Páginas

sábado, 25 de abril de 2015

O Que nos Separa dos Outros por Causa de um Copo de Whisky

Autor: Patrícia Reis
Edição: 2014/ setembro
Páginas: 96
ISBN: 9789722055840
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 
Trata-se de um monólogo de um homem que está num bar em Macau. As memórias vão derretendo como o gelo no fundo do copo. A sua interlocutora imaginária é a mulher estranha que está do outro lado do balcão. Alguém que é apenas, como o personagem principal, um acumular de histórias ou de banalidades. Como tudo na vida. 
Esta novela, vencedora do Prémio Nacional de Literatura 2013-2014 da Fundação Lions Portugal, é uma nova forma de trabalhar o discurso interno, as memórias, sempre com a indicação de uma certa polifonia, já habitual nos livros da autora.

A minha opinião: 
Como a sinopse depreende-se o tipo de leitura que iremos ter. Com alguma amargura. Mas por vezes, é preciso encararmos o lado menos bonito e bem sucedido da vida e fazer um balanço. Por opção, temperamento ou sorte, ou talvez um mix de tudo, tanto acontece alheio `a nossa vontade, contrario `as nossas expectativas. Quantas vezes não projetamos filmes sobre a vida alheia ou a nossa, em dialogo imaginário com alguém, mas que se trata apenas de um monologo para colocar em melhor perspectiva as nossas ideias ou vivências.

"As historias de cada um são testemunhos irregulares, com arestas e falhas, buracos e acrescentos." (pag.51)

Por impulso, insanidade momentânea, um homem de meia idade aceita deslocar-se durante um mês para Macau para ensinar algo que não se ensina: a escrever. A ser criativo. Pareceu-lhe um lugar para perder a razão, recordar memorias sem interessa e ter fantasias estúpidas. Uma alma solitária no mundo. Como tantos. Nada escapa impunemente ao seu desencanto e desalento ébrio.

Um livro sério e lúcido. Uma leitura breve e introspetiva. Bem escrito e bem estruturado, como seria de se esperar. 

"E´ crucial dar um destino `as coisas. Por isso, fazemos tantos planos. E a vida troca-nos os planos e atira-nos para o fundo de um copo."       (pag. 82)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Casa das Rosas

Autor: Andréa Zamorano
Edição: 2015/ fevereiro
Páginas: 160
ISBN: 9789897222108
Editora: Quetzal Editores

Sinopse: 
Esta é a história extraordinária de Eulália, uma jovem da classe média de São Paulo. Os inusitados acontecimentos que marcam a sua vida nesse período épico da vida brasileira, entre 1983 e 1984 (a campanha das eleições diretas, marco no combate pela democracia), vão transportar o leitor para um mundo onde realidade e fantasia coexistem e se entrelaçam.

Ao longo dessa história, haverá uma mãe desaparecida, um vestido de noiva, um detetive solitário, um jardineiro que sabe demais, um deputado poderoso, um perfume de rosas, uma fuga através da cidade em chamas, um animal que fala, um fantasma que aparece e desaparece, um poeta mexicano que só mais tarde irá surgir nos livros de Roberto Bolaño, um português dono de um boteco em São Paulo - e um final empolgante e inesperado. 
A estreia de uma autora brasileira a viver em Portugal há longos anos, que cruza as culturas (e ortografias) de uma mesma língua.

A minha opiniao : 
Romance com pouco romance. Prosa quase poética, com frases curtas e palavras duras, num enredo com três personagens principais e três secundarias, e um sagui que faz elo de ligação entre o consciente e o inconsciente de uma personagem que tanto sabe sem nada compreender. 

Enigmática narrativa que nos desconcerta mas encanta, numa breve leitura que faz a diferença, justamente porque não nos deixa indiferentes. O tema de fundo que não revelo, e´ uma descoberta que ao leitor interessa e não deve perder. Intemporal e sempre noticia. 

O nome de uma casa que rosas tinha. A beleza e a loucura que ilude os sentidos e a razão numa perdição. O poder que cega. Virgílio, Cândida e Eulália e o Sr, Raimundo, o jardineiro, quatro personagens que não vou esquecer. 

Inspirado primeiro romance para quem sabe de letras e usa-as bem. Sem preconceito, gostei muito. 

sábado, 18 de abril de 2015

Viagem ao Coração dos Pássaros

Autor: Possidónio Cachapa
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 176
ISBN: 9789897541377
Editora: Marcador

Sinopse: 
Viagem ao Coração dos Pássaros remete-nos para um universo único mas que se repete sempre no tempo dos seres humanos. Fala-nos das contradições e dialética do mundo, do amor, da vida, mas também dos seus opostos. É um livro que se lê num sopro, como se fosse um instante, numa viagem que o leitor faz ao coração, o seu próprio, e o dos protagonistas da história, realista, autêntica e bela.

Possidónio Cachapa conduz-nos através da sua escrita profunda, revelando-nos os dons que todos temos e as nossas virtudes mas também as nossas debilidades e fraquezas, numa simplicidade narrativa que nos prende da primeira à última página.

A minha opinião: 
Muito ouvi falar sobre este autor. Bem, muito bem. O nome do autor deixa-me com um sorriso nos lábios. E a escrita deixou-me cativa, de um humor irreverente e certeiro, onde a lucidez impera nesta fantástica narrativa sobre Kika, a menina e mulher, com nome que parece de gato. 

"(...) Acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados e de coisas que a ultrapassavam, e a quem tinha sido dada a ingrata missão de viver com eles. Que nos interessa que um escritor tenha um dia ouvido falar disto e se tenha aproximado como um insecto nocturno dessa casa onde os raios e os gemidos trovoavam diariamente?"   (pag. 163)

Interessa e muito, porque a breve historia de Maria Joaquina Constança, conhecida por Kika, filha de Evangelina, uma mulher dura e sofrida e do sonhador e ausente Filipe, temos um retrato da verdadeira e contraditória condição humana. Um Dom de ver e ouvir o que queria e não queria saber, a capacidade de se expressar sem mover os lábios com o alcance da mente, um potencial de curar apenas com as suas mãos e temos uma mulher renegada e amada, que não sabia o que era o amor ate ao fim da sua vida.

