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sábado, 25 de fevereiro de 2023

A Escuridão

 

A minha opinião:

O caso de Elena, a rapariga que fora para a Islândia em busca de asilo e aí morrera. É esta a última investigação de Hurla depois de dispensada por estar próximo da reforma.

Um romance policial. Hurla é a protagonista que desconcerta mas o que mais me incomodou e inicialmente prendeu nesta narrativa foi esta e uma jovem mãe solteira serem vitimas de discriminação. E a sensação de sufoco e tensão que se espera de um bom thriller aumenta no ambiente gelado e árido com as mudanças de perspectivas numa história que avança rapidamente.

O final foi uma surpresa. Nada previsível. Nem o assassino e o mote, como quem Hurla se revelou. O frio não é apenas na ilha...
Gostei. Esperava algo mais sanguinário ou trepidante que abstraisse e o revés foi bom.

Autor: Ragnar Jónasson
Páginas: 288
Editora: TopSeller
ISBN: 9789898917904
Edição: 

Sinopse:
Abrangendo as ruas geladas de Reiquiavique, os fiordes isolados e as Terras Altas da Islândia, "A Escuridão" é o novo romance de um dos nomes mais entusiasmantes do policial nórdico atual.
Aos 64 anos, a inspetora Hulda Hermannsdóttir, da Polícia de Reiquiavique, está prestes a ser forçada a reformar-se, mas antes quer levar a cabo uma última investigação: Elena, uma jovem refugiada proveniente da Rússia, foi encontrada sem vida numa enseada rochosa em Vatnsleysuströnd, na Islândia.


Assim que começa a fazer perguntas, Hulda não demora muito a perceber que não pode confiar em ninguém. Elena não foi a única mulher a desaparecer naquela altura, e ninguém parece estar a contar a história toda. Quando os próprios colegas tentam pôr um travão na investigação, Hulda tem muito pouco tempo para desvendar a verdade, mas está determinada a descobrir quem é o assassino. Ainda que isso signifique colocar a própria vida em risco.

O Retrato de Casamento

A minha opinião:

Maggie O'Farrell é uma autora que já deveria ter lido (na verdade, já li Antes de nos Encontrarmos mas não me lembro) depois dos muitos comentários elogiosos.

Lucrezia é uma personagem magnética. Uma mulher jovem que apesar da sua vivacidade e inquietude foi considerada estranha e pouco apreciada no seio da familia que a casou com o noivo da irmã numa aliança política. A filha do meio que a partir do retrato do seu casamento recua à infância para recuperar memórias e contar a sua história. Alfonso é outra personagem forte que não fica apagado na narrativa.

O talento de Maggie é semelhante ao de um pintor e o que apreciamos é muito visual. Evoca no leitor outros tempos. O que parecia distante fica próximo. Não é uma história rápida e é contada a dois tempos. Belo e inspirado romance mas o final não me surpreendeu.

Autor: Maggie O'Farrell
Páginas: 376
Editora: Relógio D'Água
ISBN: 9789897833021
Edição: janeiro/2023

Sinopse:
A autora de Hamnet visita agora a Itália renascentista para nos dar um inesquecível retrato ficcional da jovem duquesa Lucrezia de’ Medici, cuja vida decorre numa corte turbulenta. Estamos na Florença de 1560 e Lucrezia, a terceira filha do grão-duque, sente-se confortável com o lugar obscuro que ocupa no palácio, entregue às suas ocupações artísticas. Mas, quando a sua irmã mais velha morre na véspera do casamento com o soberano de Ferrara, Modena e Reggio, Lucrezia é inesperadamente lançada na ribalta política.

