar de o ler e mais uma vez não errou. Gosto de thrillers psicológicos, mesmo que me façam tremer e parar por momentos de o ler. Não foi o caso. O narrador, absolutamente brilhante, não nos deixa interromper a leitura com a promessa de ir desvendando sem hesitação e controlada emoção, inclusive porque começou a tomar alguma medicação, tudo o que se passou com qualquer uma das personagens, destacando-se Jenny, Sean, Charlotte, Tom e Bob. E não falha. Todos se revelam, quase todos de viva voz, com as suas confissões. 

Escrita assertiva e clara, sem perder de vista os principais aspectos da investigação, ou os contornos dos envolvidos naquele drama. A psicologia do crime. Os segredos do passado que não se superam. Muito bom. Sequer consegui descobrir o violador, o que foi uma surpresa. 

sábado, 11 de março de 2017

O Leitor do Comboio

Autor: Jean-Paul Didierlaurent
Edição: 2017/ março
Páginas: 196
ISBN: 9789897243462
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
O poder dos livros através da vida das pessoas que eles salvam. Uma obra que é um hino à literatura, às pessoas comuns e à magia do quotidiano.
Jean-Paul Didier Laurent é um contador de histórias nato. Neste romance, conhecemos Guylain Vignolles, um jovem solteiro, que leva uma existência monótona e solitária, contrariada apenas pelas leituras que faz em voz alta, todos os dias, no comboio das 6h27 para Paris.
A rotina sensaborona do protagonista desta história muda radicalmente no dia em que, por mero acaso, do banquinho rebatível da carruagem salta uma pen drive que contém o diário de Julie, empregada de limpeza das casas de banho num centro comercial e uma solitária como ele… Esses textos vão fazê-lo pintar o seu mundo de outras cores e escrever uma nova história para a sua vida.
O Leitor do Comboio revela um universo singular, pleno de amor e poesia, em que as personagens mais banais são seres extraordinários e a literatura remedia a monotonia quotidiana. Herdeiro da escrita do japonês Haruki Murakami, dotado de uma fina ironia que faz lembrar Boris Vian, Jean-Paul Didierlaurent demonstra ser um contador de histórias nato.


A minha opinião:
Dificilmente quem gosta de ler fica indiferente a este livro. Este é um desabafo impulsivo e sentido. As criticas de imprensa que aparecem na contracapa, ao contrário do que acontece com muitos outros livros, correspondem à minha verdade. Um demasiado pequeno romance que me arrebatou e enterneceu desde o início. Primeiro Guylain e depois Julie. Que personagens excepcionais! Realmente, as pessoas comuns escondem um mundo extraordinário.

Gosto de recorrer a excertos do autor. Neste caso, para apresentar a personagem Guylain, um homem simples e solitário que salva diáriamente umas quantas páginas soltas da Coisa e partilha o seu conteúdo com os passageiros do comboio. E com os leitores. 

"Gosto de livros apesar de passar a maior parte do meu tempo a destruir grande parte deles. O meu único bem é um peixinho vermelho que se chama Rouget de Lisle, e conto por únicos amigos um amputado que passa o tempo á procura das suas pernas e um versejador que só sabe falar em versos alexandrinos." (pag.189)

Duas idosas solicitam a sua comparência na sua residência uma hora por semana para lhes ler como fazia no comboio e a surpresa não termina por aí. Um dia, através dos docs da pen drive que achou, descobriu o diário de Julie e ficou interessado em a conhecer.
A vida de Julie é igualmente solitária e simples. O seu trabalho que ela não menospreza, em que precedeu a tia, deixou-lhe vários tialogismos que ela debita a torto e a direito. Também ela gosta de ler livros. E escrever os seus pensamentos. Os sons que lhe chegam através das portas cerradas e que a tia classificou em três grandes categorias e ela acrescentou outra, são pura diversão. Refinado humor!

Personagens quase invisiveis para os outros mas atentas aos que os rodeia. Personagens que não vivem apenas nas páginas de um livro. 

