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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Águas Profundas

Autor: Robert Bryndza
Edição: 2018/ janeiro
Páginas: 328
ISBN: 9789899993389
Tradutor: Ana Lourenço
Editora: Alma dos Livros

Sinopse:
Debaixo de água, o corpo afundou-se rapidamente. Ali permaneceu, imóvel e imperturbável durante muitos anos, mas, lá em cima, fora de água, o pesadelo estava apenas a começar.
Quando a detetive Erika Foster recebe uma denúncia anónima informando que uma prova fundamental relacionada com um caso de narcóticos estava escondida numa pedreira abandonada nos arredores de Londres, ela manda investigar a pista. No espesso lodo das águas encontram as drogas que procuravam, mas também os restos mortais de uma criança pequena. O esqueleto é rapidamente identificado como Jessica Collins, a menina de sete anos que fizera as manchetes das notícias vinte e seis anos antes.

Ao mesmo tempo que tenta juntar provas novas à investigação, Erika depara-se com uma família que guarda muitos segredos, uma detetive atormentada pelo fracasso e a morte misteriosa de um homem que vivia junto à pedreira.

Será o assassino alguém dos elementos mais próximos da menina? Há quem não deseje ver o caso resolvido. E tudo fará para impedir Erika de descobrir a verdade.

A minha opinião:
Gosto de um bom policial. Daqueles que nos agarram e não largam até chegarmos ao final. Um final que não conseguimos prever. Uma personagem antipática ou demasiado simpática que parece suspeita, sem com isso alcançarmos o mote para o crime. Uma trama tão bem urdida que acompanhamos atentamente sem perceber onde vai descambar quando surge a primeira pista. Uma intriga vagamente familiar a um outro caso muito mediático ainda por deslindar. Enfim... em dois dias devorei este livro e sem ser initerruptamente porque tive que trabalhar. 

Numa investigação descobrem um cadáver de uma criança e Erika decide que tem que desvendar este crime que ocorreu vinte seis anos antes e apanhar o rasto a um assassino que ficou impune e que vai querer desaparecer. O desaparecimento de uma criança é um crime hediondo e provoca forte comoção social. Como leitor também não se fica impassível. A angústia da incerteza que se quer apaziguar com respostas. São necessárias personagens fortes que interajam desembaraçadamente para não o defraudar, o que é plenamente conseguido neste policial.

O prólogo que termina com a frase "À superfície, o pesadelo estava a começar" deixou-me empolgada para perceber os contornos do enredo que deu origem a um outro crime simulado de suicidio. E não parei de admirar a narrativa assinalada por muitos diálogos e marcada por pequenos capítulos, muitos deles recuados no tempo. A familia de Jessica provocou-me calafrios. 

Um bom sortilégio levou-me a ganhar este livro num passatempo. Adorei.


sábado, 27 de janeiro de 2018

O que dizem os teus olhos

Autor: Florencia Bonelli
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 376
ISBN: 978-972-0-03055-9
Tradutor: Luisa Feijó
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Antes de Matilda e Eliah, os protagonistas da trilogia Cavalo de Fogo, houve um amor maior nascido no deserto árabe…

Argentina, 1961. Francesca de Gecco é uma jovem de 21 anos, filha de imigrantes italianos. Embora a sua família seja humilde, com a ajuda de um parente rico Francesca recebe uma educação primorosa e inicia uma brilhante carreira de jornalista. No entanto, vítima de uma terrível deceção amorosa, que somente o tempo e a distância podem curar, a jovem jornalista aceita um cargo de secretária na embaixada argentina em Genebra, cidade que será apenas a primeira etapa de uma jornada especial.

A vida é generosa para com o coração de Francesca e oferece-lhe uma nova oportunidade para o amor: do outro lado do mundo, os palácios mais deslumbrantes do deserto árabe, conhecerá Kamal Al-Saud, um príncipe herdeiro da coroa saudita. Porém, no meio de tantos obstáculos, conseguirá Francesca ultrapassar as diferenças entre ela e Kamal e abraçar a felicidade?

A minha opinião:
Para almas românticas e sonhadoras não há melhor do que os livros de Florencia Bonelli. Para os outros também não. Os que pretendem um bálsamo para as amarguras da vida, e instantes de puro devaneio e idílio. 

Kamal Al-Saud é nobre, Francesca bela, mas ambos têm facetas humanas que não passam despercebidas ao leitor. A sua história de amor é o principal motivo de interesse, mas não é o único. As intrigas políticas, as diferenças de culturas e a aventura perigosa que enfrentam são outros dos motivos. As descrições de lugares e sítios que fazem parte do imaginário, ganham vida aos olhos do leitor. Enfim... boas razões mas nada invulgares, se não fosse a narrativa vibrante e apaixonada e o carisma das personagens com pontuais episódios de sexo arrebatado, que a escrita de Florencia consegue fazer brilhar. Fico sempre estupefacta por me deliciar com os seus romances, quando penso que já ultrapassei essa fase mais etérea.

Nem tudo são elogios porque neste romance fiquei um pouco desiludida com o não desenvolvimento contra o rei Saud e Tariki em represália ou vingança. Bem sei que foram punidos mas, não foi explicado como foi conseguido.

O que dizem os teus olhos é uma frase batida mas é um bom título para este romance. Também eu fiquei presa a este encantamento.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Como Parar o Tempo

Autor: Matt Haig
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 320
ISBN: 9789898869470
Tradutor: Ana Beatriz Manso
Editora: TopSeller

Sinopse:
«Tal como basta apenas um instante para se morrer, também basta apenas um instante para se viver. Fecha-se simplesmente os olhos e deixa-se que todos os receios fúteis se esvaiam.»

