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domingo, 25 de novembro de 2012

O Aroma das Especiarias

Autor:  Joanne Harris
Edição: 2012, Setembro
Páginas: 496
ISBN: 9789892320106
Editora: ASA

Sinopse:
Quando Vianne Rocher recebe uma dessas cartas, ela sente que a mão do destino está a empurrá-la de volta a Lansquenet-sur-Tannes, a aldeia de Chocolate, onde decidira nunca mais voltar. Passaram já oito anos, mas as memórias da sua mágica chocolataria La Céleste Praline são ainda intensas. A viver tranquilamente em Paris com o seu grande amor, Roux, e as duas filhas, Vianne quebra a promessa que fizera a si própria e decide visitar a aldeia no Sul de França.
À primeira vista, tudo parece igual. As ruas de calçada, as pequenas lojas e casinhas pitorescas… Mas Vianne pressente que algo se agita por detrás daquela aparente serenidade. O ar está impregnado dos aromas exóticos das especiarias e do chá de menta. Mulheres vestidas de negro passam fugazes nas vielas. Os ventos do Ramadão trouxeram consigo uma comunidade muçulmana e, com ela, a tão temida mudança. Mas é com a chegada de uma misteriosa mulher, velada e acompanhada pela filha, que as tensões no seio da pequena comunidade aumentam. E Vianne percebe que a sua estadia não vai ser tão curta quanto pensava. A sua magia é mais necessária do que nunca!

A minha opinião:
O último romance e o terceiro da série "Chocolate", que para mim, é o primeiro em tudo, porque esta autora é uma estreia absoluta. Vi o filme baseado no primeiro livro desta série, com  Juliette Binoche e Johnny Depp e recordo vagamente o ambiente bucólico daquela aldeia e a presença subtilmente distinta de Vianne. Uma mulher livre, que se deslocava com o vento, com capacidades extrassensoriais. A mãe considerava-se bruxa.
"Essa palavra está sobrecarregada agora com história e preconceitos. As pessoas que dizem que as palavras não têm poder não sabem nada sobre a natureza delas. Bem colocadas, podem pôr fim a um regime; podem transformar o afeto em ódio: podem começar uma religião ou mesmo uma guerra. As palavras são as pastoras das mentiras; conduzem os melhores de nós ao matadouro."
(pag.258)

Esta estória é contada a duas "vozes"; Padre Francis Reynaud e Vianne em capítulos alternados durante aproximadamente um período de tempo correspondente a um mês - enquanto decorria o Ramadão, sobre uma guerra ... "(...) entre homens e mulheres; velhos e novos; amor e ódio; Oriente e Ocidente; tolerância e tradição." (pag. 377)

Como o vento, ora suave e agradável, ora violento e tumultuoso, também assim se pode descrever esta narrativa. Enfeitiçou-me e levou-me perplexa ao longo das suas quase 500 páginas "aconchegando-me num casulo de doçura".

Pessoas e a sua interação que pode ser inquinada com um elemento numa pequena comunidade marcada pela diferença e pela mudança. As crianças tem a estranha faculdade de as aceitar. Mas, nós os adultos julgamo-nos tão espertos que não sabemos do que precisamos e deixamo-nos enganar ou manipular. É fantástico quando um livro nos conduz a uma reflexão e nos dá muito mais do que aquilo que esperávamos.
"Se o mundo fosse assim tão simples para nós... Mas nós temos a estranha faculdade de nos concentrarmos na diferença; como se excluir os outros pudesse tornar mais forte o nosso sentido de identidade. No entanto, em todas as minhas viagens descobri que as pessoas são geralmente iguais em todo o lado. Sob o véu, a barba, a sotaina, é sempre o mesmo mecanismo. Apesar daquilo em que a minha mãe acreditava, não há magia no que fazemos. Vemos porque olhamos para além de toda a confusão do que os outros veem. As cores do coração humano. As cores da alma."
(pag. 235)

sábado, 17 de novembro de 2012

Eu tenho um sonho



Subtítulo: Os Discuros que Mudaram a História
Autor:  Ferdie Addis  
Edição: 2012, Setembro
Páginas: 184
ISBN: 9789724745008
Editora: Texto Editores

Sinopse:
Podem as palavras mudar o mundo? Ou palavras leva-as o vento?
Por vezes, quando as circunstâncias envolventes parecem demasiado negras para haver qualquer esperança, são palavras que envolvem, elevam e motivam populações a lutar. As palavras podem desafiar ditadores: «lutaremos nas praias»; podem começar revoluções: «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»; podem criar novas nações. «consideramos estas verdades como auto-evidentes». Outras, dão início a novas ideologias: «os fracos herdarão a terra».
Este livro apresenta momentos memoráveis em que o futuro foi decidido por palavras pronunciadas por homens e mulheres de fortes convicções. Desde palavras absurdas a inspiradoras, de divinas a diabólicas, estes são os discursos que mudaram a História e deixaram a sua marca no mundo actual.
 
A minha opinião:
Um pequeno grande livro. Simples, acessível e sintético. De quando em quando é bom ler para saber ou quiça recordar, palavras inflamadas, inspiradas ou proféticas que nos deem alguma compreensaõ e alento sobre a capacidade que o ser humano tem de se unir em torno de uma causa e superar desafios. Sem qualquer posição política ou ideológica, excepto, a razão e a coerência, somos capazes de nos surpreender com o extraordinário poder da palavra e de um bom discurso.
Senão vejamos o exemplo de uma controversa senhora, Margareth Thatcher (1980):
 
"Se gastar dinheiro como água fosse a resposta para os problemas do nosso país, não teriamos problemas agora. Se alguma vez uma nação gastou, gastou e voltou a gastar, foi a nossa. Hoje esse sonho chegou ao fim. Todo esse dinheiro não nos levou a parte alguma, mas continua a ter de vir de algum lado. Aqueles que nos exortam a aliviar o aperto, a gastar ainda mais dinheiro indiscriminadamente, na crença de que ajudará os desempregados, não estão a ser bondosos, compassíveis ou solícitos.
(...)
Se o nosso povo sentir que faz parte de uma grande nação e estiver preparado para desejar os meios de a manter grande, uma grande nação seremos e continuaremos a ser.
(...)
Permitam-nos então que resistamos às lisonjas dos fracos; permitam-nos que ignoremos os uivos e ameaças dos extremistas; permitam-nos que nos conservemos coesos e façamos o nosso trabalho e não falharemos. "
 
EU TENHO UM SONHO!
 

