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quarta-feira, 27 de julho de 2022

Lições de Química

A minha opinião: 

Cozinhar é química. Remar é Física. Para Elizabeth Zoth é simples. Uma gravidez não é complicado. Biologia. E Química é a vida. Química é mudança.

No verão passado, o romance que vi com mais fulgor nas redes sociais foi A breve vida das flores de Valérie Perrin mas atualmente o que vai mexer com as emoções e provocar reações é Lições de Química. Estrondoso. Uma história corrida porque as Zott superam qualquer um, exceto Calvin Evans. Sobredotadas. Pragmáticas e profundamente honestas. Formatadas para superar obstáculos com os que se impunham com a discriminação sexual nos anos cinquenta e sessenta. As Zott dizem exatamente aquilo que pensam porque compreendem como as coisas funcionam.

Uma história que se apresenta leve mas que trata de assuntos muitos sérios e de um jeito muito irreverente conta uma luta que ainda hoje se trava contra o preconceito. Um romance que não se esquece.

Autor: Bonnie Garmus
Páginas: 464
Editora: Edições Asa
ISBN: 9789892354408
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Mas estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério.

Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante ("combine uma colher de sopa de ácido acético com uma pitada de cloreto de sódio") e revolucionária (mais do que apresentar receitas, ela está a incentivar um número crescente de mulheres a desafiar o mundo). A sua popularidade irrita muita gente.

Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. Mas o seu destino parece eternamente adiado. Conseguirá ela cumprir o que em tempos um grande amor profetizou num sussurro?

Elizabeth Zott, ainda vais mudar o mundo.

O Homem que Passeava Livros

 

A minha opinião: 

Gosto muito de passear livros e leio-os em qualquer compasso de espera. Procuro a companhia daquelas personagens que existem nos livros e que regra geral povoam a minha cabeça e não me deixam só ou entediada. E observo os que me rodeiam e muitas vezes faço paralelismo com o que leio, o que muito me diverte ou entristece. Portanto, não podia deixar de ler um livro que é sobre os poderes dos livros mas não só. Ademais, quando os capítulos têm como título livros fantásticos. Carl é uma personagem que se acarinha, assim como os clientes a quem leva livros mas Schascha é uma personagem que nos estimula. Juntos marcam o leitor. E ensinam-nos tanto. 
Um livro maravilhoso.

Autor: Carsten Henn
Páginas: 200
Editora: Lua de Papel
ISBN: 9789892354576
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
Todos os dias, ao fim da tarde, Carl carrega a mochila com uma série de livros embrulhados com esmero. Fecha a porta da livraria e começa a ronda pelos clientes habituais, a quem secretamente dá nomes de personagens (Olá, Mr. Darcy!). Entrega as obras porta a porta ao milionário recluso, à jovem melancólica, à última freira do convento. É assim há décadas, até ao dia em que uma miúda de nove anos lhe aparece no caminho...

Mal se apresenta, Schascha começa a fazer perguntas: o que leva nessa mochila? Que histórias são essas? A quem se destinam? E começa ali uma inesperada relação. Ela, órfã de mãe, passa os dias sozinha, aborrece-se; ele vive preso a rotinas, envelhece. Juntos descobrem, nos passeios pela pequena cidade, um novo sentido para as suas vidas e para as vidas de quem visitam. E enquanto ambos arriscam um itinerário diferente, o horizonte carrega-se de nuvens cada vez mais pesadas e ameaçadoras.

O Homem que Passeava Livros, de Carsten Henn, é um romance inesquecível sobre vidas que são transformadas pela magia dos livros. Polvilhado de referências literárias (a começar pelos títulos dos capítulos), transporta os leitores da tristeza mais funda para o mais profundo encantamento (e vice-versa).

Como matar a tua família

 

A minha opinião: 

O título não deixa margem para dúvida. Uma comédia negra, adequada para férias, foi o que pensei. E errei, porque é um romance bem conseguido com uma boa critíca social (principalmente, a dos muitos ricos) que me fez sorrir.

"Se queremos executar bem um plano, executar um conjunto de pessoas, não podemos deixar as nossas emoções em roda viva." E sem grnade planeamento, apenas reconhecendo as fragilidades e aproveitando as circunstâncias. Grace decidiu matar uma família que era a sua sem nunca o ter sido. Não é confuso mas muito direto, acutilante e viciante porque a empatia com Grace é imediata. Ela não se queixa, ou apela. Uma mulher de vinte e oito anos, muito inteligente, arguta observadiora, que decidiu vingar a mãe. E sem ser responsabilizada, livrar o mundo de pessoas tóxicas.
Adorei.

