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sábado, 3 de fevereiro de 2024

Mr. Loverman

 

A minha opinião:

Mudança de planos. Acontece-me muito. Início um, espreito outro e às tantas, ainda leio uma ou outra boa sugestão, como a da Laura Perdigão e penso que é Mr. Loverman que finalmente vou ler para quebrar esta semi-ressaca literária.

E não me parece que tenha errado porque Mr. Barrington Walker é uma personagem que marca e basta um único capítulo para o descobrir. Sarcástico e com um jeitinho caribenho para tudo e todos é de rir. 
(Ó fe-li-ci-da-de.)

Li a sinopse e não me cativou mas nada nos prepara (exceto as boas opiniões) para esta personagem fora de série. Um vivaço com 74 anos que emigrou de Antígua quando casou nos anos 60 para Inglaterra e depois de cinquenta anos se questiona sobre uma mudança de vida ao assumir a sua homosexualidade. Bem escrito e com uma linguagem muito própria é uma espécie de sátira de costumes perante a perspectiva de Barry que tem um sentido critíco, irónico e sarcástico arrebatador na relação com tudo e todos, em que nem ele mesmo escapa a uma autocensura. Um livro que reflecte sobre velhice, familia, amor, mas também racismo homofobia e identidade, sem nos estar a dar nenhuma lição. É um gozo com muito ritmo e que não se quer largar. Qualquer preconceito ou pré julgamento desaparece nas primeiras páginas. O desfecho tinha que ser à altura de Mr. Loverman.

Autor: Bernardine Evaristo
Páginas: 336
Editora: Elsinore
ISBN: 9789896234621
Edição: junho/2022

Sinopse:
Natural da ilha de Antígua, Barrington Jedidiah Walker emigrou para o Reino Unido nos anos 1960, onde prosperou financeiramente. Bem cuidado e bem vestido, com citações de Shakespeare na ponta da língua e um observador astuto da condição humana, Barry é um gentleman das Caraíbas que aprecia uma boa pândega.

É casado há 50 anos com Carmel, tem duas filhas e um neto — e mantém, em segredo, uma relação amorosa com Morris de la Roux, seu companheiro e amigo desde os tempos de juventude. Aos 74 anos, enfrenta uma crise existencial, constatando ter chegado o momento de assumir a sua homossexualidade e pedir o divórcio. Porém, após uma vida de medos, perseguições e mentiras, a coragem fraqueja dia após dia e a sua última oportunidade para ser feliz parece fugir-lhe das mãos...

Mr. Loverman é um romance cheio de ritmo, humor e subversão, no qual a vencedora do Booker Prize, Bernardine Evaristo, lança um novo olhar sobre a sociedade multiétnica ocidental, destruindo mitos e falácias culturais e expondo preconceitos há muito enraizados.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Rapariga, Mulher, Outra

 

A minha opinião:

É difícil não ler este romance sem um sorriso no rosto. E não é porque seja leve ou tolo mas porque a vivacidade, eloquência e ironia nas várias vozes é arrebatador. Cada uma das personagens tem a sua personalidade bem vincada e resultam de um conjunto circunstâncias que não renegam e exibem com orgulho, como marcas de guerra numa viagem em que o leitor revisita lugares antes nossos conhecidos, o que dá algum gozo. Um coro de vozes femininas que defende a sua identidade, a sua raça, as suas convições, numa Grã-Bretanha em transição. Sonoridades que se complementam até porque há uma qualquer ligação afetiva ou parental e tanto que nos dá que pensar.

Impressionante. Depois deste livro, não se olha da mesma maneira para o universo feminino. Um romance extraordinário. Impar o registo de Bernardine Evaristo. 
Um dos melhores livros que li.

Autor: Bernardine Evaristo
Páginas: 480
Editora: Elsinore
ISBN: 9789896232894
Edição: 2020/ novembro

Sinopse: 
As doze personagens centrais deste romance a várias vozes levam vidas muito diferentes: desde Amma, uma dramaturga cujo trabalho artístico frequentemente explora a sua identidade lésbica negra, à sua amiga de infância, Shirley, professora, exausta de décadas de trabalho nas escolas subfinanciadas de Londres; a Carole, uma das ex-alunas de Shirley, agora uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento, ou a mãe desta, Bummi, uma empregada doméstica que se preocupa com o renegar das raízes africanas por parte da filha.

Quase todas elas mulheres, negras e, de uma maneira ou de outra, resultado do legado do império colonial britânico. As suas histórias, a das suas famílias, amigos e amantes, compõem um retrato multifacetado e realista dos nossos dias, de uma sociedade multicultural que se confronta com a herança do seu passado e luta contra as contradições do presente.

Um romance atual, brilhantemente escrito, que repensa as questões de identidade, género e classe com o pano de fundo do colonialismo, da emigração e da diáspora.

Força narrativa e escrita cativante num empolgante mosaico de histórias de vida que farão o leitor repensar a sua maneira de ver o mundo.