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domingo, 1 de julho de 2018

Uma Pequena Sorte

Autor: Claudia Piñeiro
Edição: 2018/ maio
Páginas: 256
ISBN: 9789722064491
Tradutores: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 

Uma mulher regressa à Argentina vinte anos depois de a ter deixado para fugir de uma tragédia. Mas aquela que regressa é outra: já não tem a mesma aparência e a sua voz é diferente. Nem tem sequer o mesmo nome. Será que aqueles que a conheceram em tempos a vão reconhecer? Será que ele a vai reconhecer?

Mary Lohan, Marilé Lauría ou María Elena Pujol - a mulher que ela é, a mulher que foi e a mulher que terá sido -, volta aos arredores de Buenos Aires, ao subúrbio onde formou uma família e viveu, e onde irá enfrentar os atores do drama que a fez fugir. Ainda não compreende porque aceitou regressar ao passado que se havia proposto esquecer para sempre. Mas à medida que o vai compreendendo, entre encontros esperados e revelações inesperadas, perceberá também que às vezes a vida não é nem destino nem acaso: talvez o seu regresso mais não seja do que um pequeno golpe de sorte… uma pequena sorte.

Claudia Piñeiro surpreende e cativa com este romance incisivo e comovente, onde a realidade e a intimidade se cruzam numa densa teia urdida para prender o leitor.

A minha opinião: 
Uma escrita cuidada, elegante, numa narrativa analítica, introspectiva e comovente, de uma mulher, docente, que regressa anonimamente a onde fugiu vinte anos depois. Uma tragédia que se percepciona desde o início, quando o mesmo capítulo sobre uma passagem de nível se repete amiúde . 

Não sei bem o que me atraiu neste romance. A capa, ou talvez o título. Sei que a sinopse não foi. Uma mãe que abandona o filho é algo que não realizo querer ler. E no entanto, ficava a perder, porque este romance diz muito sobre a natureza humana, as circunstâncias e os acasos que transformam e moldam destinos. Superficialmente, julgamos sentimentos, percepções e pensamentos na descodificação do outro, sem alcançar a dimensão do equívoco. 

Intenso, acutilante, sentido e pragmático, não se lê de animo leve, mas também não se consegue parar de ler. Uma pequena sorte é um extraordinário romance que marca. Uma mulher danificada e a sua pequena sorte, assim como a do seu filho, Federico, que contaram com a amabilidade de estranhos, porque não basta estar rodeado de gente para não se sentir só. Com um livro como este não se está só e também isso nos ensina o generoso Robert, como parte do processo de cura de Maria Elena.  

Um romance pequeno que é imenso sobre o porquê que não se consegue cogitar. Brilhante. 

segunda-feira, 25 de junho de 2018

A Mulher Entre Nós

Autoras: Greer Hendricks e Sarah Pekkanen
Edição: 2018/ maio
Páginas: 456
ISBN: 9789896655471
Tradutor: Gonçalo Neves
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 

Aos 37 anos, a recém-divorciada Vanessa está no fundo do poço. Deprimida, a morar no apartamento da tia, sem filhos, sem dinheiro e sem amigos verdadeiros. Richard, o seu carismático e rico marido, era tudo para ela. Mas, ao descobrir que ele está prestes a voltar a casar, algo dentro de Vanessa se desfaz. A partir de agora, na sua vida, só existirá uma única obsessão: impedir esse casamento. Custe o que custar.

Nellie é como qualquer outra jovem bela e sonhadora que chega a Manhattan para começar a sua tão sonhada vida adulta. Mas a personalidade tranquila que ostenta é apenas uma fachada. Na sua cabeça perdura o segredo que a faz fugir da sua cidade natal e que a impede de caminhar sozinha para casa.

Ao conhecer Richard - bem-sucedido, protector, o homem dos seus sonhos -, Nellie começa finalmente a sentir-se segura. Ele promete protegê-la de tudo para o resto da sua vida. Mas, de repente, começa a receber chamadas misteriosas. Algumas fotografias são mudadas de lugar no seu quarto. Alguém a persegue, alguém quer o seu mal. Mas quem?

A minha opinião: 
"A mulher entre nós"  é mais um thriller tão em voga hoje em dia. Ainda assim gosto de um bom thriller no feminino. E este pareceu-me promissor, como alguns que entretanto me ocorreram como "A rapariga no comboio" e "Ao Fechar a Porta". A mesma leitura fácil, com intriga e suspense que nos deixa expectantes. 

Duas personagens femininas dramáticamente ligadas ao mesmo homem. A preterida, perturbada e frequentemente alcoolizada e a atual encantada e subjugada. O ponto de viragem dá-se no final do capítulo 16 e aí sim, desmarcou-se dos demais. Mas... mais à frente voltei a recordar outras leituras, como "Pequenas grandes mentiras" e A Conspiração da Sra Parrish". 

Em suma, não tão original como eu pretendia, mas a trama foi bem engrendrada e conseguida, uma vez que me surpreendeu com algumas personagens a que dei menor atenção e não ficaram pontas soltas, mesmo aquelas que eu não tinha registado. Não deixa de ser um bom livro para levar nas férias. No final, A mulher entre nós não é quem poderiamos pensar. A sinopse e a capa sugestionam e convencem. 

Bem, gostei menos do esperava mas mais do que pensava. Confuso? Nem tanto, se o lerem. 

sábado, 16 de junho de 2018

As vinhas de La Templanza

Autor: María Dueñas
Edição: 2018/ abril
Páginas: 536
ISBN: 978-972-0-03085-6
Tradutor: Carlos Romão
Editora: Porto Editora

Sinopse: 

Uma história de coragem perante as adversidades e de um destino marcado pela força de uma paixão.

Nada fazia supor a Mauro Larrea que a fortuna que tinha conquistado fruto de anos de luta e perseverança se desmoronaria de um dia para o outro, graças a um inesperado revés.

Asfixiado com dívidas e afogado em incertezas, aposta os últimos recursos numa jogada temerária na esperança de se reerguer. Até que a perturbadora Soledad Montalvo, mulher dum negociante de vinhos inglês, entra na sua vida para o arrastar rumo a um futuro inesperado. 

Da jovem república mexicana à radiante Havana colonial, das Antilhas à Jerez da segunda metade do século XIX quando o comércio de vinhos com Inglaterra converteu a cidade andaluza num enclave cosmopolita e lendário, por todos estes cenários se desenrola As vinhas de La Templanza, um romance que fala de glórias e derrotas, de minas de prata, intrigas de família, vinhas e cidades fascinantes cujo esplendor se desvaneceu com o tempo.

