sábado, 29 de junho de 2013

Cidade Aberta

Autor: Teju Cole
Edição: 2013, junho

Páginas: 288
ISBN: 9789897221095
Editora: Quetzal

Sinopse:
Julius, um jovem médico nigeriano, deambula sem destino através das ruas de Manhattan. Caminhar liberta-o do ambiente tenso da sua profissão e oferece-lhe o espaço necessário para pensar no relacionamento com os outros, na recente separação da namorada, no presente e no passado. Nesta caminhada por Nova Iorque, os milhares de rostos por que passa não atenuam o seu sentimento de solidão, pelo contrário.

Mas não se trata aqui apenas de uma paisagem física: Julius atravessa também um território social, cruzando-se com pessoas de diferentes culturas e origens, com quem partilha um cidade, um imaginário e sonhos impossíveis.
Tendo merecido os maiores elogios (que o comparam a Sebald, Coetzee e Henry James), este romance é também uma investigação sobre a identidade, a liberdade, a perda, o exílio interior e a entrega.
Cidade Aberta é uma obra profundamente original, cativante e encantatória.

A minha opinião:
Não tinha qualquer opinião formada sobre este livro. E ... tive que ponderar sobre o que escrever sobre ele.
Um romance contraditório porque difere de tudo o que já li. Sem um fio condutor coerente porque são divagações aleatórias de um solitário não amargurado que circula pelas ruas de Nova Iorque e que casualmente se cruza com transeuntes de várias raças e credos e com eles tem relacionamentos vagos mas significativos. Para além disso, é um atento observador e faz interpretações sobre o muito que vê, percepciona e ouve nas ruas e o partilha com o leitor. Muitas ideias pré-concebidas sobre outras pessoas que julgamos sem conhecer, podem ser avaliadas sobre outra óptica. Numa cidade como Nova Iorque (e também Bruxelas onde Julius tem uma breve estadia), cosmopolita e multicultural vivem pessoas, imigrantes ou migrantes que tem circunstancias sobre os quais importa pensar. 

Um romance singular. Devido às suas peculiares características provoca dois tipos distintos de emoções. Ou se gosta ou detesta.

"Os passeios vinham ao encontro de uma necessidade: eram uma libertação do ambiente mental que vigorava no trabalho, com as suas regras apertadas, e mal percebi que eram uma boa terapia tornaram-se algo absolutamente normal, ao ponto de me esquecer como era a minha vida antes dessas caminhadas. No trabalho imperava um regime de perfeição e de competência que impedia a improvisão e era intolerante para com o erro. (...)As ruas serviam como um oposto, bem vindo a tudo aquilo. Cada decisão - onde virar à esquerda, quanto tempo ficar parado a ver o pôr do sol sobre Nova Jérsia ou ir a passo largo por entre as sombras no East Side e atravessar em direção a Queens - não tinha consequências de maior e era, por essa razão, um bom indicador da liberdade." (pag.15)

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Segredo de Compostela

Autor: Alberto S. Santos
Edição: 2013, maio

Páginas: 480
ISBN: 9789720043931
Editora: Porto Editora

Sinopse:
O dia 28 de janeiro de 1879 tinha tudo para ficar marcado na história da cristandade. Depois de dias suados de escavações na catedral de Compostela, foi encontrado o túmulo onde se acreditava que repousavam os ossos do santo apóstolo.
Mas e se no destino final a que nos conduzem os místicos caminhos de Santiago se esconder um dos segredos mais bem guardados do Ocidente?

Prisciliano, líder carismático do século IV e pioneiro defensor da igualdade das mulheres e dos valores do Cristianismo primitivo, é a figura preponderante neste enigma secular. Comprometido com a força da sua espiritualidade, viveu no coração os sobressaltos de um amor proibido, envolto em ciúmes e intrigas.
Ainda que aclamado bispo pelo povo, Prisciliano tornou-se no primeiro mártir da sua Igreja, a quem a História ainda não prestou o devido reconhecimento.
Depois de extraordinárias revelações, descubra neste fascinante romance respostas às inquietações que atravessam os tempos: Afinal, quem está sepultado no túmulo?
Qual o sentido atual das peregrinações a Santiago de Compostela?

