quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Claraboia

Autor: José Saramago
Edição: 2011, Outubro
Páginas: 400
ISBN: 9789722124416
Editora: CAMINHO

Sinopse:
«Claraboia é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.» José Saramago

"Em janeiro de 1953, com 30 anos, sob o pseudônimo Honorato, José Saramago concluiu o seu segundo romance, "Claraboia".
Por caprichos que a literatura é pródiga em operar, quase 60 anos depois, o livro é publicado. Um presente deixado por Saramago, segundo a viúva".

A minha opinião:
Poderia afirmar que este livro me surgiu de repente e como tal não o referi antes, mas não é verdade. Emprestaram-mo há um ano e eu guardei-o sem grande convição de o ler. Supunha erradamente que seria maçudo ou cheio de ideias políticas, com o uso particular da sintaxe e pontuação de Saramago. Contudo, como não gosto de devolver um livro sem o ler, li as primeiras páginas e fiquei tão agradávelmente surpreendida que não parei. Afinal, sempre o devolvi lido.

Uma narrativa simples e segura que, de tão bem elaborada acusa o espiríto vivo, acutilante e critíco do autor. Retrata "aproximadamente" o prédio da minha infância com os seus inquilinos. Um vislumbre do passado, um recuar no tempo, mas sem ser antiquado ou desatualizado porque a natureza humana e as relações afetivas são intemporais. Uma pequena comunidade habitada por seis familias analisada à lupa ou como que observada através da claraboia daquele prédio, para lá de portas e janelas fechadas. Tanto para lá do que era permitido pela moral e bons costumes que a censura não poderia deixar passar.

Bem escrito e com alguma profundidade, foi um prazer de ler, principalmente os diálogos respeitosos entre o Silvestre e o Abel. Dois homens que pensavam e avaliavam o sentido da vida à luz do seu saber.

As personagens são estereótipos da classe média portuguesa de então e cada pequeno capítulo caracteriza personagens e situações do quotidiano de cada uma dessas familias com o seu quê de conflitos, ambiguidades ou dificuldades.

Retive este fragmento de diálogo entre as minhas personagens favoritas que já mencionei:
"Não, não fujo. Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança  e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer. Sorriu e acrescentou: Esta frase não é minha. Ouvi-a há muitos anos...
- Na sua opinião, eu pertenço ao grupo daqueles que morreram antes de nascer?
- Pertence a outro grupo, ao grupo dos que ainda não nasceram.
- Não está a esquecer-se da experiência que tenho?
- Não esqueço nada. A experiência só vale quando é útil aos outros e o Abel não é útil a ninguém."
(pag.219)
Não julgo o homem mas apenas a obra, porque talvez algumas ideias préconcebidas tenham-me impedido de ser mais consistente no meu ajuízar. Tenho ainda muito a aprender...

2 comentários:

  1. Vera, no encontro de leitores que te falei, este foi um dos livros referidos e fiquei curiosa desde então... Com a tua opinião ainda mais curiosa fico! Do Saramago só li O ensaio sobre a cegueira e adorei. Porém já peguei noutros e larguei-os.... Tenho de pedir este à minha cunhada pq ela é fã do Saramago e creio que tem todas as obras dele.... Uma outra obra lá falada foi um tal " Manual de pintura e caligrafia" q nunca tinha ouvido falar. Acho que o estilo é diferente pq é uma das primeiras obras dele... Bjinho

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  2. Este foi o seu segundo livro e tal como tu também eu pensava que não iria gostar. Mas, é bom quando somos surpreendidas. Lê-o sem expetativas e depois conversamos porque tem muito a ver com as vivências de cada um na sua pequena comunidade (vizinhos).

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