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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Rapariga do Lago

A minha opinião:
A história de Becca. Os seus segredos. O crime de que foi vitima. Uma história bem contada numa narrativa paralela com a jornalista Kelsey Castle, também ela vitima de um crime. 
 
A capa espetacular lembra o crime  de Laura Palmer da série Twin Peaks e certamente não é coincidência. Uma deslumbrante estudante universitária é assassinada numa cidade ficcional muito especial como Summit Lake, nas montanhas Blue Ridge, na Carolina do Norte é difícil de dissociar. A envolvência daquele cenário idílico e o carisma de todas as personagens fazem com que esta narrativa intrigante e inteligente nos leve à deriva até ao final numa leitura compulsiva.
 
Um thriller assombroso pela narrativa cinematográfica naquela paisagem do lago. Faltou apenas uma carga de tensão maior- Poucos são os romances que tiram o sono para seguir a investigação com escassas pistas e sem suspeitos  do assassinato de uma personagem acarinhada. E o final valeu. Não o antecipei. Gostei!
 
Autor: Charlie Donlea
Páginas: 320
Editora: Editorial Presença
ISBN: 9789722365352
Edição: 2020/ junho

Sinopse:
Nenhum suspeito. Nenhum motivo aparente. Apenas uma rapariga que inesperadamente é encontrada morta.

Alguns lugares parecem demasiado belos para serem tocados pelo horror. A pequena cidade de Summit Lake, aninhada nas montanhas de Blue Ridge, na Carolina do Norte, é um desses lugares. Mas, há duas semanas, Becca Eckersley, uma estudante universitária de Direito, filha de um advogado poderoso, foi aí brutalmente assassinada. A cidade está em estado de choque e a polícia não dispõe de qualquer pista relevante.

De início, a repórter de investigação Kelsey Castle pensa que este é um caso simples de resolver. No entanto, a brutalidade do crime e os esforços para o manterem longe do mediatismo prenunciam algo bastante mais sinistro do que um crime aleatório perpetrado por um estranho. À medida que Kelsey investiga, apesar dos avisos e dos perigos que surgem no horizonte, ela começa a sentir uma crescente ligação à rapariga assassinada. E quanto mais descobre sobre as amizades de Becca e a sua vida amorosa - bem como sobre os seus segredos -, mais Kelsey se convence de que reconstituir os passos da vítima poderá ajudá-la a superar o seu próprio passado sombrio… 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Caronte à Espera

A minha opinião:
Claudia Andrade é uma novidade para mim que desconhecia esta autora ou qualquer uma das suas obras. Curiosa, encarei este pequeno livro como um tesouro a descobrir, em que a sinopse faz jus ao texto elaborado, de linguagem requintada e erudita, mordaz, sobre um idoso, desencantado, que planeia o fim, mas que se vê de volta à cerimónia em que um rosto o intriga e a memória o atraiçoa. A debanda, é perturbadora e suficientemente esclarecedora. E... nem se pense em personagens boazinhas e benevolentes porque este pequeno romance, quase um conto poético e musical é perverso e algo negro. Surpreende. Estamos habituados a personagens diferentes, enquanto as que habitam este romance tem o Caronte à espera. Personagens nodosas.
 
Narrativa forte e ousada, que se estranha até que entranha.

Gostei muito mas impõe reler para bem entender.

 
 
 Autor: Cláudia Andrade
Páginas: 136
Editora: Elsinore
ISBN: 9789896689414
Edição: 2020/ junho

Sinopse:
Reformado, enfastiado e desapaixonado, Artur decide finalmente colocar um ponto final na sua vida. Chegou o momento de deixar para trás o tédio, as dores do corpo e todos os pequenos incómodos que, com o passar dos anos, ganham proporções desmesuradas. Mas eis que um rosto numa fotografia de casamento semeia a dúvida no espírito de Artur, uma sombra que teima em não mais largá-lo: quem é aquele homem, bonito e confiante, que surge entre família e amigos? Perante as respostas vagas da sua mulher, não resta a Artur outra hipótese senão adiar o seu plano e ajustar contas com o passado.