O Livro dos Perfumes Perdidos

Autor:  M. J. Rose
Edição: 2012, Outubro
Páginas: 420
ISBN: 9789897240393
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Um segredo pelo qual vale a pena morrer...Jac L'Étoile sempre foi ensombrada por visões do passado e as suas recordações mais antigas misturam-se com as lembranças dos aromas exóticos que cresceram com ela, enquanto herdeira de uma tradicional companhia de perfumes.
Quando Robbie - que assumiu o controlo da Maison L'Étoile das mãos do pai - contacta a irmã Jac para lhe falar de uma espantosa descoberta feita nos arquivos da família, esta mostra-se cética. Porém, Robbie desaparece antes de partilhar a sua descoberta e Jac mergulha num mundo que acreditava ter deixado para trás.
Jac viaja até Paris a fim de investigar o desaparecimento do irmão e descobre que o segredo de família tem que ver com uma misteriosa fragrância desenvolvida nos tempos de Cleóptera. Serão os rumores que circulam verdadeiros? Poderá este antigo perfume deter o poder de desencadear memórias de vidas passadas e provar que a reencarnação é uma realidade? Se este tesouro tiver de facto o poder de mudar o mundo, nesse caso justificar-se-á que vidas sejam sacrificadas em seu nome...
O Livro dos Perfumes Perdidos combina história, paixão e suspense numa inebriante teia que nos leva do Egito de Cleóptera aos terrores da Revolução Francesa, dos confrontos do Tibete com a China ao encanto da moderna capital francesa.

 
A minha opinião:
Intrincado.  Uma elaborada e algo complexa história, bem contada, mas nada fácil de ler. Exige alguma atenção e concentração para entrar na trama e perceber o papel de cada uma das várias personagens.

Certas temáticas atraem-me: Espiritualidade, misticismo, mitologia, crenças, História. Nesta narrativa temos uma história ficcional que mistura uma grande quantidade de factos, resultado da pesquisa e estudo da autora, conjugado com dados da investigação efetuada ao mundo dos aromas e dos perfumes. No fim, temos as notas de autora que revela o que existe de real no que lemos nesta obra.

"Os perfumes despertam a memória. É possível tropeçarmos sem querer numa fragância e recordarmos de repente um dia inteiro da nossa infância... e será uma lembrança tão real e vívida como se tivesse sucedido há umas horas."
(pag. 117)

A importância dos cheiros que nos conduzem a extraordinárias associações.

Jac L' Étoile é uma personagem com um nariz muito sensível, descendente de uma prestigiada familia de perfumistas, perseguida por alucinações, sonhos ou surtos psicóticos provocados por estímulos olfactivos, desde o drama em adolescente com a morte da mãe.
Com o negócio de familia em risco, fragmentos de um antigo artefacto egípcio com hieróglifos inscritos - lendário segredo de familia - era o instrumento mneumónico mais disputado por um psicólogo reencarnacionista que cuidara de Jac e pela máfia chinesa interessada em impedir uma nova onda de simpatia pela causa tibetana. E assim, temos o mote para uma aventura que conduz às catacumbas de Paris e ao fascínio pelas crenças e rituais tibetanos.

Uma bela capa para um belo romance.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fragmento



"Não se devia deitar abaixo o passado para abrir caminho ao futuro. Era a forma mais certa de se perderem lições. A arte de manter uma civilização viva, tal como a arte de fazer perfumes, estava na mistura, na combinação."
(pag.63)

sábado, 10 de novembro de 2012

A menina na falésia

Autor:  Lucinda Riley
Edição: 2011, Maio
Páginas: 528
ISBN: 9789892318448
Editora: ASA

Sinopse:
Grania Ryan tem em Nova Iorque a vida com que sempre sonhou. Tudo é perfeito até ao dia em que o seu desejo mais íntimo é brutalmente estilhaçado. Arrasada, Grania decide voltar à Irlanda e aos braços da sua adorada família. E é aqui, à beira de uma falésia, que conhece Aurora Lisle, a menina que vai mudar profundamente a sua vida.
A ligação entre ambas é imediata e profunda. Pouco a pouco, Grania descobre que as histórias das suas duas famílias estão estranha e intrinsecamente ligadas…

De um agridoce romance na Londres do tempo da grande guerra a uma relação tempestuosa na Nova Iorque contemporânea; da devoção a uma criança terna e carente a memórias esquecidas de um irmão perdido, o passado e o presente das famílias Ryan e Lisle estão unidos há um século. Cem longos anos de equívocos e segredos, paixões e ódios… Apenas a intuição e a coragem de Aurora poderão quebrar o feitiço e vencer as barreiras que o passado ergueu.
Assombrosa, terna e comovente, a história de Aurora é uma inspiração para todos nós. Um exemplo de como a esperança e o amor podem ultrapassar todas as perdas.

A minha opinião:
Este romance é realmente uma preciosidade. Para ler e reler.  Retardei o mais possível a sua leitura, pelo prazer de o ler.

Nesta época do ano, que bem que sabe aninharmos confortavelmente com um bom livro, uma música suave, uma bebida reconfortante, e deixarmo-nos enlevar numa história credível e bem contada como esta.

Ao iníciar a leitura, deparei-me com um dos "apontamentos" da Aurora Lisle e fiquei encantada com a narradora que, retrocede no tempo para recordar a criança precoce que era. Uma criança que cresceu com um pai atrapalhado e sem o afeto da mãe, até conhecer Grania e a familia Ryan. Mas, recua ainda mais, para contar a história de personagens que morreram antes do seu tempo.
Histórias de vidas entrelaçadas e de familias com uma História conjunta, através de um leque de personagens boas e más, em que o amor é a causa das escolhas que se fazem. A magia do amor nas suas diversas formas.
Como se de um conto de fadas se tratasse, mas este retrata a realidade, com a sua complexidade e mistérios que, gradualmente desvendamos num crescendo de interesse e empatia pelas personagens.