Criativa e brilhante, e mais não escrevo, sobre esta narrativa que nos toca a alma. Leiam! Serão surpreendidos, como eu fui. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Hotel Sunrise

Autor: Victoria Hislop
Edição: 2015/ março
Páginas: 352
ISBN: 9789720047304
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Famagusta, no Chipre, é uma cidade dourada pelo calor e pela sorte, o resort mais requisitado do Mediterrâneo. Um casal ambicioso decide abrir um hotel que prime pela sua exclusividade, onde gregos e cipriotas turcos trabalhem em harmonia.
Duas famílias vizinhas, os Georgious e os Özkans, encontram-se entre os muitos que se radicaram em Famagusta para fugir aos anos de inquietação e violência étnica que proliferam na ilha. No entanto, sob a fachada de glamour e riqueza da cidade, a tensão ferve em lume brando…

Quando um golpe dos gregos lança a cidade no caos, o Chipre vê-se a braços com um conflito de proporções dramáticas. A Turquia avança para proteger a minoria cipriota turca e Famagusta sucumbe sob os bombardeamentos. Quarenta mil pessoas fogem dos avanços das tropas.
Na cidade deserta, restam apenas duas famílias. Esta é a sua história.

A minha opinião: 
Victoria Hislop já provou ser uma boa contadora de historias com "A Ilha" e "A Arca", dois dos seus romances que li. Com "Hotel Sunrise" conseguiu manter o nível elevado com um enredo passado essencialmente num luxuoso hotel num paraíso terrestre, que a ganancia e a cupidez deitaram a perder. Os homens na sua ânsia de poder, e separando etnias que tinham tudo para se dar bem, iniciaram uma revolta civil que culminou num trágico desfecho que a ninguém beneficiou. As mulheres na sua infinita sabedoria compreenderam que os afetos superam mesquinharias e assumiram responsabilidades, em vez de atribuir culpas alheias e alimentar um ódio sem sentido. 

Este romance tem todos os ingredientes para ser um sucesso, como Historia, intriga, suspense, crime, romance e glamour, bem balanceados e habilmente doseados por personagens com substancia e verossímeis. O bom e o mau, o rico e o pobre, o doce e o amargo, as tradições e o mundano. Opostos inconciliáveis. 

Mais do que um romance ficcional, uma incursão pelo passado recente com um aperto no peito. 

Leitura empolgante que se torna imparável com o envolvimento com as personagens e a trama, que ansiamos termine bem.

Um prazer de ler!

domingo, 12 de abril de 2015

A Vida Quando era Nossa

Autor: Marian Izaguirre
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 344
ISBN: 9789722529297
Editora: Bertrand

Sinopse: 
A Vida Quando era Nossa é um tributo à literatura, mas é sobretudo uma história de amizade entre duas mulheres. Uma história que começa quando se abre um livro e que só termina quando todas as pontas da narrativa se unem.
«Tenho saudades do tempo em que a vida era nossa», diz Lola, a protagonista do romance. Sente falta da sua vida, tão cheia de esperança, feita de livros e conversas ao café, sestas ociosas e projetos de construir um país. A Espanha que, passo a passo, aprendia as regras da democracia.

Mas, em 1936, chega um dia em que a vida se transforma em sobrevivência e agora, passados quinze anos, a única coisa que sobra é uma pequena livraria, meio escondida num dos bairros de Madrid, onde Lola e Matías, o marido, vendem romances e clássicos esquecidos. 
É nesse lugar modesto que, em 1951, Lola conhece Alice, uma mulher que encontrou nos livros uma razão para viver. Acompanhamos a amizade entre as duas, atrás do balcão a lerem o mesmo livro juntas, e isso leva-nos atrás no tempo, à Londres do início do século XX, para conhecermos uma menina que se perguntava quem seriam os seus pais…

A minha opinião: 
A Vida quando era Nossa, um titulo que adorei. Uma frase tão simples mas com tanto significado.

A sinopse fez o resto, e ler este romance era uma prioridade, quase uma obsessão, que tive que gerir ate surgir o momento certo. Quando este chegou, não poderia ser mais prazeroso. 

Vários são os fragmentos desta narrativa que nos tocam como leitores compulsivos, mas não apenas, porque ficção e realidade aproximam-se quando nos reconhecemos nas paginas do livro e ainda descobrimos coisas que não sabíamos, como só os bons autores o conseguem. Toca-nos de um modo muito especial e quando assim acontece, compreendemos quase intuitivamente tudo o que nos e´ contado como se estivéssemos a partilhar confidencias, em cumplicidade com as personagens. Neste livro, vamos partilhar o mundo secreto de Rose Tomlin enquanto Alice e Lola lêem "A Rapariga dos Cabelos de Linho" e acompanhamos a amizade e apreço mutuo. Tanto para descobrir sobre uma fascinante mulher, filha bastarda de um conde e de uma arrojada mãe que apenas reconhece depois da sua morte. Atravessamos a I Guerra Mundial e as suas consequências ligeiras para esta privilegiada personagem, para terminarmos na Guerra Civil Espanhola com a sua terrível perda. Lola e Matias são bem mais do que personagens secundarias, também eles com um difícil percurso que se altera quando Alice se cruza nos seus caminhos. 

"Quando te sentires sozinha, lê um livro... Isso vai salvar-te." Um bom conselho que Rose aceitou do seu primeiro amor. "Historias nas quais se refugiar, historias pelas quais fugir. Livros." 

"O tato das folhas, o calor seco do papel, livros com as suas lombadas arredondadas, de meia-encadernação, brocados, de tecido, livros com nervos, com etiquetas, sem elas, livros escritos há cem anos onde o calor das mãos alheias deixou uma historia feita de tempo."         (pag. 93)

domingo, 5 de abril de 2015

Comédia em modo menor

Autor: Hans Keilson
Edição: 2015/ março
Páginas: 128
ISBN: 9789720071651
Editora: Sextante

Sinopse: 
Comédia negra em tempo de guerra, este notável pequeno romance de Hans Keilson, originalmente publicado em 1947, revela-nos um autor excecional: profundamente irónico, de escrita aguda, brilhante, moderna, da linhagem de Kafka ou de Joseph Roth.

É uma história de gente comum resistindo à ocupação nazi na Holanda: um casal, Wim e Marie, esconde em sua casa um judeu em fuga, Nico, e vai ter de livrar-se do seu corpo quando este morre de pneumonia.

