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domingo, 17 de dezembro de 2023

O Nome que a Cidade Esqueceu

 

A minha opinião:

"Por vezes, relembrar é fazer também uma espécie de luto." 
Natasha é uma refugiada de Leste em Manhattan. Gaga devido a um trauma. E na sua solidão procura conforto numa lavandaria e com isso, consegue emprego com um acumulador.

Melanólica narrativa num outro tempo. Desesperançadas personagens que quase me aborrecem, se não fosse o controle que o autor tem sobre o ritmo da história, até que George B., o acumulador, entra como protagonista com a sua versão de vida. A rapidez com que a narrativa se desenrola é outra. Sombria quando recorda a Sida. E comovente quando se percebe o trabalho de Natasha para George.

Dividido em três partes é um romance que nos vai conquistando a pouco e pouco e enredando com personagens solitárias e inaptadas numa cidade como Nova Iorque, em que acabamos por nos apaixonar pelas personagens e pela cidade. Um romance que se termina com perplexidade. Um romance de João Tordo.

Autor: João Tordo
Páginas: 336
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897849275
Edição: novembro/2023

Sinopse:
Nova Iorque, 1991.

Ao aterrar na América, Natasha, refugiada de um país da ex-União Soviética, está longe de imaginar que o seu exílio se transformará numa aventura labiríntica pela grande cidade e pela alma humana. O caminho desta rapariga cheia de medos e sonhos cruza-se com o de George B., homem marcado por um passado misterioso, que vive em total isolamento em plena cidade, barricado num apartamento apinhado de objectos inúteis.

George oferece a Natasha um emprego bizarro: ler-lhe em voz alta a lista telefónica de Nova Iorque. Enquanto a rapariga aprende a suportar as saudades da sua família e do seu país, esboçando uma nova vida na metrópole vibrante e crua, George, por seu lado, procura obsessivamente um nome entre os milhões de nomes que a cidade esqueceu; um nome que poderá salvá-lo, ou ser a sua danação.

Tomando como inspiração uma história verdadeira publicada no New York Times, João Tordo constrói um romance enigmático, impulsionado pelo acaso e pela memória. O resultado é uma narrativa que disseca a solidão, grande doença dos nossos tempos, confrontando as suas personagens e os leitores com o passado com que todos tentamos reconciliar-nos.

O Nome que a Cidade Esqueceu marca o regresso de um dos escritores mais estimados do público a um lugar que lhe é familiar, numa história plena de imaginação, arrojo, candura e compaixão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Naufrágio

 

A minha opinião:

Gosto de um romance que seja de fácil entendimento, direto, em que a narrativa não tenha muitos subterfúgios, flua, como este romance de João Tordo. Jaime Tordelo é um homem de meia idade que sofre um bloqueio de escritor quando a doença irrompe o idílio que tinha começado com uma nova vida. Um telefonema desvenda um movimento associado a um outro maior que o tinha como protagonista. E a empatia que sentia muda na medida da percepção da história quando Alice surge na narrativa. Inquieta como um bom romance o deve fazer para conduzir à reflexão.

Naufrágio. É mesmo disso que se trata. Um afundamento. Um mergulho profundo em que não se sabe se volta à tona. E o leitor sabe o que se passou porque tem uma perspectiva privilegiada. A ignorância no desfecho prende a esta narrativa. 
Enfim... Um romance bem conseguido que não é amargo, sombrio ou denso. E é disso que gosto nos últimos romances de JT.

Autor: João Tordo
Páginas: 320
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897845390
Edição: Abril/2022

Sinopse: 
O novo romance de João Tordo conta-nos a história de um homem à deriva, enredado nos seus fantasmas e obrigado a enfrentar a mais terrível das acusações.

Aos sessenta anos, o romancista Jaime Toledo enfrenta vários problemas. Não escreve há uma década, foi diagnosticado com cancro e, de repente, dá por si no epicentro de um escândalo. Escritor de renome em Portugal, a polémica lança-o para o abismo - sem carreira, sem dinheiro e sem casa, com os livros a ganhar pó nos armazéns, depois de banidos pela sua editora, toma uma decisão radical: deixar tudo para trás e mudar-se para um barco decrépito, fundeado nas docas de Lisboa. É no Narcisse - um minúsculo barco mágico -, na companhia de uma velha guitarra e de um cão chamado Sozinho, que Jaime procurará devolver o sentido à sua vida, reconciliando-se com o passado: as relações conturbadas com as mulheres, o abandono da escrita, a culpa que o corrói.