O meu nome é Tom Hazard. Pareço ter 40 anos, mas não se deixe iludir… sou muito mais velho do que isso. Séculos mais velho. E este é o meu perigoso segredo.
Fui contemporâneo de Shakespeare, vivi em Paris nos loucos anos 20, cruzei os mares de uma ponta a outra. Eternamente a fugir do meu passado e à procura daquilo que me foi roubado. Mas sem identidade ou raízes, a vida eterna pode tornar-se um vazio.

Numa tentativa de voltar à normalidade, arranjei trabalho como professor de História. (Quem melhor para relatar o passado do que alguém que o viveu realmente?) Talvez desta forma consiga perder o medo de viver.
A única regra para pessoas como eu é nunca se apaixonarem. Infelizmente, descobri isto tarde demais.

Escrito com alma e coração, Como Parar o Tempo celebra aquilo que nos torna humanos e ensina-nos uma verdade universal: a vida deve ser vivida sem medos.

A minha opinião:
O tempo de que disponho para ler não é muito. O tempo... é a pedra basilar deste romance. A perspectiva do tempo. O tempo que nos consola, que ansiamos e receamos, e nos faz ver à escala o que valorizamos. 

Um romance que me acompanhou no meu corre corre habitual em que espaçadamente lia os pequenos capítulos, que alternam entre o passado e o presente da vida de Tom Hazard, quais contos se tratassem. 

Um romance peculiar. Uma premissa interessante. A hiperlongevidade. Com Tom Hazard.

A capacidade de analisar a natureza humana e partir sem criar laços, de acordo com os critérios de um líder de uma sociedade secreta de membros como ele. Afetos e emoções embaçadas. Memórias vastas e dolorosas como uma dor de cabeça. A música capaz de acordar emoções. O amor que nos faz viver momentos que duram para sempre. Um romance que nos ensina como se pode parar o tempo. O tempo que esqueci perdida entre as páginas do livro. 
Comecei a ler a história de uma personagem banal apesar de diferente e dei comigo numa outra dimensão. Gosto de ler um livro assim. Mais do que a trama é o potencial para nos colocar em sintonia com o que o autor nos queria transmitir e fazer sentir.  Vale a pena partir nessa viagem.

sábado, 20 de janeiro de 2018

A Catedral do Mar

Autor: Ildefonso Falcones
Edição: 2009/ setembro
Páginas: 570
ISBN: 9789722515115
Tradutor: Ana Duarte
Editora: Bertrand

Sinopse:
Século XIV. A cidade de Barcelona encontra-se no auge da prosperidade; cresceu até ao humilde bairro dos pescadores, cujos habitantes decidem construir, com o dinheiro de uns e o esforço de outros, o maior templo mariano conhecido: Santa Maria do Mar. Uma construção paralela à desditosa história de Arnau, um servo da terra que foge dos abusos do seu senhor feudal e que se refugia em Barcelona. Daqui se torna cidadão e, assim, num homem livre. O jovem Arnau trabalha como estivador, palafreneiro, soldado e cambista. Uma vida extenuante, sempre à sombra da Catedral do Mar, que o tirará da condição miserável de fugitivo para lhe dar nobreza e riqueza. Mas com esta posição privilegiada chega também a inveja dos seus pares, que tramam uma sórdida conspiração que põe a sua vida nas mãos da Inquisição... Lealdade e vingança, traição e amor, guerra e peste, num mundo marcado pela intolerância religiosa, a ambição material e a segregação social. Um romance absorvente, mas também uma fascinante e ambiciosa recreação das luzes e sombras do mundo feudal.

A minha opinião:
Que romance histórico extraordinário!
A construção de uma Catedral pelo povo, que dá o título ao livro, numa conturbada época. Arnau Estanyol cresceu e viveu na sombra da Virgem Maria, que considerava como sua mãe e ligado a esta Catedral. Em criança, quando foi acusado injustamente e rejeitado pela familia, adolescente como bastaixo (carregador de pedras para a construção do templo), adulto enquanto heroi e amigo de um rico judeu que o orientou como cambista que passou a financiar as obras. Tantos acontecimentos e tantas peripécias que esta integra personagem narra que o tornam inesquecível!

Agora percebo a popularidade deste romance bem escrito e contextualizado. Quem o lê não pode deixar de ler as notas finais do autor para se inteirar do esforço e capacidade criativa nesta grandiosa narrativa. Elogios à dimensão deste livro que sofregamente e rápidamente li. Uma surpresa adiada por moderadas expetativas anteriores e demasiado peso para transportar.

O ambiente histórico com os seus vários intervenientes, considerando a tenebrosa Inquisição, a prepotente Nobreza, e os servos da terra que buscavam liberdade são impactantes neste romance, como não podia deixar de ser. O ódio aos judeus é outro dos temas fortes neste enredo. Enfim, muitos e bons motivos para não o deixar passar.

Muitos comparam-no ao "Os Pilares da Terra" de Ken Follett, mas como não foi uma das minhas leituras não o posso fazer. Assim, asseguro que talvez seja uma das minhas melhores leituras para este ano que se iniciou. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Prantos, amores e outros desvarios

Autor: Teolinda Gersão
Edição: 2017/ julho
Páginas: 144
ISBN: 978-972-0-04863-9
Editora: Porto Editora

Sinopse:
A morte de um homem amado; o pranto de uma mulher que falha uma promessa e se julga castigada; uma mãe, uma filha e o cheiro venenoso das acácias; uma mulher que se extravia dentro dos seus sonhos; aquele elevador com alguém preso lá dentro; o futebol, implacável jogo bravo; setenta e cinco rosas cor de salmão, seguras por um laço de seda e embrulhadas em papel de prata; solidariedade machista, conselhos de um velho a um rapaz; uma água-marinha que traz uma mensagem; não cobiçar as coisas alheias; uma teia de enredos, e a Alice que caiu num buraco do qual dificilmente conseguirá sair.