A minha opinião: 
Um pequeno romance que esperava que fosse uma espécie de conto, mas que me pareceu o texto de uma peça de teatro, com o foco no agir e sentir das personagens, encurraladas em espaços fechados por serem perseguidas. Fechadas sobre si mesmas e o seu universo interior. Ironia e inquietação quando se percebe o conflito interior de cada uma das três personagens, primeiro enquanto hospedeiros e depois reclusos que esperam a libertação.   

"E Marie compreendeu que as palavras amar o próximo ou dever patriótico ou desobediência civil eram apenas um pálido reflexo do sentimento profundo que os havia levado, a ela e a Win a acolher em sua casa uma pessoa que era perseguida".                                  (pag. 43)

Narrativa crua e muito realista, numa linguagem acutilante e direta,  que nos deixa a nu com as nossas emoções, para nos confrontarmos com pequenos grandes atos de coragem num tempo de ódio que nunca iremos compreender. 

"Também havia problemas. Obviamente, quando as pessoas vivem umas com as outras, há problemas. Os problemas são como pequenas bombas-relógio, que alguém colocou em tempos sombrios. Em geral, rebentam precisamente quando se pensa que esta tudo a correr da melhor maneira. Pum! A coisa explode, começamos por ter uma surpresa, apanhamos um susto e sentimo-nos algo irritados. Os problemas são uma maçada porque acontecem de surpresa e porque nos obrigam a fazer um esforço. As pessoas que afirmam que veem "acontecer" um problema são como as pessoas que dizem que ouvem crescer a relva."                                   (pag.49)     

Um pequeno embaraço, uma pequena desilusão. Porque e´ que teve de morrer? Justamente ele que se escondia na sua casa, teve de morrer de uma morte perfeitamente vulgar, tal como costumam morrer as pessoas tanto em tempo de guerra como em tempo de paz? 

Leitura forte mas sem qualquer registo de violência, para agitar consciências. 

Aberto toda a noite

Autor: David Trueba
Edição: 2012/ outubro
Páginas: 246
ISBN: 9789896721374
Editora: Alfaguara

Sinopse: 
O primeiro romance de David Trueba convida-nos a entrar no lar dos Belitre, uma família tão numerosa quanto disparatada. Crónica de uma educação sentimental, as pessoas que habitam este livro apenas dão ouvidos à voz do seu coração. Numa sucessão irresistível de quadros da vida familiar, conhecemos Félix e Paula, um casal em crise, agastado pela rotina de criar seis filhos. Conhecemos Matías, um rapaz de doze anos que sofre de uma misteriosa doença mental. Conhecemos Abelardo, o avô, que no meio da demência senil se entrega de corpo e alma à poesia e à religião. Mas, ainda assim, falta conhecer muito, porque a família é muito mais do que as pessoas que a compõem.

Em Aberto toda a noite, Trueba pinta, com humor, ternura e magia, o fresco de uma família deliciosamente excêntrica, a que apetece pertencer.

A minha opinião: 
Um romance irresistível sobre uma família numerosa, considerando os seis filhos homens de Felix e Paula que habitam todos debaixo do mesmo tecto numa interacção que, permite momentos únicos de leitura, abstracção, humor e incredulidade. O avô Abelardo que se entrega a uma convicção religiosa na sua loucura e arrasta duas testemunhas de Jeová que ainda não tinham percebido as suas inclinações sexuais ou uma avó, Alma, que não saia da cama e protegia as suas memorias enquanto tinha consciência que a sua nova enfermeira não era indiferente a nenhum dos membros masculinos daquela família, são os únicos que não residiam naquela casa. 

Tanto para contar num ritmo vertiginoso sem que um sorriso se afaste do rosto de quem lê, surpreendido com tudo o que há para saber sobre cada um deles porque não se pode conhecer uma família como a Belitre sem conhecer os seus membros, especificamente no Verão de 1986 que admitiam a extravagancia quotidiana como normalidade. 

"Lar: O lugar de ultimo recurso - aberto toda a noite. "
Ambrose Bierce, Dicionario do Diabo (pag. 145)

Sentimentos e laços afetivos que unem as pessoas e mudam ao longo do tempo. "A mulher, só por suportar o género masculino, já ganha metade do céu,", mas também solidão, violência, rejeição social. Um bom enredo com personagens excecionais que vale muito a pena ler. Um boa sugestão que muito agradeço aos meus bons amigos da Roda dos Livros.
Ler para crer!

sábado, 28 de março de 2015

Xerazade - A Última Noite

Autor: Manuela Gonzaga
Edição: 2015/ março
Páginas: 200
ISBN: 9789722530125
Editora: Bertrand Editora

Sinopse: 
Xerazade - A Última Noite leva-nos aos meandros de uma fascinante tapeçaria narrativa, onde podemos encontrar referências díspares, quer de mitos clássicos ou pré-clássicos, quer ainda de histórias de encantar, juntamente com «memórias» soltas como «um colar de pérolas» desatadas, que a narradora, Xerazade, tenta reconstruir para confortar o amante que, inconformado, se recusa a deixá-la ir embora.

A minha opinião: 
A curiosidade impulsiona-me para leituras que antes rejeitava sem hesitar. Leituras mais exigentes e elaboradas em que as palavras são encadeadas com rigor e critério para uma leitura dos sentidos e das emoções. 

Contos de encantar que bem conheço, mitos, lendas, historias da antiguidade clássica, numa narrativa colorida de uma mente delirante que as renova como se contadas por tradição oral a um amante que receia perder, como Xerazade na sua ultima noite. Tanto para refletir quando se lê sobre o Amor ao longo do Tempo.  

Não e´ uma leitura fácil e demorei a entrar no espírito da personagem em monólogo constante. Breves apontamentos onde a personagem masculina intervém para sugerir moderação ou contenção a uma Xerazade que imparável avalia tanto do que ao Amor diz respeito. 

Leitura que atrai e afasta na exata proporção da compreensão e empatia com uma Xerazade que não nos deixa indiferente. Enigmática e apaixonada pela Vida que nem sempre a tratou bem. 

Requintada obra que se preza para uma leitura pausada e absorta. 

