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domingo, 13 de fevereiro de 2022

Violeta

A minha opinião:

Isabel Allende é um gosto adquirido, dado os vários romances publicados e os quantos que a maioria dos leitores conhece e recorda. O primeiro que li foi A casa dos espíritos.
Outros vieram, alguns mais marcantes que outros, mas todos os que li tinham uma componente histórica e humanista. Violeta não desilude, desde que nasce, no auge da pandemia. Carismática, a sua história de vida confunde-se com os grandes acontecimentos do país, sem poupar palavras ao descrever o horror da ditadura militar, sendo este uma versaõ fictícia de paisagens de memórias da América Latina. E não é mais do que uma saga familiar que se lê com deleite, contada por Violeta e Camilo. O que não surpreende visto que a Isabel não perdeu o jeito e inspirou-se na sua mãe. Violeta... Uma mulher fascinante, que se expõe com todas as suas fragilidades e paixões perante Camilo a quem se confessa numa trama apaixonante e muito viciante.

Autor: Isabel Allende
Páginas: 360
Editora: Porto Editoa
ISBN: 978-972-0-03529-5
Edição: 2022/ janeiro 

Sinopse: 
Violeta del Valle é a primeira rapariga numa família de cinco irmãos truculentos. Nasce num dia de tempestade, em 1920, quando ainda se sentem os efeitos devastadores da Grande Guerra e a gripe espanhola chega ao seu país natal, na América do Sul.
Graças à ação determinada do pai, a família sairá incólume desta crise, apenas para ter de enfrentar uma outra: a Grande Depressão. A elegante vida urbana que Violeta conhecia até então muda drasticamente. Os Del Valle são forçados a viver numa região selvagem e remota, onde Violeta atinge a maioridade e viverá o primeiro amor.
Décadas depois, numa longa carta dirigida ao seu companheiro espiritual, o mais profundo amor da sua longa existência, Violeta relembra desgostos amorosos e apaixonadas relações, momentos de pobreza e de prosperidade, perdas terríveis e alegrias imensas. A sua vida será moldada por alguns dos momentos mais importantes da História: a luta pelos direitos da mulher, a ascensão e queda de tiranos, os ecos longínquos da Segunda Guerra Mundial.
Contado a partir do olhar de uma mulher determinada, de paixões intensas, com uma vida plena de sobressaltos, Violeta é um romance épico, inspirador e emotivo, ao melhor estilo de Isabel Allende.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Mulheres da minha alma

A minha opinião:
"Não exagero quando digo que sou feminista desde o jardim de infância, antes de o conceito se ter disseminado no Chile."

Assim começa este romance intimo e pessoal de Isabel Allende. Capítulos curtos numa história de vida guiada por um impulso incontrolável. Nunca aceitou o limitado papel feminino atribuído pela família, pela sociedade, pela cultura e pela religião. Mas… Não existe feminismo sem independência económica. 

Isabel Allende escreve muito bem ("pelo prazer de contar uma história palavra por palavra) e até uma lista de supermercado seria empolgante, mas neste tema que lhe é tão caro, supera-se.
A narrativa não é limitativa porque muito são os trechos de pequenos episódios, de pessoas que admira, informação relevante ou especulativa, a sua fundação e os seus ideais. E lança um repto. "Agora, é só uma questão de nos pormos de acordo para darmos um abanão formidável ao mundo."

Olga Murray também passou a ser a minha heroína. Que mulher extraordinária. E não foi a única. Nem um último capítulo sobre este estranho retiro que o Covid 19 nos impôs faltou. Muito bom. Fundamental ler!

Autor: Isabel Allende
Páginas: 208
Editora: Porto Editora 
ISBN: 978-972-0-03380-2
Edição: 2020/ novembro

Sinopse: 
«Cada ano vivido e cada ruga contam a minha história.»

Isabel Allende percorre os labirintos da memória e oferece-nos um emocionante testemunho sobre a sua relação com o feminismo e a sua condição de mulher.

Em Mulheres da minha alma, a autora chilena convida-nos a acompanhá-la nesta emocionante viagem, em que revisita a sua ligação ao feminismo, desde a infância até aos dias de hoje. Recorda algumas mulheres incontornáveis na sua vida: Panchita, Paula e a agente Carmen Balcells, cuja ausência chora ainda hoje; escritoras de nomeada como Margaret Atwood; jovens artistas que trazem na pele a rebeldia das novas gerações; mulheres anónimas que sofreram na pele a violência de género e, com dignidade e coragem, se levantam e avançam. Todas elas a inspiram e a acompanham ao longo da vida: as mulheres da sua alma.

Reflete, ainda, sobre as mais recentes lutas sociais, nomeadamente as revoltas no seu país de origem e, claro, sobre este novo contexto que o mundo atravessa com a pandemia. Tudo isto sem deixar de manifestar a sua inconfundível paixão pela vida e a sua crença em que, independentemente da idade, há sempre tempo para o amor.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Longa pétala de mar

A minha opinião:
"Uma longa pétala de mar, de vinho e de neve" com uma "cintura de espuma negra e branca"  era como Pablo Neruda havia definido o Chile, o que não era suficiente para o dar a conhecer aos mais de dois mil espanhóis que embarcaram a 4 de agosto de 1939 como refugiados para este país. A odisseia do exílio.

