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quinta-feira, 25 de novembro de 2021

O Lugar do Morto

 

A minha opinião: 

José Eduardo Agualusa, já o referi, não era para mim. Nada mais errado e mais uma vez confirmado com este pequeno livro que li compulsivamente desde que o abri. Apesar de ter sido publicado há dez anos e de ser sobejamente conhecido continua atual e pertinente, e ainda muito divertido, e eu não o tinjha lido por preconceito. Estúpido, porque julgando sem ler que não tendo que não tendo qualquer ligação a África e à nossa História comum com as ex-colónias não teria empatia suficiente para o entender.

Os portugueses não gostam de asas é uma crónica que com pouco diz muito, aliás, diz tudo, e esta do Eça de Queiroz, que além túmulo o diria e me assombrou a ponto de ler e reler. E depois foi sempre a abrir e reflectir nas palavras sábias de Leopold Sé dar Senghor, Machado de Assis, sir Richard Burton, Vinicius de Moraes e Camilo Castelo Branco (os que mais gostei) dos 24 que testemunham a sua visão póstuma. Os livros, os autores, as editoras e a lingua. Amei. Acho que vou reformular o meu pensar para mudar o meu sentir sobre alguns autores de raízes africanas.

Autor: José Eduardo Agualusa
Páginas: 160
Editora: Tinta da China
ISBN: 9789896710729
Edição: 2011/ fevereiro 

Sinopse: 
Num exercício de simbiose literária absolutamente original, Agualusa dá voz a grandes escritores, levando-os a comentar o mundo e a actualidade:
Jorge Luis Borges comenta a concentração dos grandes grupos editoriais.
Fernando Pessoa conversa com a fadista Ana Moura.
Machado de Assis discursa sobre o novo Acordo Ortográfico, Portugal e o Brasil.
Sir Richard Burton, escritor poliglota, indigna-se contra fronteiras e perseguições de imigrantes.
Jorge Amado rasteira os patrulheiros do politicamente correcto.
Vinicius de Moraes louva o músico e escritor Chico Buarque.
Sophia de Mello Breyner aprecia Mia Couto e fala do amor.
Saint-Exupéry está convicto da superior taxa de sucesso dos escritores-aviadores.
Padre António Vieira defende o futuro do português e a criação de uma Academia da Língua Portuguesa.
Camilo Castelo Branco delicia-se com as leituras públicas e abomina os e-books...

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Teoria Geral do Esquecimento

A minha opinião: 

Não esperava e não foi por falta de ouvir falar bem mas resisti. Agualusa não era para mim. A Teoria Geral do Esquecimento, apesar de ser um pequeno livro também não me parecia ter grande história, e girava em torno de uma mulher que se isola no seu apartamento durante anos quando se deu a Revolução em Angola.

Uma visão simplicista para uma narrativa vibrante e cheia de peripécias, com algumas poucas personagens extraordinárias em torno desta personagem central, que ao contrário, do que eu esperava, não é nada passiva. Cativante. Pequenos capítulos de frases curtas impulsionam para uma leitura voraz. E no fim, a teoria geral do esquecimento fica completa, como a humanidade precisa que o seja com todas as suas perdas. Afinal, a maldade também precisa de descansar. E como leitora precisava de um livro assim.

Autor: José Eduardo Agualusa
Páginas: 248
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789897224416
Edição: 2018/ novembro 

Sinopse: 

Durante os tumultos da véspera da indepencência de Angola, Ludovica Fernandes Mano - aterrorizada com os acontecimentos - decide proteger-se e isolar-se no seu apartamento. Ergue uma parede separando o seu apartamento do resto do edifício - do resto do mundo. Durante quase trinta anos sobrevive a custo, como uma náufraga numa ilha deserta, vendo, em redor, Luanda crescer, exultar, sofrer. Morre em Luanda na Clinica Sagrada Esperança (curiosamente, o título de um livro de poemas de Agostinho Neto), na madrugada de 5 de outubro de 2010, contando oitenta e cinco dias. Durante esses trinta anos, Ludovica ("Ludo") escreve um diário, vários poemas e um vasto conjunto de reflexões sobre esse período - além de desenhos a carvão nas paredes do apartamento.
Tudo registado em cadernos e papeis que Sabalu Estevão Capitango ofereceu ao narrador deste livro...