Depois de Quartos de Final e Outras Histórias — considerado um dos melhores livros do ano pela crítica —, Cláudia Andrade reafirma o seu lugar único na Literatura portuguesa com um romance pleno de ironia mordaz e crueza poética sobre a fragilidade do corpo, a memória e a pulsão da vida.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

O comboio das crianças

A minha opinião:
Amerigo é um menino de sete anos em 1946, no pós guerra em Nápoles. Sem pai, vive apenas com a mãe´. Um menino pobre que nunca teve sapatos seus e olha para os sapatos das pessoas. Um menino que tem a esperteza das crianças de rua e que um dia viajou no comboio dos comunistas para o Norte e conheceu outra vida. Outro destino.
 
A capa, expressiva, com o rosto do menino, sugeria-me outro tempo e se não tivesse lido a sinopse não o teria começado a ler e teria perdido o mundo visto pelos olhos desta criança. Um romance espantosamente bem escrito que impressiona porque escrever uma história em que o narrador/ protagonista é tão novo não é fácil. Não é um romance piegas ou fantasioso mas credível e terno. O amor de mãe e o amor divido ao meio de filho. Um amor que não se perde neste romance inesquecível.
 
Se não souber o que ler este verão, lembre-se deste romance. Não o vai pousar mal comece.  
 

Autor: Viola Ardone
Páginas: 296
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03267-6
Edição: 2020/ junho
 
Sinopse: 
Nápoles, 1946 Amerigo, um menino de sete anos, deixa a vida que sempre conheceu em Nápoles e parte num comboio. Não sozinho, mas no meio de milhares de outras crianças do Sul de Itália que atravessam o país para passarem alguns meses com uma família do Norte, enquanto a sua terra natal se reconstrói do caos e da destruição.
Com o espanto típico de uma criança de sete anos e a astúcia de um rapaz de rua, Amerigo mostra-nos uma Itália que renasce da guerra e conta-nos como, mesmo renunciando a tudo - até ao amor da própria mãe -, é nessa viagem que descobre o seu verdadeiro destino.
Um romance apaixonante sobre uma pequena testemunha de uma Grande Guerra e da sua luta pela sobrevivência e pelo amor. O fenómeno italiano vendido para 25 países que irá derreter o seu coração.

sábado, 20 de junho de 2020

E de Repente, a Alegria

A minha opinião:
Não é fácil explicar porque gosto tanto dos romances de Manuel Vilas. Ele é atormentado pela escuridão mas busca a luz. O sofrimento de que tomou consciência quando escreveu um romance. Em E, de repente, a alegria há 107 capítulos de apego aos fantasmas do passado e à vida como ela era para abraçar o presente numa prosa delicada.
 
"Eu andava deprimido sempre com Arnold de roda de mim.
porque na altura vivia só para o Arnold Schönberg: repara que inventei um nome ilustre para as minhas angústias, talvez os livros sirvam para isso, para adornar as nossas dores."

"Uma esperança à qual umas vezes chama beleza, e outras, alegria,  e há que ter fé na alegria, porque sem ela a vida humana não prevalecerá." (pag.239)
 
O que torna este romance arrebatador é a proximidade com o leitor que, acaba por se identificar com um protagonista tão complexo mas verdadeiro, que dá nome a sentimentos e emoções que nem sempre conseguimos definir. A lucidez é inebriante. A busca da verdade e de si mesmo também.  O amor que se perpetua de pais para filhos, testemunho de vida é o tema circular que Manuel Vilas não deixa cair, com rasgos de brilhantismo quando expande a sua análise para os outros. Politica, sociedade, natureza humana são assuntos sobre o qual reflete.

Eventualmente, não agradará a todos mas é um romance muito bom para muitos. A sinopse não deixa margem para dúvidas.

Autor: Manuel Vilas
Páginas: 408
Editora: Alfaguara
ISBN: 9789896659745
Edição: 2020/ maio
 
Sinopse: 
Desde o coração das suas memórias, um homem que arrasta tantos anos de passado como ilusões de futuro, recorre às suas recordações para iluminar a sua história. A história de um filho que tem de aprender a viver sem os pais, e de um pai que precisa de aceitar a viver mais longe dos filhos. Uma história que por vezes dói, mas que sempre acompanha.

Neste romance, a meio caminho entre a ficção e a confissão, o protagonista viaja pelo mundo e pelas suas memórias. É uma viagem com duas faces: a face pública, em que o protagonista-autor encontra os seus leitores; e o lado íntimo, em que aproveita cada momento de solidão para procurar a sua verdade.