O duque de Ferrara não perde tempo para a pedir em casamento e o seu pai é rápido a conceder autorização. Mal saída da infância, Lucrezia entra numa corte que lhe é estranha, com costumes que lhe são desconhecidos e onde a sua chegada não é bem recebida por todos. Começa por não perceber se o seu marido Alfonso é o esteta sofisticado, amigo de artistas e músicos, que aparentava ser antes do casamento ou um político impiedoso que as próprias irmãs receiam. Enquanto posa para uma pintura que lhe promete que a sua imagem perdurará nos séculos seguintes, vai-se tornando evidente que a sua principal obrigação é gerar um herdeiro que garanta o futuro da dinastia de Ferrara.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Canções para o Incêndio

 

A minha opinião:

A escrita de Juan Gabriel Vásquez é poderosa. Incómoda. Escreve sobre a violência, a guerra e as vitimas que são muitas. A morte de um filho ou do pai/ mãe. O acaso que muda destinos. Temas difíceis.

Os contos, todos eles, em sucintas palavras fazem-nos sentir tanto. A dor, a injustiça, o medo, a vergonha, o abandono e a paz. Tão bom que não podia esperar por o ler em ebook.

Nove contos, num estilo muito próprio, em que se admira a mestria e o conhecimento da natureza humana. Difíceis como a vida o pode ser, na ambiguidade que bem consegue captar. "A sensação, derivada da incerteza, de que tudo pode ser ficção ou, o que é pior, de que tudo pode ser verdade."

Autor: Juan Gabriel Vásquez
Páginas: 240
Editora: Alfaguara
ISBN: 9789897848650
Edição: fevereiro/2023

Sinopse:
Nas histórias de mulheres e homens comuns declinam-se temas como a memória, o poder e significado da violência, e a relação complexa entre literatura e verdade.

Uma fotógrafa de renome apercebe-se de algo que teria preferido ignorar. Um veterano da Guerra da Coreia confronta-se com um segredo do passado durante um encontro que parecia inofensivo.

Um escritor depara-se com a história apaixonante de uma órfã da Grande Guerra. Na Colômbia, em Espanha, Paris ou Hollywood, as histórias deste livro irradiam a estranha luz das coisas que ferem. Juan Gabriel Vásquez dá prova, uma vez mais, de mestria narrativa e profundo entendimento da existência humana.

Um livro belo e cru sobre a força do acaso, que declina temas como a memória, o poder e significado da violência, e a relação complexa entre literatura e verdade.

Desenhos Ocultos

A minha opinião:

Gosto de um bom thriller. Perfeito para desanuviar de leituras mais sérias. E este, apesar de suficientemente elogiado não o iria ler tão cedo, se não fosse uma sugestão de fevereiro de um clube de leitura. E cumpriu. Não o consegui pousar ... no tempo livre.

Suspostamente não é um thriller mas um livro de terror. Não percebi. Sobrenatural tem um pouco e talvez por isso mas é tão poucochinho. O que gostei foi da excelente escrita, boa trama e um desfecho que nada antecipei. 

Autor: Jason Rekulak
Páginas: 384
Editora: Edições Asa
ISBN: 9789892355429
Edição: outubro/2022

Sinopse:
Mallory Quinn tem 21 anos e está pronta para começar de novo após uma tragédia que quase lhe custou a vida. E a sorte parece estar do seu lado pois consegue um emprego como ama interna de um menino de 5 anos. Mallory gosta imediatamente de Teddy, um rapaz doce e tímido habituado a falar com uma amiga imaginária chamada Anya. Sempre acompanhado por um caderno e lápis, Teddy faz os rabiscos típicos das crianças: árvores, coelhos, balões. Mas um dia, ele desenha algo diferente… algo bastante sinistro… e não fica por aí.

À medida que os seus desenhos se tornam mais detalhados e assustadores, a própria Mallory começa a desconfiar de que algo está errado com ele. Nenhuma criança de 5 anos consegue atingir aquele grau de complexidade. É como se os desenhos fossem feitos por outra pessoa. Mas quem? Não está mais ninguém em casa. Certo?
Atormentada, Mallory pressente que o tempo escasseia e está disposta a tudo para decifrar o enigma e salvar Teddy - e a si própria - antes que seja tarde de mais.

Que a Vida Nos Oiça

 

A minha opinião:

Que a vida nos oiça é um romance que começa por ser amargo, critíco, cínico até, de um cineasta e escritor que chegou aos quarenta com um passado com muits lacunas. A mãe tem Alzeihmer. 

