sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Segunda Morte de Anna Karenina

Autor: Ana Cristina Silva
Edição: 2013, setembro
Páginas: 224
ISBN: 9789897410963
Editora: Oficina do Livro

Sinopse:
Violante tinha, desde criança, um talento raro para a representação e, com a ajuda de Luis Henrique, um grande actor com quem acabou por se casar, tornou-se uma das mais aplaudidas actrizes portuguesas do princípio do século XX. Contudo, os que a vêem brilhar e afirmar o seu génio no palco dos maiores teatros nacionais desconhecem o terrível segredo que minou a sua vida e levou para longe o marido numa noite que podia ter acabado em tragédia. Agora, que Violante visita, longe da multidão, o jazigo de Rodrigo - um jovem oficial português caído na guerra das trincheiras em França -, espera finalmente sentir o desgosto da mãe que não chegou a ser, mas descobre que o filho que não criou carregava, afinal, no peito um peso tão grande ou maior do que o seu. E, com o espectro das recordações que essa revelação desencadeia, regressa também inesperadamente o próprio Luís Henrique, desejoso de obter, ao fim de tantos anos, a resposta que Violante não lhe pôde dar. O problema é que, numa conversa entre dois actores de excepção, nunca se sabe exactamente o que é verdade. A Segunda Morte de Anna Karénina é um romance sobre o amor sem limites, a traição e os custos da vingança - e também uma obra arrojada sobre as tensões homossexuais reprimidas, sobre as vidas desperdiçadas de tantos portugueses na Primeira Guerra Mundial e sobre as diferenças - se é que existem - entre o teatro e a vida real.

A minha opinião:
Procuro as palavras certas para definir o quanto este romance me surpreendeu e agradou. A sinopse é explícita sobre a estória mas não sobre o requinte e a eloquência das palavras que a autora consegue utilizar de forma sublime para revelar estados de alma. 
Não sou tão hábil no uso das palavras, mas não deixo de me maravilhar quando alguém consegue captar a natureza de sentimentos fortes capazes de mudar o rumo da vida e compor personagens credíveis e sofridas. Intemporais e imutáveis neste romance de época que aborda a questão da homossexualidade, bem como a capacidade de amar incondicionalmente para além de todas as interdições e ainda o cíume, o orgulho e o medo que tudo deita a perder.

"Como homossexuais, a nossa única liberdade é escolher entre a amargura da repressão dos sentidos e os prazeres clandestinos."
(pag. 220)

"É certo que é preciso rir e chorar, mas mais necessário é afastar toda a fuligem que escurece os sentimentos autênticos e genuínos."
(pag. 107)

"O amor, tal como a morte, segue um tempo que não se rege pelo calendário. "
(pag. 112)

Um drama com o muito que é exposto por Rodrigo nas cartas enviadas a Eduardo e que visualizamos os portugueses na 1ª Guerra Mundial.

Uma tragédia no reencontro de Violante com o marido Luis Henrique, 25 anos depois de uma dupla traição, infidelidade e tentativa de assassinato, que me recordou vagamente o confronto de dois amigos quarenta anos depois por uma paixão pela mesma mulher em "As velas ardem até ao fim" de Sándor Máraí, possívelmente pela intensidade das emoções sentidas e recalcadas e a tensão latente nesse reencontro.

O abandono de um filho foi devastador para Violante, uma mulher habituada a representar no palco e na vida.

Um bom romance de uma autora a reter. Um prazer de ler!

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