terça-feira, 9 de novembro de 2021

A Bastarda de Istambul

A minha opinião: 

Elif Shafak já entrou na órbita de escritores que não dispenso, com histórias coloridas e magnéticas que se passam em Istambul. E personagens femininas incriveis. A bastarda não é exceção. Uma personagem assim não poderia nascer numa familia normal mas numa em que havia demasiadas mulheres e demasiados segredos acerca de homens que tinham desaparecido demasiado cedo e de um modo demasiado peculiar; e que por mais que se esforçasse nunca iria ser bela. 

E depois, temos Armanoush, filha única de pais ressentidamente divorciados, provenientes de contextos culturais diferentes. Arménio-americana. E quando estas duas personagens se cruzam inalamos caos e vida nas páginas deste romance e que numa palavra se pode caracterizar como burlesco. Apesar de o que está em causa é a continuidade da memória humana com o que se passou entre duas etnias em Istambul. 

De realçar, os muitos escritores que este romance serve de ponte, como Milan Kundera, entre outros. 

Ma-ra-vi-lho-so. Revigorante, o que li de sorriso arregalado até meio mas depois assume um tom mais dramático com a saga familiar.

Autor: Elif Shafak
Páginas: 372
Editora: Jacarandá
ISBN: 9789898752376
Edição: 2015/ janeiro 

Sinopse: 
Numa tarde de chuva em Istambul, uma mulher entra num consultório médico. «Preciso de fazer um aborto», declara. Tem dezanove anos de idade e é solteira. O que acontece naquela tarde mudará para sempre a sua vida.
Vinte anos mais tarde, Asya Kazanci vive com sua família alargada em Istambul. Devido a uma misteriosa maldição que caiu sobre a família, todos os homens Kazanci morrem aos quarenta e poucos anos, e por isso é apenas uma casa de mulheres. Entre estas destaca-se a bela e rebelde mãe de Asya, Zeliha, que dirige um estúdio de tatuagens; Banu, que recentemente descobriu que é vidente; Feride, uma hipocondríaca obcecada com a iminência da tragédia.
Quando a prima de Asya, Armanoush, uma arménio-americana, vem para ficar, segredos de família há muito tempo escondidos, relacionados com o passado tumultuoso da Turquia, começam a ser revelados.

Quarteto de Havana II

A minha opinião: 

Não é um romance de leitura compulsiva. É um romance, policial. Ou seja, começa com um crime que o tenente Mário Conde e o sargento Manuel Palácios são chamados a investigar pelo Velho, o major Rangel, num abrasador dia verão de 1989 mas a trama envolve toda a vida na ilha em que a beleza e profundidade das palavras impõe uma leitura pausada e analítica que, apenas um romance de rara qualidade exige. E quem já leu Leonardo Padura saberá mas eu fui apanhada de surpresa. O ambiente e as personagens são de grande realismo quando expõe a natureza humana a nú e sem muito esforço através do viril e sedutor mas algo abatido Mario Conde. 

Conde que se desdobrou em quatro romances para a tetratologia de "As quatro estações". Neste segundo volume, o verão e o outono. No verão, a vitima é um gay e no outono, um desertor. E muitas dissertações tece este investigador até achar o criminoso e o móbil para os crimes e sem descurar os amigos. Despojado e comovedor. Um protagonista inesquecível.

