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domingo, 12 de agosto de 2018

Jogos de Raiva

Autor: Rodrigo Guedes de Carvalho
Edição: 2018/ maio
Páginas: 448
ISBN: 9789722065047
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Um homem levanta a voz acima da algazarra de conversas. E pede que ponham mais alto o som do televisor do restaurante. É então que todos reparam no que ele vê. Não percebem ou não acreditam. E na rua, no bairro, na cidade, no país, homens, mulheres e crianças vão-se calando. Está por todo o lado, a imagem horrível e hipnotizante. O homem que pediu silêncio leva as mãos à cara e pensa: como chegámos aqui?

A era da comunicação global trouxe inimagináveis maravilhas. Partilhas imediatas de ensinamentos, denúncias e solidariedades. Mas permitiu também que saísse das cavernas uma realidade abjecta. Insultos, ameaças, ironias maldosas. Nunca, como hoje, a semente do ódio foi tão espalhada.

É sobre este pano de fundo que se conta a história de uma família. Três gerações a olhar para um futuro embriagado num estado de guerra. Uma família que esconde, enquanto puder, um segredo.
Jogos de Raiva traça duros retratos sem filtro sobre medos e remorsos, sobre o racismo, a depressão, a sexualidade, o jornalismo, a adopção, a arte e a amizade. E o poder das histórias.
É sobre a urgência da confiança, da identidade e do amor.
É um livro sobre todos nós, à deriva num novo mundo


A minha opinião:
Estou a ler menos. Retomar o labor habitual após as férias custa e com este livro é garantido que logo na primeira página levamos um abanão, ou melhor, um estalo bem dado para acordar. Depois... é perceber como e porquê ao longo de uma narrativa que sem peias nem meias palavras explode à frente dos nossos olhos para nos recordar o que queremos esquecer ou ignorar. Assuntos tabu como o suicidio, a depressão, o racismo, são abordados de um modo que, os mais distraidos ou pouco exigentes não podem deixar de reparar, mesmo que não percebam o quanto custou a aguçar. Leitura exigente, durissima em algumas partes, abraça causas que não procuramos num romance e extrema-as até ao limite, sem com isso nos impedir de ler compulsivamente até ao fim. De assinalar, a escrita apurada, assertiva e tão lúcida de Rodrigo Guedes de Carvalho que nos obriga a ler e a reler. Importa refletir sobre o jornalismo de hoje e o impacto das redes sociais na vida quotidiana. 

A história gira em torno de uma familia do Porto. Riquissimas personagens. De conteúdo. Tanto de nós existe em cada uma delas. Os mais atentos, sensiveis e inteligentes vão perceber o quanto a vilania, ira, vaidade e inveja se manifesta e como combatê-la. A familia na dor da perda e na dor de não entender, subsiste e supera, com o amor que os une apesar das diferenças. 

Como Bernard Shaw tinha aconselhado numa lição para alunos de escrita criativa:"Se não consegues livrar-te dos esqueletos da tua familia, ao menos fá-los dançar".  (pag. 182)

Rodrigo, obrigada por esta dança.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Marcada para Morrer

Autoras: Peter James
Edição: 2018/ janeiro
Páginas: 472
ISBN: 9789897244094
Tradutor: Dina Antunes
Editora: Clube do Autor

Sinopse: 

Se há livros capazes de suspender a respiração normal do leitor, este é um deles. Tal como a obra anterior de Peter James, Marcada para Morrer é um thriller que promete dar que falar (e noites sem dormir).

Escutou-a a gritar. Um grito aterrador. Depois, surgem os corpos assassinados, uns no passado e outros no presente. No final, a perversidade por trás destes crimes vai surpreendê-lo e arrepiá-lo.

Até que ponto um passado tortuoso é capaz de gerar uma mente monstruosa e vingativa? O que fazer quando o pior mal existe naqueles em quem mais confiamos?

A minha opinião: 
Em jeito de desabafo, como é meu apanágio, admito que depois de muito adiar, comecei a ler este thriller com alguma relutância e cheguei a ponderar não o fazer. A maldade/ crueldade custa a ler, mesmo em ficção. 

Jovens mulheres escolhidas vigiadas e raptadas porque tinham determinadas carateristicas físicas, posteriormente marcadas para morrer por um psicopata que julga assim vingar o mal que sofrera, inquieta. Por outro lado, vicia, quando a sequência de acontecimentos narrados em curtissimos capítulos, cruza com um outro crime do passado, e ainda surgem suspeitas sobre o misterioso desaparecimento da mulher do detective Roy Grace. 

A ansia pelo castigo do vilão, o bem que deve vencer o mal, o percurso atribulado para o conseguir em que se procura antever a resolução dos inteligentes enigmas para evitar que mais crimes/ projectos aconteçam, não nos deixam parar de ler. Neste sentido, é um excelente thriller, semelhante no formato aos que li de Stephen King, em que se espera continuidade da trama num próximo livro. O senão, são as muitas personagens que dificultam um pouco no início, até se perceber qual a sua relevância na história, compensado pela empatia fácil e pronta com o protagonista.  

Ainda bem que não desisti. Valeu a pena. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Ilha dos Segredos

Autor: Nadia Marks
Edição: 2018/ julho
Páginas: 304
ISBN: 9789898741073
Tradutor: Inês Castro 
Editora: Noites Brancas

Sinopse: 
Muitas vezes, a vida corre ao contrário do planeado. Anna sabe-o melhor do que ninguém. Por isso, a viagem até à ilha onde estão as suas raízes promete dar-lhe a força de que tanto precisa. Na Grécia, Anna irá enfrentar a história desconhecida da sua família e descobrir mistérios enterrados há mais de cinquenta anos.

Nessa ilha paradisíaca do mar Egeu e à sombra dos limoeiros da casa de família, Anna irá confrontar-se com segredos dolorosos, histórias antigas e sensações adormecidas.