A minha opinião:
Uma capa belíssima, não acham?
Talvez a mais bonita e agradável ao toque que este ano tive. Uma sinopse intrigante e apelativa e este romance tinha tudo para me chamar a atenção e procurar lê-lo. Contudo, após o entusiasmo inicial e mesmo admirando a escrita e o profundo trabalho de pesquisa que o autor teve que fazer sobre uma personagem e uma época real que recriou, não consegui ler este livro compulsivamente como é meu hábito. Talvez o fim trágico me impedisse ou o facto de se tornar um tanto extenso e exaustivo, mas retomei sempre para o apreciar demoradamente. 

Jornada épica de um herói espiritual que a Igreja Católica ainda não reconheceu devidamente. Honra e dignidade na defesa dos valores que regem o espírito do verdadeiro cristianismo. Ao longo dos tempos, a Igreja muito tem para expiar, apesar de serem os Homens, com a sua conduta, que fazem a História.

Prisciliano, aristocrata, culto e inteligente, mas pagão, desde cedo se identificou como Buscador... dos fundamentos da fé e da verdadeira espiritualidade . Um homem com um dom... o de evangelizar, ensinar e instruir, o que fazia com uma simplicidade e clareza desconcertantes . Mas isso só serviu para assustar bispos e clérigos gananciosos e ociosos que viam a Igreja como meio para os seus vis sentimentos de poder e ascensão social.  Um homem que amou profundamente. Egéria. 

Um romance perturbador, pelo muito que em si encerra sobre as doutrinas e dogmas da Igreja Católica e a missão dos primeiros cristãos que combateram o que ainda hoje a desvirtua.

sábado, 22 de junho de 2013

Uma casa de familia

Autor: Natasha Solomons
Edição: 2013, 

Páginas: 416
ISBN: 9789892321561
Editora: ASA

Sinopse:
Na primavera de 1938, a ameaça nazi paira sobre a Europa. Em Viena, a família Landau vê desaparecer muitos dos seus amigos e teme pela sua segurança. Decidem fugir do país mas não poderão partir juntos. Elise, a filha mais nova, é enviada para Inglaterra, onde a espera um emprego como criada de uma família aristocrática. É a única forma de garantir a sua segurança. Para trás deixa uma vida privilegiada. Em Tyneford, ela tenta encontrar o seu lugar na rígida hierarquia da casa. É agora uma das criadas, mas nunca antes trabalhou. Tem a educação e os hábitos da classe alta, mas não pertence à aristocracia. Enquanto areia as pratas e prepara as lareiras, usa as magníficas pérolas da mãe por baixo do uniforme. Sabe que deve limitar-se a servir, mas não consegue evitar o escândalo ao dançar com Kit, o filho do dono da casa. Juntos vão desafiar as convenções da severa aristocracia inglesa numa história de amor que tocará todos os que os rodeiam. Em Tyneford, ela vai aprender que é possível ser mais do que uma pessoa. Viver mais do que uma vida. Amar mais do que uma vez.

A minha opinião:
"Esta noite sonhei com a casa de Tyneford. Quando me deitar para dormir, verei a casa como era neste primeiro verão. As roseiras à volta da porta das traseiras. O cavalo no estábulo. Os dentes a mastigar e a mastigar. O cheiro a magnólia e sal. E depois acordarei dentro do meu sonho. Sou novamente Elise. Alice descansa e todos estão vivos. As minhas mãos são brancas e macias, sem as marcas da idade. Estou de pé no relvado e oiço o chamamento do mar, o som dos barcos de pesca na baía. Um homem-rapaz inglês. (...)
Sinto o gosto de água salgada na língua. Água salgada - lágrimas e uma viagem." (pag. 412)

Este é um aprazível romance baseado num numa aldeia fantasma na costa de Dorset. Um lugar remoto e secreto. Um lugar especial, com uma casa de família no campo, que se manteve inalterável durante anos e anos. Uma paisagem típica dos anos quarenta que a autora reproduz com alguma fidelidade e onde Elise Landau vai refugiar-se antes do rebentamento da 2ª Guerra Mundial como criada, trocando a sua vida privilegiada de filha de burgueses intelectuais judeus por uma existência árdua em que as saudades de Anna (a mãe) e Julian (o pai) e Margot (a irmã mais velha recém casada, refugiada nos EUA) a desesperavam.