Autor: Bella Mackie
Páginas: 368
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03569-1
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
• Matar a minha família
• Reclamar a fortuna
• Não ser apanhada
• Adotar um cão
Eis Grace Bernard: irmã, colega, amiga, serial killer... Grace perdeu tudo. E agora quer vingar-se.
Quando Grace Bernard descobre que o seu pai milionário ausente rejeitou os pedidos de ajuda da mãe moribunda, ela jura vingança e prepara-se para matar todos os membros da sua família.
Os leitores têm um lugar na primeira fila enquanto Grace elimina a família um a um – e o resultado é tão macabro quanto divertido nesta brincadeira maldosamente escura sobre classe, família, amor... e homicídio.

Grande Turismo

A minha opinião: 

Não se explica no início mas no meio. Grande Turismo é um jogo de carros de uma consola. Não é o que imaginamos.

Os jogadores podem jogar com a câmara de piloto ou externa, principalmente esta, como metáfora para contar histórias numa primeira pessoa que se parece com o autor mas não o é e deste modo tentar compreender comportamentos. Como o de turista que quer ser identificado como viajante mas que não saí do mesmo sítio e nem sabe para onde ir e não passa de um nativo melancólico. Um trapalhão.Um trapalhão inteligente que faz uma análise critíca em dezassete pequenas histórias, em que o sarcasmo se mantém. Uma comédia burlesca da vida.

Autor: João Pedro Vala
Páginas: 176
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789897227684
Edição: 2022/  fevereiro

Sinopse: 
João Pedro Vala, personagem do escritor João Pedro Vala, é um pobre coitado. De onde vem, não sabe. Para onde vai, menos ainda. Entre burguês e boémio, entre pecador e santo, entre o Bairro das Colónias e uma Loures expandida até ao infinito, João Pedro fantasia o seu lugar no mundo. Tão cómico quanto melancólico, vive como quem não sabe dar troco no autocarro — como quem mal sabe embarcar. Holden Caulfield à portuguesa, com laivos de desalento bem-humorado, deambula pelo mundo com o mal-estar de um permanente turista na sua própria terra e na sua própria pele, tentando responder a essa grande pergunta: mas afinal quem é João Pedro Vala?

Esta história, em que o vazio da existência se vai confundindo com uma constrangedora falta de jeito para habitar um mundo que se desejaria deslocado apenas dois ou três passos para o lado, tem no centro um protagonista sentado nu numa marquesa de hospital, à espera de um diagnóstico que tarda em chegar.

Somos o Esquecimento que Seremos

 

A minha opinião: 

Ouvi falar sobre este livro num podcast. E apesar de conhecer o autor "de vista" nada tinha lido. Com o livro esgotado recorri à Biblioteca. E desde as primeiras páginas me cativou com uma narrativa sentida, honesta e corajosa sobre o ser humano extraordinário que o educou: o pai. E enquanto percorre os meandros da memória faz um balanço desses anos da História da Colômbia e do mundo, sem descurar a familia numerosa ou o casamento dos pais. Um retrato de vida com os aspectos bons e os dolorosos, trágicos e absurdos da existência, como uma lição.
Depois de o ler, e com o tanto que pensei e senti, apenas tenho um desabafo: Que livro soberbo! Deveria ser de leitura obrigatória. Um romance da vida. Não ficção.

"Sem me dizer uma só palavra, sem me obrigar a ler e sem me soltar o sermão de quão sã pode ser para o espírito a música clássica, eu percebi, só de olhar para ele, de ver nele os efeitos benéficos da música e da leitura. Esse senhor escuro e mal humorado que chegara da rua com a cabeça carregada de más influências e das tragédias e das inustiças da realidade, recuperara o seu melhor semblante e a alegria pela mão dos bons poetas, dos grandes pensadores e dos exímios músicos." 