Catorze contos extraordinários, de uma das autoras mais consagradas e inquietantes da literatura actual, que nunca deixa de nos surpreender com a acutilância e profundidade da sua escrita. 

A minha opinião:
Comecei o ano a ler dois livros em simultâneo, o que não é nada habitual em mim. Claro que conclui primeiro o mais pequeno, que dissimulado dentro da minha mala me acompanhava para todo o lado. Um livro de contos. Um livro que eu adiava ler, por suspeita de que a linguagem fosse difícil e o estilo melancólico. Teolinda Gersão, um nome em que eu alimentava esse tipo de fantasia. Por isso, não experienciei mais cedo. 

Não poderia estar mais equivocada. A escrita é exemplar na sua correção, maestria e flui com desembaraço. A prosa é inspirada, e a leitura é fácil e enriquecedora. 

Contos soltos, na sua maioria numa perspetiva feminina em que tenho dificuldade em afirmar de qual gostei mais. Adorei o significado e desfecho do primeiro, emocionei-me com o segundo, entristeci  com o terceiro e o quarto, diverti-me com o quinto, compreendi muito bem o sétimo e o oitavo, inquietei-me com o nono, delirei com o décimo, suspirei com décimo primeiro, refleti amargurada sobre o décimo segundo e continuei a sentir todos como próximos inclusive o décimo terceiro. O mais longo, o último - Alice in Thunderlan - saí deste registo. Não deixei de o ler com toda a atenção porque a história de Lewis Carroll que tem por base, nunca me agradou por ser sombria e perturbadora. Prantos, amores e outros desvarios é um bom título. 

Possivelmente, os melhores contos que já li. Provavelmente, o primeiro seja o conto de que mais gostei. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Em jeito de balanço os sete livros que marcaram 2017 (sem ordem especifica)


 





 

Antes que Seja Tarde

Autor: Margarida Rebelo Pinto
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 272
ISBN: 9789897244001
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Neste novo livro de Margarida Rebelo Pinto encontramos três mulheres de gerações diferentes, desde os anos 60 até aos dias de hoje, com vidas sentimentais atribuladas e algo em comum: a atração pelo proibido. 

Antes que seja tarde é um romance sobre o lado mais selvagem do amor, quando a paixão manda mais do que a razão e os sentidos falam mais alto. Os amores proibidos nunca caem na rotina, mas serão o caminho certo para o verdadeiro amor? O que fazer quando não se pode construir uma vida com quem se ama? 

O destino cruzado destas 3 mulheres leva-nos a uma viagem alucinante sobre o lado obscuro das relações, onde a mentira, a traição e o adultério andam a par com a dignidade de uma grande história de amor.

A minha opinião:
Não escolhi ler este livro. Mas quando o recebi (obrigado Clube do Autor) gostei da sinopse e se não o li mais cedo foi porque outras leituras se interpuseram. Importa referir que há alguns anos atrás cruzei-me com a autora e... não foi um bom cartão de visita. Desde então, não leio os seus livros. Arrisquei agora e encontro maturidade e lucidez em estórias individuais de personagens com caminhos tortuosos de amores ilícitos. A protagonista é Maria do Amparo, de quem gostei desde o início. Apesar do desalento porque não se encaixa no papel de a outra quando se apaixonou por Gonçalo, é iluminada, forte e independente. 

As amigas Sara e Cristina desistiram dos homens mas ainda anseiam por um principe encantado. "Uma geração que veio ao mundo para completar os ideais femininos e que pagou caro o mito do happy end." (pag. 207) "Aos 50 deve ser complicado tentar ter 30".

O cliché é a amante do pai, Lurdes. E Luisa, a filha psicólcoga, que se vê enredada num amor improvável. E por fim, temos o lado masculino, através de Gonçalo, Jorge e Luis Miguel. Os dois primeiros são homens casados, apaixonados sem ser pelas mulheres e que optam por ficar e o segundo é o irmão de Maria do Amparo, que se apaixona por quem não deve mas escolhe.  

Narrativas soltas que se cruzam num conjunto harmonioso de leitura fácil e rápida. Estórias verossimeis, previsiveis, e tão nossas. Como tantas outras que tão bem conhecemos. Escrita corrente, acessivel e despretensiosa. Gostei muito e provavelmente vou voltar. 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A Educação de Eleanor

Autor: Gail Honeyman
Edição: 2017/ abril
Páginas: 328
ISBN: 9789720048981
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

Sinopse: 
Eleanor Oliphant tem uma vida perfeitamente normal - ou assim quer acreditar. É uma mulher algo excêntrica e pouco dotada na arte da interação social, cuja vida solitária gira à volta de trabalho, vodca, refeições pré-cozinhadas e conversas telefónicas semanais com a mãe.

Porém, a rotina que tanto preza fica virada do avesso quando conhece Raymond - o técnico de informática do escritório onde trabalha, um homem trapalhão e com uma grande falta de maneiras - e ambos socorrem Sammy, um senhor de idade que perdeu os sentidos no meio da rua.

A amizade entre os três acaba por trazer mais pessoas à vida de Eleanor e alargar os seus horizontes. E, com a ajuda de Raymond, ela começa a enfrentar a verdade que manteve escondida de si própria, sobre a sua vida e o seu passado, num processo penoso mas que lhe permitirá por fim abrir o coração.