Autor: Leonardo Padura
Páginas: 436
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03399-4
Edição: 2021/ agosto 

Sinopse: 
Em "Morte em Havana", encontra-se o corpo de um homem: trata-se do filho de um respeitado diplomata cubano, estrangulado com a faixa de seda vermelha que devia cingir a cintura do imponente vestido que usava quando foi assassinado. Para resolver este estranho caso, o tenente Mario Conde começa por falar com Marqués, um homossexual excêntrico, desterrado num casarão decrépito, que lhe apresentará o mundo labiríntico do travestismo, onde nada é o que parece.
Em "Paisagem de Outono", Miguel Forcade Mier é brutalmente assassinado e cabe a Mario Conde descobrir por quem e porquê. Depois da Revolução, a vítima havia sido responsável pela expropriação de bens artísticos à burguesia, o que lhe permitiu conquistar poder, influência e muitos ressentimentos. Porém, acaba por decidir mudar-se para Miami, ficando lá até pouco antes da sua morte. Mas que veio Mier fazer a Cuba? Que queria ele recuperar? Conde, perito nas teias da corrupção cubana, tudo fará para deslindar o mistério.
"Morte em Havana" e "Paisagem de Outono", protagonizados pelo já conhecido tenente Mario Conde, compõem o segundo volume do Quarteto de Havana, no qual Leonardo Padura representa magistralmente o ambiente cubano, sem deixar de lado o refinado humor que o leitor tão bem lhe conhece.

domingo, 31 de outubro de 2021

O Livro do Conforto

 

A minha opinião: 

O livro do conforto é isso mesmo. Não poderia ser mais adequado. Como a nossa perspectiva pode mudar o nosso mundo. E esta perspectiva não depende apenas de condições externas, mas do prórprio leitor. O leitor que precisa de esperança e animo para ultrapassar as falácias que a depressão alimenta. Dicas e reflexões muito úteis de quem sabe. Um livro para ter à mão.

Matt Haig entrou no meu rol de leituras quando tive noção de que tinha um familiar próximo que sofria de depressão. E precisava de entender este flagelo e como ajudar. E o tempo e o bom senso, com o tanto que li, vão fazendo a diferença. Eventualmente, o livro do conforto pode ser o que alguém precisa e não é demais recomendar.

Autor: Matt Haig
Páginas: 272
Editora: Albatroz
ISBN: 978-989-739-137-8
Edição: 2021/ setembro 

Sinopse: 
O Livro do Conforto é uma coleção de singelas lições aprendidas em tempos difíceis e sugestões para melhorar os dias menos bons. Baseando-se em máximas, memórias e em vidas inspiradoras, estes pequenos textos celebram a maravilha da vida em constante mudança e são uma nova perspetiva sobre todos os seus altos e baixos. Porque a felicidade acontece quando nos esquecemos de quem devemos ser, Matt Haig lembra-nos de desacelerar e apreciar a beleza e imprevisibilidade da vida. Este é o livro que deve ter à mão quando precisar da sabedoria de um amigo, do conforto de um abraço ou de um lembrete para manter a esperança nos momentos mais difíceis.

O Segredo da Boticária

A minha opinião: 

Gostos não se discutem mas o meu adora esta capa. E quando li a sinopse soube que provavelmente seria umn daqueles romances que muito gosto me daria ler. E não errei. Uma narrativa estupenda de suspense e intriga a dois tempos com grandes protagonistas femininas. Daquelas que não se esquecem e não contamos encontrar. 

As minúcias da vida nos segredos não contados exerce uma grande atração numa curiosa como eu. Ahhhh, e adoro mulheres que vingam. A morte por envenenamento, é, pela sua natureza, um assunto muito intimo e entre a vitima e o vilão costuma existir um elemento de confiança. É impossível determinar a quantidade de individuos que faleceram na cidade de Londres georgiana quando a toxicologia forense ainda não existia.

Um romance que esperava leve e entretenimento e se revelou intrigante, bem estruturado e de leitura compulsiva. Uma boa trama que corre a bom ritmo. Um mistério com duzentos anos que adorei desvendar e um pouco de magia para um final aprazível.