Autor: Hector Abad Faciolince
Páginas: 336
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789725649046
Edição: 2010/ setembro

Sinopse: 
Reconstrução amorosa e paciente de uma personagem: a do médico Hector Abad Gómez que dedicou a sua vida - até ao dia em que foi assassinado em pleno centro de Medellín - à defesa da igualdade social e dos direitos humanos. É um livro cheio de sorrisos que canta o prazer de viver, mas também mostra a tristeza e a raiva causadas pela morte de um ser excepcional. Conjurar a figura de um pai é um desafio que percorre consagradas páginas da história e da literatura. Quem não se lembra das obras de Kafka, Philip Roth, Martin Amis ou V. S. Naipul? A partir de agora também será difícil esquecer este livro escrito com coragem e ternura.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Velhos Lobos

 

A minha opinião: 

Sebastião Velho na casa dos sessenta anos, recorda a voz de menino que brincava na azinheira grande a mais clara das suas memórias embrulhadas numa espécie de sono e de espera. E logo começa...

Romance de época da nossa gente. Mundos tão dissemelhantes que nos parecem mais recuados e que Campaniço recupera com mestria numa escrita que encanta, expressiva e bela, com uma sonoridade que apetece ler e reler para melhor apreciar.

A solidão dos campos e o silêncio afetam a vida de duas familias vizinhas desavindas, uma pobre e outra rica, em que o ciúme de um e o desejo do outro não permitem acertos. E com o passar dos anos tanto se deu na vida destas duas familias e apenas Jacinto Velho soube o que era a verdadeira riqueza.

Autor: Carlos Campaniço
Páginas: 288
Editora: Casa das Letras
ISBN: 9789896614553
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
Quando Francisco d'Almeida Lobo decide passar a viver o ano inteiro no Monte do Azinhal para cuidar pessoalmente da propriedade, ignora que a presença da família Velho no Montinho lhe vai criar tensões impossíveis de ultrapassar. Primeiro, porque Jacinto Velho se recusa a dar-lhe uma mão; depois, porque descobre que a mulher dele não é senão Maria Barnabé, com quem teve uma história longe de estar resolvida. Os ânimos, porém, só ficarão ao rubro quando - contra a vontade do pai - o primogénito dos Velho lhe pedir trabalho…

No mesmo espaço agreste, debaixo do mesmo sol escaldante, duas famílias distintas em tudo vivem um litígio insanável. em comum, têm apenas o amor e o ódio e uma solidão que parece não ter cura. Será que algum dia conseguirão sobreviver a uma vizinhança tão declaradamente hostil?

Depois do realismo mágico de Os Demónios de Álvaro Cobra, do virtuosismo de Mal Nascer e da comédia de enganos que é o romance As Viúvas de D. Rufia, Carlos Campaniço regressa com uma ficção desafiante que nos faz pensar como a vida social e a civilidade são absolutamente essenciais ao equilíbrio dos seres humanos.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Delparaíso

 

A minha opinião: 

Delparaíso é um condomínio luxuoso com setenta casas em que a imagem é muito importante. Atrás da porta de cada casa há um universo que escapa áqueles que ficam de fora. E a vida de alguns destes ricos proprietários é tudo menos idílica. Drogas e falência, relações afetivas esgotadas e desentendimentos entre pais e filhos. E não são apenas alguns dos que lá vivem mas também outros para quem eles trabalham que fazem parte desta estória em que não falta discriminação e sexo, numa estrutura narrativa peculiar em que se muda de personagens como de parágrafo, sem contudo deixar de ser altamente viciante e perceptível, como se virasse a cabeça e observasse acontecer. Fascinante porque parece um guião. Vidas que se cruzam, pessoas que não são aquilo que parecem. 
E o final é que aquilo que acontece, amanhã continuará tudo na mesma. E tudo se completa com normalidade. 

Autor: Juan del Val
Páginas: 248
Editora: Planeta
ISBN: 9789897775758
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
Em Delparaíso tudo parecia idílico e perfeito, mas as aparências enganam.
Juan del Val abre-nos as portas. Entrem e vejam.
Delparaíso é um lugar seguro, vigiado 24 horas por dia, luxuoso e impenetrável.
Contudo, os seus muros não protegem do medo, do amor, da tristeza, do desejo e da morte. Fará sentido protegermo-nos da vida?

O escritor Juan del Val dirige o seu olhar, lúcido e implacável, ao microcosmos de uma urbanização de luxo nos arredores de Madrid. Mergulha neste mundo tão fechado quanto inacessível para construir uma história absorvente, às vezes divertida e frequentemente incómoda.