Sereno e terno, com muitas descrições de um lugar perdido no tempo, este é um romance para se ler pausadamente, como que embaladas ao sabor das ondas. As consequências da guerra afectam este pequeno pedaço do paraíso. Mas as memórias de momentos felizes sempre podem acarinhar-nos para sempre.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

se pudesse voltar atrás

Autor: Marc Levy
Edição: 2013, abril

Páginas: 248
ISBN: 9789722526005
Editora: Bertrand Editora

Sinopse:
Andrew Stilman, jornalista do New York Times, acaba de se casar. Na manhã de 9 de julho de 2012, bem cedo, está a fazer jogging na margem do Hudson quando, de súbito, é violentamente agredido. Uma dor fulgurante atravessa-lhe o corpo e ele sente-se submergir num rio de sangue. Andrew perde os sentidos… e, ao recuperar a consciência, está a 9 de maio de 2012.
Dois meses mais cedo, dois meses antes do seu casamento.
A partir desse momento, Andrew tem 60 dias para descobrir o seu assassino, 60 dias para mudar o curso do seu destino. E, a partir de então, cada minuto conta…
A sua investigação leva-o numa viagem vertiginosa, de Nova Iorque a Buenos Aires, e até aos meandros dos momentos mais obscuros da ditadura argentina. Uma corrida contra o tempo, entre o suspense e a paixão.

A minha opinião:
Procurei resistir mas não consegui. A tentação de voltar a ler Marc Levy no seu mais recente livro e deliciar-me com diálogos cúmplices e muito divertidos entre personagens que se estimam, para além da vertigem literária com uma quedazinha para o místico e espiritual que desde logo se antecipa nesta leitura, é simplesmente irresistível. Afinal, quem consegue evitar considerar a possibilidade de voltar atrás e mudar as circunstâncias que desencadearam esta ou aquela situação? E se ...? Tantas eventualidades ... 

Esta premissa é o que dá nome ao livro. Contudo, Andrew não suspeita quem poderia tê-lo assassinado e porquê, e como tal, tem de o descobrir para assim reverter o seu destino. Conta com um amigo que, apesar de céptico se dispõe a ajudá-lo, bem como um detective reformado que acidentalmente o tinha atropelado. Uma corrida contra o tempo.

Thriller, investigação policial e romance, tudo condensado numa narrativa que empolga e diverte para um desfecho inesperado. Mas, o mais importante e que nos faz reflectir seja o artigo sobre a adoção de crianças chinesas por muitas famílias americanas que se descobre ter sido uma manobra criminosa. Uma das pistas que ele segue para descobrir o criminoso. O seu último artigo não publicado, do conhecimento dos visados que vigiavam a investigação que desenvolvia em Buenos Aires, sobre o desaparecimento de 30.000 pessoas durante a ditadura argentina, sem que os responsáveis tenham sido verdadeiramente punidos e as consequências para as famílias e filhos, é talvez o mais perturbador de toda a trama que ultrapassa a fição. Mistura de géneros que prodigiosamente Marc Levy consegue numa estória absolutamente soberba.

