domingo, 31 de dezembro de 2017

Em jeito de balanço os sete livros que marcaram 2017 (sem ordem especifica)


 





 

Antes que Seja Tarde

Autor: Margarida Rebelo Pinto
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 272
ISBN: 9789897244001
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Neste novo livro de Margarida Rebelo Pinto encontramos três mulheres de gerações diferentes, desde os anos 60 até aos dias de hoje, com vidas sentimentais atribuladas e algo em comum: a atração pelo proibido. 

Antes que seja tarde é um romance sobre o lado mais selvagem do amor, quando a paixão manda mais do que a razão e os sentidos falam mais alto. Os amores proibidos nunca caem na rotina, mas serão o caminho certo para o verdadeiro amor? O que fazer quando não se pode construir uma vida com quem se ama? 

O destino cruzado destas 3 mulheres leva-nos a uma viagem alucinante sobre o lado obscuro das relações, onde a mentira, a traição e o adultério andam a par com a dignidade de uma grande história de amor.

A minha opinião:
Não escolhi ler este livro. Mas quando o recebi (obrigado Clube do Autor) gostei da sinopse e se não o li mais cedo foi porque outras leituras se interpuseram. Importa referir que há alguns anos atrás cruzei-me com a autora e... não foi um bom cartão de visita. Desde então, não leio os seus livros. Arrisquei agora e encontro maturidade e lucidez em estórias individuais de personagens com caminhos tortuosos de amores ilícitos. A protagonista é Maria do Amparo, de quem gostei desde o início. Apesar do desalento porque não se encaixa no papel de a outra quando se apaixonou por Gonçalo, é iluminada, forte e independente. 

As amigas Sara e Cristina desistiram dos homens mas ainda anseiam por um principe encantado. "Uma geração que veio ao mundo para completar os ideais femininos e que pagou caro o mito do happy end." (pag. 207) "Aos 50 deve ser complicado tentar ter 30".

O cliché é a amante do pai, Lurdes. E Luisa, a filha psicólcoga, que se vê enredada num amor improvável. E por fim, temos o lado masculino, através de Gonçalo, Jorge e Luis Miguel. Os dois primeiros são homens casados, apaixonados sem ser pelas mulheres e que optam por ficar e o segundo é o irmão de Maria do Amparo, que se apaixona por quem não deve mas escolhe.  

Narrativas soltas que se cruzam num conjunto harmonioso de leitura fácil e rápida. Estórias verossimeis, previsiveis, e tão nossas. Como tantas outras que tão bem conhecemos. Escrita corrente, acessivel e despretensiosa. Gostei muito e provavelmente vou voltar. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman
Edição: 2017/ abril
Páginas: 328
ISBN: 9789720048981
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

A minha opinião: 
Eleanor Oliphant é uma personagem literária única e este romance é realmente um achado. Um belissimo primeiro romance

Uma capa banal que apenas faz sentido depois de ler o livro. À primeira vista não cativa. Ora bem, à segunda também não. Senão fosse uma ou outra critica/opinião que li, certamente não lhe teria pegado. A sinopse cumpre e não revela demasiado mas acaba por ser muito limitada. E as criticas na bandana, que normalmente são encaradas com cepticismo, desta vez são o melhor incentivo para esta leitura. 

Quantas vezes refletimos sobre o mal e nos que lhe são próximos? E nos que lhe sobrevivem? Afinal, não é apenas ficção. E com isto alerto para que nem sempre o que parece é, e um romance pode ser mais do uma história de enamoramento e felicidade como nos contaram em criança. 

Uma existência absolutamente vazia e rotineira. Durante anos foi assim a vida de Eleanor, mas um novo projecto para agradar à mamã, levou de um contacto a outro e assim mudou. Gradualmente a inteligente e mordaz Eleanor começa a sua educação. 

Cheguei a pensar que a inaptidão social se tratava de uma doença e fui avançando lentamente na leitura com um misto de expetativa, ansiedade e angustia. E o que mais me espantou foi a empatia com a personagem que se manteve coerente ao longo de toda a narrativa, enquanto vamos percepcionando o mundo pelos seus olhos. Um mundo que evolui na medida dos seu crescimento emocional. Divertido e embaraçoso, cruel e compassivo, um romance agridoce que mexe com emoções. Raymond e Sammy, que personagens secundárias extraordinárias. Generosas! E no final, algumas surpresas que acomodaram o meu coração e me deixaram a ansiar por mais. 