"Espera por mim como um livro excelso porém esquecido, porque os grandes livros sabem esperar. Podem fazê-lo, alias. O tempo não tem sobre eles qualquer poder. Os outros, ai!, podem quase todos os outros , estão sujeitos `as mesmas leis da vida que talham o nosso humano destino. Envelhecem e acabam por morrer amortalhados em paginas murchas onde palavras dissonantes servem ideias gastas e enredos pobres.
Espera por mim como um livro. Como O Livro, que um dia, rasgado o véu epifanico, reencontramos e devoramos, compulsivamente, e voltamos a devorar como amantes adiados que finalmente se unem pelo fio encantatório das palavras. No tempo certo."    
                                                                                                               (pag. 89)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Um Presente muito Especial

Autor: Joanne Huist Smith
Edição: 2014/ novembro
Páginas: 208
ISBN: 9789896682842
Editora: Nascente

Sinopse: 
A história real de uma família que reencontrou a sua essência, com a ajuda de amigos muito especiais.
Depois da morte inesperada do marido, Joanne sente-se incapaz de retomar a sua vida e de ser o exemplo de força que os seus filhos, Ben, Nick e Megan, precisam mais do que nunca. Com a aproximação da quadra natalícia, tudo parece ainda mais duro de suportar.
Mas, 12 dias antes do Natal, um presente é deixado misteriosamente à porta de casa, acompanhado de um cartão com a assinatura «Os vossos verdadeiros amigos». No dia a seguir, um novo presente, no dia seguinte mais um presente, e assim acontece, até à véspera de Natal.

Estes 12 presentes irão tornar-se uma dádiva de grandeza incomparável e acabam por dar origem a um milagre: a reaproximação entre mãe e filhos e o fortalecimento dos seus laços de amor.

A minha opinião: 
Um conto de Natal que li fora de época. Contudo, não há época para se celebrar a alegria de viver, a generosidade, a solidariedade e a união familiar. Em suma, o Amor, que nos liga ao próximo e tantas vezes esquecido na vertigem de rotinas deste ritmo de vida acelerado que nos impõem e que aceitamos sem questionar. Quantas e quantas vezes, um sorriso, uma gentileza ou uma sugestão não fazem toda a diferença para quem a recebe e não nos custa nada. Nem reparamos que somos impacientes, bruscos e um pouco intolerantes no nosso dia-a-dia e o acto de dar fica arredado das nossas prioridades.

Um daqueles livros que banalmente desvalorizamos como de auto-ajuda, como se não precisamos de ajuda para refletir e mudar sempre e quando possível.

Singelos e inesperados presentes, diariamente entregues nos treze dias que antecederam o natal, obrigam uma família enlutada, mais destroçada com a proximidade da época, a uma distração que gradualmente faz a mudança.

Realista e com uma escrita corrente e fluída, lê-se num ápice. Um pouco de ternura e compaixão. Um balsamo para corações sensíveis e abnegados. 

domingo, 22 de março de 2015

Cavalo de Fogo - Gaza

Autor: Florencia Bonelli
Trilogia: Cavalo de Fogo (Vol. 3)
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 672
ISBN: 9789720044938
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Matilde e Eliah voltam a separar-se. No Congo, as esperanças de uma vida em conjunto desvaneceram-se ao ritmo dos ciúmes e das circunstâncias hostis.
Matilde, cirurgiã pediátrica, refugia-se na sua paixão: o trabalho humanitário que leva a cabo para a organização Mãos Que Curam. O seu novo destino é a Faixa de Gaza, o território mais densamente povoado do mundo, onde a prioridade diária é a sobrevivência. Eliah, por seu lado, obriga-se a esquecer Matilde e a pôr fim à obsessão que o prende a ela.

Estará esta enorme paixão condenada a perecer nas ruínas de um mundo, também ele, em risco? Ou serão o amor, uma força mais poderosa do que todo o mal que os rodeia, e a vontade de ficarem juntos, contra tudo e contra todos, suficientes para unir Eliah e Matilde para sempre?
Uma soberba conclusão da história iniciada com Cavalo de Fogo - Paris e continuada em Cavalo de Fogo - Congo.

A minha opinião: 
Florencia Bonelli conquistou-me com a serie O Quarto Arcano e desde então acompanho as aventuras e desventuras das suas muitas personagens em peripécias ousadas e arriscadas que são fáceis de visualizar tal o encantamento a que sujeita os leitores com as suas descrições vivas, eloquentes e vibrantes. Muitas paginas num verdadeiro "turn page" que nos faz sonhar com idílicas personagens.

No fecho desta trilogia sobre a avassaladora paixão do Cavalo de Fogo - Eliah Al-Saud e Matilde, temos como cenário de fundo o conflito israelo-palestino que surge na narrativa com personagens boas ou não de ambos os lados, explicado de uma forma acessível que se sintetiza assim;
"Uma desavença baseada numa lógica de olho por olho, dente por dente. Ninguém parece aperceber-se que estamos a ficar cegos, ambas as partes.(...) E´ claro que os palestinianos são aqueles que ficam pior, mas os israelitas também não são felizes. Viver no medo, na desconfiança e no ódio destroça a dignidade humana. (...) A identidade impõe-se. A identidade justifica os males.(..) A desconfiança transformou-os em pedra."      (pag, 450/1)

Narrativa empolgante com muita ação, sejam lutas de guerra ou contacto corpo a corpo em cenas repletas de erotismo, numa intrincada trama para seguir com alguma concentração sem perder o fio condutor que leva ao mercenário real e destemido com o controle do equilíbrio mundial. Uma saga familiar que chega ao fim.

Uma moderna estória que remonta ao fascínio que sentimos com contos de principies e princesas contado com arte e artifícios que nos prendem desde o principio a esta deliciosa fantasia romântica. 

domingo, 8 de março de 2015

Uma escolha imperfeita

Autor: Louise Doughty
Edição: 2014/ outubro
Páginas: 376
ISBN: 9789720047021
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Num tom intimista, pleno de emoção, erotismo e um suspense de tirar o fôlego, Uma escolha imperfeita é um romance surpreendente sobre como uma decisão impensada pode mudar o curso de uma vida para sempre.
Yvonne Carmichael trabalhou arduamente para conquistar o que sempre quis: uma invejável carreira na área da genética, uma casa fantástica, uma boa relação com o marido e dois filhos. 
Um dia, cruza-se com um desconhecido e, num impulso, começa uma tórrida aventura amorosa - uma decisão que acaba por colocar em causa tudo o que sempre valorizou.