Parei porque julguei que não era livro para mim. O teor interessava mas não me convencia e enredava. Estranhamente percebi que estava curiosa e "maternal" com esta desengraçada personagem. O Vasco era alguém que gostaria de conhecer e recomecei a ler com entusiasmo. Uma grande vantagem de ler os nossos autores que nos transportam para cenários e experiências comuns, em que há "imagens" maravilhosas. Uma surpresa e um alerta. Os interlocutores/ outras personagens vão surgindo sem aviso mas quando o filme é planeado estou estou em sincronia e completamente enredada nesta estória. Um romance de descoberta que seria melhor se não fosse um pouco longo.

Autor: Vicente Alves do Ó
Páginas: 376
Editora: Oficina do Livro
ISBN: 9789896615901
Edição: janeiro/2023

Sinopse:
Vasco é realizador de cinema, tem um filme novo para estrear e não sabe o que fazer com o futuro.

A braços com uma crise de meia-idade, é apanhado de surpresa quando a mãe, com quem tem uma relação moldada por uma tragédia familiar e pelo divórcio dos pais, vem ao seu encontro para lhe contar que sofre de Alzheimer.

Abalado pela notícia, Vasco começa a trabalhar na ideia de um filme sobre a vida da mãe, para que ela consiga recordar o seu passado quando a memória começar a falhar. No entanto, durante o processo de investigação para esta biografia em forma de cinema, o realizador descobre uma história escondida que põe em causa as suas próprias raízes. Vasco inicia então uma autêntica aventura à procura da verdade, que tem tanto de real como de cinematográfica.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Quem Sai aos Seus

 

A minha opinião:

Os romances de Liane têm uma característica que me atraí. Personagens muito bem desenvolvidas em interação social e familiar onde procuramos pistas para uma ou mais teorias conspiratórias sobre os mistérios ou dramas, em que invariavelmente erramos. Apenas porque não compreendemos, que muitas das trivialidades mundanas, que até têm piada, ocultam mágoas e desgostos que afetam tão simpáticas e glamorousas personagens e as levam a reagir num encadeado de situações que não acabem bem. A familia Delaney, jogadores de ténis, competitivos, vão num jogo de espelhos revelando as suas faces e a tensão aumenta num romance ao melhor nível de Liane Moriarty. E há um elemento surpresa - Savannah.

Bem contado é credível. Viciante. E é um livro grande. O desfecho... Vale a pena. Quem saí aos seus... Bom título.

Autor: Liane Moriarty
Páginas: 528
Editora: Edições Asa
ISBN: 9789892354385
Edição: janeiro/2023

Sinopse:
Vista de fora, a família Delaney é perfeita. Joy e o marido, Stan, são treinadores de ténis famosos e arrasam nos courts e fora deles. Os seus quatro filhos - Amy, Logan, Troy e Brooke - já são independentes. Após vidas ativas tão intensas, Joy e Stan decidem vender a sua reputada academia de ténis e desfrutar da tranquilidade da reforma.

Mas quando uma mulher misteriosa entra inesperadamente na vida do casal e Joy desaparece sem explicação, deixando apenas uma mensagem enigmática, tudo é subitamente posto em causa. A polícia interroga Stan. Para alguém que se diz inocente, o marido parece ter muito a esconder. Dois dos filhos acreditam na inocência do pai, mas os outros dois não têm assim tanta certeza.

Divididos, eles têm pela frente o desafio mais duro e a pergunta mais arrepiante das suas vidas: será que alguma vez conheceram verdadeiramente os pais?
Está na hora de os irmãos Delaney reavaliarem a história da família… Os direitos para TV de Quem Sai aos Seus foram já adquiridos, após o estrondoso sucesso das adaptações televisivas das obras da mesma autora: Pequenas Grandes Mentiras e Nove Perfeitos Desconhecidos (ambas protagonizadas por Nicole Kidman).

W. B. Yeats — Onde Vão Morrer os Poetas

 

A minha opinião:

Uma pessoa genial. Nasceu e viveu na Irlanda, a Ilha Esmeralda. Uma mente inquieta, que escreveu milhares de poemas. E houve o teatro.