Obrigado Célia!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Para lá do inverno

Autor: Isabel Allende
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 336
ISBN: 9789720030221
Tradutor: Ângela Barroqueiro
Editora: Porto Editora

Sinopse:
«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»
Albert Camus 

Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.

Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.

Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

A minha opinião:
No natal, numa pequna reunião em Brooklyn surgiu a ideia para este romance, que seria iniciado como todos os outros livros de Isabel Allende a 8 de janeiro. Considerando a frase de abertura de Albert Camus trata-se de encontrar a alegria (e o amor) numa fase da vida em que não era esperado. E com este pressuposto e para mais com o tempo que se faz sentir lá fora (muito aquém dos nevões em Brooklyn), escolhi um canto acolhedor para me dedicar a uma leitura tranquila. Contudo, já deveria saber, apesar de não serem muitos os livros que li desta senhora, que há sempre lições a retirar e que outros temas estariam subjacentes. A emigração ilegal, os refugiados, gangues e violência doméstica, seriam estes os temas e a leitura não seria tão pacifica como eu imaginava. Falta referir a critica social sobre os Estados Unidos que dispensa mais comentários. 

Três personagens bem delineadas. Três enredos fortes que se revelam na bagagem emocional de cada uma. Três personagens que acarinhei. A interação entre elas, na sequência de um pequeno acidente, foi muito reveladora, apesar dos diálogos simples e diretos. Alternado, cada personagem tem a sua vez para contar de si enquanto o mistério adensa sobre o crime que se quer desvendar. O romance maduro foi o que menos apreciei. Em compensação, adorei o final. 

E o balanço foi muito positivo. Uma senhora que sabe o que faz e faz muito bem. Retemperadora leitura. Equilibrada. Aguardo o próximo romance que certamente já deve estar a planear começar no próximo ano. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

As Coisas Que Perdemos no Fogo

Autor: Mariana Enriquez
Edição: 2017/ maio
Páginas: 208
ISBN: 9789897223341
Tradutor: Margarida Amado Acosta
Editora: Quetzal

Sinopse:
Nestas narrativas do macabro, selvagens, imaginativas e diabolicamente ousadas, Mariana Enriquez, dá uma vida vibrante à Argentina contemporânea, e torna-a num lugar em que a desigualdade, violência e corrupção constituem a lei, e a ditadura militar e milhares de «desaparecidos» se agigantam na memória coletiva. 
Mariana Enriquez tem sido comparada a Shirley Jackson e Julio Cortázar. 
A par da magia negra e dos inquietantes desaparecimentos, estas histórias alimentam-se da compaixão pelos atemorizados ou perdidos, acabando por trazê-los para realidades surpreendentes. Escrito numa prosa hipnótica, As Coisas que Perdemos no Fogo, é uma exploração poderosa do que acontece quando deixamos à solta os nossos desejos mais obscuros e assinala a chegada de uma voz surpreendente e necessária à ficção contemporânea.

A minha opinião:
Gosto de contos e desde logo este livro não me passou despercebido. Porém, receava o que iria ler. Sabia que tinha que estar mentalizada para narrativas breves mas assustadoras. Não errei. Algumas são recheadas de pormenores negros ou surreais, que não é o meu género, mas não consegui parar de os ler. 


O primeiro conto "O rapaz sujo" marca e define o tipo de leitura que nos espera. A prosa e o estilo de Mariana Enriquez. Dura, direta e critica. Um outro olhar para o exterior e o interior do que a rodeia. Sem contemplações ataca os grandes males, dividida entre os fantasmas do passado e os estigmas do presente. O último conto, nome do livro, foge completamente ao que  eu supunha, mas não é menos terrível, uma vez que em protesto pelo crime passional, que infelizmente não é nenhum absurdo, surge a autoflagelação. 

Pertubadoras histórias, como as de tradição oral que se contam em noites de Inverno.  Não é uma leitura recomendável para almas sensiveis, mas para quem gosta de terror anda lá perto. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Os Loucos da Rua Mazur

Autor: João Pinto Coelho
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 312
ISBN: 9789896604578
Editora: Leya

Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

A minha opinião:
O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos (e li recentemente um romance), mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral. 

A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka, é a misteriosa e relevante personagem do trio. 

A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns!