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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Veneza Pode Esperar

Autor: Rita Ferro
Edição: 2014/ janeiro
Páginas: 240
ISBN: 9789722054065
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 
São raríssimas as autoras portuguesas que abrem a porta da sua intimidade aos leitores. Ao fim de duas dezenas de títulos, Rita Ferro corre esse risco oferecendo-nos a narrativa diária de alguns meses da sua vida, sem artifícios literários, num dos períodos mais sombrios e no rescaldo de perdas nucleares: o maior amigo, a casa onde investiu todas as economias, a mãe, o afastamento daquele que pode ter sido o seu grande amor.

Veneza Pode Esperar é o balanço autobiográfico de uma pósfeminista pragmática, mas aberta ao mistério, às voltas com o malestar contemporâneo, ao longo de 240 páginas tonalizadas pelo humor, a auto-ironia e a amarga lucidez de quem sabe perder, onde o presente se confunde com a memória e a escritora com uma das suas personagens.

Trata-se do primeiro volume de um diário íntimo, coleccionável como um folhetim, sem happy end nem beijos ao pôr do Sol.

A minha opinião: 
Pensamentos e memórias num tom agridoce. Um desnudar de alma que me surpreendeu e me prendeu a uma leitura que tanto me deu.  

Tal como a Rita só tenho um critério. Leio o que me apetece quando me apetece. E sofro de breves falhas de memória quando tenho que referir um título ou um autor. Sei o que li e o que extraí, mas raramente consigo acrescentar o suficiente ou enaltecer uma obra como merece. Não me tenho em tão grande conta que receie fazer figura de idiota. Este é um pequeno fragmento que retive, mas muitos serão os laços que senti com uma Rita que não conheço. 

Um livro de sentimentos. Solidão, desfasamento, tédio, dificuldades e muitas pequenas e grandes alegrias que me fizeram soltar estridentes gargalhadas. Sentido critico acutilante para um humor refinado, ou nem tanto.     

Tudo isto para exprimir numa só palavra - ADOREI!! 

O Francoatirador Paciente

Autor: Arturo Pérez-Reverte
Edição: 2014/ julho
Páginas: 240
ISBN: 9789892327808
Editora: ASA

Sinopse:
Sniper é uma lenda viva no mundo da arte de rua. Subversivo e omnipresente na tela urbana, ninguém conhece a sua identidade, poucos terão visto o seu rosto, não há relatos do seu paradeiro. Quem é o verdadeiro Sniper por detrás deste enigma que o mistifica? É um heroico cruzamento de Salman Rushdie e Banksy, um justiceiro solitário? Ou um terrorista urbano, um enomaníaco cujas ações já se revelaram fatais?

Alejandra Varela, especialista em arte, decide seguir os passos deste homem sem lei. Uma mira telescópica de francoatirador assina todos os trabalhos de Sniper, e é essa mira que leva Alejandra a infiltrar-se no submundo de Madrid e Lisboa, Verona e Nápoles. Cidades que são os campos de batalha prediletos deste caçador solitário. Mas, a coberto das sombras, uma outra pessoa aguarda para descobrir o paradeiro de Sniper, embora as suas motivações sejam bem diferentes… 
Segue-se um formidável duelo de inteligências, um jogo de perseguição entre caçador e presa cujo final é, no mínimo, surpreendente.
Thriller centrado no obscuro e inexplorado submundo da arte urbana, nas suas leis e códigos éticos próprios, na frágil distinção entre arte e vandalismo, O Francoatirador Paciente é um convite à reflexão sobre a identidade urbana, a arte e o artista moderno.

A minha opinião:
Tema forte e bem explorado: a arte urbana. Numa sociedade que tudo domestica, compra e torna seu, a arte atual só pode ser livre e só pode realizar-se na rua, e ao realizar-se na rua só pode ser ilegal, porque é exercida em território alheio aos valores que a sociedade atual impõe. Dá que pensar. Principalmente quando, para além da transgressão e adrenalina, o graffiti torna possível uma camaradagem invulgar noutros ambientes, anónima por detrás de cada tag

"Lá fora, (...) enquanto agitas o spray, cheiras a tinta fresca que outro writer deixou na mesma parede como se cheirasses o seu rasto, sentes-te parte de algo. Sentes-te menos sozinha. Menos ninguém." (pag. 32)

Li há algum tempo atrás "O Tango da Velha Guarda" e fiquei rendida a uma escrita madura, segura, numa bem concebida e elaborada trama, com duas personagens memoráveis. Esperava sentir o mesmo entusiasmo com "O Francoatirador Paciente". Mas essa expectativa talvez tenha sido prejudicial, porque, apesar da inegável qualidade deste romance, não acarinhei tanto este enredo e estas personagens. 

O ritmo é pausado, e daí a minha dificuldade em classificá-lo como thriller, porque não senti senti aquela tensão e suspense que associo a esse género. Alguma curiosidade apenas, em perceber a motivação real de Alejandra Varela ao procurar descobrir a identidade do talentoso Sniper, e como a sua reputação o consagrara tanto perante outros writters que arriscavam a vida para concretizar os desafios que lançava. O final é o que mais impacto tem.   

Uma leitura que recomendo, porque, noutro momento, tirarei melhor partido dela.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A Amante

Autor: James Patterson com David Ellis
Edição: 2014/ junho
Páginas: 352
ISBN: 9789898626417
Editora: Topseller

Sinopse:
No seu thriller mais excitante, James Patterson mergulha-nos nas profundezas de uma mente torturada. Uma perseguição implacável através de um mundo de perigos e enganos. 
O jornalista Ben Casper é paranoico e obsessivo. E a maior e mais compulsiva das suas fixações é Diana, a bela mas inacessível mulher dos seus sonhos.

Quando ela é encontrada morta, após uma queda da varanda do seu apartamento, as autoridades não hesitam em considerar que é um suicídio. Mas Ben conhecia bem Diana e sabe que ela nunca se mataria. Convence-se de que a amiga foi assassinada e embarca numa aventura arriscada para conseguir prová-lo. 
O jornalista descobre, porém, que ela levava uma vida dupla, e à medida que outras pessoas envolvidas na vida de Diana morrem em circunstâncias questionáveis, torna-se evidente que alguém não quer que a verdade venha ao de cima. E, a menos que Ben desista da sua investigação, ele pode ser o próximo a «sair de cena».