Uma escrita fluida e singela sem grandes "floreados", mas extremamente eficaz pelas emoções que provoca no leitor, que se envolve nesta extraordinária narrativa.

"Deram-me o nome de uma princesa  de um célebre conto de fadas. Talvez seja essa a razão pela qual eu sempre acreditei em magia. E à medida que crescia, apercebi-me de que um conto de fadas é uma alegoria para a grande dança da vida que todos empreendemos desde o momento em que nascemos. 
E não podemos fugir a ela até ao dia em que morremos."   
(pag. 10)
 
"Bom. Eu vou morrer. Antes de ter sido corrompida. E dessa forma, ainda consigo acreditar na magia do amor. Eu acredito que as nossas vidas, tal como os contos de fadas - as histórias que foram escritas por humanos como nós, através das nossas próprias experiências de vida - terão sempre um Herói e uma Heroína, uma Fada Madrinha e uma Bruxa Malvada.
E esse amor e bondade, e fé, e esperança irão sempre levar a melhor.
...
Por favor, se puder, lembre-se de mim e da história da minha familia num cantinho da sua mente. Também é a sua história, porque diz respeito à humanidade.
E acima de tudo, nunca perca a fé na beleza e na bondade da natureza humana.
Estão sempre presentes; mas, por vezes, tem de as procurar com mais afinco."
(pags. 516/517)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Solstício de Verão

Autor:  Tara Moore
Edição: 2012, Junho
Páginas: 440
ISBN: 9789897260049
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
O Baile do Solstício de Verão dos Granville é sempre inesquecível. Todas as pessoas importantes da sociedade irlandesa ​​reúnem-se em Carrickcross House - a propriedade rural da família - para uma noite de folia. Mas este ano a noite é muito especial: a matriarca Honoria vai anunciar o noivado do seu neto Rossa com Ashling Morrison. Ashling está delirante. Alto, moreno e bonito, Rossa é o partido perfeito, mas será demasiado bom para ser verdade?

Por que motivo está Honoria tão interessada em fazer Ashling - enteada da sua arqui-inimiga Coppelia - parte do clã Granville? Poderá Carrick, o irmão de Rossa, manter a sua posição como herdeiro legítimo? E o que fará a implacável Coppelia? Com a promessa de convidados distintos, bebidas, danças e assassínio... será um solstício de verão inesquecível!

A minha opinião:
A capa sugeria-me um típico romance "cor-de-rosa" com glamour, paixão e intriga. Romance que me permitiria "desligar" das preocupações e ansiedades do dia-a-dia, enquanto me deixava seduzir  por personagens carismáticas em ambientes luxuosos.
Não poderia estar mais enganada. E essa é a mais-valia deste romance. De me surpreender. Mas não me seduziu.

Crime, mistério, intriga e vingança num romance repleto de segredos sórdidos, que vão sendo desvendados em ritmo acelerado sobre personagens que de belas, tinham apenas o aspeto exterior. Até a linguagem utilizada entre os mesmos é grosseira (ordinária até),  o que não seria previsível ou expectável entre personagens da classe alta e de refinada educação. Soberba, ganância, prepotência, manipulação, perversão e vícios vários (alguns de indole sexual, eventualmente para combater o tédio ou quiça a perda enquanto muito jovens dos pais), são alguns dos adjetivos que poderão caracterizar o comportamento de certas personagens e esses já não são inesperados. O expoente máximo de insanidade maléfica e perversa são os "anjos caídos" - os gémeos Sapphire e Indigo Granville. Depois disso, a excêntricidade e homossexualidade de Jaspar Granville, a par com o encantador e inescrupuloso Rossa. O melhor, é sem dúvida, Carrick, o herdeiro legítimo de um património cobiçado - Carrickcross.

Escrita simples e acessível em que se nota um maior cuidado com a acção do que com o conteúdo. Como se de um seriado ou folhetim radiofónico se tratasse e em que se procura uma trama contínua de impacto. Alguma superficialidade e inexpressividade quer das personagens, quer do próprio enredo. Não creio que retome esta autora em outras leituras.

domingo, 28 de outubro de 2012

Álbum de Verão

Autor:  Emylia Hall
Edição: 2012, Junho
Páginas: 304
ISBN: 9789722635240
Editora: Civilização

Sinopse:
Beth Lowe recebe uma encomenda.
Lá dentro há uma carta que a informa da morte da mãe, com quem cortou relações há muito tempo, e um álbum de recortes que Beth nunca tinha visto. Tem um título – Álbum de Verão – e está repleto de fotografias e lembranças reunidas pela mãe para recordar os sete gloriosos verões que Beth passou na Hungria rural quando era criança.
Durante esses anos Beth dividia-se entre os pais divorciados e dois países muito diferentes. A sua encantadora mas imperfeita mãe húngara e o seu pai inglês carinhoso mas reservado, a fascinante casa de uma artista húngara e uma casa de campo sem vida no interior de Devon, Inglaterra. Esse tempo terminou do modo mais brutal quando Beth completou dezasseis anos.
Desde então, Beth não voltara a pensar nessa fase da sua infância. Mas a chegada do Álbum de Verão traz o passado de volta – tão vivo, doloroso e marcante como nunca.

A minha opinião:
Encantador enquanto aborda a fase mais feliz, inocente e cheia de esperança de Beth em sete verões (dos 10 aos 16 anos de idade). Marcada pela dor e saudade com a perda dos que mais amou nos quatorze anos subsequentes.

Apesar da sua reduzida dimenão, não é um livro fácil de ler. Torna-se muito extenso e algo demorado com a sua prosa muito descritiva, lirica sobre um lugar de doce memória  - Villa Serena, na Hungria.
Imagens campestres idílicas de verões passados, recordadas gradualmente e na medida do amadurecimento/ crescimento da personagem enquanto desfolha um álbum de fotos deixado por Marika, que o concebeu com esmero e carinho.
 
Um romance denso sobre sentimentos. Sentimentos de afeto recalcados para se proteger da dor e da mentira ou omissão que acompanhou essa fase da sua vida.
Bem escrito e até belo mas que me deixou "um sabor amargo". As boas criticas que li não corresponderam à minha expetativa. Ou a minha predisposição atual não era favorável a um romance tão sentimental. A relação distante/ pouco comunicativa de Beth com o pai, afetuosa com a "mãe"e  Zóltan e apaixonada pelo Tamás perturbaram-me um pouco pelo muito e simultâneamente pouco que durou.
 