A Ilha dos Segredos é um romance sobre como o passado, o afeto pelos outros e a liberdade podem curar as feridas mais profundas.

«O grego antigo tem quatro palavras distintas para amor: agápe, eros, philía e storgé. Poderá afinal existir uma?»

A minha opinião: 
Agradada com este romance apressei-me a ler. A história é sobre um regresso ao lar, onde os cinco tipos de amor que os gregos reconhecem são vividos por Anna durante uma inesperada crise pessoal. Segredos, vislumbram-se logo no inicio, numa pequena comunidade, uma ilha grega, com todo o seu colorido sensorial descritos com afeição.

Na segunda parte, um amor proibido do passado é revelado. Um segredo de família oculto durante décadas. A partir daqui, este romance despretensioso e simples, entusiasma, ao ponto de não se conseguir parar de ler até tudo se saber. As personagens não são muito elaboradas ou marcantes, aspecto que registo com menor apreço. Ainda assim gostei. Um romance de verão. E um convite para uma viagem de descoberta e lazer.

Tenho de Saber

Autor: Karen Cleveland
Edição: 2018/ maio
Páginas: 296
ISBN: 9789897770104
Tradutor: Victor Antunes 
Editora: Planeta

Sinopse: 

Ao perseguir uma célula de agentes russos adormecidos em território americano, uma analista da CIA descobre um terrível segredo. Vivian Miller é uma dedicada analista de contra-espionagem que tem por missão descobrir os chefes das células de agentes adormecidos a operar nos Estados Unidos.

Ao aceder ao computador de um possível operacional russo, Vivian tropeça num ficheiro secreto sobre agentes infiltrados em território americano. Depois de mais alguns cliques, tudo aquilo que para ela é importante - o trabalho, o marido e até os quatro filhos - se encontra ameaçado.

Karen Cleveland, a autora do fenómeno editorial do momento, trabalhou para a CIA como analista durante oito anos, os últimos seis ligados ao contraterrorismo.

A minha opinião: 
Quando me falaram deste livro, não liguei. Quando vi a capa, não liguei. Apenas mais um livro de espionagem. Não me chamou. Não sabia o livro que se seguiria, mas como fora emprestado com a convicção de que iria gostar, acreditei. E não é que não erraram?! A história gira em torno de uma agente que procura descobrir espiões russos infiltrados nos EUA e quando o consegue, descobre o marido. O casamento feliz e a harmonia familiar são postos em causa para esta mulher em conflito.

Narrativa na primeira pessoa, com um discurso intimista e introspectivo na demanda para encontrar uma saída a uma situação impossível. O leitor, cético, acompanha-a, e é surpreendido com o desenlace, em que a ultima frase, aliás, a ultima palavra, lança uma nova perspetiva sobre toda a trama, que certamente terá continuidade.

Recomendo sem reservas.

A Namorada

Autor: Michelle Frances
Edição: 2018/ maio
Páginas: 376
ISBN: 9789722362313
Tradutor: Manuela Madureira
Editora: Presença

Sinopse: 

Direitos de adaptação cinematográfica já foram adquiridos pelos estúdios londrinos Imaginarium.

Laura é uma mulher realizada. Tem uma carreira bem-sucedida, um casamento estável com um homem rico e um filho, Daniel, que ela adora. Quando Daniel, estudante de medicina de 23 anos, conhece Cherry, uma belíssima e inteligente rapariga oriunda de um meio mais modesto, Laura acolhe-a de braços abertos.

Mas Laura começa a desconfiar que a sua futura nora não é bem o que aparenta ser... Laura tentará a todo o custo afastá-la da vida de Daniel. Mas Cherry não é fácil de afastar…

Um thriller psicológico de cortar a respiração.

A minha opinião:
Muito bom este thriller. Uma compra acertada. Não é apenas mais um. Surpreende.

Um romance ensombrado por uma mãe possessiva e solitária que não aceita bem a namorada do seu único filho. A ambiciosa namorada deseja sair da pobreza em que viveu e sonha com uma vida desafogada como os demais, algo que falhou na anterior relação. Razoável e banal. Dois lados sob o escrutínio do leitor. Duas mulheres em disputa pela atenção de Daniel. Plausível, até que a situação se extrema e o lado negro sobressai. Inferiorizada a namorada retalia.

A escrita fluida num enredo singelamente brilhante em que a interação/ação prende do princípio ao fim. Cada capitulo dá sequencia ao seguinte, de modo que, não se consegue parar de ler, apanágio de qualquer thriller psicológico bem conseguido. Uma nova escritora. Como eu gosto de boas estreias! Como eu gostei deste livro! Um excelente thriller para este verão.

Laços

Autor: Domenico Starnone
Edição: 2018/ junho
Páginas: 144
ISBN: 9789896655938
Tradutor: Vasco Rato
Editora: Alfaguara

Sinopse: 


Domenico Starnone oferece-nos um olhar incisivo e terno sobre o amor, o casamento, a família, o legado que deixamos aos nossos filhos e o lugar que a liberdade individual pode ter no meio de tudo isso. 

Um romance provocador, intensíssimo e verdadeiro, pela mão de um dos maiores nomes da literatura italiana contemporânea.

O amor é um jogo sublime. 
E uma perigosa armadilha. 
Um romance magistral sobre as forças subterrâneas do amor.


A minha opinião: 
Laços. Um título bem escolhido. E que história de vida! Uma verdadeira jóia literária.