Autor: Sarah Penner
Páginas: 448
Editora: HARPER COLLINS
ISBN: 9788491396734
Edição: 2021/ novembro 

Sinopse: 
Escondida nas entranhas de Londres do século XVIII, uma botica secreta serve uma clientela pouco usual. Entre as mulheres londrinas, fala-se sobre uma mulher misteriosa chamada Nella que vende venenos bem disfarçados de remédios àquelas que precisem deles para os usar contra os homens que as maltratam. Contudo, o destino desta boticária fica comprometido quando a sua nova protegida, uma rapariga precoce de 12 anos, comete um erro fatal que terá consequências cujo eco se manterá durante séculos.

Na atualidade, uma aspirante a historiadora chamada Caroline Parcewell passa o seu décimo aniversário de casamento sozinha, enfrentando os seus próprios demónios. Então, encontrará uma pista para resolver os assassinatos misteriosos que fizeram Londres tremer há mais de duzentos anos. A sua vida misturar-se-á com a da boticária numa reviravolta surpreendente do destino. E nem todos sobreviverão.

O Segredo da Boticária é uma estreia subversiva e viciante, cheia de suspense, com personagens inesquecíveis e uma profundidade aguda. Cheia de segredos, vingança e de formas singulares como as duas mulheres podem salvar-se uma à outra, apesar da barreira do tempo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Balada para Sophie

 

A minha opinião: 

Há muito que perdi o interesse por BD. Deixei-me disso. Muito do que li é do amplo conhecimento geral e acho que foi das melhores leituras da minha juventude. Contudo, este livro, apesar do quanto ouvi falar dele não me tinha prendido a atenção até que uma amiga mo emprestou. Generosa amiga porque este livro é uma beleza do qual deve ser difícíl se separar. E depois de o abrir, a magia voltou a acontecer. É realmente isso. Um encantamento. E uma redenção como a que procurava este velho pianista que lutava contra o seu fantasma passado.

A escala de cores em consonância com os estados de alma é um dos muitos detalhes que não nos escapa nesta preciosidade. Extrordinária novela gráfica. Uma enriquecedora prenda de natal.

Autor: Filipe Melo e Juan Cavia
Páginas: 320
Editora: Tinta da China
ISBN: 9789896715588
Edição: 2020/ novembro 

Sinopse: 
Cressy-la-Valoise, 1933

Dois jovens pianistas, nascidos numa pequena vila francesa, cruzam-se num concurso local. Julien Dubois, o herdeiro privilegiado de uma família rica, e François Samson, o invisível filho do responsável pela limpeza do teatro. Nessa noite, um deles venceu.
Cressy-la-Valoise, 1997

Uma enorme mansão é abalada pela inesperada visita de uma jornalista. Numa nuvem de cigarros e memórias, algures entre a realidade e a fantasia, Julien vai compondo, como numa partitura, uma história sobre o preço do sucesso, rivalidade, redenção e pianos voadores. Afinal, algum deles alguma vez terá vencido? E haverá ainda alguma música por tocar?

Sira

 

A minha opinião: 

Assim que o recebi, não mais o larguei.

A continuação de O tempo entre costuras (que li recentemente) com uma protagonista inesquecível, cujo nome merece todo o destaque como título deste vertiginoso romance sobre a sua vida. Sira começou por ser uma menina humilde na castiça Madrid , jovem costureira em África e fraudulenta modista de um bairro distinto e recomeça casada com Marcus, quando acabam por ir parar á Palestina, um emaranhado de complexidades e conflitos, sem esperança de resolução.

Os laivos do que se segue, como que em jeito de desabafo, são bem vindo e motivadores. A estadia foi breve e novamente Sira foi arrastada para uma sigilosa intriga política e de espionagem. E não viajou só quando partiu para Londres ou regressou a Espanha.