A minha opinião: 
Não são muitas as vezes que fico sem palavras com um livro. Um livro que supera todas as minhas mais auspiciosas expectativas numa semana de férias planeada para algumas leituras e dou por mim enredada apenas numa. E completamente envolvida. Rendida a uma personagem que me arrebatou. Um mineiro duro, audaz e temerário. Um aventureiro que procura noutras latitudes recuperar a sua fortuna. "Para o Oriente, as Antípodas, a Terra do Fogo, os mares do Sul." (pag. 483) México, Cuba e Espanha. Locais dispares que deixaram de existir e que foram reconstituidos com precisão e encanto. Uma piscadela de olho ao passado num jogo crucial (de bilhar) de mentiras e verdades, de paixões, derrotas, maquinações e amores frustados, em que intervêm duas mulheres prodigiosas e rivais. Corajosas, arrogantes e descaradas, assim são Carola e Soledad. As personagens ganham vida neste grande romance que lembra os grandes clássicos de outros tempos num tributo aos mineiros e adegueiros. 

Muito mais poderia acrescentar sobre os cenários com atmosferas e ambientes que segui ávida ou sobre a movimentada e vigorosa trama que na magistral prosa fluí com graça e sensibilidade, sem quebras, até que no final deixa um vazio na alma. Um romance que me deixa a clamar por mais romances assim, pelo que tenho de procurar ler "O Tempo Entre Costuras". Posto isto, tenho de ponderar bem o que ler a seguir...

sábado, 9 de junho de 2018

Estuário

Autor: Lídia Jorge
Edição: 2018/ maio
Páginas: 288
ISBN: 9789722065139
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Estuário é um livro sobre a vulnerabilidade de um homem, de uma família, de uma sociedade e do próprio equilíbrio da Terra, relatados pelo olhar de um jovem sonhador que se interroga sobre a fragilidade da condição humana.

Edmundo Galeano andou pelo mundo, esteve numa missão humanitária e regressou à casa do pai sem parte da mão direita. Regressou com uma experiência para contar e uma recomendação a fazer por escrito, e na elaboração desse testemunho passou a ocupar por completo os seus dias.

Porém, ao encontro deste irmão mais novo da família, vêm ter sem remédio as vicissitudes diárias que desequilibram a grande casa do Largo do Corpo Santo. Edmundo vai-se, então, apercebendo que as atribulações longínquas mantêm uma relação directa com as batalhas privadas travadas ao seu lado. E a sua mão direita, desfigurada, transforma-se numa defesa da invenção literária perante a crueza da realidade.

Em outros seus livros costumam a autora dar o rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos. Mas neste caso ambicio
na mais. Estuário pertence à categoria dos livros de premonição, através do enlace entre o desenho do futuro e a Literatura.

A minha opinião:
Queria ler um romance de Lídia Jorge! Tantos autores que ainda desconheço e que a pouco e pouco vou desbravando, cautelosa, na tentativa de compreender o que quiseram passar ao mundo com as suas palavras. O seu testemunho. Lídia admirada por tantos era uma ousadia e um deslumbre que não me tinha permitido. A escrita irrepreensível, madura e serena que me faltava. Contudo, tenho um misto de emoções sobre este romance, contraditórios como os que se abrigam no coração e são objecto de reflexão, também neste romance. A históra que o narrador conta, por personagem, com destaque para Edmundo, o jovem sonhador que, nuima missão humanitária perdeu parte da mão direita e se agarrou a uma utopia sobre um livro grandioso que alertava sobre a ameaça global, e do qual se foi distanciando, na medida em que se tornava mais próximo da complexidade e desnorte dos que o rodeavam e nele confiavam, não me fascinou pela morosidade contemplativa que condicionou a leitura. Presa das palavras, não fiquei do sentido das mesmas. A preocupação e premonição com os riscos ambientais, nomeadamente os plásticos que poluem os oceanos, é motivo de apreço, mas as personangens errantes não. 

Um livro belo mas não sedutor. Um livro que fica para reler mais tarde. 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Macbeth

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2018/ abril
Páginas: 528
ISBN: 9789722535014
Tradutor: Maria Dulce Guimarães da Costa 
Editora: Bertrand

Sinopse: 

Passado nos anos 70, numa cidade industrial cinzenta e chuvosa, a força policial da zona está concentrada em acabar com um persistente problema de drogas. Duncan, chefe da polícia, é um idealista e visionário, um sonho para a população e um pesadelo para os criminosos. O comércio das drogas é liderado por dois homens, um dos quais, mestre da manipulação chamado Hécate, tem ligações aos poderes mais levados. E pretende usá-las para conseguir escapar ileso.

O seu plano consiste em manipular, de forma consistente e persistente, o inspetor Macbeth, um homem já de si suscetível a tendências paranoides e violentas. O que se segue é uma história irresistível de amor e culpa, de ambição política e inveja, que explora os recantos mais negros da natureza humana, assim como as aspirações da mente criminosa.

A minha opinião: 
Jo Nesbø é um gosto adquirido, ao qual regresso sempre que possível. As personagens que cria são fantásticas e o enredo cinematográfico. Desta feita, recuamos ao ambiente sombrio e intimidante dos anos 70, a uma cidade sórdida na costa oeste que ensombra os espíritos, corrompe corações e encurta vidas.

Como o nome indica - Macbeth é o drama de Shakespeare, recontado por Jo Nesbø, de que eu pouco ou nada sabia. Não foi uma leitura fácil. A violência, a ausência de escrúpulos e a ganância pelo poder levaram-me a interromper algumas vezes a leitura. Afinal, o poder é a droga mais viciante do mundo, despoja de todas as emoções que prendem à moralidade e à humanidade.

"Sob várias alcunhas, mas os químicos são os mesmos. As pessoas pensam que é um antidepressivo porque atua inicialmente como uma anfetamina das primeiras vezes, até que os episíodios se tornam psicóticos. " (pag. 323)

Macbeth sugestionado por Lady elabora um plano para matar o comissário-chefe Duncan e o herói torna-se o vilão. Inversão de valores. A voz feminina comanda porque visualiza o quadro completo e não apenas uma perspectiva. Antecipa comportamentos. Macbeth é um Populista.  E por fim, a fé na capacidade de mudança em que pequenos passos nos vão tornando melhores. Um pouco mais humanitários. Assim caminha o mundo. Intemporal. Pertubador. Atual.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata

Autores: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
Edição: 2010/ março
Páginas: 377
ISBN: 9789896720155
Tradutor: Ana Mendes Lopes
Editora: Suma de Letras

Sinopse: 

