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terça-feira, 6 de junho de 2023

O perigo de estar no meu perfeito juízo

 

A minha opinião:

Nota prévia: Adoro o título.
Óbvio dado que trata a ligação entre a criação e loucura e sem emitir muito do saber próprio.

A fluidez da narrativa parece encetar um diálogo como o leitor, assim como acontece noutros livros da Rosa que encantam. Muitos escritores e muitas referências literárias que adorei reconhecer em que a curiosidade levou a melhor. O mais importante é desmistificar as perturbações mentais. e para o efeito fez uma dedicada investigação para nos presentear com as suas ilações. O que convenhamos também a deve ter divertido. Muitas reflexões.
"Não consigo incorporar-me na minha verdadeira idade." "Assim andamos todos pelo mundo à caça dessas pequenas bolhas de vida extraordinária."
Muito bom. É provável que releia este livro.
Não é uma história corrida mas é Rosa no seu melhor. 
Nota final: Há uma história de fundo com A outra. 

Autor: Rosa Montero
Páginas: 240
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03653-7
Edição: fevereiro/2023

Sinopse:
Na tradição de A Louca da Casa, um livro brilhante e sagaz sobre criatividade e loucura
«Sempre soube que na minha cabeça alguma coisa não funcionava muito bem», diz nos logo ao início Rosa Montero. Voltando ao solo fértil que alimentou A Louca da Casa, esta sua convicção encontrou eco em estudos científicos e dados concretos, mas sobretudo na observação da sua própria vida e nas biografias desses «loucos» e «estranhos» seres dedicados, como ela, à arte da escrita, almas que transformaram o sofrimento pessoal em matéria literária. Sylvia Plath, Emily Dickinson e muitos outros estão presentes nestas páginas repletas de empatia pelos dramas humanos e, ao mesmo tempo, de admiração por toda a beleza daí resultante.
O perigo de estar no meu perfeito juízo prova a capacidade extraordinária de Rosa Montero de misturar ficção, autobiografia e ensaio, resultando numa obra perspicaz, tocante e bem-humorada sobre o custo da «normalidade» e o valor da diferença.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

A ridícula ideia de não voltar a ver-te

 

A minha opinião:

Li este romance há alguns anos. Recordo que é sobre a Marie Curie e o luto. Também sei que gostei muito e como tal, reler não é problema, antes pelo contrário. A narrativa é sucinta e eloquente, como eu aprecio e ademais, qualquer mulher pode fazer o mesmo; usar a vida de Marie Curie como medida para entender a sua e ainda reflectir sobre qual é o seu lugar na sociedade. Sem esquecer o maldito sindrome de redenção. 

O que me encanta é o correr solto das palavras que amiúde sugerem também fantásticas sugestões de leitura a propósito de uma qualquer reflexão. Surpreendentemente não é um romance amargo ou lúgubre porque há uma descontrução da dor e solidão no luto. Uma construção de si. Rosa Montero certamente que encara este romance como um projeto muito pessoal naquele período da sua vida.

Autor: Rosa Montero
Páginas: 176
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04712-0
reEdição: 2021/ maio 

Sinopse: 
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso.

São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

domingo, 4 de julho de 2021

A Boa Sorte

A minha opinião:

Alguns livros chamam por nós mas este gritou. Rosa Montero é uma boa amiga que não dispenso e não desilude. Aconchegante. Sensivel. Inteligente. Maravilhosa. E as personagens que nos dá a conhecer são especiais. Não se apresentam logo, mesmo que seja algo excêntica como a Raluca ou misteriosa como o Pablo Hernando mas cada vez quer viramos a página gostamos mais e mais delas.

Tudo isto para dizer que estou encantada com esta estória. Aliás, extasiada, é a palavra certa. As bem escritas estórias tocam o leitor porque as personagens são tão humanas que o enredo se torna convincente, para mais quando aborda a banalidade do quotidiano em que coexiste o bem e o mal, a vida e a morte, a alegria e a dor e no fim o amor e a esperança.
Raluca é uma personagem iluminada que acredita na sua boa sorte, enquanto Pablo, sensível à beleza e á ordem desistiu dela e foi esconder-se na fealdade de Pozonegro. O encontro destas duas personagens é A Boa Sorte.
Fantástico. É por romances assim que leio Rosa Montero.


Autor: Rosa Montero
Páginas: 232
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03191-4
Edição: 2021/ junho 

Sinopse: 
O que leva um homem a descer de um comboio antes do fim da viagem e ir esconder-se numa cidadezinha decadente? Um desejo de recomeço ou a necessidade de acabar de vez com a vida?
Pablo, o protagonista em fuga, é conduzido pelo destino a Pozonegro, um antigo centro de extração de carvão que é hoje uma localidade moribunda.
No entanto, há humor nesta cidade triste e maldita, porque a vida é feita de alegria. E de segredos, claro. Todos os habitantes de Pozonegro possuem o seu. Alguns são apenas ridículos. Outros, sombrios e muito perigosos. Há gente que finge ser quem não é ou que esconde a sua verdadeira motivação, num intrincado jogo de espelhos; e há também a luminosa, imperfeita e um pouco louca Raluca, que pinta quadros e cuja vida se cruza com a de Pablo.
Um romance sobre o bem e o mal, uma radiografia dos anseios humanos – medo e serenidade, culpa e redenção, ódio e desejo –, uma história de um amor terno e febril, A Boa Sorte espelha, sobretudo, um profundo amor à vida. No fim de contas, depois de cada perda, pode haver um recomeço. Porque a sorte só é boa se assim o decidirmos.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Os Tempos do Ódio

A minha opinião:
Rosa Montero é uma das autoras cujos romances gosto de ler. Até então, nunca lera nenhum dos seus romances de fantasia. Não é o meu género. Contudo, tenho a aguardar para ser lido "O Peso do Coração".

