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domingo, 20 de setembro de 2020

Apneia

 

A minha opinião:

Tinha que ler este romance que sabia ser marcante. Perturbador. Angustiante até, em determinadas passagens por breves frases e capítulos curtos, que tudo fazem sentir com muito sentido. Nada que não soubesse sobre as várias nuances de uma relação abusiva em que o filho é apenas um joguete usado pelo pai contra a mãe que o ama e quer proteger. A mulher que ousou abandoná-lo quando lhe pertencia. A mulher que luta para manter a integridade e a sanidade e perservar o amor que a liga ao filho. 

Avassalador e tão real. Soberbamente bem escrito mas isso eu já sabia. Simples e bela escrita mas para conseguir lidar com a amálgama de emoções que me suscitou tive que o ler em doses homeopáticas numa leitura conjunta com algumas amigas.

Muitas questões para refletir e quase todas muito difíceis e delicadas. A guarda partilhada, sucinta e concisa, na página 350 é uma delas. E ainda... A identidade e a proteção de menores nos tribunais. O fracasso do sistema em dar uma solução ao sofrimento de uma criança caindo nas malhas da manipulação. Os erros e a indiferença. O desespero e o cansanço. Egos e fragilidades. E a depressão não aceite. Um falhanço apenas para os fracos e os burgueses. E por fim, o mal na forma de todos os abusos.

Ao concluir senti um alivio e um desalento enorme. O desfecho foi perfeito. A arte de sobreviver mas a que custo. Um romance de intervenção. Um grito. Uma pedrada no charco. Um romance extraordinário.

Autor: Tânia Ganho
Páginas: 696
Editora: Casa das Letras
ISBN: 9789896608101
Edição: 2020/ julho

Sinopse: 
Quando Adriana ganha finalmente coragem para sair de casa com o filho de cinco anos, pondo fim ao casamento com Alessandro, mal pode imaginar que o marido, incapaz de aceitar o divórcio, tudo fará para a destruir - nem que para isso tenha de destruir o próprio filho.

Apneia é uma viagem ao mundo sórdido da violência conjugal e parental, através de um labirinto negro em que os limites da resistência psicológica são postos à prova, ameaçando desabar a qualquer instante, e dos meandros tortuosos de uma Justiça por vezes incompreensível, desumana e desfasada da realidade.

Escrito com uma sobriedade e frieza inquietantes, Apneia é um romance intenso, absorvente e perturbador, que ilustra com uma autenticidade desarmante o estado de guerra em que vivem milhares de famílias estilhaçadas, e com o qual, inevitavelmente, muitos leitores se vão identificar, encontrando nestas páginas ecos da sua própria experiência.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Mulher - Casa

Subtítulo: Cenas da Vida Intíma em Paris
Autor: Tânia Ganho
Edição: 2012, Maio
Páginas: 376
ISBN: 9789720045942
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Ela é uma modista de chapéus pouco conhecida; ele, um ghostwriter de políticos menores e personalidades duvidosas. Quando trocam a pacata Aix-en-Provence pela imponente Paris, levam consigo toda uma bagagem de sonhos e promessas de glamour. Porém, o crescente sucesso profissional do marido depressa reduz Mara ao papel de mãe e dona de casa, arrastando-a para um abismo de solidão e desencanto.
É então que se envolve com Matthéo, um jovem chef mais novo do que ela, e de súbito se vê enredada numa espiral de sentimentos contraditórios onde a lealdade, a luxúria e o dever encerram as agonizantes perguntas: poderá uma adúltera ser uma boa mãe? Poderá ela esperar que este amor proibido a salve de si mesma e da sua falta de fé?

A minha opinião:
Muito gratificante  de cada vez que sou surpreendida com um novo autor que tão bem escreve em português. Que sabe contar uma estória. Que consegue caraterizar uma personagem como a Mara, com expressividade, intensidade e realismo. Parece-me que as percepções e emoções de Mara são próximas à autora. Também eu, e possivelmente muitas mulheres se identificam com algumas das facetas de personalidade de Mara, ou mesmo com as percepções, emoções e sentimentos em situações que ela experiencia. Esse entendimento, torna este romance uma leitura viciante.

O casamento e a maternidade em contramão com as expetativas, sonhos e ambições.
"O seu casamento é uma competição constante, um concurso com direito a um só vencedor. Talvez todos os casais sejam assim, mas ela sonha com uma relação em que duas pessoas fluam naturalmente para um mesmo objectivo, as ideias convirjam, as decisões se tomem em espontâneo unísono. Uma relação feita de silêncios e olhares cúmplices, economia de palavras, parcimónia de gestos inúteis."
(pag. 103)

"Mara sustêm a respiração sempre que a vê, fascinada com a pose e o equilíbrio perfeitos, a aparente descontracção, como se ser mãe fosse diferente para algumas pessoas, umas quantas eleitas que têm filhos que obedecem e não fazem birras e deixam que lhes ponham cintos de segurança e não se atiram das bicicletas para o chão. Filhos que comem, dormem, não se sujam, não gritam."
(pag. 236)

Esforço e exigência em crescendo, em prejuizo da autonomia e empenho na incipiente carreira criativa de Mara. Talvez a compreensão das circunstâncias seja deturpada, como a falta de carinho e apoio do marido que descreve workaholic e subserviente, mas é profundamente honesta e genuína no seu sentir.

"Às vezes, pensa com tristeza, o facto de duas pessoas se amarem não é suficiente para sustentar um casamento. É preciso simbiose: crescerem juntas no mesmo sentido, ao mesmo ritmo, terem metas comuns. Nesse momento, a única relação de simbiose que existe naquela casa é entre Thomas e o Ministro; Mara foi devorada algures pelo caminho, como plâncton."
(pag.251)
Eloquente. Melhor do que as minhas palavras, preferi  retirar fragmentos para ilustrar o meu parecer.

Numa linguagem rica, elaborada e "viva" de pormenores, a autora descreve e insere Paris na narrativa como se de outra personagem se tratasse. Uma personagem com um papel a desempenhar na narrativa.
Os meandros do poder e a hipocrisia e ilusão que corrompem os envolvidos. Tanto para absorver neste romance, que se torna uma leitura pausada e analitíca.

Um prazer de ler!!!