Depois do sucesso estrondoso do seu primeiro livro, a jovem escritora Juliet Ashton procura duas coisas: um assunto para o seu novo livro, e, embora não o admita abertamente, um homem com quem partilhar a vida e o amor pelos livros. 
É com surpresa que um dia Juliet recebe uma carta de um senhor chamado Dawsey Adams, residente na ilha britânica de Guernsey, a comunicar que tem um livro que outrora pertenceu a Juliet. 
Curiosa por natureza, Juliet Ashton começa a corresponder-se com vários habitantes da ilha. 
É assim que descobre que Guernsey foi ocupada pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, e que as pessoas com quem agora se corresponde formavam um clube secreto a que davam o nome de Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata. 
Fascinada pela história da dita Sociedade Literária, e ainda mais pelos seus novos amigos, Juliet parte para Guernsey. O que encontra na ilha mudará a sua vida para sempre…

A minha opinião: 
Ler bons livros arruina a nossa capacidade de ler livros maus. (pag. 78)

Este romance estava pousado na minha estante à espera do momento certo que chegou agora. Um daqueles livros que comprei para ler um dia. Eventualmente, quando passasse à reforma. Como se eu precissasse disso! Comprei-o porque sabia que era bom. Com a sua reedição, depois do filme chegar às salas de cinema, com um título mais completo como Guernsey - A Sociedade Literárira da Tarte de Casca de Batata, peguei nele para desanuviar do thriller anterior. Não é exatamente como eu esperava. É melhor! Comovente e divertido, num estilo mordaz e loquaz, trata-se de um romance epistolar. As cartas de Juliet são espirituosas e fiquei fã dela desde a primeira. De resto, adorei tudo. As descrições da ilha, as extraordinárias personagens e a ligação entre elas. Um romance em que aprendemos sobre a Ocupação das Ilhas do Canal e não só, mais se pudermos rir ao mesmo tempo. Emocionei-me também. Nada sabia sobre este pedaço da História. Da Segunda Guerra Mundial sabia o suficiente para temer ler mais sobre o assunto. Sabia porém que uma sociedade literária com referência a livros seria fascinante de ler. 

Uma casualidade. Um livro é devolvido à sua legítima proprietária, Juliet Ashton e começa uma inesperada troca de correspondência no pós-guerra com os habitantes da ilha de Guersney e uma interessante partilha entre personagens tão altruistas e generosas.

Curiosamente, esta sociedade literária tem muito em comum com um grupo de leitores com quem me enconto mensalmente. As regras: "falávamos à vez dos livros que iamos lendo. No início, tentámos ser calmos e objectivos, mas essa intenção desmoronou-se rápidamente e o propósito dos oradores passou a ser o de tentar convencer os ouvintes a lerem o livro em questão. (Nós também o fazemos). Depois de dois membros lerem o mesmo livro já podiam discutir - que era aquilo que mais nos dava prazer. Nós liamos, falávamos e discutíamos livros e fomo-nos tornando cada vez mais amigos uns dos outros. (Nós também o fizemos). Outros habitantes da ilha pediram-nos para se juntarem à Sociedade e os nossos serões juntos passaram a ser momentos animados, vivos - de quando em vez quase nos conseguíamos esquecer da escuridão que grassava lá fora." 

PRECIOSO, DIVINO (como diria uma amiga minha), SUBLIME. Um romance para guardar e acarinhar, tão fácil de ler e ainda assim inesquecível. Não percam a oportunidade de o ler e apreciar a nova capa que achei linda. 



segunda-feira, 28 de maio de 2018

A Mulher à Janela

Autor: A. J. Finn
Edição: 2018/ março
Páginas: 488
ISBN: 9789722361873
Tradutor: Maria João Lourenço
Editora: Presença

Sinopse: 

Anna Fox não sai à rua há dez meses, um longo período em que ela vagueou pelos quartos da sua velha casa em Nova Iorque como se fosse um fantasma, perdida nas suas memórias e aterrorizada só de pensar em sair à rua. A ligação de Anna ao mundo real é uma janela, junto à qual passa os dias a observar os vizinhos. Quando os Russells se mudam para a casa em frente, Anna sente-se desde logo atraída por eles - uma família perfeita de três pessoas que a fazem recordar-se da vida que já teve. Mas um dia, um grito quebra o silêncio e Anna, da sua janela, testemunha algo que ninguém deveria ter visto e terá de fazer tudo para encobrir o que presenciou . Mas mesmo que decida falar, irá alguém acreditar nela? E poderá Anna acreditar em si própria?

Um thriller eletrizante onde nada nem ninguém é o que parece.

A minha opinião: 
Li recentemente algo com o qual concordo. Por vezes, são os livros que nos escolhem. Parece bizarro, mas nem tanto, se considerarmos o que nos atrai para um livro. As editoras procuram acertar e sem dúvida que uma boa campanha publicitária resulta num bom número de vendas, mas não necessáriamente num sucesso que deslumbre o leitor. Pode ser apenas mais um livro que se lê. Este thriller atraiu e convenceu. 

Uma mulher em frangalhos, por razões que se desconhecem. Agorafóbica. Sabem o que é? Alguém que não aguenta estar em espaços abertos. E que sofre ataques de pânico. Alguém que se enclausurou em casa... e vê filmes antigos, quase todos a preto e branco. Anna, aliás doutora Fox, está só e anestesia-se com álcool e medicamentos enquanto espia os vizinhos através da lente da sua máquina fotográfica. Uma personagem que parece tão cinematográfica quanto as personagens dos filmes que assiste, quando testemunha o assassinato de uma mulher no outro lado da rua e ninguém parece reparar ou saber. Um pressuposto aliciante.

Puro psicopata. A adrenalina levava-me a interromper a leitura por alguns momentos e retomava logo de seguida ansiosa por saber mais. Gosto disso. Desse contágio que trespassa o leitor, quando somos reféns da tensão e suspense da narrativa. A personagem jogava xadrez e calculava as suas ações como numa partida para descobrir quem é o criminoso de entre os suspeitos. E o mistério adensa-se quase até ao final. A problemática protagonista cativa e dá que pensar. E o que se passa no seio de uma familia também. 

Muito Bom. Mais uma estreia. 

domingo, 20 de maio de 2018

Nem Um Som

Autor: Heather Gudenkauf
Edição: 2017/ julho
Páginas: 320
ISBN: 9789898869159
Tradutor: Rui Azeredo
Editora: TopSeller

Sinopse:

Para sobreviver ao perigo num mundo sem sons, todos os outros sentidos têm de estar em alerta máximo.
Após um trágico acidente, Amelia Winn perde a audição, entrando numa espiral de depressão que a leva a procurar conforto no álcool e a afastar-se de tudo o que de mais importante tem: o trabalho, o marido e, sobretudo, a enteada, que tanto ama.