Até que, um dia, a aparição de uma figura do passado mudará tudo, desviando a narrativa para um lugar inesperado. Estará nas mãos de Jaime decidir se este naufrágio é o fim ou um caminho para algo novo.

Naufrágio é um corajoso romance sobre o amor e as relações entre os sexos, uma reflexão sobre a memória e a culpa, e as linhas difusas que definem as fronteiras pessoais, sociais e morais. Através de Jaime Toledo, João Tordo traça o perfil de um homem em busca da redenção possível, num mundo mais rápido a julgar do que a refletir, e onde é mais fácil condenar do que estender a mão.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Águas Passadas

A minha opinião:

Mais do uma vez ouvi o João Tordo falar neste thriller e mesmo não sendo uma das suas maiores fãs não podia deixar de o ler, quando um novo livro com as mesmas personagens está prestes a sair. Contudo, parece que isso está a mudar porque li compulsivamente este thriller.

Pilar Benamor é uma personagem incrivel. "Avariada" como convêm a um bom thriller. Esperava que a ligação com Cícero Guzmán fosse mais presente na trama mas é um dinâmica que mantêm o leitor em suspense sem discernir o culpado dos crimes. 

Mal posso esperar para ler o próximo.

Autor: João Tordo
Páginas: 526
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789897841071
Edição: Junho/2021

Sinopse: 
Durante treze dias de Janeiro de 2019, a chuva cai sem misericórdia sobre Lisboa. É quando aparece a primeira vítima, na praia de Assentiz: uma jovem de quinze anos trazida pela maré. O seu corpo apresenta marcas de sofisticada malvadez. A primeira agente no local é Pilar Benamor, uma subcomissária da PSP cuja coragem e empenho em descobrir a verdade ocultam segredos dolorosos.

A jovem vítima é Charlie, filha de um empresário inglês, mas logo a vítima de um segundo crime brutal um rapaz de dezassete anos aparece na floresta de Monsanto, em condições inenarráveis. Estas duas mortes prematuras e violentas abrem caminho a uma investigação que irá descarnar a alta sociedade portuguesa e o submundo do crime.

Ao longo desse inclemente mês de Inverno, Pilar desbrava caminho na investigação, contra tudo e todos e com a ajuda de Cícero, um misterioso eremita.

Desobedecendo a ordens superiores e colocando a própria vida em risco, vai penetrar no mundo escuro e tenebroso de um psicopata, enquanto luta com os fantasmas que há muito carrega: um pai polícia que morreu em serviço, um vício que a consome e a vulnerabilidade num mundo dominado por homens.

Depois da estreia no género com A Noite em Que o Verão Acabou, João Tordo regressa com um policial de ritmo imparável e delicada sensibilidade, que vai ao âmago dos nossos piores medos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

As três vidas

A minha opinião:

Não muito convencida peguei neste romance para o Clube À descoberta de João tordo. O anterior, referente ao mês de agosto, não me tinha enchido as medidas (ao contrário da maioria das pessoas que o leu). Acho que tinha expectativas elevadissímas e por consguinte para este romance eram baixíssimas. Decidi confirmar e para minha grande surpresa, a fluidez da narrativa cativou-me de imediato. Uma história mirabolante porque viver com um fascista é muito mais perigoso e sedutor do que um comunista, porque sabem à partida daquilo que são capazes.

Um grande enigma. A trama desenvolve-se num ambiente de grande mistério que vicia. O cenário na Quinta do Tempo em Santiago do Cacém nos anos oitenta e a ação que remonta a anos anteriores com a espionagem em tempo de guerra, numa narrativa em torno de Millhouse Pascal e o anónimo testemunho de quem expiar os seus pecados. As três vidas numa coreografia de desastre iminente.

Negros sentimentos envolvem as personagens que abraçam a culpa e a solidão. O autor, nos seus romances apresenta personagens marcadas ou sofridas com frequência e este romance não foi exceção. Contudo, o que me enredou foi o humanismo e o desfecho das personagens. Valeu.

