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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

O Homem do Casaco Vermelho

 

A minha opinião:

"A arte sobrevive aos caprichos individuais, ao orgulho familiar, à ortodoxia da sociedade; a arte tem sempre o tempo do lado dela."

Nada como um bom desafio para fazer um livro adiado sair da prateleira onde repousa. O homem do casaco vermelho é uma personagem anónima maravilhosa, que viveu no espírito da Belle Époque nesta coloquial narrativa bem humorada e elegante. Para quem gosta. Eu vou marcando os muitos fragmentos que vale a pena reler nesta História prazerosa.

Mais do que retratar o homem, Julian Barnes retrata uma época, com a panóplia de personagens que deixaram memória. É uma viagem ao passado com um guia que, sabe o que faz e tudo isto a partir do verão de 1885 quando três cavalheiros franceses vão a Londres. O homem do casaco vermelho era Samuel Pozzi, carismático médico, ginecologista e um livre pensador.

"Podemos especular desde que também admitamos que as nossas especulações são romanescas e que o romance tem quase tantas formas como as que têm o amor e o sexo."

Autor: Julian Barnes
Páginas: 320
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789897226618
Edição: maio/2021

Sinopse:
No verão de 1885, três cavalheiros franceses chegaram a Londres para alguns dias de «compras decorativas e intelectuais». Um era príncipe, outro era conde e o terceiro era um plebeu com apelido italiano que, alguns anos antes, fora retratado numa das extraordinárias telas de John Singer Sargent. Era ele Samuel Pozzi, médico da melhor sociedade, ginecologista pioneiro e livre-pensador - um homem racional, de espírito científico e com uma vida privada conturbada.

Em fundo, a Belle Époque parisiense, um período de muito glamour e prazer, mas com um lado negro também - de histeria, narcisismo, decadência e violência.

O Homem do Casaco Vermelho é, assim, em simultâneo, um original e vívido retrato da Belle Époque - e dos seus heróis, vilões, escritores, artistas e pensadores - e de um homem à frente do seu tempo. Um livro cheio de espírito e profundamente documentado, que mostra e defende a frutuosa e duradoura troca de ideias através do Canal da Mancha que fez a grandeza da Europa.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A Única História

A minha opinião:
Julian Barnes continua igual a si próprio, com uma trama de uma simplicidade desarmante que se revela de uma complexidade estonteante. Sentimentos e emoções que vemos à lupa guiados pela memória de Paul. Divertido, de início, questiona que palavra usaríamos para descrever uma relação entre um rapaz de dezanove anos e uma mulher de quarenta e oito. E conta a sua história. A única que interessa. 

A narrativa analítica abrange relacionamentos e sentimentos, muitas vezes tristes, descodificando, uma relação desigual como esta. Afinal... andamos todos à procura de um lugar seguro. E se não o encontrarmos, então temos de aprender a passar o tempo. 

Contrariamente ao que seria de se esperar, não se trata de uma paixão avassaladora que derruba barreiras. Um amor envergonhado, em que as restantes personagens como o marido e as filhas de Susan, a amiga Joan ou os amigos e pais de Paul não têm relevo. Personagens sem brilho ou alegria.

Os romances de Julian Barnes são para ler devagar. A fleuma inglesa no seu melhor.

Autor: Julian Barnes
Edição: 2019/ abril
Páginas: 256
ISBN: 9789897224690
Editora: Quetzal

Sinopse:
«Preferiam amar mais e sofrer mais; ou amar menos e sofrer menos?» É com este convite à reflexão - um enunciado falso, já que não temos escolha, pois não se controla o quanto se ama - que Barnes inicia o seu mais recente romance.

À guisa de preâmbulo, o narrador faz-nos notar que, embora todos tenhamos imensas histórias, inúmeros acontecimentos e ocorrências que transformamos em histórias, cada um de nós tem apenas uma, aquela história - a que contamos mais vezes, nomeadamente a nós mesmos. E a primeira questão que se levanta é se o facto de a contarmos e recontarmos nos aproxima da verdade.