A minha opinião: 
Eleanor Oliphant é uma personagem literária única e este romance é realmente um achado. Um belissimo primeiro romance

Uma capa banal que apenas faz sentido depois de ler o livro. À primeira vista não cativa. Ora bem, à segunda também não. Senão fosse uma ou outra critica/opinião que li, certamente não lhe teria pegado. A sinopse cumpre e não revela demasiado mas acaba por ser muito limitada. E as criticas na bandana, que normalmente são encaradas com cepticismo, desta vez são o melhor incentivo para esta leitura. 

Quantas vezes refletimos sobre o mal e nos que lhe são próximos? E nos que lhe sobrevivem? Afinal, não é apenas ficção. E com isto alerto para que nem sempre o que parece é, e um romance pode ser mais do uma história de enamoramento e felicidade como nos contaram em criança. 

Uma existência absolutamente vazia e rotineira. Durante anos foi assim a vida de Eleanor, mas um novo projecto para agradar à mamã, levou de um contacto a outro e assim mudou. Gradualmente a inteligente e mordaz Eleanor começa a sua educação. 

Cheguei a pensar que a inaptidão social se tratava de uma doença e fui avançando lentamente na leitura com um misto de expetativa, ansiedade e angustia. E o que mais me espantou foi a empatia com a personagem que se manteve coerente ao longo de toda a narrativa, enquanto vamos percepcionando o mundo pelos seus olhos. Um mundo que evolui na medida dos seu crescimento emocional. Divertido e embaraçoso, cruel e compassivo, um romance agridoce que mexe com emoções. Raymond e Sammy, que personagens secundárias extraordinárias. Generosas! E no final, algumas surpresas que acomodaram o meu coração e me deixaram a ansiar por mais. 

Obrigado Célia!

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Para lá do inverno

Autor: Isabel Allende
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 336
ISBN: 9789720030221
Tradutor: Ângela Barroqueiro
Editora: Porto Editora

Sinopse:
«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»
Albert Camus 

Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.

Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.

Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

A minha opinião:
No natal, numa pequna reunião em Brooklyn surgiu a ideia para este romance, que seria iniciado como todos os outros livros de Isabel Allende a 8 de janeiro. Considerando a frase de abertura de Albert Camus trata-se de encontrar a alegria (e o amor) numa fase da vida em que não era esperado. E com este pressuposto e para mais com o tempo que se faz sentir lá fora (muito aquém dos nevões em Brooklyn), escolhi um canto acolhedor para me dedicar a uma leitura tranquila. Contudo, já deveria saber, apesar de não serem muitos os livros que li desta senhora, que há sempre lições a retirar e que outros temas estariam subjacentes. A emigração ilegal, os refugiados, gangues e violência doméstica, seriam estes os temas e a leitura não seria tão pacifica como eu imaginava. Falta referir a critica social sobre os Estados Unidos que dispensa mais comentários. 

Três personagens bem delineadas. Três enredos fortes que se revelam na bagagem emocional de cada uma. Três personagens que acarinhei. A interação entre elas, na sequência de um pequeno acidente, foi muito reveladora, apesar dos diálogos simples e diretos. Alternado, cada personagem tem a sua vez para contar de si enquanto o mistério adensa sobre o crime que se quer desvendar. O romance maduro foi o que menos apreciei. Em compensação, adorei o final. 

E o balanço foi muito positivo. Uma senhora que sabe o que faz e faz muito bem. Retemperadora leitura. Equilibrada. Aguardo o próximo romance que certamente já deve estar a planear começar no próximo ano. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

As Coisas Que Perdemos no Fogo

Autor: Mariana Enriquez
Edição: 2017/ maio
Páginas: 208
ISBN: 9789897223341
Tradutor: Margarida Amado Acosta
Editora: Quetzal

Sinopse:
Nestas narrativas do macabro, selvagens, imaginativas e diabolicamente ousadas, Mariana Enriquez, dá uma vida vibrante à Argentina contemporânea, e torna-a num lugar em que a desigualdade, violência e corrupção constituem a lei, e a ditadura militar e milhares de «desaparecidos» se agigantam na memória coletiva. 
Mariana Enriquez tem sido comparada a Shirley Jackson e Julio Cortázar. 
A par da magia negra e dos inquietantes desaparecimentos, estas histórias alimentam-se da compaixão pelos atemorizados ou perdidos, acabando por trazê-los para realidades surpreendentes. Escrito numa prosa hipnótica, As Coisas que Perdemos no Fogo, é uma exploração poderosa do que acontece quando deixamos à solta os nossos desejos mais obscuros e assinala a chegada de uma voz surpreendente e necessária à ficção contemporânea.

A minha opinião:
Gosto de contos e desde logo este livro não me passou despercebido. Porém, receava o que iria ler. Sabia que tinha que estar mentalizada para narrativas breves mas assustadoras. Não errei. Algumas são recheadas de pormenores negros ou surreais, que não é o meu género, mas não consegui parar de os ler. 


O primeiro conto "O rapaz sujo" marca e define o tipo de leitura que nos espera. A prosa e o estilo de Mariana Enriquez. Dura, direta e critica. Um outro olhar para o exterior e o interior do que a rodeia. Sem contemplações ataca os grandes males, dividida entre os fantasmas do passado e os estigmas do presente. O último conto, nome do livro, foge completamente ao que  eu supunha, mas não é menos terrível, uma vez que em protesto pelo crime passional, que infelizmente não é nenhum absurdo, surge a autoflagelação. 

Pertubadoras histórias, como as de tradição oral que se contam em noites de Inverno.  Não é uma leitura recomendável para almas sensiveis, mas para quem gosta de terror anda lá perto. 

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Os Loucos da Rua Mazur

Autor: João Pinto Coelho
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 312
ISBN: 9789896604578
Editora: Leya

Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

A minha opinião:
O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos (e li recentemente um romance), mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral. 