Agora, passados dois anos, e com a ajuda do seu cão de assistência, Stitch, Amelia decide retomar a sua vida. Mas, quando o corpo de uma enfermeira sua amiga surge a flutuar num rio perto de casa, Amelia mergulha num mistério perturbador que ameaça destruir tudo outra vez.

À medida que as pistas começam a aparecer, o perigo volta a rondar a vida de Amelia. Quanto estará ela disposta a arriscar para trazer a verdade à superfície?

A minha opinião:
Confesso que quando a Cristina me falou deste thriller não me chamou a atenção. Tento perceber porquê, o que para meu grande embaraço e vergonha, deve estar relacionado com o facto de a protagonista, que dá título ao livro, ser surda. Subestimei Amelia Winn, uma extraordinária personagem. Uma personagem de quem não me apetecia afastar sempre que tinha que interromper a leitura. Sensata e afetuosa rejeitou a piedade depois do acidente criminoso que a remeteu para o silêncio, e para a bebida, até perder a familia. Com a ajuda de Jake e Stich (o seu cão de assistência) recuperou o controle da sua vida nesta sólida narrativa, sem vertigem mas com suspeição e mistério quando descobre a vitima de uma crime. A partir daqui começa a trama que segui com entusiasmo. 

Intui o assassino, mas as pistas levavam noutro sentido. De qualquer modo, a narrativa e a Amelia são tão empolgantes e inebriantes que não conseguia parar de ler até confirmar que todos os passos que dava eram aqueles que eu (friamente) daria. E a autora, da qual nada li e não vou querer perder, conseguiu um thriller ao mais alto nível (nem sempre os mais publicitados são os melhores, como é o caso).  Seguramente dos melhores thrillers que já li. 

Temas sérios do cancro e dos cuidados de saúde são debatidos em fundo. Pessoalmente, sei do que se trata e sei os custos que envolve. A surdez profunda é algo que me assusta e do qual nada sabia. Ler este thriller desmistificou e elucidou-me muito sobre soluções que não sabia existirem.

Brilhante!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A rapariga que lia no metro

Autor: Christine Féret-Fleury
Edição: 2018/ março
Páginas: 168
ISBN: 978-972-0-03038-2
Tradutor: Artur Lopes Cardoso
Editora: Porto Editora

Sinopse:

De segunda a sexta-feira, sempre à mesma hora matutina, Juliette apanha o metro em Paris. Nesse caminho diário e rotineiro para um emprego cada vez mais rotineiro, a viagem na linha seis é a única oportunidade de que Juliette dispõe para sonhar.

Aos poucos, essa necessidade espelha-se na observação dos demais passageiros, pelo menos, daqueles que leem: a velha senhora que coleciona edições raras, o ornitólogo amador, a rapariga apaixonada que chora sempre na página 247. Com curiosidade e ternura, Juliette observa-os como se, pelas suas leituras, lhes adivinhasse as paixões, e a diversidade das suas existências pudesse dar cor à sua vida, tão monótona e previsível.

Até ao dia em que, seguindo um impulso invulgar, decide descer duas estações antes da paragem habitual - e esse gesto, aparentemente inocente e aleatório, acabará por se tornar o primeiro passo de uma experiência completamente alucinante e tão perturbadora quanto a de Alice no País das Maravilhas.

A minha opinião:
Ao ver este pequeno livro recordei-me de "O Leitor do Comboio" e fiquei ansiosa por o ler. Livros que reportam a outras livros são sempre desejáveis para uma livrólica. Nem sempre são bons, mas ainda assim são imperdíveis.

O título fisgou-me logo, ou não fosse eu também uma rapariga que lê no metro. E tal como Juliette tenho algumas rotinas em que  observo as pessoas e o que lêem. Aborrece-me um pouco quando os livros vão tapados, mas compreendo que desse modo protegem a sua privacidade e a integridade dos livros.

Lamentavelmente, não me agarrou. O tom é de desalento e melancolia. Esperava que ficasse mais animado e nem por isso. A esperança e entusiasmo passou ao de leve. As referências a livros e autores, bem como as manias de leitor foi o que mais me agradou. As personagens não são relevantes, apenas suporte para os verdadeiros protagonistas, os livros. Julliette, a personagem principal merecia mais, assim como a criança Zaide. 

Enfim...

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Uma Velha e o Seu Gato e a história de dois cães

Autor: Doris Lessing
Edição: 2016/ abril
Páginas: 96
ISBN: 9789722531436
Tradutor: Ana Falcão Bastos
Editora: Bertrand

Sinopse:
Dois dos mais emblemáticos contos de Doris Lessing, Nobel da Literatura. Era célebre a sua paixão pelos animais, especialmente os gatos, bem patente nestas duas histórias. Em Uma Velha e o Seu Gato, uma mulher de sangue cigano, agora velha, viúva, com pouco contacto com os filhos adultos, vai-se lentamente desligando do mundo, das normas sociais e da convivência com os outros. A sua grande companhia é o seu gato, com quem se vai tornando cada vez mais selvagem e mais afastada dos outros humanos. Em História de Dois Cães, Doris Lessing narra a fascinante amizade entre dois cães, até ao fim da vida de ambos. Um é morto a tiro por roubar ovos, o outro, envelhece e entristece com a perda do amiga e acaba por ser posto a dormir.

A minha opinião:
Mais uma vez afirmo que gosto de ler contos. E gosto de animais. Como tal, não podia deixar de ler este pequeno livro e para isso tive de fazer um interregno no que estava a ler, para numa tarde devorar estes dois contos. Importa referir que, Doris Lessing foi prémio Nobel da Literatura em 2007 e nesta pequena amostra percebi o seu imenso talento. 

Uma Velha e o seu Gato é um conto tocante sem ser piegas ou lamechas. Desde o início há uma critica implícita sobre a incompreensão e o abandono dos idosos pelas familias e pela sociedade, que como não se encaixam no padrão estabelecido são esquecidos ou acomodados nos lares para morrerem. Os interesses imobiliários também dão uma ajudinha neste desfecho. Sem sentimentalismo é um conto que machuca. 

Nada dúbia ou hesitante na escrita Doris Lessing assume a sua alma livre e lúcida que escreve sobre o que quer sem se preocupar com desconfortos alheios. A liberdade é um tema subjacente em ambos os contos. O gato é um animal incompreendido por muitos e Tibby não fugia à regra. Caçador que sobrevive independente mas aprecia a proteção e os afagos de um dono que escolhe. Hetty era uma velha extravagante que a familia rejeitou e que tinha por companhia o seu amigo gato.