A biografia romanceada deste homem é apaixonante por pulsar de vida e deslumbramento. O cenário impressionante e envolvente por um amor intenso que perdura. E naturalmente era um místico. Intenso, carismático e talentoso, trabalhou para que o estilo celta e a lingua gaélica se imponham. Sem esquecer Maud Gonne, a musa inspiradora e manipuladora para tanta atividade cultural e intelectual deste homem sempre atormentado. Onde vão morrer os poetas?

Maravilhosa homenagem. Belíssima escrita para uma cativante personagem.

Autor: Cristina Carvalho
Páginas: 176
Editora: Relógio D'Água
ISBN: 9789897833137
Edição: dezembro/2022

Sinopse:
«Quero dar a conhecer alguém que dedicou toda a vida à poesia, ao teatro, à cultura mais enraizada no espírito celta da sua terra irlandesa: lendas, histórias muito antigas, canções, danças e crenças. Todo este folclore pertence a uma civilização muito especial, bela, ancestral. Depois do renascimento cultural irlandês, as motivações de um certo orgulho nacional que se julgava perdido vieram a ser acarinhadas por todo este povo. W. B. Yeats foi um dos mais notáveis impulsionadores desta identidade, das suas raízes e origens.»

domingo, 29 de janeiro de 2023

Tudo É Rio

 

A minha opinião:

O Rio é metáfora para a vida. Tudo traz, tudo leva, tudo lava. Tudo é intenso, tudo é muito. Menos o amor. O amor é uma verdade à prova do tempo. O prefácio reza assim e é tudo o que se sabe quando se abre este livro/ebook. E mais não se deve saber para que as personagens e a trama exerçam o seu fascínio.

Um romance safado de bom. Muito, muito bom. Personagens de vincada personalidade (já o referi) numa história que flui rápidamente como um rio, e arrasta o leitor na corrente sem querer sair. Frases curtas, pequenos capítulos, em constante sobressalto. Um livro de emoções e afetos. História simples e bem contada, sem desperdício de palavras. Avassalador. Tudo é muito com Dalva, Venâncio e Lucy.

Carla Madeira é uma autora- brasileira e que tem o seu jeito de escrever e o balanço da língua para conquistar fiéis. Não vou perder os romances que se seguiram.
O meu primeiro 7* estrelas do Ano.

Autor: Carla Madeira
Páginas: 210
Editora: Editora Record
ISBN: 9786555872316
Edição: 

Sinopse:
Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira. Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso. Na orelha do livro, Martha Medeiros escreve: "Tudo é rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga." A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui – ora intensa, ora mais branda – de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.

Cartas a Um Jovem Poeta

 

A minha opinião:

Não é uma novidade. A obra mais conhecida de Rilke que se correspondeu com um jovem aspirante a poeta e também ele militar, Franz Xaver Kappus. As cartas não são muitas, apenas dez, e este é um pequeno livro com um século de existência que iniciei numa hora de insónia. Inesquecível, acessível e extraordináriamente generoso. É justo referir que é uma sugestão de um clube de leitura.

Os livros quando são realmente mágicos deixam-nos alheados de tudo o que nos rodeia e ainda nos transmitem tanto, muitas vezes em conexão intíma profunda. Uma experiência necessária que é amiúde referida nestas cartas que têm muito de confessional e de passagem de testemunho de um homem frágil ou debilitado que muito reflectiu sobre as grandes questões da vida.

Autor: Rainer Maria Rilke
Páginas: 104
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789898979933
Edição: 

Sinopse:
Cartas a um Jovem Poeta é uma coleção de dez cartas escritas por Rainer Maria Rilke a Franz Xaver Kappus, um jovem militar que aspirava ser poeta.
De 1902 a 1908, Rilke oferece a sua orientação e revela a sua perspetiva sobre viver com incertezas, a superficialidade da ironia, a inutilidade da crítica, escolhas de carreira, a criatividade e a solidão.