Os laços. Os laços que damos. A maneira como os apertarmos (como aos atacadores dos sapatos). Um pormenor que envolveu todos. Um pormenor que os distingue e simultaneamente os aproxima de tantos outros que vivenciaram experiencias análogas na dinâmica parental. O apertar e o desapertar que leva à aproximação dos filhos, enquanto ele e ela, apreenderam a arte da reticência. "Desde essa crise de há tantos anos, apreendemos os dois que, para vivermos juntos, devemos dizer um ao outro muito menos do que aquilo que calamos." (Pag.97)

Relato perspicaz e cru de uma relação visto por todos os ângulos e sob diferentes perspectivas. Inicialmente, a ruptura em formato epistolar com a Vanda, a mulher. No meio, o marido Aldo, já idoso, numa passividade lucida e resignada e por fim, a filha Anna e um vislumbre do Sandro, o filho.

Laços afetivos emaranhados num romance magistral, sem ser leve ou ligeiro, em que cada palavra tem o seu peso e marca e leva à reflexão.

Muito bom. Recomendadissimo.

Chama-Me pelo Teu Nome

Autor: André Aciman
Edição: 2018/ junho
Páginas: 284
ISBN: 9789897244360
Tradutor: Hugo Gonçalves
Editora: Clube do Autor

Sinopse: 
Chama-me pelo Teu Nome é um romance arrebatador sobre o desejo e a experiência da atração. Uma das grandes histórias de amor do nosso tempo, narrada de forma inteligente e imprevisível.

Na idílica Riviera italiana nasce um romance intenso entre um rapaz de dezassete anos e o convidado dos pais, um estudante universitário que irá passar com eles umas semanas no verão.

A mansão sobre as falésias é povoada por um conjunto de personagens excêntricas, com um gosto especial pela boa vida. Mas nenhum dos jovens está preparado para as consequências da atração, que, durante essas apaixonadas semanas de calor, mar e vinho, faz crescer entre eles o fascínio e o desejo, sentimentos que não conseguem suprimir, apesar de todas as proibições e dos perigos.

Divididos entre o receio das consequências e o fascínio que não conseguem esconder, avançam e recuam movidos pela curiosidade, o desejo, a obsessão e o medo, até se deixarem levar por uma paixão arrebatadora e descobrirem uma intimidade rara que temem nunca mais encontrar.

Chama-me pelo Teu Nome não é só uma história intemporal, é também uma análise franca, bela e dura sobre a paixão - como agimos, pensamos e sentimos. Uma elegia ao amor e um livro inesquecível.

A minha opinião: 
Em férias, partilhamos leituras. Um romance comentado e badalado, depois do filme, foi o escolhido. Uma história de amor no masculino. O encanto em idílicas paisagens italianas.

Um encontro, uma paixão de verão, ou uma atração sexual que se descobriu que era recíproca entre um jovem e outro um pouco menos. O afastamento e o reencontro no mesmo local. Os sentimentos, percepções e pensamentos, equívocos ou inseguranças, de todos os apaixonados. Sem distinção de gênero. Descomplexado.

Escrita simples, fluida e acessivel. Juvenil. No final, um pouco triste mas expectável. Verossímil. Recomendado.

Pátria

Autor: Fernando Aramburu
Edição: 2018/ março
Páginas: 720
ISBN: 9789722064019
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 

O retábulo definitivo sobre mais de 30 anos da vida no País Basco sob o terrorismo.

No dia em que a ETA anuncia o abandono das armas, Bittori dirige-se ao cemitério para, na sepultura do marido, Txato, assassinado pelos terroristas, lhe contar que decidira voltar à casa onde tinham vivido os dois. Mas poderá ela conviver com aqueles que a perseguiram antes e depois do atentado que transtornou a sua vida e a da família? Poderá saber quem foi o encapuzado que num dia chuvoso matou o marido, quando este regressava da sua empresa de transportes?

Por mais que chegue às escondidas, a presença de Bittori alterará a falsa tranquilidade da terra, sobretudo a da vizinha Miren, amiga íntima noutros tempos, e mãe de Joxe Mari, um terrorista encarcerado e suspeito dos piores receios de Bittori. O que aconteceu entre essas duas mulheres? O que envenenou a vida dos filhos e dos respetivos maridos, tão unidos no passado? Com lágrimas escondidas e convicções inabaláveis, com feridas e coragem, a história arrebatadora das suas vidas, antes e depois da tormenta que foi a morte de Txato, fala-nos da impossibilidade de esquecer e da necessidade de perdoar numa comunidade fragmentada pelo fanatismo político.

A minha opinião: 
Tal como sugerido, possivelmente o melhor livro que vou conseguir ler este ano. Imenso, 700 paginas, em que a intensidade narrativa em qualquer dos 125 pequenos capítulos, com cada uma das personagens das duas famílias protagonistas deste romance, quebre e o leitor perca o interesse ou se aborreça. Um romance que monopoliza o leitor e o insere na trama, recuando subtilmente ao passado enquanto desfolha as páginas, completamente enredado na vida domestica destes bascos. Impossível ficar indiferente, apesar do autor se coibir de emitir juízos de valor, apenas as perspectivas e motivações de cada um, porque... "Numa pequena povoação é muito difícil manter se à margem do movimento abertzale." (285)

A chuva, uma constante nos momentos mais dramáticos desta narrativa. A capa alude a isso. A trama gira em torno das sequelas da execução de um empresário de nome Txato no período mais conturbado ou violento do independentismo.

Um romance contemporâneo, num estilo sóbrio e realista, escrita simples e concisa, em que nada é descurado, desde a complexidade humana, social, politica... e até mesmo o papel da igreja.

Não foi à toa que o guardei para ler nas férias, quando a disponibilidade e pujança estão no auge. Não é leve mas importa ler.

domingo, 1 de julho de 2018

Uma Pequena Sorte

Autor: Claudia Piñeiro
Edição: 2018/ maio
Páginas: 256
ISBN: 9789722064491
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 

Uma mulher regressa à Argentina vinte anos depois de a ter deixado para fugir de uma tragédia. Mas aquela que regressa é outra: já não tem a mesma aparência e a sua voz é diferente. Nem tem sequer o mesmo nome. Será que aqueles que a conheceram em tempos a vão reconhecer? Será que ele a vai reconhecer?