Indubitávelmente, a descrição sumária de ambientes e locais que nos fazem sonhar num tempo de glamour, fascínio e risco são um bom complemento numa narrativa bem escrita que vicia. Não é coisa pouca porque são 600 páginas de um romance leve, bem enquadrado históricamente, envolvente e de muita ação. Dueñas escreve volumosos livros mas tão fáceis de ler e apaixonantes que se fica fã. Doze anos depois voltei a ficar rendida. Ainda bem que nos reencontrámos.

Autor: María Dueñas
Páginas: 608
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03485-4
Edição: 2021/ outubro 

Sinopse: 
A Segunda Grande Guerra está a chegar ao fim, e o mundo avança para uma reconstrução tortuosa. Depois de cumprir as suas obrigações como colaboradora dos serviços secretos britânicos, Sira encara o futuro ambicionando alguma serenidade. Mas essa paz tarda em chegar. O destino reserva-lhe um infortúnio trágico que a obrigará a reinventar-se e a, mais uma vez, tomar as rédeas da sua vida sozinha e lutar com todas as forças para se adaptar ao futuro.
Entre factos históricos que marcarão uma época, Jerusalém, Londres, Madrid e Tânger serão os cenários para as novas aventuras de Sira, onde enfrentará desgostos e novos riscos, reencontros inesperados e a experiência da maternidade.
Sira Bonnard – antes de Arish Agoriuq, antes de Sira Quiroga – não é a inocente costureira que nos deslumbrou com figurinos e mensagens clandestinas, mas o seu encanto permanece intacto.
Sira está de volta, carismática e inesquecível.
O regresso da protagonista de O tempo entre costuras.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Deus Pátria Família

 

A minha opinião: 

Uau! Que romance tão bom. Superou em muito as minhas expectativas. Adoro quando sou surpreendida e um autor que mal conheço me impressiona desta maneira (li apenas um dos seus primeiros romances). A distopia começou por me atrofiar mas depois tornou-se parte do gozo de acompanhar os Paixões Leal num Portugal cinzento e conspiratório de 1940.

Intriga e mistério quando surgem os crimes de mulheres jovens em que os corpos ficam próximos de lugares de culto e as vitimas ficam com a iconografia das santas católicas, ou seja, preparadas ritualmente com manto branco, terço, hóstias e de mãos entrelaçadas. E que correlação existe com um atentado político em que antisemitismo toma dimensões assustadoras num país neutral?

Poderia ser complicado mas até é simples na escrita exemplar de Hugo Gonçalves.
Autor: Hugo Gonçalves
Páginas: 456
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897842832
Edição: 2021/ maio 

Sinopse: 
Lisboa, 1940
Uma mulher é encontrada morta no santuário do Cabo Espichel, envolta num manto branco, com um rosário entre os dedos. Os peregrinos confundem-na com uma aparição de Nossa Senhora. Os detetives encarregados do caso não vão em delírios, mas também não imaginam que aquele é apenas o primeiro homicídio.

Vivem-se tempos estranhos: os tanques alemães avançam Europa fora e a bandeira nazi é içada na torre Eiffel. A Lisboa chegam milhares de estrangeiros e refugiados judeus, que escolhem a capital portuguesa como abrigo temporário ou porta de saída para uma vida sem medo.

As vítimas vão-se sucedendo: todos os meses, aparece mais uma mulher morta, numa sucessão de crimes de matizes religiosos. A Polícia de Investigação Criminal entrega o caso a Luís Paixão Leal, ex-pugilista de memória prodigiosa, com um olho de vidro e um passado misterioso em Nova Iorque. O detetive, que vê na justiça uma missão de vida, empenha-se em descobrir o culpado.

Até que, numa manhã de domingo, tudo muda: um golpe violento afasta Salazar do poder e sacode o xadrez político do país. Portugal abandona a neutralidade na guerra e alinha-se com as forças do Eixo. Nas ruas da capital, começa o cerco aos refugiados judeus e ecoam as tenebrosas memórias das perseguições da Inquisição.