Uma verdade que começa a despontar - dolorosa e inesperadamente - depois da morte dos pais, do divórcio, do afastamento do vício. Uma verdade que ganha novos matizes à medida que toma forma uma nova vida ao lado de um novo amor, uma vida em que os filhos se transformam na pedra angular sobre a qual gira a necessidade inadiável de encontrar a felicidade. Ou a alegria.

Se Em tudo havia beleza procurava no passado o caminho para regressar ao presente, aqui Manuel Vilas escreve uma história que vai buscar ímpeto ao passado para se lançar para o futuro e tudo o que ele pode trazer de inesperado. Depois da dor do auto-conhecimento, esta é a história da busca esperançada da alegria, essa reivindicação de fé e coragem em tempos convulsos, essa força maior da vida, que, como a beleza, pode estar em qualquer lugar.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Comida fit

A minha opinião:
Gordon Ramsay é um chef sobejamente conhecido pela sua participação em programas televisivos. Recordo-o pelo seu talento mas também pelo seu temperamento.
 
Gosto de comer. Sou o que chamam "Um bom garfo" e tenho que cozinhar para a família. Familia essa, que hoje em dia tem a preocupação consciente de exigir comida saudável, logo, este livro FABULOSO é absolutamente necessário. 
 
Comida saudável tem que ser equilibrada, saborosa e variada. Adequada à altura do ano e do dia. Este livro tem estes aspetos salvaguardados e deste modo, podemos selecionar os nossos pratos. E come-se com os olhos porque as fotos deixam qualquer leitor a salivar e apto a entrar na cozinha e a testar qualquer uma das receitas que Gordon sugere com arte. Recomendo Tacos de Peixe com Especiarias mas são tantas as receitas que não vou repetir. As saladas são divinais.
 
Muitos são os livros de receitas disponíveis no mercado mas este é especial. Atrevam-se a desfolhá-lo e não vão resistir.
 
Autor: Gordon Ramsay
Páginas: 288
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-06384-7
Edição: 2020/ Junho

Sinopse:
«Estas são as minhas receitas preferidas sempre que quero comer bem em casa. Tudo o que espero é que lhe sirvam de inspiração para começar a cozinhar pratos que lhe deem mais saúde, seja qual for o seu principal objetivo.»
GORDON RAMSAY

Chefe premiado e fanático da boa forma, Gordon Ramsay propõe o guia essencial para uma alimentação saudável. As mais de 100 deliciosas receitas deste livro prometem otimizar a sua saúde, forma e bem-estar geral, deixando-o satisfeito, saciado e cheio de energia
 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Mulheres que compram flores

A minha opinião:
Percebo, porque este romance se tornou um sucesso de vendas, apesar do título que não aprecio, ainda que faça sentido dado que o enredo se passa no Jardim do Anjo, onde um núcleo se reúne por diferentes motivos,  o que vai desencadear um processo em cadeia.

Os múltiplos pequenos grandes problemas que as mulheres arranjam para si mesmas. Uma história de mulheres para mulheres. Exatamente o meu tipo de livro. O que me vicia.

Marina, é a protagonista. Uma copiloto na vida. E Olívia, uma florista muito especial. Sagaz. Ambas reconstruiram-se num oásis. Um lugar que continha a paz ansiada. Uma toca para hibernar e fortalecer. Um lugar mágico que outras mulheres encontraram também. Na partilha, desvendaram segredos, despiram-se de preconceitos e expectativas e descobriram a sua essência na grande aventura da vida. E libertaram-se da culpa, a boa e velha amiga judaico-cristã.
A linguagem das flores tem um papel nas relações afetivas destas mulheres. E a  curativa amizade também. O mais invulgar são as metáforas de Marina enquanto velejava, e escrevia o seu diário de viagem.
  
Um romance extraordinário que li sem parar porque fiquei amiga da Gala, Victoria, Aurora e Cassandra. Mulheres comuns que quis conhecer a fundo. Mulheres admiráveis.
 