Mary Lohan, Marilé Lauría ou María Elena Pujol - a mulher que ela é, a mulher que foi e a mulher que terá sido -, volta aos arredores de Buenos Aires, ao subúrbio onde formou uma família e viveu, e onde irá enfrentar os atores do drama que a fez fugir. Ainda não compreende porque aceitou regressar ao passado que se havia proposto esquecer para sempre. Mas à medida que o vai compreendendo, entre encontros esperados e revelações inesperadas, perceberá também que às vezes a vida não é nem destino nem acaso: talvez o seu regresso mais não seja do que um pequeno golpe de sorte… uma pequena sorte.

Claudia Piñeiro surpreende e cativa com este romance incisivo e comovente, onde a realidade e a intimidade se cruzam numa densa teia urdida para prender o leitor.

A minha opinião: 
Uma escrita cuidada, elegante, numa narrativa analítica, introspectiva e comovente, de uma mulher, docente, que regressa anonimamente a onde fugiu vinte anos depois. Uma tragédia que se percepciona desde o início, quando o mesmo capítulo sobre uma passagem de nível se repete amiúde . 

Não sei bem o que me atraiu neste romance. A capa, ou talvez o título. Sei que a sinopse não foi. Uma mãe que abandona o filho é algo que não realizo querer ler. E no entanto, ficava a perder, porque este romance diz muito sobre a natureza humana, as circunstâncias e os acasos que transformam e moldam destinos. Superficialmente, julgamos sentimentos, percepções e pensamentos na descodificação do outro, sem alcançar a dimensão do equívoco. 

Intenso, acutilante, sentido e pragmático, não se lê de animo leve, mas também não se consegue parar de ler. Uma pequena sorte é um extraordinário romance que marca. Uma mulher danificada e a sua pequena sorte, assim como a do seu filho, Federico, que contaram com a amabilidade de estranhos, porque não basta estar rodeado de gente para não se sentir só. Com um livro como este não se está só e também isso nos ensina o generoso Robert, como parte do processo de cura de Maria Elena.  

Um romance pequeno que é imenso sobre o porquê que não se consegue cogitar. Brilhante. 

segunda-feira, 25 de junho de 2018

A Mulher Entre Nós

Autoras: Greer Hendricks e Sarah Pekkanen
Edição: 2018/ maio
Páginas: 456
ISBN: 9789896655471
Tradutor: Gonçalo Neves
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 

Aos 37 anos, a recém-divorciada Vanessa está no fundo do poço. Deprimida, a morar no apartamento da tia, sem filhos, sem dinheiro e sem amigos verdadeiros. Richard, o seu carismático e rico marido, era tudo para ela. Mas, ao descobrir que ele está prestes a voltar a casar, algo dentro de Vanessa se desfaz. A partir de agora, na sua vida, só existirá uma única obsessão: impedir esse casamento. Custe o que custar.

Nellie é como qualquer outra jovem bela e sonhadora que chega a Manhattan para começar a sua tão sonhada vida adulta. Mas a personalidade tranquila que ostenta é apenas uma fachada. Na sua cabeça perdura o segredo que a faz fugir da sua cidade natal e que a impede de caminhar sozinha para casa.

Ao conhecer Richard - bem-sucedido, protector, o homem dos seus sonhos -, Nellie começa finalmente a sentir-se segura. Ele promete protegê-la de tudo para o resto da sua vida. Mas, de repente, começa a receber chamadas misteriosas. Algumas fotografias são mudadas de lugar no seu quarto. Alguém a persegue, alguém quer o seu mal. Mas quem?

A minha opinião: 
"A mulher entre nós"  é mais um thriller tão em voga hoje em dia. Ainda assim gosto de um bom thriller no feminino. E este pareceu-me promissor, como alguns que entretanto me ocorreram como "A rapariga no comboio" e "Ao Fechar a Porta". A mesma leitura fácil, com intriga e suspense que nos deixa expectantes. 

Duas personagens femininas dramáticamente ligadas ao mesmo homem. A preterida, perturbada e frequentemente alcoolizada e a atual encantada e subjugada. O ponto de viragem dá-se no final do capítulo 16 e aí sim, desmarcou-se dos demais. Mas... mais à frente voltei a recordar outras leituras, como "Pequenas grandes mentiras" e A Conspiração da Sra Parrish". 

Em suma, não tão original como eu pretendia, mas a trama foi bem engrendrada e conseguida, uma vez que me surpreendeu com algumas personagens a que dei menor atenção e não ficaram pontas soltas, mesmo aquelas que eu não tinha registado. Não deixa de ser um bom livro para levar nas férias. No final, A mulher entre nós não é quem poderiamos pensar. A sinopse e a capa sugestionam e convencem. 

Bem, gostei menos do esperava mas mais do que pensava. Confuso? Nem tanto, se o lerem. 

sábado, 16 de junho de 2018

As vinhas de La Templanza

Autor: María Dueñas
Edição: 2018/ abril
Páginas: 536
ISBN: 978-972-0-03085-6
Tradutor: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

Sinopse: 

Uma história de coragem perante as adversidades e de um destino marcado pela força de uma paixão.

Nada fazia supor a Mauro Larrea que a fortuna que tinha conquistado fruto de anos de luta e perseverança se desmoronaria de um dia para o outro, graças a um inesperado revés.

Asfixiado com dívidas e afogado em incertezas, aposta os últimos recursos numa jogada temerária na esperança de se reerguer. Até que a perturbadora Soledad Montalvo, mulher dum negociante de vinhos inglês, entra na sua vida para o arrastar rumo a um futuro inesperado. 