Com a reviravolta política, Paixão Leal vê-se no centro de uma conspiração ao mais alto nível. O detetive, que vive com uma judia alemã e os seus dois filhos, sente a ameaça a bater-lhe à porta. Num mundo à beira do colapso, pagará um preço caso insista em desvendar a verdade.

Dos loucos anos 1920 nos Estados Unidos à convulsa década de 1940 em Portugal, chega-nos uma versão alternativa do nosso passado, com ecos no presente, porque basta uma única reviravolta para mudar o rumo de um país e assombrar milhares de vidas. Entrelaçando um mistério policial com uma saga familiar, Deus Pátria Família é um romance magnético do autor finalista dos Prémios PEN Clube e Fernando Namora.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

As Maravilhas

A minha opinião: 

Meio livro lido e não sabia o que pensar. Entretanto, percebi. A amargura resignada, a desesperança, incomodavam-me, nesta narrativa de duas mulheres. Pobres.
Conscientes de que até para protestar há que ter dinheiro. A alternância narrativa também não ajudava. Bem escrito e muito bem estruturado não conseguia agarrar-me como eu esperava. Sequer sentia empatia por estas protagonistas que ainda que inteligentes pareciam conformadas. Desapegadas. Maria da filha e Alícia da mãe. 

Uma história de mulheres como tantas outras, invisiveis, trabalhadoras e sós. Não me cativou.

Autor: Elena Medel
Páginas: 208
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722072779
Edição: 2021/ setembro 

Sinopse: 
Qual o peso da família nas nossas vidas, e qual o peso do dinheiro?
Que acontece quando uma mãe decide não cuidar da sua filha, e quando uma filha decide não cuidar da sua mãe?
Seríamos diferentes se tivéssemos nascido noutro sítio, noutro tempo, noutro corpo?

Neste romance há duas mulheres: María, a que em finais dos anos sessenta deixa a sua vida numa cidade de província para trabalhar em Madrid; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, por razões distintas. E há, claro, a mulher que as une e de quem praticamente não se fala: filha de uma e mãe da outra.

As Maravilhas é um romance sobre o dinheiro, ou melhor, sobre como a falta de dinheiro pode determinar uma vida inteira de precariedade e matar todos os sonhos. Mas é também uma história sobre cuidados, responsabilidades e expetativas e sobre o passado recente desta nossa Península Ibérica, desde finais da ditadura até à explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tão-pouco podem ir às manifestações lutar pelos seus direitos porque têm, claro, de trabalhar.

Herança

 

A minha opinião: 

Um bom palpite sobre este romance que se revelou certeiro. Autoficção. Uau!

Herança é a ponta do iceberg numa relação familiar conturbada que oculta mágoas e receios, principalmente da narradora/ protagonista, como segunda mais velha de quatro irmãos. E se inicialmente se divaga como justa ou não a partilha de duas casas de férias com as duas filhas mais novas e a apropriação das mesmas, também se percepciona uma enorme tensão e um grande suspense que prende a uma narrativa realista, E o pior, é que o leitor não se consegue alhear do drama com a sua natureza e história pessoal. Um romance que provoca emoções intensas, violentas e invasivas.

A revelação, que o leitor antecipa, mas não quer crer, é devastadora. O que se passa no seio daquela familia, dita normal, que quer persevar a honra e o legado reflecte-se na Herança, que não é apenas de ordem financeira.

Extraordinário romance que explora emoções e sentimentos perante um trauma. Não será certamente para todos os leitores mas eu não o esquecerei. 