O que pensei primeiro foi que lia um romance para jovens leitores, dada a simplicidade da trama com um cenário extravagante e personagens de fácil acesso e projeção. Bruna Husky é uma protagonista androide (rep) com característidas muito particulares que se admira e se teme. Com pupilas verticais como as dos répteis ou dos felinos, tem os dias contados: três anos, três meses e dezasseis dias, e menos tempo ainda para salvar o seu amado. 

E... como acontece com a boa literatura fiquei enredada naquela luta corrida contra o tempo, numa Madrid futurista fervilhando de ódio. Muitos dos problemas atuais que ignoramos ou evitamos, assim como a inteligência do homem mudaram o mundo, tal como o conhecemos, mas os sentimentos continuam a ser uma força imutável.
Uma aventura vertiginosa numa escrita ágil que inesperadamente me arrebatou. Corrupção e um final bestial, ao qual não faltou Rosa Montero.


Autor: Rosa Montero
Páginas: 312
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03274-4
Edição: 2020/ fevereiro

Sinopse:
Independente, pouco sociável, intuitiva e poderosa, a detetive replicante Bruna Husky tem apenas um ponto vulnerável: o seu enorme coração. Dilacerada pelo súbito e inexplicável desaparecimento do homem que ama, o inspetor Paul Lizard, a replicante enceta uma investigação desesperada e em contrarrelógio que a conduz até uma colónia remota dos Novos Antigos, uma seita que nega a tecnologia, e às origens de uma trama sombria de luta pelo poder, que remonta ao século XVI. Enquanto isso, a situação no mundo é cada vez mais tumultuosa, a tensão popular aumenta e a guerra civil parece inevitável. Numa história que é, no essencial, um retrato preciso e deslumbrante dos tempos em que vivemos, Bruna terá de enfrentar o seu maior medo: a morte.

Os Tempos do Ódio é um romance intenso e emocionante, no qual estão presentes os grandes temas da escrita de Rosa Montero: a passagem do tempo, a paixão como forma de vencer a morte, o amor ao próximo como fator indispensável para uma vida plena, a luta contra os excessos do poder e o horror aos dogmas.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

A Carne

Autor: Rosa Montero
Edição: 2017/ dezembro
Páginas: 192
ISBN: 978-972-0-03013-9
Tradutor: Helena Pitta
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espetáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante.

No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô, trinta e dois. Começa o jogo…

A narração desta aventura irá mesclar-se com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional - e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?

Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento.

A minha opinião:
Demorei a conseguir ler este romance. A sinopse pareceu-me promissora mas a oportunidade  não surgiu antes e apenas nesta atribulada fase em que os afazeres e inquietações são muitos foi possível concretizar este desejo. Com este romance, a escritora/jornalista entrou definitivamente na minha lista do autores que não dispenso de ler. 

A necessidade de amor, o abismo do desamor, a raiva e glória da paixão, contemplados na exposíção sobre Escritores Malditos que a curadora de arte se preparava para apresentar ao mundo e que intercala em pequenos curiosos excertos na narrativa vibrante e mordaz do seu relacionamento com Adam, o gigolo, também eles malditos.

Soledad sente a inexpugnável passagem do tempo e o apelo da carne de uma forma que não pode deixar de exteriorizar com humor e mágoa. A parafernália de truques e produtos para retardar o envelhecimento e combater as maleitas que por medo ou debilidade se ganham muito me divertiu. Soledad é uma mulher como tantas outras e certamente este romance tem um pouco de autobiográfico, no que concerne à pressão social, o isolamento e a solidão de certas mulheres, nomeadamente mulheres de carreira. Adam, o gigolo não é o tipo de personagem que eu esperava encontrar. Surpreende e desarma mas não cativa. O apelo e a empatia/ antipatia com este livro depende exclusivamente de Soledad.

Rosa Montero aparece como personagem secundária (com algum relevo) na trama de Soledad Alegre, que bem se poderia chamar Crónica do Desamor.

Tr
epidante, e lúcido, numa escrita desarmante e envolvente é profundamente sentido, pelo menos para mim. Recomendo sem reservas.

domingo, 17 de janeiro de 2016

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Autor: Rosa Montero
Edição: 2015
Páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04712-0
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 

São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

A minha opinião:
Fazer parte de um grupo de leitura abriu os meus horizontes. Uma experiência que recomendo, mesmo para os mais introvertidos e antisociais (que não é de todo o meu caso), pela possibilidade de encontrar empatia literária e não só, e assim descobrir tantos autores que de outro modo nos estariam vedados. Apenas porque estando ao nosso alcance não os iríamos ver e este seguramente seria para mim um dos casos. 

A vida de Marie Curie (e Pierre) fascina mas nunca me dispus a ler sobre esta mulher que ganhou dois prémios Nobel num tempo em que as mulheres não tinham visibilidade e eram alvo de discriminação. Mas não se trata apenas da paixao de Marie pelo seu trabalho mas pelo marido Pierre, e o processo de luto e de dor com a sua morte, em paralelo com o da autora com a morte de Pablo. O diário desvenda uma faceta mais humana e não menos relevante desta extraordinária mulher .

Não conhecia a escrita de Rosa Montero e nas primeiras vezes que ouvi falar sobre este livro fiquei relutante porque o tema não me atraia, mesmo que afirmassem ser um livro luminoso e nada deprimente com interessantes e validas consideraçoes sobre a vida e os afectos, mas só depois de o ler percebi. A escrita é coloquial e torna-nos cúmplices dos segredos de alma destas mulheres, comuns a um género e nunca expressas com esta clarividência e naturalidade. 

Gostei muito e recomendo.