A minha opinião:
James Patterson é sobejamente conhecido para perder mais tempo com considerações sobre a sua capacidade criativa.  É o caso com este enredo num ritmo rápido e enérgico, por um protagonista como Ben Casper, em que seguimos os seus devaneios e delírios numa perseguição implacável que lhe é dirigida sem que ele pare de procurar a verdade. Um tanto irreal a resistência deste talentoso jornalista em superar obstáculos que destruiriam a maior parte das pessoas, apesar de ele ser inventivo, determinado e brilhante, enquanto ainda tinha que lidar com os demónios da sua infância.  

Chantagem e conspiração internacional numa trama ardilosa e retorcida para um herói das novas tecnologias. Ação e suspense como só James Patterson nos pode oferecer.

domingo, 7 de setembro de 2014

Um amor perdido

Autor: Anna McPartlin
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 354
ISBN: 9789897261428
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
A 21 de junho de 2007 Alexandra Kavanagh saiu de casa, falou com a vizinha, meteu-se no comboio, chegou à estação de Dalkey e desapareceu... Tom está destroçado. Não encontra a mulher, o seu mundo desmoronou e o seu único objetivo é localizá-la.
Durante dezassete anos, Jane cuidou do filho Kurt, da excêntrica irmã Elle, e da rabugenta mãe Rose. A única pessoa de que não cuida é dela própria.

Elle é artista e considerada um génio. Como tal, o seu comportamento um tanto errático é tolerado. Embora a sua vida pareça perfeita, a tristeza de Elle é por vezes profunda.
Leslie perdeu toda a família para o cancro. Passou vinte anos à espera de morrer, mas após uma operação radical está determinada a viver de novo.
Quatro meses depois do desaparecimento de Alexandra. Tom entra num elevador com Jane, Elle e Leslie para um concerto de Jack Lukeman. Uma hora mais tarde, os quatro desconhecidos saem de lá com as suas vidas entrelaçadas para sempre. Um Amor Perdido aborda o alcoolismo, a depressão, a negação e a dor e ainda assim irá dar por si a sorrir e até a rir.

Outrora Jane e Alexandra eram inseparáveis - partilhavam aventuras, segredos e grandes sonhos para o futuro. Porém, quando Jane engravidou aos dezoito anos, elas afastaram-se. Dezassete anos depois, Jane descobre que Alexandra desapareceu e decide ajudar o marido de Alexandra, Tom, a encontrar a mulher. Contudo, enquanto procura Alexandra, Jane terá de enfrentar algumas grandes questões sobre si mesma. O que aconteceu à jovem alegre que ela foi? O que acontecerá se deixar de tentar controlar o mundo? E o amor significa realmente dar asas aos outros? Duas pessoas destroçadas encontram-se acidentalmente e descobrem uma na outra força, amizade - e até o início da esperança...

A minha opinião:
Há coisas que não entendo! Esta capa é demasiado colorida, assim como este título demasiado lamechas para o tipo de leitura que proporciona, mais exigente do que aparenta e mais forte do que iludidas irão encontrar. Poderão não o apreciar devidamente e certamente, que afasta leitores mais sérios. 

Não é um romance para se ler de ânimo leve porque a trama e as personagens não são para brincadeiras. A família Moore com Rose, Jane e Elle, são passivo-agressivas na sua relação com os outros e inclusive entre si, e se parecem uma família disfuncional é porque não se aperceberam dos laços que as liga, bem como a Kurt, Dominic e Irene. 

O desaparecimento da melhor amiga de infância de Jane e um claustrofóbico encontro num elevador entre um devastado marido que espalhava cartazes, uma solitária amargurada com um gene ameaçador que dizimara a sua família, e a presença da extravagante e louca artista Elmore, desencadeia uma sucessão de acontecimentos que tanto nos podem levar às lágrimas como ao riso, por compaixão com sentimentos de dor e sofrimento tão compreensíveis e transparentes, como pela coragem em responder prontamente aquilo que socialmente sabemos inadequado, mas sentimos vontade de soltar. 

Uma trama bem urdida, em que gradualmente vamos desvendando todos os segredos e motivações destas personagens que, parecem alucinadas ou irreais, mas são tão confusas e perturbadas como qualquer um que se disperse no mundo sem um amigo ou familiar que lhe dê a mão num momento chave. Personagens que cativam o leitor pelas suas fraquezas.

Nem no final este romance é leve, fácil ou doce, portanto desenganem-se se procuram uma leitura assim. Arriscam-se a ficar marcadas e a reverenciar Anna McPartlin pela sua capacidade em conceber e contar uma boa história.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Uma noite no Expresso do Oriente

Autor: Veronica Henry
Edição: 2014/ abril
Páginas: 336
ISBN: 9789897261169
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Há uma nova vida apenas a um bilhete de distância.
O Expresso do Oriente. Luxo. Mistério. Romance.
Para o grupo de passageiros que se instala nos seus lugares e bebe os primeiros goles de champanhe, a viagem de Londres até Veneza é mais do que a viagem de uma vida.

Uma missão misteriosa; uma promessa feita a um amigo moribundo; uma proposta inesperada; um segredo que remonta a vida inteira... Enquanto o comboio segue viagem, revelações, confissões e encontros amorosos têm lugar no cenário mais romântico e infame do mundo.

A minha opinião:
Não sei porque o adiei, mas algumas opiniões menos favoráveis e esta capa, não me seduziram para um romance que esperava simples e banal, sem grandes rasgos de inspiração. Não é um best seller, mas para quem gosta do género é uma aprazível leitura com vários protagonistas sem que nenhum se destaque em particular, porque todos tem o seu brilho e a sua história para contar. O elo em comum é esta viagem de luxo que os reuniu como passageiros do Expresso do Oriente durante 24 horas e que terminou em Veneza.

Veneza era uma cidade que fazia as coisas acontecerem e tinha sempre algum impacto, como se tecesse um feitiço que mudava os seus visitantes. Um casamento longamente adiado numa paixão duradoura sempre celebrada, uma família a conciliar e a estabelecer, um quadro fabuloso que ocultava uma traição e uma paixão sempre recordada, um romance secreto e finalmente um encontro que poderia ser desastroso mas foi escrito no céu.