135 páginas antes percebemos o que os levou a este destino numa narrativa dramática e veloz mas repleta de alento e esperança. A extraordinária Isabel Allende no seu melhor.

Roser e Victor são os protagonistas que viviam numa cumplicidade profunda que suavizava as penúrias do dia a dia e os fantasmas do passado numa narrativa apaixonante sem pontas soltas. Garanto!

Pablo Neruda tem um papel preponderante, embelezando este romance com várias citações. Procurei confirmar a veracidade desse papel mas não o consegui inicialmente o que estranhei dado que todo o romance apresenta rigor histórico.

"Cada um carrega às costas a sua história e a vontade de a contar. " (pag. 247)
Com um fulgor inebriante Isabel Allende sabe contar a História que o Chile carrega às costas. A memória é fraca e tudo se esquece e tudo descarta, mas ela recorda-a com vontade de a contar. 
Eu, aplaudo, reconhecida, um grande romance com personagens admiráveis, que não será fácil  esquecer. 

Autor: Isabel Allende
Páginas: 392
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03233-1
Edição: 2019/ Novembro

Sinopse:
Espanha, final da década de 1930. A vitória iminente das tropas franquistas na Guerra Civil obriga milhares de pessoas a abandonar o país, numa perigosa viagem através dos Pirenéus. Entre eles, Roser Bruguera, uma jovem viúva, e Víctor Dalmau, médico e irmão do falecido marido de Roser.
Em França, conseguem embarcar no Winnipeg, um navio fretado pelo poeta Pablo Neruda que transportou mais de 2 mil espanhóis até ao Chile - essa «longa pétala de mar, de vinho e de neve» -, onde são recebidos como heróis.
Víctor e Roser integram-se com sucesso na vida social do país de acolhimento, durante várias décadas, até ao golpe de Estado que derruba Salvador Allende, parceiro de xadrez de Víctor Dalmau. Os dois amigos de toda uma vida são de novo forçados ao exílio, mas, como diz a autora, «se vivermos o suficiente, todos os círculos se fecharão».

Isabel Allende propõe-nos uma viagem através da História do séc. XX, pela mão de personagens inesquecíveis que descobrirão que numa só vida cabem muitas vidas e que, por vezes, o difícil não é fugir, mas regressar.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Para lá do inverno

Autor: Isabel Allende
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 336
ISBN: 9789720030221
Tradutor: Ângela Barroqueiro
Editora: Porto Editora

Sinopse:
«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível.»
Albert Camus 

Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.

Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.

Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

A minha opinião:
No natal, numa pequna reunião em Brooklyn surgiu a ideia para este romance, que seria iniciado como todos os outros livros de Isabel Allende a 8 de janeiro. Considerando a frase de abertura de Albert Camus trata-se de encontrar a alegria (e o amor) numa fase da vida em que não era esperado. E com este pressuposto e para mais com o tempo que se faz sentir lá fora (muito aquém dos nevões em Brooklyn), escolhi um canto acolhedor para me dedicar a uma leitura tranquila. Contudo, já deveria saber, apesar de não serem muitos os livros que li desta senhora, que há sempre lições a retirar e que outros temas estariam subjacentes. A emigração ilegal, os refugiados, gangues e violência doméstica, seriam estes os temas e a leitura não seria tão pacifica como eu imaginava. Falta referir a critica social sobre os Estados Unidos que dispensa mais comentários. 

Três personagens bem delineadas. Três enredos fortes que se revelam na bagagem emocional de cada uma. Três personagens que acarinhei. A interação entre elas, na sequência de um pequeno acidente, foi muito reveladora, apesar dos diálogos simples e diretos. Alternado, cada personagem tem a sua vez para contar de si enquanto o mistério adensa sobre o crime que se quer desvendar. O romance maduro foi o que menos apreciei. Em compensação, adorei o final. 

E o balanço foi muito positivo. Uma senhora que sabe o que faz e faz muito bem. Retemperadora leitura. Equilibrada. Aguardo o próximo romance que certamente já deve estar a planear começar no próximo ano. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

O amante japonês

Autor: Isabel Allende
Edição: 2015/ outubro
Páginas: 336
ISBN: 978-972-0-04774-8
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois brota um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família – como milhares de outros nipo-americanos – são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo. 

Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.

A minha opinião:
Isabel Allende é uma referencia que dispensa grandes argumentos. A sua obra fala por si. Mesmo assim não resisto a usar as suas próprias palavras "...demonstrara o seu virtuosismo de narradora, o seu sentido de ritmo e a habilidade para manter o suspense, a sua capacidade de contrastar os factos luminosos com os mais trágicos, luz e sombra...) (pag. 277). 