Da jovem república mexicana à radiante Havana colonial, das Antilhas à Jerez da segunda metade do século XIX quando o comércio de vinhos com Inglaterra converteu a cidade andaluza num enclave cosmopolita e lendário, por todos estes cenários se desenrola As vinhas de La Templanza, um romance que fala de glórias e derrotas, de minas de prata, intrigas de família, vinhas e cidades fascinantes cujo esplendor se desvaneceu com o tempo.

A minha opinião: 
Não são muitas as vezes que fico sem palavras com um livro. Um livro que supera todas as minhas mais auspiciosas expectativas numa semana de férias planeada para algumas leituras e dou por mim enredada apenas numa. E completamente envolvida. Rendida a uma personagem que me arrebatou. Um mineiro duro, audaz e temerário. Um aventureiro que procura noutras latitudes recuperar a sua fortuna. "Para o Oriente, as Antípodas, a Terra do Fogo, os mares do Sul." (pag. 483) México, Cuba e Espanha. Locais dispares que deixaram de existir e que foram reconstituidos com precisão e encanto. Uma piscadela de olho ao passado num jogo crucial (de bilhar) de mentiras e verdades, de paixões, derrotas, maquinações e amores frustados, em que intervêm duas mulheres prodigiosas e rivais. Corajosas, arrogantes e descaradas, assim são Carola e Soledad. As personagens ganham vida neste grande romance que lembra os grandes clássicos de outros tempos num tributo aos mineiros e adegueiros. 

Muito mais poderia acrescentar sobre os cenários com atmosferas e ambientes que segui ávida ou sobre a movimentada e vigorosa trama que na magistral prosa fluí com graça e sensibilidade, sem quebras, até que no final deixa um vazio na alma. Um romance que me deixa a clamar por mais romances assim, pelo que tenho de procurar ler "O Tempo Entre Costuras". Posto isto, tenho de ponderar bem o que ler a seguir...

sábado, 9 de junho de 2018

Estuário

Autor: Lídia Jorge
Edição: 2018/ maio
Páginas: 288
ISBN: 9789722065139
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Estuário é um livro sobre a vulnerabilidade de um homem, de uma família, de uma sociedade e do próprio equilíbrio da Terra, relatados pelo olhar de um jovem sonhador que se interroga sobre a fragilidade da condição humana.

Edmundo Galeano andou pelo mundo, esteve numa missão humanitária e regressou à casa do pai sem parte da mão direita. Regressou com uma experiência para contar e uma recomendação a fazer por escrito, e na elaboração desse testemunho passou a ocupar por completo os seus dias.

Porém, ao encontro deste irmão mais novo da família, vêm ter sem remédio as vicissitudes diárias que desequilibram a grande casa do Largo do Corpo Santo. Edmundo vai-se, então, apercebendo que as atribulações longínquas mantêm uma relação directa com as batalhas privadas travadas ao seu lado. E a sua mão direita, desfigurada, transforma-se numa defesa da invenção literária perante a crueza da realidade.

Em outros seus livros costumam a autora dar o rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos. Mas neste caso ambicio
na mais. Estuário pertence à categoria dos livros de premonição, através do enlace entre o desenho do futuro e a Literatura.

A minha opinião:
Queria ler um romance de Lídia Jorge! Tantos autores que ainda desconheço e que a pouco e pouco vou desbravando, cautelosa, na tentativa de compreender o que quiseram passar ao mundo com as suas palavras. O seu testemunho. Lídia admirada por tantos era uma ousadia e um deslumbre que não me tinha permitido. A escrita irrepreensível, madura e serena que me faltava. Contudo, tenho um misto de emoções sobre este romance, contraditórios como os que se abrigam no coração e são objecto de reflexão, também neste romance. A históra que o narrador conta, por personagem, com destaque para Edmundo, o jovem sonhador que, nuima missão humanitária perdeu parte da mão direita e se agarrou a uma utopia sobre um livro grandioso que alertava sobre a ameaça global, e do qual se foi distanciando, na medida em que se tornava mais próximo da complexidade e desnorte dos que o rodeavam e nele confiavam, não me fascinou pela morosidade contemplativa que condicionou a leitura. Presa das palavras, não fiquei do sentido das mesmas. A preocupação e premonição com os riscos ambientais, nomeadamente os plásticos que poluem os oceanos, é motivo de apreço, mas as personangens errantes não. 

Um livro belo mas não sedutor. Um livro que fica para reler mais tarde. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Macbeth

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2018/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789722535014
Tradutor: Maria Dulce Guimarães da Costa 
Editora: Bertrand

Sinopse: 

Passado nos anos 70, numa cidade industrial cinzenta e chuvosa, a força policial da zona está concentrada em acabar com um persistente problema de drogas. Duncan, chefe da polícia, é um idealista e visionário, um sonho para a população e um pesadelo para os criminosos. O comércio das drogas é liderado por dois homens, um dos quais, mestre da manipulação chamado Hécate, tem ligações aos poderes mais levados. E pretende usá-las para conseguir escapar ileso.

O seu plano consiste em manipular, de forma consistente e persistente, o inspetor Macbeth, um homem já de si suscetível a tendências paranoides e violentas. O que se segue é uma história irresistível de amor e culpa, de ambição política e inveja, que explora os recantos mais negros da natureza humana, assim como as aspirações da mente criminosa.

A minha opinião: 
Jo Nesbø é um gosto adquirido, ao qual regresso sempre que possível. As personagens que cria são fantásticas e o enredo cinematográfico. Desta feita, recuamos ao ambiente sombrio e intimidante dos anos 70, a uma cidade sórdida na costa oeste que ensombra os espíritos, corrompe corações e encurta vidas.

Como o nome indica - Macbeth é o drama de Shakespeare, recontado por Jo Nesbø, de que eu pouco ou nada sabia. Não foi uma leitura fácil. A violência, a ausência de escrúpulos e a ganância pelo poder levaram-me a interromper algumas vezes a leitura. Afinal, o poder é a droga mais viciante do mundo, despoja de todas as emoções que prendem à moralidade e à humanidade.