Autor: Vanessa Montfort
Páginas: 384
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03301-7
Edição: 2020/ junho

Sinopse:
Num bairro pequeno e central da cidade, há cinco mulheres que compram flores. A princípio, nenhuma o faz para si própria: uma compra-as para um amor secreto, outra para o seu escritório, a terceira para as pintar, uma outra para os seus clientes, e a última... para um homem morto.
«A última sou eu e esta é a minha história.»
Após a perda do seu companheiro, Marina percebe que está totalmente perdida: durante demasiado tempo, ocupou um lugar secundário na sua própria existência. Procurando começar do zero, aceita um trabalho temporário numa curiosa florista chamada «O Jardim do Anjo». Lá, encontrará outras mulheres, todas muito diferentes entre si, mas que, como ela, estão numa encruzilhada vital no que diz respeito ao trabalho, aos amores, aos desejos ou à família. Do relacionamento entre elas e Olivia, a excêntrica e sábia dona da florista, despontará uma amizade íntima da qual depende o novo rumo que as suas vidas tomarão.
Viciante, divertido, romântico e honesto, Mulheres que compram flores é um comovente romance sobre amizade e independência feminina, numa viagem épica rumo ao centro dos sonhos da mulher contemporânea.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Um Verão de Segredos

A minha opinião:
De quando em quando, preciso de livros mais leves e inocentes, exuberantes de vida, que me distanciem de outras, mais pesadas, marcadas pela perda, dor e morte. Frequentemente, sou induzida em erro.
"A história de duas mulheres ligadas por um segredo do passado" parecia um destes livros que serviam para contrabalançar. Um romance terno e suave. Maddy e Chloe são duas personagens encantadoras. Uma sombra paira sobre uma delas e uma sombra que conheço sobejamente bem de outras leituras. Um marido abusador e controlador, mascarado de dedicado e apaixonado. E nesta fase, a leitura ganhou novo ímpeto, principalmente quando as duas personagens se cruzam.

Na verdade, a trama não se centra em duas mas em três mulheres, uma delas já desaparecida. E o amor, as várias faces deste sentimento tão possessivo e vertiginoso. O cenário é a bela costa da Cornualha. 

Não foi uma leitura apaixonante porque antecipei parte do desfecho mas foi uma leitura muito agradável, sem pesar, apesar de tratar de assuntos sérios. 


Autor: Nikola Scott
Páginas: 327
Editora: Círculo de Leitores
ISBN: 1095587
Edição: 2014/ fevereiro

Sinopse:
Agosto de 1939. Na tranquila Summerhill, Maddy aguarda a chegada da sua adorada irmã Georgiana. Georgiana traz um novo amigo - o atraente Victor - mas Maddy receia que ele não seja nada do que aparenta, o que na verdade se confirmará...Hoje. Este deveria ser um momento de alegria para Chloe - que acaba de descobrir que está grávida. Mas apesar da devoção do marido, Chloe teme pelo seu futuro.Quando o acaso a leva a Summerhill, ela é atraída pelo mistério do que aconteceu décadas atrás. E o passado regressa de um modo que poderá mudar tudo.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Margarida Espantada

A minha opinião:
O melhor é o último. Li os dois livros anteriores do Rodrigo Guedes de Carvalho e cada um deles traz uma marca, uma missão, um despertar para uma realidade para o qual estamos alheados. O lado jornalístico do autor não se perde, apura-se numa escrita incisiva, em romances que perturbam e fascinam.
 
A violência doméstica e as doenças mentais são temas fortes e fraturantes da sociedade. Não são temas que eu procure porque exigem alguma resistência. Temo ler porque são credíveis numa narrativa ficcionada.  

Margarida Espantada foi uma surpresa dada a empatia pelas personagens. Conciso nas palavras, Rodrigo Guedes de Carvalho enreda o leitor num mistério que quer desvendar e vai tecendo a estória, personagem a personagem e revelando gradualmente o mal, perpetuado no tempo. Oculto, sigiloso e acompanhado de muita dor.
 
Um romance que deveria ser obrigatório ler. Duríssimo mas brilhante. Uma narrativa emotiva para uma leitura imparável. Muito, muito bom e tão avassalador que fiquei perdida sem saber o que ler a seguir.
 
Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Páginas: 284
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722069830
Edição: 2020/ junho

Sinopse:
Margarida Espantada é sobre família. Sobre irmãos. É sobre violência doméstica e doença mental. É um efeito dominó sobre a dor.

A literatura é um jogo do avesso. Os bons romances são sempre sobre amor, e os melhores são os que fingem que não são.
Não devemos recear livros duros. As histórias que mais nos prendem trazem uma catarse que nos carrega as mágoas, personagens que apresentam as suas semelhanças connosco.
Gosto da ficção que é número arriscado de circo, com fogo e espadas, que nos faz chegar muito perto da queimadura que não vamos realmente sentir. Mas reconhecemos.

sábado, 30 de maio de 2020

Canto Nómada

A minha opinião:
Toda a Austrália poderia ser lida como uma partitura. Assim é sentido através deste livro.
 