Um prazer de ler!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Correr

Autor: Jean Echenoz
Edição: 2011
Páginas: 128
ISBN: 9789896231484
Editora: Cavalo de Ferro

Sinopse:
Logo após a guerra, em 1946, nos campeonatos organizados pelas forças aliadas em Berlim, atrás do cartaz Checoslováquia, para grande chacota do público presente, vem apenas um único atleta, magro e escanzelado. Mas quando nos 5.000 metros aquele atleta não só se desembaraça em poucos minutos dos seus mais possantes adversários com uma volta de avanço, como agora começa a ultrapassá-los nova­mente, um a seguir ao outro e, enquanto estes abran­dam, ele volta a acelerar, cada vez mais. De boca aberta ou aos gritos o público do estádio já não aguenta mais. Mais do que duas voltas! Vocifera o locutor do estádio. Em pé, a exultar, estão oitenta mil espectadores. Aquilo não é normal, gritam, aquele tipo faz tudo o que não deveria fazer e ganha! O nome daquele rapaz magro e louro de sorriso aberto nunca mais ninguém o esquecerá: Emil Zatopek. Pou­cos anos e dois Jogos Olímpicos depois, Emil torna-se invencível. 

Num livro comovente e emocionante, Echenoz percorre quarenta anos de História recente dando-nos a conhecer a vida ex­cepcional de um dos grandes mitos do desporto, descrevendo de forma atractiva os seus maiores sucessos, mas também as difíceis relações com o poder comunista, a instrumentalização da sua carreira como veículo de propaganda, censura e con­trolo, e as perseguições politicas de que foi alvo e que ditaram o fim da sua carreira.

A minha opinião:
Emprestaram-me este livro porque de tantos e tão rasgados elogios quis lê-lo. Costumo brincar que certos livros são para eruditos e portanto não são para mim. Receava que este fosse um tanto ... fastidioso. Mas não há maior equivoco e este pequeno nas dimensões mas imenso no muito que nos faz sentir em tão concisas e simples palavras, deveria ser de leitura obrigatória. Um livro que nos abre os horizontes ... e a mente para o muito que esquecemos ou não queremos saber. 

Um ser humano excepcional. Capaz de grandes feitos. De se superar e de enfrentar adversidades absurdas, transcendentes, sempre com uma tranquilidade e sorriso que eram a sua imagem de marca.  Heróico e real.  

Uma narrativa emotiva num tempo que decorre desde a Segunda Guerra Mundial até depois da Primavera de Praga. O socialismo para um checo que foi propaganda de um regime e que depois ... é melhor ler e reflectir.

As coisas impossíveis do Amor


Autor: Ayelet Waldman
Edição: 2012, agosto

Páginas: 328
ISBN:  9789722348584
Editora: Editorial Presença


Sinopse:

Emilia Greenleaf casou com o homem da sua vida, Jack, um advogado bem-sucedido por quem nutre uma paixão intensa. Mas com o marido não veio só uma vida idílica em Manhattan, veio também William, o enteado de cinco anos, uma criança precoce e superprotegida, cuja teimosia e observações constantes deixam Emilia exasperada. A distância que os separa aumenta ainda mais quando Emilia se vê confrontada com a morte da sua filha recém-nascida e consumida pela dor e pela culpa. Conseguirá Emilia manter-se à tona sem pôr em perigo tudo aquilo que é mais importante na sua vida? 

Com um sentido de humor e uma honestidade desarmantes, As Coisas Impossíveis do Amor é um romance intenso, já adaptado ao cinema com Natalie Portman no papel de protagonista. 

A minha opinião:       

Há muito este romance aguardava na minha estante a sua oportunidade de ser lido. Outros o sucederam e sem a qualidade de deixar memória enquanto este esperava pacientemente a sua vez. Nada como uma pausa na frenética atividade diária com umas retemperantes férias para ler alguns bons livros. (E nem imaginam o belíssimo bronzeado que se pode adquirir em tão agradável companhia. Ultimamente até reparo em algo que não consigo fazer. Caminhar e ler em simultâneo deixa-me fascinada).

Romance atual tem como protagonista e narradora Emilia Greenleaf, uma judia que reside em Nova Iorque que atravessa uma crise na sua vida pessoal e onde sempre que pode procura encontrar a paz e tranquilidade perdida no Central Park. 