A História de Dois Cães fala sobre as dificuldades de subsistir, o isolamento e o espaço aberto das grandes fazendas de África, onde os animais se podiam tornar selvagens mesmo quando criados pelo homem, como os dois cães da narrativa. A tentativa de os ensinar não era bem sucedida e o mais livre influenciava o mais dócil a seguirem soltos na vastidão que os rodeava. As incursões em fazendas vizinhas geravam alguns problemas que eram resolvidos a tiro. 

Ao contrário do que se poderia imaginar, os contos não são de encantar. De pensar para mudar. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Filha

Autor: Anna Giurickovic Dato
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 192
ISBN: 9789722064347
Tradutor: José Colaço Barreiros
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Ambientado entre Rabat e Roma, A Filha coloca-nos perante uma perturbante história familiar, em que a relação entre Giorgio e a sua filha Maria oculta um segredo inconfessável. A narrar tudo na primeira pessoa está, porém, a mulher e mãe Silvia, cuja paixão pelo marido a torna incapaz de reconhecer a doença de que este sofre.

Enquanto observamos Maria, que não dorme durante a noite e renuncia à escola e às amizades, revoltar-se continuamente contra a mãe e crescer dentro de um ambiente de dor e de suspeita, vamos pouco a pouco descobrindo a subtil trama psicológica dos acontecimentos e compreendendo a culposa incapacidade dos adultos em defender as fragilidades e as fraquezas dos filhos.

Quando, após a misteriosa morte de Giorgio, mãe e filha se mudam para Roma, Silvia apaixona-se por Antonio, e o almoço que organiza para apresentar o novo companheiro à filha despertará antigos dramas: Será Maria de facto inocente, será realmente a vítima da relação com o seu pai? Então, porque tenta seduzir Antonio sob os olhares humilhados da mãe? E seria a própria Silvia verdadeiramente desconhecedora do que Giorgio impunha à filha?

Um livro que põe em causa todas as nossas certezas: as vítimas são ao mesmo tempo algozes e os inocentes são também culpados.

A minha opinião:
Desejava e receava ler este livro. Sabia qual era o tema e que este mexe comigo, e ainda assim estava convicta de que o devia ler. A medo comecei, preparada para o largar. Não aconteceu e li, incomodada, mas absorta, uma narrativa que vicia.

Uma extraordinária estreia, para mais com um tema forte. Não é para qualquer um, pelo que vou aguardar com expectativa os próximos romances.

O cenário de fundo é em Rabat, Marrocos, idílico, sobre o qual paira uma sombra funesta. Na perspectiva de Silvia, confusa e cansada, que vai olhando para trás e para a frente, num jogo entre o consciente e o inconsciente, sem conseguir intervir e é neste registo que decorre toda a narrativa. As memórias alegres e também as horrendas, onde sente que ainda pertence, enquanto atualmente em Roma, Itália, sente que não existe, presa num jogo perverso que assiste apática aquando da visita do namorado. Como leitora, li chocada. Compreensivel mas difícil de processar. Sofrimento, solidão e vergonha. Complexo. O pai desaparecido causa uma forte impressão na mãe e na filha, e afeta permanentemente a relação entre elas.

Muito bom. Em tempo de Eurovisão, replicando, se pontuasse leituras, teria quase nota máxima. 

sábado, 5 de maio de 2018

Um Amante no Porto

Autor: Rita Ferro
Edição: 2018/ abril 
Páginas: 224
ISBN: 9789722064811
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Uma história vibrante, escrita à desfilada, que segue a vida de Álvaro, um rapazinho do Porto, nascido de uma família burguesa da classe média, desde a escola primária até ao ensino universitário, passando pelas festas, o encontro com os meninos da Foz, o hóquei em patins e as bandas musicais do seu tempo, a paixão pelos cavalos e pelas mulheres, os grupos de estudantes e a Mocidade Portuguesa, até ao dia em que, já divorciado, encontra Zara, uma lisboeta livre, impetuosa e indiscreta, vinte anos mais nova, que pressente nele, por trás da aparente candura da sua história, uma verdade obscura que dificilmente aceitará.

Uma relação dura, sobressaltada e passional, feita de incerteza, de traição e de devassa, em que o amor se degrada com a desconfiança e onde quem esconde pode não encobrir tanto como quem indaga.

Um Amante no Porto é mais um surpreendente romance de Rita Ferro, que é também o retrato de uma época e uma profunda reflexão sobre o amor, no estilo directo e desafectado que é seu timbre inconfundível, com a competência narrativa a que já nos habituou.

A minha opinião:
Nas minha opiniões restrinjo ao que considero de interesse e acabam por ser restritas. Nesta senda começo por afirmar que gosto dos romances que Rita Ferro tem publicado recentemente. Escreve bem, brinca com as palavras e expõe estados de alma com sentido crítico. Franca, sem ser consensual ou humilde. Destemida e direta no discurso. 

Gostei de Zara. Posso estar equivocada mas tem muito da Rita que imagino. Lúcida e objetiva, para o bom e para o mal. Uma mulher que vê o "quadro" todo e não apenas parte. Nesta narrativa, na primeira pessoa, temos um retrato de epoca que reconheço (apesar de eu não ser natural do Porto) e o Amor;

"É extraordinário que nenhuma teoria o esgote e que ninguém se canse de o interpretar" (pag. 107)

que me arrebatou a partir do III capítulo. Muitos são os excertos que leio e releio antes de prosseguir a leitura. E gosto disso. Compreendo ou identifico-me com o que está escrito e dificilmente o conseguiria exprimir melhor. A complexidade da natureza humana e os equivocos nos relacionamentos tomando como exemplo Zara e  Álvaro.O fim do romance foi devastador. Sabia que não ficariam juntos mas não previ aquele desfecho que me pareceu genial e verossímel. 

Gostei muito. Enriquecedor e divertido, ainda que não fosse essa a intenção. Li arrebatada pelas personagens e pelas circunstâncias. 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Mulher Culpada

Autor: Elle Croft
Edição: 2018/ março
Páginas: 320
ISBN: 9789892341545
Tradutor: Ana Saldanha
Editora: ASA

Sinopse:
Bethany Reston é uma fotógrafa de sucesso e tem um casamento feliz. Quando consegue um cliente de renome, o bilionário Calum Bradley, sabe que a sua carreira vai prosperar. O que não sabe é que a relação profissional dará lugar a um tórrido caso extraconjugal.

Não foi premeditado. Mas aconteceu. É avassalador. E ninguém - ninguém - pode descobrir.
Quando Calum aparece morto, tendo sido apunhalado em plena estação de metro - o último local onde Bethany se encontrou com ele - ela sofre duplamente. Pela perda de um grande amor. E por não poder partilhar a sua dor. Acima de tudo, tem de manter as aparências.