A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka, é a misteriosa e relevante personagem do trio. 

A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Último dos Nossos

Autor: Adélaïde de Clarmont-Tonnerre
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 412
ISBN: 9789897243981
Tradutor: Miguel Serras Pereira
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Do inferno da Europa, em 1945, à Nova Iorque hippie. Neste romance premiado com o Grande Prémio do romance da Academia Francesa, Adelaide de Clermont-Tonnerre conta a história dos anos loucos vividos na pele por dois genuínos filhos do século XX: Werner Zilch, nascido na Alemanha no estertor da Segunda Guerra Mundial, e Rebecca Lynch, herdeira de um homem de negócios e de uma mulher que logrou escapar com vida ao campo de concentração de Auschwitz. Uma paixão louca e proibida num cenário histórico repleto de reviravoltas e marcado pelo suspense.

Werner Zilch é um jovem carismático e empreendedor. Adotado desde tenra idade, vê-se confrontado com a descoberta das suas origens, tudo menos gloriosas. Aos olhos dos outros, pode ser considerado responsável pelos erros cometidos pelos seus antepassados? Como aceitar que o seu progenitor estivesse ligado ao nazismo?

A par das personagens, surgem nomes que os leitores por certo reconhecerão, todos eles figuras marcantes do seu tempo. A saber: Andy Warhol, Truman Capote, tom Wolfe, Joan Baez, Patti Smith, Bob Dylan...

Uma complexa história de amor que é, ao mesmo tempo, um capítulo ficcionado da nossa História. O leitor não conseguirá pousar o livro enquanto não descobrir quem é, na verdade, «o último dos nossos». No fim, fica a pergunta: estaremos condenados a responder pelos crimes e pelo sofrimento dos nossos pais e avós?

A minha opinião:
Dar e receber livros é um prazer! Neste caso, recebi. E rejubilei com isso. Obrigado Clube do Autor.



A Segunda Guerra Mundial teve consequências que se prolongam no tempo. Alguns recordam, outros procuram esquecer ou ignorar, e há quem procure saber. Esta é a história de Werner e também de Rebecca, que procuram saber tudo o que seja possível apurar sobre o passado dos seus antecessores. A narrativa decorre em dois tempos alternadamente -passado próximo - com início em Manhattan, 1969 e Saxe, Alemanha, 1945 - passado mais distante - com dois acontecimentos impactantes. E a expetativa aumenta a cada página. O entendimento também.  

Werner Zilch é um personagem forte e temperamental, que não é particularmente carismático. Exemplo da concretização do sonho americano, graças ao apoio do sócio e grande amigo Marcus Howard, apaixona-se por uma mulher muito especial como é Rebecca, uma artista, e vivem uma turbulenta e contrariada relação. Por fim, decidem vingar o passado. 


Muitos são os romances que têem como tema a Segunda Guerra Mundial. Alguns li, outros adio (ainda). Sei que a História (realidade) supera a ficção e o "O Último dos Nossos" é mais uma bem engendrada trama sobre o génio e a bestialidade humana que, com rostos idênticos se podem confundir como os irmãos Kasper e Johann Zilch, e assim a infâmia perigar os grandes feitos ou impôr-se para a destruição e morte. 

Não tão envolvente como eu suspeitava, é um romance que se lê com interesse e avidez, enquanto se procura descobrir quem é quem, numa escrita objetiva e corrente, sem subterfúgios e delicadezas. 

Gostei e recomendo.

sábado, 25 de novembro de 2017

A Menina Silenciosa

Autor: Michael Hjorth e Hans Rosenfeldt
Serie: Sebastian Bergman (Vol. 4)
Edição: 2017/ novembro
Páginas: 564
ISBN: 9789896653125
Tradutor: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Suma de Letras

Sinopse:
Suécia. Uma bonita casa branca, de dois andares. Dentro, uma família brutalmente assassinada - mãe, pai e duas crianças pequenas, mortos a tiro, em plena luz do dia. E o assassino escapou. Sebastian Bergman, com o Departamento de Investigação Criminal, tenta deslindar o crime, mas, com o principal suspeito morto, está num beco sem saída. Até que descobre que há uma testemunha do crime.
Uma menina, Nicole, viu tudo e fugiu, assustada. Quando a encontram, descobrem que o trauma do que viu a deixou totalmente muda, comunicando apenas através de caneta e papel. Os seus desenhos revelam um facto convincente e inescapável: ela viu o assassino. Bergman fica obcecado com o desafio de romper a parede de silêncio de Nicole. Enquanto isso, o assassino está apostado em garantir que ela fique calada.


A minha opinião:
Chateou-me levar este romance policial para todo o lado, contudo sabia que não me iria conseguir separar dele e que todos os momentos livres seriam aproveitados para ler mais um pequeno capítulo. Mais um e não último livro da série Sebastian Bergman. Ainda bem. Não o podia perder e não quero perder o próximo. E assim, um grande livro lê-se num instante.

O início é a percepção de duas crianças. E um assassinato brutal e frio de uma familia com duas crianças. A Unidade de Homicídios da Polícia Sueca conhecida como Riksmord é chamada a intervir. A equipa, de cinco elementos, está um tanto desiquilibrada, uma vez que cada um deles se debate com crises pessoais na sequência de acontecimentos anteriores, agravado pela ausência de um dos elementos que se encontra a recuperar. Senti a falta de Ursula. A ligação e interação entre eles e Sebastian Bergman é essencial para o sucesso deste romance. 

Não tão violento como se poderia esperar, consegue supreender com tantas reviravoltas perfeitamente plausíveis e quase casuais. E Sebastian, surge mais conectado com uma testemunha e não só, o que o pode ajudar a recuperar da culpa e da dor da perda da sua própria familia.  Mulherengo, impaciente e arrogante é um psicólogo criminal carismático.

