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sábado, 30 de maio de 2015

Serpentina

Autor: Mário Zambujal
Edição: 2014/ outubro
Páginas: 160
ISBN: 9789897241765
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Para Mário Zambujal, o mais importante é saber que os leitores se divertem com os seus livros. É nisso que se concentra quando agarra na caneta e se põe a imaginar peripécias, enredos e personagens. "Serpentina" não fugiu à regra e arrisca-se a ser o romance mais divertido do ano.Nele acompanhamos as reviravoltas na vida de Bruno Bracelim - primeiro a partida da família para o Canadá, quando ainda menino, e depois um acidente de trânsito, já em adulto - e divertimo-nos com as situações armadilhadas de um destino tão imprevisível quanto animado.Num estilo inconfundível, eis um supremo divertimento em que a imaginação e o humor se entrelaçam com a reflexão e a emoção.

A minha opinião:
Um livro muito bem disposto. 
Sarcasmo sobre a atribulada existência de Bruno Bracelim, simultaneamente narrador e personagem principal, enquanto tenta endireitar a sua vida e procura o rosto perfeito de mulher. Mas não há bela sem senão, como lhe explica Noé, enquanto as peripécias surgem com mulheres belas e atrevidas de permeio e bons malandros. E dinheiro, esse malandro que lhe falha, numa mala que passa de mão em mão. 

Mas a vida é cheia de imprevistos e a sorte e a fortuna aparecem quando e onde menos se espera. Bruno, um homem feito, que em criança ficou ao desvelo da madrinha Henriqueta quando a família emigra para o Canada, descobre o paradeiro da mala e uma misteriosa vizinha que o encanta distante. 

Uma leitura tão agradável, leve e despretensiosa que perdemos a noção do tempo ate ao termo do livro. Os estrangeirismos em português são um acréscimo divertido ao todo que lemos. Podem confundir os mais desatentos mas no fim vão apreciar. 

A História de Lupita

Autor: Laura Esquivel
Edição: 2015/ maio
Páginas: 224
ISBN: 9789892330587
Editora: ASA

Sinopse:
Lupita é uma mulher fora de série. Forte. Ardente. Inesquecível. Numa sociedade obcecada com as aparências, o dinheiro e o poder, ela é uma heroína improvável. Uma lutadora que protege os mais fracos e injustiçados. 
Lupita é também uma mulher com um passado doloroso. Frágil. Romântica. Devastada. Que vive com memórias agridoces de um tempo que, sabe, não voltará.

Na sua busca por amor, ela dá por si no lugar errado à hora errada. Bastarão apenas uns segundos para mudar a sua vida. Ao testemunhar um assassinato, Lupita passa a ser uma mulher marcada. Mas a revolta que nasce dentro de si é mais forte do que o medo que sente. A vítima, Arturo, era o único homem em que acreditava incondicionalmente. A sua morte leva-a a tomar uma decisão extrema: lutar até ao limite das suas forças e fazer justiça… por Arturo, por si própria e por todos aqueles que não têm voz.
A escritora mexicana Laura Esquivel, autora do clássico contemporâneo Como Água para Chocolate, está de volta com uma parábola mágica sobre afetos, coragem e redenção. A sua linguagem plena de misticismo e espiritualidade dá vida a uma mulher excecional, uma heroína atípica que ficará gravada para sempre na memória dos leitores.

A minha opinião:
Lupita gostava de ... assim começa ... a história de vida de Guadalupe, que entrelaça os pequenos prazeres triviais do dia-a-dia com a vida difícil que tenta a todo o custo ultrapassar. O crime do presidente da câmara que testemunhou sem compreender e aceitar, é o ponto de partida para uma revolta que abrange a sua vida e a do México, com tudo o que de errado acontece.

Dor, Perda e Redenção são as temáticas de fundo, enquanto a investigação desta mulher se faz com o recurso à amiga Célia. Um livro com uma mensagem subliminar. 

Uma história bonita e inspirada sobre uma mulher simples e marcada que encontra a paz e o amor. Uma mulher que nos cativa, numa história concisa e muito bem contada. Uma história que evolui sem recurso a grandes rasgos de erudição ou descrições, mas com o fito no deslindar do crime e o que o motivou, para que prevaleçam os valores ancestrais mexicanos e os princípios do Bem.

Um prazer de ler!     

domingo, 24 de maio de 2015

O Espião Português

Autor: Nuno Nepomuceno
Trilogia: Freelancer (Vol. 1)
Edição: 2015/ fevereiro (nova edição)
Páginas: 376
ISBN: 9789897061424
Editora: TopBooks

Sinopse:
E se toda a sua vida, tudo aquilo em que acredita, não passar de uma mentira? O que faria?
Estocolmo, Suécia. Encerramento da Presidênca da União Europeia.
Quando André Marques-Smith, o jovem director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português é enviado à capital sueca, está longe de imaginar que aquele será um ponto de viragem na sua vida.

Ao serviço da Cadmo, a agência de espionagem semigovernamental para a qual secretamente trabalha, recupera a primeira parte de um grupo de documentos pertencentes a um cientista russo já falecido. Mas quando regressa a Portugal, tudo muda. Uma nova força obteve a segunda parte do projeto e, de uma forma violenta e aterrorizadora, resolveu mostrar ao mundo que está na corrida pelos estudos do cientista.
Por entre os cenários reais de cidades como Estocolmo, Roma, Viena, Londres e Lisboa, a luta pelo inovador projecto começa, os disfarces sucedem-se, as missões multiplicam-se. E, enquanto é forçado a lidar com os condicionalismos de uma vida dupla, André vê-se inesperadamente envolvido num mundo de mentiras e traições, o mesmo que o levará a fazer uma descoberta que poderá mudar toda a Humanidade.

Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, O Espião Português funde elementos tradicionais da ficção de espionagem com uma abordagem inovadora, intimista e sofisticada. Thriller intenso e vertiginoso, ode à família, amizade e amor, este é um romance imprevisível e contemporâneo ao qual não conseguirá ficar indiferente.