Os bons amigos incentivam a novos desafios, com novos e/ou maravilhosos livros. Amigos que compreendem a necessidade de nos embrenharmos em mundos cada mais longíquos através dos livros. Obrigada Cristina Delgado. Tinhas razão. Gostei muito.

quinta-feira, 9 de março de 2017

O Ruído do Tempo

Autor: Julian Barnes
Edição: 2016/ junho
Páginas: 200
ISBN: 9789897223068
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
Em janeiro de 1936, Estaline assistiu à apresentação da muito aclamada ópera de Chostakovich, Lady Macbeth de Mtensk, no Teatro Bolshoi, em Moscovo. O compositor ficou muito perturbado com a intempestiva e prematura saída do líder do camarote, acompanhado pela sua comitiva. Dois dias depois aparecia no jornal Pravda uma crítica com o título «Chinfrim em vez de Música», escrita provavelmente pela pena do próprio Estaline. Diz Julian Barnes sobre o livro: «A colisão entre Arte e Poder - e o exemplo específico de Chostakovich - é o coração do meu romance. Chostakovich foi, durante meio século, o compositor mais celebrado da União Soviética, desde o sucesso mundial da sua Primeira Sinfonia, em 1926 (tinha ele 19 anos), até à sua morte, em 1975. No entanto, ele foi também o compositor que, na História da Música ocidental, foi mais perseguido, e durante mais tempo, pelo Estado e que sofreu pequenas e caprichosas interferências e ameaças de morte, passando por uma longa e constante coação e intimidação. Em muitas ocasiões, sob a ditadura estalinista, Chostakovich temeu pela sua vida, com razão. […] "A História, assim como a biografia, irá desvanecer-se. Talvez um dia, fascismo e comunismo sejam apenas palavras num livro de texto. Nessa altura […], a sua música será apenas música." À medida quo o ruído do tempo diminui, é mais fácil ouvir melhor a música de Chostakovich. O melhor sobrevive. Também é mais fácil ver o homem propriamente dito: complicado, cheio de conflitos e de princípios, que se condena, leal, teimoso, astuto, divertido, sarcástico e pessimista, cuja existência consistia inteiramente na sua música.»

A minha opinião:
Gosto tanto da escrita apurada e sintética de Julian Barnes. Sem falhas. Ritmada. Como uma bela musica. Desta feita sobre a vida e obra de Dmitri Chostakovich, um importante compositor russo do tempo do estalinismo, atormentado e manipulado pelo poder, que o ameaçava e punia quando não agradava ou bajulava e premiava quando cedia. Dividido em três partes, começa No Patamar quando de malas feitas aguardava que o viessem buscar a meio da noite.

"Todo aquele esforço e idealismo e esperança e progresso e ciência e arte e consciência, e acaba tudo assim, com um homem de pé junto a um elevador, com uma pequena mala que contém cigarros, roupa interior e pó dentrifico; ali de pé, à espera de ser levado."  (pag. 52)

Prossegue No Avião, quando anda em digressão pelos Estados Unidos coagido a atuar conforme é determinado pelo Poder.

"A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo." (pag.104)

"O que podíamos construir contra o ruído do tempo? Só essa música que está dentro de nós - a música do nosso ser -, que é transformada por alguns em música real. Que, ao longo das décadas, se for suficientemente forte e verdadeira e pura para afogar o ruído do tempo, se transforma no murmúrio da História."   (pag. 138)

E termina No Carro depois de ter suportado todas as humilhações e aspirar à morte como forma de libertação.

"Toda a sua vida confiara na ironia. (...) E uma parte de nós acreditava que, enquanto pudéssemos confiar na ironia, conseguiríamos sobreviver. (...)  No entanto, já não tinha tanta certeza. (...) A ironia, já percebera, era tão vulnerável aos acasos da vida e do tempo como qualquer outro sentimento. (...) E a ironia tinha limites. Por exemplo, não se podia torturar e ser irónico; ou ser vitima de tortura e ser irónico. (...) Se virássemos costas à ironia, ela petrificaria em sarcasmo. (...) O sarcasmo era ironia que tinha perdido a alma. (pags. 186-188)

Narrativa inteligente, subtil e irónica que me encanta. Que me dá que pensar nos tempos que correm. Poderia ser uma leitura pesada mas o talento de Julian Barnes não deixa, apesar de abordar a relação do Poder com a arte e os artistas, assim como a violência mesmo que esta não seja fisica sobre o homem e a sua humanidade. 