Muitas histórias deliciosas e curiosas se passam aqui enquanto se segue o canto apaixonado de um homem. Pensamentos, citações, breves encontros, notas de viagem… Um diferente olhar. É espantoso! Fiquei encantada com literatura de viagens!
 
A escrita vibrante e enérgica seduz. Alguma ironia e irreverência também me fizeram sorrir. Qualquer tema seria ótimo mas a Austrália é... Uau! Os Aborígenes são duros de roer e muito pragmáticos e este país é antigo. De cepa velha!
 
A explicação é simples e o canto não é meramente figurativo.
"A maior parte do interior da Austrália era mato árido ou deserto, onde as chuvas raramente caíam e onde um ano de abundância podia ser seguido por anos de penúria. Toda a gente desejava ter, pelo menos, quatro saídas , ao longo das quais poderia viajar em tempo de crise. Todas as tribos - quer quisessem quer não - tinham cultivar relações com os vizinhos." (pag. 74) Estas saídas/ estradas, seguiriam a linha dos infalíveis poços de água, e os bebedouros eram centros cerimoniais onde homens de diferentes tribos se reuniam. Antes de os Brancos chegarem à Austrália, não faltava terra a ninguém, pois todos herdavam como propriedade privada um pedaço do canto do Antepassado e o lote do terreno por onde passava. Os versos de um homem eram o seu título de propriedade.

Tanto que eu não sabia e sequer cogitava. Tanto gozo em desvendar mistérios que o tempo guardou e o nómada revelou. Um livro que fez furor e continua a ser um prazer de ler.

Autor: Bruce Chatwin
Páginas: 360
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789725648193
Edição: 2009/ setembro
 
Sinopse:
           Uma viagem extraordinária - através dos caminhos mágicos dos antigos aborígenes da Austrália - em busca da beleza, da espiritualidade, do tempo e do sentido da vida.

O grande território da Austrália pré-colonial era um mapa povoado por aborígenes, nómadas e caçadores-recoletores. Os caminhos que eles percorriam, trilhos quase invisíveis e flutuantes, são hoje conhecidos como songlines, mas para os antigos habitantes significavam também um rasto da memória dos seus ancestrais que, como numa lenda sobre a criação do mundo, caminhavam sobre o desconhecido.

É nesse mundo solitário e quase desabitado da Austrália que Chatwin coloca as suas personagens numa espécie de viagem filosófica, esmagadas pela paisagem, cruzando-se com caçadores de fortunas ou feiticeiros aborígenes, campónios desterrados, polícias que gostariam de ser escritores ou camionistas perdidos.

Ao longo dessa viagem destemida, interrogamo-nos acerca do nosso destino, sugerindo que somos uma espécie de nómadas desenhando caminhos sobre a terra.

Uma Outra Voz

A minha opinião:
Uma outra voz foi Prémio Leya em 2013.  Não sabia e não é por essa razão que o li. Muitos foram os vencedores do referido prémio que não me tentaram, quando o tema que versam não encontra eco em mim.
 
Um desafio para ler um romance de um autor português foi o mote, depois de considerar uma opinião amiga. Há muito que fiquei cativa de boas estórias em que aprendo  mais sobre a nossa história e reflito sobre a nossa forma simples de estar na vida. Apesar disso, abri este livro sem grande motivação e deparei com uma árvore genealógica, o que acho piada e ao qual sei que irei recorrer durante a leitura para perceber quem é quem.

Incrédula e impressionada fiquei com a primeira voz mas não saberia escolher de qual mais gostei. Todas foram firmes e admiráveis em narrativas apaixonantes que li com fervor. Senti-me testemunha do fluxo daquelas vidas em Estremoz, que gostaria de ter conhecido, de verdade, e não apenas na ficção. Um século de vida. E que vida viveu aquela família?! Amaram, temeram, sofreram e lutaram. Vingaram.
 
Infelizmente, este livro não é meu, mas vou ter que o adquirir. Tomara, que seja mais divulgado porque é maravilhoso.