Não sei porque demorei tanto a escrever sobre este romance de que tanto gostei. Talvez, porque precisei de assentar ideias e ponderar no que escrever e mesmo assim, não vou conseguir atingir nem de perto a clareza, eloquência e lucidez da narrativa. Sem esquecer, as personagens bem definidas que ganham vida para o leitor. Alma, Ichimei e Nathaniel são admiráveis. Irina e Seth não lhes ficam atrás. Mas todas as personagens são grandiosas neste romance que pode conter muito de autobiográfico. Inicialmente, ilude, como sendo uma leitura morna e sensaborona mas ganha fôlego e cativa sem que se perceba.

O ponto de convergência da historia é Lark House, casa de repouso, o que não parece ser muito interessante, mas sobre a perspectiva apresentada fascina e encanta. Senão vejamos:

"Aprendeu a afastar os impulsos de violência, que ás vezes se apoderavam deles como tempestades passageiras, e não ficava assustada com a avareza e as manias de perseguição que alguns sentiam como consequência da solidão. Tentava perceber o significado de carregar o inverno as costas, a insegurança em cada passo, a confusão perante as palavras que não se ouvem bem, a sensação que o resto da humanidade anda muito apressado e fala muito depressa, o vazio, a fragilidade, a fadiga e a indiferença perante o que não lhes diga diretamente respeito, inclusive filhos e netos, cuja ausência já não pesa como antes e é preciso fazer um esforço para os recordar. Sentia ternura pelas rugas, os dedos deformados e a falta de visão. Imaginava como iria ela ser quando fosse idosa, anciã." (pag. 79)

"De acordo com Alma existiam demasiados anciãos no planeta que viviam muito mais do que o necessário para a biologia e do que o possível para a economia, não fazia sentido obriga-los a permanecer presos num corpo dolorido ou numa mente desesperada." (pag. 189)

Historia, entretenimento e reflexão. Que mais se pode pedir de um romance?

Recomendadissimo.  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O jogo de Ripper

Autor: Isabel Allende
Edição: 2014/ fevereiro
Páginas: 400
ISBN: 9789720044983
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Indiana e Amanda Jackson sempre se apoiaram uma à outra. No entanto, mãe e filha não poderiam ser mais diferentes. Indiana, uma bela terapeuta holística, valoriza a bondade e a liberdade de espírito. Há muito divorciada do pai de Amanda, resiste a comprometer-se em definitivo com qualquer um dos homens que a deseja: Alan, membro de uma família da elite de São Francisco, e Ryan, um enigmático ex-navy seal marcado pelos horrores da guerra.

Enquanto a mãe vê sempre o melhor nas pessoas, Amanda sente-se fascinada pelo lado obscuro da natureza humana. Brilhante e introvertida, a jovem é uma investigadora nata, viciada em livros policiais e em Ripper, um jogo de mistério online em que ela participa com outros adolescentes espalhados pelo mundo e com o avô, com quem mantém uma relação de estreita cumplicidade.

Quando uma série de crimes ocorre em São Francisco, os membros de Ripper encontram terreno para saírem das investigações virtuais, descobrindo, bem antes da polícia, a existência de uma ligação entre os crimes. No momento em que Indiana desaparece, o caso torna-se pessoal, e Amanda tentará deslindar o mistério antes que seja demasiado tarde.

A minha opinião:
Mistério e suspense no romance de Ripper.

Os membros de Ripper eram um exclusivo grupo de freaks que comunicavam pela internet para encurralar e destruir o misterioso Jack, o Estripador, ultrapassando obstáculos e vencendo os inimigos que apareciam pelo caminho. Cada um deles, criou uma personagem para si mesmo enquanto jogador, e aproveitou as suas aptidões quando o local de ação se transferiu para São Francisco  em 2012. Amanda Martin, de 17 anos, dirigia e coordenava o grupo com os préstimos do esbirro, seu avô. Inteligente e arguta, cedo Amanda desenvolveu uma reprovável curiosidade pela maldade em geral e pelo homicídio em particular, consequência de ser uma leitora voraz, com os perigos que isso implica. O facto de o pai ser o chefe do Departamento de Homicídios de São Francisco contribuiu para o pernicioso interesse com o conhecimento das malfeitorias que aconteciam na cidade, lugar idílico que não convidava ao crime.

Não li muitas das obras de Isabel Allende e como tal, não posso ser incluída no seu clube de fãs, mas do que li, apreciei bastante. Este romance que foge ao realismo mágico em que é exímia, proporcionou-me momentos de leitura verdadeiramente empolgantes. O tom irónico e crítico não me passou despercebido. Empatia pelas personagens ou a inquietação de querer desvendar mais do que então sabia sobre os crimes tornaram esta leitura viciante. Numa escrita fluída e ritmada, a autora relevou gradualmente e na medida do meu interesse, tudo o que precisava saber sobre as personagens que tão bem caraterizou ou a trama.

Curiosamente, adorei a personagem Indiana, a generosa e altruísta "bruxa" boa que arrasava corações, enquanto duas outras personagens que lhe eram chegadas me incomodavam sobejamente, ainda sem imaginar a participação que teriam. O ser surpreendida foi talvez o mais gratificante desta estória bem construída, mas outros aspectos já referidos a tornaram um prazer de ler.