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domingo, 26 de setembro de 2021

Apeirogon: Viagens infinitas

A minha opinião: 

Frases curtas, diretas, sentidas, em capítulos breves para contar as histórias das suas meninas. E nesse relato, doloroso e de uma rara delicadeza, humaniza-as, da indiferença do mundo num conflito que dura há muito. Ou da desinformação. Bassam e Rami começaram gradualmente a entender que utilizariam a força da sua dor como uma arma. A investir na paz. Mas não se cingem a isso. Outras variantes narrativas ocorrem e não são de desvalorizar porque fazem todo o sentido e não deixam o leitor indiferente. Sequer, perdem o prumo. Este livro li-o quase todo com algum estremecimento porque foca questões a que era totalmente alheia. E não são fáceis. Um modo de vida, um conflito, analisado de ambos os lados e em que ambos sofrem  e têm as suas razões. E entenderam o que tinha que mudar. Combatentes pela paz. Dificilmente, quem lê, não muda a sua maneira de pensar. Por esse motivo, fiz pausas na leitura e não, porque o sofrimento me fosse intolerável mas porque tinha que compreender o que lia. Processar. Importa pensar. Livremente.

Como referido no livro "A liberdade, disse ele, começa entre os ouvidos." (Cap.454)

Possivelmente, om melhor livro que irei ler este ano. E não apenas. De sempre. porque há livros que não se esquecem. Afinal... ali a geografia é tudo.

Autor: Colum McCann
Páginas: 496
Editora: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-03413-7
Edição: 2021/ maio 

Sinopse: 
Rammi Elhanan e Bassam Aramin moram perto um do outro – contudo, habitam mundos completamente diferentes. Rami é israelita. Bassam é palestiniano. A matrícula de Rami é amarela. A matrícula de Bassam é verde. Rami demora 15 minutos até à Margem Ocidental. Bassam demora uma hora e meia a fazer o mesmo percurso.
Aqui, a geografia é tudo.
Ambos perderam as suas filhas. Smadar, filha de Rami, de 13 anos, foi morta por um bombista suicida. Abir, filha de Bassam, de 10, foi atingida por um membro da polícia fronteiriça, junto à escola. Trazia um doce no bolso que ainda não tinha tido tempo de comer.
Rami e Bassam tornam-se melhores amigos.
Neste romance épico – que se apresenta com o mesmo nome da forma geométrica com um número contavelmente infinito de lados – Colum McCann atravessa séculos e continentes, entrelaçando tempo, arte, história, natureza e política numa tapeçaria de amizade, amor, perda e pertença. Musical, forte, delicado e ambicioso, este é um livro para os nossos tempos, por um escritor no auge dos seus poderes.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TransAtlântico

Autor: Colum McCann
Edição: 2013, novembro
Páginas: 296
ISBN: 9789722636308
Editora: Civilização
Sinopse:
1919. Emily Ehrlich vê dois aviadores, Alcock e Brown, erguerem-se do massacre da Primeira Guerra Mundial para pilotar o primeiro voo transatlântico sem paragens, desde a Terra Nova até ao Oeste da Irlanda. Entre as cartas levadas no avião, está uma que só será aberta quase cem anos mais tarde.

1998. O Senador George Mitchell atravessa repetidamente o oceano em busca da promessa de paz na Irlanda. Quantas mães e avós enlutadas terá ele ainda de conhecer até que seja alcançado um acordo?
 
1845. Frederick Douglass, um escravo negro americano, desembarca na Irlanda para promover ideias de democracia e liberdade, e depara-se com uma onda de fome. Nas suas viagens, inspira uma jovem criada a ir para Nova Iorque ao encontro de um mundo livre, mas nem sempre o país cumpre a sua promessa. Dos violentos campos de batalha da guerra civil aos lagos gelados do Missouri, é a sua filha mais nova, Emily, quem acaba por encontrar o caminho de regresso à Irlanda.

Podemos passar do mundo novo para o velho mundo? Como é que o passado molda o futuro? TransAtlântico, de Colum McCann, autor premiado com o National Book Award, é um feito de coragem literária. Complexo, poético e profundamente emotivo, entrelaça histórias pessoais de modo a explorar a ténue linha que separa a realidade da ficção e o emaranhado de ligações que compõem as nossas vidas.
 
A minha opinião:
Não sei muito bem como definir este romance, algures entre a ficção e realidade. Fui atraída não pela sinopse mas pelas critícas favoráveis. Deparei-me com uma narrativa imaginativa numa escrita lírica e muito precisa. Um caso sério, de uma complexidade extenuante e de alguma dificuldade de compreensão para o leitor.

Os dados não são fáceis de assimilar ao longo do desenvolvimento da narrativa que se dá em três períodos distintos da História. Apenas na segunda parte começamos a percepcionar mais sobre este romance. Muito sofrimento para uma sucessão de mulheres da mesma família que subsistem em situações difíceis e com tremendas perdas afetivas. A fome e a guerra são terrivelmente emotivas neste romance que, de tão bem escrito, dispensa o recurso a imagens, tal a força das palavras. O autor é um perfecionista, porque caracteriza os cenários, as personagens e todo o enredo como se preenchesse um quadro com cores, pincelada por pincelada, com muito detalhe e cuidado. Entrelaça várias tonalidades que se esbatem e sobrepõem, nas ligações entre as várias personagens, de distanciados tempos e lugares, entre os EUA e a Irlanda do Norte.

Tudo isto para dizer que se trata de um romance difícil e exigente, nada indicado para um leitor menos experimentado. Mas um bom romance, certamente, para quem gosta de uma leitura forte e cuidada.