A minha opinião:
Com o lançamento do segundo volume desta trilogia intitulado a "A Espia do Oriente" fiquei curiosa em conhecer André Marques-Smith, o espião português que tantos já conheciam e admiravam.

Olhos verdes de perdição para um belo e garboso espião que perdeu um amor que não o merecia. 
Esta parte da trama, de espionagem, intriga, suspense e acção, foi o que menos me convenceu. As peripécias e fugas, as manobras e traições, as viagens de trabalho e resgate num mundo de aparências e convenções correspondem `as expectativas e prendem-nos a uma narrativa rápida e bem elaborada, sem quebras de ritmo ou de interesse do leitor. Mas ... esta fragilidade da personagem que quebra com um tão grande desgosto... aos meus olhos deixa-o com um ar de bom rapaz que era, mas menos duro e viril como ansiava encontrar num bom português espião. 

As surpresas deste espião são outras e bem mais intrincadas que se procuram desvendar numa leitura seguida e sobre as quais nada devo revelar. 

Agora, resta-me ler o segundo volume para saber mais sobre estas motivadas e determinadas personagens a lutar em lados opostos para conseguir um importante projecto. 

domingo, 17 de maio de 2015

três pianos e outros exercícios

Autor: Paula Dias
Edição: 2015/ março
Páginas: 171
ISBN: 9789892053538

A minha opinião:


"Paula Dias.
Nasceu em Lisboa...
É jurista e conta histórias.
Agora, apeteceu-lhe partilhar algumas dessas histórias.
Esta é a primeira partilha. 
E tu foste um dos eleitos."

E é isto, que consta na penúltima pagina. Que fui bafejada pela sorte com a amizade de uma mulher talentosa. Uma mulher de modos suaves, que admiro, e que concretizou o sonho de escrever um livro de contos que reflecte um pouco de si. 

Um pequeno livro, discreto e requintado,  a preto e branco, de cantos arredondados, que facilmente acompanhou-me na minha rotina em que eu o folheava a qualquer momento. 

Gosto muito de contos e este livro não desmereceu o meu apreço. Contos que muito nos dizem porque em alguns a acção passa-se em Lisboa. Contos sobre desventuras e recomeços, enfim...  sobre pessoas e os seus conflitos e dramas. 

Difícil escrever sobre uma obra de quem tanto se estima, sem que essa estima não sobressaia, relativamente `as palavras soltas que li em devaneio, como "pérolas para colar" e "prestação de contas", os meus contos favoritos. 
   
Para ler devagar e assim apreciar. 

domingo, 10 de maio de 2015

O que não pode ser salvo

Autor: Pedro Vieira
Edição: 2015/ março
Páginas: 288
ISBN: 9789897221781
Editora: Quetzal

Sinopse: 
Um triângulo amoroso que liga França, o Norte rural português, Lisboa e a margem sul. Uma jovem francesa, filha de emigrantes portugueses, que vem viver para a terra a que não pertence; um rapaz que luta para sair do meio devorador em que nasceu; um miúdo burguês, canhestro, com uma família de fachada; e um quarto elemento que completa o elenco de uma tragédia contemporânea de ressonâncias clássicas: história de amor, racismo, ciúme, traição, vingança e inquietação, qual Otelo de Shakespeare e de fancaria na era do rap, do Facebook e do call center.

O Que Não Pode Ser Salvo é também o retrato dos males sociais e culturais que afligem um país enfraquecido pela crise económica e a falência dos valores.

A minha opinião: 
Mais um livro que li devido a boas influências.
Ser membro de um clube de leitura tem destas coisas. Para alem dos muitos livros que queremos ler, sempre que nos reunimos e trocamos pareceres, eu acrescento mais livros. A pilha de leituras pendentes, cresce, cresce, cresce, sem parar. Um desespero!

Este livro já me tinha passado pelas mãos e bem recomendado, mas a minha persistente relutância com autores portugueses vingou. Advertiram-me para a escrita fluída e corrida, com limitada pontuação, mas isso não me incomoda nada. Ate´acho piada. De qualquer modo, eu faço mentalmente a pontuação a meu belo prazer e portanto, desde que a historia me convença obtenho o que desejo. Ora, neste aspecto, na época vacilei. Um triângulo amoroso!!! Tema batido. 

Um triângulo amoroso mas atualizado no contexto da sociedade portuguesa. E com uma linguagem adequada, que distingue os elementos intervenientes neste enredo. Três personagens, e três estereótipos que se cruzam dramaticamente.
O calão e os provérbios adaptados tão a gosto da criativa juventude. A perspectiva do que nos rodeia com um olhar critico mas imparcial.

Por tudo isto, arrisquei e ganhei uns bons momentos de leitura. Quase pareceu letra de Rap devido `a cadencia em algumas passagens, mas noutras desafiaram-me com as mudanças de texto e de "voz" das personagens. 

Gostei muito. Irreverente. 

domingo, 3 de maio de 2015

Verão Sem Homens

Autor: Siri Hustvdet
Edição: 2012/ abril
Páginas: 208
ISBN: 9789722050777
Editora: DOM QUIXOTE

Sinopse: 
Há tragédias e há comédias, não é verdade? E são frequentemente semelhantes, um pouco como os homens e as mulheres. Uma comédia depende de parar a história exactamente no momento certo. Esta é a voz de Mia Fredrickson, a viperina e trágico-cómica narradora de Verão Sem Homens. Mia é obrigada a examinar a sua vida no dia em que, sem pré-aviso e depois de trinta anos de casamento, o seu marido lhe pede "um tempo". Após um período de internamento num hospital psiquiátrico, ela decide passar o Verão na sua cidade natal, onde a mãe vive num lar de idosos. Sozinha em casa, Mia entrega-se à fúria e à autocomiseração. Mas, lenta e ardilosamente, a pequena comunidade rural insinua-se na sua esfera pessoal. Os "Cinco Cisnes" - um surpreendente grupo constituído pela sua mãe e as amigas -, a jovem vizinha, as adolescentes que frequentam o seu workshop de poesia... uma multiplicidade de vozes, vulnerabilidades, pequenas tiranias e desafios que resultarão na mais improvável das relações.