Neste livro encontramos personagens cujas vidas se cruzam: maridos infiéis, mulheres insatisfeitas, pais e filhos de costas voltadas, adolescentes a descobrir a sua sexualidade, uma atriz milionária que foi amante do rei na juventude, entre outros.

A cada página, o leitor vê-se confrontado com um dilema moral que o fará ler este livro com o coração apertado.

Os Dez Degraus

 

A minha opinião: 

E com este livro regresso à Idade Media para um romance de Época intriga e morte num mosteiro pela mão de Fernando J. Múnez. Dom Alvar é um cardeal e o protagonista que com a morte do seu mentor foi desafiado para um brutal jogo de enigmas num ambiente fechado em que se mata por interesses espúrios. E Isabel o seu grande amor e coprotagonista que vive um casamento de terror. E esses capítulos muito me custou ler porque Sancho Osório é o marido que agia como dono por matrimónio, uma ideia que talvez ainda perdure de tão enraizada e dê vazão em tanta violência. 

O temporal de inverno também acresce alguma tensão e suspense nesta trama. Mário, o obltato, que auxilia Dom Alvar serve para questionar os dogmas e os preconceitos que perduram e que muito habilmente o autor decompõe numa grande aventura.

Personagens carismáticas numa trama bem pensada mas um tanto extensa. O final foi intenso e uma luta entre o bem e o mal para vencer a superstição e o fanatismo.

Autor: Fernando J. Múñez
Páginas: 496
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03484-7
Edição: 2022/  maio

Sinopse: 
Amo-te tanto que me dói a vida se não te tenho…
Reino de Castela, 1283.
Alvar León de Lara, cardeal da Cúria Romana, 20 anos depois de ver a sua alma destruída pelo amor a uma mulher, regressa à abadia onde iniciou o seu postulado.
O pedido especial do seu antigo mentor desencadeia a tragédia: enigmas por trás de portas ocultas, crimes inexplicáveis, símbolos que conduzem a pistas e pistas que conduzem a logros.
Uma descida vertiginosa que fará Alvar enfrentar a verdade da mulher que lhe partiu o coração, a intransigência dos cobardes, a luta por manter-se entre os vivos e, finalmente, os Dez Degraus.
Fernando J. Múñez, autor do bestseller A Cozinheira de Castamar, transporta-nos para o lado mais obscuro da Idade Média, onde os personagens enfrentam demónios antigos que habitam entre nós ainda hoje: os preconceitos, as ideias irracionais e os dogmas inquestionados.
Dez Degraus podem ser os dez passos que faltam para fazer a diferença.

A Noite é um Jogo

 

A minha opinião: 

Um pequeno romance de apenas 120 páginas, dividido em quatro partes, de Camilla, a justiceira, que li em poucas horas.

Quatro jovens de familias abastadas, amigos de longa data, exorcizam os seus demónios quando todos os segredos e mentiras são revelados num jogo de verdade ou consequência na noite de passagem de ano. E nada voltará a ser como antes.

Entretenimento, nada mais. A escrita e as personagens, sem muito enredo ou detalhes, envolvem o leitor que sente empatia e se torna conivente com o desfecho, que se faz breve.

Autor: Camilla Läckberg
Páginas: 136
Editora: Suma de Letras
ISBN: 9789897845970
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
Quatro amigos
Liv, Martina, Max e Anton são melhores amigos há anos. Na véspera de Ano Novo, estão mais do que felizes por passar a noite juntos - a beber, a namoriscar e a jogar.

Quatro segredos aterrorizantes
Mas cada um deles guarda um terrível segredo. E, quando um jogo de verdade ou consequência toma um rumo sombrio, não demora muito a emergir uma verdade chocante.

Uma noite que terminará em assassinato
Agora, os segredos já não o são. Nada mais será o mesmo. E nem todos viverão para ver chegar o novo ano…

O Que Diz Molero

A minha opinião: 

De início não foi fácil. O enredo parecia obtuso. Duas personagens, Austin e Mister DeLuxe dialogaam sobre reparos de Molero mas o porquê de tanta minúcia com muitas personagens não se compreendia. Depois a escrita quase poética e simultâneamente brejeira e bem humorada que remonta a outro tempo num lugar como um bairro típico de Lisboa convenceu e deixou de ser relevante porque gradualmente foi fazendo sentido. O galhardo grupo dos Sertórios, Vai ou Racha e o Angêlo animaram o meu serão. O que diz Molero é para ser lido em voz alta e saborear a cadência das palavras. O mergulhar temeroso e analítico na escrita que tira o fôlego.