Cartas a um Jovem Poeta é, assim, um manual de vida. A arte, disse Rilke ao jovem poeta na sua última carta, é apenas outra forma de vida.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Vida Mortal e Imortal da Rapariga de Milão

A minha opinião:

Domenico Starnone é o autor de um dos meus romances de culto - Laços. Adorei a escrita e a história, com personagens bem definidas e coração. Esperava algo similar. Não errei. Terno e muito bonito.

A delicadeza das palavras deslumbra numa narrativa que recorda a criança e jovem que fora. O primeiro amor. A nostalgia e inocência da infância, em que a avó é a figura maternal que o protege e acarinha. Valorizada quando a compreendeu. A avó que se enalteceu com as expressões em dialecto Napolitano que lemos em nota.

"Para as minhas invenções tive sempre necessidade, desde pequeno, de uma pitadinha de verdade."

Autor: Domenico Starnone
Páginas: 160
Editora: Editora Guerra & Paz
ISBN: 9789897029066
Edição: janeiro/2023

Sinopse:
Imagine uma criança napolitana sonhadora, sempre a olhar pela janela. A avó, pouco letrada, mas cheia de sabedoria e amor, anda pela cozinha e conta-lhe histórias, enquanto o miúdo olha seduzido para a varanda do prédio em frente, onde uma menina de cabelos negros dança sobre o parapeito.

Desse olhar, nasce um amor. Mimí, é este o nome do miúdo, está disposto a tudo por esse amor terno e jovem, desde desafiar o seu amigo Lello para um duelo até ir recuperar a menina bailarina ao reino dos mortos, se preciso for.

Quando se é criança, pode-se ser tudo e este irresistível livro, tão afiado como as espadas da imaginação escondidas debaixo da cama, tão precioso como uma jóia de família, em que a descoberta do amor e da morte se perseguem mutuamente, leva-nos, na voz única de um dos melhores escritores italianos contemporâneos, à nostalgia da infância. É impossível não se ficar fascinado pelo poder da palavra de Starnone, pela poesia das peripécias do pequeno Mimí e pelo seu périplo de formação e crescimento.

Sob Um Céu Escarlate

 

A minha opinião:

No meio de uma guerra em que há bombardeamentos aéreos o céu é para onde se olha. E era isto que eu esperava. A Guerra com toda a barbárie, que atualmente revivemos. E quando Pino foi deslocado para os Alpes fiquei surpreendida porque se afastava da guerra mas logo compreendi que nesta narrativa baseada em factos e no testemunho de Pino Lella, este faria parte da Resistência. 

A partir daqui, a guerra entra plenamente na história. A violência, a violação, a exploração e o desespero. Muito sentido e real, apesar de não apreciar a escrita. Penoso porque o que se passou sempre me deixou perplexa, tal a desumanidade e o ódio.

"A vida é mudança, mudança constante, e, a menos que tenhamos a sorte de descobrir a comédia que ela encerra, a mudança é quase sempre um drama, senão mesmo uma tragédia. Mas depois de tudo, e mesmo quando os céus se tornam escarlates e ameaçadores, ainda acredito que se temos a sorte de estar vivos pelo milagre de cada momento de cada dia, por mais imperfeito que possa ser."

Autor: Mark Sullivan
Páginas: 464
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789898979971
Edição: 

Sinopse:
Pino Lella não quer nada com a guerra ou com os nazistas. Ele é um adolescente italiano normal - obcecado por música, comida e miúdas, mas os seus dias de inocência estão contados. Quando a sua casa em Milão é destruída pelas bombas dos Aliados, Pino junta-se a uma via-férrea subterrânea ajudando judeus a escapar dos Alpes e apaixona-se por Anna, uma bela viúva seis anos mais velha do que ele.

Numa tentativa de protegê-lo, os pais de Pino forçam-no a alistar-se como soldado alemão - julgando que assim o manteriam longe de combate. Mas Pino é ferido e depois recrutado, aos dezoito anos, como motorista pessoal do general Hans Leyers, o caudilho de Adolf Hitler na Itália, e um dos comandantes mais misteriosos e poderosos do Terceiro Reich.

Agora, com a oportunidade de espiar o Alto-Comando Alemão, Pino luta em segredo, suportando os horrores da guerra e da ocupação, tendo a sua coragem reforçada pelo seu amor por Anna e pela vida que ele sonha que um dia compartilhar.