Recentemente numa peça hilariante sobre mulheres ouvi algo que me recordou este livro. Que todas as mulheres são desequilibradas mas algumas parecem sãs mas é falso porque sabem-no disfarçar melhor, o que significa que são piores que as outras. A protagonista não o esconde e a sua franqueza desconcertante não nos deixa amolecer ou enredar em lamechice ou compaixão porque com  sua perturbante visão das coisas tenta assim superar o luto e expiar as culpas. A sua relação com enteado é excepcional.

Loquaz e divertido apesar do lado sério das situações. Uma narrativa que não esquece. Os conflitos internos de uma mulher que transgrediu as suas próprias expectativas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Refletida



 

Autor: Sylvia Day
Série: Crossfire (Vol. 2)
Edição:
2013, março
Páginas: 352
ISBN: 9789897450044
Editora: 5 Sentidos
 
Sinopse:
Gideon Cross: tão bonito e perfeito por fora como atormentado e complicado por dentro. Ele enfeitiçou-me com uma paixão que me arrebatou e me despertou os prazeres mais secretos. Eu não conseguia, nem queria, ficar longe dele. Ele era o meu vício... o meu desejo... era meu. A minha história era tão violenta como a dele, e eu estava igualmente marcada pela vida.

Nunca conseguiríamos ficar juntos porque era demasiado doloroso... exceto quando era inacreditavelmente perfeito. Nesses momentos, o desejo e o amor desesperado conduziam-nos a um estado de sublime insanidade.
Gideon e eu estávamos a ultrapassar todas as fronteiras e a nossa paixão levar-nos-ia aos limites da doce e arriscada obsessão.
 
A minha opinião:
Depois de ler o 1.º volume desta série, Rendida, era previsivel que continuasse. E cansada como estava, nada melhor do que um romance pouco exigente intelectualmente, com personagens que reconhecia, numa relação fogosa e possessiva marcada por intensa atividade sexual. Um romance que é um apelo aos sentidos e quiça um "motor" para "re/descobrir" o encantamento, cegueira e prazer de uma relação afetiva. 
 
Os protagonistas vivem um mundo de privilégios no âmbito do sonho e da fantasia para o comum dos mortais, e convinhamos que poder e dinheiro são afrodisíacos, o que me recorda os contos de encantar de criança numa versão mais adulta, com uma tremenda carga erótica e forte cariz sexual ao descrever com algum detalhe as acões em que os protagonistas se enredam.

Glamour, sensualidade e paixão são ingredientes apetecíveis num romance de entretenimento. Contudo, os traumas e tabus que se vão desvendando ensombram um pouco a narrativa e, de novo, fazem-me recordar os contos de encantar em que torcemos que os vilões sejam punidos e trazem a moral da estória. Alerta para os dramas ocultos nas modernas familias alargadas.
 
Agradável leitura que cumpre os seus objetivos. Antevejo que no último volume, todo o sofrido passado de Gideon seja revelado e ultrapassado com o merecido castigo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Em Nome do Pai

Autor: Nuno Lobo Antunes
Edição: 2013, maio

Páginas: 240
ISBN: 9789892321882
Editora: Lua de Papel
 
Sinopse:

Do alto de um outeiro, à sombra da figueira em que Judas se enforcou, São José contempla toda uma vida - a sua, que hoje chega ao fim. É ali que ele irá morrer, naquele pedaço de chão árido, de onde se avista Jerusalém. Faltam-lhe as forças, pesam-lhe os anos, os remorsos, a dúvida. E a raiva também, pois, apesar de ter cumprido os preceitos da Lei, foi-lhe negada a paz de espírito. Assim entendeu o Criador, que tomou como Sua a mulher que lhe estava prometida, e nela plantou a semente de um filho bastardo - Jesus.