Autor: Vigdis Hjorth
Páginas: 344
Editora: Livros do Brasil
ISBN: 978-989-711-141-9
Edição: 2021/ setembro 

Sinopse: 
Quatro irmãos. Duas casas de férias. Um segredo. Há vinte anos que Bergljot se mantém fora da órbita da família, mas, quando uma disputa em torno do testamento dos pais sobe de tom, ela não poderá ficar calada. Ambos vivos, os pais decidem deixar duas casas de veraneio às suas irmãs, deserdando de uma parte importante do património da família os dois filhos mais velhos. Visto de fora, este é um simples caso de favoritismo. Bergljot, que vive desde a infância com um segredo terrível, faz contudo uma leitura diferente: para ela, esta é a derradeira estocada para acabar com a verdade, o último insulto às vítimas. Herança é um romance lírico sobre trauma e memória, sobre sobrevivência e força. Controverso, caminhando entre realidade e ficção, este foi um dos maiores êxitos da literatura norueguesa dos últimos anos, granjeando a Vigdis Hjorth múltiplos prémios e traduções da sua obra para mais de vinte línguas.

O Prazer de Guiar

A minha opinião: 

Tal como eu esperava, este pequeno romance é uma delicia. O prazer de viver, é disso que se trata quando o prazer de guiar era o espelho desse sentir. Uma projeção futura quando alguns dos problemas quotidianos foram resolvidos numa cultura tecnológica moderna, uniformizada, robotizada e automatizada. Muito engraçado e bem pensado Uma nova perspectiva. Os idosos, mais solitários, silenciosos e resilientes a tais mudanças, enquanto João e Raquel decidem arriscar e quebrar as normas. E têem um reencontro numa fase tardia depois de tanta mágoa. Acreditar na mudança se procurarmos oportunidade.
Valentina, é a anti-heroína numa sociedade da perfeição que apetecia entortar à martelada.

Um romance ligeiro e divertido que ainda assim nos dá que pensar. Bem escrito é um prazer de ler. Um prazer que não adio de ler autores portugueses que me falam ao coração. Lamechas?! Nem tanto. A nossa cultura e identidade surge ali representada e é um bom confronto. Um conforto até.

Autor: João Pedro Marques
Páginas: 160
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03019-1
Edição: 2021/ setembro 

Sinopse: 
Raquel e João têm cerca de setenta anos de idade. Amaram-se na juventude e, em tempos idos, foram casados e criaram filhos em conjunto antes de a vida os ter afastado. O Prazer de Guiar é a história do seu reencontro e reaproximação. É, também, simultaneamente, um romance on the road, no qual o casal reencontrado vai viver uma aventura adolescente que lhe reabre os horizontes numa fase tardia da sua existência.
O palco da sua aventura é Portugal no ano de 2032, um tempo em que o progresso tecnológico trouxe muito bem-estar, mas em que, paradoxalmente, cerceou as liberdades individuais. Uma época cada vez mais automatizada e robotizada em que o Estado já codificou quase tudo, impôs regras e normas em várias áreas da vida colectiva, mas proibiu muitas coisas, nomeadamente a possibilidade de conduzir nas cidades e principais estradas do país.
Serão Raquel e João capazes de lutar por esse direito que lhes foi negado? Terão sucesso no desafio que lançaram às autoridades? E conseguirão contornar ou iludir a opressiva e omnipresente vigilância policial?

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Uma Mulher em Berlim

 

A minha opinião: 

Muitos são os romances sobre a Segunda Guerra Mundial. E reais ou baseados em factos. Não opto por os ler porque me faz sofrer. Dos que li, este destaca-se. E é tão bom. É como o título indica sobre uma mulher em Berlim mas no fim da guerra. Culta, inteligente, jovem (não tem 30 anos) e fala russo.

Um importante testemunho sobre os civis que ficaram na cidade tomada pelos russos. E apesar dos horrores que sabemos sobre os nazis, surpreendeu-me o comportamento dos russos. Perseguiam as mulheres que se tornaram objectos sexuais. Esta mulher anónima escreveu diáriamente sobre o que ela e os moradores do edíficio onde se refugiou viveram num breve período. E numa escrita fluída e focada descreve a existência de núcleos não familiares, que se uniam por medo e necessidade. Os sentimentos congelados porque o instinto de sobrevivência se impõe. A coragem de resistir. Extraordinário documento humano.