A história do narrador deste livro é a da relação amorosa que se inicia entre ele, um jovem de dezanove anos e a senhora Macleod, uma mulher casada de quarenta e muitos, durante um jogo de ténis.

quinta-feira, 9 de março de 2017

O Ruído do Tempo

Autor: Julian Barnes
Edição: 2016/ junho
Páginas: 200
ISBN: 9789897223068
Editora: Quetzal Editores

Sinopse:
Em janeiro de 1936, Estaline assistiu à apresentação da muito aclamada ópera de Chostakovich, Lady Macbeth de Mtensk, no Teatro Bolshoi, em Moscovo. O compositor ficou muito perturbado com a intempestiva e prematura saída do líder do camarote, acompanhado pela sua comitiva. Dois dias depois aparecia no jornal Pravda uma crítica com o título «Chinfrim em vez de Música», escrita provavelmente pela pena do próprio Estaline. Diz Julian Barnes sobre o livro: «A colisão entre Arte e Poder - e o exemplo específico de Chostakovich - é o coração do meu romance. Chostakovich foi, durante meio século, o compositor mais celebrado da União Soviética, desde o sucesso mundial da sua Primeira Sinfonia, em 1926 (tinha ele 19 anos), até à sua morte, em 1975. No entanto, ele foi também o compositor que, na História da Música ocidental, foi mais perseguido, e durante mais tempo, pelo Estado e que sofreu pequenas e caprichosas interferências e ameaças de morte, passando por uma longa e constante coação e intimidação. Em muitas ocasiões, sob a ditadura estalinista, Chostakovich temeu pela sua vida, com razão. […] "A História, assim como a biografia, irá desvanecer-se. Talvez um dia, fascismo e comunismo sejam apenas palavras num livro de texto. Nessa altura […], a sua música será apenas música." À medida quo o ruído do tempo diminui, é mais fácil ouvir melhor a música de Chostakovich. O melhor sobrevive. Também é mais fácil ver o homem propriamente dito: complicado, cheio de conflitos e de princípios, que se condena, leal, teimoso, astuto, divertido, sarcástico e pessimista, cuja existência consistia inteiramente na sua música.»

A minha opinião:
Gosto tanto da escrita apurada e sintética de Julian Barnes. Sem falhas. Ritmada. Como uma bela musica. Desta feita sobre a vida e obra de Dmitri Chostakovich, um importante compositor russo do tempo do estalinismo, atormentado e manipulado pelo poder, que o ameaçava e punia quando não agradava ou bajulava e premiava quando cedia. Dividido em três partes, começa No Patamar quando de malas feitas aguardava que o viessem buscar a meio da noite.

"Todo aquele esforço e idealismo e esperança e progresso e ciência e arte e consciência, e acaba tudo assim, com um homem de pé junto a um elevador, com uma pequena mala que contém cigarros, roupa interior e pó dentrifico; ali de pé, à espera de ser levado."  (pag. 52)

Prossegue No Avião, quando anda em digressão pelos Estados Unidos coagido a atuar conforme é determinado pelo Poder.

"A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo." (pag.104)

"O que podíamos construir contra o ruído do tempo? Só essa música que está dentro de nós - a música do nosso ser -, que é transformada por alguns em música real. Que, ao longo das décadas, se for suficientemente forte e verdadeira e pura para afogar o ruído do tempo, se transforma no murmúrio da História."   (pag. 138)

E termina No Carro depois de ter suportado todas as humilhações e aspirar à morte como forma de libertação.

"Toda a sua vida confiara na ironia. (...) E uma parte de nós acreditava que, enquanto pudéssemos confiar na ironia, conseguiríamos sobreviver. (...)  No entanto, já não tinha tanta certeza. (...) A ironia, já percebera, era tão vulnerável aos acasos da vida e do tempo como qualquer outro sentimento. (...) E a ironia tinha limites. Por exemplo, não se podia torturar e ser irónico; ou ser vitima de tortura e ser irónico. (...) Se virássemos costas à ironia, ela petrificaria em sarcasmo. (...) O sarcasmo era ironia que tinha perdido a alma. (pags. 186-188)

Narrativa inteligente, subtil e irónica que me encanta. Que me dá que pensar nos tempos que correm. Poderia ser uma leitura pesada mas o talento de Julian Barnes não deixa, apesar de abordar a relação do Poder com a arte e os artistas, assim como a violência mesmo que esta não seja fisica sobre o homem e a sua humanidade. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Os Níveis da Vida

Autor: Julian Barnes
Edição: 2013, novembro
Páginas: 112
ISBN: 9789897221323
Editora: Quetzal

Sinopse:
Juntam-se duas coisas que nunca antes haviam sido juntas. E o mundo transforma-se…O novo livro de Julian Barnes é sobre balonismo, fotografia, amor e sofrimento; sobre juntar duas coisas, duas pessoas, e sobre separá-las. Um dos jurados que atribuiu a Barnes, em 2011, o Prémio Man Booker descreveu-o como «um incomparável mago do coração». Este livro confirma essa tese.