"Existe uma espécie triste de poesia nos incautos. Por cada catástrofe que se abate sobre nós, houve um tempo anterior em que de nada suspeitávamos. Mal sabíamos a que ponto erámos felizes."
(pag. 17)
 
"Uma coisa sei: as velhas feridas nunca desaparecem. São, aliás, as coisas que nos moldam, são as coisas para que olhamos quando começamos a fragmentar-nos."
(pag. 24)
 
"A sua relação com o álbum é estranha. Demorou tempo a compreendê-lo, a desejar deliciar-se com as suas páginas. Agora sabe que não é apenas o seu mundo que ama mas o facto de ele existir."
(pag.299)

sábado, 20 de outubro de 2012

A noiva despida

Autor:  Nikki Gemmell
Edição: 2012, Outubro
Páginas: 320
ISBN: 9789892321301
Editora: Edições ASA

Sinopse:
Uma mulher desaparece. Ela era a esposa perfeita, a mãe exemplar, uma mulher irrepreensível. O que dizer então do explosivo diário que deixa para trás? Nas suas páginas, ela revela pormenores surpreendentes da sua jornada de descoberta e libertação sexual.
Ela inicia o seu diário em Marrocos. Está em lua-de-mel. Acredita ser feliz na sua vida confortável e convencional. Mas ela precisa de mais. Ao descobrir um livro raro, de uma autora anónima do século XVII, sente-se inspirada pela sua heroína fogosa, que desafia as convenções e busca o prazer.
Mas o que começa apenas na sua imaginação, rapidamente ganha contornos de urgência. Pela primeira vez, ela põe em prática o que de mais íntimo e inconfessável lhe vai na alma. Assim começa uma vida dupla na qual transpõe a barreira entre fantasia e realidade, num mundo onde o desejo não conhece limites. Mas o preço dessa liberdade pode ser demasiado alto…
A Noiva Despida é uma aventura nos meandros do sexo e do amor. Uma partilha de confidências que apenas as melhores amigas ousam fazer. No final, é impossível evitar a pergunta: até que ponto conhecemos verdadeiramente outra pessoa?
 
A minha opinião:
Um Diário Intimo em 138 "lições"/capítulos, apoiado num manuscrito seiscentista de uma autora isabelina."Uma perspectiva nua e crua do casamento - o que uma esposa pode pensar mas nunca diria" (pag. 263). Escrito anónimamente para não expor toda uma vida secreta, de verdades reprimidas sobre o que realmente sentia e o que realmente queria.
 
FASCINANTE, ERÓTICO E OBSCENO. Uma nova edição atual.
 
"A voz forte e singular nunca vacila, o texto tem um rigor tal" que, sentimos contraditórias emoções na forte e até agressiva narrativa. Despudorado e perturbador na sua exposição, com dúvidas, ansias e controversos pareceres sobre o marido Cole, o amante Gabriel e a melhor amiga Theo.

Sensações, perceções, reações, emoções e sentimentos, tudo aflui à superfície enquanto o  descreve esta jovem mulher na faixa dos 35 anos. Um livro que inquieta e desassossega, pelo muito que oculto se passa no universo feminino através desta "atriz" esposa e mãe. A diferença é que são desejos vividos e realizados, não sujeitos ao espaço de uma fantasia.
 
"Ninguém, a não ser o teu marido, sabe da cautela que rege a essência da tua vida. A tua vida de adulta tem sido um progressivo retiro da curiosidade e do espanto, uma infidável série de atrasos e adiamentos. Querias ser tanta coisa, antigamente, mas a vida teimou em intrometer-se. Brilhaste no curso de Jornalismo, mas nunca foste suficientemente ambiciosa para uma redação. Tinhas pavor dos telefonemas frios, de invadires a vida das pessoas. Fizeste um mestrado e deixaste-te levar pelo ensino e sempre duvidaste das tuas capacidades ... Acomodaste-te. Esquivaste-te à criatividade, ao voo, ao risco, nunca tiveste coragem de dar asas a um sonho, qualquer sonho."
(pag. 110)
 
Uma dupla identidade numa história pessoal, sobre aquele tipo de intimidade que abre brechas na vida privada e que não lemos com indiferença ou distanciamento porque em algumas passagem reflete-se em quem o lê.
Obrigatório para quem quer experienciar um tipo de leitura diferente. Uma leitura participativa.

domingo, 14 de outubro de 2012

O Mercador de Livros Malditos



Autor:  Marcello Simoni
Edição: 2012, Setembro
Páginas: 384
ISBN: 9789892240294 
Editora: Clube do Autor
 
 
Sinopse:
Uma incursão apaixomante pela história. Uma viagem no tempo até à época medieval.

É quarta-feira de cinzas do ano de 1205. O padre Vivïan de Narbonne é perseguido por um grupo de cavaleiros que ostentam estranhas máscaras. O padre possui um bem muito precioso que precisa de proteger a todo o custo, mesmo que tal possa significar a sua morte.
Treze anos passaram sobre este dia tenebroso. O amigo do padre, Ignazio de Toledo um mercador de relíquias, é encarregado de seguir o rasto de um livro raro, o Uter Ventorum. Diz-se que essa cópia de certos manuscritos persas pode conter o método de evocar os anjos e a sua divina sabedoria. As criaturas sobrenaturais, uma vez invocadas, estariam dispostas a revelar os segredos dos poderes celestes.
E assim se inicia a viagem de Ignazio através da Itália, da França e de Espanha em busca de um manuscrito que alguém terá desmembrado em quatro partes, escondido cuidadosamente e protegido por meio de intrincados enigmas. Só que o mercador não é o único a procurá-lo. Quem será o primeiro a conseguir descobri-lo? E o que estará cada um disposto a arriscar para desvendar o mistério?
O Mercador de Livros Malditos é uma história envolvente, marcada por intrigas, segredos ocultados durante séculos e mistérios que vão para lá do conhecimento de sábios e de alquimistas. Afinal, que segredo poderá conter a chave para o domínio absoluto do mundo?
 