O Livreiro de Paris

Autor: Nina George
Edição: 2017/ fevereiro
Páginas: 328
ISBN: 978-972-23-5961-0
Editora: Editoral Presença

Sinopse:
Jean Perdu é proprietário de um negócio tão especial quanto extraordinário: a Farmácia Literária, uma livraria instalada num barco atracado no rio Sena, em Paris. Ao invés de vender medicamentos, receita livros como remédio para os males da alma. Porém, embora saiba aliviar a dor dos outros, não consegue atenuar a sua própria dor. O que Monsieur Perdu não sabe é que a descoberta de uma carta do seu passado está prestes a mudar-lhe o destino. Depois de a ler, Jean encontra-se numa encruzilhada: continuar uma existência sombria e dolorosa ou embarcar numa viagem ao Sul de França, até à Provença, ao encontro da reconciliação com o passado e da beleza da vida.

A minha opinião:
Um romance que eu esperava que fosse sobre a magia dos livros. Na verdade, é mais sobre o livreiro que passou por um longo luto de 21 anos devido a um desgosto de amor e o processo de recuperação que se iniciou quando apoiou uma nova inquilina do prédio e esta encontrou uma carta esquecida. Uma carta que Jean Perdu decidira não ler. Uma carta que imaginava recheada de clichés para justificar o abandono da mulher amada, o que o deixou num estado de letargia por tanto tempo. A cura através de uma mudança abrupta, levou-o a soltar amarras da sua livraria  barco "Farmacia Literária" no rio Sena e a partir para a Provença. No fim, acaba por ser um livro sobre a viagem e os amigos desta aventura. Max, um vizinho escritor de sucesso, tal como ele, arriscou e impulsivamente embarcou. Uma viagem de crescimento e evolução. uma viagem de descoberta.

"Com cada livro passaria a trazer dentro de si cada vez mais mundo, mais coisas , mais humanidade."  (pag. 122)

Um romance que me pareceu promissor mas que ficou áquem das minhas expetativas. Contudo, é um romance de sentidos, Perdu tinha "clarividência visual e auditiva", ou seja, conseguia perceber para além da camuflagem das pessoas e encontrar o que as preocupava, o que sonhavam e o que lhes faltava e recomendar um livro. Um livro participava na libertação e para ele esse livro era "Luzes do Sul" de Sanary. Possivelmente, este livro pretende ser uma delicadeza que nos trata bem e em cada palavra imbuir-nos de bons sentimentos e vontade de viver. E certamente que o consegue porque é um hino à beleza das coisas que nos devemos permitir sentir e encantar

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A Imperatriz da Lua Brilhante

Autor: Weina Dai Randel
Edição: 2017/ fevereiro
Páginas: 408
ISBN: 978-972-23-5962-7
Editora: Editoral Presença

Sinopse:
Para uma mulher chegar ao poder, não existem caminhos fáceis.
No palácio da China imperial, uma concubina aprende rapidamente as várias técnicas para conquistar o coração do imperador, o Único acima de Todos. Mei é convocada aos 13 anos para a corte do palácio na China imperial, uma honra que resgatará a sua família, outrora nobre e influente, da miséria. Porém, ela rapidamente descobre que para se aproximar do imperador e conquistar o seu coração terá de ultrapassar obstáculos perigosos. Como desconhece a arte da sedução, no dia do aniversário do imperador, Mei oferece-lhe um presente singular: uma adivinha.