Possivelmente, o melhor livro da série Sebastian Bergman desta dupla de escritores. A perseguição do assassino à única testemunha é realmente trepidante. E o final, mais uma vez, deixou-me admirada e empolgada. A seguir... 

domingo, 19 de novembro de 2017

O Meu Nome Era Eileen

Autor: Ottessa Moshfegh
Edição: 2017/ maio
Páginas: 264
ISBN: 9789896652418
Tradutor: José Remelhe
Editora: Alfaguara

Sinopse:
O Natal é uma época que tem muito pouco para oferecer a Eileen Dunlop, uma rapariga modesta e perturbada, presa a um emprego enfadonho como secretária num instituto de correção de menores e forçada a cuidar de um pai alcoólico. Eileen tempera os seus dias vazios com fantasias perversas e sonhos de fuga para uma cidade grande. Enquanto não o consegue, entretém-se a fazer pequenos furtos na loja de conveniência e a fantasiar com Randy, um guarda do reformatório com corpo de homem e cabeça de rapaz. Quando Rebecca Saint John, uma ruiva vistosa, alegre e inteligente, é contratada como a nova psicóloga do reformatório, Eileen é incapaz de resistir à sedução de uma amizade que promete transformar a sua vida. Mas, numa reviravolta digna de Hitchcock, o poder de Rebecca sobre Eileen converte a rapariga em cúmplice de um crime a que pode ser impossível escapar. Com a paisagem nevada da Nova Inglaterra como pano de fundo, a história de Eileen é arrepiante, hipnótica e divertida.
Com um primeiro romance cheio de força, que agarra e perturba o leitor até à última página, Ottessa Moshfegh faz uma entrada retumbante nas letras norte-americanas.

A minha opinião:
"O Meu Nome Era Eileen" é surpreendentemente bom. Obscuro e empolgante. Não esperava que a degradação, abandono e carência  de Eileen pudesse ser uma leitura tão viciante. A estrutura narrativa em que se permite saber quando e onde se deu a mudança, mas não como e porquê sustenta o interesse. 

Dezembro de 1964,  X-Ville (nome fictício), em Nova Inglaterra, Eileen tinha 24 anos e, conta à posteriori muitos anos depois, a história do seu desaparecimento. A narradora conta tudo o que recorda com uma crueza inaudita e intimista sobre os seus pensamentos e ações enquanto cuidava do pai, um ex-policia alcoólico e vigiava as visitas a  jovens num centro correcional, no âmbito do seu trabalho de secretariado. Estranha e miserável forma de vida. 


Emocionalmente fecunda, mordaz e intensa, recorda a sua paixão platónica por Randy como a sua razão de viver até conhecer Rebeca. A extensão e dramatismo do que conta torna o leitor testemunha dos acontecimentos e simultâneamente cumplice da sua fuga. 

Manual Para Mulheres de Limpeza” de Lucia Berlin esteve presente no meu pensamento enquanto lia a história de Eileen. A mesma profundidade e força que impressiona e assombra. Os pormenores que fazem toda a diferença. Poderosa narrativa que marca. Corajoso primeiro romance de Ottessa Moshfegh. Brilhante! 

domingo, 12 de novembro de 2017

Falcó

Autor: Arturo Pérez-Reverte
Edição: 2017/ agosto
Páginas: 272
ISBN: 9789892340319
Editora: ASA

Sinopse:
Em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, Lorenzo Falcó move-se por entre as sombras do submundo. Ex-contrabandista de armas, espião sem escrúpulos, encontra-se agora a trabalhar para os serviços de inteligência franquistas. A sua missão? Libertar um detido da prisão. Tem Eva Rengel e os irmãos Montero como companheiros. (E, quem sabe, vítimas? Pois os tempos são traiçoeiros, e nada é o que parece.)

Mas surgem imprevistos, há conflitos de interesses, desenterram-se segredos, há torturas, perseguições e massacres. Só que Falcó não é dos que desistem facilmente… e está determinado a levar a cabo uma missão que poderá alterar o curso da História. Será em Portugal, na aparente tranquilidade do Estoril - local favorito entre espiões - que tudo se conclui.

Entrelaçando magistralmente realidade e ficção, Arturo Pérez-Reverte dá início a uma nova saga protagonizada por Lorenzo Falcó, um personagem fascinante, complexo e inesquecível.

A minha opinião:
Não é segredo que gosto muito da escrita precisa de Arturo Pérez-Reverte que abrilhanta os enredos. Com o ex-contrabandista e espião dos anos 30 Lorenzo Falcó fiquei agarrada a um tempo e a um lugar em que se confundiam anarquistas, socialistas, fascistas, comunistas e uma denuncia era sinal de sofrimento e morte sem fundamentação. Os espiões proliferavam e o vil metal era considerado por todos igual. Sem escrúpulos, mulherengo, Falcó não é o heroi romântico que se poderia imaginar. Não luta por uma causa ou ideologia como Eva Rengel, personagen enigmática e aguerrida com quem se envolve. 

"Só disponho de uma vida, disse ele. Um breve momento entre duas noites. E o mundo é uma aventura formidável que não estou disposto a perder." (pag.82)

A Guerra Civil Espanhola. Neste romance, sentimos o ambiente de uma guerra, sem lados para defender ou personagens para acarinhar, mas sem deixar de perceber o comportamento dos intervenientes e sentir o horror, dadas as descrições e observações que constam da narrativa, fruto da investigação e critica do autor. 