A minha opinião:
Este é um daqueles casos em que a sinopse revela quase tudo sobre a história passada na obscura Idade Média, como a capa tão bem o documenta. Ainda assim, é uma bem urdida trama sobre uma tenaz e audaciosa busca de um misterioso livro, através de enigmáticas pistas que apenas a mente iluminada de Ignazio de Toledo decifra. No seu rasto, tenebrosas forças do mal procuravam apoderar-se desse objeto de culto, que acreditavam dar amplos poderes a quem o possuisse.
 
"- Diz-se que a Santa Vehme foi instituída por Carlos Magno para manter a ordem nas terras germânicas. Tratava-se de um tribunal secreto composto por cavaleiros que tinham o direito de vida ou de morte sobre quem quer que fosse. Ninguém estava isento do seu castigo, nem sequer os nobres. Com o tempo, vieram a ser chamados de "Videntes". Reivindicam as suas execuções deixando no lugar do delito um punhal cruciforme. Puniam uma infinidade de delitos, da descrença à usurpação do poder soberano, da necromancia à violência sobre as mulheres. Os suspeitos eram expulsos das suas casas e levados perante os juízes e se fossem considerados culpados eram imediatamente enforcados. À testa da Santa Vehme estão o grão-mestre, depois vêm os franco-condes e, por último, os franco juízes."
(pag. 194)
 
Um livro surpreendente, com Prólogo e Epílogo, dividido em seis partes e oitenta oito capítulos. Devido ao suspense numa narrativa bem concebida e com um adequado enquadramento de época, fui agradávelmente enredada na ação mas fiquei algo desapontada com o final que apesar de terminar no ... fim ... feliz, não se concretizou como eu esperava, apesar do fator inesperado com a personagem Uberto.
 
Um livro que recomendo para quem aprecia romances do género.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um dia naquele inverno

Autor:  Sveva Casati Modignani.
Edição: 2012, Outubro
ginas: 384
ISBN: 978-972-0-04419-8
Editora: Porto Editora
 
Sinopse:
Numa grande mansão, às portas de Milão, vivem os Cantoni, proprietários há três gerações da homónima e prestigiada fábrica de torneiras.
Aparentemente, todos os membros da família levam uma vida transparente, mas, na realidade, todos eles escondem segredos que os marcaram; existem situações que, ainda que conhecidas por todos, permanecem um tema tabu. Omite-se até a loucura de que sofre Bianca, a matriarca desta dinastia.
Um dia, entra em cena Léonie Tardivaux, uma jovem francesa sem dinheiro e sem parentes, que casa com Guido Cantoni, o único neto de Bianca. Léonie adapta-se bastante bem à rotina familiar, compreendendo a regra de silêncio dos Cantoni. Isso não a impede de ser uma esposa exemplar, uma mãe atenta e uma gerente talentosa, que, com bastante êxito, conduz a firma pelo mar hostil da recessão económica. No entanto, também ela cultiva o seu segredo, aquele que todos os anos, durante apenas um dia, a leva a largar tudo e a refugiar-se no Lago de Como.
 
A minha opinião:
Sempre que saí um livro da Sveva, eu apresso-me a comprá-lo e tem prioridade sobre todos os outros livros que tenho em pilha ordenada por ler. Dos vários escritores que muito aprecio, destaca-se claramente pelo seu estilo único e pelas histórias singulares que, através de personagens femininas fortes, inteligentes e priveligiadas (com exceção do penúltimo - Mr. Gregory) contam histórias de vida e desvendam mistérios e segredos, muito deles de familias.
 
Os livros da Sveva tem em mim, o mesmo encanto e carisma que em criança tinham os contos de encantar. Não se trata de fantasia que nos faz sonhar mas descobrir entre as suas páginas, personagens tão integras e corajosas que gostariamos de as conhecer e com elas conviver  num  mundo paralelo e real.

Esta saga familiar e as peculiaridades de cada um dos elementos da mesma, com o suas alegrias e tristezas, alguns silêncios resultado de escolhas difíceis mas profundamente sentidas, bem como as delicadas questões da loucura, e infidelidade são bem fundamentados através de tudo o que nos é dado a conhecer sobre as perssonagens.
Para mim, este foi mais um romance que muito prazer me deu ler.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Reflexão

Ler é para mim, uma paixão que se tornou um hobbie de tempos livres. Todos os momentos de pausa ou lazer, eu ocupo a ler. E leio quase tudo o que casualmente me surge e que, defina como interessante ou promissor, principalmente romances. Depois de tantos, partilhei neste e no espaço do Segredo dos Livros, as minhas opiniões, esperando com isso motivar outros a procurar ler e assim formar a sua opinião sobre este ou aquele livro.
 
Frequentemente me debato com a dúvida, de se os meus comentários refletem o que realmente o livro representou para mim e se consegui transmitir a quem eventualmente os possa ler, algo susceptível de interesse ou curiosidade.
Na verdade, não tenho qualquer propósito de promover ou publicitar esta ou aquela editora, ou este ou aquele autor, apenas gostaria que um livro que pode moldar uma personalidade ou ir de encontrar a um sentir, fosse lido. Apenas quero, que outros sintam e apreciem como eu os livros, e desfrutem de momentos especiais e enriquecedores na sua companhia.
 
Quantas e quantas vezes procurei ler um livro devido a um comentário verbal ou escrito. Claro que cada um de nós tem juízos de valor diferentes sobre o mesmo objecto e que mesmo estes, podem mudar consoante o nosso estado de espírito, mas o importante é mesmo investir tempo nisso. Preencher a nossa mente com palavras e histórias que nos chegam ao coração.
 
 

A Arca

Autor:  Victoria Hislop
Edição: 2012, Julho
ginas: 416
ISBN: 9789722635264
Editora: Civilização

Sinopse:
Tessalonica, 1917.
No dia em que Dimitri Komninos nasce, um incêndio devastador varre a próspera cidade grega, onde cristãos, judeus e muçulmanos vivem lado a lado. Cinco anos mais tarde, a casa de Katerina Sarafoglou na Ásia Menor é destruída pelo exército turco. No meio do caos, Katerina perde a mãe e embarca para um destino desconhecido na Grécia. Não tarda muito para que a sua vida se entrelace com a de Dimitri e com a história da própria cidade, enquanto guerras, medos e perseguições começam a dividir o seu povo.
 