Mas alguém sabe o seu segredo. Alguém que está agora a ameaçá-la... lenta e impiedosamente.
Com o cerco a apertar, e as provas contra ela a avolumarem-se, só há uma forma de Bethany provar a sua inocência: tem de encontrar o assassino.
Mas todos, polícia incluída, parecem cada vez mais convencidos de que a assassina… é ela.

Será?

A minha opinião:
Mais um excelente thriller de estreia. O anterior do género que li, A Conspiração da Senhora Parrish foi viciante e surpreendente e este é igualmente convincente. Na  génese, um relacionamento e adúlterio contados na perspetiva feminina.

Bethany apaixona-se e apesar do secretismo da relação, alguém sabe e enreda-a numa armadilha em que acaba por ser suspeita do crime do amante;

"Não é paranoia quando é verdade."

Curiosamente, Calum e  Jason, amante e marido, não têm peso nesta narrativa, são apenas personagens secundárias, assim como a amiga Alex, enquanto o misterioso assassino sobressai na perseguição inteligente e audaz que faz a Bethany, em que imprime um ritmo e uma intensidade tal que se torna quase impossível interromper a leitura. Capítulos curtos e eficazes, linguagem direta e sem rodeios ou grandes metáforas, tudo bem doseado e calculado para um bem sucedido thriller.

Claro que o marido é o primeiro que ocorre mas... as dúvidas persistem e a falta de pistas também. E apenas no fim percebi. Como eu gosto. Exatamente o tipo de leitura que me intriga, desafia e conquista. 
Muito Bom. 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

As Sombras de Leonardo da Vinci

Autor: Christian Gálvez
Edição: 2018/ março
Páginas: 388
ISBN: 9789897243677
Tradutor: Inês Guerreiro
Editora: Clube do Autor

Sinopse:
Século XVI. Os conflitos pelo poder nos Estados Italianos crescem ao mesmo tempo que as artes prosperam. A Igreja e famílias como os Médici e os Sforza detêm o domínio do território e das riquezas. Savonarola ganha seguidores. Verrocchio, Botticelli, Miguel Ângelo e Rafael são artistas respeitados.
Florença é casa dos Médici e berço desta ebulição cultural. O criativo e genial Leonardo da Vinci finalmente começa a criar nome, tem o seu próprio ateliê e clientes e liberdade para desenvolver a sua arte e as suas invenções. Mas uma acusação anónima de sodomia obriga-o a abandonar os seus planos e a cidade das artes.
Invejas e medos, ignorância e corrupção, sofrimento e perseguição. Quando Leonardo percebe que nada do que parece ser é e que os inimigos podem estar em qualquer lugar, debate-se entre a vontade de triunfar e o desejo de vingança, entre o homem pecador e o génio inventivo, entre o passado e o futuro.

Este é um romance histórico com uma extensa pesquisa por trás, em que as descrições e os grandes nomes da época criam o ambiente perfeito para conhecermos melhor o homem por trás de toda a genialidade.

A minha opinião:
Há algum tempo que não lia um romance histórico, particularmente um bom romance histórico. Mais uma gentileza do Clube do Autor que, muito agradeço. 

Leonardo da Vinci, o imortal génio de que ouvimos falar, foi pintor, cientista, engenheiro, inventor, anatomista, escultor, arquiteto, urbanista, botânico, músico, poeta, filósofo e escritor. Este romance histórico pretende dar a conhecer um pouco do homem, por detrás de todos estes talentos. Leonardo era belo e garboso e conheceu a lealdade e a traição. E a vingança. Usou a perseverança e a determinação para sobreviver e vingar num mundo de fanáticos religiosos em que ousou voar e conquistar o céu ancorado ao chão. 

O seu quadro mais famoso, Mona Lisa, também conhecido como A Gioconda, é explicado no fim pelo seu fiel discípluo Francesco Melzi a D. Francisco I, rei de França. 

Uma vida corajosa, aventuras e rivalidades, num elaborado romance que resultou de uma exaustiva investigação e verdadeira paixão e admiração por esta personagem impar. Um romance que não me conquistou de imediato mas seduziu-me gradualmente, página a página. Ausente destas páginas a sexualidade de Leonardo da Vinci, que muito jovem foi acusado de sodomia e quase pereceu. Os amigos e os inimigos. Miguel Ângelo Buonarroti, retratado como rude e mal disposto foi um rival digno que apreciava a competição, enquanto Sandro Botticelli, um traidor com o pecado da gula. 

Recomendo. 

terça-feira, 24 de abril de 2018

A minha avó pede desculpa

Autor: Fredrik Backman
Edição: 2018/ março
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-03069-6
Tradutor: Elsa T. S. Vieira
Editora: Porto Editora

Sinopse:

Elsa tem sete anos de idade, quase oito, e é diferente. Para já, tem como melhor - e única - amiga a avó de setenta e sete anos de idade, que é doida: não levemente taralhoca, mas doida varrida a sério, capaz de se pôr à varanda a tentar atingir pessoas que querem falar sobre Jesus com uma arma de paintball, ou assaltar um jardim zoológico porque a neta está triste. Todas as noites, Elsa refugia-se nas histórias da Avozinha, cujo cenário é o reino de Miamas, na Terra-de-Quase-Acordar, um reino mágico onde o normal é ser diferente.

Quando a Avozinha morre de repente e deixa uma série de cartas a pedir desculpa às pessoas que prejudicou, tem início a maior aventura de Elsa. As cartas levam-na a descobrir o que se esconde por detrás das vidas de cada um dos estranhíssimos moradores de um prédio muito especial, mas também à verdade sobre contos de fadas, reinos encantados e a forma como as escolhas do passado de uma mulher ímpar criam raízes no futuro dos que a conheceram.

A minha avó pede desculpa é uma belíssima história, contada com o mesmo sentido de humor e a mesma emoção que o romance de estreia de Fredrik Backman, o bestseller internacional Um homem chamado Ove.

A minha opinião:
Quando vi este livro reconheci o autor de Um Homem Chamado Ove. Um excelente cartão de visita para este novo livro para quem já o leu. Daí, a pedir este livro emprestado à minha boa amiga Cristina foi um instantinho e logo o recebi dado o entusiasmo que ambas partilhamos por esta escrita fantasiosa  baseada na realidade. 