Um relatório sobre um rapaz, sem nome, desde a sua infância numa demanda pelo sentido para a vida, para escapar à miséria ou ao peso dos outros. Não é desgraçadamente cómico mas brilhante e intemporal.

Autor: Dinis Machado
Páginas: 152
Editora: Quetzal Editores
ISBN: 9789725647622
Edição: 20/  

Sinopse: 
O que Diz Molero, de Dinis Machado, conta a história de um rapaz, nunca referido pelo nome próprio, oriundo de uma comunidade pobre, que mergulha no mundo em busca da grande aventura vivencial. Molero é um detective incumbido (pelos seus superiores, Austin e Mister Deluxe) de seguir o itinerário - mental, emocional e geográfico - do rapaz e fazer os respectivos relatórios. Esses relatórios vão sendo comentados e discutidos, e é através destes que o leitor conhece a história do rapaz: as viagens, as mulheres, os livros.
Este romance, que revolucionou a linguagem, a literatura, e a maneira de se ver a literatura, teve mais de vinte edições desde a sua primeira publicação, em 1977, e vendeu mais de cem mil exemplares, sendo um dos raros livros que, em Portugal, têm sido aclamados quer pela crítica quer pelo leitor comum, alcançando o estatuto de clássico da literatura do século XX. O que Diz Molero imortalizou Dinis Machado e tem adaptações ao teatro e ao cinema, e traduções em francês, italiano, espanhol, alemão, checo e búlgaro. 

terça-feira, 5 de julho de 2022

Oh, William!

 

A minha opinião: 

Gosto tanto dos romances de Elizabeth Strout que não podia dispensar Oh William!. Os romances são centrados em personagens profundamente humanas e honestas em que o protagonismo têm sido feminino com Lucy Barton e Olive Kitteridge. O que contam é em tom confessional e íntimo sobre todo o tipo de relacionamentos, principalmente os matrimoniais, maternais ou filiais. William foi marido de Lucy Barton e mantém uma relação próxima, amadurecida, que a faz sentir segura. 

"O que eu quero dizer é que as pessoas estão sozinhas. Muitas pessoas não conseguem exprimir a quem conhecem bem aquilo que sentem que talvez queiram dizer." (pag. 113)

Uma saga familiar que nos desconforta porque Lucy Barton nunca facilitou. E o tanto que compôs as suas vidas vai sendo revelado. Oh William é o que se sente. O que devemos descobrir antes que seja demasiado tarde.

Não sei se será um livro para todos ou somente para alguns. Os que a admiram.

Autor: Elizabeth Strout
Páginas: 224
Editora: Alfaguara Portugal
ISBN: 9789897843051
Edição: 2022/  junho

Sinopse: 
No regresso da personagem Lucy Barton — protagonista dos romances O Meu Nome é Lucy Barton e Tudo é possível —, encontramos, desta vez, uma mulher madura, que conquistou fama e sucesso enquanto escritora.

Um acontecimento inesperado traz de volta à vida de Lucy o seu primeiro marido, William, alguém que foi sempre um mistério para ela. Misteriosa é também a forte ligação que os une ainda. Lucy acaba de ficar viúva, William atravessa uma crise no seu terceiro casamento, enquanto procura descobrir um segredo do passado da mãe. É a Lucy que William pede apoio e companhia. Juntos iniciam um périplo geográfico e emocional que os levará para longe de Nova Iorque.

Ao evocar o passado de ambos — os tempos da faculdade, o nascimento das filhas, a dissolução do casamento e as vidas refeitas com novos companheiros —, Strout compõe o retrato de uma convivência de décadas, conturbada e cúmplice. à medida que a narrativa avança, entrevemos as forças silenciosas que mantêm Lucy e William unidos. Percebemos também que, para se habitar em pleno uma nova vida, é preciso sarar feridas e celebrar o que se conquistou.