A minha opinião: 
Verão Sem Homens e Siri Hustvedt. Nem o titulo deste romance ou a autora me tentavam para o ler. (Reparei no sorriso travesso de um homem que me viu a ler este romance porque deveria ter ideias preconcebidas como as minhas o eram anteriormente).

Claro que sei quem é Siri Hustvedt e julguei que seria um romance "chato" e cheio de dogmas feministas. Gosto de feminino e não de feminismo. Estava equivocada e os comentários de apreço e satisfação com que se referiam a este livro as minhas amigas deixaram-me muito tentada. E não poderiam estar mais certas. Este romance e esta autora ficam guardadas na minha memoria pelo grato prazer que foi esta leitura. Uma revelação. Uma compreensão abrangente, sensível e coerente do sexo feminino que consegue atingir as mais distraídas e inexperientes para esta coisa das emoções e sentimentos. E dos relacionamentos.

Uma mulher com um longo casamento é trocada por uma pausa e tem um surto psicótico que a sujeita a um breve internamento. Decide mudar no verão para a sua cidade natal e convive com mulheres mais experientes e viúvas, com uma dureza mental e uma autonomia que lhes dava um verniz de invejável liberdade. Chamava-lhes Os Cinco Cisnes. As sete jovens que se inscreveram para um Workshop de poesia foram um bom desafio para esta professora poetisa em recuperação. Os vizinhos do lado e os seus conflitos davam que pensar. E um misterioso interlocutor inicialmente com ameaças e depois apenas um bom interlocutor.

Um enredo de personagens marcantes em interacção e reflexão numa historia bem construída e melhor contada. Uma escrita sublime e eloquente. Sem pausas na leitura tal o pasmo e admiração.

sábado, 2 de maio de 2015

Romance Acidental

Autor: Martha Woodroof
Edição: 2015/ março
Páginas: 400
ISBN: 9789892330372
Editora: ASA

Sinopse: 
Se Jane Austen e Woody Allen se juntassem para escrever um livro, o resultado seria muito semelhante a Romance Acidental.
Há muito que Tom Putnam se resignou a uma vida solitária. 
Os seus dias são passados a dar aulas de Inglês, a moderar as excentricidades dos colegas, e a cuidar de Marjory, a mulher neurótica que o prende num casamento disfuncional. O seu ideal de felicidade inclui (unicamente) as prateleiras poeirentas da livraria da universidade. Uma rotina ordenada e apática que corre o risco de ruir com a chegada de Rose Callahan, cuja missão é reavivar a decrépita livraria.

A energia de Rose e a sua indiferença perante a rígida hierarquia académica têm o dom de despertar os espíritos mais adormecidos. A começar pelo próprio Tom, cuja vida está prestes a mudar, ainda que não da forma (romântica) com que secretamente sonha. Numa carta breve, a poetisa com quem teve um desastrado caso amoroso no passado traz-lhe duas notícias. A primeira: Tom tem um filho com dez anos chamado Henry. A segunda: Henry está prestes a chegar.
Tom fica nas nuvens. E não desce à Terra mesmo perante o facto (óbvio) de Henry não poder ser seu filho e o desaparecimento (definitivo) de Marjory. A verdade é que a simples presença de Rose é suficiente para lhe encher o coração de amor. Mas este sentimento, sem o qual já não imagina viver, é, ironicamente, o único com que Rose não consegue lidar. E é então que, um dia, Rose desaparece misteriosamente...

A minha opinião: 
Romance Acidental foi um inesperado prazer de ler. 

Personagens grandiosas na sua simplicidade e compulsiva bondade. Personagens com conteúdo. Personagens que gostaríamos de conhecer. 

Rose Callahan, é uma personagem iluminada, que ao contrario do comum dos mortais coloca a ênfase na substancia e não na superfície e empaticamente relaciona-se com todos, incluindo quem se fecha por insegurança ou protege segredos, na livraria, alma da universidade e da comunidade.

Marjory que numa fase inicial da trama morre, liga Rose a Tom. Agnes, a minha personagem favorita, tem uma relação de sincero afeto e apreço mutuo com o genro,  e esta será posta `a prova com a chegada de Henry, uma impossibilidade física disfarçada de responsabilidade legal.

E finalmente, Russel e Íris, duas personagens que se detestam mas... se protegem. 

Uma historia arrebatadora pela forma magistral como é contada. O alcoolismo e os recomeços. E  também, o medo de perder a liberdade. Um acidental romance com o leitor. A vida acontece na ficção.  

Deslumbra-me

Autor: Maggie Shipstead
Edição: 2015/ abril
Páginas: 280
ISBN: 9789898752604
Editora: Jacarandá

Sinopse: 
Durante anos Joan tentou esquecer o passado e encontrar paz e satisfação no papel de mulher e mãe. Naquele pacato subúrbio californiano, poucos conhecem a sua emocionante história - a história de uma jovem bailarina americana que, em Paris, se envolveu num romance apaixonado e sem futuro com Arslan Rusakov, a maior estrela do ballet russo. Após ter desempenhado um papel fundamental na sua deserção, Joan despediu-se dos palcos para sempre, de coração partido por Arslan e desiludida com a sua carreira modesta.

Mas quando o seu filho se torna um bailarino prodigioso, Joan é de novo atraída para o mundo que julgara ter deixado para trás - um mundo onde se reencontra com segredos perigosos, Arslan e o desejo por aquilo que nunca poderá ter.
Absorvente e dramático, Deslumbra-me é uma história sobre a natureza do talento, as escolhas que temos de fazer para alcançarmos a realização pessoal e como nunca conseguimos verdadeiramente fugir dos segredos do passado.

A minha opinião: 
Deslumbra-me é o que o coreógrafo pedia aos seus bailarinos durante os ensaios e o que os reconhecia como verdadeiros bailarinos. Maldição, insaciabilidade e o destino, quando se olhavam nos olhos. Depois, para alguns o talento e a fama. A solidão para outros. Mas todos têm um papel, um epíteto e uma história acerca de como vieram a ser aquilo que são.