José não compreende esse Deus, que põe e dispõe dos homens, esse Criador que não respeita a obra criada, que nega o livre arbítrio, que envia o filho à terra e o deixa morrer na cruz, como um ladrão. Por isso hoje, entre o nascer e o pôr do sol, o carpinteiro vai armar-se de razões e julgar quem de tudo deveria ser juiz.
Em Nome do Pai é uma extraordinária obra de ficção, que ilumina uma das personagens menos conhecidas da Bíblia. O pai de Jesus, que nas sagradas escrituras pouco passa de uma nota de rodapé, tem agora uma história, um passado. E um corpo de chocante carnalidade, atormentado pelo desejo, por uma mente demasiado lúcida para aceitar como boas as palavras do Senhor.
Nuno Lobo Antunes molda o romance com o desvelo de um artesão, esculpe cuidadosamente cada frase, reconstitui com rigor a vida nos tempos de Jesus - cria, ele próprio, uma obra de arte. Com a liberdade só permitida aos artífices, faz suas as palavras do carpinteiro, e através delas dá voz a todos os homens que põem em causa os insondáveis desígnios divinos.
 
A minha opinião:
Não sei se consigo escolher as palavras para melhor definir este romance. Apenas posso afirmar que gostei muito e que fiquei absorta pela narrativa escrita com cuidado, lucidez e maturidade sobre uma personagem menos conhecida da História, José, pai de Jesus, em que o autor à margem de convicções religiosas lhe deu uma dimensão humana verossímil. Com foco nas emoções e sentimentos da personagem que apaixonada por Maria muito sofreu e que muitos pensamentos tenebrosos teceu, enquanto procurava o que todos buscam, ser feliz e compreender o que lhe era transmitido pela moral e religião. Inteligente e critico, com uma extraordinária sensibilidade, inclusive pelos antecedentes familiares, cedo refletiu e interiorizou o que os sentidos lhe proporcionavam e como qualquer pai as suas maturadas conclusões passou aos que muito próximo o cercavam.  
 
Frases sentidas para ler pausadamente numa narrativa eloquente com recurso a muitas metáforas. Pensamento solto e livre de um Homem que dá voz a muitos outros por um artífice das palavras.

Um prazer de ler!

sábado, 1 de junho de 2013

O Estilete Assassino


Autor: Ken Follett  
Edição: 2013, janeiro
Páginas: 384
ISBN: 9789722525145
Editora: Bertrand

Sinopse:
Um agente secreto de Hitler, um assassino frio e profissional com o nome de código «Agulha», vê-se envolvido na manobra de diversão dos aliados que antecede o desembarque militar em França. Estamos em 1944, a semanas do Dia D.
O Estilete Assassino é um arrebatador bestseller internacional em que o destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.

A minha opinião:
Nunca li Ken Follett. Mas com tantos a admirar a escrita de géneros distintos, esperava uma boa leitura, que se concretizou numa escrita precisa, descritiva q.b. e escorreita que parece retirada do real sobre espionagem e contraespionagem no tempo da Segunda Guerra Mundial, onde um espião astuto e frio que gozava da confiança do próprio Hitler conseguiu resistir e descobrir a trama dos aliados com o qual poderiam vencer a guerra.

Suspense e crimes numa fuga aos que o perseguiam, Percival Godliman, um professor de história de meia-idade, suficientemente inteligente para ser recrutado para ajudar  a localizar este perigoso agente alemão com o nome de código "Agulha"/ Die Nadel e Frederick Bloggs, promissor agente ao serviço do M15.

Duas histórias em paralelo, uma vez que acompanhamos a recuperação de David e o inicio da sua relação  com Lucy, que amargou um casamento difícil numa ilha quase deserta e isolada. Mais tarde iremos perceber qual o papel a desempenhar por Lucy no desenrolar dos acontecimentos.

Uma das vertentes que prendem a atenção do leitor é a excelente caracterização das personagens em que mesmo o espião tem uma faceta humana e algo vulnerável que o mantêm vivo e vigilante. Um temor. Quanto a Lucy, é extraordinária. Forte mesmo sem o saber e aguerrida quando necessário. Uma dona de casa.

Uma história bem estruturada e bem contada, que vale todo o tempo a que nos dedicamos a ler. Contudo, tenho de confessar que não me arrebatou. Li com interesse mas não com paixão. Talvez porque não é o meu género de eleição. Mas para quem o aprecie, não deve perder.