"Sob várias alcunhas, mas os químicos são os mesmos. As pessoas pensam que é um antidepressivo porque atua inicialmente como uma anfetamina das primeiras vezes, até que os episíodios se tornam psicóticos. " (pag. 323)

Macbeth sugestionado por Lady elabora um plano para matar o comissário-chefe Duncan e o herói torna-se o vilão. Inversão de valores. A voz feminina comanda porque visualiza o quadro completo e não apenas uma perspectiva. Antecipa comportamentos. Macbeth é um Populista.  E por fim, a fé na capacidade de mudança em que pequenos passos nos vão tornando melhores. Um pouco mais humanitários. Assim caminha o mundo. Intemporal. Pertubador. Atual.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata

Autores: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
Edição: 2010/ março
Páginas: 377
ISBN: 9789896720155
Tradutor: Ana Mendes Lopes
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 

Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. 
É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. 
Curiosa por natureza, Juliet Ashton começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. 
É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. 
Fascinada pela história da dita Sociedade Literária, e ainda mais pelos seus novos amigos, Juliet parte para Guernsey. O que encontra na ilha mudará a sua vida para sempre…

A minha opinião: 
Ler bons livros arruina a nossa capacidade de ler livros maus. (pag. 78)

Este romance estava pousado na minha estante à espera do momento certo que chegou agora. Um daqueles livros que comprei para ler um dia. Eventualmente, quando passasse à reforma. Como se eu precissasse disso! Comprei-o porque sabia que era bom. Com a sua reedição, depois do filme chegar às salas de cinema, com um título mais completo como Guernsey - A Sociedade Literárira da Tarte de Casca de Batata, peguei nele para desanuviar do thriller anterior. Não é exatamente como eu esperava. É melhor! Comovente e divertido, num estilo mordaz e loquaz, trata-se de um romance epistolar. As cartas de Juliet são espirituosas e fiquei fã dela desde a primeira. De resto, adorei tudo. As descrições da ilha, as extraordinárias personagens e a ligação entre elas. Um romance em que aprendemos sobre a Ocupação das Ilhas do Canal e não só, mais se pudermos rir ao mesmo tempo. Emocionei-me também. Nada sabia sobre este pedaço da História. Da Segunda Guerra Mundial sabia o suficiente para temer ler mais sobre o assunto. Sabia porém que uma sociedade literária com referência a livros seria fascinante de ler. 

Uma casualidade. Um livro é devolvido à sua legítima proprietária, Juliet Ashton e começa uma inesperada troca de correspondência no pós-guerra com os habitantes da ilha de Guersney e uma interessante partilha entre personagens tão altruistas e generosas.

Curiosamente, esta sociedade literária tem muito em comum com um grupo de leitores com quem me enconto mensalmente. As regras: "falávamos à vez dos livros que iamos lendo. No início, tentámos ser calmos e objectivos, mas essa intenção desmoronou-se rápidamente e o propósito dos oradores passou a ser o de tentar convencer os ouvintes a lerem o livro em questão. (Nós também o fazemos). Depois de dois membros lerem o mesmo livro já podiam discutir - que era aquilo que mais nos dava prazer. Nós liamos, falávamos e discutíamos livros e fomo-nos tornando cada vez mais amigos uns dos outros. (Nós também o fizemos). Outros habitantes da ilha pediram-nos para se juntarem à Sociedade e os nossos serões juntos passaram a ser momentos animados, vivos - de quando em vez quase nos conseguíamos esquecer da escuridão que grassava lá fora." 

PRECIOSO, DIVINO (como diria uma amiga minha), SUBLIME. Um romance para guardar e acarinhar, tão fácil de ler e ainda assim inesquecível. Não percam a oportunidade de o ler e apreciar a nova capa que achei linda. 



segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Mulher à Janela

Autor: A. J. Finn
Edição: 2018/ março
Páginas: 488
ISBN: 9789722361873
Tradutor: Maria João Lourenço
Editora: Presença

Sinopse: 

Anna Fox não sai à rua há dez meses, um longo período em que ela vagueou pelos quartos da sua velha casa em Nova Iorque como se fosse um fantasma, perdida nas suas memórias e aterrorizada só de pensar em sair à rua. A ligação de Anna ao mundo real é uma janela, junto à qual passa os dias a observar os vizinhos. Quando os Russells se mudam para a casa em frente, Anna sente-se desde logo atraída por eles - uma família perfeita de três pessoas que a fazem recordar-se da vida que já teve. Mas um dia, um grito quebra o silêncio e Anna, da sua janela, testemunha algo que ninguém deveria ter visto e terá de fazer tudo para encobrir o que presenciou . Mas mesmo que decida falar, irá alguém acreditar nela? E poderá Anna acreditar em si própria?

Um thriller eletrizante onde nada nem ninguém é o que parece.

A minha opinião: 
Li recentemente algo com o qual concordo. Por vezes, são os livros que nos escolhem. Parece bizarro, mas nem tanto, se considerarmos o que nos atrai para um livro. As editoras procuram acertar e sem dúvida que uma boa campanha publicitária resulta num bom número de vendas, mas não necessáriamente num sucesso que deslumbre o leitor. Pode ser apenas mais um livro que se lê. Este thriller atraiu e convenceu. 

Uma mulher em frangalhos, por razões que se desconhecem. Agorafóbica. Sabem o que é? Alguém que não aguenta estar em espaços abertos. E que sofre ataques de pânico. Alguém que se enclausurou em casa... e vê filmes antigos, quase todos a preto e branco. Anna, aliás doutora Fox, está só e anestesia-se com álcool e medicamentos enquanto espia os vizinhos através da lente da sua máquina fotográfica. Uma personagem que parece tão cinematográfica quanto as personagens dos filmes que assiste, quando testemunha o assassinato de uma mulher no outro lado da rua e ninguém parece reparar ou saber. Um pressuposto aliciante.