Oh, William! — saga familiar cujo esqueleto vai sendo desmontado em camadas — assenta num ponto nevrálgico: a voz indómita de Lucy Barton, veículo para uma reflexão profunda e delicada sobre a existência, qualidade presente em todos os livros da magistral Elizabeth Strout. Um romance luminoso sobre o amor, a perda e os segredos de família que regressam sem aviso e nos deixam aturdidos.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O Demónio das Águas Sombrias

A minha opinião: 

Raramente surgem bons mistérios, mas se tiveres um pouco de imaginação, consegues inventar tudo o que quiseres. Stuart Turton tem uma imaginação prodigiosa. A história do Batavia, um navio holandês que naufragou na costa da Austrália, em 1662, proveniente de Amesterdão, a caminho de Jacarta foi o que lhe ficou na cabeça. Daí partiu para um policial de época com mistério, aventura e humor e manteve a tensão, os barcos e o horror. Acrescentou um demónio. Medo. Tudo ficção.

Um romance que certamente exigiu muita investigação e que Stuart sabe bem contar sem maçar por ser divertido e muito rápido. E para finalizar nada descobri, o que prova que para além de ser ótimo a engendrar é ainda melhor a despistar e a surpreender. Stuart, não te vou perder de vista.

Autor: Stuart Turton
Páginas: 500
Editora: Minotauro
ISBN: 9789899027428
Edição: 2021/  maio

Sinopse: 
Um crime impossível, um demónio e uma viagem maldita. Corre o ano de 1634 e Samuel Pipps, o maior detetive do mundo, está preso num barco a caminho de Amesterdão, onde o esperam o julgamento e a forca. Com ele viajam o seu fiel amigo, Arent Hayes, determinado a provar a inocência de Pips, e Sara Wessel, esposa do governador geral da Batávia, nas Índias Orientais.

Subitamente, uma série de eventos misteriosos intriga a tripulação e os passageiros: um estranho símbolo aparece numa vela, um leproso falecido ronda o convés e vários animais são sacrificados. E, como se não bastasse, uma voz aterroriza os passageiros nas sombras com a profecia de que testemunharão três milagres diabólicos.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O Regresso dos Andorinhões

A minha opinião: 

Que livraço.

Diariamente toni redige umas notas com a sua verdade, por muito triste, dolorosa ou repulsiva, que seja, para deixar como legado, eventualmente ao seu filho, uma vez que planeia o suicídio para dentro de um ano. Com o regresso dos andorinhões. Com esta sintese muitos serão os que se sentirão a não o ler por julgarem lúgrube ou amargo e nada disso se pode atribuir. As palavras "de uma sinceridade descarnada" são de um homem que queremos conhecer e de quem se gosta muito. No balanço e desapego Toni redimensiona e o que se percebe é o que vale a pena. 
E é brilhante como uma vida banal se pode tornar uma história que a todos toque, mesmo que as circunstâncias sejam diferentes. Terno e compassivo Toni muito me divertiu e as páginas voaram. Um clichê mas 800 páginas podem ser muito pouco quando a história é apaixonante. E não é apenas a sua história mas as dos poucos que constituem o seu circulo próximo, com o restrito núcleo familiar, o único amigo e uma ex-namorada. E não se esqueceu do estado da nação... Espanha. 
Afinal, e o fim? Toni sabia quando, mas... É melhor ler. Eu irei reler, com certeza.

Autor: Fernando Aramburu
Páginas: 808
Editora: Dom Quixote
ISBN: 9789722074988
Edição: 2022/  maio

Sinopse: 
Toni, um professor de Filosofia zangado com o mundo, decide pôr fim à vida. Por mais livros que tenha lido, Toni confessa que há coisas que não entende, e acredita que já viveu o que tinha de viver. Meticuloso e sereno, escolheu a data: dentro de um ano. Até lá, tentará colocar todos os seus assuntos em dia e descobrir as verdadeiras razões desta resolução. Mas apenas o regresso dos andorinhões, na primavera, confirmará se tomou a decisão certa.

Durante a contagem decrescente que vai de 1 de agosto de 2018 até à data escolhida para o suicídio, Toni desfaz-se gradualmente dos seus pertences e, todas as noites, no apartamento que partilha com a cadela Pepa, dedica-se a escrever uma crónica pessoal, dura e descrente, mas não menos terna e cheia de humor.

Na sucessão de episódios amorosos e familiares de uma constelação humana viciante, Toni, um homem desorientado, mas determinado a contar as suas ruínas, dá-nos, paradoxalmente, uma lição de vida inesquecível.

terça-feira, 14 de junho de 2022

A Colónia de Férias

 

A minha opinião: 

Um romance emocionante contado sobre a perspectiva de três irmãs líbias de 9, 7 e 5 anos que foram enviadas para uma Colónia de Férias em Itália, e ficaram presas do regime no início da Guerra. 