Esta é uma história de amor à dança e devoção ao ballet. Está dividida em 5 partes, cada capítulo com referência temporal e espacial, para que o leitor se localize na narrativa que avança e recua, conforme a necessidade de se contextualizar a cena. Das personagens, artistas, com excepção de Jacob, temos histórias pessoais de amor, desolação e encantamento. O limite da idade e os limites do corpo e o modo como o amor, por mais tortuoso que seja, no fim é libertador. 

Um bom enredo com personagens algo excêntricas, mas compreensíveis para o leitor, porque estas se movem num mundo à parte. Um tanto densa esta historia para quem não partilha esta forma de vida e se depara com muitas passagens sobre dança e o labirinto existencial das personagens. O final foi o mais empolgante deste romance para um pessoa comum, não devota como eu.

sábado, 25 de abril de 2015

O Que nos Separa dos Outros por Causa de um Copo de Whisky

Autor: Patrícia Reis
Edição: 2014/ setembro
Páginas: 96
ISBN: 9789722055840
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 
Trata-se de um monólogo de um homem que está num bar em Macau. As memórias vão derretendo como o gelo no fundo do copo. A sua interlocutora imaginária é a mulher estranha que está do outro lado do balcão. Alguém que é apenas, como o personagem principal, um acumular de histórias ou de banalidades. Como tudo na vida. 
Esta novela, vencedora do Prémio Nacional de Literatura 2013-2014 da Fundação Lions Portugal, é uma nova forma de trabalhar o discurso interno, as memórias, sempre com a indicação de uma certa polifonia, já habitual nos livros da autora.

A minha opinião: 
Como a sinopse depreende-se o tipo de leitura que iremos ter. Com alguma amargura. Mas por vezes, é preciso encararmos o lado menos bonito e bem sucedido da vida e fazer um balanço. Por opção, temperamento ou sorte, ou talvez um mix de tudo, tanto acontece alheio `a nossa vontade, contrario `as nossas expectativas. Quantas vezes não projetamos filmes sobre a vida alheia ou a nossa, em dialogo imaginário com alguém, mas que se trata apenas de um monologo para colocar em melhor perspectiva as nossas ideias ou vivências.

"As historias de cada um são testemunhos irregulares, com arestas e falhas, buracos e acrescentos." (pag.51)

Por impulso, insanidade momentânea, um homem de meia idade aceita deslocar-se durante um mês para Macau para ensinar algo que não se ensina: a escrever. A ser criativo. Pareceu-lhe um lugar para perder a razão, recordar memorias sem interessa e ter fantasias estúpidas. Uma alma solitária no mundo. Como tantos. Nada escapa impunemente ao seu desencanto e desalento ébrio.

Um livro sério e lúcido. Uma leitura breve e introspetiva. Bem escrito e bem estruturado, como seria de se esperar. 

"E´ crucial dar um destino `as coisas. Por isso, fazemos tantos planos. E a vida troca-nos os planos e atira-nos para o fundo de um copo."       (pag. 82)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Casa das Rosas

Autor: Andréa Zamorano
Edição: 2015/ fevereiro
Páginas: 160
ISBN: 9789897222108
Editora: Quetzal Editores

Sinopse: 
Esta é a história extraordinária de Eulália, uma jovem da classe média de São Paulo. Os inusitados acontecimentos que marcam a sua vida nesse período épico da vida brasileira, entre 1983 e 1984 (a campanha das eleições diretas, marco no combate pela democracia), vão transportar o leitor para um mundo onde realidade e fantasia coexistem e se entrelaçam.

Ao longo dessa história, haverá uma mãe desaparecida, um vestido de noiva, um detetive solitário, um jardineiro que sabe demais, um deputado poderoso, um perfume de rosas, uma fuga através da cidade em chamas, um animal que fala, um fantasma que aparece e desaparece, um poeta mexicano que só mais tarde irá surgir nos livros de Roberto Bolaño, um português dono de um boteco em São Paulo - e um final empolgante e inesperado. 
A estreia de uma autora brasileira a viver em Portugal há longos anos, que cruza as culturas (e ortografias) de uma mesma língua.

A minha opiniao : 
Romance com pouco romance. Prosa quase poética, com frases curtas e palavras duras, num enredo com três personagens principais e três secundarias, e um sagui que faz elo de ligação entre o consciente e o inconsciente de uma personagem que tanto sabe sem nada compreender. 

Enigmática narrativa que nos desconcerta mas encanta, numa breve leitura que faz a diferença, justamente porque não nos deixa indiferentes. O tema de fundo que não revelo, e´ uma descoberta que ao leitor interessa e não deve perder. Intemporal e sempre noticia. 

O nome de uma casa que rosas tinha. A beleza e a loucura que ilude os sentidos e a razão numa perdição. O poder que cega. Virgílio, Cândida e Eulália e o Sr, Raimundo, o jardineiro, quatro personagens que não vou esquecer. 

Inspirado primeiro romance para quem sabe de letras e usa-as bem. Sem preconceito, gostei muito. 

sábado, 18 de abril de 2015

Viagem ao Coração dos Pássaros

Autor: Possidónio Cachapa
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 176
ISBN: 9789897541377
Editora: Marcador

Sinopse: 
Viagem ao Coração dos Pássaros remete-nos para um universo único mas que se repete sempre no tempo dos seres humanos. Fala-nos das contradições e dialética do mundo, do amor, da vida, mas também dos seus opostos. É um livro que se lê num sopro, como se fosse um instante, numa viagem que o leitor faz ao coração, o seu próprio, e o dos protagonistas da história, realista, autêntica e bela.

Possidónio Cachapa conduz-nos através da sua escrita profunda, revelando-nos os dons que todos temos e as nossas virtudes mas também as nossas debilidades e fraquezas, numa simplicidade narrativa que nos prende da primeira à última página.

A minha opinião: 
Muito ouvi falar sobre este autor. Bem, muito bem. O nome do autor deixa-me com um sorriso nos lábios. E a escrita deixou-me cativa, de um humor irreverente e certeiro, onde a lucidez impera nesta fantástica narrativa sobre Kika, a menina e mulher, com nome que parece de gato. 