Puro psicopata. A adrenalina levava-me a interromper a leitura por alguns momentos e retomava logo de seguida ansiosa por saber mais. Gosto disso. Desse contágio que trespassa o leitor, quando somos reféns da tensão e suspense da narrativa. A personagem jogava xadrez e calculava as suas ações como numa partida para descobrir quem é o criminoso de entre os suspeitos. E o mistério adensa-se quase até ao final. A problemática protagonista cativa e dá que pensar. E o que se passa no seio de uma familia também. 

Muito Bom. Mais uma estreia. 

domingo, 20 de maio de 2018

Nem Um Som

Autor: Heather Gudenkauf
Edição: 2017/ julho
Páginas: 320
ISBN: 9789898869159
Tradutor: Rui Azeredo
Editora: TopSeller

Sinopse:

Para sobreviver ao perigo num mundo sem sons, todos os outros sentidos têm de estar em alerta máximo.
Após um trágico acidente, Amelia Winn perde a audição, entrando numa espiral de depressão que a leva a procurar conforto no álcool e a afastar-se de tudo o que de mais importante tem: o trabalho, o marido e, sobretudo, a enteada, que tanto ama.

Agora, passados dois anos, e com a ajuda do seu cão de assistência, Stitch, Amelia decide retomar a sua vida. Mas, quando o corpo de uma enfermeira sua amiga surge a flutuar num rio perto de casa, Amelia mergulha num mistério perturbador que ameaça destruir tudo outra vez.

À medida que as pistas começam a aparecer, o perigo volta a rondar a vida de Amelia. Quanto estará ela disposta a arriscar para trazer a verdade à superfície?

A minha opinião:
Confesso que quando a Cristina me falou deste thriller não me chamou a atenção. Tento perceber porquê, o que para meu grande embaraço e vergonha, deve estar relacionado com o facto de a protagonista, que dá título ao livro, ser surda. Subestimei Amelia Winn, uma extraordinária personagem. Uma personagem de quem não me apetecia afastar sempre que tinha que interromper a leitura. Sensata e afetuosa rejeitou a piedade depois do acidente criminoso que a remeteu para o silêncio, e para a bebida, até perder a familia. Com a ajuda de Jake e Stich (o seu cão de assistência) recuperou o controle da sua vida nesta sólida narrativa, sem vertigem mas com suspeição e mistério quando descobre a vitima de uma crime. A partir daqui começa a trama que segui com entusiasmo. 

Intui o assassino, mas as pistas levavam noutro sentido. De qualquer modo, a narrativa e a Amelia são tão empolgantes e inebriantes que não conseguia parar de ler até confirmar que todos os passos que dava eram aqueles que eu (friamente) daria. E a autora, da qual nada li e não vou querer perder, conseguiu um thriller ao mais alto nível (nem sempre os mais publicitados são os melhores, como é o caso).  Seguramente dos melhores thrillers que já li. 

Temas sérios do cancro e dos cuidados de saúde são debatidos em fundo. Pessoalmente, sei do que se trata e sei os custos que envolve. A surdez profunda é algo que me assusta e do qual nada sabia. Ler este thriller desmistificou e elucidou-me muito sobre soluções que não sabia existirem.

Brilhante!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A rapariga que lia no metro

Autor: Christine Féret-Fleury
Edição: 2018/ março
Páginas: 168
ISBN: 978-972-0-03038-2
Tradutor: Artur Lopes Cardoso
Editora: Porto Editora

Sinopse:

De segunda a sexta-feira, sempre à mesma hora matutina, Juliette apanha o metro em Paris. Nesse caminho diário e rotineiro para um emprego cada vez mais rotineiro, a viagem na linha seis é a única oportunidade de que Juliette dispõe para sonhar.

Aos poucos, essa necessidade espelha-se na observação dos demais passageiros, pelo menos, daqueles que leem: a velha senhora que coleciona edições raras, o ornitólogo amador, a rapariga apaixonada que chora sempre na página 247. Com curiosidade e ternura, Juliette observa-os como se, pelas suas leituras, lhes adivinhasse as paixões, e a diversidade das suas existências pudesse dar cor à sua vida, tão monótona e previsível.

Até ao dia em que, seguindo um impulso invulgar, decide descer duas estações antes da paragem habitual - e esse gesto, aparentemente inocente e aleatório, acabará por se tornar o primeiro passo de uma experiência completamente alucinante e tão perturbadora quanto a de Alice no País das Maravilhas.

A minha opinião:
Ao ver este pequeno livro recordei-me de "O Leitor do Comboio" e fiquei ansiosa por o ler. Livros que reportam a outras livros são sempre desejáveis para uma livrólica. Nem sempre são bons, mas ainda assim são imperdíveis.

O título fisgou-me logo, ou não fosse eu também uma rapariga que lê no metro. E tal como Juliette tenho algumas rotinas em que  observo as pessoas e o que lêem. Aborrece-me um pouco quando os livros vão tapados, mas compreendo que desse modo protegem a sua privacidade e a integridade dos livros.

Lamentavelmente, não me agarrou. O tom é de desalento e melancolia. Esperava que ficasse mais animado e nem por isso. A esperança e entusiasmo passou ao de leve. As referências a livros e autores, bem como as manias de leitor foi o que mais me agradou. As personagens não são relevantes, apenas suporte para os verdadeiros protagonistas, os livros. Julliette, a personagem principal merecia mais, assim como a criança Zaide. 