Autor: Anónimo
Páginas: 304
Editora: Edições Asa
ISBN: 9789892323121
Edição: 2013/ junho 

Sinopse: 
Com início a 20 de Abril de 1945, o dia em que Berlim viu pela primeira vez a face da guerra, a autora deste diário descreve o quotidiano de uma cidade em ruínas, saqueada pelo exército russo.
Durante dois meses, afasta a angústia e as privações sofridas, e concentra-se no relato objectivo e racional das suas experiências, observações e reflexões.
Apesar dos constantes bombardeamentos, de actos de violação, do racionamento alimentar e do profundo terror da morte, este diário traçanos uma perspectiva única de uma mulher dotada de um optimismo notável, que não se deixa abater pelas agruras sofridas. Quem ler este diário, jamais o esquecerá.

Loba Negra

 

A minha opinião: 

Para desanuviar de leituras mais sérias, nada melhor do que um thriller com muito sarcasmo e uma dinâmica diferente entre os projeto Rainha Vermelha. Antónia, Jon e Mentor. E alguns mafiosos assassinos à mistura. Desta vez com uma Lola muito expedita e arguta que trapaceou os criminosos. E o assunto por concluir de Antónia - White, que continua no próximo e ultimo desta trilogia que não vou perder.~

Autor: Juan Gómez-Jurado
Páginas: 432
Editora: Editorial Planeta
ISBN: 9789897774645
Edição: 2021/ julho 

Sinopse: 
Continuar viva
Antonia Scott não tem medo de nada. Só de si mesma.

Nunca foi
Mas há alguém ainda mais perigoso do que ela. Alguém que até a pode vencer.

Tão díficil
A Loba Negra está cada vez mais próxima e Antonia, pela primeira vez, está assustada.

Depois do sucesso de Rainha Vermelha, com mais de 800 mil exemplares vendidos em Espanha, o autor best-seller Juan Gómez-Jurado regressa com mais um livro empolgante. O livro de que todos estavam à espera.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Vista Chinesa

A minha opinião: 

Pouco sabia sobre este romance. Sabia que era sobre um estrupo. Uma violação. A Tatiana é brasileira e o crime nomeado passou-se no Rio de Janeiro em 2014 e o que lemos é um testemunho, carta aos filhos, sobre o sofrimento de uma mulher perante um crime de que foi vitima antes de eles nascerem. Contado de uma forma como eu nunca li. Real. Assustador. Um encontro fortuito com o Mal.

Não é um livro fácil e não é para qualquer leitor. Exige alguma maturidade e sensibilidade. É importante e deveria ser lido para abrir frestas em mentes fechadas. A violência que ninguém deveria sofrer. Um extraordinário romance. 

Autor: Tatiana Salem Levy
Páginas: 128
Editora: Elsinore
ISBN: 9789895646067
Edição: 2021/ agosto 

Sinopse: 
Autora multipremiada, vencedora do Prémio São Paulo de Literatura, do English Pen Award e finalista do prémio Jabuti
Antes de uma reunião de trabalho, Júlia sai de tarde para correr e, enquanto sobe o trajeto para a Vista Chinesa, o famoso miradouro no parque natural da Tijuca, em plena cidade do Rio de Janeiro, desligada do mundo e de headphones nos ouvidos, um homem de mãos enluvadas surge repentinamente, encosta uma pistola na cabeça dela e arrasta-a para o meio da mata. Júlia é violada. Sobrevive. Anos depois, já mãe, recorda o horror vivido e as sequelas daquela terça-feira de 2014 — a dor, a raiva, o medo de acusar um inocente e a força redentora da vida que continua.

«A partir do momento em que começamos a ler, já não é possível parar. Uma poderosa celebração da vida. Pode pedir-se mais da literatura?» — José Eduardo Agualusa Relato de uma história real de violação, Vista Chinesa é um romance perturbador, corajoso e necessário, que reflete sobre a violência ancestral contra a mulher e a transforma em grande literatura. Um livro que incomoda, de rara qualidade literária, e que foi recebido de forma entusiástica pela crítica.