"(...) Acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados e de coisas que a ultrapassavam, e a quem tinha sido dada a ingrata missão de viver com eles. Que nos interessa que um escritor tenha um dia ouvido falar disto e se tenha aproximado como um insecto nocturno dessa casa onde os raios e os gemidos trovoavam diariamente?"   (pag. 163)

Interessa e muito, porque a breve historia de Maria Joaquina Constança, conhecida por Kika, filha de Evangelina, uma mulher dura e sofrida e do sonhador e ausente Filipe, temos um retrato da verdadeira e contraditória condição humana. Um Dom de ver e ouvir o que queria e não queria saber, a capacidade de se expressar sem mover os lábios com o alcance da mente, um potencial de curar apenas com as suas mãos e temos uma mulher renegada e amada, que não sabia o que era o amor ate ao fim da sua vida.

Criativa e brilhante, e mais não escrevo, sobre esta narrativa que nos toca a alma. Leiam! Serão surpreendidos, como eu fui. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Hotel Sunrise

Autor: Victoria Hislop
Edição: 2015/ março
Páginas: 352
ISBN: 9789720047304
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Famagusta, no Chipre, é uma cidade dourada pelo calor e pela sorte, o resort mais requisitado do Mediterrâneo. Um casal ambicioso decide abrir um hotel que prime pela sua exclusividade, onde gregos e cipriotas turcos trabalhem em harmonia.
Duas famílias vizinhas, os Georgious e os Özkans, encontram-se entre os muitos que se radicaram em Famagusta para fugir aos anos de inquietação e violência étnica que proliferam na ilha. No entanto, sob a fachada de glamour e riqueza da cidade, a tensão ferve em lume brando…

Quando um golpe dos gregos lança a cidade no caos, o Chipre vê-se a braços com um conflito de proporções dramáticas. A Turquia avança para proteger a minoria cipriota turca e Famagusta sucumbe sob os bombardeamentos. Quarenta mil pessoas fogem dos avanços das tropas.
Na cidade deserta, restam apenas duas famílias. Esta é a sua história.

A minha opinião: 
Victoria Hislop já provou ser uma boa contadora de historias com "A Ilha" e "A Arca", dois dos seus romances que li. Com "Hotel Sunrise" conseguiu manter o nível elevado com um enredo passado essencialmente num luxuoso hotel num paraíso terrestre, que a ganancia e a cupidez deitaram a perder. Os homens na sua ânsia de poder, e separando etnias que tinham tudo para se dar bem, iniciaram uma revolta civil que culminou num trágico desfecho que a ninguém beneficiou. As mulheres na sua infinita sabedoria compreenderam que os afetos superam mesquinharias e assumiram responsabilidades, em vez de atribuir culpas alheias e alimentar um ódio sem sentido. 

Este romance tem todos os ingredientes para ser um sucesso, como Historia, intriga, suspense, crime, romance e glamour, bem balanceados e habilmente doseados por personagens com substancia e verossímeis. O bom e o mau, o rico e o pobre, o doce e o amargo, as tradições e o mundano. Opostos inconciliáveis. 

Mais do que um romance ficcional, uma incursão pelo passado recente com um aperto no peito. 

Leitura empolgante que se torna imparável com o envolvimento com as personagens e a trama, que ansiamos termine bem.

Um prazer de ler!

domingo, 12 de abril de 2015

A Vida Quando era Nossa

Autor: Marian Izaguirre
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 344
ISBN: 9789722529297
Editora: Bertrand

Sinopse: 
A Vida Quando era Nossa é um tributo à literatura, mas é sobretudo uma história de amizade entre duas mulheres. Uma história que começa quando se abre um livro e que só termina quando todas as pontas da narrativa se unem.
«Tenho saudades do tempo em que a vida era nossa», diz Lola, a protagonista do romance. Sente falta da sua vida, tão cheia de esperança, feita de livros e conversas ao café, sestas ociosas e projetos de construir um país. A Espanha que, passo a passo, aprendia as regras da democracia.

Mas, em 1936, chega um dia em que a vida se transforma em sobrevivência e agora, passados quinze anos, a única coisa que sobra é uma pequena livraria, meio escondida num dos bairros de Madrid, onde Lola e Matías, o marido, vendem romances e clássicos esquecidos. 
É nesse lugar modesto que, em 1951, Lola conhece Alice, uma mulher que encontrou nos livros uma razão para viver. Acompanhamos a amizade entre as duas, atrás do balcão a lerem o mesmo livro juntas, e isso leva-nos atrás no tempo, à Londres do início do século XX, para conhecermos uma menina que se perguntava quem seriam os seus pais…

A minha opinião: 
A Vida quando era Nossa, um titulo que adorei. Uma frase tão simples mas com tanto significado.

A sinopse fez o resto, e ler este romance era uma prioridade, quase uma obsessão, que tive que gerir ate surgir o momento certo. Quando este chegou, não poderia ser mais prazeroso. 

Vários são os fragmentos desta narrativa que nos tocam como leitores compulsivos, mas não apenas, porque ficção e realidade aproximam-se quando nos reconhecemos nas paginas do livro e ainda descobrimos coisas que não sabíamos, como só os bons autores o conseguem. Toca-nos de um modo muito especial e quando assim acontece, compreendemos quase intuitivamente tudo o que nos e´ contado como se estivéssemos a partilhar confidencias, em cumplicidade com as personagens. Neste livro, vamos partilhar o mundo secreto de Rose Tomlin enquanto Alice e Lola lêem "A Rapariga dos Cabelos de Linho" e acompanhamos a amizade e apreço mutuo. Tanto para descobrir sobre uma fascinante mulher, filha bastarda de um conde e de uma arrojada mãe que apenas reconhece depois da sua morte. Atravessamos a I Guerra Mundial e as suas consequências ligeiras para esta privilegiada personagem, para terminarmos na Guerra Civil Espanhola com a sua terrível perda. Lola e Matias são bem mais do que personagens secundarias, também eles com um difícil percurso que se altera quando Alice se cruza nos seus caminhos. 