Porém, quando lhe parecia que estava em posição de seduzir o homem mais poderoso da China, Mei apaixona-se por Faisão, o filho mais novo do imperador. Contudo, uma tentativa de assassinato ao imperador provoca uma luta terrível pelo poder na corte imperial. E Mei terá de se servir das suas excelentes capacidades de inteligência, sabedoria e engenho para escapar e salvar o amor da sua vida.

A minha opinião:
A capa de cores fortes com um rosto parcial de mulher não me teria atraido se não fosse uma boa amiga me dizer que o tinha que ler. Percebi que era uma boa opção quando li a sinopse. Um romance baseado na história da Imperatriz Wu Mei, a primeira mulher a governar a China no seculo VII. Aliás, a unica mulher, o que é fascinante descobrir devido a um romance. Factos, usos e costumes que a autora apurou, e que provavelmente eu não procuraria saber sem a inspiração da autora que o tornou ficção.

A infância de Mei rica e priveligiada é marcada por uma profecia aos cinco anos e é alterada com a morte do pai que esperava que a filha honrasse a familia ao servir o imperador, o que acaba por acontecer quando ela tem treze anos. Depois, acompanhamos a sua vida até chegar à maioridade fechada na corte imperial, assistindo a lutas pelo poder e resistindo a intrigas, traições, violência e morte. A malicia e perfidia feminina em destaque porque todas as mulheres, concubinas do imperador, as 118 eram classificadas por graus de importância e lutavam por ascender e obter beneficios para si e para as suas familias. Mei decorara a "A Arte da Guerra" de Sun Tzu e tinha mais instrução que a maioria dessas mulheres. O amor complicou esta difícil situação, principalmente porque havia uma rival.

Narrativa intimista que chega a a ser assustadora mas também emocionante. Um surpreendente romance histórico. Gostei muito.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Homem Ausente

Autor: Hans Rosenfeldt, Michael Hjorth
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 3)
Edição: 2017/ janeiro
Páginas: 522
ISBN: 9789896651756
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 
Na ladeira das montanhas de Jämtland, na Suécia, seis corpos são encontrados. Mais precisamente, seis esqueletos. dois deles de crianças. Os corpors foram enterrados há muito tempo. E para Sebastian Bergman, que viaja para o local do crime com o resto da equipa do Departamento de Investigação Criminal, estes factos só tornam ainda mais complexa a investigação sobre quem são, quem os matou e porquê. No início, Sebastian vê o caso como uma oportunidade de escapar da ex-namorada e passar algum tempo com a filha, Vanja. Uma oportunidade para tentar construir uma relação com ela antes que seja tarde demais. Mas rapidamente descobre que está mais envolvido no caso do que gostaria de estar.

A minha opinião:    
Em resposta à pergunta que coloquei a mim mesma, sobre o que me leva a seguir esta saga, conclui que...

Gosto de reencontrar Sebastian Bergman, bem como a Brigada de Homicidios sueca, conhecida como Riskmord. Gosto de seguir a linha de racíocionio de cada um das personagens condicionadas pelas suas fragilidades, em que paralelamente ao decorrer da investigação corre a vida dos investigadores. Gosto da estrutura narrativa em que cada capítulo dá protagnismo a uma das várias personagens e me deixa em suspense. E quando termina, fica sempre a faltar o próximo para continuar a acompanhar aquelas personagens complexas e bem desenvolvidas, particularmente Sebastian Bergman num novo papel de pai não assumido, que procura um modo de se tornar relevante na vida da filha.

Neste, Sebastian não me pareceu ter tanto protagonismo como nos anteriores. A sua personalidade, o seu passado  e a sua participação como psicólogo criminal ficaram em segundo plano, para sobressair um crime com seis vitimas nove anos antes e o desaparecimento de dois afegãos no mesmo período, que parece relacionado sem se perceber como. As suas ligações com o sexo feminino que manipula e seduz não agradam mas a sua necessidade de afeto quase que o desculpabilizam até desprezar Ellinor Bergkvist.