"Todas as crianças de sete anos merecem ter os seus super-heróis e um dos superpoderes dos herois devia ser nunca ter cancro." (pag.27)

A avóznha é a melhor amiga de Elsa, uma criança inteligente e perspicaz, que através de vários contos de fadas lhe dá a conhecer o mundo e os que a rodeiam no que define como "castelo", que não é nada mais nada menos do que o pequeno prédio onde habitam e em que todos os inquilinos são personagens. Um mundo de encantar, sem perder o pé no real e nos múltiplos problemas do dia-a-dia. Morte, perda, sofrimento, solidão, perseguição, traumas, tudo tem o seu lugar sem perder a beleza e a leveza, numa narrativa que sem ser exaustiva é muito completa e abrangente. Ao alcance do entendimento de uma criança. 

"Porque nem todos os monstros eram monstros, a princípio. Alguns são monstros nascidos da dor." (pag.118)

A relação desta avó tão especial com esta criança tão peculiar, tão diferentes e tão iguais a tantas outras que muito se amam, é o tema principal deste romance. Mas o protagonistmo desta avó não se encerra na relação com a neta. Os superpoderes desta avó vão sendo desvendados ao longo da trama e a admiração e o espanto confortam o leitor como só um bom romance o consegue. 

"A avózinha de Elsa vivia num ritmo diferente das outras pessoas. Funcionava de forma diferente. Num mundo real, em comparação com tudo o que funcionava, ela era caótica. Porém, quando o mundo real se desmorona, quando tudo se transforma em caos, as pessoas como a avózinha de Elsa podem ser as únicas que se mantêm funcionais." (pag.123)

Talvez por a expetativa ser muito alta não me deslumbrou como esperava.Ainda assim é um romance que merece muito ser lido para descobrir o tanto que se esconde nas "entrelinhas". Ternura que se manifesta na capa e extravassa ao longo de todo a estória. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Nervo Ótico

Autor: María Gainza
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 168
ISBN: 9789722064323
Tradutor: Maria do Carmo Abreu
Editora: Dom Quixote

Sinopse:
Quando María Gainza escreve nestas páginas sobre as vidas incríveis de El Greco, Courbet, Fujjita ou Toulouse-Lautrec, sobre o banquete que Picasso ofereceu em honra de Henri Rousseau entre a admiração e a troça ou sobre as misteriosas razões por que Rothko se recusou a entregar ao luxuoso Four Seasons uma encomenda milionária, a sua narradora está também a falar do hospital em que o marido fez quimioterapia e onde uma prostituta andava de quarto em quarto, da decadência da sua própria família em Buenos Aires, do desaparecimento precoce de uma amiga, do desconforto da gravidez ou até do pânico de voar. Como num museu - lugar que, aliás, frequenta muitas vezes à maneira de uma sala de primeiros-socorros -,a sua vida tem obviamente obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. E, no entanto, todos eles importam.

O Nervo Ótico é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Singular e inclassificável, celebra o detalhe e inaugura um género literário no qual confluem, de forma absolutamente perfeita, a história da arte e a crónica íntima, num tom que oscila entre a comédia social e a ironia trágica. Traduzido por grandes editoras em todo o mundo, esta obra de estreia, tão depressa ousada como subtil, apresenta-nos uma grande escritora contemporânea.

A minha opinião:
Começo com um desabafo. Num dia de chuva escorreguei e cai, e estou um bocadinho "lerda" de locomoção. Eventualmente, de raciocinio. Sem a agilidade mental e a elasticidade de María Gainza, uma renegada da sua classe que, em momentos de ansiedade e melancolia percorre museus argentinos, em que lhe ocorrem aspectos da vida dos génios criativos que admira, bem como reflexões pessoais desassombradas.
Como refere de início "escrevemos uma coisa para contar outra,  e muitas são as coisas que conta neste pequeno romance em que se retarda a leitura para melhor o apreciar.

Bem sei que “O Nervo Ótico” incomoda muita gente por aderir ao acordo ortográfico, mas ultrapassado esse obstáculo vão certamente adorar. A arte marca. A literatura também. 

Quantas e quantas vezes já o escrevi, mas mais uma vez afirmo que, gosto muito de romances de estreia. Quase sempre têm um fulgor difícil de igualar.  Neste romance temos uma visita guiada pelas pinturas preferidas da autora em que nos altera a perspetiva. Admito a minha ignorância e nem todos conhecia. Onze preciosos capítulos em que tudo é uma questão de olhar

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sangue na Neve

Autor: Jo Nesbø
Edição: 2018/ março
Páginas: 152
ISBN: 9789722064590
Tradutor: Ricardo Gonçalves
Editora: Dom Quixote

Sinopse: 

Olav é um assassino contratado, mas tem uma vida solitária e tranquila. Quando o que se faz na vida é matar o próximo, não é fácil fazer amigos, mas sem ninguém a quem se afeiçoar ou prestar contas, os dias também decorrem sem problemas. Só que o quotidiano de Olav complica-se ao conhecer a mulher dos seus sonhos.

Apaixonar-se por alguém já é por si só uma situação desafiante, mas há duas outras particularidades que fazem desta mulher um vendaval na sua rotina: é casada com o seu chefe. E este acaba de o contratar para a matar.

Como é que Olav irá gerir a situação?
Será que vai conseguir enganar um dos mais temíveis criminosos do país?

Este livro, anterior à série Harry Hole, tem já todos os ingredientes que fazem com que Jo Nesbø seja um dos autores nórdicos de policiais mais bem-sucedidos em todo o mundo.

A minha opinião:
Olav é um anti-herói. Um tipo com tendência em dar às pessoas alguma margem de manobra em relação às suas ações e decisões. Um controverso protagonista por quem se sente empatia. E não é o único que li. Fora da série Harry Hole,  com "O Filho", senti o mesmo pelo protagonista. 

Um assassino com dislexia, que na primeira pessoa narra as suas intuitivas percepções  e alguns detalhes da sua vida, num livro tão pequeno que se lê com animo e interesse até ao fim. Cheguei a questionar-me se não seria um conto, dadas as dimensões dos restantes livros que vi de Jo Nesbø. Ainda assim, em nada o desmerece, porque grandes ou pequenos lêem-se com paixão. 

A escrita coloquial e eficiente é um alento que não cansa. As personagens e o ambiente completam o quadro. As paisgens geladas, bem descritas, cenário em que a frieza também é uma carateristica das personagens. Sangue na Neve é enaltecido pelo contraste visual de alguma beleza. 