"Quando te sentires sozinha, lê um livro... Isso vai salvar-te." Um bom conselho que Rose aceitou do seu primeiro amor. "Historias nas quais se refugiar, historias pelas quais fugir. Livros." 

"O tato das folhas, o calor seco do papel, livros com as suas lombadas arredondadas, de meia-encadernação, brocados, de tecido, livros com nervos, com etiquetas, sem elas, livros escritos há cem anos onde o calor das mãos alheias deixou uma historia feita de tempo."         (pag. 93)

domingo, 5 de abril de 2015

Comédia em modo menor

Autor: Hans Keilson
Edição: 2015/ março
Páginas: 128
ISBN: 9789720071651
Editora: Sextante

Sinopse: 
Comédia negra em tempo de guerra, este notável pequeno romance de Hans Keilson, originalmente publicado em 1947, revela-nos um autor excecional: profundamente irónico, de escrita aguda, brilhante, moderna, da linhagem de Kafka ou de Joseph Roth.

É uma história de gente comum resistindo à ocupação nazi na Holanda: um casal, Wim e Marie, esconde em sua casa um judeu em fuga, Nico, e vai ter de livrar-se do seu corpo quando este morre de pneumonia.

A minha opinião: 
Um pequeno romance que esperava que fosse uma espécie de conto, mas que me pareceu o texto de uma peça de teatro, com o foco no agir e sentir das personagens, encurraladas em espaços fechados por serem perseguidas. Fechadas sobre si mesmas e o seu universo interior. Ironia e inquietação quando se percebe o conflito interior de cada uma das três personagens, primeiro enquanto hospedeiros e depois reclusos que esperam a libertação.   

"E Marie compreendeu que as palavras amar o próximo ou dever patriótico ou desobediência civil eram apenas um pálido reflexo do sentimento profundo que os havia levado, a ela e a Win a acolher em sua casa uma pessoa que era perseguida".                                  (pag. 43)

Narrativa crua e muito realista, numa linguagem acutilante e direta,  que nos deixa a nu com as nossas emoções, para nos confrontarmos com pequenos grandes atos de coragem num tempo de ódio que nunca iremos compreender. 

"Também havia problemas. Obviamente, quando as pessoas vivem umas com as outras, há problemas. Os problemas são como pequenas bombas-relógio, que alguém colocou em tempos sombrios. Em geral, rebentam precisamente quando se pensa que esta tudo a correr da melhor maneira. Pum! A coisa explode, começamos por ter uma surpresa, apanhamos um susto e sentimo-nos algo irritados. Os problemas são uma maçada porque acontecem de surpresa e porque nos obrigam a fazer um esforço. As pessoas que afirmam que veem "acontecer" um problema são como as pessoas que dizem que ouvem crescer a relva."                                   (pag.49)     

Um pequeno embaraço, uma pequena desilusão. Porque e´ que teve de morrer? Justamente ele que se escondia na sua casa, teve de morrer de uma morte perfeitamente vulgar, tal como costumam morrer as pessoas tanto em tempo de guerra como em tempo de paz? 

Leitura forte mas sem qualquer registo de violência, para agitar consciências. 

Aberto toda a noite

Autor: David Trueba
Edição: 2012/ outubro
Páginas: 246
ISBN: 9789896721374
Editora: Alfaguara

Sinopse: 
O primeiro romance de David Trueba convida-nos a entrar no lar dos Belitre, uma família tão numerosa quanto disparatada. Crónica de uma educação sentimental, as pessoas que habitam este livro apenas dão ouvidos à voz do seu coração. Numa sucessão irresistível de quadros da vida familiar, conhecemos Félix e Paula, um casal em crise, agastado pela rotina de criar seis filhos. Conhecemos Matías, um rapaz de doze anos que sofre de uma misteriosa doença mental. Conhecemos Abelardo, o avô, que no meio da demência senil se entrega de corpo e alma à poesia e à religião. Mas, ainda assim, falta conhecer muito, porque a família é muito mais do que as pessoas que a compõem.

Em Aberto toda a noite, Trueba pinta, com humor, ternura e magia, o fresco de uma família deliciosamente excêntrica, a que apetece pertencer.

A minha opinião: 
Um romance irresistível sobre uma família numerosa, considerando os seis filhos homens de Felix e Paula que habitam todos debaixo do mesmo tecto numa interacção que, permite momentos únicos de leitura, abstracção, humor e incredulidade. O avô Abelardo que se entrega a uma convicção religiosa na sua loucura e arrasta duas testemunhas de Jeová que ainda não tinham percebido as suas inclinações sexuais ou uma avó, Alma, que não saia da cama e protegia as suas memorias enquanto tinha consciência que a sua nova enfermeira não era indiferente a nenhum dos membros masculinos daquela família, são os únicos que não residiam naquela casa. 

Tanto para contar num ritmo vertiginoso sem que um sorriso se afaste do rosto de quem lê, surpreendido com tudo o que há para saber sobre cada um deles porque não se pode conhecer uma família como a Belitre sem conhecer os seus membros, especificamente no Verão de 1986 que admitiam a extravagancia quotidiana como normalidade. 

"Lar: O lugar de ultimo recurso - aberto toda a noite. "
Ambrose Bierce, Dicionario do Diabo (pag. 145)

Sentimentos e laços afetivos que unem as pessoas e mudam ao longo do tempo. "A mulher, só por suportar o género masculino, já ganha metade do céu,", mas também solidão, violência, rejeição social. Um bom enredo com personagens excecionais que vale muito a pena ler. Um boa sugestão que muito agradeço aos meus bons amigos da Roda dos Livros.
Ler para crer!

sábado, 28 de março de 2015

Xerazade - A Última Noite

Autor: Manuela Gonzaga
Edição: 2015/ março
Páginas: 200
ISBN: 9789722530125
Editora: Bertrand Editora

Sinopse: 
Xerazade - A Última Noite leva-nos aos meandros de uma fascinante tapeçaria narrativa, onde podemos encontrar referências díspares, quer de mitos clássicos ou pré-clássicos, quer ainda de histórias de encantar, juntamente com «memórias» soltas como «um colar de pérolas» desatadas, que a narradora, Xerazade, tenta reconstruir para confortar o amante que, inconformado, se recusa a deixá-la ir embora.