Para ser honesta, este romance de baixas expectativas deixou-me com um forte sentimento de pertença porque o que espero sentir encontrei nesta leitura. Leve e emotivo, viajei através dele para paisagens de sonho com personagens elegantes e sedutoras com tensões e dúvidas para resolver num faz-de-conta maravilhoso.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Todos os Dias são Meus

Autor: Ana Saragoça
Edição: 2012
Páginas: 104
ISBN: 9789723326673
Editora: Editorial Estampa

Sinopse:
Um prédio. Uma morte. Um mistério.Não se trata, porém, de um romance de pretexto policial. É verdade que há polícias e testemunhas - sobretudo testemunhas - e alguns suspeitos. Mas Todos os Dias são Meus é um extraordinário retrato do Portugal profundo, com os seus tiques, os seus ressentimentos, os seus ridículos.

A minha opinião:
Uma amiga emprestou-me este pequeno livro e garantiu-me que eu ia gostar. Não errou, porque adorei este policial em formato de conto. 

Devo acrescentar que o crime e o que o motivou foi o que menos relevância teve, uma vez que fiquei arrebatada por todas aquelas personagens tão genuinamente portuguesas. 

Dificilmente, alguém o começa a ler sem rir, ao visualizar a primeira personagem, a Porteira, embalada numa verborreia inacreditável, quando supostamente inquirida pela autoridade a propósito de um crime ocorrido no edifício. Supostamente, porque esta autoridade não tem hipótese com uns inquilinos como estes, é uma não personagem. Mas os inquilinos apresentam-se por capítulo e dizem de sua justiça e como divagam sobre as suas vidas e a dos que os rodeiam. Da vitima pouco ou nada sabem. 
A vitima dá-se a conhecer como a Razão e o humor aqui desaparece, porque se trata de assuntos sérios como o vazio e a solidão de toda uma vida. 

Escrita deliciosa e irrepreensível que me enlevou durante umas horas. Perdi a noção do tempo com esta dicotomia da Razão  num registo sério e introspectivo, e a dos presentes naquele prédio, enquanto suspeitos do crime, focados em si mesmos (não todos) num registo cómico e extrovertido. 

É um pena livros como este não serem apresentados nas escolas para estimular a leitura e gáudio dos jovens, que certamente reconheceriam vizinhos e amigos nesta sucinta e tão bem escrita história. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lago Perdido

Autor: Sarah Addison Allen
Edição: 2014/ julho
Páginas: 280
ISBN: 9789897261367
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Uma história bela e arrebatadora sobre amores antigos e novos, e o poder das ligações que nos unem para sempre...
A primeira vez que Eby Pim viu Lago Perdido foi num postal. Apenas uma fotografia antiga e algumas palavras num pequeno quadrado de papel pesado, mas quando o viu soube que estava a olhar para o seu futuro.

Isso foi há metade de uma vida. Agora Lago Perdido está prestes a deslizar para o passado de Eby. O seu marido George faleceu há muito tempo. A maior parte da sua exigente família desapareceu. Tudo o que resta é uma velha estância de cabanas outrora encantadoras à beira do lago a sucumbirem ao calor e à humidade do Sul da Georgia, e um grupo de inadaptados fiéis atraídos para Lago Perdido ano após ano pelos seus próprios sonhos e desejos.
É bastante, mas não o suficiente para impedir Eby de abrir mão de Lago Perdido e vendê-lo a um empreiteiro.
Este é por isso o seu último verão no lago… até que uma última oportunidade de reencontrar a família lhe bate à porta.
Lago Perdido é onde Kate Pheris passou o seu último melhor verão com doze anos, antes de aprender o que era a solidão, o desgosto e a perda. Agora está demasiado familiarizada com essas coisas, mas também conhece a esperança, graças à sua filha Devin e à sua própria vontade de começar a avançar. Talvez em Lago Perdido a filha possa agarrar-se à sua infância por mais algum tempo... e talvez a própria Kate possa redescobrir algo que lhe escorregara por entre os dedos há muito tempo.
Uma após outra, as pessoas encontram o seu caminho para Lago Perdido, em busca de algo de que não tinham a certeza de precisar: amor, uma segunda oportunidade, paz, um mistério solucionado, um coração remendado. Conseguirão encontrar aquilo de que precisam antes que seja demasiado tarde?
Simultaneamente atmosférico e encantador, Lago Perdido mostra Sarah Addison Allen no seu melhor, iluminando os anseios secretos e a magia quotidiana que esperam ser descobertos no mais improvável dos lugares.

A minha opinião:
Pelas coisas boas vale a pena esperar. Assim é com os romances desta autora, que tanto me encantou quando estreou o seu Jardim em 2008, e repetiu o feito com o Quarto Mágico.

Encanto e Magia são duas palavras que facilmente associamos aos romances de Sarah Addison Allen. A escrita é maravilhosa e as personagens são ... vou bisar... de encantar. Aparentemente, e as capas não ajudam (desta, não gosto mesmo nada), parecem ser romances levezinhos. Mas, quando iniciamos a leitura ficamos cativos de uma escrita sedutora e rica, e de personagens com tanto de si para dar. Serenidade e paz de espírito é o que sentimos depois. Algumas das personagens permanecem connosco muito depois de terminada a leitura. Devin é a criança que Kate fora, e encarna o espírito do amor que a todos liga nesta trama.

Tal como o título indica, e feitas as apresentações em que conhecemos as personalidades e circunstancias das personagens principais, passamos a acompanhar o regresso ao Lago Perdido, em que tudo acontece. Na beleza e calma daquele espaço recôndito, que tão bem acolheu os habitantes de uma pequena comunidade próxima, vão juntar-se algumas personagens peculiares para desfrutar de um último e memorável verão. Alguma inquietação e ansiedade em torno da venda do Lago Perdido.

Perdas, desencantos, reencontros e recomeços porque:
"Quando o nosso copo está vazio, não nos lamentamos pelo que desapareceu. Porque, se o fizermos, perdemos a oportunidade de o encher outra vez". (pag. 265)

"Eby sabia muito bem que existia uma linha ténue quando se tratava da dor. Se a ignorarmos, ela vai-se embora, mas depois volta sempre quando menos se espera. Se a deixarmos ficar, se lhe arranjarmos um lugar na nossa vida, ela fica demasiado confortável e nunca mais se vai embora, Era melhor tratar a dor como se fosse um hóspede. Aceitamo-la, servimo-la e depois mandamo-a seguir o seu caminho." (pag. 147/8)

sábado, 23 de agosto de 2014

Estou Nua e Agora?