Tessalonica, 2007.
Um jovem anglo-grego ouve a história de vida dos seus avós e, pela primeira vez, apercebe-se de que tem uma decisão a tomar. Durante muitas décadas, os seus avós foram os guardiões das memórias e dos tesouros das pessoas que foram forçadas a abandonar a cidade. Será que está na altura de ele assumir esse papel e fazer daquela cidade a sua casa?
 
A minha opinião:
"Como seria fazer de Tessalonica a sua casa permanente? Era um lugar onde as pessoas apinhavam as ruas de uma alvorada à outra, onde cada laje do pavimento, antiga, moderna, polida ou quebrada estava impegnada de história e onde as pessoas se saudavam umas às outras com tanta afababilidade. Suspeitava que a cidade seria sempre desafiada pela adversidade, mas havia uma outra coisa de que ele tinha a certeza: de que continuaria a ser rica e plena de música e de histórias.
Subitamente, soube que ia ficar. Para escutar e para sentir."
(pag. 416) 
 
Neste magnifico cenário que durante um seculo atravessou inúmeras vicissitudes (como a História o documenta) que Dimitri e Katerina crescem, vivem  e envelhecem e arrebatam o leitor com uma narrativa forte e sensivel de um tempo e de um lugar que nos dá uma sensação tanto de história como de intemporalidade. As personagens são tão reais como nós, que nos confundem.
 
Reconheço o talento de Victoria Hislop que fez dela uma das minhas autoras preferidas, sendo mesmo imperdível, com este novo romance. Entrelaça como se de uma tapeçaria se tratasse, os fios das vidas das diversas personagens com acontecimentos que,  de um colorido e padrão únicos nos deixam deslumbrados.

Um romance que não se lê de ânimo leve pelo muito que nos diz, e nos faz pensar. Nos conturbados tempos que vivemos algum paralelismo fazemos. A prodigiosa capacidade do ser humano de amar, sobreviver, resistir e renovar.
 
Uma escrita fluida e ritmada que se desenvolve perante os nossos olhos e que dificilmente interrompemos de tão empolgados e envolvidos que ficamos.

Um prazer de ler!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A Luz Entre Oceanos

Autor:  M. L. Stedman
Edição: 2012, Julho
ginas: 368
ISBN: 978-972-23-4848-5
Editora: Presença

Sinopse:
Tom Sherbourne é um homem que, regressado dos horrores da Primeira Guerra Mundial, aceita ocupar o posto de faroleiro numa remota ilha ao largo da costa oeste australiana. A ilha proporciona refúgio e consolo para os fantasmas do passado, e Tom e a mulher, Isabel, estão satisfeitos com a sua vida, exceto com o facto de não conseguirem ter filhos. Um dia, numa manhã de abril, um barco dá à costa. Nele encontram-se um homem sem vida e um bebé a chorar. Isolados como estão do mundo real, Tom e Isabel decidem quebrar as regras e seguir o que o coração lhes diz. Mas a sua decisão terá consequências devastadoras...

A Luz Entre Oceanos é uma história sobre o bem e o mal, e de como por vezes se confundem. é uma história sobre o bem e o mal, e de como por vezes se confundem.
 
A minha opinião:
SUBLIME!
"A Luz Ente Oceanos" é um romance suave, terno e enternecedor que me deixa uma recordação indelével.

Mesmo para quem gosta muito de ler como eu e o faz com muitos e bons livros, existem sempre alguns que nos tocam  de um modo especial, que nos apanham despreparados e para além do prazer que nos proporcionam, acrescentam-nos algo que nos faz sentir diferentes depois de os ler. Um sentir amadurecido.

Este romance escrito com rara sensibilidade e inteligência, tocou alguma fibra do meu coração com as magnânimas personagens e uma história de profundo amor por uma criança. Um livro que fácilmente passa despercebido, sem nenhuma pecularidade que o torne particularmente atraente mas que oculta uma narrativa que é quase uma obra de arte.
Não vou desenvolver mais o meu comentário porque o menos pode ser mais e não quero acrescentar nada ao muito que há para sentir e refletir com esta leitura.

IMPERDÍVEL!
Inestimável!

sábado, 22 de setembro de 2012

Lembro-me de ti

Autor:  Yrsa Sigurdardóttir
Edição: 2012, Agosto
ginas: 400
ISBN: 9789897220432
Editora: Quetzal

Sinopse:
Três jovens propõem-se recuperar uma velha casa de uma aldeia abandonada, algures nos Fiordes Ocidentais islandeses. Mas não imaginam o cataclismo que este inofensivo trabalho vai desencadear. Na outra margem do fiorde, um psiquiatra investiga o suicídio misterioso de uma mulher mais velha que poderá estar ligado ao desaparecimento do seu próprio filho.

Estas duas intrigas vão convergir para uma história de um enorme suspense que os críticos têm considerado tratar-se da melhor que até agora saiu da pena de Yrsa Sigurdardóttir – Lembro-me de Ti foi galardoado com o Prémio de Ficção Policial Nórdica de 2011, e os direitos de adaptação ao cinema comprados pelo produtor islandês radicado em Hollywood Sigurjón Sighvatsson (Wild at Heart e The Killer Elite, entre dezenas de outros).
Um thriller policial arrebatador, uma leitura saborosamente arrepiante.

A minha opinião:
Quebrei um pouco o meu ritmo de leitura mas tal, deve-se certamente a alguma fadiga e não aos bons livros que tenho tido oportunidade de ler. Por temperamento, gosto de arriscar, principalmente quando encontro um  livro com um título sugestivo, uma capa atraente (perfeitamente enquadrada com o conteúdo) e uma sinopse apelativa como é o caso, mas foi com alguma relutância que saí da minha zona de conforto. Romances últimos de autores nórdicos que se distinguem pela sua escrita menos emotiva e pelas paisagens frias que descrevem com realismo. Não me desiludi.