Autor: Gabriela Ruivo Trindade
Páginas: 336
Editora: Leya
ISBN: 9789896603205
Edição: 2014/ abril

Sinopse:
João José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.
Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Bibliotecária

A minha opinião:
A capa não me entusiasmou mas as criticas, sim. E daí, a comprar este livro  num período em que se fala em aumentar os hábitos de leitura que nem na pandemia se revelaram, foi um ápice. Um hino ao poder da leitura.
 
Quando o comecei a ler percebi que era um romance de época. Do pós-guerra. Uma pequena vila e o rol de mexericos é a grande protagonista desta história em que a bibliotecária dos livros infantis começou por encantar as crianças com a magia e a fantasia dos livros. Trópico de Cancer é o livro proibido que gera uma grande indignação. A trama urdida parece quase uma história de crianças.
 
A inocência de Sylvia e a ligação simples com as crianças agradou-me mas… os livros tem que se adequar aos leitores.
  
Autor: Salley Vickers
Páginas: 312
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789898979483
Edição: 2020/ maio

Sinopse: 
Em 1958, Sylvia Blackwell, recém-licenciada de uma das novas escolas de bibliotecários do pós-guerra, assume um emprego como Bibliotecária Infantil numa biblioteca degradada na vila de East Mole.

A sua missão é despertar o entusiasmo das crianças de East Mole pela leitura. Mas o caso amoroso de Sylvia com o médico da vila casado e a amizade com a sua filha precoce, o filho do vizinho e a neta negligenciada da senhoria acendem os preconceitos da comunidade, ameaçando-lhe o emprego e a própria existência da biblioteca, com consequências dramáticas para todos.

A Bibliotecária é um testemunho comovente da alegria de ler e do poder dos livros em mudar e inspirar todos nós.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Berta Isla

A minha opinião:
Berta Isla é uma mulher. Uma mulher como tantas outras. A protagonista da sua própria história. Uma história diferente da que ela antecipara, com uma relação intermitente, em que cria os filhos só e guarda segredo da vida de disfarce e embuste do marido. No íntimo, espera e sente.
 
Berta Isla e Tomás, um relação vista à lupa. Um estúpido encontro para uma queca supérflua arruína não uma mas duas trajetórias de vida. Tomás fica encurralado e é recrutado, graças ao seu dom para aprender línguas e imitar sotaques.
 
Javier Marías é um mago das palavras que bem conhece bem a natureza humana e a retrata nos seus romances. Mistura o extraordinário com o quotidiano e o resultado não poderia ser mais inesperado e emocionante.  Próximo até, porque sabe o que nos move e toca.  
Um romance soberbo. Sem dúvida, o melhor que já li de Javier Marías.

Autor: Javier Marías
Páginas: 496
Editora: Alfaguara Portugal
ISBN: 9789896655662
Edição: 2018/ outubro

Sinopse:
Berta casou com Tomás pensando que o conhecia desde sempre mas, na realidade, não sabia nada verdadeiramente importante sobre ele. Tomás escondia-lhe algo que não podia partilhar com ninguém, nem mesmo com ela. Berta Isla é a história de um homem que quer intervir na História, acabando desterrado do mundo.

É a história de uma mulher que espera por uma vida completa e, nessa espera, se transforma. É sobretudo uma história da fragilidade e tenacidade de uma relação condenada ao segredo, ao fingimento, ao desencontro; uma história de amor em que lealdade e ressentimento se entrelaçam.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

As Velas Ardem Até ao Fim

A minha opinião:
Reli este livro com muito gosto. Não me canso de dizer que há muito que é um dos meus preferidos. Claro que sei que, apesar de este romance ser intemporal, não reúne consenso. Para muitos, é uma grande seca. Denso e com pouca ação, quase uma peça de teatro, com apenas três personagens. A quarta, que tem um papel de destaque é referida mas não representativa porque já tinha desaparecido de cena. Toda a história gira em torno de um encontro adiado há quarenta e um anos. Uma noite.
 
Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sobreviveram para um confronto final na vida que lhes resta. Konrád, o convidado, tinha alma de artista, enquanto Henrik, o general e anfitrião, era um homem de regras dada a sua educação e formação. Nini, a ama do general é a única testemunha viva do seu passado.

A amizade é uma das mais belas reflexões deste romance feita em monólogo. A vida.
Um pequeno grande livro.
 