Subtítulo: 1 ano, 7 continentes, uma aventura inesquecível
Autor: Francisco Salgueiro
Edição: 2014/ maio
Páginas: 328
ISBN: 9789897411595
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Quantas vezes acordamos com vontade de mudar de vida? Deixar para trás os mesmos lugares, as mesmas pessoas, a relação que não vai dar a lado nenhum?
Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo.

Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos – até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas – tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?
Um convite aos adolescentes e jovens adultos a tomarem as rédeas da sua vida e a partirem à descoberta do mundo!

A minha opinião:
Seis continentes para onde ir. Em cada local, uma cultura diferente para descobrir, e é preciso abertura de espírito para receber o que há para oferecer. A maioria das pessoas que viaja em Couchsurfing procura um propósito na vida ou foge de algo. Esta é história de Alex que escolhe incerteza em vez de infelicidade, e narra-nos as suas experiências arrojadas e perigosas nesta nova forma de circular pelo mundo. Afinal, a vida é perigosa. Ainda ninguém sobreviveu a ela. 

Escrito na primeira pessoa, Alex narra gradualmente as suas deambulações e as pessoas com quem se cruzou e que tanto a enriqueceram, quando abandonou um emprego garantido para mudar o seu mundo.

Ler este livro abre os nossos horizontes porque nos permite ver a forma como Alex pensou, sentiu e reagiu a tantas situações, e podemos incorporar em nós aquilo que achamos ser importante. Tal e qual a opinião de Ramon, uma das personagens com quem Alex se cruzou no Cambodja. 

Divertido e inquietante, este é um livro que se lê em poucas horas. Não é uma leitura profunda ou espiritualizada, sequer tem pretensões disso. Alex é demasiado terra-a-terra e a linguagem é corrente e fluída. Um livro para mentes aventureiras.

Uma amizade com o autor, que resultou neste livro. Um amor em Portugal. Ler breves passagens sobre a vivência no nosso país é sempre um prazer de ler.

Sem elevadas expetativas, este é um livro que recomendo. Proporcionou-me algumas gargalhadas... na Tailândia. Não fazia a mínima ideia do que era um bar de ping-pong por lá. E começar Couchsurfing em casa de Ron e Mike é especial. Nem queiram saber!!!

sábado, 16 de agosto de 2014

Madre Paula

Autor: Patricia Müller
Edição: 2014/ julho
Páginas: 216
ISBN: 9789892327839
Editora: Lua de Papel

Sinopse:
Para o mundo ela era apenas uma freira. Mas para El Rei ela era uma rainha.
Lisboa, início do século XVIII da Graça de El Rei D. João V. Paula, a filha pobre de um ourives, deixa a azáfama das ruas de Lisboa para ingressar no Mosteiro de São Dinis, em Odivelas. Não é Deus quem a chama, mas sim a necessidade de um pai que já não a pode sustentar. Quis o destino, porém, que aquela rapariga de pé descalço se viesse a tornar na mais conhecida freira da nossa história. E numa das mulheres mais poderosas de um reino que vivia no extravagante esplendor pago com os escravos de África, com o ouro do Brasil…

Madre Paula é a história desse amor proibido, entre o Rei-Sol português, D. João V, e a famigerada freira de Odivelas. Um amor intenso, maior que tudo, que levou o rei a ignorar o bom senso e a tomar a freira como amante, confidente e conselheira. 
D. João V sempre teve uma predileção por mulheres bonitas, mas Paula foi o seu grande amor. Permaneceram juntos, secretamente, mais de uma década, e chegaram a ter um filho. A história entre um dos homens mais poderosos do mundo e a plebeia que a Deus traiu inscreve-se na categoria de mito, mas é bem real, nas páginas do romance de estreia de Patrícia Müller. Juntos enfrentaram intrigas palacianas, a ameaça do castigo divino, o ciúme e os jogos de poder. E a quase tudo resistiram – pois durante uma década, para D. João V, Madre Paula foi a sua única e verdadeira rainha.

A minha opinião:
Possivelmente o melhor romance histórico que já li. Palavras cruas e belas, impregnadas de sentimento, já que de uma amor proibido se trata. O amor entre o rei D. João V e a freira do mosteiro de Odivelas, Paula Tereza da Silva, madre Paula. Esta é também uma fantástica história de amor.

Não sei como Patrícia Müller conseguiu criar duas personagens tão extraordinárias como Soror Paula e D. João V, e dar-lhes vida como se recuássemos alguns séculos e testemunhássemos as escaramuças e os arrojos apaixonados destes dois seres de vincada personalidade e génio tumultuoso que se debatiam e se amavam ferozmente. Uma mulher digna, capaz de actos indignos, para um rei soberbo e homem de muitas mulheres. Seja como for, esta é uma autora que sabe como usar as palavras ao contar uma história que a História não esqueceu.

O livro é apelativo e a sinopse explicita e concisa. Tudo neste romance foi bem conjecturado, e razões de sobra para ser um sucesso. O enquadramento histórico, mesmo para uma leiga como eu, foi objecto de uma sucinta apreciação. 

Desnecessário insistir em elogios sobre um romance que tanta satisfação me deu. Mas atentem neste fragmento retirado das primeiras páginas e saberão o quão promissora pode ser esta leitura. Imaginem a minha surpresa quando descobri que esta era mais uma obra de uma escritora portuguesa. Somos bons, muito bons quando nos propomos ser. A História assim o diz.

“Sei o que me chamam pelas costas: rameira.
Como se os pecados deles fossem diferentes do meu. O meu pecado? Traí Deus com um homem. Um rei. Tivemos um filho, prova viva da minha culpa. Não choro, não me arrependo. Que falem, experimentem viver atrás das grades, reclusos num palácio de ouro. Nascessem pobres, mal tendo o que comer, chegassem a amar a ponto de não poderem saber se estão vivos ou mortos. Saberiam o que é caminhar nos meus sapatos e poderiam ensaiar todos os julgamentos do mundo. Iam dar-se mal.
(…)
Com os anos, a marioneta foi ganhando vida. Conquistou o público e substituiu el-rei, o mestre que a fazia abrir e fechar a boca para falar, abrir e fechar as pernas para dar prazer.
Amor.
E eu sabia que era verdade o que sentia e dizia, mas que a verdade vale no fim muito pouco. O amor não serve se não poder ser vivido por inteiro. E a minha história com João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança, o Magnânimo, o Rei-Sol, o meu sol é uma história incompleta. Interrompida pelo destino divino e pela história de um país.
(…)
Uma plebeia tratada como um princesa. Tive os destinos de uma nação entre os lençóis. 
Apaixonei-me pelo poder e amei o homem por detrás dele.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Estranho Ano de Vanessa M.

