terça-feira, 17 de julho de 2012

A Mulher - Casa

Subtítulo: Cenas da Vida Intíma em Paris
Autor: Tânia Ganho
Edição: 2012, Maio
Páginas: 376
ISBN: 9789720045942
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Ela é uma modista de chapéus pouco conhecida; ele, um ghostwriter de políticos menores e personalidades duvidosas. Quando trocam a pacata Aix-en-Provence pela imponente Paris, levam consigo toda uma bagagem de sonhos e promessas de glamour. Porém, o crescente sucesso profissional do marido depressa reduz Mara ao papel de mãe e dona de casa, arrastando-a para um abismo de solidão e desencanto.
É então que se envolve com Matthéo, um jovem chef mais novo do que ela, e de súbito se vê enredada numa espiral de sentimentos contraditórios onde a lealdade, a luxúria e o dever encerram as agonizantes perguntas: poderá uma adúltera ser uma boa mãe? Poderá ela esperar que este amor proibido a salve de si mesma e da sua falta de fé?

A minha opinião:
Muito gratificante  de cada vez que sou surpreendida com um novo autor que tão bem escreve em português. Que sabe contar uma estória. Que consegue caraterizar uma personagem como a Mara, com expressividade, intensidade e realismo. Parece-me que as percepções e emoções de Mara são próximas à autora. Também eu, e possivelmente muitas mulheres se identificam com algumas das facetas de personalidade de Mara, ou mesmo com as percepções, emoções e sentimentos em situações que ela experiencia. Esse entendimento, torna este romance uma leitura viciante.

O casamento e a maternidade em contramão com as expetativas, sonhos e ambições.
"O seu casamento é uma competição constante, um concurso com direito a um só vencedor. Talvez todos os casais sejam assim, mas ela sonha com uma relação em que duas pessoas fluam naturalmente para um mesmo objectivo, as ideias convirjam, as decisões se tomem em espontâneo unísono. Uma relação feita de silêncios e olhares cúmplices, economia de palavras, parcimónia de gestos inúteis."
(pag. 103)

"Mara sustêm a respiração sempre que a vê, fascinada com a pose e o equilíbrio perfeitos, a aparente descontracção, como se ser mãe fosse diferente para algumas pessoas, umas quantas eleitas que têm filhos que obedecem e não fazem birras e deixam que lhes ponham cintos de segurança e não se atiram das bicicletas para o chão. Filhos que comem, dormem, não se sujam, não gritam."
(pag. 236)

Esforço e exigência em crescendo, em prejuizo da autonomia e empenho na incipiente carreira criativa de Mara. Talvez a compreensão das circunstâncias seja deturpada, como a falta de carinho e apoio do marido que descreve workaholic e subserviente, mas é profundamente honesta e genuína no seu sentir.

"Às vezes, pensa com tristeza, o facto de duas pessoas se amarem não é suficiente para sustentar um casamento. É preciso simbiose: crescerem juntas no mesmo sentido, ao mesmo ritmo, terem metas comuns. Nesse momento, a única relação de simbiose que existe naquela casa é entre Thomas e o Ministro; Mara foi devorada algures pelo caminho, como plâncton."
(pag.251)
Eloquente. Melhor do que as minhas palavras, preferi  retirar fragmentos para ilustrar o meu parecer.

Numa linguagem rica, elaborada e "viva" de pormenores, a autora descreve e insere Paris na narrativa como se de outra personagem se tratasse. Uma personagem com um papel a desempenhar na narrativa.
Os meandros do poder e a hipocrisia e ilusão que corrompem os envolvidos. Tanto para absorver neste romance, que se torna uma leitura pausada e analitíca.

Um prazer de ler!!!

2 comentários:

  1. Olá Vera,

    Concordo em pleno contigo. Este romance da Tânia Ganho foi muito muito bom de ler.

    Tenho em casa outro livro da autora para ler. Não vai me desagradar, tenho a certeza.

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  2. Eu nunca tinha lido nada da autora mas fiquei fã. Contudo, fiquei surpreendida por partilhar a minha opinião. Esperava uma afinidade maior por parte de leitores do sexo feminino. É bom saber que a Mara foi bem compreendida, e apreciada.
    Quem sabe o enigma do comportamento não é descodificado.

    Boas leituras

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