A minha opinião:
"Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não para um, para o outro. Às vezes, para ambos."

Julian Barnes numa escrita muito pessoal. 
Notável como consegue transportar para o papel todas as graduações emocionais sentidas com a morte da sua mulher com quem viveu trinta anos de um amor conjugal. 
É impossível ficar indiferente a sentimentos, emoções e pensamentos tão distintamente compreendidos na dor do luto e expressos por palavras sábias sobre a relação com os outros e consigo próprio.  Qualquer pessoa que tenha passado por tal sentiu dor, raiva, tristeza, medo, angústia e solidão mas Julian teve lucidez e talento para libertar todo esse intenso sentir através de um sucinto capítulo que definiu como A Perda de Profundidade. 

O primeiro de três capítulos - O Pecado da Altitude - causa estranheza porque é sobre balonismo e a leitura prossegue desprendida até ao segundo capítulo - Ao Nível, em que uma história de amor sem final feliz se revela. No último capítulo, chegarmos ao âmago desta leitura e percebemos onde o autor nos quis fazer chegar. 

Curta mas emocionante leitura. Um livro que nos marca. Sobriedade e Autenticidade. Uma experiência de leitura inolvidável. O que se busca no prazer de ler. 

Belíssimo. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

O sentido do fim

Autor: Julian Barnes
Edição: 2011, Novembro
Páginas: 160
ISBN: 9789725649893
Editora: Quetzal

Sinopse:
Tony Webster e a sua clique só conheceram Adrian Finn no fim do liceu. Famintos de livros e de sexo, e sem namoradas, viviam esses dias em conjunto, trocando afetações, piadas privativas, rumores e mordacidades de todo o género. Talvez Adrian fosse mais sério do que os outros, e seria certamente mais inteligente. Mesmo assim, juraram que ficariam amigos para o resto da vida. Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém – ou pelo menos acredita nisso.
Mas a chegada da carta de uma solicitadora desencadeia uma série de surpresas, acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita.
Com marcas da literatura inglesa clássica – na apreciação do júri que o distinguiu com o Man Booker Prize 2011 –, O Sentido do Fim constrói, com grande delicadeza e precisão, uma trama tensa, forte, e revela a mestria de um dos maiores escritores dos nossos tempos.

A minha opinião:

Este livro atraiu-me desde o momento em que o vi. Vencedor do Man Brooker Prize 2011 tornava-o promissor. Mas mais do que isso, era a convição de que iria gostar muitisisimo de o ler.

Na primeira parte, uma história comum escrita de um modo simples mas irreprensível sobre as vivências de quatro jovens nos anos sessenta, narrada pelo personagem principal - Tom Webster. Neste grupo de amigos destacava-se Adrian pela sua inteligência e objectividade, em oposição aos seus três amigos que usavam o senso comum.

              "A História são as mentiras dos vencedores...e também a ilusão dos vencidos"

              "São mais as memórias dos sobreviventes, dos quais a maioria não é vitoriosa nem vencida."

Na segunda parte, a história ganha impulso com um episódio inesperado e a leitura toran-se absorvente e imparável. "Aprender as novas emoções que traz o tempo" porque a acção se passa 40 anos depois. Ressentimentos, dúvidas, incertezas, em suma, sentimentos recalcados e emoções mal resolvidas são revistas por uma perspectiva diferente.

Pode parecer monótono mas num livro com 152 páginas e com tanto para assimilar e reflectir sobre como vivemos e qual o controle e percepção que temos, fica no fim, uma sensação de querer mais, mesmo depois do final surpreendente e perfeito.

            "Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contamos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas - principalmente - a nós próprios."