Autor: Filipa Fonseca Silva
Edição: 2014/ julho
Páginas: 200
ISBN: 9789722528641
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
Quando entrou no carro naquela tarde de Inverno, Vanessa não sabia que estava a embarcar numa viagem sem retorno. Uma viagem interior, que pôs em causa todas as suas escolhas e, acima de tudo, toda uma vida construída em torno das expectativas e opiniões dos outros.

Entre momentos trágicos e cómicos, que envolvem uma mãe controladora, uma tia hippie, um casamento entediante, um chefe insuportável e uma amiga que não sabe quando se calar, O Estranho ano de Vanessa M. conduz-nos numa viagem de autodescoberta e faz-nos reflectir sobre o sentido da vida e o poder que temos de, a qualquer momento, colocar tudo em questão. Porque a busca da felicidade não tem prazo.
Uma nova voz irrompe na cena literária portuguesa, leve, despretensiosa, crua, divertidíssima e incrivelmente humana.

A minha opinião:
A capa ou o título não captaram a minha atenção. A autora sim, apesar de recear que um segundo romance pudesse ficar aquém do primeiro, mas não desiludiu. Um romance que não quis perder.

Vanessa é uma mulher exasperada com o rumo que a sua vida levou, em muito contrário aos seus desejos. Um tédio insuportável de que tomou consciências nas consultas que frequentava por imposição do tribunal. Atitudes impetuosas como o estranho abandono de Mimi, o desfazer do casamento e a interrupção de uma carreira à qual se tinha dedicado durante dez anos, são as consequências mais visíveis da sua mudança de vida. Um ano a desbravar um novo caminho até à boaventura alcançar. 

Com uma boa noção dos conflitos da geração dos trinta, a autora cria uma ficção bem humorada, critica e mordaz sobre assuntos sérios que, atingem algumas mulheres no seu quotidiano. Uma carreira exigente com um chefe medíocre que brilha com o trabalho dos seus subordinados, um casamento por amor mas demasiado cedo por ceder às vontades alheias, uma filha menor que se culpabiliza por não amar o suficiente e compensa com bens materiais e tantas outras responsabilidades que a deprimem, sem compensações de maior. Um estória que tem tanto de divertido quanto de matéria de reflexão e que se lê sem parar porque a Vanessa no seu bom ritmo não nos dá descanso. 

Narrativa fluída e coloquial, como se a Vanessa interagisse com o leitor e este fosse mais uma personagem com quem partilhava os seus pensamentos e a sua intimidade.

Ressalva: Ainda não percebi a escolha da capa que não me parece adequada ou corresponder ao que li. 

Mais uma vez, uma escritora portuguesa a que me rendi. Uma agradável surpresa que tanto me satisfez. E de boas em boas leituras vou prosseguindo.

Romance em Amesterdão

Autor: Tiago Rebelo
Edição: Mai/2014 (8ª Edição - 1ª na ASA)
Páginas: 288
ISBN: 9789892326214
Editora: ASA

Sinopse:
Quando o amor parecia diluído no tempo, eis que volta a ser vivido no presente. Uma história apaixonante.
Passaram quinze anos desde a última vez em que Mariana e Zé Pedro estiveram juntos - tempo que poderia ter sido suficiente para fazer desmaiar os tons da paixão se os amantes fossem outros, se o sentimento não tivesse calado tão fundo nas suas almas. Mariana imaginara, milhares de vezes, o reencontro; Zé Pedro desesperara por voltar a vê-la. E, sem que nada o fizesse prever, um brevíssimo encontro, numa estação de metro apinhada de gente, vem tornar aqueles quinze anos quase irreais.

Quando tudo parecia ter sido aplacado pelo tempo, quando tudo o que acontecera em Amesterdão parecia confinado ao universo das fantasias românticas e do sonho, eis que o passado ressurge e se impõe, com um ímpeto que os esmaga, que lhes revolve o coração.
Mas peças no tabuleiro do jogo da vida são múltiplas e, não raras vezes, dotadas de vontade própria. A felicidade, alada e colorida, é tão apetecível quanto caprichosa - e sempre imprevisível.

A minha opinião:
Quando escolhi ler este livro, não reparei que a edição original era de 2004, e pensei ao iniciar a leitura que, poderia ser dissuasor por algum desenquadramento. Tal não se verifica, porque os sentimentos não passam de moda ou sofrem alterações significativas com o passar do tempo.

Esta estória é sobre um triângulo amoroso. Nada mais trivial, excepto para os intervenientes em tão delicada situação, como se pode ler nesta narrativa. Os sentimentos de afeto construíram uma relação entre duas pessoas que se afastaram com uma promessa não concretizada alguns anos atrás, mas o confronto entre dois homens apaixonados pela mesma mulher ditou o desfecho. Sentimentos fortes de virilidade ferida. 

Singelo e aprazível, este romance lê-se muito bem e podemos antever o desenrolar dos acontecimentos entre Zé Pedro e Ricardo conhecendo a índole do macho latino. Emoções irreflectidas e fortes sentimentos marcam esta estória, em que todos saíram a perder, mas que no fim, talvez tenham ganho. 

Uma boa leitura de verão. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dizem que Sebastião

Autor: João Rebocho Pais
Edição: 2014/ junho
Páginas: 176
ISBN: 9789724746968
Editora: TEOREMA

Sinopse:
Uma viagem pela cidade de Lisboa na companhia de grandes escritores…

Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing – e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem.
Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um romance – divertido, terno e cheio de ironia – sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.

A minha opinião:
"... Sebastião aprendeu a voar." Não foram os pombos que o disseram. É a última sentença do último capítulo deste livro, e não deixa de ser uma boa síntese desta história.

Não é habitual, mas comprei este livro porque a sinopse convenceu-me de que era o tipo de leitura que procurava para aquele momento. As primeiras páginas, agarraram-me à história do Sebastião, um gestor dedicado e empenhado no sucesso e lucro da empresa, como tanto outros que por aí conheço, mas que vivem na solidão e no vazio fora do horário de expediente. Margarida, uma desejável e inteligente mulher, perturba o Sebastião o suficiente para ele sair da sua zona de conforto e ousar um convite, que não poderia ser mais desastroso dada a sua ignorância literária e incapacidade para descobrir assuntos de interesse em comum. Nada como uma mulher para redimensionar o mundo de um homem. Mas não é somente ela, porque vai contar com a colaboração do doutor Boavida, quando sujeito aos seus cuidados após umas palpitações que bem poderiam ser de paixão assolapada mas são um amoque cardíaco e Simplício, o afável e naturalmente simpático livreiro que o orienta na sua redescoberta dos autores clássicos, homenageados e até esquecidos nessa Lisboa, que tantas vezes percorremos apressadamente.