 Autor: Sándor Márai
Páginas: 160
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722020626
Edição: 2001/ abril

Sinopse:
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

Um pequeno castelo de caça na Hungria, onde outrora se celebravam elegantes saraus e cujos salões decorados ao estilo francês se enchiam da música de Chopin, mudou radicalmente de aspecto. O esplendor de então já não existe, tudo anuncia o final de uma época. Dois homens, amigos inseparáveis na juventude, sentam-se a jantar depois de quarenta anos sem se verem. Um, passou muito tempo no Extremo Oriente, o outro, ao contrário, permaneceu na sua propriedade. Mas ambos viveram à espera deste momento, pois entre eles interpõe-se um segredo de uma força singular…

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Domingo das Mães

A minha opinião:
Um dia peculiar. Domingo, dia da mãe em 1924. Jane, uma jovem criada tem um derradeiro encontro secreto com Paul que está prestes a casar por interesse. Jane é órfã. E só. E é basicamente isto, a descrição do encontro sexual, sem nada de escabroso, ou não fosse um romance de época. Um episódio nunca revelado e marcante para a narradora e protagonista.
 
Um conto sobre uma mudança de vida. Observadora, vê do exterior o interior das vidas que serve e essa caraterística conduz a sua metamorfose. Jane vive quase um século a compartimentar as suas memórias.
 
Um livro que não me cativou, apesar da faceta de escritor ser interessante.
 
 Autor: Graham Swift
Páginas: 144
Editora: Editorial Presença
ISBN: 9789722362009
Edição: 2018/ abril

Sinopse:
30 de março de 1924, Domingo da Mãe em Inglaterra, um dia em que as criadas regressam a casa para visitar as suas famílias. Mas Jane Fairchild, de 22 anos, é orfã e passa esse dia de modo diferente. Encontra-se com Paul, o jovem herdeiro de uma propriedade vizinha.

Jane e Paul mantêm uma relação secreta há já alguns anos, contudo, ele irá desposar em breve uma rapariga da sua condição social. Os dois jovens fazem amor pela última vez e, ao despedirem-se, sucede algo inesperado que muda para sempre a vida de Jane... nos anos que se seguem, ela desenvolve o seu interesse pela leitura e vai trabalhar numa livraria em Oxford, acabando por se tornar uma romancista de sucesso.

Um livro deslumbrante, impregnado de sensualidade, paixão, emoção.
Graham Swift, Prémio Booker, na plenitude da sua maturidade literária.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Mistério em Nine Elms

A minha opinião:
A máscara de normalidade de um assassino. Peter Conway era policia e investigava com Kate Marshall o canibal de Nine Elms quando um elemento inesperado a levou a suspeitar. E quase a morrer por isso.
Quinze anos depois um fã imita os crimes e o pesadelo regressa. Esta é a trama, muito ao jeito de Stephen King. Este thriller policial lembrou-me muito a trilogia de Sr. Mercedes do referido autor. É igualmente verossímil e bem contado. Os diálogos e as personagens são consistentes e convincentes. Kate é rija, apesar do temor que esconde no íntimo e com o qual luta diariamente. E claro, temos o ponto de vista dos psicopatas.
 
Um bom thriller. De leitura compulsiva. Não sei se será o ideal para estes dias de recolhimento, expecto para quem gosta do género e não se deixa abalar. O desfecho é previsível mas até lá há muito que apurar e penar, com suspense e ansiedade, como convém.
 
P.S.- Não acho piada nenhuma à capa. Poderia ser mais apelativa ou sugestiva.

Autor: Robert Bryndza
Páginas: 360
Editora: Alma dos Livros
ISBN: 9789898999023
Edição: 2019/ novembro

Sinopse:
Kate Marshall era uma jovem e promissora detetive da polícia londrina quando apanhou o famoso assassino em série que operava na região de Nine Elms. Mas a sua maior vitória transformou-se de súbito num pesadelo devido a uma série de circunstâncias inesperadas. Traumatizada, traída e publicamente vilipendiada, Kate pouco pôde fazer enquanto via a sua carreira ser julgada na praça pública.

Mais de quinze anos passados desde esses acontecimentos, embora o seu tempo na polícia esteja ainda bem presente, vive agora uma vida tranquila numa cidade pacífica da costa inglesa. Um dia, porém, Kate recebe uma carta de alguém que faz parte do seu passado e é novamente lançada para a mente distorcida de um assassino que conhece demasiado bem, vendo-se envolvida nos meandros de um caso que só ela poderá resolver.