A minha opinião: 
A curiosidade impulsiona-me para leituras que antes rejeitava sem hesitar. Leituras mais exigentes e elaboradas em que as palavras são encadeadas com rigor e critério para uma leitura dos sentidos e das emoções. 

Contos de encantar que bem conheço, mitos, lendas, historias da antiguidade clássica, numa narrativa colorida de uma mente delirante que as renova como se contadas por tradição oral a um amante que receia perder, como Xerazade na sua ultima noite. Tanto para refletir quando se lê sobre o Amor ao longo do Tempo.  

Não e´ uma leitura fácil e demorei a entrar no espírito da personagem em monólogo constante. Breves apontamentos onde a personagem masculina intervém para sugerir moderação ou contenção a uma Xerazade que imparável avalia tanto do que ao Amor diz respeito. 

Leitura que atrai e afasta na exata proporção da compreensão e empatia com uma Xerazade que não nos deixa indiferente. Enigmática e apaixonada pela Vida que nem sempre a tratou bem. 

Requintada obra que se preza para uma leitura pausada e absorta. 

"Espera por mim como um livro excelso porém esquecido, porque os grandes livros sabem esperar. Podem fazê-lo, alias. O tempo não tem sobre eles qualquer poder. Os outros, ai!, podem quase todos os outros , estão sujeitos `as mesmas leis da vida que talham o nosso humano destino. Envelhecem e acabam por morrer amortalhados em paginas murchas onde palavras dissonantes servem ideias gastas e enredos pobres.
Espera por mim como um livro. Como O Livro, que um dia, rasgado o véu epifanico, reencontramos e devoramos, compulsivamente, e voltamos a devorar como amantes adiados que finalmente se unem pelo fio encantatório das palavras. No tempo certo."    
                                                                                                               (pag. 89)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Um Presente muito Especial

Autor: Joanne Huist Smith
Edição: 2014/ novembro
Páginas: 208
ISBN: 9789896682842
Editora: Nascente

Sinopse: 
A história real de uma família que reencontrou a sua essência, com a ajuda de amigos muito especiais.
Depois da morte inesperada do marido, Joanne sente-se incapaz de retomar a sua vida e de ser o exemplo de força que os seus filhos, Ben, Nick e Megan, precisam mais do que nunca. Com a aproximação da quadra natalícia, tudo parece ainda mais duro de suportar.
Mas, 12 dias antes do Natal, um presente é deixado misteriosamente à porta de casa, acompanhado de um cartão com a assinatura «Os vossos verdadeiros amigos». No dia a seguir, um novo presente, no dia seguinte mais um presente, e assim acontece, até à véspera de Natal.

Estes 12 presentes irão tornar-se uma dádiva de grandeza incomparável e acabam por dar origem a um milagre: a reaproximação entre mãe e filhos e o fortalecimento dos seus laços de amor.

A minha opinião: 
Um conto de Natal que li fora de época. Contudo, não há época para se celebrar a alegria de viver, a generosidade, a solidariedade e a união familiar. Em suma, o Amor, que nos liga ao próximo e tantas vezes esquecido na vertigem de rotinas deste ritmo de vida acelerado que nos impõem e que aceitamos sem questionar. Quantas e quantas vezes, um sorriso, uma gentileza ou uma sugestão não fazem toda a diferença para quem a recebe e não nos custa nada. Nem reparamos que somos impacientes, bruscos e um pouco intolerantes no nosso dia-a-dia e o acto de dar fica arredado das nossas prioridades.

Um daqueles livros que banalmente desvalorizamos como de auto-ajuda, como se não precisamos de ajuda para refletir e mudar sempre e quando possível.

Singelos e inesperados presentes, diariamente entregues nos treze dias que antecederam o natal, obrigam uma família enlutada, mais destroçada com a proximidade da época, a uma distração que gradualmente faz a mudança.

Realista e com uma escrita corrente e fluída, lê-se num ápice. Um pouco de ternura e compaixão. Um balsamo para corações sensíveis e abnegados. 

domingo, 22 de março de 2015

Cavalo de Fogo - Gaza

Autor: Florencia Bonelli
Trilogia: Cavalo de Fogo (Vol. 3)
Edição: 2015/ janeiro
Páginas: 672
ISBN: 9789720044938
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Matilde e Eliah voltam a separar-se. No Congo, as esperanças de uma vida em conjunto desvaneceram-se ao ritmo dos ciúmes e das circunstâncias hostis.
Matilde, cirurgiã pediátrica, refugia-se na sua paixão: o trabalho humanitário que leva a cabo para a organização Mãos Que Curam. O seu novo destino é a Faixa de Gaza, o território mais densamente povoado do mundo, onde a prioridade diária é a sobrevivência. Eliah, por seu lado, obriga-se a esquecer Matilde e a pôr fim à obsessão que o prende a ela.

Estará esta enorme paixão condenada a perecer nas ruínas de um mundo, também ele, em risco? Ou serão o amor, uma força mais poderosa do que todo o mal que os rodeia, e a vontade de ficarem juntos, contra tudo e contra todos, suficientes para unir Eliah e Matilde para sempre?
Uma soberba conclusão da história iniciada com Cavalo de Fogo - Paris e continuada em Cavalo de Fogo - Congo.

A minha opinião: 
Florencia Bonelli conquistou-me com a serie O Quarto Arcano e desde então acompanho as aventuras e desventuras das suas muitas personagens em peripécias ousadas e arriscadas que são fáceis de visualizar tal o encantamento a que sujeita os leitores com as suas descrições vivas, eloquentes e vibrantes. Muitas paginas num verdadeiro "turn page" que nos faz sonhar com idílicas personagens.