Depois de um interregno irregular na leitura, deparei-me com diálogos telepáticos, que mais não eram do que monólogos do Sebastião com escritores que, anteriormente não fizeram parte da sua vida, mas que nesta nova fase procurou conhecer e incluir, quando percepciona e se insere livremente no ambiente que o rodeia.

Em suma, escrita espirituosa que tanto me apraz, numa narrativa enriquecedora e divertida. Um realce sobre o quanto nos distanciamos do que realmente gostamos e engrandece a nossa vida.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pecadora

Autor: Madeline Hunter
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 328
ISBN: 9789892327884
Editora: ASA

Sinopse:
Ela ditou as suas próprias regras.
Habituada a uma existência pacata, Celia Pennifold vê a sua vida virada do avesso após a morte da mãe, Alessandra Northrope, uma cortesã afamada. Para além de uma pequena casa, a mãe deixou-lhe de herança apenas dívidas e uma reputação manchada.

O destino de Celia já está traçado há muito. Ela foi educada para seguir as pisadas da mãe. Mas Celia é determinada e tem os seus próprios planos… que não incluem, evidentemente, o misterioso inquilino com que se depara ao instalar-se no seu novo lar.
Jonathan Albrighton encontra-se numa missão a mando do tio, pois há suspeitas de que Alessandra possuía informações delicadas sobre alguns dos homens mais influentes da sociedade londrina. Jonathan pensava estar perante uma tarefa simples, não contava encontrar em Celia uma adversária à sua altura…

A minha opinião:
Um romance de época que visa apenas entreter e distrair durante algum tempo. O mais parecido com as histórias de princesas que tanto lemos e ouvimos durante a nossa infância e que tantas ilusões nos criaram, mas agora com um conteúdo mais adulto e ousado, onde não faltam descrições carregadas de sensualidade e erotismo. 

Neste romance, temos duas personagens fortes, inteligentes e belas que foram desfavorecidas pela sorte, como filhos bastardos de um nobre que não os reconheceu. Celia lutou para conhecer a identidade do pai, pois a única herança de que beneficiava era da mãe, afamada cortesã, que lhe ensinou como vencer naquela vida. Um futuro que Célia rejeitava à partida e que se tornou mais sombrio depois de ser arrebatada pelo jogo de sedução de Jonathan. O desfecho só poderia ser feliz. 

Leitura de verão despretensiosa e divertida, considerando os "amigos" de Jonathan. Sem surpresas, uma escrita fluída e bem cadenciada que, com excepção de uma gralha de conteúdo de início, não interrompi.

domingo, 3 de agosto de 2014

Índice Médio de Felicidade

Autor: David Machado
Edição: 2013/ junho
Páginas: 256
ISBN: 9789722052764
Editora: DOM QUIXOTE

Sinopse:
Daniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com as estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem. E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido. 

Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. Dramático e realista, mas com momentos hilariantes, confirma o talento de David Machado como um dos melhores ficcionistas da sua geração.

A minha opinião:
Por muito ler, pensava que conhecia muitos dos bons escritores e os respectivos livros que se encontravam facilmente disponíveis nas livrarias. Como membro da Roda dos Livros, descobri que não poderia estar mais equivocada, e nem ter sido mais presunçosa, porque tanto há para descobrir, principalmente novos e bons autores portugueses. Confesso, com algum embaraço, que ainda não me rendi completamente. Ideias preconcebidas, muito enraizadas, apoiadas em más memórias de alguns clássicos ou conceituados autores que me aborreceram terrivelmente. Ainda assim, são cada vez mais os que ouso ler e aprecio bastante. Índice Médio de Felicidade aguardou muito tempo na estante que o lesse, mas tal como aventaram revelou-se uma leitura actual, pertinente e difícil, pelo muito que em si contem da real conjuntura económica.

Três amigos criaram um site que funcionava como uma rede social, sem sucesso, tal como eles, já que todos se distanciaram dos seus planos. Xavier, deprimida e sombria personagem, tinha um questionário com uma única questão:

- Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?

A partir daqui tudo se complica. Focado na demanda da felicidade como objectivo primordial do ser humano, esta é uma questão abrangente e complexa que envolve tanta informação e emoção, que até para o leitor comum se torna perturbador. Equacionar a vontade de ser feliz e a esperança nos reveses da vida ou da sorte, quando relativizamos tudo, e não aceitamos menos e queremos sempre mais e até mesmo uma profissão nos define, leva a confrontar-nos com as nossas escolhas e valores numa obra de fição muito bem escrita e com um Daniel extraordinário.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os 500

Autor: Matthew Quirk
Edição: 2014/ junho
Páginas: 320
ISBN: 9789720044211
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Depois de renunciar aos maus hábitos do passado, o jovem Mike Ford tem de estar agora à altura de dois grandes desafios: primeiro, conseguir dinheiro para saldar as dívidas herdadas da falecida mãe e para pagar o curso de Direito em Harvard; segundo, construir a vida digna que nunca teve.

É com o prestigiado professor Henry Davies - que trabalhou com os presidentes Johnson e Nixon e dirige a mais importante consultora financeira americana - que Mike é, aparentemente, salvo. Convidado a integrar a consultora, Mike passa a fazer parte da nata da alta-finança, e tem à sua disposição não só um salário milionário, mas também a expectativa de um romance com a sua parceira de trabalho, Annie.

Só não esperava que, para ser bem-sucedido a conquistar influências junto dos 500 homens e mulheres que dominam os mercados mundiais, lhe fosse exigido que fomentasse alianças com criminosos de guerra ou manipulasse congressistas, que recorresse à chantagem, à mentira, à vigarice… ao seu passado.
Colocado entre a espada e a parede, Mike ou enfrenta as consequências sórdidas inerentes ao trabalho, ou arrisca a vida às mãos dos próprios colegas, se tem a pretensão de desistir. Mas há uma alternativa: ser melhor nas artes do engano do que a sua própria empresa e conseguir denunciá-la publicamente depois de a desmantelar por dentro.
Misturando os melhores elementos da intriga política com uma refrescante dose de humor, Os 500 é uma primeira obra inesquecível de um jovem escritor com provas dadas no jornalismo de investigação.