Em suma, continua a ser uma saga a seguir (mal posso esperar pelo próximo com o desfecho em que ficou), numa leitura assaz interessante e atual. As intrigas internacionais e a xenofobia com os muçulmanos que integram as sociedades ocidentais desde o 11 de setembro foi a mensagem subliminar neste livro que importa repensar. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O Último Paraíso

Autor: Antonio Garrido
Edição: 2016/ novembro
Páginas: 480
ISBN: 978-972-0-04840-0
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Em 1929, o jovem e experiente Jack Beilis tinha o seu próprio carro, usava fatos feitos à medida e frequentava os melhores clubes de Detroit. Mas a crise brutal que nesse ano atingiu a América atirou-o, como a milhares de compatriotas, para os braços da fome e do desespero. Forçado a sair do país após cometer um crime, foge para a União Soviética, o império idílico onde a todos era igualmente garantido o direito à felicidade, sem suspeitar dos insólitos incidentes que o destino ainda lhe reserva. Inspirado em acontecimentos reais, este thriller combina magistralmente factos históricos, suspense e romance, resultando numa extraordinária reinvenção do mito do sonho americano.

A minha opinião:
Há livros que são suscetiveis de nos passarem despercebidos, o que é uma pena considerando o imensurável prazer que nos podem proporcionar com uma história bem contada, personagens fascinantes e uma certa perspetiva num determinado enquadramento histórico. Todos os leitores teêm as suas preferências e Garrido insere-se nas minhas desde que li "O Leitor de Cadáveres".

Como o título sugere, neste livro temos uma história de esperança de desesperados que na década de 1930 emigraram para a Rússia com a promessa de um futuro melhor. Desconhecia este facto histórico tão doloroso, em que milhares de emigrantes, diferenciando-se três tipos - técnicos e operários especializados, idealistas e os desempregados partiram em resposta ao apelo de prosperidade. Muitos foram vitimas da Grande Purga Estalinista.

Registo com apreço o intenso trabalho de investigação que o autor teve que fazer para chegar a uma história inspirada em factos e pessoas reais numa intriga bem elaborada e verossimil, procurando transmitir sentimentos como medo, ambição e ira. Um romance de emoções em que os herois podem ser pessoas capazes de grandes sacrificios para encontrar o rumo das suas vidas. Um romance notável. 

Fiquei "apaixonada" por Jack Beilis, mas todos os outros protagonistas dão brilho a esta narrativa. Descobri que entre as páginas deste livro perdia a noção do tempo e do espaço e são raros os livros que o conseguem. 

Desnecessário acrescentar, mas ainda assim vou fazê-lo, que adorei e recomendo muitissimo este romance. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert

Autor: Joël Dicker
Edição: 2013/ junho
Páginas: 664
ISBN: 9789896721824
Editora: Alfaguara Portugal

sábado, 21 de janeiro de 2017

A Gorda




Autor: Isabela Figueiredo
Edição: 2016/ novembro
Páginas: 288
ISBN: 9789722128339
Editora: Editorial Caminho

Sinopse:
Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.

A minha opinião:
Este livrinho foi perfeito nas minhas deambulações diárias, em que qualquer momento livre servia para o abrir e ler. 

Memórias de uma jovem que se tornou mulher enquanto cirandou nas várias divisões da casa (por capítulos), amou e perdeu-se no preconceito de que era gorda.

Mas não é apenas disso que se trata. Um romance que claramente tem muito de autobiográfico e fala da vida e dos pequenos nadas que a compõem com um olhar critico, objetivo e impiedoso, mas também especulativo e manipulando o real. Fala das pessoas que aparecem na nossa vida e mais tarde desaparecem por um motivo qualquer e do que nos deixam. Fala ainda da solidão e do vazio que se esconde.

Uma mulher como todas as outras. Como eu. Uma mulher com um mundo dentro de si. Uma mulher com uma identidade e tanto sentir, tantas vezes ambíguo mas verdadeiro. Uma mulher que tinha uma fome impossível de saciar que desamou o seu corpo.

Leitura crua mas que me encantou. Irrepreensível escrita e quase poética. Percebo agora o muito ruído que há em torno deste livro de que também eu faço eco.