84, Charing Cross Road

 

A minha opinião:

Não sou muito expansiva a manifestar afetos mas gosto da galhofa e do convívio que os clubes de leitura proporcionam, sem descurar a enriquecedora partilha sobre livros. Muitos e muitos livros não teria conhecido ou lido sem esta partilha. E as afinidades trazem tanto de bom que perdura no tempo e à distância. Amizades.

Um exemplo é este pequeno livro que é maravilhoso. Se o encontrarem, leiam.

Os livros antigos usados uniram um pequeno núcleo de pessoas por correspondência desde 1949 entre os Estados Unidos e a Inglaterra. 

Um prazer de ler.

P.S.- As cartas não são ficção.

Autor: Helene Hanff
Páginas: 104
Editora: Lema d`Origem
ISBN: 9789898342034
Edição: 

Sinopse:
Em 1949, uma carta, escrita num pequeno apartamento nova-iorquino, atravessa o oceano Atlântico e vai parar às mãos de Frank Doel, funcionário da livraria Marks & Co., no número 84 de Charing Cross Road, em Londres. É assim que se inicia uma correspondência de vários anos, que virá a transformar-se numa história de grande amizade.

O Apelo

 

A minha opinião:

A curiosidade levou-me a comprar o livro. Não é demais referir que gosto de um bom thriller. Uma leitura conjunta foi o mote para finalmente o ler.

As críticas não defraudam. É realmente viciante e atual, uma vez que é em formato epistolar, através de emails, mensagens e notas, que fazem do leitor detetive e em que todos são suspeitos. Uma personagem irritante é mais suspeita do que os outros mas também é ela o fio condutor deste enredo e a vítima o baluarte da verdade.

Numa pequena comunidade, a hierarquia social é rígida, as lealdades são fortes e os rancores ampliados. E neste caso, o que interessa está nas entrelinhas.

Autor: Janice Hallett
Páginas: 464
Editora: Cultura Editora
ISBN: 9789899096677
Edição: julh0/22

Sinopse:
Caro leitor,
Em anexo estão todos os documentos necessários para a resolução deste caso, que começa com a chegada de dois desconhecidos à pacata cidade de Lockwood e termina com uma morte trágica.
Alguém já foi condenado pelo assassínio, mas suspeitamos que seja inocente e que haja segredos muito mais obscuros por revelar.
Com a preparação da peça Todos Eram Meus Filhos e o apelo para salvar a vida de uma menina de dois anos, o assassino escondeu-se à vista de todos. No entanto, acreditamos que cometeu erros. Por escrito. As provas estão todas aqui, entre as linhas, à espera de serem descobertas.
Aceita o desafio?

Afirma Pereira

 

A minha opinião:

Muitas e muitas vezes ouvi falar deste livro que protelei ler. Afirma Pereira é uma novela satírica sobre um passivo jornalista da página de cultura do Lisboa que, durante o regime salazarista entre 1938-43 descreve de modo muito afirmativo o que corresponde à verdade ou se assemelha a ela. Um homem com um grande coração fraco num verão quente que se sente só e fala com o retrato da mulher falecida. Insidioso e cativante protagonista. 

Não é à toa que este livro não passa ao esquecimento ou perde importância, assim como os valores que defende.

Autor: Antonio Tabucchi
Páginas: 224
Editora: BIS
ISBN: 9789896602116
Edição: 

Sinopse:
Num fatídico agosto de 1938, o mês crucial da sua vida, Pereira narra o que vai acontecendo e em que circunstâncias de um período trágico da sua existência e da Europa.

Tendo por pano de fundo o salazarismo português, o fascismo italiano e a guerra civil espanhola, Afirma Pereira é a história atormentada da tomada de consciência de um velho jornalista solitário e infeliz.

Sónetchka

A minha opinião:

Que maravilha! A escrita aprumada, elegante, requintada e a narrativa tragicamente realista. Alguns livros são pequenas obras de arte.