A minha opinião:
Cheio de ação e emoção, este livro é diametralmente oposto ao que li anteriormente. Um thriller assente na vivacidade e argúcia de Mike Ford que, nos revela as suas aventuras e desventuras enquanto yuppie em Washington DC. E também o seu passado, reabilitado desde que um juiz lhe dera uma opção.

A sinopse não ilude e é uma boa introdução para esta história. Mas, não nos prepara para uma personagem carismática, cheia de habilidades e truques, úteis para singrar e sobreviver num lago de tubarões de fato e gravata, bem ao estilo Macgyver, no improvisar, sair de enrascadas, desmontar e abrir fechaduras. Para quem se lembra dessa série dos anos 80, creio que a personagem é mesmo muito parecida, mas noutro cenário e com algumas restrições dada a sua experiência como vigarista e ladrão. Algumas sugestões bem interessantes para divertir ou avaliar de um bom analista das fraquezas humanas.

Com um ritmo rápido e espirituoso, vinga nas capacidades de Ford e nos jogos de influências dos homens ricos e poderosos, que dominavam Washington e por extensão o país.

MICE: quatro pontos...
"A massa é fácil de entender e, embora possamos discordar quanto à filosofia da vida, o dinheiro é capaz de proporcionar praticamente qualquer coisa que as pessoas queiram, no que concerne à concretização pessoal e estatuto. A ideologia consiste em levar as pessoas a acreditar naquilo que queremos que acreditem. Seria bom pensar que era esse o verdadeiro trunfo na manga, mas no mais das vezes, isso constitui um jogo às avessas. É impossível levar alguém a fazer o que quer que seja se essa pessoa não conseguir justificá-lo perante si mesma. Em todos os filmes, o vilão tem que achar que é o herói.
Cedência e coerção, referem-se a obter informação comprometedora sobre alguém. Por regra, os norte-americanos tentam evitar essa abordagem, pois viola certas noções básicas de fair play.
Quanto ao ego, consiste em utilizar as convicções de alguém de que terá sido injustiçado pela vida, de que será muito mais esperto do que todos os outros, ou mais trabalhador, ou mais honesto, e que por isso merece um emprego melhor, mais dinheiro, mais respeito, uma esposa mais bem parecida, seja o que for, convicções que eu imagino que abarquem cerca de 99,99 por cento da população."
 (pag.76/7)

sábado, 19 de julho de 2014

A Beleza das Coisas Frágeis

Autor: Taiye Selasi
Edição: 2014/ março
Páginas: 392
ISBN: 9789897221484
Editora: Quetzal

Sinopse:
Um dia, Kweku Sai, um cirurgião de renome, americano de origem ganesa, abandona a sua família, na América, e regressa ao Gana. É uma família africana da «nova geração» a viver na América. Folásadé Savage (Folá) abandonou a Nigéria e partiu para a Pensilvânia, onde conheceu o seu marido Kweku. O filho mais velho, Olu, segue as pisadas do pai e é um médico brilhante; Kehinde é uma pintora cujos quadros atingem cotações elevadas no mercado de arte; Taiwo, uma aluna brilhante, é uma notável pianista; e Sadie está na lista de espera para entrar em Yale. É esta família que Kweku abandona quando regressa ao Gana, onde morre – à porta de casa, na sua cidade natal, Acra.

As notícias da morte de Kweku correm rapidamente mundo fora e acabam por reunir a família. A Beleza das Coisas Frágeis (Ghana Must Go) conta a história destas pessoas – e mostra os caminhos que as reaproximam.
Neste reencontro, no Gana, é revelada a história que levou ao seu afastamento, bem como os corações destroçados, as mentiras e os crimes cometidos em nome do amor. Cada um, transportando os seus degredos e mágoas, descobrirá no Gana que um novo caminho e uma nova família estão prestes a emergir.
Neste seu belíssimo e eletrizante romance de estreia – o retrato de uma família moderna –, Taiye Selasi desloca-se com elegância através do tempo, mostrando que só a verdade pode curar as feridas escondidas.

A minha opinião:
Há livros que temos que ler demoradamente, porque são de uma beleza ímpar. A escrita, as personagens e a história. Tudo neste romance é caloroso, suave e sensível, como as coisas frágeis e belas que tanto devemos prezar e preservar. 

O grafismo da capa e o título atraíram, mas foi a promessa contida na sinopse que determinou esta leitura, que quando concluída, apetece recomeçar.

As personagens são seis. E seis, são os elementos desta família. Todos participam de igual modo, no que é comum a todos eles, mas todos o sentiram de forma diferente. Todos cresceram ou evoluíram como seres únicos que são. Todos têm a sua história para contar. O retrato de uma família que regressa às suas raízes para uma despedida e acaba por enfrentar a verdade. As mágoas que os afastaram podem ser esclarecidas sem muitas palavras entre eles, e o amor que os liga pode ser mais forte que a distância e os temores.

"Os irmãos irradiam brilho. Olu, Taiwo, Kehinde e Sadie. Há o fulgor calmo de Olu, a sua voz profunda e confiante que lhe vem do conhecimento dos factos. Há o génio obscuro de Taiwo, o tom rouco e sedutor da sua voz, (...) o seu denso ar de mistério e de encanto natural, como só têm as mulheres cuja beleza é uma espécie de facto, sem possibilidade de mais do que interpretação. Há o talento puro de Kehinde, a sua ligação às imagens e a calma confiança com que olha para as coisas, como se o mundo estivesse coberto por um padrão tão indescritivelmente belo e cheio de significado, que se alguém visse tudo tão claramente como ele, também teria enfrentado o cavalete em branco com um pincel na mão e do modo natural e simples com que se vê um filme e o telejornal, sem nenhum empenho especial, vendo apenas e tentando compreender o que se vê. E há a baby Sadie. Com uma década de atraso, chegada no inverno, um engano feliz, com a sua mistura de competências, mas sem nenhum dom acima da média."                                                          (pag. 265)

E há o pai Kweku Sai. Um cirurgião sem igual, que tudo fez para ser merecedor da sua princesa nigeriana. Para ser merecedor de Folá, para dar um sentido ao seu sacrifício, ele tinha que ser bem sucedido. E por isso, não foi capaz de lidar com o que lhe sucedeu.