Yvonne acredita que conseguirá manter a relação extramatrimonial sem que tal venha a interferir na sua vida, tal como ela é. Só que, na verdade, ninguém consegue controlar o que acontecerá a seguir. 
De conceituada e respeitada cientista a adúltera acusada dos mais variados crimes, Yvonne vê todos os seus planos desmoronarem-se numa espiral de desilusões e violência.

A minha opinião: 
Uma escolha imperfeita foi talvez a mais perfeita escolha de leitura deste ano.

Uma mulher madura, inteligente, com uma bem sucedida carreira, mãe de família, um casamento solido que conta na primeira pessoa e sem emoção, apesar da comoção e tensão que provoca a quem lê, toda a sua historia quando se desapaixonou de si mesma.

Yvonne Carmichael vive um drama quando descobre que a segurança e confiança são bens que se podem perder. Independentemente dos seus êxitos e conquistas passara o resto da sua vida a ser considerada por aquilo que fez e por aquilo que lhe fizeram homens simpáticos e normalíssimos que conhecia. A sua vida interior diferente do que era visível aos olhares alheios e não a tornam promiscua mas vulnerável. Escolhas e decisões que lhe fizeram perder o controle.  

Uma historia contada em três partes num tom intimo, coloquial e confidencial. De erótico nada li. Mas o suspense esteve sempre presente e tornou esta leitura avassaladora e exigente. Nada posso contar sobre a trama mas posso adiantar que a sinopse não lhe faz jus e quase nada revela sobre esta mulher em contacto com os seus mais profundos sentimentos e emoções.

Uma mulher para recordar. E uma autora para guardar.  

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A caminho de casa


 Autor: Fabio Volo
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 304
ISBN: 9789722353595
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
A Caminho de Casa conta a história de dois irmãos que são o oposto um do outro. Andrea é engenheiro, responsável, tem um casamento perfeito e o dom de fazer sempre as escolhas certas. Marco, três anos mais novo, é dono de um restaurante em Londres, rebelde, instável e um mulherengo inveterado. Nunca se sentiram íntimos na sua relação, mas a súbita doença do pai irá aproximá-los e fazê-los compreender muita coisa sobre si próprios e sobre a família. 

Um romance que atesta a maturidade de Fabio Volo como escritor e que nos fala de temas universais como: o amor, a paixão, o casamento, a amizade, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer, e a extrema importância dos afetos na passagem para a vida adulta.

A minha opinião: 
Não foi um livro que me cativasse de imediato como eu supus quando o pedi emprestado a uma boa amiga. Demorei a compreender as personagens e as suas motivações. As personagens, dois irmãos que pouco se viam e quando se falavam era acerca do pai em telefonemas breves e formais. Dois homens muito diferentes que não tinham conseguido ter uma relação mais intima, fraterna. Uma relação de cumplicidade familiar. Andrea e Marco não tinham rancores ou grandes questões por resolver mas quando o pai os impediu de questionar a doença da mãe na tentativa vá de os proteger, piorou tudo porque aumentaram os medos e conflitos interiores de cada um.  Desde a morte da mãe, o pai tentou proteger os seus filhos de tudo, mas falhou porque não os conseguiu proteger da própria infelicidade.   
Nesta fase, aproximadamente na pag. 70, o livro prendeu-me com a densidade das personagens enredadas em conflitos banais que se resolviam por dialogo, como se isso fosse fácil e simples de ultrapassar na medida em que ambos conseguiam perceber as limitações um do outro.  

Para alem de tudo isto, as turbulentas relações afetivas de cada um dos irmãos que não superaram os seus receios e bloqueios. Andrea casado e infeliz, sem filhos e Marco livre e desimpedido em amizades coloridas que surgiam por coincidência ou por solidão mas preso a um amor correspondido da juventude que nunca quis assumir e que evoluísse.   

Novamente a doença os vai sujeitar a alterarem as suas vidas criando uma brecha nas fortalezas que criaram em torno dos seus sentimentos. Confrontos e alguma argumentação revelam muito do que não sabiam a respeito um do outro e de si mesmos. Uma surpresa final vai fechar um capitulo e retomarem o fio condutor das suas vidas.  

Um romance terno e compassivo que numa linguagem direta e despretensiosa procura alcançar o leitor numa historia tão simples como a vida. Especial dependendo do estado de espírito e vivências do leitor.  

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Prazer

Autor: Nicole Jordan
Serie: Notorious (Vol. 5)
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 368
ISBN: 9789897261619
Editora: Quinta Essência

Sinopse: 
O verdadeiro amor é o maior de todos os prazeres…
Jeremy Dare North, marquês de Wolverton, é um espião e um libertino. Frio e calculista, no passado tinha sido um jovem apaixonado, disposto a fugir e a deixar tudo pela sua amada. Mas a traição desta levou-o a alistar-se no exército e a fechar para sempre o seu coração. 
Anos mais tarde, quando a traição ameaça a Coroa, Dare vê-se forçado a recrutar Julienne, o seu primeiro e único amor, para o ajudar a desmascarar um traidor mortífero.

Forçada a trair o único homem que amou, Julienne quer apenas esquecer a terna paixão que ambos conheceram em jovens. Porém, quando Dare anuncia publicamente que a tomará de novo como amante, ela responde ao desafio com um da sua autoria: fazer ajoelhar aquele homem arrogante. 
O reencontro do casal desencadeará muitas paixões e um perigoso jogo de sedução. No final, juntos descobrirão o que Dare negou toda a sua vida: que não existe maior prazer que o verdadeiro amor.

A minha opinião: 
Este romance de época remonta a contos de príncipes e princesas que nos foram contados na nossa infância e que tanto nos fizeram sonhar. A formula continua a resultar mas atualmente são bem mais adultos e... eróticos. O encanto surge dois séculos antes em que estar em sociedade era mais elaborado e requintado para os ricos e privilegiados e o galanteio e a adulação faziam parte dos usos e costumes, mas a libertinagem e alguma promiscuidade também.
Jeremy e Julienne reencontram-se sete anos depois e a intensa atracão sexual entre eles reacende-se com esta proximidade e um desafio que publicamente colocaram. Ao confirmar que ela não traia o seu pais como o traiu a ele, Jeremy conta com a sua ajuda para desmascarar um perigoso espião ao serviço de alguns interesses de França. Muita acção descrita com alguma detalhe quando se trata do relacionamento físico entre estas duas personagens. Para a época são muito avançados e nada tradicionais dado os interesses que partilham e como consumam os atos sexuais com prazer.