No fecho desta trilogia sobre a avassaladora paixão do Cavalo de Fogo - Eliah Al-Saud e Matilde, temos como cenário de fundo o conflito israelo-palestino que surge na narrativa com personagens boas ou não de ambos os lados, explicado de uma forma acessível que se sintetiza assim;
"Uma desavença baseada numa lógica de olho por olho, dente por dente. Ninguém parece aperceber-se que estamos a ficar cegos, ambas as partes.(...) E´ claro que os palestinianos são aqueles que ficam pior, mas os israelitas também não são felizes. Viver no medo, na desconfiança e no ódio destroça a dignidade humana. (...) A identidade impõe-se. A identidade justifica os males.(..) A desconfiança transformou-os em pedra."      (pag, 450/1)

Narrativa empolgante com muita ação, sejam lutas de guerra ou contacto corpo a corpo em cenas repletas de erotismo, numa intrincada trama para seguir com alguma concentração sem perder o fio condutor que leva ao mercenário real e destemido com o controle do equilíbrio mundial. Uma saga familiar que chega ao fim.

Uma moderna estória que remonta ao fascínio que sentimos com contos de principies e princesas contado com arte e artifícios que nos prendem desde o principio a esta deliciosa fantasia romântica. 

domingo, 8 de março de 2015

Uma escolha imperfeita

Autor: Louise Doughty
Edição: 2014/ outubro
Páginas: 376
ISBN: 9789720047021
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Num tom intimista, pleno de emoção, erotismo e um suspense de tirar o fôlego, Uma escolha imperfeita é um romance surpreendente sobre como uma decisão impensada pode mudar o curso de uma vida para sempre.
Yvonne Carmichael trabalhou arduamente para conquistar o que sempre quis: uma invejável carreira na área da genética, uma casa fantástica, uma boa relação com o marido e dois filhos. 
Um dia, cruza-se com um desconhecido e, num impulso, começa uma tórrida aventura amorosa - uma decisão que acaba por colocar em causa tudo o que sempre valorizou.

Yvonne acredita que conseguirá manter a relação extramatrimonial sem que tal venha a interferir na sua vida, tal como ela é. Só que, na verdade, ninguém consegue controlar o que acontecerá a seguir. 
De conceituada e respeitada cientista a adúltera acusada dos mais variados crimes, Yvonne vê todos os seus planos desmoronarem-se numa espiral de desilusões e violência.

A minha opinião: 
Uma escolha imperfeita foi talvez a mais perfeita escolha de leitura deste ano.

Uma mulher madura, inteligente, com uma bem sucedida carreira, mãe de família, um casamento solido que conta na primeira pessoa e sem emoção, apesar da comoção e tensão que provoca a quem lê, toda a sua historia quando se desapaixonou de si mesma.

Yvonne Carmichael vive um drama quando descobre que a segurança e confiança são bens que se podem perder. Independentemente dos seus êxitos e conquistas passara o resto da sua vida a ser considerada por aquilo que fez e por aquilo que lhe fizeram homens simpáticos e normalíssimos que conhecia. A sua vida interior diferente do que era visível aos olhares alheios e não a tornam promiscua mas vulnerável. Escolhas e decisões que lhe fizeram perder o controle.  

Uma historia contada em três partes num tom intimo, coloquial e confidencial. De erótico nada li. Mas o suspense esteve sempre presente e tornou esta leitura avassaladora e exigente. Nada posso contar sobre a trama mas posso adiantar que a sinopse não lhe faz jus e quase nada revela sobre esta mulher em contacto com os seus mais profundos sentimentos e emoções.

Uma mulher para recordar. E uma autora para guardar.  

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A caminho de casa


 Autor: Fabio Volo
Edição: 2014/ agosto
Páginas: 304
ISBN: 9789722353595
Editora: Editorial Presença

Sinopse: 
A Caminho de Casa conta a história de dois irmãos que são o oposto um do outro. Andrea é engenheiro, responsável, tem um casamento perfeito e o dom de fazer sempre as escolhas certas. Marco, três anos mais novo, é dono de um restaurante em Londres, rebelde, instável e um mulherengo inveterado. Nunca se sentiram íntimos na sua relação, mas a súbita doença do pai irá aproximá-los e fazê-los compreender muita coisa sobre si próprios e sobre a família. 

Um romance que atesta a maturidade de Fabio Volo como escritor e que nos fala de temas universais como: o amor, a paixão, o casamento, a amizade, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer, e a extrema importância dos afetos na passagem para a vida adulta.

A minha opinião: 
Não foi um livro que me cativasse de imediato como eu supus quando o pedi emprestado a uma boa amiga. Demorei a compreender as personagens e as suas motivações. As personagens, dois irmãos que pouco se viam e quando se falavam era acerca do pai em telefonemas breves e formais. Dois homens muito diferentes que não tinham conseguido ter uma relação mais intima, fraterna. Uma relação de cumplicidade familiar. Andrea e Marco não tinham rancores ou grandes questões por resolver mas quando o pai os impediu de questionar a doença da mãe na tentativa vá de os proteger, piorou tudo porque aumentaram os medos e conflitos interiores de cada um.  Desde a morte da mãe, o pai tentou proteger os seus filhos de tudo, mas falhou porque não os conseguiu proteger da própria infelicidade.   
Nesta fase, aproximadamente na pag. 70, o livro prendeu-me com a densidade das personagens enredadas em conflitos banais que se resolviam por dialogo, como se isso fosse fácil e simples de ultrapassar na medida em que ambos conseguiam perceber as limitações um do outro.  

Para alem de tudo isto, as turbulentas relações afetivas de cada um dos irmãos que não superaram os seus receios e bloqueios. Andrea casado e infeliz, sem filhos e Marco livre e desimpedido em amizades coloridas que surgiam por coincidência ou por solidão mas preso a um amor correspondido da juventude que nunca quis assumir e que evoluísse.   

Novamente a doença os vai sujeitar a alterarem as suas vidas criando uma brecha nas fortalezas que criaram em torno dos seus sentimentos. Confrontos e alguma argumentação revelam muito do que não sabiam a respeito um do outro e de si mesmos. Uma surpresa final vai fechar um capitulo e retomarem o fio condutor das suas vidas.  

Um romance terno e compassivo que numa linguagem direta e despretensiosa procura alcançar o leitor numa historia tão simples como a vida. Especial dependendo do estado de espírito e vivências do leitor.