Observei a foto de Arturo Pérez-Reverte e não pude deixar de pensar que o protagonista Lorenzo Falcó poderia ser interpretado pelo mesmo numa qualquer boa produção cinematográfica. O sorriso sarcástico e o olhar inteligente e algo cínico tem tudo a ver com o espião sedutor e aventureiro dos anos 30.

O fim em Portugal, nomeadamente no Estoril, encerra bem esta narrativa, sem pontas soltas e que promete continuação. Gostei muito e espero regressar em breve a mais um romance.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Uma Mulher Desnecessária

Autor: Rabih Alameddine
Edição: 2017/ agosto
Páginas: 264
ISBN: 978-972-0-03008-5
Tradutor: Tânia Ganho
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família. Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.

Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.

A minha opinião:
SUMPTUOSO!

Um romance para se ler devagar porque Aaliya Saleh é uma protagonista resilente, solitária, culta e inteligente que importa conhecer e apreender. Uma verdadeira leitora e uma leitora voraz que dedicou a sua vida a uma causa sigilosa como tradutora e refere amiude os grandes autores clássicos e contemporâneos com admiração e espirito critico. Entrar na vida desta mulher sujeita a pressões familiares, com uma única amiga Hannah, que perdeu, e três "bruxas" "brancas" por vizinhas que a amparam quando o desastre acontece, é um privilégio e não tenho a eloquência dela para o contar.

"Uma mulher desnecessária" é uma mulher necessária na vida de qualquer livrólico assumido, como eu. Uma referência literária, certamente, que muito beneficiou com  a tradução exemplar em que o belo e singular desta protagonista não se perdeu, antes se enalteceu.

Prosa sentida, linguagem requintada e narrativa inspirada, em que a história e a politica estão lado a lado com a humanidade e as descrições sem serem excessivas são as suficientes para captar a ligação de Aaliya à cidade e ao lar que nunca abandonou durante a Guerra Civil.

Um romance para ler e reler. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O Regresso da Primavera

Autor: Sveva Casati Modignani
Edição: 2017/ outubro
Páginas: 400
ISBN: 978-972-0-03017-7
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Passamos muito tempo a perseguir sonhos que nos escapam da mão, uma felicidade que não se deixa aprisionar. E depois acontece que o melhor da vida se revela num instante, talvez na magia de um encontro inesperado. Como aquele que aconteceu entre Lorenzo e Fiamma, surpreendidos por um amor que nem mesmo eles, provavelmente, acreditavam ser ainda possível.

Lorenzo Perego, um homem fascinante e culto, é professor de Geografia Económica numa escola profissional de Milão. Poderia ter escolhido um estabelecimento de maior prestígio, mas o ensino é a sua paixão e ajudar jovens com talento numa realidade difícil e muitas vezes desoladora é um desafio que o entusiasma e enriquece.

Fiamma Morino, com pouco mais de 40 anos, é diretora editorial de uma pequena editora de sucesso que ela própria fundou. Agora que a editora está prestes a sofrer uma drástica mudança de gestão, com que Fiamma não concorda, está disposta a tudo para a defender e continuar a garantir o cuidado e o amor que desde sempre dedica aos seus autores.

Através das vivências de Fiamma e Lorenzo, conhecemos a Itália de hoje, a da crise da Escola e da Economia, mas também aquela que é feita de pessoas empreendedoras, prontas a arregaçar as mangas e decididas a não se renderem.

A minha opinião:
Um gosto adquirido. Não encontro outra explicação para ler qualquer um dos romances da Sveva logo que saiem. O mundo de afetos dos ricos e privilegiados seduz-me inexplicávelmente. Histórias que se centram em personagens bonitas, generosas, altruístas, em contextos profissionais específicos na velha Itália. Desta feita, temos o meio editorial e o pedagógico, com o foco na formação de caráter e de valores. A ténue critica social e política não falta.

Adorei o Lorenzo e Fiamma. Ambos brilham. O passado e o presente muito bem integrados na narrativa, dando-nos a conhecer bem os protagonistas. Uma fórmula em que a escritora é eximia. O equilibrio neste casal invejável tem um desfecho diferente que apreciei. 


Enredo sereno, escrita fluída e visual, são apenas alguns dos elogios que atribuo aos romances desta autora que não me surpreende tanto assim, mas conquista com as suas personagens. E acabo sempre por regressar com deleite. Resquícios da juventude, talvez. Romantismo tolo, quem sabe. Que me importa, gosto assim.

domingo, 22 de outubro de 2017

Homens sem Mulheres

Autor: Haruki Murakami
Edição: 2017/ setembro
Páginas: 256
ISBN: 9789897418105
Editora: Casa das Letras

Sinopse:
O que têm em comum os Beatles, Hemingway, François Truffaut, Woody Allen, Tchékhov, um rapaz chamado Gregor Samsa, um médico doente de amor e o dono de um bar de jazz? Haruki Murakami, pois claro. São sete os contos que dão forma ao mais recente livro: Homens sem Mulheres. Sete homens desencantados e a contas com a solidão. Sete histórias de solidão, mágoa e luto que desafiam os lugares- -comuns sobre o amor. Sete maneiras de traduzir a mesma melancolia, enquanto lá fora «a chuva continua a cair, provocando no mundo inteiro um interminável calafrio». Mas não se deixem enganar: este livro está repleto de mulheres: desejadas, sonhadas, traídas, ouvidas, invocadas, incompreendidas, sobrevalorizadas, eternamente amadas e perdidas para sempre. Um dia, o leitor corre o risco de se transformar num homem sem mulheres. Depois não digam que não avisámos.

A minha opinião:
Nunca li nada de Haruki Murakami. Livros são os amigos que escolhemos ter e como tal sou razoávelmente seletiva. Não achei que Murakami pudesse ser incluido e deixei-o de fora.