Nicole Jordan sabe como prender as leitoras mais sonhadoras com historias de encantar bem contadas com fantásticas personagens. Agradável entretenimento focado na relação emocional e sexual de Dare e Julienne. Alguma aventura e intriga com a misteriosa identidade de Caliban que atormentara o grupo de amigos da Liga do Fogo, mas principalmente fantasia, romance e sexo. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ate´ que a morte nos una

Autor: Jonathan Tropper
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 408
ISBN: 9789898775214
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 
Quando Judd Foxman encontra a esposa, Jen, na cama com o seu chefe numa posição muito comprometedora, perde o trabalho e a mulher. E no momento em que começava a pensar que as coisas não podiam piorar, recebe a notícia da morte do pai, cuja última e derradeira vontade é que os filhos cumpram o Shivá, uma tradição judaica que pretende juntar, debaixo do mesmo tecto, toda a família durante sete dias. Esta será a primeira vez que o clã Foxman se reúne desde há muito tempo.

Algumas famílias podem-se tornar tóxicas quando expostas a uma exposição prolongada. E a família Foxman em particular pode atingir um nível de toxicidade letal. É nisso que Judd está a pensar, com o prato de salmão e batatas à sua frente, na mesa, tentando alhear-se dos gritos dos sobrinhos. O telemóvel do cunhado não pára de tocar, a irmã e seu eterno compincha (o irmão mais novo) insistem em desferir-lhe dardos venenosos enquanto a sua mãe, num vestido demasiado justo, o olha com uma insuportável expressão de pena.
Bastam algumas horas para que a casa se torne num barril de pólvora prestes a explodir, com velhos rancores, paixões nunca silenciadas e segredos vergonhosos. E, enquanto todos à sua volta parecem perder o controlo, Judd terá de tentar descobrir se consegue encontrar um novo equilíbrio, apesar de tudo.

A minha opinião: 
Um talento ímpar para transformar o amor numa imensa trapalhada.   
Não dispenso ou adio ler qualquer romance de Jonathan Tropper. São imbatíveis em sarcasmo, muitas vezes irreverente mas sempre inteligente e profundo que nos deixam com lágrimas nos olhos de comoção ou de riso descontrolado em cenas visualmente expressivas e fortes. 

Esta saga familiar e´ de leitura compulsiva apesar das suas mais de 400 paginas de letra miudinha. Não consegui me apertar desta brilhante historia e das suas peculiares personagens tão bem caracterizadas porque estava presente no Shivá daquela enlutada e entorpecida família. Todos nos tocam de um jeito especial porque os compreendemos e aceitamos como melhores amigos. Uma família com dificuldade em exprimir emoções em acontecimentos trágicos, que recorrem a gracejos, sarcasmos e insultos em aniversários, dias de festa, casamentos e doenças.

Não tenho palavras para elucidar ou preparar para o que vão encontrar nestas paginas sem  parecer que estou a pecar por excesso. Mas, não se consegue resistir ao que projectamos com as cenas protagonizadas pelos membros desta família. Os seus perturbados pensamentos ou comentários são um festim, bem como a sua sagacidade que em animados diálogos nos deixam estarrecidos. 

Para perceberem do que escrevo, nada melhor do que incluir alguns fragmentos.

"E´ preciso um GPS para acompanhar as vidas sexuais desta família. Interrogo-me se o amor será uma coisa assim tão retorcida com todas as outras pessoas ou se a nossa família tem um talento ímpar para o transformar numa imensa trapalhada."                       (pag. 330)

"Os casamentos desmoronam-se. Todas as pessoas tem as suas razoes, mas ninguém sabe ao certo porque. (...) Sabíamos que o casamento poderia ser difícil tal como sabíamos que havia crianças a morrer em África. Era um facto trágico mas a milhas da nossa realidade. Nos iríamos ser diferentes. Iríamos manter a chama acesa; seriamos os melhores amigos que fo*iam todas as noites ate perder os sentidos. Iríamos evitar as armadilhas da complacência: manter-nos-íamos jovens por dentro e por fora, sempre de barriga lisa, continuaríamos a dar beijos demorados e arrebatados, a dar a mão ao passear, a ter conversas sussurradas noite dentro, a curtir em salas de cinema e a fazer sexo oral um ao outro, com um entusiasmo indefectível, ate´ que as limitações artríticas da velhice o desaconselhassem."                                                                                            (pag. 23)   

"O que queria dizer e´ que seria demasiado fácil afirmar que a perda do bebe foi o ponto onde descarrilamos. As pessoas adoram fazer isto, apontar um único fenómeno, atribuir-lhe todas as culpas e fazer tábua rasa, tal como quando os comilões processam a McDonald's por os ter transformado nuns potes de banho. No entanto, a verdade e´ sempre muito mais difusa, esconde-se na periferia e não fica bem focada. No fundo, ou temos o tipo de casamento capaz de aguentar o trauma ou não."                                                                                               (pag. 174/5) 

Se Nos Encontrarmos de Novo

Autor: Ana Teresa Pereira
Edição: 2004/ novembro
Páginas: 164
ISBN: 9789727088157
Editora: Relógio D'Água

Excerto: 
«Rose começou a aparecer nas suas aulas e a princípio não a reconheceu; aos dezanove anos usava o cabelo curto e os seus olhos eram definitivamente azuis, tinha um encanto muito especial. Byrne apercebia-se do brilho nos olhos dela quando o procurava depois das aulas, do entusiasmo com que trabalhava para ele, parecia não ter qualquer interesse pelas outras cadeiras. E uma noite encontrou-a à sua espera, sentada nos degraus da sua casa, os braços à volta dos joelhos, o cabelo caindo-lhe sobre os olhos; tinha voltado aos tempos da promiscuidade mas aquela rapariguinha não lhe interessava nada, sem querer foi demasiado brusco, quase cruel. Deixou de vê-la nas aulas e meses depois soube que não estava em Oxford, arranjara um emprego em Londres. A história não o preocupara muito, não era responsável pelas pessoas que se apaixonavam por ele.»