Prosa elegante e requintada para desfrutar ao ritmo dos sons africanos e imaginando as paisagens descritas com os cheiros característicos. 

Um livro como poucos. Um prazer de ler.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morte Em Palco

Autor: Caroline Graham
Coleção: Crime à Hora do Chá (Vol. 4)
Edição: 2014/ março
Páginas: 368
ISBN: 9789892325606
Editora: ASA

Sinopse:
Todos os atores adoram um bom drama e os membros da Causton Amateur Dramatic Society não fogem à regra. Românticas cenas de amor, momentos de ciúme e desespero, reconciliações operáticas, egos em fúria… as emoções estão ao rubro nesta produção amadora da peça Amadeus. Todavia, até as mentes mais criativas têm de admitir que assassinar o protagonista em palco é um pouco excessivo. Felizmente, o inspetor Tom Barnaby está na plateia e assume o controlo da situação.

Da ex-mulher ressabiada a inesperados amantes secretos e atores invejosos, não lhe faltam suspeitos. O que parece faltar-lhe, sim, é objetividade. O bom inspetor conhece perfeitamente todos os envolvidos, são seus vizinhos e amigos, e por isso mesmo, conseguirá ver quem eles realmente são?

A minha opinião:
Tive alguma dificuldade em interessar-me por este pequeno livro. Peguei-lhe uma, duas e à terceira, consegui. 

Inicialmente lemos a caraterização individual das personagens, atores em ensaios. As suas misérias e alegrias. Lado pessoal e interação nos bastidores da vida e do teatro. Depois, o crime em cena e a investigação policial.

Memória de policiais de outros tempos em que tudo era mais simples. Agradável leitura sem muitos requisitos, apesar de eu não ter adivinhado o culpado. Interlúdio entre leituras mais pesadas ou exigentes.



o segredo do meu marido

Autor: Liane Moriarty
Edição: 2014/ abril
Páginas: 416
ISBN: 9789892325774
Editora: ASA

Sinopse:
A carta do marido dizia: “Para ler apenas após a minha morte.” Mas ele estava vivo. E escondia um segredo aterrador.
Cecilia encontrou a carta acidentalmente. Na penumbra do sótão, soube de imediato que não devia lê-la. Que devia devolvê-la ao seu esconderijo, fingir nunca a ter encontrado e respeitar a vontade do marido. Afinal amava John-Paul. Juntos, tinham três filhos e uma vida sem sobressaltos. Argumentos que de pouco serviram perante a sua curiosidade crescente. E quando começou a ler, o tempo parou.

A confissão de John-Paul fulminou-a como um raio, dividindo a sua vida em dois: o antes e o depois da carta. Cecilia vai ficar agora perante uma escolha impossível. Se o segredo do seu marido for revelado, tudo o que construíram será destruído. Mas o silêncio terá um efeito igualmente devastador.
Porque há segredos com os quais não se pode viver…

A minha opinião:
Um romance de leitura compulsiva. Simples opções ou decisões quotidianas que acarretam consequências inesperadas e inimagináveis, no conhecido efeito borboleta da teoria do caos. 

Algum suspense em descobrir o segredo do marido perfeito de Cecília, mas foi Tess quem mais me agradou, enquanto absorvia o longo sofrimento de Rachel. Três personagens femininas numa pequena comunidade que lidam com difíceis questões. A primeira leva um abanão na sua bem organizada e bem sucedida existência quando descobre uma carta e percebe o quão importante e grave é o seu conteúdo. Um mistério resolvido. Tess é confrontada com uma traição e Rachel com a iminente partida do neto que afecta a sua já fragilizada estrutura emocional. Dramas com picos de humor. Sentir profundo e partilha com o leitor num registo muito feminino.

Um romance que correspondeu plenamente aos meus anseios literários do momento. Empolgante e emocionante quanto baste e mais, muito mais do que entretenimento. Uma boa trama a adaptar ao cinema.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Amores Secretos

Autor: Kate Morton
Edição: 2014/ junho
Páginas: 568
ISBN: 9789896722012
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Laurel, actriz de sucesso, regressa à casa da família para celebrar o nonagésimo aniversário da mãe, Dorothy, que sofre de Alzheimer.
Esse dia recorda-lhe um outro, há muito esquecido. Naquele fatídico aniversário do seu irmão, Laurel estava escondida na casa da árvore, a fantasiar com um amor adolescente e um futuro grandioso em Londres, quando assistiu a um crime terrível, que mudaria a sua vida para sempre. Foi com terror que Laurel viu a mãe cravar a faca do bolo de aniversário no peito de um desconhecido.

O regresso ao local onde tudo aconteceu é a última oportunidade para Laurel descobrir o temível segredo daquele dia e encontrar as respostas que só o passado da sua mãe lhe pode dar. Pista após pista, Laurel irá desvendar a história secreta de três desconhecidos que a Segunda Guerra Mundial uniu em Londres — Dorothy, Vivien e Jimmy — e cujos destinos ficaram para sempre ligados.
Uma fascinante história de segredos e mistérios, de um crime obscuro e de um amor eterno. Mais um livro inesquecível de uma das autoras de maior sucesso dos nossos tempos.

A minha opinião:
A expectativa em ler mais um romance de uma das minhas autoras preferidas era muita. Guardei-o para um desejável e imperioso período de férias. Provavelmente, não foi a melhor aposta para primeira leitura. Intrincado, com personagens multifacetadas e complexas, e um final quase surpreendente. Uma leitura um tanto exigente, ainda que enriquecedora. 

Saltitando em três épocas distintas, nomeadamente em 1941, 1961 e 2011 vamos desvendando um passado misterioso que envolve um crime absurdo, que em jovem Laurel testemunhou e precisa de esclarecer. Uma forte ligação entre três personagens durante a Segunda Guerra Mundial. Uma inquietação que passa ao longo de toda a narrativa com os vislumbres do tanto que ambicionavam e sofriam Dorothy, Jimmy e Vivien. Uma longa investigação de Laurel para chegar à verdade sem que nenhum dos intervenientes o pudesse revelar. 

E é neste último parágrafo que, está o busílis desta narrativa. Longa, o que me levou a abreviar a leitura para antecipar o final que adivinhei. Não foi por isso, uma leitura memorável e ao nível das minhas expectativas e anseios.