Este thriller em duas estórias aparentemente distintas, alternando capítulo a capítulo em que cada um destes termina em suspense,  até que num dado momento convergem.  Uma destas narrativas é sobre três jovens mundanos, Katrín, Gardar e Lif, (e o pequeno cão Putti) que em dificeis circunstâncias pessoais se lançam na aventura de recuperar uma velha casa com o intuito de a transformar em fonte de rendimento. A outra, começa com a investigação policial de um ato de vandalismo de uma escola e um suicidio, sem suspeitarem que o psiquiatra Freyr seria pessoalmente envolvido através de indícios ao inexplicável desaparecimento do seu filho três anos antes. 
Em cada uma delas, o narrador é simultâneamente a personagem principal, Katrín e Freyr. Ambos se apercebem dos contornos sobrenaturais ou surreais do que os rodeia, com mais ou menos ceticismo.

Bem estruturado, escrita firme e segura, para um enredo enigmático e intrigante em torno do desaparecimento de crianças, com o sofrimento que lhe está associado (o que mais me perturba). Um género que quebrou a minha "rotina" literária, mas que irei repetir certamente por ser excelente.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sapatos Italianos

Autor: Henning Mankell
Edição: 2011, Maio
ginas: 288
ISBN: 9789722348324
Editora: Presença

Sinopse:
Fredrik Welin passou os últimos doze anos da sua vida numa ilha do Báltico rodeada de gelo, tendo como única companhia o seu cão e a sua gata, e como única visita o carteiro. Um dia, vê uma figura aproximar-se lentamente e percebe que nada voltará a ser o mesmo. A pessoa que vem perturbar o seu exílio autoimposto é Harriet, a mulher que ele abandonou sem qualquer explicação há quase quarenta anos. Harriet diz vir obrigá-lo a honrar uma promessa que ele lhe fizera, mas Fredrik está prestes a descobrir que o seu reaparecimento esconde outra surpresa...

A minha opinião:
Um livro nada fácil de ler pelos sentimentos expressos - solidão, culpa, amargura, desencanto, medo. Escrita fluída que reflete o sentir de Fredrik e de todos as personagens com quem se relaciona. A própria paisagem, tão bem descrita é inóspita e bela, e reflete o abandono a que a personagem se votou para fugir dos outros e de si mesmo.
 
Um eremita cínico que se reformou da profissão de cirurgião depois de um erro e se isolou na ilha dos seus avós, tendo por única companhia humana o carteiro hipocondriaco. Essa realidade que durou doze anos é alterada com a chegada de uma mulher do seu passado, gravemente doente e lhe exige que cumpra a mais bela promessa que recebeu na vida. Numa linguagem crua e desencantada vamos tomando contato com outras personagens enigmáticas com comportamentos estranhos ou perturbados que revelam dados do seu passado ou da sua existência que os tornam muito humanos e sofridos ao leitor.

Não é uma leitura leve apesar de não a considerar amarga, mas transmite-nos sensações e emoções variadas e algumas desconfortáveis. Uma narrativa maravilhosa mas sombria.
 
"Não adianta andar à volta do passado. As nossas vidas correram como correram e tudo isso ficou para trás. Dentro em breve estarei morta. Tu viverás mais algum tempo, mas também desaparecerás. E todos os vestígios desvanecer-se-ão.
...
O amor dá uma sentimento de frescura, de paz, talvez até de segurança, que torna a necessidade de enfrentar a morte um pouco menos assustadora do que seria doutro modo."
 
(pag. 233)

domingo, 9 de setembro de 2012

CAVALO DE FOGO Paris

Autor: Florencia Bonelli
Edição: 2012, Junho
ginas: 600
ISBN: 9789720043757
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Matilde Martínez, uma jovem pediatra argentina, viaja até Paris para aprender o idioma antes de partir para o Congo, ao serviço de uma ONG, para ajudar os mais carenciados. Apesar das suas inseguranças, traumas e dramas, a determinação de Matilde é tão forte que nada nem ninguém conseguirá demovê-la de cumprir o seu sonho. Eliah Al-Saud é um homem poderoso e sem piedade, descendente da família real saudita.

Dono de uma empresa de segurança privada, o negócio serve de fachada a um outro tipo de serviços: de espionagem, segurança e formação de mercenários.
Desde o seu primeiro encontro que o destino os unirá numa paixão tão intensa e irrefreável que nada poderão fazer para evitar a conspiração crescente que ameaça não apenas o seu amor, mas também as suas vidas. No cenário ameaçador e bélico do conflito israelo-palestiniano, Matilde e Eliah viverão uma aventura que os levará a percorrer o mundo e a enfrentar os perigos que cercam todos aqueles que ousam desafiar os impérios dominantes.

A minha opinião:
Um romance vertiginoso e apaixonante. Espionagem, intriga, suspense, ação e ... paixão.

Florencia Bonelli sabe como nos prender aos seus romances, mesmo volumosos  e suspirar pelo próximo. Afinal, este é o primeiro volume de uma trilogia
Quando um romance é muito bom, a ansiedade em continuar a ler é tal que não se consegue parar. Os livros desta exímia contadora de histórias são assim - elaborados e intensos, porque combina magistralmente uma história de amor entre personagens que nos fazem sonhar, com uma trama perigosa e intrigante que nos provoca arrepios. Muitas personagens com histórias pessoais e familiares complexas que os tornam fascinantes herois ou vilões. 

Cavalo de Fogo, animal do Zodíaco Chinês, que é de fogo porque de sessenta em sessenta anos, o fogo se converte no seu elemento (duplamente). Amam a sua liberdade, egocêntricos, magnéticos, generosos, impacientes e destemidos. Este é o signo e o perfil da principal personagem masculina, Eliah Al-Saud, (personifica a fantasia de qualquer mulher) que o usa como seu nome de código enquanto mercenário. (Foi muito divertido descobrir no decorrer da leitura que também eu sou um cavalo de fogo).
Um amor avassalador com Matilde.

Como cenário de fundo que o torna empolgante temos  de o conflito israelo-palestiniano e os partidários deste, a ameaça nuclear e os vários focos espalhados com os senhores da guerra que querem perservar ou aumentar o seu poder. Ainda assim, outros romances incipientes como o  de Sandór e Yasmim (proibido porque ele era o seu guarda-gostas) e o de Juana e Shiloah terão certamente desenvolvimentos e destaque nos próximos volumes e provocam fortes emoções.

Tanto haveria para acrescentar sobre este romance que resulta de um bom trabalho de investigação, além de uma capacidade criativa e de escrita, que nos deixa envolvidos e atentos ao que se passa neste mundo.