A vida de Sónetcka (diminuitivo de Sónia) era alimentada por invenções literárias alheias, enganosas e cativantes, até que conheceu Robert Viktorovich, criado com liberdade parisiense, que não exercia a sua profissão de artista ao serviço do Estado entendiante e sinistro, mesmo que pudesse reconciliar-se com a sua sede de sangue e as suas mentiras descaradas.
Uma critica nada subtil ao regime soviético e algumas considerações sobre diferenças de classes.

Sónechka é uma mulher comum judia que nos leva nesta pequena novela numa incursão pela História da Rússia do sec. XX como cenário de fundo da sua vida enquanto o circulo se fecha. 
Surpreendente. Mágico

Autor: Ludmila Ulitskaya
Páginas: 108
Editora: Campo das Letras
ISBN: 9789896234041
Edição: 

Sinopse:
Uma história subtil e inteligente sobre o destino de uma mulher, tendo como pano de fundo a História da Rússia no século xx — o regime soviético e o seu desmoronamento.

Desde a mais tenra idade que Sonechka, uma rapariga invulgar e pouco atraente, se refugia obsessivamente na leitura, a ponto de tratar personagens inventadas como pessoas reais. Com o início da guerra, Sonechka parte para Sverdlovsk, onde encontra trabalho como bibliotecária. Aí conhece Robert Viktorovich, um artista recém-libertado de um campo de trabalho forçado soviético, que, de rompante, lhe pede em casamento.

Seguem-se anos de satisfação, em que o amor conjugal, a maternidade e os cuidados do lar passam a ocupar o centro da vida de Sonechka, trazendo-lhe uma felicidade que ela nuncasonhou merecer e que sobreviverá ao período difícil do pós-guerra e ao surgimento de um surpreendente triângulo amoroso.

Publicado em 1995 e amplamente traduzido e premiado, Sonechka é o primeiro romance de Ludmila Ulitskaya e o início de uma fulgurante carreira que a consagrou como um dos nomes cimeiros da Literatura contemporânea internacional. Uma história subtil e inteligente sobre o destino de uma mulher, tendo como pano de fundo a História da Rússia no século XX — o regime soviético e o seu desmoronamento.

Caderno de Memórias Coloniais

 

A minha opinião:

Esta é a história da pequena Isabela e do colonialismo entretanto desaparecido. Trata de relações do gênero, racismo e do nacionalismo. Memórias de um tempo recente. Não me surpreendeu, mas de tão profundamente honesto pode chocar. Sem filtros e sem rodeios. Direto ao âmgo.

"Precisamos de tempo para compreender. Para matar. Para poder olhá-los de novo na cara com o mesmo amor. Para perdoar."

Isabela escreve sem desperdício. Tudo dito e em poucas palavras. E é extraordinário. E muito corajoso. Obrigatório ler.

Autor: Isabela Figueiredo
Páginas: 224
Editora: Editorial Caminho
ISBN: 9789722127585
Edição: Outubro/2022

Sinopse:
«O Caderno de Memórias Coloniais relata a história de uma menina a caminho da adolescência, que viveu essa fase da vida no período tumultuoso do final do Império colonial português.
O cenário é a cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, espaço no qual se movem as duas personagens em luta: pai e filha.» Isabela Figueiredo, in «Palavras prévias»

«Nenhum livro restitui, melhor do que este, a verdade nua e brutal do colonialismo português em Moçambique. Até porque, como a autora refere, ele aparece envolvido pelo mito da sua mansuetude - sobretudo quando comparado, como era sempre, com o apartheid sul-africano. Mito tão interiorizado pelos próprios colonos que através dele, como por uma lente, percepcionavam a realidade de que constituíam um elemento decisivo - como considerar-se a si mesmos violentos e prepotentes no tratamento que davam aos negros?
A verdade escondia-se sob a boa consciência necessária à regularidade quotidiana da vida «paradisíaca» dos brancos. Para a desenterrar era preciso ir procura-la nas sensações infinitamente vibráteis e virgens de uma menina, filha de colonos, que vivia à flor da pele o sentido mais profundo de tudo o que acontecia.»
José Gil, in «Sobre Caderno de Memórias Coloniais»