Homens sem mulheres é exatamente isso, sete contos de homens sem mulheres.  Desamor, solidão, isolamento e muitos outros sentimentos são contemplados nestes contos numa escrita límpida, tão simples e honesta que fiquei a apreciar. 

Alguma melancolia mas adorei o primeiro conto "Drive my car"em que se assume que todos somos atores. "Yesterday", título da canção dos Beatles, letra inventada por um amigo improvável em que se reflete sobre as dores de crescimento na juventude. 

Na ausência de complicações e inquietações acumuldas, certas pessoas levam uma vida surpreendentemente artificial. O dr. Tokai em um "Orgão Independente" é para mim o conto mais marcante e dramático.

As mulheres têem o condão de anular a realidade mergulhando nela e sem essa intimidade feita de momentos especiais surge a consciência de uma profunda amargura como a Habara em Xerazade. Kino é mais misterioso, enigmático e impactante. Samsa saiu do quarto para aprender sobre o mundo e apaixonou-se. Homens sem mulheres é o último conto. Lidar com a perda no mundo quando se muda de perspetiva. Qualquer um pode saber. 

Qualquer um pode ler e mudar de opinião. 

domingo, 15 de outubro de 2017

Ao Fechar a Porta

Autor: B. A. Paris
Edição: 2017/ julho
Páginas: 264
ISBN: 9789722360593
Editora: Presença

Sinopse:
Quem não conhece um casal como Jack e Grace? Ele é atraente e rico. Ela é encantadora e elegante. Ele é um hábil advogado que nunca perdeu um caso. Ela orienta de forma esmerada a casa onde vivem, e é muito dedicada à irmã com deficiência. Jack e Grace têm tudo para serem um casal feliz. Por mais que alguém resista, é impossível não se sentir atraído por eles. a paz e o conforto que a sua casa proporciona e os jantares requintados que oferecem encantam os amigos. Mas não é fácil estabelecer uma relação próxima com Grace... Ela e Jack são inseparáveis. 

Para uns, o amor entre eles é verdadeiro. Outros estranham Grace. Por que razão não atende o telefone e não sai à rua sozinha? Como pode ser tão magra, sendo tão talentosa na cozinha? Por que motivo as janelas dos quartos têm grades? Será aquele um casamento perfeito, ou tudo não passará de uma perfeita mentira?

A minha opinião:
Reparei neste livrinho. Quando a oportunidade surgiu, não a deixei passar. A sua legitima proprietária teceu elogios e eu fiquei muito curiosa. Daí, a pedi-lo emprestado foi um instantinho. Obrigado Célia.

A tentação da perfeição. O idílico "principe encantado". O sonho realizado em seis meses. A independência financeira abdicada em torno de uma vida a dois. A autonomia suspensa pela promessa de amor conjugal e maternidade.A capacidade de manipular e encantar os mais próximos. Tudo possível de se tornar um pesadelo sufocante. 

Jack e Grace, o aparente casal perfeito. Grace, a vitima silenciada pelo amor à irmã Millie, portadora de sindroma de Down, que conhecemos quando Grace recorda o início do relacionamento. A capacidade de resistir a um sádico jogo de extrema violência psicológica. A vingança no fim. 

Primeiro romance. Gostei.  Ótimas personagens num enredo credível e muito perturbador. Narrativa interrompida por breves momentos para respirar. Expetativa com futuros romances.

O Décimo Terceiro Conto

Autor: Diane Setterfield
Edição: 2007/ abril
Páginas: 366
ISBN: 978-989-84-7028-7
Editora: Marcador

Sinopse:
O Décimo Terceiro Conto narra o encontro de duas mulheres: Margaret, jovem, filha de um alfarrabista, biógrafa amadora, e Vida Winter, escritora famosa, que, sentindo aproximar-se o final dos seus dias, convida a primeira para escrever a sua biografia. Na sua casa de campo, a escritora decide contar a verdadeira história da sua vida, revelando um passado misterioso e cheio de segredos. As duas vão partilhar vivências profundas, resgatando velhas memórias e confrontando-se com fantasmas há muito adormecidos. Sem que pudessem inicialmente prever, acabam por entrelaçar as suas vidas de forma tão intensa, que o resultado não poderia ser outro que não uma inesquecível história de amor, amizade e solidão.

A minha opinião:
Guardei este livro durante tanto tempo por ler. Até ao dia, em que precisei do encantamento das palavras, desejosa de ficar arrebatada com uma boa história e profundamente embrenhada numa narrativa e pensei neste livro.

Encontrei Margaret Lea, que partilha comigo o mesmo anseio nostálgico pelo prazer perdido dos livros. E Vida Winter, uma escritora já idosa com um passado misterioso, que contrata Margaret, desconhecida biógrafa, para contar a sua história. A verdadeira, enquanto todos os seus leitores aguardam "O Décimo Terceiro Conto" do seu primeiro livro incompleto.

Angelfield. A casa, os destinos de George e Mathilde, dos seus filhos Charlie e Isabelle, das netas gémeas Emmeline e Adeline, e o fantasma. Sem esquecer os empregados Missus, John-da-enxada e Judith, personagens secundárias, que provavelmente vivem para lá das páginas deste livro. A estranheza como marca de familia. O isolamento e o medo. Fragmentos de vidas que se colam a quem lê e tenta imaginar um tempo e um lugar distantes, em que recordam outras leituras, como a de Kate Morton, detentora do mesmo poder de transfigurar o real. Simplesmente brilhante. 

Uma história com princípio, meio e... um extraordinário fim. Puzzles, mistérios e segredos. Um verdadeiro romance. Completo. Intemporal. Um insuspeito gosto para amantes de livros. 

Numa casa com crianças não pode haver segredos.