«Rose começou a aparecer nas suas aulas e a princípio não a reconheceu; aos dezanove anos usava o cabelo curto e os seus olhos eram definitivamente azuis, tinha um encanto muito especial. Byrne apercebia-se do brilho nos olhos dela quando o procurava depois das aulas, do entusiasmo com que trabalhava para ele, parecia não ter qualquer interesse pelas outras cadeiras. E uma noite encontrou-a à sua espera, sentada nos degraus da sua casa, os braços à volta dos joelhos, o cabelo caindo-lhe sobre os olhos; tinha voltado aos tempos da promiscuidade mas aquela rapariguinha não lhe interessava nada, sem querer foi demasiado brusco, quase cruel. Deixou de vê-la nas aulas e meses depois soube que não estava em Oxford, arranjara um emprego em Londres. A história não o preocupara muito, não era responsável pelas pessoas que se apaixonavam por ele.»

A minha opinião: 
Não conhecia esta autora, o que não me parece estranho dada a minha desconfiança anterior com autores portugueses. Uma amiga "apresentou-nos" e fico-lhe grata por isso. Gosto de descobrir beleza nas suas mais diversas formas. Este romance singelo tem tanto de belo como de insinuante e tortuoso. Não e´ um romance luminoso e nesse aspecto não e´ o meu género de leitura. Fujo frequentemente para lugares mais aprazíveis nos meus momentos de leitura, mas contrabalanço sempre que possível com outras passagens que me tragam uma noção de equilíbrio.  

Um romance de pensamentos, emoções e sentimentos a duas vozes. Bryne e Ashey duas talentosas almas perdidas, que depois de muito procurar se encontram. Com uma rara sensibilidade artística procuraram em muitos corpos o seu aconchego e um lar. Ashey tem impulsos destrutivos muito fortes, e e´ raro acabar uma tela, abandona-as e começa de novo, e cada quadro pode ser o ultimo. Tom foi o seu amor. Bryne voltara para casa ao fim de muitos anos mas não sabia para que, ate´ começar a estar obcecado por uma mulher que mal conhecia, um vulto sentado nos degraus do pavilhão, caminhando na neve, passando por ele nas escadas.

"Podemos chamar alguém com tanta força, mesmo sem o sabermos, que essa pessoa vem do outro lado do mundo ao nosso encontro. E a nossa vida e´ feita desses encontros."                (pag. 139)

"Aquela casa sempre lhe parecera quase magica nesse sentido, na parte de trás passava-se para outro mundo, onde quase não se ouviam os sons da rua ou da cidade, só os sinos das igrejas ao domingo. E quando a solidão se tornava muito forte era só ir a uma janela da frente ou sair para a rua, e estava-se em Londres."                                                                                           (pag.90)

Desse encontro naquela casa vivem-se momentos mágicos de felicidade rara e de comunhão com a beleza e a arte.  Viveram e  amaram `a sua maneira.

"(...) o pão fresco, a fruta, o vinho, a neve, o sol, os parques de Londres, as primeiras flores da primavera, os quadros nos museus, Ticiano e Andrea del Sarto, Turner e Monet, Mondrian e Rothko, os meus quadros, o cheiro da tinta, os pássaros e os peixes, os cães, os meus cães, os animais, as folhas, as pedras, o anoitecer, o nevoeiro de Londres, o meu rio, os outros rios que conheci, os homens com quem fiz amor, os meus pais que quase não recordo, a minha filha, as viagens de comboio através da neve, um velho mosteiro na Rússia onde havia um fresco de Rublev, o mar. as minhas casas, os romances de Henry James, os poemas de Rupert Brooke, as aventuras de William, as poças de agua, os lilases, as cerejeiras, os filmes a preto e branco, Robert Mitchum e Katherine Hepburn, Charles Boyer e Ingrid Bergman, a ilha. 
E Tom. E Byrne. Os seus homens de olhos azuis, sotaque irlandês e cinquenta e dois anos." (pag.153)
  

domingo, 25 de janeiro de 2015

O Despertar do Mundo

Autor: Rhidian Brook
Edição: 2014/ fevereiro
Páginas: 328
ISBN: 9789892325378
Editora: ASA

Sinopse: 
Em 1945, enquanto o mundo celebra a vitória sobre o exército nazi, a Alemanha derrotada é dividida. De um lado, a União Soviética. Do outro, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França. A Guerra Fria está prestes a começar.
Em Hamburgo, grupos de crianças esfomeadas vasculham os destroços em busca de alimentos, famílias desalojadas lutam por abrigos imundos. É nesta cidade arruinada que o coronel Lewis Morgan é encarregado de repor a paz. O governo inglês requisita uma casa para o acolher a ele e à família. Aos proprietários da mansão resta a indigência. É então que o coronel propõe uma solução inédita: a partilha do espaço.

Mas ao contrário do que coronel espera, este pacto vai ser explosivo. A sua mulher, Rachel, vive fechada em si própria. O filho de ambos, Edmund, debate-se com uma solidão extrema. A alemã Freda é a adolescente rebelde, filha de Herr Lubert, um homem de elite inconformado com a submissão que lhe é imposta. Entre segredos e traições, a vida na casa é uma bomba-relógio que uma paixão proibida ameaça ativar.
Baseado no extraordinário ato de bondade do avô do autor, O Despertar do Mundo pinta um retrato único da guerra vista do lado dos perdedores.

A minha opinião: 
Com uma capa enfadonha e sem graça, fui seduzida por uma sinopse nada engrandecedora mas suficientemente interessante para me chamar a atenção, e com alguma relutância iniciei a leitura, que me cativou nas primeiras paginas. 

É bom quando assim acontece. Poderia ser mais uma história da Historia, baseada em factos reais e nos deixa muito no que pensar, sobre tolerância e os princípios morais que devemos preservar, onde o ressentimento e o ódio não têm lugar. No mundo de então, como no de hoje há que abrandar, olhar e ponderar. 

O pós-guerra com a intervenção dos ingleses, franceses e russos numa Alemanha arrasada, em que as pessoas se encontravam numa situação desesperada e tinham de provar que nada as relacionava com o regime nazi para retomarem as suas vidas, um coronel inglês em luto pela morte de um filho jovem, requisita uma casa em Hamburgo para a família e faz algo sem precedentes, ao permitir que os donos permanecessem na sua propriedade e que uma família alemã e uma família britânica partilhassem uma casa durante cinco anos, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Dúvidas e mágoas sobre o mesmo tecto dão origem a um enredo singelo e simultaneamente rico em dados, esplendidamente bem contado e com personagens tão humanas e confusas como a realidade o permitiu.