Autor: João Tordo
Páginas: 480
Editora: Casa das Letras
ISBN: 9789896656126
Edição: 2020/ março

Sinopse: 
História de amor, saga familiar, mistério policial, retrato de um mundo que ameaça resvalar da corda bamba, Três Vidas é um dos mais importantes romances de João Tordo, tendo-lhe valido o Prémio Literário José Saramago.
António Augusto Milhouse Pascal vive longe do mundo, num velho casarão alentejano, com os três netos pouco dados a regras e um jardineiro taciturno. O isolamento é quebrado pelas visitas de clientes abastados que procuram ajuda do velho patriarca, em tempos um importante espião e contra-espião, testemunha activa das grandes guerras do século XX. O nosso narrador - um lisboeta de origens modestas - entra na história quando Milhouse Pascal o contrata como arquivista dos segredos que envolvem os seus clientes. Não poderia adivinhar o rapaz, ao aceitar o trabalho, que este acabaria por consumir a sua própria vida. A partir do momento em que se apaixona por Camila, neta do patrão com sonhos de ser funambulista, que desaparece após uma viagem a Nova Iorque, o destino do narrador enreda-se irreversivelmente nos mistérios da família, partindo a sua existência em três.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A Mulher que Correu Atrás do Vento

A minha opinião:
Finalmente li um livro de João Tordo.
Não sei ao certo ou se existe um porquê, mas nunca antes me senti tentada a ler os romances deste autor. A minha absurda anterior aversão por autores portugueses, de quando em quando, impõe-se. Lúgubre, era o que imaginava. No meu grupo de amigos o afecto não é consensual e talvez tenha sido essa a percepção que me ficou.

Não é um livro que nos conquiste de imediato. A escrita requintada não é fluída, dada a complexidade das personagens femininas que se procura compreender. 
A Lia encantou-me com a sua força dissimulada de fraqueza e fiquei agarrada. Lisbeth, uma mulher desfasada do seu tempo, depois do desconforto inícial também me seduziu. Não esperava o desconforto final. 
A estranheza e a curiosidade levaram a melhor na ligação entre as partes distintas de uma narrativa longa e algo confusa, se não for lida com alguma atenção.

"Nada é verdade, respondeu ele. E, contudo, o que se aprende ao escrever é que tudo é verdadeiro, mesmo quando mentimos." (pag.205)

Fantástica definição de um romance. 

O abandono, a solidão, a vergonha e a culpa que cercam estas mulheres, ligadas por um romance no final do sec. XIX. Trágico e muito bom.

Autor: João Tordo
Páginas: 504
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9789896657604
Edição: 2019/ Março

Sinopse:
1892, Baviera. Lisbeth Lorentz, uma professora de piano, apaixona-se por um aluno de 13 anos que sofre de autismo. Ao descobrir que ele é um prodígio, instiga-o a compor um concerto durante as aulas e, um dia, sem explicação, fá-lo desaparecer.

1991, Lisboa. Beatriz, uma estudante universitária —que sonha com o toque das mãos da mãe falecida —envolve-se com o autor d’A História do Silêncio, um romance sobre Lisbeth Lorentz. Ao mesmo tempo, enquanto voluntária num abrigo para mendigos, Beatriz conhece Lia, uma jovem adolescente com um passado incógnito e um presente destruído.

1973, Londres. Graça Boyard, portuguesa, dá à luz a primeira e única filha. Fugida de Lisboa durante as cheias de 1967, para escapar à tirania do pai e à mordaça da ditadura, regressa à capital após a Revolução, tornando-se uma actriz de renome —e abandonando a filha ainda criança.

2015, Lisboa. No consultório de uma terapeuta, Lia Boyard desfia a sua história, dos anos de mendicidade ao momento em que decide procurar a mãe. É aqui que começam a unir-se as pontas de um romance a várias vozes: a história de quatro mulheres - Lisbeth, Graça, Beatriz e Lia - que atravessam um século de História e diferentes geografias, unidas por uma força que transcende a própria vida.

Um livro sobre o poder do amor e o vazio da perda, sobre a amizade que nasce das circunstâncias mais improváveis e o terrível poder da confissão. E, quase no final, uma revelação chocante, a reviravolta que faz deste romance de João Tordo uma narrativa magnética.