Conforme já tinha referido, os romances que se baseiam na Segunda Guerra Mundial e são muitos os que por aí grassam e alguns deles eventualmente muito bons não me tentam, com uma ou outra honrosa exceção. Ou seja, quando acrescentam algo ou apresentam a História numa outra perspetiva. Desconhecia a existência destas Colónias que deixaram cativas treze mil crianças. 

A narrativa mistura habilmente dados históricos com fição e focando aspectos da Guerra apenas nos curtos excertos de notícias da época no início de cada capítulo, é um romance muito bem escrito que não nos deixa indiferentes sobre sete anos das suas vidas. A extraordinária resiliência e ligação destas irmãs, que tudo fazem para se proteger e regressar fazem deste um grande romance. 

Autor: Manuela Piemonte
Páginas: 340
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03566-0
Edição: 2022/  abril

Sinopse: 
Três irmãs reféns da guerra, unidas pelo desejo de regressarem a casa.
Sara, Angela e Margherita crescem numa família feliz na Líbia, então uma possessão italiana.
No início de 1940, por ordem de Mussolini, as três irmãs, juntamente com outras treze mil crianças da Líbia, são levadas a conhecer a Itália durante as férias de verão e embarcam cheias de expectativas. Mas com o início da guerra, as férias de três meses transformam-se num interminável cativeiro: as irmãs acabam num campo para jovens fascistas, obrigadas a crescer num mundo sem pais, onde reinam a disciplina de ferro e o terror, obedecendo aos ditames da propaganda de Mussolini.
Quando o desejo de regressar a casa se torna insuportável, as três irmãs só veem uma saída: fugirem juntas, pondo em risco a própria vida...
Um romance comovente sobre uma página desconhecida da história da Itália na Segunda Guerra Mundial

terça-feira, 7 de junho de 2022

Café de Gatos

A minha opinião: 

Um romance, bastante romântico e que aquece o coração. Personagens encantadoras e uma gata, a Mimi, que é a primeira residente do café, que todos os clientes seduz.

Ternurento, não apenas para quem compreende os gatos, o que Leonie não conseguiu quando Susann lho pediu, mas para todos os outros leitores já que as peripécias foram muitas e bem divertidas. 

Que bem que soube. Um romance que nos dispõe tão bem que tudo o resto se esquece, enquanto passeamos em Colónia, perto do Reno ou numa ilha, Ísquia. 

E o final feliz tem um segredo bem doce.

Autor: Charlie Jonas
Páginas: 304
Editora: Edições Asa
ISBN: 9789892353494
Edição: 2022/  março

Sinopse: 
Susann está prestes a partir para Itália numas férias que poderão ser as últimas. Quando regressar, vai submeter-se a uma cirurgia que a impedirá de viajar durante muito tempo. É agora ou (provavelmente) nunca. Mas a ideia de deixar a sua querida gata Mimi com estranhos deixa-a desconsolada. É então que se lembra de Leonie, a vizinha com quem se dá tão bem. Estará a jovem professora disposta a aceitar o seu pedido? Com certeza que sim, afinal, a Mimi é um amor…

Leonie está familiarizada com as excentricidades das outras pessoas (principalmente se forem homens franceses), não com as de pequenos animais de estimação. Mas quando Susann lhe expõe o seu plano, ela não consegue recusar, pois tem a sensação de que a felicidade da vizinha depende demasiado daquela viagem.

Mas Leonie rapidamente percebe que ela e Mimi não fazem uma boa dupla: a gata parece fazer de propósito para tornar a sua vida num inferno, desde personalizar o sofá a destruir os frascos de verniz Chanel. E quando Susann decide prolongar as férias, Leonie entra em pânico e recorre a Maxie, a sua melhor amiga, que acaba de abrir um café. Pois Maxie também não consegue recusar um pedido de ajuda e aceita ficar com a gata. E é assim que Mimi e os seus bebés (sim, Susann vai ter uma surpresa…) tomam o café de assalto.

A vida destas três mulheres (e do café) não voltará a ser a mesma.

Porque a Mimi sabe o que nós humanos apenas intuímos: um gato muda tudo - para melhor, obviamente.