Inspirada e tocante, esta historia acompanha-nos muito depois de terminada a leitura, possivelmente porque muito foi escrito sobre a guerra, mas menos sobre o que sucedeu depois. Uma leitura que se quer cadenciada como uma bela historia merece. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

A Rapariga Inglesa

Autor: Daniel Silva
Edição: 2014/ maio
Páginas: 469
ISBN: 9789722528078
Editora: Bertrand Editora

Sinopse: 
Sete dias. Uma rapariga. Não há segundas oportunidades.
Madeline Hart é uma estrela ascendente no partido britânico no poder: bonita, inteligente, motivada para o sucesso por uma infância pobre. E agora está desaparecida...
Os seus raptores descobriram que ela tem um romance com o primeiro-ministro, Jonathan Lancaster e querem fazê-lo pagar por isso. Receoso de um escândalo que lhe destrua a carreira, ele decide lidar com o caso em privado, sem o envolvimento da polícia britânica. Trata-se de uma decisão arriscada, não só para si próprio, como para o agente que conduzirá as buscas.
Tem sete dias ou a rapariga morre.

Entra em cena Gabriel Allon — espião e restaurador de arte —, para quem as missões perigosas e a intriga política não são novidade. Com o relógio a contar, Gabriel tenta desesperadamente trazer Madeleine de volta a casa em segurança. A sua missão leva-o do mundo criminoso de Marselha a um vale isolado nas montanhas da Provença, depois aos bastidores do poder londrino e, finalmente, a um clímax em Moscovo, uma cidade de espiões e violência, onde há uma longa lista de homens que desejam ver Gabriel morto.
Desde as páginas de abertura até ao chocante final, em que se revelam os verdadeiros motivos por detrás do desaparecimento de Madeleine, A Rapariga Inglesa irá deixar os leitores completamente mergulhados na história.

A minha opinião: 
Há livros que de tanto os ver não reparo neles. Ficam invisíveis. Os livros de Daniel Silva sempre me passaram despercebidos e um dia ainda muito próximo e não por sugestão de um amigo como é habitual, reparei, li ... e gostei. 
Gabriel Allon, o lendário espião e assassino israelita conquistou-me com a sua inteligência e carisma em perigosas aventuras na companhia de uma equipa forte e coesa do Departamento e da sua bela Chiara. Uma outra personagem relevante surgiu no enredo - Keller, o assassino contratado que não cumpriu, foi o aliado e o desafio de Gabriel que começou com o rapto da Rapariga Inglesa na Córsega. A velha profetiza, que tudo sabia encantou-me com as três gotas de azeite para libertar de todo o mal, um trabalho muito latino que parece magia. 

Intriga, espionagem, crime, muita ação e adrenalina em viagens arriscadas e bem sucedidas ou talvez não, com Gabriel  e os seus aliados e amigos em luta pelo seus valores contra inimigos traiçoeiros e perversos. Os meandros desta missão de resgate levaram Gabriel para um destino impensável onde a ganância e ambição não andam longe.

Parece banal mas são muitas páginas de uma intrincada trama internacional, que se lêem sofregamente, porque nos precipitamos para as páginas seguintes para desvendar rapidamente o desfecho em que se faça justiça. As personagens com a sua história pessoal, bem como o seu percurso por vários sítios, permanecem no nosso imaginário muito depois de terminada a leitura.

Uma boa história para ler em dias assim. Quando um dia cinzento ganha luminosidade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

até que consigas voar

Autor: José Gameiro
Edição: 2014/ novembro
Páginas: 152
ISBN: 9789897690037
Editora: Matéria-Prima

Sinopse: 
Um livro pessoal e profundo, em que o psiquiatra é tão humano como os pacientes; em que todos somos muito parecidos no sofrimento e na esperança.

Quando as pessoas chegam ao consultório de um psiquiatra, já esgotaram todas as suas alternativas. Sentem-se perdidas, vazias ou profundamente tristes. Neste livro, José Gameiro, psiquiatra há 40 anos, dá-nos a oportunidade de sermos os seus olhos e os seus ouvidos. Em Até que consigas voar, encontramos relatos intimistas sobre o luto, os medos, a conjugalidade e todo um conjunto de feridas que não se vêem. Mostra-nos que podemos voltar a encontrar um rumo, mesmo quando enfrentamos o pior dos desgostos.

A minha opinião: 
Não sei porque hesito e protelo durante dias em expressar a minha opinião. Suponho que demoro a processar o que li.

Gostei muito de até que o amor nos separe.
É sempre uma revelação encontrar um autor que passa para o papel tanto do seu saber e da sua experiência sobre o comportamento humano sem que de ficção se trate, com uma simplicidade e autenticidade que satisfaz a minha curiosidade e interesse.  Pequenos episódios que se lêem rapidamente em que percebemos o peso da morte, do medo, da depressão e dos conflitos conjugais que tanta angústia e dor acarretam, levando sabiamente a procurar ajuda profissional.  Frequentemente, desvalorizamos e não compreendemos o sofrimento alheio. Sorri quando li:
"Julgo que uma das coisas que os depressivos nos agradecem é não lhes dizermos "olhe, deixe-se de pieguices e vá passear e gozar a vida". Só quem nunca passou por uma depressão é que não compreende que este é o conselho mais estúpido que se pode dar a um deprimido. É quase a mesma coisa que dizer a um impotente "Você precisa é de fazer sexo..."                                                                                                  (pag. 71)

Possivelmente, neste livro, alguns irão encontrar eco do seu sentir, que por temor não partilham e tentam a custo lidar e ocultar, sem reconhecer que:
"Nós somos uma espécie de cebola(...). As de fora correspondem aos comportamentos, as mais interiores à personalidade. Na relação com os outros podemos mudar a camada exterior, adaptar comportamentos de modo a que a interação seja mais clara e calma. Mas debaixo de maior pressão, esta mudança é mais difícil e funcionam as camadas interiores da cebola."                                                                    (pag. 141)
Um psiquiatra pode ajudar e através da terapia desatar um  nó, funcionando como um acelerador do tempo de sofrimento. Nada mau para um psiquiatra com horror à imutabilidade e crença na capacidade do ser humano de resistir e de superar, convicto de que as soluções estão em cada uma das pessoas que o procuram e que afinal dá um conselho que o próprio seguiu.  

"A seguir a um grande susto no ar do qual pensavam não sair vivos, voltem a meter-se num avião e voem, voem, voem."                                            (pag. 178)