Um romance imperdível. Um grande prazer de ler!
 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Como ver, ouvir e sentir os nossos anjos

Autor: Theresa Cheung
Edição: 2012, Março
Páginas: 232
ISBN: 9789896572594
Editora: Planeta

Sinopse:
Cada vez mais pessoas se sentem tocadas por anjos ou acreditam neles.
Mas o que são ao certo estes «seres de luz» que tanto consolam, curam e inspiram pessoas em todo o mundo?
Por que se dão a conhecer mais do que nunca nos nossos dias?
Como se manifestam?
Como podemos ver ou ouvir anjos e até saber qual é o nosso?
Por outras palavras, como reconhecemos a presença de anjos nas nossas vidas, nos dias de hoje?
Com este guia, a especialista em anjos Theresa Cheung responde a todas estas perguntas e a muito mais.
Este livro ensina a reconhecer a presença dos anjos na vida de todos os dias e a compreender as mensagens angélicas que nos ajudam a escolher isto ou aquilo. Juntamente com informações sobre anjos-da-guarda, arcanjos, espíritos e entes queridos que partiram, podemos também ficar a saber muita coisa sobre a natureza e propósito destas entidades divinas, o que podem e não podem fazer e como chamá-las em tempos de crise.
Quem procura alimento espiritual vai adorar este guia único, que ensina a invocar o poder, a maravilha e a magia dos anjos, hoje e sempre.

A minha opinião:
Em momentos mais sombrios e delicados, em que sinto a minha auto-estima e confiança no mundo que me rodeia ceder um pouco, procuro palavras inspiradoras que nada provam, mas que reforçam a crença de que existe uma entidade espiritual que orienta, conforta e cuida de nós. Crença essa, independente de qualquer religião ou doutrina. Algo para além do que vejo, ouço e sinto e que se pode manifestar por sonhos, coincidencias e pressentimentos desde que estejamos recetivos e em sintonia com os nossos sentidos e emoções (segundo a autora). Seguir o nosso instinto. (Recorda-me:
"A razão dizia-me: faz assim. O coração salvou-me sempre".)

Não é o primeiro livro que leio sobre esta matéria. Nem sequer é o primeiro livro que leio desta autora, mas gosto do modo como organiza, enquadra e expõe  as suas interpretações com definições simples e acessíveis, baseadas na sua fé, experiência pessoal e alguma pesquisa.
Não é um livro (guia) que leia todo de seguida. Gosto de o consultar e ler passagens.
As histórias, algumas que relembro de "Um anjo chamou por mim", tem um papel menos revelante neste livro mas ainda assim, apaziguam e confortam.

Uma leitura agradável, esclarecedora e bastante abrangente sobre os anjos.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Fragmento

"Durante os anos de prisão, a figura de Sabir Al-Muzara ganhou dimensões inesperadas. Apesar da privação de liberdade e da tortura, através de cartas que escrevia na cela e que escapavam à confiscação, Sabir Al-Muzara comunicava com o seu povo para pedir calma e, sobretudo, nada de violência, que só gerava mais violência. Aconselhava-os a não organizarem manifestações na rua para solicitarem a sua libertação porque se infiltravam grupos mal-intencionados que causavam distúrbios; citava-lhes frases célebres de grandes homens e relatava-lhes os seus dias em Ansar 3, abstendo-se de mencionar as torturas e as péssimas condições. As cartas acabaram por ser publicadas ... Com o tempo, essas cartas converteram-se num dos seus livros mais vendidos." 
(pag. 49)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Há Sempre um Amanhã



Autor: Anita Notaro
Edição: 2012, Abril
Páginas: 468
ISBN: 9789898228857
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Certos momentos da vida mudam-nos para sempre

A maior parte das pessoas consegue lembrar-se de um momento decisivo na sua vida. Uma fração de segundo quando o tempo parou e a vida mudou para sempre. Para Lily Ormond, esse momento chegou ao fim de um dia, quando foi abrir a porta e descobriu que, enquanto estava a esmagar alho e alecrim e assistir a telenovelas, a sua irmã gémea Alison se tinha afogado.
Foi difícil conciliar-se com a perda da única irmã e melhor amiga, e mais ainda tornar-se mãe de Charlie, o filho de Ali com três anos de idade, mas descobrir que a sua irmã gémea levava uma vida secreta havia anos quase destruiu Lily... E assim começa uma viagem relacionada com quatro homens que tinham feito parte de uma vida que ela nem sabia existir. Uma viagem que obriga Lily a reconciliar-se com a memória do pai que nunca se importou realmente com ela, com uma criança que precisa muito de si e com uma irmã que não era o que parecia.

A minha opinião:
Certos momentos da vida mudam-nos para sempre.  É sobre o subtitulo que refletimos depois de ler o primeiro trágico capítulo e enquanto observamos a bela capa que nosso imaginário também compunhamos. Um momento de bem estar e felicidade que ... As reviravoltas da vida que tudo transfiguram. Infelizmente essas são notícias que afetam o nosso dia-a-dia, mas este é um romance luminoso e surpreendente que se torna numa viciante leitura.

Há livros sensacionais que arrebatam completamente desde as primeiras páginas com uma estória bem estrutrada, diálogos consistentes, coerentes e divertidos para personagens credíveis e bem definidas com profundidade suficíente para como leitora as procurar compreender. É o caso deste romance que me fez experienciar uma série de emoções num constante rodopio através do desenvolvimento da personagem príncipal, Lily. Uma personagem cativante nas suas qualidades e defeitos que honestamente assume, o que lhe confere humanidade.

O segredo de Alison que se revela na sua ligação a quatro homens que a desejavam com distintas motivações, sem suspeitas  dos mais próximos (como a sua gémea que amava e protegia), desencadeiam muitas situações delicadas e inesperadas que Lily, insegura e desconfiada terá que lidar. Até no passado poderão estar algumas respostas para as diferentes personalidades e atitudes destas duas irmãs tão semelhantes fisicamente e tão diferentes em tudo o resto.

Um grande, grande, grande prazer de ler. Que bom quando assim é e um romance nos dá essa possibilidade de sentir e pensar enquanto relaxamos em tão boa companhia.