Enfim...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Uma Velha e o Seu Gato e a história de dois cães

Autor: Doris Lessing
Edição: 2016/ abril
Páginas: 96
ISBN: 9789722531436
Tradutor: Ana Falcão Bastos
Editora: Bertrand

Sinopse:
Dois dos mais emblemáticos contos de Doris Lessing, Nobel da Literatura. Era célebre a sua paixão pelos animais, especialmente os gatos, bem patente nestas duas histórias. Em Uma Velha e o Seu Gato, uma mulher de sangue cigano, agora velha, viúva, com pouco contacto com os filhos adultos, vai-se lentamente desligando do mundo, das normas sociais e da convivência com os outros. A sua grande companhia é o seu gato, com quem se vai tornando cada vez mais selvagem e mais afastada dos outros humanos. Em História de Dois Cães, Doris Lessing narra a fascinante amizade entre dois cães, até ao fim da vida de ambos. Um é morto a tiro por roubar ovos, o outro, envelhece e entristece com a perda do amiga e acaba por ser posto a dormir.

A minha opinião:
Mais uma vez afirmo que gosto de ler contos. E gosto de animais. Como tal, não podia deixar de ler este pequeno livro e para isso tive de fazer um interregno no que estava a ler, para numa tarde devorar estes dois contos. Importa referir que, Doris Lessing foi prémio Nobel da Literatura em 2007 e nesta pequena amostra percebi o seu imenso talento. 

Uma Velha e o seu Gato é um conto tocante sem ser piegas ou lamechas. Desde o início há uma critica implícita sobre a incompreensão e o abandono dos idosos pelas familias e pela sociedade, que como não se encaixam no padrão estabelecido são esquecidos ou acomodados nos lares para morrerem. Os interesses imobiliários também dão uma ajudinha neste desfecho. Sem sentimentalismo é um conto que machuca. 

Nada dúbia ou hesitante na escrita Doris Lessing assume a sua alma livre e lúcida que escreve sobre o que quer sem se preocupar com desconfortos alheios. A liberdade é um tema subjacente em ambos os contos. O gato é um animal incompreendido por muitos e Tibby não fugia à regra. Caçador que sobrevive independente mas aprecia a proteção e os afagos de um dono que escolhe. Hetty era uma velha extravagante que a familia rejeitou e que tinha por companhia o seu amigo gato.

A História de Dois Cães fala sobre as dificuldades de subsistir, o isolamento e o espaço aberto das grandes fazendas de África, onde os animais se podiam tornar selvagens mesmo quando criados pelo homem, como os dois cães da narrativa. A tentativa de os ensinar não era bem sucedida e o mais livre influenciava o mais dócil a seguirem soltos na vastidão que os rodeava. As incursões em fazendas vizinhas geravam alguns problemas que eram resolvidos a tiro. 

Ao contrário do que se poderia imaginar, os contos não são de encantar. De pensar para mudar. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Filha

Autor: Anna Giurickovic Dato
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 192
ISBN: 9789722064347
Tradutor: José Colaço Barreiros
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, revoltar-se continuamente contra a mãe e crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos.

Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas: Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?

Um livro que põe em causa todas as nossas certezas: as vítimas são ao mesmo tempo algozes e os inocentes são também culpados.

A minha opinião:
Desejava e receava ler este livro. Sabia qual era o tema e que este mexe comigo, e ainda assim estava convicta de que o devia ler. A medo comecei, preparada para o largar. Não aconteceu e li, incomodada, mas absorta, uma narrativa que vicia.

Uma extraordinária estreia, para mais com um tema forte. Não é para qualquer um, pelo que vou aguardar com expectativa os próximos romances.

O cenário de fundo é em Rabat, Marrocos, idílico, sobre o qual paira uma sombra funesta. Na perspectiva de Silvia, confusa e cansada, que vai olhando para trás e para a frente, num jogo entre o consciente e o inconsciente, sem conseguir intervir e é neste registo que decorre toda a narrativa. As memórias alegres e também as horrendas, onde sente que ainda pertence, enquanto atualmente em Roma, Itália, sente que não existe, presa num jogo perverso que assiste apática aquando da visita do namorado. Como leitora, li chocada. Compreensivel mas difícil de processar. Sofrimento, solidão e vergonha. Complexo. O pai desaparecido causa uma forte impressão na mãe e na filha, e afeta permanentemente a relação entre elas.

Muito bom. Em tempo de Eurovisão, replicando, se pontuasse leituras, teria quase nota máxima. 

sábado, 5 de maio de 2018

Um Amante no Porto

Autor: Rita Ferro
Edição: 2018/ abril 
Páginas: 224
ISBN: 9789722064811
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os meninos da Foz, o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará.

Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

A minha opinião:
Nas minha opiniões restrinjo ao que considero de interesse e acabam por ser restritas. Nesta senda começo por afirmar que gosto dos romances que Rita Ferro tem publicado recentemente. Escreve bem, brinca com as palavras e expõe estados de alma com sentido crítico. Franca, sem ser consensual ou humilde. Destemida e direta no discurso. 

Gostei de Zara. Posso estar equivocada mas tem muito da Rita que imagino. Lúcida e objetiva, para o bom e para o mal. Uma mulher que vê o "quadro" todo e não apenas parte. Nesta narrativa, na primeira pessoa, temos um retrato de epoca que reconheço (apesar de eu não ser natural do Porto) e o Amor;

"É extraordinário que nenhuma teoria o esgote e que ninguém se canse de o interpretar" (pag. 107)

que me arrebatou a partir do III capítulo. Muitos são os excertos que leio e releio antes de prosseguir a leitura. E gosto disso. Compreendo ou identifico-me com o que está escrito e dificilmente o conseguiria exprimir melhor. A complexidade da natureza humana e os equivocos nos relacionamentos tomando como exemplo Zara e  Álvaro.O fim do romance foi devastador. Sabia que não ficariam juntos mas não previ aquele desfecho que me pareceu genial e verossímel. 

Gostei muito. Enriquecedor e divertido, ainda que não fosse essa a intenção. Li arrebatada pelas personagens e pelas circunstâncias.