Traição, mas em que não existe desenvolvimento das restantes personagens, apenas enquadramento, sequer das mulheres que Olav amou.  Não senti falta de mais. Gostei da trama. O final surpreendeu-me. Gostei e vou repetir. Pretendo conhecer Harry Hole.

domingo, 8 de abril de 2018

Tudo é Possível

Autor: Elizabeth Strout
Edição: 2018/ março
Páginas: 240
ISBN: 9789896655020
Tradutor: Rita Canas Mendes
Editora: Alfaguara 

Sinopse: 
Depois do sucesso de O Meu Nome é Lucy Barton (Alfaguara, 2016), a escritora americanaElizabeth Strout (n. 1956), uma das romancistas mais aclamadas da actualidade, regressa com um mosaico delicado da vida de todos os dias, um retrato íntimo das pessoas comuns que tentam entender-se e entender os outros, esforçando-se por ultrapassar o sempre crescente abismo entre o desejar e o ter.
Lançando um olhar sobre as ambiguidades e ambivalências da alma humana, Tudo é Possível, obra com a chancela da Editora Alfaguara, é um hino à sensibilidade e à compaixão.

A minha opinião: 
Não sou crítica literária. E nem tinha como o ser. Limito-me a reportar o que pensei ou senti com os livros que li. Afinal, sou uma leitora. 

Alguns livros são avassaladores. Retemos na memória a forte impressão que causaram. O mais importante pode ser não o que descrevem, mas o que sentimos com o que lemos. O romance O Meu Nome é Lucy Barton foi assim e este romance voltou a ser. 

Todos temos um universo dentro de nós, ambiguidades, contradições, mágoas, expetativas, que perservamos. Cada uma das personagens, agora idosas, que fizeram parte da vida de Lucy Barton (ela é uma personagem secundária quando regressa à sua terra natal, após o lançamento do seu livro de memórias) ganham vida e todo o seu sentir é colocado a nú de forma desprendida e crua. Cada capítulo, subtilmente interligados, é um conto que retrata uma personagem, com as suas misérias e grandezas, em que amiúde fui surpreendida com compaixão e generosidade, o que me fez crer que na vida TUDO É POSSÍVEL. 

Maturidade na escrita e na narrativa, que nos confronta com a nossa humanidade. Intenso. Muito bom. Mais uma autora que não vai sair do meu radar.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Conspiração da Senhora Parrish




Autor: Liv Constantine
Edição: 2018/ março
Páginas: 400
ISBN: 9788491392545
Tradutor: Mariana Mata 
Editora: HARPER COLLINS

Sinopse: 
Uma nova voz em suspense psicológico apresenta-nos esta fascinante trama sobre Amber Patterson, uma mulher fria e manipuladora e um endinheirado casal de ouro. Com surpreendentes reviravoltas e segredos obscuros trata-se de um thriller suculento e aditivo deliciosamente enganoso que cativará os leitores até altas horas da madrugada.
Com uma trama tão retorcida e fascinante como a Rapariga no Comboio.

A minha opinião: 
Ambição e inveja. Uma vida de luxo com um homem de sonho, esse era o objectivo de Amber, que engendrou um bom plano para o conseguir. Jackson Parrish era casado e ficar amiga da sua mulher Daphne era fundamental. Duas personagens femininas antagónicas, o bem e o mal, branco e negro. 

A elegante imagem de capa exerce o seu fascínio, que se consolida depois de ler este romance em que duas inteligentes mulheres usam secretamente os seus trunfos neste enredo plausível e convincente, ou não tivesse sido escrita a duas mãos com o pseudónimo Liv Constantine. Não o entendo como um thriller psicológico, apesar da reviravolta na segunda das três partes, em que confirmei as minhas suspeitas.

Empatia, manipulação e calculismo usado para diferentes fins. Disturbio, por vezes. Uma estória bem contada numa escrita fluída que prende desde o início, o que pode ser complicado de conseguir quando o livro anterior agradou. As personagens enredam o leitor, e em algumas passagens mais do que o susto é o choque (sem querer revelar demais). Espero com isto espicaçar a curiosidade. Algumas gralhas no texto aborreceram-me um pouco, principalmente na primeira parte. Em suma, foi de encontro às minhas expetativas e as 400 páginas leram-se num ápice. Muito bom. Vou ficar atenta às irmãs Constantine.

domingo, 1 de abril de 2018

O Som das Coisas que Começam

Autor: Evita Greco
Edição: 2018/ fevereiro
Páginas: 248
ISBN: 9789722361644
Tradutor: Maria das Mercês Peixoto
Editora: Presença

Sinopse: 


Ada aprendeu com a avó, Teresa, a não ter medo e a não perder a coragem: sempre que algo de belo parece desaparecer, ela deve apurar o ouvido e prestar atenção aos sons. Só assim será possível reconhecer os sons das coisas que começam. Alguns são simples e têm uma magia especial: uma orquestra no momento de afinar os instrumentos, o vento uivante na tempestade, o tilintar de chávenas de café todas as manhãs... Mas na vida nem sempre sabemos reconhecer as coisas belas - quando deixamos de acreditar em nós próprios, ou quando alguém parte. Para Ada, agora que Teresa está gravemente doente, o medo de ficar só é tão forte que a tolhe . Mas ela conhece Giulia, a enfermeira que a encoraja, e Matteo, o homem que a surpreende com o amor incondicional. Giulia e Matteo irão confirmar que o amor significa prestar atenção aos sons que ninguém, exceto cada um de nós, consegue ouvir. E Ada irá aprender que, mesmo quando as coisas estão a terminar, algures no mundo elas estão também a começar.


A minha opinião: 
Um romance de emoções. Suave, subtil e tão forte, que me obrigava a parar de ler para me recompor. 

Uma avó especial, que criou a neta desde os três anos. Teresa está doente. Hospitalizada. Aga, a neta, imaginativa, disléxica, vive fora da realidade, mas atenta a tudo o que a rodeia (como a avó lhe ensinou) e Giulia, a cuidadora, prática e alheia. Submissa sem o deixar saber. E por fim, Matteo. Não chegam a ser uma mão cheia as personagens que preenchem as páginas deste romance de estreia, no entanto, encheram-me de afeto. Ao ler, percebi enfim, o quanto gosto de romances de estreia pela admirável convicção de que as palavras cheguem ao leitor com o mesmo ímpeto com que as escreveram. E chegam. 

Este romance tem duas partes, que acontecem em simultâneo. Talvez seja assim que as coisas irreparáveis, aquelas que tomam um curso antes inimaginável e depois inesquecível, sejam de uma só espécie, nem boa nem má, apenas muito poderosa e surpreendemente frágil. Na dor, não se consegue ver as coisas em perspetiva. Apenas podemos estar atentos ao som das coisas que começam. 

Os livros da Presença são imensos, não só pelo muito que nos fazem sentir, como pela delicada espessura dos livros que nos induzem no erro de que a leitura seja breve. Temas importantes, que parecem banais, se a abordagem não fosse diferente, como neste romance que se considera a perda, a amizade, o amor e a morte. Muito bom. Gostei muito.