Com um talento invulgar para entrar na mente criminosa, Kate recorre às suas prodigiosas e há muito descuradas competências de investigadora para enfrentar um caso cujo sucesso promete redenção. Mas há demasiado em jogo: não é só Kate que quer apanhar o assassino… ele também a quer encontrar.

Um thriller brilhante, misterioso e inteligente.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Paisagem com mulher e mar ao fundo

A minha opinião:
Não sabia que tinha sido publicado originalmente em 1982. Não li a sinopse. Sabia apenas que gostava da escrita apurada, quase poética de Teolinda Gersão. Sabia que não seria uma leitura fácil mas exigente, que recua a num período histórico de má memória.

Na perspetiva feminina, a  dor da perda de um homem. Uma mãe que perdeu um filho caído em combate e uma mulher que perdeu o companheiro e pai do seu filho ainda por nascer. A linguagem rica dos sentidos e das emoções. O mar como cenário de fundo. Um universo bloqueado, uma busca por um ponto de fuga ao espaço de O.S.. A revolta.

Um romance que faz todo o sentido ler em voz alta.

Autor: Teolinda Gersão
Páginas: 200
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03240-9
Edição: 2019/ outubro

Sinopse:
Portugal. O ultramar. Um retrato de Salazar e do país durante a ditadura. Uma mulher, mãe, que perde um filho na guerra colonial, a mais injusta e absurda de todas as guerras. A sua voz é a de todos os que, durante mais de quatro décadas, foram silenciados pelo poder do opressor.
Publicado originalmente em 1982, este é um romance que importa revisitar para lembrar ao leitor que houve um tempo em que o mar era paisagem árida e Portugal um país que calava e obedecia. 

terça-feira, 28 de abril de 2020

Mar de Memórias

A minha opinião:
Um romance cheio de luz do sol, de beleza, juventude e liberdade. Inebriante. A inocência do primeiro amor. Um amor aberto a todas as possibilidades e cheio de esperança. E um amor duradouro.
 
Ella aos noventa e quatro anos sente que tinha que contar a sua vida, deixar um testemunho, antes que as memórias se desvanecessem e escolhe a neta Kendra para o fazer. Alternando entre o passado - 1938 e o presente - 2014, a história vai evoluindo com um fulgor e um encanto raro que vicia na leitura.
 
Tive dúvidas antes de comprar este livro por ser mais um que se passava na segunda guerra mundial. Receava ler novamente os horrores que foram perpetuados mas a história não segue esse rumo. O realce é a coragem e capacidade de superação.
 
Bem escrito e com um enredo maravilhoso é um romance apaixonante. Um livro que tem o dom de encontrar beleza naquilo que é comum. Oportuna leitura para a fase que vivemos. Depois de ler um romance que me desiludiu, Mar de Memórias foi uma extraordinária surpresa. Para não se perder o foco do que é importante.

Autor: Fiona Valpy
Páginas: 320
Editora: TopSeller
ISBN: 9789896687793
Edição: 2020/ fevereiro

Sinopse:
Quando Kendra vai visitar a avó à casa de repouso, Ella começa a contar-lhe a história da sua vida e pede-lhe que a escreva, para que nunca se perca no tempo. Tudo começa em 1938, quando a jovem Ella viaja da Escócia para França para ir passar o verão à Île de Ré, onde a esperam Caroline e Christophe, os filhos de uma amiga da sua mãe desejosos de partilhar as férias com alguém da sua idade. A empatia entre os três é imediata, mas Ella desenvolve um sentimento especial por Christophe, com quem partilha momentos maravilhosos e inesquecíveis.

Contudo, o eclodir da Segunda Guerra Mundial dita o fim desta proximidade. Com a França debaixo de fogo, Ella vê-se obrigada a regressar à segurança da sua casa em Edimburgo. E enquanto Christophe arrisca a vida na frente de combate, Ella decide contribuir também para o esforço de guerra, oferecendo-se como voluntária para dar apoio à Força Aérea.

Confrontada com uma realidade completamente nova, Ella sente-se cada vez mais afastada da felicidade que em tempos tinha vivido na Île de Ré.
Mas estará ela assim tão diferente?
Conseguirá voltar a encontrar-se?
E quererá fazê-lo?

Uma fascinante viagem a um passado marcado pelo poder do amor e das segundas oportunidades.